quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A Liberdade é um Discurso Político?

Nós começamos a tomar consciência da liberdade ou do seu oposto na nossa relação com os outros, não na relação com nós próprios. Antes de se ter tornado um atributo do pensamento ou uma característica da vontade, a liberdade era entendida como a situação do homem livre, que lhe permitia mover-se, sair de casa, dirigir-se para o mundo e reunir-se com outras pessoas, falar com elas. Esta situação da liberdade era claramente precedida por uma libertação: para ser livre, o homem tinha primeiro de se libertar das necessidades da vida. Mas a situação de liberdade não decorria automaticamente desse ato de libertação. A liberdade requeria, para além da mera libertação, a companhia de outros homens que estivessem no mesmo estado, e requeria também um espaço público comum onde estes pudessem ser encontrados - ou seja, um mundo politicamente organizado, no qual os homens livres se pudessem integrar através da ação e da palavra.

É claro que a liberdade não caracteriza todas as formas de relacionamento humano nem todos os tipos de comunidade. Onde os homens vivem em conjunto sem formarem um corpo político - como acontece, por exemplo, nas sociedades tribais ou na privacidade do lar - os fatores que regem a sua ação e a sua conduta são, não a liberdade, mas as necessidades da vida e as dificuldades relacionadas com a sua preservação. Além disso, onde o mundo feito-pelo-homem não se converte em cenário para o discurso e para a ação - como nas comunidades governadas de um modo despótico, que expulsam os seus súditos para a estreiteza do lar e assim impedem a formação de uma esfera pública - a liberdade carece de realidade mundana. Sem uma esfera pública politicamente garantida, a liberdade fica sem espaço onde emergir. Claro que pode sempre habitar no coração dos homens como desejo ou vontade ou esperança ou anseio; mas o coração humano, como todos sabemos, é um local bastante escuro, e o que quer que aconteça na sua obscuridade dificilmente pode ser considerado um fato demonstrável. A liberdade como fato demonstrável coincide com a política, e as duas estão intimamente relacionadas.
*Hannah Arendt

3 comentários:

Daniel Souza disse...

Olá Leandro;
Satisfação em vê-lo aqui. Comentei com Renata sobre o blog que comecei a publicar, ela comentou que você também tem um.

Quanto ao texto em questão:
Faria um questionamento: porque a liberdade se dá no discurso político, conforme tão claro ficou no seu texto? Hannah Arendt nos assegurará que é na ausência do ar que nós o valorizamos. Assim também é a ausência de uma liberdade (política e não ontológica) que entendemos seu caráter indelével. Assim, a força do dialógo manifesta-se como a robustez da liberdade.

Daniel Souza disse...

Leandro;
Concordo com o exposto. A liberdade na sua plenitude se dá no dialógo. Resta-nos, portanto, saber se é, de fato, possível uma liberdade ontológica. Isto é, num sentido kantiano, representar a nós mesmos como seres portadores de uma liberdade e, como se traduz esta liberdade ontológica?

Abraços!

Caяoℓ Łeaℓ disse...

Seu Blog ta muito legal, parabéns! Mas que tal colocar seu blog com dominio proprio, muito mais facil das pessoas aprenderem seu endereço. Caso tenha interesse entre em contato conosco pelo endereço www.carolleal.com.br.