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quinta-feira, 29 de julho de 2010

Zaratustra

Tranquilo é o fundo do mar que trago em mim; quem adivinharia que oculta monstros divertidos? Imutável é a minha profundidade, mas cintila de enigmas e de gargalhadas flutuantes.” Zaratustra falava assim da profundidade da sua alma sorrindo ao ver os sublimes que por ele passam. Peitos inflamados cheios de ar, homens engalanados com feias verdades, cobertos de espinhos e vestimentas rotas. Não conhecem o riso nem a beleza, nem nunca trazem uma única rosa consigo. Sisudos, lutam como animais selvagens, traindo a fera mal domada dentro de si. São almas tensas e recalcadas que vivem na sombra da sua sublimidade.

Há que dar um salto para o sol e, na verdade, isso só será possível quando conseguirem saltar para fora da sombra. Zaratustra chama-lhes penitentes do espírito. Homens de faces pálidas que esperam por qualquer coisa que há-de vir, não se sabe quando, numa fome que quase os mata. Têm desdém no olhar, rugas de repugnância no canto dos lábios, nucas de touro. Seria interessante ver-lhes um olhar de anjo mas o seu conhecimento ainda não os ensinou a sorrir nem a sair da sombra das paixões que traem a ascensão ao éter da beleza. Deviam descansar, com braços negligentemente colocados atrás da nuca.

É assim o descanso dos heróis, dominando o seu repouso. Conservar os músculos descontraídos e a vontade desenvolta é o grande desafio que se impõe aos homens sublimes. Não será ao poder clemente e condescendente que se chamará beleza? A ninguém se exige tanta beleza como aos homens sublimes porque é nessa vaidade, ao olharem-se ao espelho, que residirá o verdadeiro segredo da alma. A derradeira bondade que se convola em virtude. Não podemos esperar de Zaratustra, um visionário do além, a quem o mundo parece por vezes saído de um sonho, que todos os sublimes sofram as metamorfoses desejáveis de modo a ascenderem ao patamar bafejado pelo sol das virtudes.

Zaratustra é um sonhador, que desce da solidão da montanha em passos de dança, com o olhar límpido e lábios virgens de qualquer desgosto. Zaratustra renasce quando se mistura com os homens e o seu espírito sofre as 3 metamorfoses: de besta de carga a leão e de leão a menino. Zaratustra é inocência e esquecimento, um novo recomeçar, uma roda que gira por si mesma, descoberta e conquista do seu próprio mundo.
*Nietzsche

quinta-feira, 11 de março de 2010

Eterno Retorno

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio.

A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?
*Nietzsche

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Moral como decadência; Institucionalismo como vingança dos fracos

(...) Não há absolutamente atos “desinteressados”. Os atos nos quais o indivíduo se torna infiel aos seus próprios instintos e escolhe em seu detrimento, são sinais de decadência (uma quantidade de “santos” os mais célebres estão decididos em ser decadentes, simplesmente devido a sua falta de “egoísmo”—). Os atos de amor, de “heroísmo” são de tal forma pouco “altruístas”, que são precisamente a prova dum “ego” vigoroso e abundante: os “pobres” não são livres para abandonar algo de si mesmos... estão privados também da grande intrepidez, da alegria da aventura que participa do “heroísmo”. Não é sacrificar-se que é o “fim”, mas desabrochar fins onde as conseqüências não nos inquietam, devido a confiança que temos em nós mesmos, fins que vos são indiferentes...

Psicologia dos atos que chamamos não-egoístas. — Na realidade são regulados estritamente conforme o instinto de conservação. É o caso contrário para atos que chamamos egoístas: ali o instinto diretor falta precisamente, — a consciência profunda do que é útil e prejudicial. Toda força, toda saúde, toda vitalidade, pelo fato de que aumentam a tensão, visam o instinto soberano do eu. Todo afrouxamento é decadência.

Segundo sua origem, a moral é a soma das condições de existência de uma espécie de homens pobre e malnascida. Esta pode ser o “grande número”: daí seu perigo. Nas suas aplicações é o principal meio do parasitismo dos sacerdotes, em sua luta contra os fortes, contra as afirmações da vida. — Os sacerdotes ganham o “grande número” (os humildes, os que sofrem, em todas as classes — as vítimas de toda espécie —. Uma espécie de insurreição geral contra o pequeno número dos seres bem-nascidos... (— crítica dos “reformadores”—). Em suas conseqüências, chega a falsear radicalmente, a aniquilar até as camadas de exceção. Estas terminam, para apenas poderem se sustentar em não serem verídicas, em nenhum ponto, quanto a si mesmas — a completa corrupção psicológica com o que daí se segue... (Crítica dos homens “bons”—).
*Nietzsche

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A ALEGRIA E O TRÁGICO EM NIETZSCHE

Roberto Machado é o convidado da série "Café Filosófico" e nessa oportunidade apresenta a construção do trágico no pensamento de Nietzsche. Uma aula de muito bom conteúdo acerca das formas poéticas de obtenção do sublime pela consciência do ser enquanto objeto decadente. Aconselho a tdos...







