Que o natal é outra maldita invenção do comércio, qualquer pessoa com o mínimo de senso crítico pode constatar. E como sinceramente ha muito tempo me cansei de dialogar com a esquizofrenia capitalista, sem mais discussões, aí vai nosso singelo protesto com a música do "Garotos Podres" que tem aquela letrinha infame sobre essa personagem a meus olhos tão suspeita.terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Santa Claus is a "Bad Guy"
Que o natal é outra maldita invenção do comércio, qualquer pessoa com o mínimo de senso crítico pode constatar. E como sinceramente ha muito tempo me cansei de dialogar com a esquizofrenia capitalista, sem mais discussões, aí vai nosso singelo protesto com a música do "Garotos Podres" que tem aquela letrinha infame sobre essa personagem a meus olhos tão suspeita.quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Daquilo que sei (Eles foram formatados)
Porque a mim nunca coube a arte de entreter, antes a de deixar o outro em grave tormenta. Se me mudo em arlequim, é a indulgência de meu desprezo pelo mundo! É preciso caminhar rumo ao abismo, é necessário tomar retiro naquela planície gélida a que os homens chamam solidão. Banha-te nas águas do esquecimento, deixa-te alheio ao mundo e um dia tornarás aqui como homem livre! Nalgum lugar de porvir, haverá para teu assombro, um remoçamento do ser que carregas, quando expulsar de ti todo o sangue condenado. Sorria, ou chore se quiser. As emoções são filhas do engano. Quando habitares longe, muito longe essas palavras terão eco. No dia em que entoares teu próprio cântico serás monarca de teu corpo inteiro, soberano de todo o mundo. Veja os homens que passam, com suas cangalhas e seus ressentimentos. Cangalhas servem a animais de tração e ressentimento é algo feito apenas para escravos. Seja subversiva, dance sem roupa, urine na frente de todos, transe enquanto os outros vão à igreja. Lembra meu amor, de quando a gente ficava deitado tentando explicar a vida e eu fantasiava que as nuvens eram alguma coisa caída do saco de pipocas de Deus? Tempos depois, como cedi ao pânico! Ao descobrir que não haviam nem Deuses e nem pipocas, pelo menos da forma como nos ensinaram. Também aquilo nem foi amor, era só o nosso espasmo particular da esquizofrenia coletiva do eu buscado no outro. Seguir tendências de moda nunca resolveu a vida de ninguém. Foi bom ter recuperado a sanidade, agora já podemos nos odiar em paz. Como é aguda a pungência da vida. Já que não posso fingir, calço meus pés com o pó da terra enquanto devoro sonhos alheios. Vamos caminhar sobre brasas, vamos vomitar nosso medo antes que o inverno chegue. Em campo aberto a carícia do vento tem a sutileza de um tapa na cara. Ressuscitar o espírito é ordem do dia, ocorre que o sangue ultimamente tem perdido sua cor. Morram os déspotas, vivam os ditadores de si próprios. Perdido por entre as manadas sem governo a gravidade de existir torna-se ainda mais exterior. Vida de gado, morte de indigente. Nenhuma dor de homem pode causar afetações na economia, essa é a lei. Já que daria a alma por tal sofisma, retorne à sua fonte, vista de novo seu uniforme e sua tristeza. O mestre espera por você. Quem vai te salvar a vida outra vez? Os raios costumam ser ruins de mira.Tenho que partir pra nunca mais, até esse momento não o suspeitava. Vou sacar minha arma e disparar como um bandido da escória. Queria uma noite de porre mas, sou abstêmio...
*Leandro M. de Oliveira
terça-feira, 29 de setembro de 2009
A mentira da palavra
Tudo isto são coisas, coisas que nós podemos amar. Mas não posso amar palavras. É por isso que não aprecio as doutrinas, não têm dureza ou moleza, não têm cores, não têm arestas, não têm cheiro, não têm gosto, nada têm senão palavras.Talvez seja isto que impede de encontrares a paz, talvez sejam as palavras em excesso. Porque também libertação e virtude, também Samsara e Nirvana são meras palavras. Nada existe que seja o Nirvana; apenas existe a palavra Nirvana.
*Hermann Hesse
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Paganismo e o não ao "Status Quo"
Constelações pelas quais orientar a barca da alma."Se o muçulmano entendesse o Islã ele se tornaria um idólatra" - Mahmud Shabestari
Eleguá, horrendo abridor de portais com um gancho em sua cabeça & búzios como olhos, negro charuto de santeria & um copo de rum — o mesmo que Ganesh6, gorducho garoto dos Inícios, com cabeça de elefante, que cavalga um rato. O órgão que sente as atrofias numinosas com os sentidos. Aqueles que não podem sentir baraka não podem conhecer a carícia do mundo.
Hermes Poimandres ensinou a animação dos eidolons, a incorporação mágica de ícones por espíritos — mas aqueles que não podem realizar este rito em si mesmos & em todo o tecido palpável do ser material herdará apenas tristeza, lixo, decadência.
O corpo pagão torna-se uma Corte de Anjos que percebem todos este lugar — este mesmo arvoredo — como um paraíso ("Se há um paraíso, certamente é aqui!" — inscrição em um portão de um jardim Mughal). Mas o anarquismo ontológico é por demais paleolítico para escatologias — as coisas são reais, a feitiçaria funciona, espíritos da mata unos com a Imaginação, morte como uma desagradável imprecisão — a trama das Metamorfoses de Ovídio —, um épico de mutabilidade. A mitologia pessoal.
O Paganismo ainda não inventou leis — apenas virtudes. Sem sacerdócio, sem teologia ou metafísica ou moral — apenas um xamanismo universal onde ninguém atinge a real humanidade sem uma visão. Comida dinheiro sexo sono sol areia & sensmilía— amor verdade paz liberdade & justiça. Beleza. Dionísio o garoto bêbado em uma pantera — rançoso suor adolescente — Pã homem-bode abre caminho através da terra sólida até sua cintura como se estivesse no mar, sua pele incrustada de musgo & líquen — Eros se multiplica em uma dúzia de jovens caipiras nus com pés embarrados & limo de açude em suas coxas.
Raven, o trapaceiro do potlatch, às vezes um garoto, uma velha, pássaro que roubou a lua, agulhas de pinheiro flutuando em um açude, cabeça de totem Heckle/Jeckle, corvos coristas com olhos de prata dançando na pilha de lenha — o mesmo que Semar, o corcunda albino hermafrodita marionete de sombras, patrono da revolução Javanesa. Yemanjá, estrela azulada, deusa marinha & padroeira dos bichas — o mesmo que Tara, aspecto cinza-azulado de Kali, colar de crânios, dançando no rígido lingam de Shiva, lambendo nuvens de monção com sua língua enormíssima — o mesmo que Loro Kidul, a deusa marinha verde-jaspe javanesa, que concede o poder de invulnerabilidade a sultões através de intercurso tântriko em torres & cavernas mágicas. Sob um ponto de vista o anarquismo ontológico é extremamente vazio, desprovido de quaisquer posses & qualidades, pobre como o próprio CAOS — mas sob outro ponto de vista ele pulula com a mesma beleza barroca dos Templos da Foda de Katmandu ou de um livro de emblemas alquímicos — esparrama-se em seu divã comendo loukoum14 & acolhendo noções heréticas, uma mão dentro de suas calças frouxas.
Os cascos de seus navios piratas são laqueados de negro, as velas triangulares são vermelhas, bandeiras negras exibindo uma ampulheta alada. Um imaginário Mar do Sul Chinês, próximo de uma costa coberta por uma floresta de palmeiras, apodrecidos templos dourados dedicados à deuses de bestiários desconhecidos, ilha após ilha, a birsa como úmida seda amarela na pele nua, navegando por estrelas panteístas, hierofania sobre hierofania, luz sobre luz contra a escuridão luminosa & caótica.
