quinta-feira, 22 de julho de 2010

Balanço do Século XX

Ha alguns dias uma pessoa me propôs uma leitura do séc. XX, um exercício de pensar a respeito do que enfim significou esse espaço de tempo na história. O choque de contradições que o moldou e a situação herdada pelo mundo nascida da dialética desses conflitos. Essa análise é interessante para compreender a constrção de alguns paradigmas e em que medida devem ser mantidos ou rediscutidos por nós. De acordo com o grande historiador egípicio Eric Hobsbawm, pode-se resumir os pontos nevralgicos desse tempo mais ou menos como se segue:

1. Uma tecnologia em avanço constante. Um mundo muito mais rico em sua capacidade de produzir bens e serviços, em grande variedade. Uma revolução nos transportes e nas comunicações, que encurtou o tempo e as distâncias.

2. Uma população mundial muitas vezes maior do que jamais antes na história da humanidade. Uma redução drástica da população agrícola, em face do êxodo maciço do campo e do aparecimento de cidades gigantescas (hoje mais no Terceiro Mundo, enquanto as grandes cidades das nações desenvolvidas caem para patamares mais baixos).

3. A humanidade tornou-se mais culta. A maioria das pessoas é considerada alfabetizada -- embora seja crescente o enorme fosso entre o analfabetismo funcional e o domínio da leitura e da escrita.

4. Nas últimas décadas, a maioria das pessoas vivia melhor do que seus pais, principalmente nas economias avançadas. Entretanto, a desigualdade econômica e social voltava a prevalecer no final do Século -- mesmo nos países mais ricos.

5. Foi o Século mais assassino: guerras (freqüentes, extensas e em grande escala), genocídios e fomes. As guerras, agora "sem limites", têm sido travadas cada vez mais contra as populações civis e contra a infra-estrutura do país. A nova impessoalidade da guerra: a tecnologia torna suas vítimas invisíveis.

6. Uma acentuada regressão à barbárie: condições de vida não-civilizada, crescente brutalidade e desumanização. A volta da tortura e do extermínio pelo Estado (apesar de ser uma época de desenvolvimento jurídico). Milhões de pessoas, na condição de refugiados, são forçadas a cruzar fronteiras, repatriadas e desenraizadas.

7. Queda dos grandes impérios coloniais e declínio da Europa como centro da civilização ocidental. Os europeus são hoje uma minoria decrescente, uma minoria cercada, erguendo barricadas contra a pressão da imigração das regiões pobres do mundo. Por outro lado, consolida-se a hegemonia mundial dos Estados Unidos (que também enfrenta a pressão da imigração, da América Latina).

8. A globalização das economias: uma economia mundial única, cada vez mais integrada, operando por sobre as fronteiras dos Estados, com predomínio das grandes empresas multinacionais. Os Estados-nação viram-se limitados em sua soberania pelas forças dessa economia transnacional (restringindo também a implantação das políticas sociais).

9. A economia cada vez mais dominada pelas grandes corporações, tornando balela termos como "livre competição" e "economia de livre mercado". E sem esperanças de se restaurar a velha economia liberal, de livre concorrência, do Século XIX.

10. Após uma Era de Catástrofes, notadamente na Europa (duas Grandes Guerras, nazi-fascismo, depressão econômica no entre-guerras), seguida de uma Era de Ouro (dos anos 50 até o início dos 70), quando o desenvolvimento material parecia ilimitado e duradouro (sem preocupações com o meio ambiente), vivemos no final do Século uma Era de Crise, com o desmoronamento do mundo socialista e do Estado de Bem Estar Social nos países capitalistas avançados. No Terceiro Mundo, crise, tensões e conflitos permanentes.

11. A crise agora é global, afeta todas as partes do mundo -- mesmo que de maneiras e em graus diferentes. É uma era de problemas de longo prazo que os teóricos do livre mercado não conseguem resolver: desemprego em massa, contrastes sociais cada vez maiores, depressões econômicas cíclicas, etc.

12. A desintegração dos velhos padrões de relacionamento social humano. A quebra dos elos entre as gerações. A predominância do individualismo, principalmente no capitalismo ocidental: sociedades formadas por pessoas egocentradas, em busca apenas da própria satisfação (o prazer, o lucro, etc.). A própria força econômica do capitalismo acabaria por desintegrar partes do passado que antes achava conveniente ou mesmo essencial para o seu desenvolvimento: a família, a religião, o trabalho árduo, etc.

Quanto ao fim disso? Bem, todos somos em si um fim e um começo, dessa forma o projeto é infinito embora se recicle e se reinvente. Cabe a nós, agentes da história construir o que esta por vir. Que o novo suprima o antigo, que o porvir revele frutos mais adocicados.
*Leandro M. de Oliveira
**Eric Hobsbawm

terça-feira, 20 de julho de 2010

O fim e essas coisas

“Um minuto de vida ainda é vida”
(Autor desconhecido em uma parede de auschwitz)

E deixe-me voltar ao que sei. Da reza, vela, menina morta. Corpo que flutua no alqueire da lembrança perdida. Que perdidamente pude me apaixonar tantas vezes; não o fiz, não o quis, não o pude querer fazer. De sal de terra corrompida é a ferida em cada pé. Capitães devassos, donzelas frígidas, estivadores sem porto, cães que ladram de dia, uma floresta de sistemas respiratórios a soterrar o que dantes leve foi. A consciência do mundo é um cadinho de desesperanças. Meu jardim foi infestado, senhoras hediondas, metáforas inverossímeis... Onde estão meus óculos de ficar cego? Por deus, se há acaso deuses aqui!