*Leandro M. de Oliveira

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Amor ao próximo

Está fora de dúvida que através dela [a atividade maquinal] uma existência sofredora é aliviada num grau considerável: a este fato chama-se atualmente, de modo algo desonesto, "a bênção do trabalho". O alívio consiste em que o interesse do sofredor é inteiramente desviado do sofrimento - em que a consciência é permanentemente tomada por um afazer seguido de outro, e em conseqüência resta pouco espaço para o sofrimento: pois ela é pequena, esta câmara da consciência humana!

A atividade maquinal e o que dela é próprio - a absoluta regularidade, a obediência pontual e impensada, o modo de vida fixado uma vez por todas, o preenchimento do tempo, uma certa permissão, mesmo educação para a "impessoalidade", para o esquecimento de si, para a "incuria sui" -: de que maneira completa e sutil o sacerdote ascético soube utilizá-la na luta com a dor! Precisamente quando tinha de lidar com sofredores [...] necessitava ele de pouco mais que a pequena arte de mudar os nomes e rebatizar as coisas, para fazer com que vissem benefício e relativa felicidade em coisas até então odiadas. [...] Um meio ainda mais apreciado na luta contra a depressão é a prescrição de uma pequena alegria que seja de fácil obtenção e possa ser tornada regra.

[...] A forma mais freqüente em que a alegria é assim prescrita como meio de cura é a alegria de causar alegria (ao fazer benefício, presentear, aliviar, ajudar, convencer, consolar, louvar, distinguir); no fundo, ao prescrever "amor ao próximo", o sacerdote ascético prescreve uma estimulação, embora em dosagem prudente, do impulso mais forte e mais afirmador da vida - da vontade de poder. A felicidade da "pequena superioridade", que acompanha todo ato de beneficiar, servir, ajudar, distinguir, é o mais abundante meio de consolo de que costumam servir-se os fisiologicamente obstruídos, supondo-se que estejam bem aconselhados. [...] Todos os doentes, todos os doentios, buscam instintivamente organizar-se em rebanho, na ânsia de livrar-se do surdo desprazer e do sentimento de fraqueza: o sacerdote ascético intui esse instinto e o promove; onde há rebanho, é o instinto de fraqueza que o quis, e a sabedoria do sacerdote que a organizou.

* Friedrich Nietzsche in "Genealogia da Moral"

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Aos ressentidos

Como escapar a esse olhar tenebroso que nos contamina com uma profunda tristeza? Esse olhar virado para dentro, o olhar do indivíduo mal configurado desde a sua origem, esse olhar que é um suspiro deixando entrever como esse homem fala a si próprio. "Gostava tanto de ser outro!", assim suspira esse olhar. "Mas não há esperança! Sou o que sou: como poderia eu ver-me livre de mim?" É neste terreno do autodesprezo, verdadeiro pântano, que cresce toda a espécie de ervas daninhas, toda a espécie de plantas venenosas, e tudo tão pequeno, tão escondido, tão vil, tão meloso. Aí fermentam os vermes dos sentimentos de vingança e de ressentimento; aí o ar fede a coisas secretas e inconfessáveis; aí é construída a teia da mais abominável conspiração, a conspiração dos sofredores contra os robustos e triunfantes; aí cultiva-se o ódio pelos triunfadores. E que falsidade, para não admitir que esse ódio é ódio! Que edifício de palavras grandiosas, que arte da calúnia "leal"! Que nobre grande eloqüência jorra dos lábios destes fracassados! Quanta submissão melíflua, viscosa, obsequiosa, flutua nos seus olhos! Que quer esta gente afinal? Querem ao menos representar a justiça, o amor, a sabedoria, a superioridade...Eis a ambição dessa gente "inferior", dessa gente doente! E que habilidade resulta dessa ambição! Admire-se nomeadamente a habilidade dos produtores de moeda falsa que imitam o cunho da virtude, com todo o pormenor, até no som, aquele tirintar aurífero da virtude.
*Friedrich Nietzsche in Genealogia da Moral

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A verdade?