*Hakim Bey
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Cisma Primeva
Não há sentido nesse banquete de mentiras, espere um pouco, vou escalar as paredes pra urinar no telhado. Por quem é que me trocaram quando estava a acreditar que só a mudança cabal do “status quo” salvaria minha pele? Papai Noel é um porco capitalista e a medida dos sonhos é a de quanto se pode pagar por eles. Não há regras nem pudores. Então vamos calçar nossas botas de chumbo e pisotear o canteiro florido, ha mais estrume nessa terra do que em meu mundo concebia. Quero que você dance como uma bacante bêbada, vomite em mim, a revolta sou eu. Se quer salvar meu espírito é aqui que vai encontrá-lo, açaime meu corpo entre tuas pernas, possua minha carne com agressividade, nesse lugar repousa meu santuário. Invada-o! Ou deixe que os cães terminem sua valia. Quanto tempo faz não te vejo, quebrei os espelhos com fúria, ao ver que eles nunca traziam descobertas novas. O tempo tem sido líquido e esgarçado, como uma poça que seca lentamente. A cidade acordará, ela sempre desperta com aquele velho passo maquinal de fuligem e gente. Como passaram a sentir tanta aversão por si próprios? Que venha a sabedoria das coisas simples, para entender o mistério insondável de uma agressão mútua. “Amai o teu próximo como a ti mesmo”, palavras razoáveis para um messias mas, a grande morte exige uma motivação descente. Vamos derramar o nosso ódio contido, a besta nunca é escravizada, ou vive sob seus próprios ditames, ou morre em nome de sua ideologia. Ouvi notícias de um homem, era mais retido que um asceta e mais pacato que uma ovelha tosquiada, precocemente seus músculos atrofiaram e sua vida pereceu. Esse mundo é insano, se eu acreditasse na monogamia me acusariam de subversão. Queria estar com você todo o tempo, não posso ousar. Há ainda muitos botões por abrir antes que chegue a primavera. Tenho a vocação de um javali selvagem e o caos da noite primeira, não posso sorrir na fila do matadouro. Se soubesse, talvez escreveria um poema, como não sei, sigo ruminando os intermináveis dilemas até que a aurora violente o escudo da noite.
*Leandro M. de Oliveira
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Vamos acordar a cidade (Estas livre?)
(...) Não há transformação, nem revolução, nem luta, nem caminho; já és o monarca de tua própria pele — tua liberdade inviolável espera para ser completada apenas pelo amor de outros monarcas: uma política de sonho, urgente como o azul do céu.Para desfazer todos os direitos & hesitações ilusórios da história, é necessária a economia de uma lendária Idade da Pedra: xamãs ao invés de padres, bardos ao invés de senhores, caçadores ao invés de policiais, coletores dotados de preguiça paleolítica, gentis como sangue, saindo nus por aí ou pintados como pássaros, equilibrados na onda da presença explícita, o agora-e-sempre atemporal. Agentes do caos deitam olhares flamejantes sobre qualquer coisa ou pessoa capaz de prestar testemunho à sua condição, à sua febre de lux et voluptas. Estou desperto apenas naquilo que amo & desejo ao ponto do terror: todo o resto é apenas mobília coberta, anestesia cotidiana, merda na cabeça, tédio subreptiliano de regimes totalitários, censura banal & dor inútil. Avatares do caos agem como espiões, sabotadores, criminosos do amour fou, nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, educados como bárbaros, esfolados por obsessões, desempregados, sensualmente tresloucados, lobos angelicais, espelhos para contemplação, olhos como flores, piratas de todos os signos & sentidos. Cá estamos nos arrastando pelas rachaduras nos muros da igreja estado escola & fábrica, todos os monólitos paranóides. Cortados da tribo por uma nostalgia furiosa, escavamos em busca de palavras perdidas, bombas imaginárias. O último feito possível é aquele que define a percepção em si, um invisível cordão dourado que nos conecta: dança ilegal nos corredores do tribunal. Se eu te beijasse aqui eles chamariam isso de ato de terrorismo: vamos então levar nossas pistolas para a cama & acordar a cidade à meia-noite, como bandidos bêbados celebrando com uma fuzilaria a mensagem do gosto do caos.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Mikhail Bakunin, o desengano ante o mundo
“Os homens acreditavam que o estabelecimento do sufrágio universal garantia a liberdade dos povos. Mas infelizmente esta era uma grande ilusão e a compreensão da ilusão, em muitos lugares, levou à queda e à desmoralização do partido radical. Os radicais não queriam enganar o povo, pelo menos assim asseguram as obras liberais, mas neste caso eles próprios foram enganados.Eles estavam firmemente convencidos quando prometeram ao povo a liberdade através do sufrágio universal. Inspirados por essa convicção, eles puderam sublevar as massas e derrubar os governos aristocráticos estabelecidos. Hoje depois de aprender com a experiência, e com a política do poder, os radicais perderam a fé em si mesmos e em seus princípios derrotados e corruptos. Mas tudo parecia tão natural e tão simples: uma vez que os poderes legislativo e executivo emanavam diretamente de uma eleição popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não produziriam a liberdade e o bem estar entre a população?”
“O que é a autoridade? E a força inevitável das leis naturais que se manifestam no encadeamento e na sucessão fatal dos fenômenos do mundo físico e do mundo social? Efetivamente, contra estas leis, a revolta é não somente proibida, é também impossível. Podemos conhecê-las mal, ou ainda não conhecê-las, mas não podemos desobedecê-las porque elas constituem a base e as próprias condições de nossa existência: elas nos envolvem, nos penetram, regulam todos os nossos movimentos, pensamentos e atos; mesmo quando pensamos desobedecê-las, não fazemos outra coisa que manifestar sua onipotência."