O mar que é massa de água por fora, é tormenta líquida por dentro, sem contudo deixar de ser massa ou água. Dêem-me um sedativo barato ou me deixem dormir de calças azuis, a imaginação deixou de fazer sentido quando todo o sentido se perdeu. Algumas flores saúdam minha passagem pelo relvado, elas devem me ver como um gnomo ou elfo perdido de sua gente. Isso me faz sentir uma compaixão profunda, saber que há quem acredite no espírito de corpos em decomposição. O feerismo deve habitar instâncias mais altas que a de um pântano travestido, isso não seria digno a quem acredita.

Preciso continuar, preciso estuprar a terra com minha verdade inventada. O mundo sou eu, o nada é meu peito! Sobre a vista cansada um constelação de mil Judas querem trair os sentidos, abaixo dos pés um lamaçal de um milhão de olhos famintos me consome a recomeço. Arremedo de gente, cidade perdida no tempo, paixão achada no ontem. O bojo de um seio que alimente a promessa do longínquo de todo passado, alheio a qualquer início, o que se passa é a mentira de um Oasis em terra infértil. Só os sonhos são felizes, pelo menos isso válido às crianças que tiveram família. Depois vem a vida, e as crianças são dissolvidas junto com seus sonhos.

Quero um bilhete só de ida, o papel da impressora acabou. Existe um sentido de impunidade em apodrecer cativo num país que tem a prisão perpétua como uma prática abominável. Se fosse possível uma amigdalectomia na alma, talvez conseguisse vomitar as chaves da cela. Já passou, elas foram apropriadas pelas paredes do estômago. O dilema da vida tem mais em comum com um cão que corre atrás do próprio rabo que com algo profundamente poético. As coisas se repetem insuportavelmente, se remoçam e voltam quando parecem já ultrapassadas. Eles querem que você cave com os dentes até que a gengiva reste em carne viva, que você roa as unhas até terminar por comer os dedos. Quando nada mais restar pode acontecer que esse ninguém tenha se tornado um Ser livre, isso se você ainda tiver fôlego e pouco daquilo que diferencia o conquistador das pessoas ordinárias.

Pode gritar a vontade, não fará diferença, sua voz foi roubada há anos. O ruído desarticulado que sai de sua boca não é mais que blasfêmia a tudo quanto houve de belo. Eu só queria retornar ao passado, mas o tempo é a mentira mais perigosa. Para Getúlio Vargas o único tempo possível é aquele preso ao instante em que uma bala lhe foi desfechada ao coração, assim como para uma donzela solitária o tempo será eternamente o momento de partida do amado. Todos boiamos num rio sem correnteza, isso é incondicional.

Que a terra lhe seja leve, ou pesada como queira. Construir um modo de sobrevivência nesses tempos tem haver com a capacidade de fuga. Dêem-me um comprimido de dormir com princípio ativo de religião, claro, se os de sexo, agressão e ou dinheiro já tiverem se esgotado. Há mais farmácias no mundo do que supõe nossa vã filosofia. Não fique feliz tão rápido, o uso repetitivo de analgésicos e sedativos os fazem perder efeito. É uma dor insuportável quando acontece... Você reza antes de dormir? Prepare-se para praguejar a partir de agora, esse é um lugar de desesperança, só a maldição triunfa.

O que pensei fazer foi dar um aviso, não uma solução. O enigma das coisas parece irremediável, mesmo quando são por demais simples. Para estar alheio é preciso estar no todo, e sendo tudo pode-se ser um nada, estar alforriado enfim. Deus é o grande vazio, não sei qual a coerência disso, mas é confortável pensar que se possa ir um dia para o aquém do picadeiro. A imaginação subverte o óbvio da vida. Mesmo havendo um só lugar e um único tempo, escrever isso é como sentir no corpo as lacunas deixadas por pedaços que se perderam. O excelente é ter descoberto como estar longe, de tudo fui um andarilho só, nenhuma novidade foi surpresa, nenhuma noite foi intangível. Todavia, não houve por onde fosse uma só alma, planta ou horizonte que não me tenha compartido.


*Leandro M. de Oliveira

Don Juan (A presa vem às cercanias de seu predador)

O momento passou sem que ela lesse os sinais do caminho. A premonição é um dom mais ordinário do que se imagina, mas as pessoas esquecem. Todos os avisos possíveis foram dados previamente, muito embora se reconheça que meus quadris os tenham dissimulado. Agora é uma viagem sem volta. Trarei meu coração vazio e a horda de cães famintos que me habitam em toda parte. Se fossemos espíritos tão grandiosos não estaríamos aqui, a fama ou a vitória é uma quimera cega. Por um momento ela hesitou de mim, mas a sensação de perigo é qualquer coisa como fugir ou estar de férias. Transgredir tem seu preço, é provável que aceitar a própria modéstia fosse uma garantia de perenidade. Pode ser. Então Don Juan não existiria e todos seriamos gado pastoreado do rebanho tedioso e uniforme. Não que eu a vá transformar em coisa mais digna.

Desde cedo compreendi que a brancura do couro virgem não combina com o negro de minhas sombras. Isso te excita mais que o aparente, vejamos de uma vez como você suporta o frenesi do carinho de mãos que n’alma soam como navalha afiada. Abrirei uma chaga no horto de teus sonhos, caso eles sobrevivam ao que esta por vir. A consciência de ter sido vomitado pelo universo não é exatamente algo reconfortante, mas sobretudo pedagógico. Quando não se espera nada de alguém ele é livre para ser o que quiser, mesmo não entendendo o que isso significa. Estar alheio ao comum confere uma espécie de onipotência, isso deve ser vivido em silêncio, a trilha de corpos já é alarde suficiente. Por que você não manteve distância antes que eu descobrisse que era só uma mulher? O seu direito à fuga acaba de ser cerceado, se houvesse uma próxima vez eu recomendaria mais cautela. Ninguém nunca conseguiu durar tanto tempo. Acredite em mim, você não é nem um pouco melhor.

