Quando morri acho que as pessoas não se aperceberam muito bem. Fato é que deve mesmo ter importado pouco pois, embora a inegável ausência de uma substância mais sutil, a presença física teimou ainda de um modo ordinária. Liquefeito num corpo denso, inalteradamente tateável. Entretanto, nada seria como antes, a casa foi esvaziada e o jardim, irremediavelmente esquecido. Existe uma chaga aberta no peito de todo homem que ousou demais, uma vala comum onde se repartem sonho e impossível. Foi querer da vida que entre todas as navalhas, o bem fosse a mais afiada. Minha história não agradável como aquelas que são inventadas, é antes uma pré-história do nada porque o vazio é mais antigo que o silêncio. Pouca coisa fica pela estrada ademais do pó feito pela cal dos dias, árvores estéreis, certidões mau digitadas de óbito rememorando a não chegada do filho, aquele que vai, eternamente natimorto.
Não diga que me ama se não quer ver o mundo desmoronar outra vez. Quando o carinho colapsar em ausência, que não haja ninguém a lembrar da torpeza desses dias. Aqui é o ponto onde todos os caminhos se bifurcam, a linha de sangue que rasga os céus toda vez que o crepúsculo anuncia noites intranqüilas. Não é difícil partir, muito mais duro é ter afeto à decadência quando se entende a miséria das coisas. A moldura colorida do horizonte falseia o cinza que há por trás de tudo, o excelso da vida parece mais um momento de descuido onde tenta-se não ser e quando volta a vigilância tudo é mais agudo. A procissão de almas sem lar busca a todo custo imaginar beleza no além pra que ela maquie a feiúra do aquém. Tudo que é vida cheira a desespero. Essa não é uma festa de bastardos, ofereça seu corpo aos cães antes que a vida faça isso por você. Heis aí o túmulo do sol, que esse mundo é sepulcro em vida quando se quer vivê-lo além da rasurado comum.
Por que sentir tanto horror, logo eles virão silenciar o mundo, pra que no escuro das eras o seu choro seja voz de destaque. Vou tirar os sapatos quando chover, quero sentir a terra com entendimento, quero dedilhar sem afeto as lajes de minha última e fria morada. Pó e sombra, o instante passou e com ele o que construiu algum significado. Agora o que resta é aquilo que sempre fica aos que não quiseram o caminho já percorrido. Um leito ingrato de mãe prostituta, donde por fim hei de me ver em vencida derradeira. Tive sede e a água não chegou, fome quando tudo era deserto. Abrace-me com o seu maior carinho e terá o meu vômito mais sincero, não há como retroceder. O zelo dos grandes soa como injúria aos anões da alma, aprenda a machucar quem te ama. Nas batalhas a eficiência de um exército sempre é medida pela sua impiedade, ser livre só é possível implacavelmente. Tudo o que quiseres, toma com mão forte, o que não te serve, arremessa pela janela. Já é dia, e ainda escuro noutro hemisfério, o segredo da luz pode ser uma sombra que a sustente. Ou isso, ou tudo é mera especulação.
O ácido contido em minhas vísceras conseguiria digerir o universo inteiro. Nesse momento, demônios estão vindo dançar no jardim e o condutor da orquestra sou eu.
Estou cansado, é claro, Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. De que estou cansado, não sei: De nada me serviria sabê-lo, Pois o cansaço fica na mesma. A ferida dói como dói E não em função da causa que a produziu. Sim, estou cansado, E um pouco sorridente De o cansaço ser só isto — Uma vontade de sono no corpo, Um desejo de não pensar na alma, E por cima de tudo uma transparência lúcida Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças? Sou inteligente: eis tudo. Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá, Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Falar que o Papai Noel é falcatrua ja virou redundância. Então como nenhuma verborragia ideológica parece ser capaz de barrar o avanço desse estratagema capitalista, abaixo segue o nosso singelo protesto contra o "bom" velhinho.
Nessa época do ano onde há uma febre de falsa fraternidade e histeria coletiva patrocinada pelo nascimento de Jesus, desse feita, creio como válido considerarmos a outra parte da história, a sujeira por debaixo do tapete que todos os padres, pastores e homens santos escondem ao longo dos tempos. Jesus não é o messias, na verdade ele não representa mais que uma das versões da história que fala de um deus solar, um messias da luz. O único fato comprovadamente histórico que levou à prosperidade da sua lenda, é a publicidade patrocinada pelo império romano que impôs o cristianismo como dogma oficial e uma vez que esse império dominava cerca de 80% do mundo civilizado, não é difícil imaginar o por que da sua propagação.
