domingo, 4 de outubro de 2009

Al-Ma'mun

“Um dia em sonho um homem veio me visitar, ele estava sentado com a postura dos sábios. Me aproximei e perguntei:
- Quem é você?
- Sou Aristóteles o sábio.
- Aristóteles, por favor defina uma palavra justa.
- Aquela que é conforme a razão.
- O quê mais?
- Aquela que é agradável ao ouvinte.
- O quê mais?
- Aquela a qual não se deve temer as conseqüências.
- O quê mais?
- Não há mais nada. Todo o resto serve apenas para divertir os tolos.”
(Califa al-Ma'mun)

Al-Ma’mun foi o grande patrono das artes, da literatura e do conhecimento geral na história do Islam. No início do séc. IX ele reuniu em Bagdá a nata dos intelectuais de todo o mundo, persas, gregos, indianos e todos os grandes eruditos daquele tempo independente de raça ou nacionalidade. O Islam se mudou em uma civilização aberta, ansiosa pela descoberta, pela troca. Nessa época o grande califa cria “Baitul Hiqma” a casa da sabedoria, provavelmente a maior iniciativa para a reunião de conhecimento do mundo desde a grande biblioteca de Alexandria. Em Baitul Hiqma, os homens de letras tinham acesso a todos os maiores autores já existidos até aquele tempo, nesse período os trabalhos helênicos e indus, através de uma série de traduções, penetraram a cultura islâmica. Essa incorporou em seus modos o método filosófico da indagação, característico do mundo helênico - e é por esta razão que filósofos como Platão e Aristóteles passaram para as gerações seguintes, influenciando grandes pensadores muçulmanos. Tal incorporação levou a uma nova prática intelectual baseada nos princípios da pesquisa racional e, até certo ponto, ao empirismo. Assim durante o Califado de Al-Ma’mun floresceram medicina, arquitetura, poesia, mecânica... Enquanto na Europa os livros eram raros e proibidos, em Bagdá as livrarias se multiplicavam e pessoas dos pontos mais remotos para lá convergiam sua jornada à busca de conhecimento. Hoje Al-Ma’mun foi esquecido, Bagdá em outrora dita o “umbigo da terra” foi saqueada, por séculos a ex-grande mãe do conhecimento foi violentada e subvertida. Mas que todos saibam que certa vez houve um homem e uma cidade, que seu Deus amava o conhecimento e que sua religião era antes a evolução humana.

*Leandro M. de Oliveira

Um comentário:

Maria Teresa disse...

Olá, Leandro:
Muito interessantes suas reflexões sobre a palavra. Ela merece mesmo tais considerações e reverências. Abraços.