Quando isso terminar... Não saberia o que dizer. Mergulharei em tuas entranhas como um javali selvagem rasga a pradaria. Terei ardor ao comer de tua carne, ao beber de teu sangue, mesmo não sendo algo pessoal. Sou refém da história que me deram, o que faço não é por vaidade, tudo é um fim em si mesmo. Essa, aquela, loura, parda, ruiva, completamente incidental. Não sinto amor, nem ódio, nem tristeza ou alegria. Essa situação pode parecer perversidade de minha parte, não é. Isso nada tem haver com discursos morais ou outras mentiras quaisquer, a questão aqui envolve apenas uma compreensão mais refinada da cadeia alimentar. Pedir ou berrar, a partir desse ponto ja é irrelevante. Ninguém me ensinou outros modos, a única coisa que sei é queimar plantações e derrubar casas, por mais vistosas que sejam.

Existe uma beleza intransponível na tragédia, se quer um sobrevôo pela vida, meu corpo é o único planador possível. O leito que te afaga e a dor que te há de consumir. Quando for levantar pela manhã, não estranhe a falta de paladar no café, é natural a quem já está morto. O prazer é um cavalo selvagem, sempre derruba quem nele monta sem demonstrar cautela. Eu só venho cobrar a tua dívida, nada mais. Olhe-me nos olhos enquanto escarro em teu rosto, esse é um gesto da minha ternura mais profunda. Quero que você se concentre no que havia antes de mim, porque agora tudo foi perdido.
*Leandro M. de Oliveira

O ethos e a genética

A seleção natural, nos tempos ancestrais, quando vivíamos em bandos pequenos e estáveis como o dos babuínos, programou impulsos altruístas em nosso cérebro, junto com impulsos sexuais, impulsos de fome, impulsos xenofóbicos, e assim por diante. Um casal inteligente pode ler Darwin e ficar sabendo que o motivo último de seus impulsos sexuais é a procriação. Eles sabem que a mulher não ficará grávida porque está tomando pílula. Mesmo assim seu interesse sexual não fica diminuído por conta desse conhecimento. Desejo sexual é desejo sexual, e sua força, na psicologia individual, independe da pressão darwiniana que o provocou. É um forte impulso que existe de forma independente de sua explicação racional.

Estou sugerindo que a mesma coisa aconteça com a bondade — com o altruísmo, a generosidade, a empatia, a compaixão. Nos tempos ancestrais, só tínhamos a oportunidade de ser altruístas em relação aos parentes próximos e a potenciais replicadores. Hoje essa restrição não existe mais, mas a regra geral persiste. Por que não persistiria? É a mesma coisa que o desejo sexual. Não podemos fazer nada para deixar de sentir pena quando vemos um desafortunado chorando (mesmo que não seja nosso parente nem seja capaz de retribuir), assim como não podemos fazer nada para deixar de sentir desejo por um integrante do sexo oposto (que pode ser estéril ou incapaz de reproduzir). As duas situações são “erros”, equívocos darwinianos: equívocos abençoados e maravilhosos.

Não encare nem por um segundo essa darwinização como desmerecedora das nobres emoções da compaixão e da generosidade. Nem do desejo sexual. O desejo sexual, quando canalizado pelos conduítes da cultura linguística, ressurge na forma de grandes obras de poesia e de dramaturgia: os poemas de amor de John Donne, por exemplo, ou Romeu e Julieta. E é claro que a mesma coisa acontece com o redirecionamento equivocado da compaixão baseada no parentesco e na retribuição. A piedade em relação a um devedor, quando vista fora de contexto, é tão antidarwiniana quanto adotar o filho de outra pessoa.
*Richard Dawkins

Deus Existe? (parte 2)

O Argumento do Desígnio

O Argumento do Desígnio (também conhecido como Argumento Teleológico) parte do fato de que o universo comporta toda a espécie de padrões ou de regularidades, tão diferentes como os intrincados padrões dos flocos de neve, a lei da atração universal e a maravilhosa complexidade do corpo humano. Algumas espécies de ordem (como, por exemplo, a ordem num mecanismo de um relógio de pulso ou na construção de uma represa por um castor) são explicadas pelo homem ou por outros animais. Mas muitas regularidades não podem ser explicadas dessa maneira; por exemplo, a ordem dos cristais ou a constância do ponto de fusão de cada uma das diferentes espécies de elementos. O argumento do desígnio postula um deus para explicar essas espécies de ordem que não são explicadas de outra maneira. Eis uma versão do argumento do desígnio:

1. Há ordem no universo.

2. Mas a ordem não pode existir sem desígnio. (Isto é, sem um projetista).

3. Logo, deve haver um projetista: Deus.

A força psicológica e apelativa do argumento é óbvia. A estonteante e maravilhosa complexidade de algo como o corpo humano parece gritar por um projetista ? um ser que calculou como funcionaria e depois o compôs. Nem a teoria da evolução satisfaz esta necessidade, dado que os detalhes de tais teorias dependem de leis da física e da química que, elas mesmas, exibem maravilhosas regularidades. No entanto o argumento tem falhas sérias ou mesmo fatais.

