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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Espírito do tempo: Ainda acerca da "Metamorfose" de Kafka

Cabe a nós aqui, um breve comentário acerca da obra máxima de Franz Kafka. Em primeira análise é mister dizer que a base da força desse escrito é a sua atualidade. Mesmo depois de quase um século, a idéia central de “A Metamorfose” segue como tema de ordem do dia. Kafka redige seu texto às vésperas da primeira grande guerra na fase conhecida como crise da “Bélle Époque”. Nesse momento histórico o homem se vê em um dilema racional e religioso quanto a si mesmo. Era a crise nascente da modernidade oferecendo ao ente humano as mais agudas reflexões existenciais. Um dos temas mais bem trabalhados nesse livro é a impossibilidade da crença, o massacre de princípios que a esse passo estava financiado pela “nova era”, com seu espetáculo de frieza e relações impessoais. Nesse sentido, quando Samsa está metamorfoseado nesse inseto gigante, tem-se uma alegoria da falência social de nosso tempo. Convertemo-nos em seres essencialmente estranhos ao outro. Gregor é em verdade o arquétipo do homem moderno, esse desesperado, sem respostas, conforto ou esperança. O símbolo do inseto torna isso ainda mais exterior, esse animal esdrúxulo é o desprezo do homem por si mesmo.
O contemplo da pequenez humana, do estado de abandono ante a grandeza do mundo, levam aquele modesto caixeiro viajante a somatizar as penas de seu cotidiano, sendo essas de modo geral as mesmas de todos os cotidianos de qualquer homem comum. Ainda que esteja em casa na companhia dos seus, esse personagem verifica que suas experiências de vida são indissociáveis e inexpurgaveis dele, fazendo-o assim remoto por ser dono de um legado singular. Há também o fetiche da libertação, quando aquele homem se vê alheio ao mundo, sente-se de alguma sorte realizado em não estar mais participando de relações a seus olhos abomináveis.
Então por força sua atual forma, a de uma barata enorme, ele tem uma espécie de vingança inconsciente. Já não é mais o escravizado arrimo de família, já não é mais o vendedor obrigado a sorrir. Todavia, ao passo que se deleita, Gregor sente-se oprimido ao verificar que sua forma física não esta suficiente à expressão de tudo quanto sente. Sua repulsa acumulada pela família de exploradores, pelo insensível patrão, pela hipócrita social. Sentindo mais uma vez a impossibilidade de ação que é própria do homem médio em todos os lugares.
Gregor Samsa é em última análise um ser desprovido do “animus” da mudança, amordaçado em sua condição de filho dominado, de empregado explorado, de aspirante decadente a burguês. Como se aos poucos os pequenos fracassos fossem se sedimentando dentro dele de tal forma a reduzir-se em um animal treinado, abraçando assim a condição subumana. Para compreender o estruturalismo da psique desse personagem, possivelmente o momento mais simbólico é aquele em que seu pai atira-lhe uma maçã com intenção de matá-lo, isso sugere um algo bem edipiano e mau resolvido, dando assim as linhas gerais para o entendimento de sua inanição frente às desventuras do mundo. Há uma sugestão por parte de Kafka de que o pai de Gregor, aquela besta insensível, o tenha reduzido à condição de uma barata gigante mas, em verdade quem o tempo todo não arcou com o ônus da transformação foi o próprio Gregor.
Por fim vem a morte do protagonista em forma de libertação, tanto para ele quanto para os outros. Sua vida apática era um impecilio, um mal que acabara de ser curado. A irmã sai da completa solidão do lar para o convívio externo, o pai se vê remoçado. A morte de Samsa representa um marco na recuperação do tempo perdido, assim, por mais solitário que o homem esteja, sua existencia produz transformações nos outros.
A mensagem contida nessa idéia de transcendente do eu tem eco filosófico, psicológico e religioso muito acentuado. É o eterno discurso da imolação da carne própria em favor alheio, ainda que isso se dê de maneira involuntária. Dessa forma “A Metamorfose” nos convida a uma reflexão profunda acerca do papel do indivíduo no corpo social, seja em âmbito externo ou privado. O texto de Kafka é antes de mais nada um questionamento severo, sobre para onde caminha o ser guiado tão somente pela razão instrumental, pelas relações de consumo de nosso tempo, pelo desconhecimento do outro. É deveras ao leitor atento um texto imprescindível.

*Leandro M. de Oliveira

Metamorfose, um breve delírio

"Numa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num monstruoso inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou a figura convexa de seu ventre escuro sulcado por pronunciadas ondulações, em cuja proeminência a colcha dificilmente mantinha a posição, estava visivelmente a ponto de escorregar até o solo. Comparadas ao resto do corpo e às suas antigas pernas, agora possuía inúmeras as inúmeras patas, todas lamentavelmente esquálidas, oferecendo a seus olhos um espetáculo inconsistente de uma agitação sem governo.

- Que me aconteceu ?

Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhado e em completa desordem, um vasto mostruário de tecidos: Samsa era caixeiro-viajante, pendia uma fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, muito aprumada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado (ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela) isso infundiu-lhe uma melancolia aguda. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? — cogitou."
(Franz Kafka)

Sobre o Autor e sua obra:
Franz Kafka nasceu em Praga, hoje capital da República Tcheca, em 3 de julho de 1883, e faleceu com 40 anos, em Klosterneuburg, cidade austríaca, em 3 de junho de 1924. Foi um dos maiores escritores de ficção da língua alemã do século XX. Sua família era da classe média judia, e estabelecida em Praga, Áustria-Hungria (agora República Tcheca).

O corpo de sua obra escrita destaca-se entre as mais influentes da literatura ocidental. No entanto, solitário e com a vida afetiva marcada por irresoluções e frustrações, Kafka nunca atingiu fama ou fortuna com seus livros, a maioria editados postumamente.

Seu estilo literário, presente em obras como a novela "A Metamorfose " de onde é extraído o trecho acima, retratam indivíduos inseridos no pesadelo de um mundo impessoal e burocrático. Seu estilo é despegado, imparcial, atencioso ao menor detalhe, verdadeiro e realista. Seus personagens são o retrato do homem do século XX, com todas as cismas e conflitos existenciais.

*Leandro M. de Oliveira
** Tradução de minha lavra comparando versões em português e espanhol