*Mikhail Bakunin, trechos de "A Ilusão do Sufrágio Universal" e "Deus e o Estado"
terça-feira, 21 de julho de 2009
A Desobediência Civil
Aceito com entusiasmo o lema "O melhor governo é o que menos governa"; e gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente. Levado às últimas conseqüências, este lema significa o seguinte, no que também creio: "O melhor governo é o que não governa de modo algum"; e, quando os homens estiverem preparados, será esse o tipo de governo que terão. O governo, no melhor dos casos, nada mais é do que um artifício conveniente; mas a maioria dos governos é por vezes uma inconveniência, e todo o governo algum dia acaba por ser inconveniente(...) O próprio governo, que é simplesmente uma forma que o povo escolheu para executar a sua vontade, está igualmente sujeito a abusos e perversões antes mesmo que o povo possa agir através dele(...) Desta forma, os governos são a prova de como os homens podem ter sucesso no ato de oprimir em proveito próprio, não importando se a opressão se volta também contra eles. Devemos admitir que ele é excelente; no entanto, este governo em si mesmo nunca estimulou qualquer iniciativa a não ser pela rapidez com que se dispôs a não atrapalhar(...) No entanto, quero me pronunciar em termos práticos como cidadão, distintamente daqueles que se chamam antigovernistas: o que desejo imediatamente é um governo melhor, e não o fim do governo. Se cada homem expressar o tipo de governo capaz de ganhar o seu respeito, estaremos mais próximos de conseguir formá-lo. No final das contas, o motivo prático pelo qual se permite o governo da maioria e a sua continuidade - uma vez passado o poder para as mãos do povo - não é a sua maior tendência a emitir bons juízos, nem porque possa parecer o mais justo aos olhos da minoria, mas sim porque ela (a maioria) é fisicamente a mais forte. Mas um governo no qual prevalece o mando da maioria em todas as questões não pode ser baseado na justiça, mesmo nos limites da avaliação dos homens. Não será possível um governo em que a maioria não decida virtualmente o que é certo ou errado? No qual a maioria decida apenas aquelas questões às quais seja aplicável a norma da conveniência? Deve o cidadão desistir da sua consciência, mesmo por um único instante ou em última instância, e se dobrar ao legislador? Por que então estará cada homem dotado de uma consciência? Na minha opinião devemos ser em primeiro lugar homens, e só então súditos. Não é desejável cultivar o respeito às leis no mesmo nível do respeito aos direitos. A única obrigação que tenho direito de assumir é fazer a qualquer momento aquilo que julgo certo. Costuma-se dizer, e com toda a razão, que uma corporação não tem consciência; mas uma corporação de homens conscienciosos é uma corporação com consciência. A lei nunca fez os homens sequer um pouco mais justos; e o respeito reverente pela lei tem levado até mesmo os bem-intencionados a agir quotidianamente como mensageiros da injustiça. Um resultado comum e natural de um respeito indevido pela lei é a visão de uma coluna de soldados - coronel, capitão, cabos, combatentes e outros - marchando para a guerra numa ordem impecável, cruzando morros e vales, contra a sua vontade, e como sempre contra o seu senso comum e a sua consciência; por isso essa marcha é muito pesada e faz o coração bater forte. Eles sabem perfeitamente que estão envolvidos numa iniciativa maldita; eles têm tendências pacíficas. O que são eles, então? Chegarão a ser homens? Ou pequenos fortes e paióis móveis, a serviço de algum inescrupuloso detentor do poder? É só visitar o Estaleiro Naval e contemplar um fuzileiro: eis aí o tipo de homem que um governo norte-americano é capaz de fabricar - ou transformar com a sua magia negra -, uma sombra pálida, uma vaga recordação da condição humana, um cadáver de pé e vivo que, no entanto, se poderia considerar enterrado sob armas com acompanhamento fúnebre, embora possa acontecer que Desta forma, a massa de homens serve ao Estado não na sua qualidade de homens, mas sim como máquinas, entregando os seus corpos (...) Na maior parte dos casos não há qualquer livre exercício de escolha ou de avaliação moral; ao contrário, estes homens nivelam-se à madeira, à terra e às pedras; e é bem possível que se consigam fabricar bonecos de madeira com o mesmo valor de homens desse tipo. Não são mais respeitáveis do que um espantalho ou um monte de terra. Valem tanto quanto cavalos e cachorros. No entanto, é comum que homens assim sejam apreciados como bons cidadãos. Há outros, como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, funcionários e dirigentes, que servem ao Estado principalmente com a cabeça, e é bem provável que eles sirvam tanto ao Diabo quanto a Deus - sem intenção -, pois raramente se dispõem a fazer distinções morais. Há um número bastante reduzido que serve ao Estado também com a sua consciência; são os heróis, patriotas, mártires, reformadores e homens, que acabam por isso necessariamente resistindo, mais do que servindo; e o Estado trata-os geralmente como inimigos. Um homem sábio só será de fato útil como homem, e não se sujeitará à condição de "barro" a ser moldado para "tapar um buraco e cortar o vento”; ele preferirá deixar esse papel, na pior das hipóteses, para as suas cinzas.
*Henry David Thoreau**A Desobediência Civil é o texto mais conhecido de Thoreau. Escrito em 1848 influenciou profundamente pessoas como Mahatma Gandhi, Leon Tolstoi, Martin Luther King e tantos outros. Muito à frente de seu tempo, sua defesa do Direito à Rebeldia esteve, desde sempre, a serviço da luta contra todas as formas de discriminação. Lutou contra a escravidão nos EUA, pelos direitos das mulheres, em defesa do meio-ambiente, contra a discriminação étnica e sexual. Como pacifista Radical (indo à Raiz do mal que combate) recusou-se a pagar impostos a um governo autoritário que fazia mais uma guerra predatória na qual roubou mais da metade do território mexicano – este ato Radical de Desobediência Civil lhe custou um tempo na cadeia que lhe foi útil a escrever e deixar para a posteridade seus pensamentos – muitas vezes, diria mesmo que na maior parte delas, o lutador pelo que é VERDADEIRAMENTE Justo e Perfeito só é reconhecido postumamente após uma vida eivada de dissabores. Questão de escolha. Há aqueles que não compactuam com a injustiça, a prepotência, a arrogância ou o roubo. Há os que se acomodam. Quem se acomoda, em geral, vive melhor mas, como dizia Leonardo Da Vinci, não passam de meros condutores de comida, não deixando rastro algum de sua passagem pelo mundo exceto latrinas cheias...
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Deus?
Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede?
*Epicuro
sábado, 13 de dezembro de 2008
Guia de Pensadores Anarquistas - 2º parte

MALATESTA, Errico
(1853-1932)
Principal pensador anarquista italiano, nasceu em 1853 no sul de Itália, filho de uma família abastada.
Desde jovem se iniciou em atividades contestatárias, que provocaram sua prisão em 1868 e a suspensão na Universidade de Nápoles, onde estudava medicina, em 1870.
Em 1871 aderiu à Associação Internacional dos Trabalhadores e no ano seguinte conheceu Bakunin por ocasião do Congresso de Saint Imier, tendo esta relação tido uma influência decisiva em toda a sua militância anarquista posterior. Juntamente com Cafiero e outros militantes, em 1877, preparou o movimento "Levante de Benevento", que se tornou legendário na luta social italiana, quando um grupo anarquista percorreu essa região do sul de Itália distribuindo armas à população e queimando os arquivos públicos, declarando o comunismo libertário. Devido à sua militância libertária passou várias vezes pelas prisões.
Na Congresso Anarquista de Londres de 1881 propôs a criação de uma Internacional Anarquista. Em 1885 exilou-se na Argentina, onde com os primeiro núcleos anarquistas desenvolveu uma ativa propaganda das idéias anarquistas, tendo publicado o jornal bilingüeQuestione Sociale. Regressou à Europa em 1889 instalando-se em França, donde teve de partir para a Inglaterra.
Tal como muitos outros militantes, também Malatesta desenvolveu atividade revolucionária em diferentes países: Egito, França, Bélgica, Argentina e Espanha são alguns dos países onde esteve.
Em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial foi um dos defensores do internacionalismo contra os que defendiam - mesmo dentro do anarquismo - o envolvimento com uma das facções beligerantes.
Seu jornal Umanità Nuova tinha uma tiragem de 50.000 exemplares e era um dos animadores do anarco-sindicalismo italiano da USI.
Morreu em 22 de julho de 1932 em pleno advento do fascismo sob liberdade vigiada. Uma das principais brigadas anarquistas da resistência italiana levou o seu nome.
PARSONS, Lucy
(1853-1942)
Militante operária e anarquista americana. Segundo seu depoimento seria filha de mãe mexicana e de um índio e após ficar órfã aos três anos foi levada para um rancho do Texas onde foi criada por um tio. Alguns pesquisadores, no entanto, acreditam que Lucy era filha de escravos do Texas.
Em 1870, conheceu Albert Parsons, um ex-soldado confederal que se veio a tornar um republicano radical e mais tarde militante anarquista. Forçados a sair do Texas pelo seu casamento inter-racial foram para Chicago onde logo se ligaram aos setores revolucionários que começavam a desenvolver o movimento sindical.
A partir de 1878 Lucy colabora no jornal O Socialista, a partir daí torna-se uma escritora e agitadora com um papel decisivo na organização operária de Chicago. Em 1883 foi uma das fundadoras da International Working People's Association (IWPA), uma importante organização anarquista internacionalista e defensora da ação direta que se distinguia por defender a igualdade das mulheres e dos negros. Lucy além de militar na organização era uma colaboradora regular do seu jornal O Alarme, onde apelava à ação direta contra os ricos e os poderosos.
Muitos dos seus artigos tratavam também da questão do racismo e da discriminação defendendo a necessidade dos negros se integrar à luta social contra o capitalismo.
Em 1886 a IPWA foi uma das organizações que desencadeou a greve geral em defesa das 8 horas de trabalho no primeiro de maio, que levou aos acontecimentos da Praça Haymarket e ao famoso processo dos Mártires de Chicago em que a justiça americana condenou à morte de três conhecidos militantes operários e anarquistas, entre os quais o Albert Parsons.