O natal é uma festa essencialmente pagã onde se celebra o dia mais longo do ano ou o dia em que o sol permanece mais tempo no céu, nada mais que isso. Roma através da igreja católica incorporou essa celebração para os novos convertidos que na verdade e no princípio nem sabiam do que se tratavam os evangelhos. O vírus se espalhou, e o inconsciente coletivo foi contaminado. Objetivamente não tenho nada contra isso, a única coisa que me entristece é a ilusão e o fosso social que o natal fomenta num contexto capitalista como o nosso. Quando tudo é reduzido a troca de presentes e ceias fartas quem nada tem é mais uma vez excluído e essa exclusão dói mais que qualquer outra porque em alguma medida é patrocinada pelo deus ao qual prestam culto. O homem evoluiu e a construção de um legado para a humanidade do futuro passa necessariamente pelo abandono das sombras míticas do passado. É bonito, é poético, mas muitas vezes, senão todas, é mau intencionado.
A respeito da idéia de Jesus como uma das versões do mito do deus solar, abaixo seguem três vídeos que ilustram isso. Feliz solstício a todos.
(...)Onde dormem os trovões? Onde estão as chamas que bebemos? Onde foram as crianças despojadas das suas têmporas, as ânforas sem vísceras, as serpentes de olhos como fuzis, as dulcíssimas úlceras? Por que não encontra nunca a água o seu limite? Por que é descontínua a rocha, por que existe só a rajadas, a dentadas, quando antes percorria o vasto labirinto da pulsação? Nada escapa à fuga: nem os dedos, que tão longe estão das esferas; nem a mãe, que esquece o seu baptismo; nem os lábios, fincados no inerte; nem o vento, demolido. Quando morri?Por que se oxidou o mar? Para onde foram as leis, as sementes, as retinas construídas com mãos e sondas? A razão não perdura. Os irmãos não nascem. Dissolve-se a unidade do amor, reúnem-se os seus vazios, desmoronam-se, intactos, os seus jardins(...) *Eduardo Moga
Homens cegos procuram a visão do amor onde os dias ergueram esta parede intransponível
caminham vergados no zumbido dos ventos com os braços erguidos - cantam
a linha do horizonte é uma lâmina corta os cabelos dos meteoros - corta as faces dos homens que espreitam para o palco nocturno das invisíveis cidades
escorre uma linfa prateada para o coração dos cegos e o sono atormenta-os com os seus sonhos vazios
adormecem sempre antes que a cinza dos olhos arda e se disperse
no fundo do muito longe ouve-se um lamento escuro quando a alba se levanta de novo no horto dos incêndios
prosseguem caminho com a voz atada por uma corda de lírios os cegos são o corpo de um fogo lento - uma sarça que se acende subitamente por dentro. *Al Berto
Nada mudou. O corpo faz doer, tem que comer, que respirar e que dormir, tem a pele fina e o sangue logo em baixo, provisão farta de dentes e de unhas, ossos que quebram, articulações que esticam. Nas torturas tudo isto é tido em conta.
Nada mudou. O corpo treme como tremeu antes e após a fundação de Roma, no século XX antes de Cristo e depois, torturas há, como antes houve, apenas a terra diminuiu, e o que quer que se passe é como se passasse ali à esquina.
Nada mudou. Há só mais gente. às velhas culpas novas se juntaram, reais, insinuadas, fugazes e nenhumas, mas o grito com que o corpo lhes responde, é, foi e será um grito de inocência, numa escala e num registo eternos.
Nada mudou. talvez só as maneiras, a dança, as cerimónias. O gesto da mão protegendo a cabeça permanece o mesmo todavia. O corpo enrosca-se, arranha-se e arranca-se, cai das pernas cortadas, encolhe os joelhos, arroxeia, incha, baba-se e sangra.
Nada mudou. Fora o curso do rio, a linha das florestas, da costa, desertos e glaciares. Entre paisagens assim se desfia a alma, desaparece e volta, aproxima-se e parte, estranha para si própria, inabarcável, certa uma vez e logo incerta de existir, enquanto o corpo está, está e está e não tem lugar para onde ir. *Wislawa Szymborska
Despede-se de outra vida, de uma terra já vergada, quem regressa com a chave do inverno marcada nos seus passos e, nesta hora, renuncia ao próprio alento. Porque esta é mesmo a sua morte. Quando a paisagem traz a vida para mais alto, a vida em que se move o devir do tempo que assim serve os seus próprios fins quando os jacintos empalidecem nas longas escadarias como coisas que se tocam, atingidas.