Objeções ao Argumento do Desígnio

A objeção mais óbvia é a de que, no melhor dos casos, o argumento do desígnio apenas prova que há um projetista e não um Deus padrão, tal como o argumento da causa primeira apenas provaria que há uma primeira causa. O projetista, claro, não precisa ser um Deus padrão; poderia muito bem ser o diabo, muitos deuses, um outro deus ou, talvez, um deus já falecido. Mas o argumento do desígnio nem sequer prova tanto porque a sua segunda premissa (a de que a ordem nem poderia existir sem um ordenador) é duvidosa, para não dizer pior. Porquê assumir que a ordem não pode existir sem um organizador?

Afirma-se muitas vezes que podemos justificar a existência de um projetista por um método chamado indução. Verifica-se que muitas coisas que manifestam ordem (relógios de pulso, por exemplo) foram deliberadamente compostas por projetistas humanos ou animais. Já vimos muitos relógios que sabemos que são projetados por humanos mas nunca vimos um que, sendo investigado, provasse não ter sido assim projetado. Portanto, se agora nós descobrirmos um relógio de pulso na areia de uma praia deserta. Assumimos (por indução) que ele também foi projetado por humanos.

Flocos de neve, as leis da natureza e o corpo humano manifestam ordem (apesar de, claro, nunca termos visto um projetista, humano ou não, a projetá-los). Sabemos, claro, que os seres humanos (ou noutros animais) não podem tê-los ordenado, pelo que concluímos, por indução, algum organizador não animal, nomeadamente Deus, deve tê-los feito assim.

Mas esta conclusão não está justificada. Quando concluímos por indução que o relógio de pulso encontrado na areia não se ajeitou sozinho ou que não apareceu completo por acidente, e que, portanto, deve ter sido projetado por seres humanos, estamos seguros. O nosso argumento assemelha-se a isto:

1. Já foram observados muitos relógios de pulso, e todos os que foram examinados foram projetados por humanos.

2. Este relógio deve ter sido projetado por seres humanos.

Podemos, inclusive, argumentar em termos mais gerais e, portanto, de uma maneira mais poderosa, assim:

1. Muitos dispositivos mecânicos foram já observados, e de todos os que foram examinados se concluiu que foram projetados por humanos.

2. Este dispositivo mecânico (que, por acaso, é um relógio de pulso) deve ter sido projetado por seres humanos.

Notemos agora quão mais geral um argumento teria de ser para nos levar até um projetista de flocos de neve, leis da natureza ou seres humanos:

1. Muitas das coisas organizadas têm sido observadas e de todas as que foram examinadas se concluiu que foram projetadas por humanos.

2. Esta coisa organizada (que, por acaso, é um floco de neve, uma lei da natureza ou um ser humano) deve ter sido projetada por um projetista.

O argumento é claramente defeituoso porque a sua premissa é obviamente falsa. Há um grande número de coisas ordenadas para as quais não descobrimos um projetista ou um organizador ? flocos de neve, arco-íris, cristais e seres humanos são alguns. (Se há um deus que projetou todas essas coisas, então, para observarmos o projetista de flocos de neve a trabalhar, teríamos de apanhar Deus no ato de os amoldar a partir de H20, ou, talvez, de o apanhar no ato de criar as leis da física de que resulta que H20 se compõe a si mesmo em flocos de neve).

O ponto é o de que as coisas que manifestam ordem parecem cair em duas classes distintas: aquelas que nós (ou outros animais) ordenaram; aquelas que não ordenamos. Já verificamos e encontramos muitos itens da primeira classe que são projetados por humanos. Mas nunca encontramos um projetista para um só membro da segunda classe. Portanto, não estamos autorizados a concluir por indução que toda a ordem implica um organizador ou um projetista, logo o argumento pelo desígnio não pode ser apoiado pelo raciocínio indutivo. Se estamos prontos para o aceitar, devemos estar a fazê-lo sem razão, isto é, pela fé.

A aposta de Pascal

O grande matemático e filósofo francês, Blaise Pascal (1632-1662), argumentou pela existência de Deus de maneira algo diferente:

“Deus existe ou Deus não existe… Que apostarás tu? De acordo com a razão, não poderás fazer nem uma coisa nem outra; de acordo com a razão não poderás defender nenhuma das opções… mas deves apostar. [E quanto à] tua felicidade? Pesemos ganhos e perdas apostando que Deus existe… Se ganhares (a aposta), ganhas tudo; se perderes, não perdes nada. Aposta então, sem hesitação, que Ele existe.”

A base da aposta de Pascal parece ser esta: devemos apostar (acreditar) em que Deus existe ou em que Deus não existe. Se Deus não existe, aquilo em que apostarmos fará pouca diferença. Mas se ele existir, fazemos um grande negócio. Assim a pessoa esperta ou sensata apostará (acreditará) que Deus existe.

Objeções à aposta de Pascal

Em primeiro lugar, Pascal está enganado na sua crença de que devemos apostar contra ou a favor da existência de Deus. Podemos optar por permanecer nas margens como faz o agnóstico. Claro que nesse caso podemos perder o prémio, se houver um prémio, por termos apostado incorretamente. Mas Pascal não pode provar que há tal prémio.

Em segundo lugar, a aposta não é tão simples como Pascal pensou porque há um número indefinido de possíveis criadores. O Deus cristão padrão em quem Pascal apostou é apenas um deles. Assim, o número de possibilidades para apostar é muito maior do que duas e jogadores racionais não têm a possibilidade de escolher mesmo que queiram escolher um Deus ou outro. Por outras palavras, se a aposta de Pascal faz sentido, será tão razoável apostar num deus lua ou deus sol como no Deus dos Judeus, Cristão ou Muçulmano.