Após o enforcamento do seu marido, manteve uma presença ativa no movimento operário e anarquista, participando em 1905 da fundação da confederação sindical revolucionária IWW e colaborou no jornal O Libertador. Nos anos 30, no contexto da avanço do nazi-fascismo, decidiu aderir ao Partido Comunista.
Lucy Parsons morreu no incêndio da sua casa em 1942, após meio século de intensa militância, onde se destacou como uma das mais importantes mulheres do movimento operário e anarquista americano. Seus livros e documentos pessoais foram apreendidos arbitrariamente pela polícia após o incêndio.
GOLDMAN,Emma
(1868-1940)
Anarquista russa, nascida na Província de Kovno, a 27 de junho de 1868. Em 1882 foi com seus pais para São Petersburgo.
Aos dezassete anos, influenciada pelo movimento intelectual russo no sentido de ir para o povo, tornou-se operária.
Emigrou para os Estados Unidos em 1886, instalando-se em Rochester, onde acompanhou as lutas operárias pelas 8 horas de trabalho, que provocaram o enforcamento dos quatro militantes anarquistas de Chicago em 11 de novembro de 1887. Esse fato e a relação com ativistas como Joana Grei, J. Most e Voltarine de Cleyre, levaram Emma Goldman a aderir ao anarquismo. Mudou-se para Nova York onde iniciou sua atividade militante, sendo presa várias vezes. Em 1893 cumpriu um ano de prisão.
Oradora famosa, foi uma das principais agitadoras anarquistas dos EUA, tendo sido a fundadora da importante revista libertáriaMother Earth.
Amiga e companheira de Alexander Berkman, lutou durante 14 anos pela sua libertação, o que só veio a ocorrer em 1906.
Em 1919 foi expulsa junto com Berkman e mais de duzentos revolucionários para a Rússia. Mas logo foi obrigada a abandonar esse país por discordar dos métodos autoritários dos comunistas. Viajando pela Europa e Canadá fez conferências onde denunciou a repressão que se iniciava na Rússia.
Com o começo da Revolução Espanhola, vai para Barcelona em 1936, percorrendo a Espanha em ações de agitação e apoio à causa revolucionária. Em Londres ajudou a fundar um grupo de coordenação da ajuda a Espanha.
Lutadora da causa operária, defensora dos direitos da mulher e adepta do amor livre, Emma Goldaman, deixou seus escritos espalhados por inúmeras publicações de todo o mundo. Seus principais livros são Living My Life, Anarchism and Other Essays ePuritanismo e Outros Ensaios.
Morreu em 14 de maio de 1940, aos setenta anos em Toronto, Canadá tendo sido sepultada em Chicago junto aos militantes operários assassinados no século XIX.
CLEYRE, Voltairine de
(1869-1912)
Ativa militantes e agitadora anarquista americana. Nasceu em 17 de novembro de 1869, em Michigan.
Filha de um livre pensador de origem belga – seu nome é homenagem a Voltaire – foi educada num colégio católico no Canadá, de onde fugiu.
Iniciou sua militância social como livre-pensadora, tornando-se anarquista na seqüência dos acontecimentos do Primeiro de Maio de 1886, em Chicago.
Amiga do pensador anarquista Dyer Lum e de Emma Goldman, quando esta foi processada por sua militância em 1893, Voltairine escreveu o ópusculo Em Defesa de Emma Goldman do Direito de Expropriação. Em 1897 esteve em França e na Inglaterra, conhecendo em Londres Kropotkin e o grupo editor do jornal Freedom, estabelecendo também contato com os exilados espanhóis.
Colaboradora da imprensa anarquista, principalmente da revista Mother Earth, escritora de mérito, conferencista famosa, percorreu os EUA fazendo propaganda das idéias libertárias. Muitas das traduções de obras anarquistas editadas nos EUA no final do século XIX, são de sua autoria.
Depois de vinte e cinco anos de militância, Voltairine de Cleyne morreu aos 46 anos de idade, em junho de 1912, em Chicago, devido a um ferimento resultante de uma tentativa de assassinato anos antes.
READ, Herbert
(1893-1968)
Poeta e crítico de arte anarquista, nasceu em 1893 em Yorkshire, Inglaterra de uma família de agricultores.
Foi conservador do Victoria and Albert Museum de Londres e professor de Arte na Universidade de Edimburgo, Cambridge, Liverpool, Londres e Harvard.
Aproximou-se do anarquismo a partir de leituras de Kropotkin, Bakunine, Tolstoi e Ibsen.
Seus livros Poesia e Anarquismo (1938), Educação pela Arte (1943), Arte e Alienação (1967), Filosofia do Anarquismo (1940),O meu Anarquismo (1966), explicitam a filosofia dum intelectual culto e irrecuperavelmente anarquista. Seu pacifismo e suas idéias sobre educação libertária, tornaram-no um dos autores anarquistas mais atuais.
Herbert Read gostava de afirmar: "Uma civilização que, de maneira sistemática, recusa o valor da imaginação e a destrói, está condenada a soçobrar numa barbárie cada vez mais profunda".
Morreu em 1968.
MOURA, Maria Lacerda
(1887-1945)
Professora, jornalista e escritora anarquista, nascida em Minas Gerais a 16 de maio de 1887.
Desde cedo se interessou pelo pensamento social e pelas idéias anticlericais.
Formou-se na Escola Normal de Barbacena, em 1904, começando a lecionar nessa mesmo escola. Inicia então um trabalho junto das mulheres da região, incentivando um mutirão para construção de casas populares para a população carente da cidade. Fundou a Liga Contra o Analfabetismo, e como educadora adotou a pedagogia libertária de Ferrer.
Após de mudar para São Paulo, começou a dar aulas particulares e a colaborar na imprensa operária e anarquista brasileira e internacional.
No jornal A Plebe escreveu principalmente sobre pedagogia e educação. Ativa conferencista, tratava de temas como educação, direitos da mulher, amor livre e antimilitarismo, tornando-se conhecida não só no Brasil, mas também no Uruguai e Argentina onde foi convidada por grupos anarquistas.
Em fevereiro de 1923 lançou a revista Renascença, uma publicação cultural que foi divulgada no movimento anarquista e entre setores progressistas e livre-pensadores.
Pode ser considerada uma pioneira das principais pioneiras do feminismo no Brasil e uma das poucas que se envolveu com o movimento operário e sindical.
Entre seus livros destacam-se: Em torno da educação; A Mulher Moderna e o seu papel na Sociedade Atual; Amai e não vos Multipliqueis; Han Ryner e o Amor Plural.
MONTSENY, Federica
(1905-1994)
Militante anarquista espanhola.
Nasceu em Madri filha de dois dos mais conhecidos anarquistas catalães Joan Montseny (Federico Urales) e Teresa Mané (Soledad Gustavo), fundadores em 1898 de uma das mais importantes publicações do anarquismo ibérico, a Revista Blanca.
Desde cedo Federica Montseny militou na CNT, tornando-se famosa como oradora, ao mesmo tempo que colaborava com as atividades editoriais de sua família. Em 1930, passa a viver com o também militante anarquista Germinal Esgleas.
A partir de 1936 integra o comitê regional da CNT e o comitê pninsular da FAI.
Durante a Revolução foi escolhida para integrar o Governo Republicano como ministra da saúde. Esta participação embora tenha obtido um amplo apoio do movimento, gerou polêmica e divisões entre os anarquistas. Durante o tempo em que foi ministra aprovou uma lei legalizando o aborto. Com a derrota exilou-se em França, onde esteve várias vezes presa.
Foi uma personagem central do Movimento Libertário no exílio, mantendo ao longo de toda a sua vida uma atividade militante, fazendo parte do grupo que se opôs ao frentismo e colaboracionismo político. No entanto, contraditóriamente, mereceu críticas, entre setores das Juventudes Libertárias, por se opor às tentativas de manter atividades clandestinas em Espanha, principalmente ações armadas.
Faleceu em Toulouse (França) a 14 de janeiro de 1994.
