quinta-feira, 9 de abril de 2009

O Consolo de Zeus

“Quando buscávamos o amor, quando nos apaixonávamos, estávamos em busca da outra metade que tínhamos perdido, como tinha dito Aristófanes, mas também Platão num discurso atribuído a Aristófanes. No início, homens e mulheres eram redondos como o sol e a lua, eram ambos macho e fêmea e tinham dois órgãos genitais. Em alguns casos ambos os órgãos eram machos. E o mito continuava. Estes eram seres auto-suficientes e orgulhosos. Desafiaram os deuses do Olimpo, que os puniram cortando-os ao meio. Foi esta mutilação que a humanidade sofreu. De modo que, geração após geração, buscamos a outra metade, ansiando ser de novo inteiros.

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Ser-se humano era ser-se mutilado, amputado. O homem é incompleto. Zeus é um tirano. O Monte Olimpo é uma tirania. O trabalho da humanidade no seu estado amputado é procurar a metade que falta. E, após tantas gerações, a nossa verdadeira metade simplesmente não é encontrada. Eros é uma compensação outorgada por Zeus – provavelmente por motivos políticos próprios. E a busca pela nossa outra metade é em vão. O encontro sexual permite um temporário esquecimento de nós próprios, mas a dolorosa consciência da nossa mutilação é permanente.

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As pessoas são vencidas por fim pelos seus desejos solitários e pelo intolerável isolamento. Elas precisam da certa, da porção que falta para ficarem completas e, como em termos realistas não podem esperar encontrá-la, acabam por aceitar um substituto razoável. Reconhecendo que não podem nunca, acomodam-se. O casamento entre espíritos verdadeiros raramente ocorre. O amor que se busca a si próprio até aos limites do destino não é um projeto moderno."

*Saul Bellow in Ravelstein

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