Porque o inverno não se ouve, nem define, mas sujeita o sangue a todas as histórias que terminam. Porque o inverno não se lembra, mas vê fulcros que expandem nas encostas, vê o fio de mel que viaja na penumbrade uma ponta da terra a toda a terra. Porque o inverno não é o que parece. Mas é a bruma dos frutos novos e o orvalho em que o passado se efabula no presente em plenos frios, com raízes entranhadas.
Porque esta é mesmo a sua morte; em tudo o que viu antes, que não conhece fim, em tudo o que se afasta a um passo do caminho abandonado para sempre no silêncio que quer aproximar-se, que não ouve mais do que silêncio. Porque a morte regressa doutra vida – porque sabe-o no sulco em que os passos, vendo atrás as clareiras, pressentem o flageloem que o rosto, no intervalo delas, é essa vida a chamar das áleas decrescentes, a recuar em vistas mortais, em quilómetros, nessas vastidões. *Rui Cóias
Ha que se considerar afim de melhor entender o foco de Stuart Mill, o cenário político onde esse homem cresceu e se formou. Ele começa seus estudos ao longo da primeira metade dos anos 1800, tempo em que se consolidava a hegemonia do império colonial britânico, através do domínio cada vez mais largo e assentado de territórios ao redor do globo, sobretudo com suas ferrovias e sistemas de exploração comercial. No cenário interno, urge citar a emergência da classe operária e da nova burguesia urbana, ambas fruto da revolução industrial, assim como também a formação de uma economia de base monetária substituindo os velhos usos de trocas de mercadorias e afins. É nesse cenário onde novos atores emergem de forma cada vez mais presente, surge o autor em comento.
Desde sempre, a questão central apresentada a Mill possa ser identificada talvez como, de que maneira seria possível chamar ao processo político as massas falidas de trabalhadores vitimados pelo novo sistema industrial. A chave para a resposta a essa questão, passaria obrigatoriamente pelo crivo da invenção de um sistema legítimo de contestação pública, por meio de instituições que se mostrassem suficientes a canalizar os anseios da população como um todo. Além disso, era necessário se pensar as formas de condução do alargamento das bases sociais do sistema político. Nesse sentido, Mill propõem a universalização do voto e um grau jamais visto de emancipação da mulher como ferramentas para se promover a pluralidade de tendências nos partidos políticos, atendendo sobretudo as demandas do movimento operário de seu país.
Esses elementos somados vão dar vazão a uma concepção nova de liberalismo. Tal foco, atribui um valor extremado ao sujeito enquanto produtor de individualidade, pondo-o como predecessor da sociedade, valorizando nesse ponto mais que nunca a livre iniciativa. A sociedade aqui é um composto de artificialidades onde o sujeito navega e interage de acordo com seus interesses num cálculo de utilidade. Isso indica a acepção de que para Stuart Mill o individual produz o social e não o contrário, sendo a ação humana um algo que possui valor em si mesmo. É mister frisar que nesse jogo de inversões, o autor acaba transladando a teoria liberal da perspectiva descendente para a ascendente ao libertar-se de antigos paradigmas próprios do conservadorismo inglês como as idéias de cidadania restrita e voto censitário.
Dessa forma, o autor vai dialogar inclusive com as demandas formuladas pelos ideais democráticos do séc. XIX, ao perceber a participação da esfera política na dimensão de algo a ser repartido entre a sociedade, pensando a gestão da “res publica” como exercício que de alguma forma vai dizer respeito a todos os membros da comunidade política. Nesse ponto, surgem as implicações relativas à concepção de um modelo estatal que possua também ferramentas suficientes a garantir de forma institucional a participação cada vez mais abrangente no seu trato. Poder-se-ia dizer, que Mill em alguma medida flerta com um tipo agudo de democracia, entretanto isso seria errôneo da parte de quem o fizesse. Em verdade, ele abomina a tirania da maioria tanto quanto a da minoria representada pelos regimes passados. O tema do perigo sempre presente num modelo democrático, de se formar um exercício tirânico por parte da maioria representada no poder, vai preocupar muito o autor. Qualquer que seja a natureza de uma ditadura ou tirania, suas ações assim como a elaboração de leis, sempre terá um fundo ideológico relacionado a esse segmento que ocupa o poder, afastando dos juízos a equidade, degenerando as manifestações em ditames sectários. Por isso é imprescindível, que um sistema representativo ao qual se julge adequado, deve possibilitar a contestação e a coexistência dos interesses de setores diversos do campo social, a fim de que um contrabalanceie o outro para que em termos prático, nenhum se sobreponha a ponto de suprimir o que lhe é diverso.