E, finalmente, não há nenhuma prova ou razão para supor que ganhamos um prémio se apostarmos no Deus que de fato exista. Porque não podemos assumir sem razões que Deus recompense os crentes ou que puna os descrentes. (De fato, em última análise o próprio Pascal apelou à revelação ou fé). Pelo contrário, as intuições de muitos de nós dizem precisamente o contrário talvez porque quando nos tentamos pôr no lugar de Deus, percebemos que estaríamos inclinados a olhar a crença baseada na aposta de Pascal como sendo hipócrita. Deus, se existir, pode impressionar-se bem mais com a honestidade daqueles que não conseguiram apostar (acreditar) na ausência de provas do que com aqueles que acreditam porque pensam que é prudente fazê-lo.
*Howard Kahane

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Minotauro

Depois de algum tempo a descoberta de estar colocado em um mundo de cabeça pra baixo é inevitável. Parece algo como enfiar as mãos em bolsos furados, ou um parto de cócoras sem auxílio profissional. Não há um analgésico específico, se a criança possuir saúde frágil, os recursos de tratamento são precários. O que ainda se pode tentar é ser resignado com a tragédia surda de mãos e olhos. Celebrar Baco com um copo sujo de água ferruginosa. Os Deuses foram exilados, a alegria também. Nos dias em que se passam é como que ser grande significa regredir ao pequeno, evadir-se ao triunfo em nome da piedade vã. A cratera dos mundos foi aberta a nossos pés, ninguém pode se sentir isento por não ter saltado. A vida é impiedosa àquele que hesita.

No meio de uma noite hipotética, dois carinhos se buscam, hipoteticamente. Esperar o encontro aqui, é como viver abaixo da linha da miséria. Ademais do inverno, entre as árvores e o impossível, uma revolução botânica prepara a primavera. Lírios, cravos, jasmins, rosas, amores-perfeitos... Essa apoteose dos bosques murmura nas veias da terra. O ar quer se tornar respirável de novo, liquens de formas inverossímeis são depositados pela relva. E eu que tenho estado daltônico, vejo a explosão de cores como um filme dos anos 30. A nostalgia é para o homem como estrelas são para o céu, ou o vômito é para o bêbado. Ha quem se conforte em carregar um cadáver nas costas, adorar um defunto conhecido pode ser mais estável que apostar em uma vida ainda por descobrir. O problema é que a matéria se decompõe e o corpo de quem carrega o cadáver, por extensão, acaba convertido em cemitério ambulante.

Dais as traças uma colônia no lado esquerdo de teu peito!

Abaixo de galhos, bromélias e sonhos, uma turba de jovens prageja contra o desabrochar das flores. Há um terrorismo cruel nos jardins. Atravessar um canteiro de orquídeas é muito mais difícil que saltar de um penhasco. A beleza põe abaixo o ímpeto. É impossível fugir, lá fora, leões e panteras desfecham golpes no ar, aqui dentro, mães choram por filhos que nunca nasceram. A morte faz pensar no que vem depois, isso não se aplica ha uma morte anterior à vida. Ver a bailarina rodopiante e ter no corpo o vigor exaurido para acompanhar a dança. Mergulhar sem querer num passado em que as coisas eram simples, descobrir que o que resta são rugas e frases de adeus mal formuladas.

E essa figura dourada invade a tela, a cena, a desesperança. Deve-se sentir compaixão por ela, que ainda não entendeu o propósito disso. Os homens nada mais são que escombros de si mesmos. Aquele encanto original só é possível quando inédito. Especular já significa ter certeza de algo, a condução do caminho fica mais branda quando estão obsoletos sentido e razão. Entregar-se, calcular-se, escarrar-se. A revolta parece ser o salário do que é parcial, há um vazio sublime na totalidade. Reorientemos as coordenadas porque, o fim da palavra é o silêncio, do mesmo modo como o do algo é o nada. Ou não é?

Talvez aconteça que o silêncio da palavra seja o que faz dela mais grave e constante. Que o não existir é a substância única de tudo quanto pode haver. Quem vai ter a chave do dilema, o que julgar certo numa terra onde nada tem sentido... As palavras conseguem incendiar, ou congelar o homem mais constante, ainda que sejam abstrações da mente irrequieta ou convulsões da alma em descaminho. Reencontrar nelas a verdade, do pensamento ou do vazio, é como amputar uma parte do próprio corpo. Quero me deitar num sono leve, sem contudo saber exprimir o que estará acontecendo.

Não importa quanto tempo se dedique, no final tudo termina do jeito mais ingrato possível.

Escrever é a última coisa que resta depois que se traiu alguém...
*Leandro M. de Oliveira

Don Juan

(Em lugar algum perdido jovens sem futuro tramam cartas de amor,
senhoras puras maculam seus leitos beatos,
e enquanto isso um homem desesperado é sincero pela primeira vez...)

Dama de longos estivais, se me é permitido um conselho vos dou, esqueça a vaidade de teu nome. Suas veias ardem porque estão dominadas pela ambição invencível, pelo frenesi desmesurado e ancestral que leva o homem a pensar um estado de invulnerabilidade. Como uma sombra do tártaro, as seduções levianas do que pode haver de “casto” amordaçam seu corpo, enquanto o interior sequioso de suas coxas vislumbra coisas que vão além de uma retração absurda. Eu estava lá quando tudo começou... Essa jaula não comporta a geometria de tuas curvas, perecer em auto-degradação é coisa entregue a deuses e loucos.