BOOKCHIN, Murray
(1921-)
Pensador e militante anarquista contemporâneo, nascido nos EUA em 1921, filho de operários de origem russa, militantes da IWW.
Depois de ter sido militante comunista, rompeu nos anos 50, com o marxismo-leninismo, influenciado pela Revolução Espanhola e pela Revolução Húngara de 1956. A partir daí, tornou-se anarquista, sendo considerado hoje um dos principais teóricos do pensamento libertário.
Ligado aos movimentos alternativos, participou das lutas dos anos 60 pelos direitos civis e contra a guerra do Vietnã. Em 1968 foi para Paris, onde acabou participando das lutas de maio.
Sua reflexão centra-se sobre a ecologia social, os problemas urbanos e a implantação de um municipalismo libertário, sendo seu primeiro livro sobre ecologia de 1962.
Foi professor da Alternative University de Nova York e fundador do Institut For Social Ecology.
Editor da revista Anarchos, Bookchin é o exemplo de intelectual independente, capaz de conciliar uma militância social com uma reflexão crítica. Entre os seus principais livros destacam-se El Anarquismo en la Sociedad de Consumo, Remaking Society, Listen, Marxist e Third Revolution.
CHOMSKY, Noam
(1928- )
Importante lingüista contemporâneo, nascido em 1928 nos EUA, filho de pais ucranianos, é também um dos mais lúcidos e críticos pensadores contemporâneos.
Desde cedo relacionou-se com círculos judeus anarco-sindicalista e ainda criança manifestou sua solidariedade com a Revolução Espanhola.
Nos anos 60, já famoso por suas pesquisas na área de linguística, envolveu-se no movimento de oposição à guerra do Vietnã.
Mesmo sendo hoje o mais citado e conhecido pensador americano, Chomsky é marginalizado pelos grandes meios de comunicação dos EUA. Não é por acaso, um dos temas que tem estado no centro de sua pesquisa nas últimas décadas, tem sido o poder manipulatório dos mass media, da grande imprensa à televisão.
Atento observador da cena internacional, Chomsky tem tido posições solidárias e críticas em todas as situações de conflito internacional, do Vietnã, à América Latina, da Palestina a Timor.
Libertário, conhecedor da história do anarquismo, Noam Chomsky afirma-se como um partidário da tradição federalista e de auto-governo. Atualmente é diretor do Departamento de Línguas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Entre os seus livros mais importantes encontram-se Ilusiones Necesarias: Controle del Pensamiento en las Sociedades Democraticas, Radical Priorities, 501: A Conquista Continua e Novas e Velhas Ordens.
Guia de pensadores anarquistas - 1º parte

WILLIAM GODWIN
(1756-1835)
Escritor e filósofo inglês, considerado o percursor do pensamento anarquista moderno, nasceu em 3 de março de 1756 em Wisbeach de uma família de dissidentes calvinistas.
Seguindo a tradição da família, estudou teologia e foi nomeado pregador em 1778, chegando a ser pastor em diversas comunidades dissidentes até 1883. Influenciado pelas idéias da Revolução Francesa, sobretudo de Rousseau e Helvétius, afastou-se da religião, iniciando então sua reflexão sobre a realidade social.
Nessa época ligou-se a um famoso grupo de intelectuais e trabalhadores revolucionários que se reuniam nas tabernas de Londres, tornando-se amigo de Thomas Paine, autor de Os Direitos do Homem. Em 1791 conheceu, nesse círculo, a que seria sua companheira Mary Wollstonecraft, percursora do feminismo, que em 1792 publicou a Reivindicação dos Direitos da Mulher. Dessa relação nasceu Mary Wollstonecraft Godwin futura companheira do poeta Shelley e autora da novela Frankstein.
A partir de 1871 começou a elaborar seu livro Investigação Acerca da Justiça Política, editado em 1873. O livro causou escândalo e polêmica na sociedade inglesa pelas suas idéias filosóficas e políticas revolucionárias, tornando Godwin famoso.
Nos anos seguintes escreveria várias obras literárias, das quais a mais famosa é Caleb Williams (1794), onde volta a expor suas idéias na forma literária. Godwin é o primeiro pensador a considerar que todo o estado e todo o governo é um mal, e que a sociedade poderia existir sem eles, sendo considerado um percursor do anarquismo moderno.
Aquele que foi um autor famoso, morreu anonimamente em março de 1836, quando começava a se desenvolver o movimento socialista que iria aprofundar as idéias inovadoras que tinha analisado na sua obra.
PROUDHON, Pierre–Joseph
(1809-1865)
Aquele que Bakunin considerava o mestre de todos os anarquistas, nasceu em França em 1809, numa família do povo.
Operário, tipógrafo, autodidata, desenvolveu suas próprias teorias sobre organização social, baseada na cooperação e mutualismo. Em 1840 publicou o livro O Que é a Propriedade?, onde se declara pela primeira vez anarquista. O livro foi elogiado por Marx, que o tentaria atrair mais tarde (1846) para um grupo de pensadores socialistas. No entanto, Proudhon na resposta a Marx questiona a criação de novos dogmas, o que levaria à ruptura com o socialista alemão.
Nessa época, 1844-1845, teve encontros em Paris com Bakunin e Marx. Mas logo em 1846 Marx escreveu o livro Miséria da Filosofia que é uma crítica violenta ao livro de Proudhon a Filosofia da Miséria.
Em 1848 Proudhon foi eleito deputado à Assembléia Nacional por Paris. Em julho desse ano pronunciou uma discurso violento na Assembléia onde expõe a oposição entre proletários e burgueses, sendo objeto de advertência pelo Presidente do parlamento.
No ano seguinte Proudhon tentou organizar o Banco do Povo, que não conseguiu prosperar. Seus artigos no jornal Representant du Peuple e Le Peuple valem-lhe vários processos judiciais que o obrigam a se exilar na Bélgica.
De volta à França foi preso em 1849 tendo ficado na prisão até 1852, onde continuou escrevendo.
A edição do livro De la Justice dans la Révolution et dans L'Eglise, esgotado em poucos dias, provocou novo escândalo e um novo processo judicial, que o obrigou a exilar-se, novamente, em Bruxelas.
Regressou a França onde publicou novos livros entre os quais o Princípio Federativo e Da Capacidade Política das Classes Trabalhadoras que forneceu a base teórica do anarco-sindicalismo, defendendo que o "proletariado deve emancipar-se sozinho". Morreu em 1865, pouco depois da fundação da Primeira Internacional, criada em grande parte por iniciativa de operários mutualistas franceses.
BAKUNIN, Mikhail
(1814-1876)
O mais brilhante dos teóricos e agitadores anarquistas, nasceu em Premukhino, Rússia em 11 de maio de 1814, originário de uma rica família da nobreza russa.
Depois de ter seguido a carreira militar, abandonou o exército em 1832, quando começou a opor-se ao czarismo. Mas a sua ligação a idéias progressistas se deu a partir das suas leituras de Hegel, a amizade com o revolucionário russo Herzen e principalmente a partir da sua viagem ao Ocidente em 1840, quando freqüentou a Universidade de Berlim e o círculo dos hegelianos de esquerda em Berlim e Dresden na Alemanha, colaborando na revista crítica Anais Alemães de Arnold Ruge.
Em 1843, aproximou-se do pensamento socialista a partir do contato com Moïse Hess e Proudhon, só vindo no entanto a se tornar um anarquista já nos anos 60, no seu exílio europeu. Durante os anos de 1848-1849 tomou parte ativa nas rebeliões que ocorreram em Paris, Praga e em Dresden ao lado de seu amigo Richard Wagner. Preso após a rebelião de Dresden, esteve em prisões da Saxônia e da Áustria, tendo sido entregue à polícia do Czar.
Depois de doze anos nas prisões czaristas, em 1861 conseguiu escapar para o ocidente, tendo vivido na Inglaterra, Suíça e Itália onde conheceu Giuseppe Fanelli que com ele colaboraria na divulgação do anarquismo em Espanha.