A um outro ponto que se faz fundamental para entender as inclinações de Stuart Mill a conceber modelos de participação ampla. Esse ponto tem haver com a emergência na então Inglaterra de uma classe média excessivamente bairrista que prosperava cada vez mais, tornando-se em igual medida potência política e ameaça à liberdade de outros setores. Nesses termos colocado, era necessário a criação de medidas que contivessem o avanço da voraz classe média. Mill enxergava na participação popular através do voto uma sólida barreira protetora, à medida que diversificava tendências no momento da eleição. Enveredado nessa visão, ele parte rumo a duas proposições que se somam como mecanismos de contenção da barreira criada pelos novos atores que agora são chamados ao processo eleitoral.
Essas idéias vão dizer respeito a criar um sistema que valorizasse as proporcionalidades, garantindo espaço às minorias, por mais esparsas que essas se encontrassem pelo território. Além disso, uma espécie de filtro qualitativo, chamada voto plural. Nesse sistema, os votos tem peso diferenciado de acordo com o eleitor que o produz, no caso de Mill, a escolha dos segmentos intelectuais da sociedade possuía um peso maior que as escolhas de trabalhadores e proprietários. Assim, aos primeiros foi delegada a missão de ser o fiel da balança no sistema proposto. Mais uma vez é grato lembrar que, essas medidas foram propostas para tolher o avanço da classe média não como um ataque diretamente endereçado a ela, mas antes como medidas para prevenir a formação de uma tirania.
Lutar contra a tirania significa também salvaguardar a liberdade, pelo menos no sentido de liberdade de expressão. E essa que esta conecta à possibilidade de embate de opiniões na dimensão do público, encontra em Mill, um papel de extrema importância. De acordo com as linhas do autor, a liberdade é precisamente o valor que promove justiça e verdade entre homens, pois é o que faz emergir as diferenças levando ao confronto das idéias tão importante para apreender a significação das coisas numa dimensão ampliada. Uma última coisa a considerar é que quando esse texto pretendeu apresentar a liberdade como um valor, a intenção foi de mostrar algo diferente de um direito natural. Jonh Stuart Mill, como um defensor eminente do utilitarismo, colocava a liberdade enquanto conquista. Alcançada e perseguida por força de seu caráter útil na evolução humana. Assim, distanciando-a de um bem inato do indivíduo, o sistema colonialista britânico era lícito, pois as sociedades dominadas ainda não haviam atingido um gral de discernimento merecedor de liberdade.
De antemão, é grato considerar as observações do autor referentes à diferença de postura em relação às expectativas acerca do homem numa sociedade aristocrática em contraposição com as perspectivas dentro de uma sociedade democrática. A aristocracia crê numa sociedade assentada essencialmente no que se poderia dizer de uma ordem natural imutável. Ela considera a possibilidade de evolução humana, porém, tão somente como uma melhora e nunca como um ganho qualitativo que possa acenar uma mudança substancial. Essa abordagem a respeito das faculdades de aperfeiçoamento do engenho humano, tem haver com a idéia de imutabilidade da ordem instituída. Significa dizer que ao aristocrata é necessária a concepção de um homem castrado, isto é, limitado em suas conquistas, para que a ordem “natural” das coisas seja mantida.
Em contraposição ao desejo aristocrático de uma manutenção perene das classes e posições sociais tornando a vida de uma comunidade política um exercício estático, a sociedade democrática aspira fundamentalmente a movimentação dos corpos em seu interior. A idéia a de que o homem está dotado indefinidamente da faculdade do aperfeiçoamento, incita a permissão aberta da livre iniciativa como talvez o laboratório máximo de erros e acertos humanos que irão mais tarde propiciar, nas palavras de Tocqueville, o encontro da grandeza imensa. Essa, pode ser traduzida em alguma medida como a promoção de uma igualdade entre homens, promovendo por força de sua presença, o fomento prosperidade geral onde os cidadãos possam se equivaler abundantemente em bens tanto materiais, como também imateriais.