O que é então a verdade? Uma multidão movente de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, em resumo, um conjunto de relações humanas poeticamente e retoricamente erguidas, transportadas, enfeitadas, e que depois de um longo uso, parecem a um povo firmes, canoniais, e constrangedoras: as verdades são ilusões que nós esquecemos que o são, metáforas que foram usadas e que perderam a sua força sensível, moedas que perderam o seu cunho e que a partir de então entram em consideração, já não como moeda, mas apenas como metal.
*Friedrich Nietzsche

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Oswaldo Giacóia e Nietzsche

Os Seguintes vídeos são fragmentos de uma palestra dada pelo filósofo Oswaldo Giacóia para um especial de televisão. Ele faz suas leituras das idéias de Nietzsche e esplana acerca de conceitos basilares de sua obra, como as diferenças entre niilismos ativo e passivo, homem superior e além do homem e por fim a morte de Deus.



terça-feira, 7 de julho de 2009

O que é real?

Uma vez admitidos dois fatos: que o devir não tem fim e que não é dirigido por qualquer grande unidade na qual o indivíduo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta só uma escapatória possível: condenar todo esse mundo do devir como ilusório e inventar um mundo situado no além, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo não é senão construído sobre as suas próprias necessidades psicológicas e que ele não é de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a última forma do niilismo, que implica a negação do mundo metafísico e que a si mesma se proíbe de crer num mundo verdadeiro. Alcançado este estado, reconhecemos que a realidade do devir é a única realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam à crença em outros mundos e em falsos deuses - mas não suportamos este mundo que não temos já a vontade de negar.
(...) Que se passou portanto? Chegamos ao sentimento do não valor da existência quando compreendemos que ela não pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade. Não chegamos a nada, não logramos coisa nenhuma dessa espécie; a unidade global não aparece na pluralidade do devir: o caráter da existência não é o de ser verdadeira, mas o de ser falsa (...) não há razão alguma para nos persuadirmos de que existe um mundo verdadeiro. (...) Em suma, as categorias de fim, de unidade, de ser, graças às quais demos um valor ao mundo, retiramo-lhas e o mundo parece ter perdido todo o valor.

*F. Nietzsche, de “A Vontade de Poder”.

domingo, 3 de maio de 2009

Tópicos filosóficos: Niilismo, o que é?

Niilismo:

Expressão exacerbada do materialismo e do positivismo, o niilismo negou toda autoridade ao estado, à igreja e à família.

Niilismo (do latim nihil, "nada") é uma doutrina filosófica e política baseada na negação seja da ordem social estabelecida, seja de todas as formas de esteticismo, assim como na defesa do utilitarismo e do racionalismo científico. Influenciado pelas idéias de Feuerbach, Darwin, Nietzsche, Henry Buckle e Herbert Spencer, o niilismo surgiu na Rússia czarista do século XIX. Segundo Martin Heidegger, o termo foi empregado pela primeira vez em 1799, pelo filósofo alemão Friedrich Heinrich Jacobi. Mais tarde, o romancista russo Ivan Turgueniev o empregou para designar a concepção que, afirmando a existência apenas do que é perceptível pelos sentidos, negava tudo o que se fundamenta na tradição e na autoridade.

O niilismo russo, pregado por Dmitri I. Pisarev, Nikolai A. Dobroliubov, Nikolai G. Tchernitchevski e outros, negava Deus, o espírito, a alma, as idéias, as normas e valores supremos e, quanto a suas origens, deve ser visto como fenômeno religioso. É a negação dogmática do mundo mergulhado no mal e de tudo o que é luxo, arte, metafísica e religião. Tudo deveria concentrar-se na libertação da classe trabalhadora, na luta contra as superstições e preconceitos, idéias e convenções que oprimem o homem e o impedem de ser feliz. O niilismo também foi por muito tempo, no Ocidente, a designação de vários movimentos revolucionários na Rússia, mas estes não foram realmente niilistas -- nem mesmo o anarquismo de Bakunin -- porque sempre acreditaram em soluções futuras para os problemas da humanidade.

Niilismo nietzscheano:

Tal como Nietzsche o entendeu, o niilismo tem significação muito mais ampla e profunda. O filósofo não se refere ao niilismo russo ou alemão, mas ao niilismo europeu, ou seja, ocidental. É um movimento ou processo histórico que, de raízes mergulhadas nos séculos anteriores, deverá determinar os séculos futuros. Sua essência consiste na morte de Deus e nas conseqüências dessa morte. O Deus morto é o Deus cristão que, para Nietzsche, representa não só a figura histórica do Cristo, mas o mundo supra-sensível em geral, e os ideais, as normas, os princípios, os fins, os valores que, colocados acima do mundo terreno, lhe davam orientação e sentido.

A negação do mundo supra-sensível e dos valores que o constituem acarreta o esvaziamento do mundo sensível, que se vê privado de consistência e de razão de ser. O niilismo não é, para Nietzsche, a interpretação deste ou daquele espírito, nem um acontecimento histórico semelhante ou comparável a qualquer outro, mas o advento da consciência de que todos os fins e todos os valores que até então davam sentido à vida humana se tornaram caducos.