Eventualmente você tem sentido um calafrio entre as pernas, como se minha barba mal feita roçasse lugares proibidos. Nesse momento seu corpo muda num arrepio inconsútil, a eletricidade te faz desesperar... Alheio ao entorno, seu corpo arcaico mostra sinais de vencida, seus olhos gritam como dois faróis. Reconhecer a força do oponente não é estar derrotado. Eu inventei o traçado de seus passos, montei guarda numa espera anterior à tua vinda. Salve a alma que te resta, tudo o mais já me pertence.

Há apenas uma mulher que usa vários rostos, você não pode querer ser diferente. És a mesma que me iniciou, e a mesma a quem fiz estremecer, quando já velho encontrei-a ainda como uma flor não colhida. Você quer fugir pra um lugar onde as coisas não pareçam tão irremediáveis, mas a calamidade em seu rosto te faz imóvel. Tenha o prazer do meu corpo de um modo animal, ou reze aos céus em contrição à decadência de tua vontade. Ainda é possível escolher, mas por pouco tempo. Se isso realmente conforta, eu não sei.

Há homens bem intencionados, como o outro que te quis. Suas mãos eram formadas em meandros de calos, as minhas são do mesmo modo em sangue, vertido de hímens inocentes, sugados de jugulares incautas. Há um charme febril nos assassinos por serem homens livres, você não é a primeira a perder a compostura quando me vê. Corte meus pulsos, por favor mate-me agora.Toda beleza é fugaz, todo carinho é agressão. Posso te ensinar a sorrir um pouco, depois como sempre, terá de aprender sozinha como se chora dignamente, não importa. De qualquer forma, a essa altura já estarei longe. Tudo o que existe de relevância vive em nós, entre o suor e fúria. Piedade é o único crime que não admite perdão.

Quero rasgar jugulares, me banhar em desejo rubro. Venha à mesa do sacrifício, naquele lugar terá tudo o que procura. Não é questão de estar se gabando, vendendo a visão de um sacerdote refinado. As coisas são como são, nasci para vitimar mulheres, como algumas flores nascem para a primavera ou uma moça puritana para ser desvirginada após o matrimônio. O vacilo de seus joelhos em permanecerem firmes não é medo, só um estado de incerteza quando se sabe estar perto do fim. Farei com que isso seja inesquecível, essa será tua pena mais aguda. Caminhar no tempo presente sempre dando conta de estar ainda abrigada por um passado longínquo. Minha imaterial lembrança te fará urrar como um cão quando a lua for cheia, ou gritar de horror quando perceber que tudo é sonho, pedaço de descaminho que vive onde não se consente.

Por quê eu faço isso? Pra cada mil perguntas há um milhão de respostas. Talvez uma delas seja, porque eu posso! A benevolência é luxo de quem tem família, eu fui abortado, a vida me fez assim e me deu ao mundo como flagelo. Sodomizaria minha própria mãe se a conhecesse, não é o que se passa. A pobre que me deu a luz foi só mais uma vítima das circunstâncias. Quando penso na criança que deves ter sido ha anos atrás, quase consigo consigo ter remorso, é impossível. O tempo assim como a natureza, são forças por demais implacáveis. Exterminarei o bom de ti sem mesmo saber o por que. Quando a máscara cair, pode ser que minhas cicatrizes a incomodem. Que a luz se apague então, para que fantasmas bailem em traje de gala.

*Leandro M. do Oliveira

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Deus existe? (Parte 1)

É racional acreditar na existência do Deus padrão? Poderá apresentar-se uma boa razão ou um argumento irresistível a favor da sua existência? Alguns teístas dizem que não e baseiam a sua crença na fé, ou seja, acreditam sem provas ou razões. Outros teístas, pelo contrário, pensam que se podem construir argumentos para provar que o Deus padrão existe.

De fato, muitas espécies de razões foram apresentadas para acreditar em Deus (e as mesmas razões foram expostas para acreditar em deuses diferentes e incompatíveis). Algumas razões são facilmente classificadas de insatisfatórias. Por exemplo, o argumento de que Deus deve existir porque em quase todas as sociedades as pessoas acreditam nele. A aceitação generalizada de uma crença não é, decerto, uma boa razão para aceitá-la.

Muitas crenças falsas são ou foram quase universais (por exemplo, a de que a Terra é plana). Mais ainda, apesar de a crença num deus ou noutro ser quase universal, não há um deus em que a maioria das pessoas acredite. Como poderia, por exemplo, o fato de algumas pessoas acreditarem num deus crocodilo justificar a crença no Deus cristão? (Lembremos que a grande maioria dos crentes não acredita no Deus cristão)

Falta de razões para acreditar no contrário

Alguns crentes, notando que os agnósticos afirmam que não podemos provar que Deus não existe, seguem outra via. Argumentam que se não podemos provar que Deus não existe, então eles estão autorizados a acreditar que ele existe. Mas os ateus podem virar este argumento do avesso. Podem fazer notar que os agnósticos também afirmam que nós não podemos provar que Deus existe. Logo, se não podemos provar que Deus existe, estamos igualmente autorizados a acreditar que ele não existe. Um método de raciocínio que nos permite "provar" ambos os lados de uma disputa, não prova nenhum. A ausência de prova do contrário não é uma boa razão para acreditar em alguma coisa.

Argumentos cosmológicos

Vários argumentos estreitamente relacionados para a existência de Deus baseiam-se na aparente necessidade de o universo como um todo ter uma causa. Parecem existir três possibilidades. Ou o universo começou a existir por si só ou existiu desde sempre ou, então, foi trazido para a existência por alguma força ou ser extremamente poderoso. Geralmente, aqueles que acreditam em Deus acham incrível que o universo possa ter chegado à existência apenas por si mesmo e igualmente incrível que ele possa ter já existido durante uma quantidade infinita de tempo. Acreditam que um ser extremamente poderoso, Deus, o deve ter criado. Esta é uma das razões que as pessoas dão com mais frequência para acreditar em Deus.