Todavia, o autor coloca alguns dados que aparentemente contrariam a percepção, ou pelo menos, atacam um conceito tradicional do que seria uma sociedade evoluída nos moldes de então. Essas antíteses, apresentam-se todas na América, portanto, resta a proposta de estudar a democracia americana como algo aparte das demais experiências existentes. O fato é que pelo menos em tese, a quantificação dos avanços de uma sociedade esta identificada com o volume de descobertas científicas, de produção literária e artística de forma geral que esse corpo político é capaz de gerir. No caso dos Estados Unidos, o que se via então era uma atuação pífia nos campos da cultura em geral. Entretanto, o autor observa que as condições ímpares daquele país, geravam fenômenos não equivalentes em outras partes do mundo, assim, a América deve ser estudada em suas peculiaridades e não numa comparação equivalente com algumas sociedades européias por exemplo.
As condições da experiência democrática americana são excepcionais, não havendo paralelo com nenhuma outra até então vista. A proximidade do velho continente como forma de uma biblioteca com o acervo pronto para o estudo científico e artístico, a cultura fundada em hábitos comerciais, a origem assentada em puritanismo religioso e tantas outras facetas ímpares daquele país, levaram o povo a inclinar o espírito à lidas das coisas puramente materiais. Nesse sentido, os Estados Unidos, são uma experiência única, devendo-se assim estudá-los sem conclusões a priori. Talvez possa-se identificar, ainda que tacitamente, uma tendência de fundo nos escritos de Tocqueville que se manifesta no sentido de considerar que o avanço das ditas ciências do espírito no povo americano acontecerá impreterivelmente no momento em que esse alcançar um ápice econômico.
É um modelo mais ou menos criado em comparação às observações acerca da aristocracia tradicional européia. Essa casta, é constituída de homens que nunca necessitaram de uma afirmação social demonstrada em ganhos como os de prestígio político e financeiro. Considerado superior desde o berço, o aristocrata tem à mão todas as ferramentas às quais necessitar para a satisfação do corpo, podendo concentrar muito de seu tempo ao exame do espírito. O autor, também desse modo, deixa perceber sua crença que no momento em que alguns cidadãos forem se distanciando de outros na sociedade, esses então emergentes, estarão aptos a iniciar uma nova vanguarda de produção artística e científica. Os homens dentro de uma sociedade democrática cultivam a ciência, as letras e as artes, a única peculiaridade é que o fazem à sua maneira.
É importante salientar ainda que, num próximo momento, onde as necessidades do corpo são satisfeitas em toda a sociedade, o tempo ocioso é naturalmente voltado à alguma atividade, a tendência maior é que essa sempre esteja ligada à cultura. Então, de certa forma em Tocqueville, o caminho natural era que uma vez próspera, a sociedade americana alargasse o campo da pesquisa e da produção cultural em seu seio, o que provou-se acertado pelos anos que se seguiram.
Por fim, cita-se, a consideração feita pelo autor de que a igualdade gerada em um sistema político faz com que o homem nela imerso, busque julgar por si próprio, uma vez que as correntes da tradição, como aquela referente à idéia da existência de classes formadas por indivíduos superiores por exemplo, é inteiramente abolida e combatida. Essa tendência, de certa forma atrai o homem a uma vulgarização da ciência, livrando-a da abstração e preocupação teórica para inseri-la num campo de resultados práticos. Uma vez livre de intérpretes superiores, o homem está a vontade para codificar em si o conhecimento como bem entender.
Em se tratando do cenário americano, Tocqueville já identificava uma sedução especial pela parte teórica do conhecimento que permitisse sua imediata aplicação. Mais adiante, um álibi utilizado para o desinteresse na abstração pura, é que essa necessita meditação e tranqüilidade, ambos estados seriam virtualmente irrealizáveis numa everfescência democrática. As instituições dos sistemas democráticos levam os homens nela inseridos a agirem constantemente, isso subtrai o tempo necessário à contemplação. Nesse sentido, científica e culturalmente falando, poder-se-á dizer talvez que em Tocqueville que a sociedade americana é uma sociedade essencialmente pertencente ao porvir.
Aos parceiros do "Duelos Literários" os gestos do meu mais profundo agradecimento.
Friedrich Nietzsche
"Aquele que não quer ver o que é elevado num ser humano olha com tanto maior acuidade para o que é nele baixo e superficial - e com isso denuncia a si mesmo."
Porto Firme - MG
Uma cidade não é grande por seu tamanho, riqueza ou história, a medida das cidades é a do espaço que conseguem ocupar em nossos corações...
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"Yo me voy. Estoy triste; pero siempre estoy triste. Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy. Desde tu corazón me dice adiós un niño. Y yo le digo adiós..."