A libertação, no que diz respeito aos valores até então vigentes, não somente torna possível mas exige o que Nietzsche chama de "transmutação de todos os valores", que não consiste apenas em sua modificação, mas no desaparecimento do "lugar" em que se situavam, quer dizer, do mundo supra-sensível. Concebendo o ser como valor, a metafísica, em Nietzsche, passa a ser uma axiologia, isto é, uma teoria dos valores. Não só os valores tradicionais decaem, como sua necessidade se desloca do mundo supra-sensível para o sensível, princípio a partir do qual se deve definir a nova tábua ou hierarquia de valores.

O niilismo, portanto, tal como Nietzsche o concebe, não consiste apenas na desvalorização dos valores supremos aceitos, pois a ruína desses valores torna urgente a criação de novos valores que os substituam. O niilismo seria a característica desse estádio intermediário, entre o crepúsculo dos deuses antigos e o anúncio do mundo novo, feito à imagem e semelhança do homem.

*Leandro M. de Oliveira
**Enciclopédia de Filosofia

sábado, 28 de março de 2009

Nietzsche acreditava no sistema?

O homem ativo, agressivo, violento, está sempre cem passos mais próximo da justiça do que o homem reacionário. Porque, precisamente, não tem necessidade de depreciar com falsidade e preconceito o seu objeto, como faz - como é obrigado a fazer - o homem reacionário. E é por isso que, de fato, em todas as épocas, o homem agressivo - o mais forte, o mais corajoso, o de maior nobreza - teve sempre pelo seu lado um olhar mais livre e uma melhor consciência; e, por oposição, é fácil adivinhar quem tem na consciência o peso da invenção da "má consciência"... o homem do ressentimento! Interrogue-se, enfim, a história: qual o terreno em que até hoje a posse do direito e a própria necessidade do direito mostrou estar deveras na sua pátria? Terá sido no terreno do homem reacionário? Nem por sombras...Pelo contrário, foi sempre na esfera do homem ativo, vigoroso, espontâneo, agressivo. Para desagrado do agitador acima citado (que um dia fez sobre si próprio a seguinte confissão: "A doutrina da vingança é o fio condutor da justiça que atravessa todos os meus trabalhos e todos os meus esforços.", diga-se que, historicamente o direito representa sempre a luta contra os sentimentos reacionários, a guerra que as forças ativas e agressivas lhes moveram usando uma parte do seu vigor para conter a torrente do pathos reativo dentro de limites comportáveis e para lhe impor um compromisso.Seja onde for que exista o exercício do direito, em qualquer parte do mundo onde reine a justiça, o que se observa é que um poder mais forte, na sua relação com um poder mais fraco (seja o de grupos, seja o de indivíduos), trata de procurar os meios necessários para pôr termo à fúria sem sentido do ressentimento, em parte arrancando o objeto do ressentimento às garras da vingança, em parte subsituindo ele mesmo a vingança pela guerra aberta contra os inimigos da paz e da ordem, em parte, inventando, propondo ou, se necessário impondo compromissos, em parte ainda estabelecendo normas relativas às compensações de danos, de modo a conseguir, de uma vez por todas, remeter para elas o ressentimento.

*Friedrich Nietzsche in Genealogia da Moral

quinta-feira, 19 de março de 2009

O Homem mais Feio

E Zaratustra continuou a correr pelas montanhas e pelas selvas, e os seus olhos esquadrinhavam sem cessar; mas em nenhuma parte via aquele que queria ver, o que clamava por socorro, atormentado por profunda angústia. Caminhava, todavia, muito satisfeito e cheio de gratidão. “Que boas coisas — disse — este dia me tem dado, para me indenizar de o ter começado tão mal! Que singulares interlocutores encontrei!