O Argumento da Primeira Causa

Os argumentos da primeira causa resultam das nossas observações quotidianas das maneiras pelas quais as coisas ou acontecimentos da vida de todos os dias parecem ser causados para ser ou para ocorrer. Observamos, por exemplo, que pôr açúcar na chávena do café causa a doçura do seu gosto, que pôr água na planta causa o seu crescimento e que riscar um fósforo na presença de oxigênio o faz arder. No entanto, parece impossível explicar a existência de tudo em termos de causa e efeito, porque isso significaria que deveria haver uma série infinita (ou sem fim) de causas, o que parece impossível.

Eis uma maneira pela qual estas idéias têm sido usadas para argumentar a favor da existência de Deus:

1. Na vida de todos os dias, descobrimos que tanto os objetos como os acontecimentos são causados por outros (tal como o crescimento das plantas é provocado pela absorção de nutrientes).

2. Mas uma série infinita de causas desse tipo é impossível porque então não haveria uma primeira causa, e, portanto, não haveria uma segunda, terceira, etc.

3. Logo, deve haver uma primeira causa: Deus.

Objeções ao argumento da Causa Primeira

Em termos aproximados, podemos dizer que um argumento é conclusivo (deve persuadir-nos a aceitar a respectiva conclusão) apenas se satisfaz duas condições:

1. As suas premissas são aceitáveis ou estão justificadas.

2. As suas premissas (justificadas) fornecem provas ou razões suficientes para justificar a aceitação da conclusão (neste caso o argumento é dito válido).

Muitas pessoas que rejeitam o argumento da primeira causa acreditam que argumentos deste tipo sofrem todos de um de dois defeitos: ou as suas premissas são tão inaceitáveis ou questionáveis como as suas conclusões; ou as respectivas conclusões não se seguem validamente das premissas. Por exemplo, uma objeção levantada contra o argumento da primeira causa é o de que a segunda premissa não é aceitável (quase todas as pessoas aceitam a sua primeira premissa). Os matemáticos em particular têm argumentado a favor da possibilidade de séries infinitas de eventos ou causas em termos técnicos e alguns filósofos têm aceitado o seu raciocínio.
Suponhamos, no entanto, que rejeitamos a idéia de que pode haver uma série infinita de causas, de tal modo que ambas as premissas do argumento da causa primeira se tornam aceitáveis. Apesar disso o argumento ainda falharia em ser válido e, portanto, a aceitação da sua conclusão também não se justificaria.

Em primeiro lugar, o argumento apenas provaria que cada série de causas tem uma causa primeira ou incausada, mas não prova que todas as causas sejam parte de uma série única de causas que tenha a única primeira causa, porque é possível que nem todas as causas sejam partes de uma série única de causas. Por outras palavras, o argumento provaria que há uma ou mais causas primeiras, mas não que exista apenas uma.

Em segundo lugar, apenas provaria, no melhor dos casos, que a primeira causa existe, não que essa primeira causa seja Deus. Em vez disso, a primeira causa poderia ter sido o Diabo (um candidato plausível, dada a natureza do universo). E mesmo que o argumento tivesse provado que a primeira causa tinha de ser um deus, não provaria que ele tivesse de ser o seu Deus (se for um crente) ou um deus que encaixasse na imagem padrão que os cristãos, judeus ou muçulmanos têm de Deus. Poderia ser qualquer um dos milhares de deuses diferentes em que os seres humanos acreditam ou, talvez, um em que um ser humano nunca tenha pensado. De fato, o argumento da primeira causa abre a possibilidade de que tenha existido um Deus que criou o universo (ou talvez muitos deuses), mas que agora Deus esteja morto.

Qual é a causa da existência de Deus?

Para além das duas objeções que acabamos de levantar contra o argumento da primeira causa, há uma objeção geral a todas as espécies de provas cosmológicas da existência de Deus. Lembremos que a força do argumento cosmológico reside na idéia de que não é plausível pensar que o universo tenha brotado para a existência apenas por si mesmo. Por outras palavras, parece a muitos crentes que uma coisa tão grandiosa como o universo requer, como seu criador, um ser que seja pelo menos tão grandioso.

Mas esta linha de raciocínio põe-nos em apuros. Se um universo requer um deus para explicar a sua existência, o que explica a existência do próprio Deus? Da mesma maneira, ou Deus existiu desde sempre ou apenas apareceu ou então deve ter tido uma causa. No entanto, é tão implausível pensar que Deus sempre existiu ou que tenha simplesmente surgido, como pensar que também foi assim com o universo. O próprio raciocínio que nos leva a propor um deus como causa do universo deve levar-nos a propor um supradeus como sendo a causa de Deus. E, claro, o supradeus também precisa de uma causa, o suprasupradeus e assim infinitamente.

Portanto, sejam quais forem as voltas que dermos, o que obtemos no fim é igualmente implausível. É tão implausível um deus incausado como um universo incausado, e é tão incrível uma série infinita de causas como uma série infinita de deuses.

Em resumo, podemos desafiar as provas cosmológicas da existência de Deus de, pelo menos, três maneiras importantes. Primeiro, podemos desafiar a idéia de que uma série infinita de causas não seja possível. Segundo, podemos questionar a validade da conclusão de que há apenas uma primeira causa e de que a primeira causa seja Deus. Terceiro, podemos defender que qualquer deus proposto como primeira causa para explicar o universo precisa tanto de uma causa como o próprio universo e, assim, o argumento, se provar a existência de um deus, provará a existência de uma série infinita de deuses.

