sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Esmo

A história vai, a história leva consigo o que quer, deforma, fingi, fica. E eu homem comum, estou para ela como está uma folha, inadvertidamente a boiar na corrente de um rio, que está a boiar numa placa de terra, que bóia no magnetismo dum pólo, que bóia feito esfera na amplidão dum infinito. Quantos auges e decadências, quantas partidas e chegadas, quanta existência tenho ainda de suportar? Já vivi muitas vidas, habitei muitos corpos. A cada dia passado distancio mais dos sentidos de outrora. Permaneço solto pela campa onde muitas vezes não queria estar. O ser aqui vai fluindo em estado de sobrevida, acima dos modos locais e ao mesmo tempo, emaranhado em seus meandros como raízes de um jardim suspenso. Pode ser que eternamente permaneça aqui atado, nesse estreito horizonte tendo das assas tão somente o delírio. Irremediavelmente na condição de uma pérola que cresceu por reação alérgica ou na de um objeto estranho que numa cúpula se entranha sem que ninguém o pressinta. Pra quebrar a rotina procurei trabalhar na encenação do próximo espetáculo, preparei um discurso de redentor mas, a mim só coube o papel do gentio. Não, não fui educado na casa grande. Não tive tempo apto a decorar o catecismo romano, pensei ser uma abstenção salutar o exercício de não aprender dos homens as formas tradicionais de auto-repulsa. Quis dar aos que se diziam meus um mundo novo, a mensagem não era exatamente didática, na impossibilidade do passo além recebi na fronte o selo agudo da anátema. Cresci como cedro por entre eucaliptos, ou seria o contrário? Caminhei descalço só pra ver como é sentir os pés em carne viva. Contestação como profissão de fé. Sempre o estreito ao invés do largo, porque há mais luz fora que dentro da caverna. Fartei-me das sombras dos seres, quero agora conhecer o ser, contato imediato. Não tenho etiqueta, obediência, dieta saudável. O que trago no alforje é espólio das resultantes de um carisma selvagem. Minha fúria, minha tragédia, meu cabelo mau cortado. Tenho a irrelevância do anônimo e a turba da multidão. E isso se me afigura grave e isso me confunde o julgo. No ermo das noites não dormidas, na amplidão das estradas desabitadas, ao passo que me encontro me perco. E sendo eu, não sou ninguém. E não sendo nada, sinto as humanidades mais improváveis. Meu coração é essa fenda delgada donde o sol não visita. Meu coração é o lar donde habitam os homens que não querem mais mentir a si mesmos. Eles estão aqui, eles vem de toda parte, depositando por sobre o altar imaginário suas flores e suas cicatrizes.

Acordei com grandes planos, como a vida é pequena, esqueci tudo e me dei a seduções gratuitas.
*Leandro M. de Oliveira

2 comentários:

Foto Flash disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dona Fernanda disse...

"Acordei com grandes planos, como a vida é pequena, esqueci tudo e me dei a seduções gratuitas."

Adorei, é bem a tua cara mesmo, acho que vou adotar essa estratégia, assim, vou poder dizer que vivi um pouco de tudo, mesmo que a custo zero, afinal, essa é a proposta nacional kkk