Por todo lado em que passou Bakunin participou da agitação social e da fundação de associações revolucionárias, tornando-se o mais conhecido revolucionário da sua época. A atração que Bakunin exercia sobre os círculos revolucionários esteve na origem de um dos episódios mais polêmicos da sua vida, as relações que manteve entre 1869 e 1872 com Netchaiev (1847-1882) um jovem revolucionário russo ligado ao grupo de Vera Zassoulitch, descrito como um jovem fanático, frio e cínico, que viria a ser o autor do Catecismo Revolucionário. Netchaiev, não só provocou inúmeros conflitos nos círculos dos exilados russos, como manteve uma atividade revolucionária inconseqüente que provocou repercussões negativas na Rússia. O comportamento de Netchaiev e suas teorias de que o fim justificam os meios, completamente afastados da tradição anarquista, foram repudiados expressamente por Bakunin a partir de 1870.
A adesão de Bakunin à AIT, em 1868, foi decisiva na evolução das discussões entre as concepções de socialismo de estado e de socialismo libertário. Bakunin e Guillaume, foram os principais representantes da corrente anarquista que se opunha a Marx. Durante o Congresso de Haia, em 1872, foi oficialmente expulso juntamente com anarquistas de vários países da Internacional pelos marxistas. O comportamento de Netchaiev viria a ser usado pelo grupo marxista da AIT como um dos argumentos para expulsar Bakunin da Primeira Internacional.
Nos últimos anos da sua vida, Bakunin não deixou de acompanhar os movimentos revolucionárias que ocorreram na Europa, entre os quais a tentativa revolucionária de 1874 em Bolonha na Itália.
Seus principais livros são Deus e o Estado; Federalismo, Socialismo e Antiteologismo e Estatismo e Anarquia.
Faleceu em 1 de julho de 1876, em Berna, na Suíça.
STIRNER, Max
(1806-1856)
Pseudônimo do pensador alemão Kaspar Schmidt, nascido na Baviera, Alemanha, em 1806, filho de um artesão.
De 1826 a 1828 estudou em Berlim, onde foi aluno de Hegel e Feuerbach, tendo voltada a essa universidade de 1832 a 1834. A partir de 1842 fez parte do círculo de intelectuais radicais Jovens Hegelianos que se reunia em torno de Arnold Ruge e Bruno Bauer, que tanto influenciaram Marx e Bakunin. Foi nas reuniões desse grupo que Engels o conheceu.
Professor solitário, escreveu O Falso Princípio da Nossa Educação que seria publicado em 1842 por Marx na revista do grupo A Gazeta Renana.
Seria no entanto O Único e sua Propriedade, publicado em 1884, que o iria tornar famoso, transformando-o no teórico do anarquismo individualista. Um dos alvos da crítica de Marx e Engels no livro A Ideologia Alemã seria Stirner, que rapidamente, no entanto, acabaria esquecido, vindo a ser redescoberto mais tarde por Henry Mackay.
Sua vida, marcada pela pobreza e pela tragédia, certamente contribuíram para a elaboração de um pensamento que tem como centro o indivíduo solitário: o único que não deve sujeição a nada nem a ninguém. Seu livro valeu-lhe a celebridade e o escândalo: implodia com convenções, moral, mas também toda a doutrina social, política e filosófica de seu tempo. Ao afirmar: "livre não o sou em nenhum Estado" ou "todo o Estado é despótico". No entanto, sua idéia de um "eu" absoluto, mesmo quando ligada à sua concepção de um associativismo de egoístas, estava longe das idéias e valores que se expressaram no anarquismo social e mesmo no individualismo anarquista posterior. Stirner que se definia como Único, certamente o foi como pensador radical original, e nesse sentido é difícil classificá-lo, mesmo que por seu anti-estatismo e espírito herético era um libertário.
O pensamento de Stirner no movimento anarquista teve uma influencia limitada, ganhando sua obra uma maior divulgação a partir de 1888, quando o poeta anarquista John Henry Mackay, escreveu sua biografia e algumas obras onde divulgava o anarquismo individualista. A partir de então suas teorias cativaram alguns círculos libertários alemães, norte-americanos e especialmente do individualismo francês, muito ativo no final do século XIX e começo do século atual.
Morreu esquecido e na miséria aos 49 anos, a 25 de julho de 1856.
TOLSTOI, Liev
(1828-1910)
Este genial escritor russo nasceu em 1828 em Iasnaia Poliana. Filho de uma importante família ligada aos Czares, ficou órfão ainda criança.
Entrou na Universidade de Kazan onde estudou línguas orientais e direito. Em 1847, por herança tornou-se senhor de vastas terras em Iasnaia-Poliana.
Depois de ter servido no exército, em 1856, viajou pela Europa visitando vários países, regressando então à sua terra natal para administrar suas terras e dedicar-se à literatura.
Em 1861, voltou novamente a França para visitar seu irmão que se estava doente aproveitando para se encontrar com Proudhon. Com uma vida pessoal cheia de conflitos e uma personalidade dividida, Tolstoi aproximou-se, gradualmente, de uma posição pacifista e anarquista, recusando toda a forma de governo e poder.
Na sua terra natal criou uma escola marcadamente libertária, próxima das experiências de Ferrer e da Escola Moderna, tendo pessoalmente escrito os livros usados na escola.
Seus textos autobiográficos A Minha Confissão e Qual é Minha Fé foram apreendidos mas, mesmo assim, tiveram ampla difusão clandestina.
Perseguido e excomungado pela Igreja, seus últimos anos são de engajamento social. Os escritos filosóficos influenciaram o aparecimento de comunidades e de uma corrente de anarquismo cristão, sobretudo em França, Holanda e EUA.
Exerceu também, juntamente com Kropotkin e Thoreau, forte influência sobre um dos mais importantes pacifistas modernos: Gandhi, com quem chegou a manter correspondência. Faleceu em 1910.
KROPOTKIN, Piotr
(1842-1921)
Escritor, filósofo e militante anarquista russo, nascido na nobreza russa em Moscou, em 1842.
Depois de passar pelo Corpo de Pagens, já oficial, foi para a Sibéria onde realizou importantes levantamentos geográficos. Desligou-se do exército e tornou-se geógrafo, tendo percorrido a Sibéria e a Manchúria, onde pode conhecer de perto miséria dos povos sujeitos ao Czarismo.
Em 1872, realizou uma viagem à Bélgica e à Suíça, onde entrou em contato com os anarquistas da Federação do Jura, tendo-se filiado na AIT.
De volta à Rússia, começou uma militância em grupos clandestinos, o que o levaria aos cárceres czaristas. Depois de uma fuga espetacular, exilou-se no Ocidente, tendo retomado seus contatos com os anarquistas suíços, fundando e editando em Genebra, em 1879, o jornal Le Révolté, até ser novamente preso na França, em 1882.
Libertado em 1885, depois de um amplo movimento de intelectuais e cientistas, entre os quais Herbert Spencer, Ernest Renan e Victor Hugo, refugiou-se na Inglaterra. Conviveu com os principais intelectuais da sua época e foi colaborador da Geographical Society. Em alguns de seus livros, Kropótkin tentou buscar uma base científica para o pensamento anarquista. E, se de sua pesquisa saíram trabalhos que ainda hoje desafiam o leitor, certamente incorreu também no erro de um racionalismo e otimismo científico típicos da sua época. Mas, foi certamente como propagandista revolucionário, que Kropótkin se tornou o mais traduzido e lido de todos os pensadores libertários.
Seus livros faziam parte da biblioteca dos camponeses e operários em quase todos os países. Palavras de um Revoltado, Aos Jovens, Ética, O Estado e seu Papel na História tiveram edições em inúmeras línguas e em todos os continentes. O seu verbete sobre o anarquismo publicado na edição da Encyclopaedia Braitannica de 1910 é, até hoje, uma das mais bem elaboradas definições.
