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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Poema de uma quarta-feira de cinzas

Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
Feita de sonho e de desgraça…

O seu delírio manso agrupa
Atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa…
Indiferente a tais ataques,

Nublada a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
Veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...
*Manuel Bandeira

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Tragédia Brasileira

Misael, funcionário da fazenda, com 63 anos de idade, conheceu Maria Elvira na Lapa, - prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e o dentes em petição de miséria.

Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura… Dava tudo quanto ela queria. Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.

Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.Viveram três anos assim: toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.

Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos…

Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

*Manuel Bandeira

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

*Manuel Bandeira

sábado, 4 de abril de 2009

Satélite

Fim de tarde. 
No céu plúmbeo 
A Lua baça 
Paira 
Muito cosmograficamente 
Satélite.

Desmetaforizada, 
Desmitificada, 
Despojada do velho segredo de melancolia, 
Não é agora o golfão de cismas, 
O astro dos loucos e dos enamorados. 
Mas tão-somente 
Satélite.

Ah Lua deste fim de tarde, 
Demissionária de atribuições românticas, 
Sem show para as disponibilidades sentimentais!

Fatigado de mais-valia, 
Gosto de ti assim: 
Coisa em si, 
- Satélite.

*Manuel Bandeira

domingo, 29 de março de 2009

O Erótico Bandeira

BODA ESPIRITUAL 

 
Tu não estás comigo em momentos escassos: 
No pensamento meu, amor, tu vives nua 
- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços. 

 
O teu ombro no meu, ávido, se insinua. 
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a ... Afago-a ... 
Ah, como a minha mão treme ... Como ela é tua ... 

 
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa. 
O teu corpo crispado alucina. De escorço 
O vejo estremecer como uma sombra n'água. 

 
Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço. 
E para amortecer teu ardente desejo 
Estendo longamente a mão pelo teu dorso ... 

 
Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto 
A maravilha astral dessa nudez sem pejo ... 

 
E te amo como se ama um passarinho morto. 


 *Manuel Bandeira in A Cinza das Horas,1917  

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Poema de uma Quarta -Feira de Cinzas


Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
feita de sonho e de desgraça...

o seu delírio manso agrupa
atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa...
indiferente a tais ataques,

Nublaba a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...




*Manuel Bandeira

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Carnaval ?


Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
que tudo emborca e faz caco...
Evoe' Baco!

La se me parte a alma lavada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoe' Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lividos venenos ...
Evoe' Venus!

Se perguntarem: Que mais queres,
Alem de versos e mulheres?...
- Vinhos!... o vinho que e meu fraco!...
Evoe' Baco!

O alfange rutilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu nao domo!...
Evoe' Momo!

A Lira eterea, a grande Lira!...
Por que eu extatico desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoe' Venus!
 


*Manoel Bandeira (publicada em 1918)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Manuel Bandeira



Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada)
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação.
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei
[pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que
[amei.

O Rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.

Manuel Bandeira

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

VONTADE DE MORRER



Não é que não me fales aos sentidos,
A inteligência, o instinto, o coração:
Falas demais até, e com tal suasão,
Que para não te ouvir selo os ouvidos.

Não é que sinta gastos e abolidos
Força e gosto de amar, nem haja a mão,
Na dos anos penosa sucessão,
Desaprendido os jogos aprendidos.

E ainda que tudo em mim murchado houvera,
Teu olhar saberia, senão quando,
Tudo alertar em nova primavera.

Sem ambições de amor ou de poder,
Nada peço nem quero e - entre nós -, ando
Com uma grande vontade de morrer



*Manuel Bandeira

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Pneumotórax



Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.


Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.
 

...............................................................................................................
 

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

 


*Manuel Bandeira