sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Antero fala sobre Filosofia (Filosofar é se fundir no todo?)

“A filosofia é eterna como o pensamento humano: mas, porque é eterna como ele, é que é como ele continuamente instável e flutuante, susceptível de progresso e sujeita ao retrocesso, desenvolvendo-se, como todas as coisas vivas, segundo uma linha sinuosa e complicada, que representa ao mesmo tempo a directriz da força íntima inicial e a acção mais ou menos perturbadora das forças concomitantes que lhe condicionam a expansão. Sempre igual a si mesma, no fundo, mas num fundo envolto, inconsciente e quase impenetrável, é continuamente diversa de si mesma nas suas manifestações, nas afirmações conscientes e sistemáticas do misterioso princípio ideal que forceja por exprimir e que, a cada ensaio de expressão definida, encobre quase tanto quanto revela. Ela representa assim, neste seu fieri incessante, o que há de absoluto no pensamento humano e o que há de relativo na consciência que o pensamento humano tem de si mesmo: uma potência infinita e um acto limitado: o segredo sublime das coisas gaguejado numa linguagem deficiente e bárbara, cheia de lacunas e obscuridades: e esta sua incurável imperfeição é justamente a condição da sua indestrutível vitalidade, da sua fecunda e incansável actividade. A filosofia alimenta-se das suas próprias dúvidas. Duvidar não é só uma maneira de propor os grandes problemas: é já um começo de resolução deles, porque é a dúvida que lhes circunscreve o terreno e que os define: ora, um problema circunscrito e definido é já uma certa verdade adquirida e uma preciosa indicação para muitas outras verdades possíveis.' É pela dúvida que a filosofia concebe, é a dúvida que a torna fecunda e a sua relatividade é, afinal, toda a sua razão de ser.
Iludem-se então os que procuram a verdade na filosofia? Sim e não. Iludem-se, por certo, se procuram na filosofia a verdade total e definitiva, a fórmula completa, nítida e inalterável da lei suprema das coisas, esse segredo transcendental, que, uma vez conhecido, se isso fosse possível, os tornaria deuses, segundo a expressão bíblica, ou, segundo o nosso modo de ver, os tomaria inertes, ininteligentes, moralmente decrépitos, adormecidos beatificamente à sombra da árvore da ciência. Saber tudo equivaleria a nada saber. Uma filosofia definitiva, feita e assente uma vez para todo o sempre, implicaria a imobilidade do pensamento humano: o absoluto anesstesiá-Io-ia. Essa tal verdade, aspiração ingénua de espíritos incultos, pode animar os crentes e exaltar os entusiastas; nos domínios do puro pensamento nunca produzirá senão vertigem e ilusão. Mas a verdade filosófica, com ser outra, nem por isso deixa de existir e ser verdade. A sua relatividade não implica erro, mas só limitação. É simbólica. Imagem imperfeita da verdade incognoscível, apresenta todavia alguns traços, alguns vagos lineamentos do inatingível original. Não é o absoluto, mas participa da natureza do absoluto e tem em si, como diz o poeta, parte alguma de infinito. O sol, visto através do nevoeiro, é ainda o sol, e as propriedades físicas e químicas da sua luz, diminuídas e alteradas, são todavia as propriedades fundamentais da luz solar. Se nunca o pudéssemos ver senão através desse meio ofuscante, poderíamos ainda assim estudá-lo e conhecê-lo. É assim que cada esboço, cada tentativa, de definição da verdade filosófica contém em si, apesar das alterações inerentes ao nosso indissipável nevoeiro, a indicação preciosa dalguma propriedade fundamental da verdade absoluta. O que é então a filosofia? É a equação do pensamento e da realidade, numa dada fase do desenvolvimento daquele e num dado período do conhecimento desta: o equilíbrio momentâneo entre a reflexão e a experiência: a adaptação possível em cada momento histórico (da história da ciência e do pensamento) dos factos conhecidos às ideias directoras da razão, e a definição correlativa dessas ideias, não por esses factos, mas em vista deles. É por isso que a cada período histórico corresponde a sua filosofia: e, se o espírito humano parece condenado a mover-se dentro dum certo número de fórmulas fixas, de tipos fundamentais de compreensão, sempre os mesmos e como que inquebrantáveis, esses tipos apresentam todavia uma feição particular em cada período histórico, e os sistemas, que os traduzem, repetem-se sem serem idênticos. O idealismo indiano distingue-se do idealismo