Voltou à Rússia durante a Revolução de 1917. Crítico do autoritarismo comunista, escreveu a Lenin em março de 1920, denunciando a evolução autoritária que estava ocorrendo, divulgando, em junho, uma carta aberta aos trabalhadores do ocidente onde alertava para a evolução da Revolução Soviética. Em 21 de dezembro, voltou a fazer novas críticas em carta enviada ao dirigente comunista. Morreu em 8 de fevereiro de 1921. Seu funeral foi a última grande manifestação pública do anarquismo russo.
Entre os seus principais livros estão A Conquista do Pão, Apoio Mútuo, Campos, Fábricas e Oficinas, Ética Anarquista e A Grande Revolução.
VASCO, Neno
(1878-1920)
Advogado, jornalista e escritor anarquista, nascido em Portugal a 9 de maio de 1878. Seu nome era Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, mas ficaria conhecido por Neno Vasco.
Fez parte do grupo de estudantes da Universidade de Coimbra que aderiram ao anarquismo no começo do século.
Formado em direito, emigrou para o Brasil em 1901, para se juntar a seu pai. Em São Paulo logo entrou em contato com anarquistas como Benjamim Mota, Ricardo Gonçalves e os libertários italianos. Participou então da edição de O Amigo do Povo, que começou a circular em 1902. Algum tempo depois lançou a revista Aurora. Este movimento editorial haveria de contribuir para o crescimento da influência libertária nos meios operários. Nas páginas da Voz do Trabalhador travou uma polêmica sobre as relações entre anarquismo e sindicalismo, que é fundamental para entender a forma como os libertários se situaram face ao movimento operário e suas organizações.
Em 1911, regressou a Portugal onde continuou a desenvolver sua militância anarquista, colaborando com a imprensa anarquista brasileira como correspondente. Na revista anarquista portuguesa A Sementeira escreveu sobre a situação social no Brasil.
Neno Vasco, licenciado em direito, intelectual brilhante, um dos mais influentes militantes libertários de Portugal e do Brasil, morreu de tuberculose e pobre em 1920, no norte de Portugal.
O seu principal livro é A Concepção Anarquista do Sindicalismo, publicado em 1923 pela editorial do jornal anarco-sindicalista A Batalha e re-editado em 1984.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
ANARQUISMO (Pequena Introdução às Idéias Libertárias) - Teotonio Simões

O QUE É O ANARQUISMO
Anarquia não é confusão. Anarquista não é bagunceiro. Anarquia, do grego: an (=sem) e arché (=poder). Anarquismo: movimento que luta por uma sociedade em que ninguém tenha poder sobre ninguém.
Também podem ser chamados de ácratas, defensores da Acracia, do grego: an (=sem) e kratos (=governo). Os ácratas, ou anarquistas, querem uma sociedade em que ninguém governe ninguém.
Pela ênfase que dão à liberdade e à negação de qualquer autoridade, são também conhecidos como libertários.
REBELIÃO RADICAL
O anarquismo é a revolta radical contra a sociedade autoritária que está aí, com seus preceitos, preconceitos e negação da liberdade individual. Para o anarquismo, o único limite à liberdade de cada um deveria ser a liberdade do outro.
O anarquismo defende a democracia direta, exercida por indivíduos que se organizam voluntariamente em federações que se confederam. Uma sociedade que se organizaria de baixo para cima, sem nenhuma autoridade..
Os anarquistas não acreditam nem em democracia representativa, nem em parlamentos, nem em eleições para eleger “representantes”. Para eles, legisladores e governantes só têm um interesse: manter o poder para eles mesmos.
AÇÃO DIRETA
Defendem ações diretas como greves, boicotes, resistência pacífica, desobediência civil, desrespeito a leis e regulamentos impostos. Ignorar e desobedecer o Poder (não conquistá-lo) é para eles a forma de destruí-lo.
A maioria dos anarquistas sempre condenou a violência. Mas como alguns optaram por ela (e isso mereceu destaque por parte de seus opositores) há quem generalize, identificando anarquismo com violência.
A opção pela ação direta e a negação da sociedade burguesa levou outros libertários a porem em prática suas idéias, vivendo de acordo com seus princípios, em comunidades alternativas ou individualmente.
ANTICAPITALISMO
Para o anarquismo, a igualdade é um meio para a liberdade. Não tem sentido igualdade sem liberdade. Mas a liberdade de fato só seria possível com a igualdade de fato.
Anarquistas foram socialistas, comunistas, coletivistas, mutualistas, cooperativistas. Mas sempre negadores do capitalismo e da sociedade burguesa e a favor da gestão dos meios de produção pelos próprios trabalhadores.
Para alguns (Tólstoi, Thoureau) a simplicidade e a negação do supérfluo (o que não lhe faz falta) seria o caminho para a igualdade. Para outros (Bakunin, Proudhon) isso só seria possível com o fim da propriedade privada.
SOCIALISMO
Socialistas, marxistas e anarquistas estiveram juntos na I Internacional. Os anarquistas, que denunciaram Marx e seguidores como autoritários, por pregarem a tomada do poder e não seu fim, foram expulsos em 1872.
Os anarquistas chegaram a apoiar a revolução russa de 1917. Mas logo passaram a denunciá-la como anti-libertária, pela perseguição aos anarquistas e pelo fortalecimento do Estado.
A existência de um Estado que se dizia operário debilitou o movimento anarquista. Alguns aderiram à Internacional de Lenin (III Internacional). Entre eles, os fundadores do PCB (Partido Comunista do Brasil). Outros continuaram denunciando o regime soviético.
INDIVIDUALISMO
Para o anarquismo, indivíduos livres são a realidade primeira e final da sociedade. São eles que, superando os condicionamentos, com sua ação e sua vontade, poderiam fazer a revolução social.
O anarquismo não aceita uma natureza humana, boa ou má. Afirma que o homem pode se aperfeiçoar, sendo cada vez mais livre, ajudando outros a se libertarem, sendo solidários.
Nem Servo, Nem Senhor! Os anarquistas não aceitam que ninguém tenha poder sobre eles. Nem querem ter poder sobre ninguém. Por isso enfatizam a solidariedade, não a competição.
ORGANIZAÇÃO
Ninguém deve ser impedido de se organizar. Mas ninguém deve ser obrigado a se organizar. O anarquismo, ao colocar a liberdade individual em primeiro plano, sempre privilegiou a organização voluntária.
Multiplicade de organizações. Liberdade irrestrita de auto-organização dos invidivíduos. Nenhuma organização definitiva. O respeito irrestrito às minorias. Estas são algumas das consequências da liberdade organizacional defendida pelo movimento anarquista.
O princípio federativo, com unidades menores que se federam para gerar unidades maiores, trabalhando voluntariamente juntas, é uma das formas de organização preferidas pelos libertários.Organizações em rede, não piramidais.
INTERNACIONALISMO
O anarquismo é internacionalista. Não aceita fronteiras, nem nações. Da mesma forma que não aceita o Estado. A fraternidade de todos, na liberdade e na igualdade é um objetivo anarquista.
A não-discriminação é outra conseqüência da posição libertária. O anarquismo é contra qualquer tipo de discriminação. O respeito às opções individuais é uma conclusão lógica do respeito à liberdade de cada indivíduo...
Daí a defesa das uniões livres, da educação livre, do amor livre, da liberdade de expressão, da liberdade feminina que encontramos em obras anarquistas, como, por exemplo, as peças de Ibsen.
AUTOGESTÃO
O anarquismo é autogestionário. Como não aceita o poder de uma pessoa sobre outra, não aceita a existência de chefes, nem de patrões, nem de burocratas, mas de um trabalho livremente coordenado.
Na educação, tem como objetivo liberar as crianças de toda autoridade moral, religiosa ou política. Defende a escola laica, não religiosa. O respeito pela vontade física, moral e intelectual de cada criança.
Nas artes e na cultura, a negação das escolas e de um bom gosto oficial. A livre manifestação estética é uma posição anárquica amplamente difundida.