Hei de ruminar muito tempo as suas palavras como se fossem bons grãos; os meus dentes devem triturá-las e moê-las muitas vezes, até me correrem pela alma como leite.”
Mas quando deu volta a outro penhasco do caminho, mudou de súbito a paisagem, e Zaratustra entrou no reino da Morte. Surgiam ali negros e vermelhos penhascos, e não havia erva, árvores, nem canto de pássaros. Que era um vale que todos os animais desprezavam, até as feras; só uma espécie muito feia de grandes cobras verdes ia ali morar, quando envelhecia. Por isso os pastores chamavam aquele vale “Morte das serpentes”.
Zaratustra abismou-se em negras recordações, porque lhe parecia ter-se já encontrado naquele vale. E preocuparam-lhe o espirito coisas tão pesadas que foi demorando, demorando o passo até que acabou por parar e fechar os olhos.
Quando os abriu, viu qualquer coisa sentada à beira do caminho, qualquer coisa onde com muito trabalho se reconheceria a forma de um homem, qualquer coisa inexprimível. E Zaratustra sentiu enorme vergonha de seus olhos terem visto semelhante coisa. Ruborizando-se até à raiz dos cabelos, afastou os olhos e ergueu o pé para se retirar daquele sítio nefasto. Mas então se povoou de ruídos o tétrico deserto: porque se elevou do solo um gorgolejo como o que faz a água de noite em campos tapados; esse ruído acabou por se tornar voz humana e humana palavra. A voz dizia:
“Zaratustra! Zaratustra! Adivinha o meu enigma! Fala! Qual é a vingança contra a testemunha?
Eu atraio-te para trás; aqui há gelo resvaladiço. Cuidado, cuidado, não se te quebrem as pernas de orgulho!
Julgas-te sábio, orgulhoso Zaratustra!
Pois adivinha o enigma, adivinha o enigma que eu sou. Fala pois: quem sou eu?”
Mas quando Zaratustra ouviu estas palavras, que pensais se lhe passou na alma?
Viu-se dominado pela compaixão, e abateu-se de súbito como um carvalho que, depois de resistir muito tempo aos lenhadores, cai de repente e pesadamente com espanto dos próprios que queriam abatê-lo. Logo, porém, se ergueu do solo e o semblante tornou-se-lhe duro.
“Conheço-te bem — disse com voz de bronze: — és o assassino de Deus. Deixa-me ir embora.
Não suportaste aquele que te via sempre e até ao mais íntimo teu, mais feio dos homens! Vingaste-te dessa testemunha!”
Assim falava Zaratustra, e quis ir-se embora; mas o inexprimível segurou-o pela roupa e começou a gorgolejar de novo e a procurar as suas expressões: “Detém-te!” disse por fim.
“Detém-te! Não passes de largo! Compreendi qual foi o machado que te derrubou!
Glória a ti, Zaratustra, que estás outra vez de pé!
Adivinhaste — sei-o perfeitamente — quais eram os sentimentos do que matou Deus — do assassino de Deus — Fica. Senta-te aqui ao meu lado; não será em vão.
A quem queria eu encontrar senão a ti? Fica e senta-te. Mas não olhes para mim. Respeita assim... a minha fealdade!
Perseguem-me: agora tu és o meu último refugio. Não é que me persigam com o seu ódio ou seus esbirros. Ó! Zombaria então de tais perseguições! Estaria orgulhoso e satisfeito.
Todo o triunfo não tem sido até aqui dos que foram bem perseguidos?
E o que persegue bem facilmente aprende a seguir — não vai já... atrás?
Trata-se, porém, da sua compaixão...
Da compaixão deles é que eu fujo ao vir-me refugiar em ti. Defende-me, Zaratustra, último refúgio meu, único ser que me adivinhou.
Adivinhaste os sentimentos daquele que matou Deus.
Fica! E se és tão impaciente que te queiras ir embora, não tomes o caminho por onde eu vim. Esse caminho é mau.
Tens-me rancor porque há muito tempo que te falo imprudentemente? Porque te dou conselhos? Fica sabendo que eu, o mais feio dos homens, sou também o que tem o pé maior e mais pesado. Todo o caminho que pisei se tornou mau. Eu esmago e destruo os caminhos todos.
Bem vi, porém, que passavas por diante de mim em silêncio, e que te envergonhavas: nisso conheci Zaratustra.
Outro qualquer atirar-me-ia uma esmola, a sua compaixão com o olhar e a palavra. Eu, porém, não sou bastante mendigo para isso: adivinhaste.
Eu sou demasiado rico para isso, rico em coisas grandes, e formidáveis, as mais feias e inexprimíveis! A tua vergonha honra-me, Zaratustra!
Difícil me foi sair da multidão dos compassivos para encontrar o único que ensina hoje que “a compaixão é importuna” — para te encontrar a ti, Zaratustra.
Seja piedade de um Deus ou piedade dos homens, a compaixão é contrária ao pudor. E não querer auxiliar pode ser mais nobre do que essa virtude que assalta pressurosa e solícita.
Mas a isso mesmo é que toda a gente pequena chama hoje virtude, a compaixão; tal gente não guarda respeito à grande desgraça, nem à grande felicidade, nem à grande queda.
Deito o meu olhar por cima dos pequenos, como o de um cão por cima dos buliçosos rebanhos de ovelhas. É gentinha de boa vontade, parda e peluda.
Tempo demais se deu razão a essa gentinha, e assim se acabou por se lhes dar igualmente o poder. Agora pregam: “Só o que a gentinha acha bom, é que é bom”.
E hoje chama-se “verdade” ao que dizia o pregador, que saiu das fileiras dessa gente, aquele santo raro, aquele advogado dos pequenos que afirmava por si só “eu sou a verdade”.
E aquele homem imodesto que ao dizer “eu sou a verdade”, pregou um erro mais que mediano, foi a causa de se pavonearem há muito as pessoas pequeninas.
Acaso se respondeu alguma vez mais cortesmente a uma pessoa falha de modéstia?
E tu, Zaratustra, todavia, passaste por diante dele dizendo: “Não! Não! Mil vezes não!”
Tu deste a voz de alarme contra o seu erro; foste o primeiro a dar a voz de alarme contra a compaixão; não a todos, nem a nenhum, mas a ti e à tua espécie.
Envergonhas-te da vergonha dos grandes sofrimentos: e quando dizes: “Da compaixão vem uma grande nuvem, alerta humanos”. E quando ensinas: “Todos os criadores são duros, todo o grande amor está por cima da sua compaixão”, parece-me conheceres bem os sinais do tempo, Zaratustra!
Mas tu mesmo... livra-te também da tua própria piedade. Que há muitos que se encaminham para ti, muito dos que sofrem, dos que duvidam, dos que desesperam, dos que se afogam e gelam...
Ponho-te também em guarda contra mim. Adivinhas o meu melhor e o meu pior enigma, adivinhaste-me a mim mesmo e o que tenho feito. Conheço o machado que te derruba.
Foi preciso, contudo, ele morrer: via com olhos que tudo viam; via as profundidades e os abismos do homem, toda a sua oculta ignomínia e fealdade.
A sua compaixão não conhecia a vergonha; introduzia-se-me nos mais sórdidos recantos. Foi mister morrer o mais curioso, o mais importuno, o mais compassivo.
Sempre me via; quis vingar-me de tal testemunha ou deixar de viver.
O Deus que via tudo, até o homem, esse Deus devia morrer! O homem não suporta a vida de semelhante testemunha”.
Assim falava o homem mais feio. E Zaratustra levantou-se e dispôs-se a partir, porque estava gelado até à medula, e disse:
“Tu, inexprimível, puseste-me em guarda contra o teu caminho. Para te recompensar recomendo-te o meu. Olha: ali em cima fica a caverna de Zaratustra.
A minha caverna é grande e profunda e tem muitos recantos; o mais escondido encontra lá o seu esconderijo. E perto há cem rodeios e cem fugas para os animais que se arrastam, revolteiam e saltam.
Tu, que te vês repelido e que te repeliste a ti mesmo, não queres viver mais entre os homens e da compaixão dos homens? Pois bem! Faz como eu! Assim aprenderás também comigo, só o que procede aprende.
E fala logo e em primeiro lugar aos meus animais! Sejam para nós dois os verdadeiros conselheiros o animal mais ativo e o animal mais astuto!”
Assim falou Zaratustra, e prosseguiu o seu caminho ainda mais meditabundo e vagaroso do que dantes, porque se interrogava sobre muitas coisas a que lhe era difícil responder.
“Como o homem é mesquinho! — pensava interiormente. — Que feio, que agonizante e quão cheio de oculta vergonha!
Dizem que o homem se ama a si mesmo! Ai! Como deve ser grande esse amor próprio!
Quanto desprezo tem contra si!
Também aquele se ama desprezando-se: é para mim um grande enamorado e um grande desprezador.
Nunca tropecei com ninguém que se desprezasse mais profundamente. Isto também é elevação. Ó! infortúnio! Talvez fosse aquele o homem superior cujo grito ouvi!
Eu amo os grandes desprezadores. Mas o homem é uma coisa que deve ser superada”.