grego e de ambos se distingue o idealismo germânico: o conceptualismo de Kant não é o conceptualismo de Sócrates, assim como o nous de Anaxágoras se não confunde com o espírito de Descartes, que todavia lhe corresponde, e o atomismo de Demócrito pareceria bem extravagante no nosso século, sem que isso impeça que o nosso século tenha, e muito legitimamente, a sua escola atomística. A razão é, em si, a mesma sempre e em todos os tempos: mas a experiência, em virtude da qual a razão define, coordena e sistematiza as suas concepções, é que varia continuamente. É por isso que, entre os vários sistemas, que em cada idade se repetem, sistemas tipicamente distintos e, ao que parece, irredutíveis entre si, há o que quer que é comum e como que um ar de família. O espírito da época penetra-os a todos: o génio da raça e da civilização, que os viu nascer, imprimiu em todos igualmente o seu cunho indelével. A Academia e o Pórtico podem combater-se: são todavia irmãos. Entre Plotino e Aristóteles, por exemplo, ou entre Bacon e Leibniz, há certas afinidades, certa obscura concordância, que a crítica filosófica só vagamente logra rastrear, mas que se sentem e são muito reais. Haverá, em cada época, em cada civilização, uma metafísica latente, mais profunda que a que se formula nos diversos sistemas e tão profunda que a todos escapa, mas que influa insentida em todos e de que cada um murmure muito confusamente um vago eco? E estará essa metafísica latente em relação perfeita com o estado íntimo psicológico de cada período da civilização humana, influenciando-se reciprocamente, formando em comum o stratum mais fundo da alma colectiva de cada idade, de tal sorte que as grandes criações espirituais, mergulhando as últimas radículas nessas profundezas, tragam de lá aquele elemento comum, que lhes dá, no meio dos seus mais patentes contrastes, aquela indefinível conformidade?É possível que assim seja. Em todo o caso, neste ponto de vista, que é aliás indiferente à exactidão ou inexactidão das explicações que se possam dar ao facto, os diferentes sistemas têm de ser considerados, dentro de cada período histórico, como os aspectos diversos duma mesma figura, de que são, entre si, os traços complementares, quero dizer, como momentos e modalidades do espírito geral e total do período. Sem o quererem, completam-se uns aos outros, e é só no conjunto deles que o espírito que anima a idade, o ciclo humano que os produziu, se encontra inteiro e pode ser bem estudado e compreendido. A expressão completa desse espírito seria pois uma teoria geral do universo, que formulasse superiormente, reduzindo-os à sua unidade, todos aqueles pontos de vista parciais, aqueles momentos limitados de compreensão, que cada sistema representa isolada e divergentemente. Seria essa a síntese do pensamento da época e a sua verdadeira filosofia. Será possível tal síntese? Decidi-lo a priori seria talvez arrojo, conquanto a unidade fundamental da razão e os contínuos esforços que faz para se possuir na sua inteireza e simplicidade constituam uma grave presunção no sentido afirmativo. Por outro lado, havemos de reconhecer que a experiência histórica (e o seu testemunho é sem dúvida de grande peso) está longe de ser favorável a esta suposição, antes parece indicar no espírito humano a incapacidade de se elevar tão alto, de reunir num feixe compacto todas as suas concepções, apresentando-o quase como condenado a um certo fraccionamento, ou, pelo menos, ao vago e à indeterminação nos pontos verdadeiramente capitais. Mas, admitindo ainda que essa síntese por assim dizer cíclica não seja possível, ou, pelo menos, reconhecendo, pois é um facto, que não o tem sido até hoje, nem por isso é menos evidente o fenómeno histórico duma convergência gradual dos sistemas uns para os outros, tendência em que se patenteia a invencível necessidade de unidade que há na inteligência humana, e que, se não logrou ainda realizar-se em parte alguma, tem chegado entretanto a produzir quase por toda a parte uma espécie de penetração recíproca das diversas doutrinas, de aproximação dos diferentes pontos de vista, um eclectismo ou um sincretismo mais ou menos sistemático. O sincretismo aparece pois como o possível sucedâneo daquela síntese irrealizável.”

*Antero de Quental in As tendências Gerais da Filosofia (Séc. XIX)

Um comentário:

Marise von Frühauf disse...

Parabéns!
Adorei o seu blog, volto para ler mais.
Abraços,
Marise.