ANTIGA ASPIRAÇÃO
A aspiração libertária é antiga. Lúcifer é reputado como tendo sido o primeiro a se rebelar contra a autoridade e o governo divinos, trazendo luz aos homens. É comparado por alguns libertários a Prometeu. Por outros, a Hermes Trimegisto.
Aristipo (400 A.C.) dizia que o prazer só poderia ser gozado por quem nem governasse nem fosse governado. Zenão propunha uma sociedade sem governo, com as pessoas só respeitando a lei moral.
Lao Tse dizia no Tao Te King: “onde o governo for mais lento e inativo, o povo será mais próspero. Onde o governo intervém e é eficiente, o povo está descontente.”
ANARQUISTAS
“Com que deleite deve todo (...) amigo da humanidade olhar para (...) a dissolução do governo político, esse engenho estúpido que tem sido a única causa perene dos vícios da humanidade.” — William Godwin.
“Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim para me governar é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo.” — P. J. Proudhon.
“O Estado não pode desistir da idéia de que suas leis e ordens são sagradas. E o indivíduo é considerado então como um ímpio (...) que está contra o Estado.” — Max Stiner
“Em uma palavra, nós rejeitamos toda autoridade e toda influência privilegiada, licenciada, oficial e legal, mesmo vinda de sufrágio universal, convencidos de que ela só pode vir em vantagem para uma minoria de exploradores contra os interesses da imensa maioria dos sujeitos a ela. Este é o sentido em que nós somos realmente anarquistas.” — Bakunin.
“O primeiro golpe na igualdade foi dado pela propriedade. O primeiro golpe na liberdade foi dado pelas sociedades políticas ou governos. Os únicos apoios da propriedade e dos governos são as leis religiosas e civis.” — Spartacus Weishaupt
“Tornando-nos anarquistas, declaramos guerra contra esta onda de iniquidade que eles colocaram em nossos corações. Declaramos guerra contra seu modo de agir, contra seu modo de pensar. Nós não queremos ser mandados. E dizendo isso não declaramos, ao mesmo tempo, que não queremos mandar em ninguém?” —Kropotikin.
“Reconheço que o poder, seja qual for, é uma praga. É por isso que eu professo o anarquismo.” — Louise Michel
“Se há um fato inegável atestado milhares de vezes pela experiência é o efeito corruptor da autoridade sobre os que a detêm.” — Federação do Jura da I Internacional-1871
PRIMEIRO DE MAIO
Chicago, maio de 1886. A polícia intervém em manifestação pelas oito horas de trabalho. Anarquistas são presos. Quatro enforcados. Mas suas palavras ainda ressoam:
“Todo anarquista é um socialista mas todo socialista não é necessariamente anarquista.”
Adolph Fischer — discurso no tribunal após ter sido sentenciado ao enforcamento — 1886.
“Eu desprezo vocês. Desprezo sua ordem: suas leis, sua autoridade baseada na força. Enforquem-me por isso.”
Louis Lingg — 1886 — Discurso no tribunal.
“...o estado em que uma classe domina e vive às custas de outra classe e chama isto de ordem está condenado a morrer e dar lugar a uma sociedade livre, associação voluntária, fraternidade universal.”
August Spies — 1886 — Discurso no tribunal
“Governo é para escravos; homens livres se governam.”
Albert Parsons — 1886 — Discurso no tribunal
LIBERTÁRIOS NO BRASIL
A autoridade gera sua contestação. Também no Brasil. Os quilombos são exemplos citados pelos anarquistas das aspirações de liberdade, igualdade e rebeldia contra a autoridade no Brasil.
Assumindo o anarquismo, já em 28-2-1835 aparece o jornal “Anarquista Fluminense”. Em 1848, o “Grito Anarquial”. Livros e jornais anarquistas de outros países chegam ao Brasil.
Em 1890, é constituída no Paraná a Colônia Cecilia, comunidade libertária idealizada por Giovanni Rossi, em 300 alqueires cedidos por D. Pedro II. Foi liquidada (pela República!) em 1892.
COMUNIDADES
Uma comunidade formada em Guararema por Artur Camagnoli em 1888 durou até os anos 30. Além da comunidades e sindicatos, escolas e sociedades de ajuda mútua eram formadas pelos anarquistas.
No Rio Grande do Sul foi estabelecida uma comunidade por migantes russos ucranianos em Erechim (atual Getúlio Vargas!). Foi um pólo de difusão das idéias libertárias no sul do País.
Com o aumento da migração, as idéias anarquistas frutificaram, reforçadas principalmente por italianos, portugueses e espanhóis já familiarizados com a corrente libertária da Internacional, predominante em seus países.
ANARCO-SINDICALISMO
O sindicalismo brasileiro nasceu livre, anti-estatal, libertário. A corrente majoritária era a anarco-sindicalista ou sindicalista revolucionária, que introduziu questões como a total redução do Estado e da autogestão operária.
Em 1906 foi realizado o I Congresso Operário com predominância anarquista, sendo fundada a primeira central de trabalhadores no Brasil, a COB (Confederação Operária Brasileira).
De 1908 a 1915, a COB publica “A Voz do Trabalhador”, difundindo idéias libertárias, anunciando livros, encontros, espetáculos, implantação de escolas modernas, greves e outras atividades nacionais e internacionais.
REPRESSÃO
Os anarquistas e o movimento sindical revolucionário eram perseguidos. A “lei” Afonso Gordo previa a deportação de estrangeiros. Mesmo antes da “lei”, no início do século, haviam sido expulsos do Brasil Galileu Botti, diretor do jornal Gli Schiave Bianchi e assassinado Polinice Mattei.
O Brasil fazia parte do roteiro de visitas dos militantes anarquistas, como Errico Malatesta. Gigi Damiano, após ter sido expulso do Brasil, colaborou com ele no Umanità Nuova na Itália.
Anarquistas não eram só imigrantes. Anarquistas foram Fábio Luz, Martins Fontes, Rocha Pombo, Lima Barreto, Afonso Schimidt, Hélio Silva, José Oiticica, Maria Lacerda de Moura.
ANARQUISMO HOJE
No Mundo
Se nos movimentos da década de 60 ecoavam idéias libertárias, hoje elas estão presentes em Organizações Não Governamentais (ONGs), coletivos libertários, livros e comunidades. E, claro, na Internet. A propósito, você já reparou bem na letra do “Imagine” de John Lennon?
Temas centrais do anarquismo, como a negação de todo poder, de todas as leis e de qualquer Estado continuam presentes em manifestações sobre antigas questões sociais e outras, novas, como aborto, drogas, minorias e ecológicas.
No Brasil
Há um interesse crescente pelo anarquismo. Peças teatrais foram montadas, como Bella Ciao. Em 7 de abril de 1994, Suplemento Zap de “O Estado de São Paulo” publicou matéria sobre jovens anarquistas brasileiros. E, claro, eles podem ser encontrados facilmente na Internet.
*Esta pequena apresentação das idéias libertárias foi, originalmente, desenvolvida para a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, como parte de um projeto de Exposições Itinerantes. Que eu saiba, foi feita uma exposição em São Caetano do Sul. Imagino que ainda esteja disponível na Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo para Escolas interessadas. Tomar contato com as idéias libertárias foi muito importante para mim, lá no distante ano de 1968. A partir delas, não apenas me foi possível fazer uma crítica mais sólida do Sistema em que vivemos, como também do “socialismo real”, burocrático e autoritário. Desde então, o livre pensamento me conduziu ao Novo Humanismo, como uma das expressões mais atuais das idéias libertárias. Todas as páginas dão uma visão muito introdutória das principais idéias libertárias, entretanto espero que seja um ponto de partida para o aprofundamento dos que as teêm em mãos.(O Autor)
Data de publicação como RocketEdition: 11 agosto de 1999 (o dia em que o mundo não acabou:) — A reprodução parcial ou total do conteúdo e sua distribuição não comercial é autorizada e, inclusive, incentivada. Comentários podem ser enviados para teotonio@teotonio.org