Assim falava Zaratustra.


*Friedrich Nietzsche

terça-feira, 17 de março de 2009

O Homem Furioso


" Não ouviram falar daquele homem em fúria que, numa manhã clara, acendeu uma lanterna, correu pela praça pública e gritou incessantemente: "Procuro Deus! Procuro Deus!" - Como justamente aí se encontravam muitos daqueles que não acreditavam em Deus, provocou uma grande hilariedade. " Então ele extraviou-se?", disse um "Perdeu-se como uma criança?" disse outro. " Ou está ele escondido? Tem medo de nós? Emigrou?", assim gritavam e riam em confusão.

O homem em fúria saltou para o meio deles e trespassou-os com o olhar. "Para onde foi Deus", gritou, "eu vou dizer-vos! Nós matamo-lo-vós e eu! Nós todos somos os seus assassinos! Mas como fizemos nós isto? Como pudemos nós tragar o mar inteiro? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos quando desligamos esta terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não continuamos sempre a cair? (...)Há ainda um em cima e um em baixo? Não erramos como através de um nada infinito? (...)Ainda não ouviram nada do ruído dos coveiros que sepultam Deus? Não cheiramos ainda nada da decomposição divina? - Também os deuses entram em decomposição! Deus morreu! Deus permanece morto! E nós matámo-lo! Como nos consolaremos nós os assassinos de todos os assassinos? Aquilo que o mundo possuiu até agora de mais poderoso sangrou sob as nossas facas - quem limpará de nós este sangue? "(...)