Os argumentos cosmológicos tentam explicar a existência do universo postulando um criador. Outros argumentos concluem por um deus, não para explicar o universo como um todo mas apenas para explicar alguns dos seus aspectos, tais como a existência do bem ou o fato de o universo ser ordenado em vez de ser caótico.

(continua...)
*Howard Kahane

Discutindo o Relativismo 2 (A crítica de Harry Gensler)

O relativismo cultural considera o mundo como algo que está dividido de uma forma nítida em sociedades distintas. Em cada uma delas não existe desacordo em questões morais ou apenas em pequena escala, dado que a perspectiva majoritária determina o que é considerado um bem ou um mal nessa sociedade. Mas o mundo não é assim. Pelo contrário, o mundo é uma mistura confusa de sociedades e grupos sobrepostos; e os indivíduos não seguem necessariamente o ponto de vista da maioria.

O relativismo cultural ignora o problema dos subgrupos. Todos nós fazemos parte de grupos sobrepostos. Cada um de nós, por exemplo, faz parte de uma nação, de um estado, de uma cidade, de um bairro. Além disso, cada um de nós pertence a várias comunidades, profissionais, religiosas, grupos de amigos, etc. É frequente estes grupos terem valores que estão em conflito. De acordo com o RC, quando afirmo "O racismo é um mal" pretendo dizer "A minha sociedade desaprova o racismo". Mas a que sociedade nos referimos?

Talvez a maioria das pessoas que pertencem à minha comunidade religiosa e ao meu país desaprove o racismo, enquanto a maioria dos que fazem parte do meu grupo profissional e familiar o aprovem. O relativismo cultural poderia dar-nos meios para nos conduzirmos corretamente no plano moral apenas se cada um de nós pertencesse a uma única sociedade. Mas o mundo é bastante mais complicado do que este quadro sugere. Até certo ponto, todos nós somos indivíduos multi-culturalizados.

O RC não tenta estabelecer normas comuns entre sociedades. À medida que a tecnologia invade o planeta, as disputas morais entre diferentes sociedades têm tendência para se tornarem mais importantes. O país A aprova a existência de direitos iguais para as mulheres (ou outras raças e religiões), mas o país B desaprova-o. Que deve fazer uma companhia multinacional que opera nos dois países? Ou as sociedades A e B têm conflitos de valores que conduzem à guerra. Dado que o relativismo cultural pouco nos ajuda acerca destes problemas, oferece-nos uma base muito pobre para responder às exigências da vida no século XXI.

Como responder à diversidade cultural entre sociedades? Ana rejeita a atitude dogmática do gênero "Nós estamos certos e eles errados". Percebe a necessidade de compreender as sociedades e culturas diferentes da sua própria a partir do ponto de vista dessas culturas e sociedades. Estas são idéias positivas. Mas, em seguida, afirma também que nenhum dos lados pode estar errado. Isto limita a nossa capacidade para aprender. Se a nossa cultura não pode estar errada, não pode aprender com os seus próprios erros. Compreender as normas de outras culturas não permitirá ajudar-nos a corrigir os erros das nossas próprias sociedades.

Aqueles que acreditam em valores objetivos vêem estes assuntos de um modo diferente. Poderiam defender algo como isto:

Existem verdades para descobrir no domínio moral, mas nenhuma cultura possui o monopólio destas verdades. As diferentes culturas necessitam de aprender umas com as outras. Para que tomemos consciência dos erros e dos nossos valores, é necessário conhecer como procedem as outras culturas, e de que forma reagem ao que nós fazemos. Aprender com diferentes culturas pode ajudar-nos a corrigir os nossos valores e a aproximar-nos da verdade acerca do modo como devemos viver.
*Harry Gensler

Discutindo o Relativismo 1 (A crítica de Harry Gensler)

O relativismo cultural afirma que "bem" significa o que é "socialmente aprovado" pela maioria de uma dada cultura. O infanticídio não é objetivamente um bem ou um mal; pelo contrário, é um bem numa sociedade que o aprove e um mal numa sociedade onde não obtenha aprovação.

O relativismo cultural considera que a moral é um produto da cultura. Afirma que as diferentes sociedades discordam amplamente sobre a moral e que não temos meios claros para resolver as diferenças. Os relativistas culturais consideram-se pessoas tolerantes; olham para as outras culturas não como estando "erradas" mas como "diferentes".

Apesar de inicialmente plausível, o relativismo cultural tem vários problemas. Por exemplo, torna impossível discordar dos valores da nossa sociedade. Acontece, por vezes, afirmarmos que, apesar de socialmente aprovada, uma certa atitude não é boa. E isto está em contradição com o relativismo.

Além disso, o relativismo cultural implica que a intolerância e o racismo sejam um "bem" se a sociedade o aprovar. Leva-nos ainda a aceitar as normas da nossa sociedade acriticamente.
O relativismo cultural combate a idéia de que existem valores objetivos. O ataque pode ser desmontado com facilidade se o examinarmos cuidadosamente.

São muitos os especialistas em ciências sociais que se opõem ao relativismo cultural. O psicólogo Lawrence Kohlberg, por exemplo, defende que as pessoas de todas as culturas passam pelos mesmos estádios de desenvolvimento moral.

O relativismo cultural representa um estádio relativamente baixo no qual simplesmente nos conformamos com os valores da sociedade em que vivemos. Em estádios mais avançados, o relativismo cultural é rejeitado; consideramos criticamente as normas aceites e pensamos pela nossa cabeça em questões de ordem moral.
*Harry Gensler