Aqui o homem em fúria calou-se e olhou de novo para os seus auditores: também eles se calaram e encaram-no com estranheza. Por fim, lançou a lanterna ao chão, que saltou em pedaços e se apagou. " Venho demasiado cedo" disse então " não estou ainda na altura. Este acontecimento tremendo está ainda a caminho - não atingiu ainda os ouvidos dos homens."

*Friedrich Nietzsche em "A Gaia Ciência"

Que dizer desse homem; o coração mais revolto e ao mesmo tempo o mais amoroso, incompreendido por ser audaz. O visionário sem pudor, crucificado pela coragem de vomitar todo o nosso lixo em nossas próprias caras, homens, contemplai o absurdo de existir nesse mundo. Viva a verdade que ainda tardamos em alcançar, viva Friedrich Wilhelm Nietzsche!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O despertar tardio


274 

O problema dos que esperam. Requer sorte e muito daquilo que é incalculável para um ser humano superior, no qual dorme a solução de um problema , chegue a agir – “irromper”, poder-se-ia dizer – no momento certo. Geralmente isso não ocorre e em todos os cantos da Terra há pessoas esperando que dificilmente sabem em que medida esperam, mas menos ainda que estão esperando em vão. Às vezes a chamada do despertar, aquele acontecimento fortuito que dá “permissão” para agir, só vem tarde demais – quando a melhor parte da juventude e a força para agir já se desgastaram na postura imobilizada; e quantos homens descobriram, para o seu horror, ao “se levantarem”, que seus membros haviam ido dormir e seu espírito já se encontrava demasiado pesado! “É tarde demais!” – disseram a si mesmos, tendo perdido a fé em si próprios e daí por diante inúteis para sempre. Poderia ser que no domínio do gênio, “Rafael sem as mãos” fosse, tomando a frase no seu sentido mais lato, não a exceção mas a regra? Talvez o gênio não seja tão raro: talvez o que seja raro sejam as quinhentas mãos necessárias à tiranização do “Kairós”, o “momento justo” – para apanhar o acaso da melhor maneira! 

*F. Nietzsche - Além do Bem e do Mal

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Alternativas do Homem; Escravos e Senhores


"Numa perambulação pelas muitas morais, as mais finas e as mais grosseiras, que até agora dominaram e continuam dominando na terra, encontrei certos traços que regularmente retornam juntos e ligados entre si: até que finalmente se revelaram dois tipos básicos, e uma diferença fundamental sobressaiu. Há uma moral dos senhores e uma moral de escravos; acrescento de imediato que em todas as culturas superiores e mais misturadas aparecem também tentativas de mediação entre as duas morais, e, com ainda maior freqüência, confusão das mesmas e incompreensão mútua, por vezes inclusive dura coexistência até mesmo num homem, no interior de uma só alma.

As diferenciações morais de valor se originaram ou dentro de uma espécie dominante, que se tornou agradavelmente cônscia da sua diferença em relação à dominada, ou entre os dominados, os escravos e dependentes de qualquer grau. No primeiro caso, quando os dominantes determinam o conceito de "bom", são os estados de alma elevados e orgulhosos que são considerados distintivos e determinantes da hierarquia. O homem nobre afasta de si os seres nos quais se exprime o contrário desses estados de elevação e orgulho: ele os despreza. Note-se que, nessa primeira espécie de moral, a oposição "bom" e "ruim" significa tanto quanto "nobre" e "desprezível"; a oposição "bom" e "mau" tem outra origem.

Despreza-se o covarde, o medroso, o mesquinho, o que pensa na estreita utilidade; assim como o desconfiado, com seu olhar obstruído, o que rebaixa a si mesmo, a espécie canina de homem, que se deixa maltratar, o adulador que mendiga, e, sobretudo, o mentiroso - é crença básica de todos os aristocratas que o povo comum é mentiroso. "Nós , verdadeiros" - assim se denominavam os nobres da Grécia antiga.

É óbvio que as designações morais de valor, em toda parte, foram aplicadas primeiro a homens, e somente depois, de forma derivada, a ações: por isso é um grande equívoco, quando historiadores da moral partem de questões como "por que foi louvada a ação compassiva?". O homem de espécie nobre se sente como aquele que determina valores, ele não tem necessidade de ser abonado, ele julga: "o que me é prejudicial é prejudicial em si", sabe-se como o único que empresta honra às coisas, que cria valores. Tudo o que conhece de si, ele honra: uma semelhante moral é glorificação de si.

Em primeiro plano está a sensação de plenitude, de poder que quer elevada, a consciência de uma riqueza que gostaria de ceder e presentear - também o homem nobre ajuda o infeliz, mas não ou quase não por compaixão, antes por um ímpeto gerado pela abundância de poder.

O homem nobre honra em si o poderoso, e o que tem poder sobre si mesmo, que entende de falar e calar, que com prazer exerce rigor e dureza consigo e venera tudo que seja rigoroso e duro.

"Um coração duro me colocou Wotan no peito", diz uma velha saga escandinava: uma justa expressão poética da alma de um orgulhoso viking. Uma tal espécie de homem se orgulha justamente de não ser feito para a compaixão: daí o herói da saga acrescentar, em tom de aviso, que "quem quando jovem não tem o coração duro, jamais o terá". Os nobres e bravos que assim pensam estão longe da moral que vê o sinal distintivo do que é moral na compaixão, na ação altruísta ou no desintéressement [desinteresse]; a fé em si mesmo, o orgulho de si mesmo, uma radical hostilidade e ironia face à "abnegação" pertencem tão claramente à moral nobre quanto um leve desprezo e cuidado ante as simpatias e o "coração quente".

São os poderosos que entendem de venerar, esta é sua arte, o reino de sua invenção. A profunda reverência pela idade e pela origem - todo o direito se baseia nessa dupla reverência -, a fé e o preconceito em favor dos ancestrais e contra os vindouros são algo típico da moral dos poderosos; e quando, inversamente, os homens das "idéias modernas" crêem quase instintivamente no progresso" e no "porvir", e cada vez mais carecem do respeito pela idade, já se acusa em tudo isso a origem não-nobre dessas "idéias"

O que faz uma moral dos dominantes parecer mais estranha e penosa para o gosto atual, no entanto, é o rigor do seu princípio básico de que apenas frente aos iguais existem deveres; de que frente aos seres de categoria inferior, a tudo estranho-alheio, pode-se agir ao bel-prazer ou como quiser o coração", e em todo caso "além do bem e do mal": aqui pode entrar a compaixão, e coisas do gênero. A capacidade e o dever da longa gratidão e da longa vingança - as duas somente com os iguais -, a finura na retribuição, o refinamento no conceito de amizade, de uma certa necessidade de ter inimigos (como canais de escoamento, por assim dizer, para os afetos de inveja, agressividade, petulância - no fundo, para poder ser bem amigo): todas essas são características da moral nobre, que, como foi indicado, não é a moral das "idéias modernas", sendo hoje difícil percebê-la, portanto, e também desenterrá-la e descobri-la.

É diferente com o segundo tipo de moral, a moral dos escravos. Supondo que os violentados, oprimidos, prisioneiros, sofredores, inseguros e cansados de si moralizem: o que terão em comum suas valorações morais? Provavelmente uma suspeita pessimista face a toda a situação do homem achará expressão, talvez uma condenação do homem e da sua situação. O olhar do escravo não é favorável às virtudes do poderoso: é cético e desconfiado, tem finura na desconfiança frente a tudo "bom" que é honrado por ele gostaria de convencer-se de que nele a própria felicidade não é genuína.

Inversamente, as propriedades que servem para aliviar a existência dos que sofrem são postas em relevo e inundadas de luz: a compaixão, a mão solícita e afável, o coração cálido, a paciência, a diligência, a humildade, a amabilidade recebem todas as honras - pois são as propriedades mais úteis no caso, e praticamente todos os únicos meios de suportar a pressão da existência.

A moral dos escravos é essencialmente uma moral de utilidade. Aqui está o foco de origem da famosa oposição "bom" e "mau" - no que é mau se sente poder e periculosidade, uma certa terribilidade, sutileza e força que não permite o desprezo. Logo segundo a moral dos escravos o "mau" inspira medo; segundo a moral dos senhores e precisamente o "bom" que desperta e quer despertar medo, enquanto o homem "ruim" é sentido como desprezível. A opressão chega ao auge quando, de modo conseqüente à moral dos escravos, um leve aro de menosprezo envolve também o "bom" dessa moral - ele pode ser ligeiro e benévolo porque em todo caso o bom tem de ser, no modo de pensar escravo, um homem inofensivo: é de boa índole, fácil de enganar, talvez um pouco estúpido, ou seja, un bonhomme [um bom homem]. Onde quer que a moral dos escravos se torne preponderante, a linguagem tende a aproximar as palavras "bom" e "estúpido".

Uma última diferença básica: o anseio de liberdade, o instinto para a felicidade e as sutilezas do sentimento de liberdade pertencem tão necessariamente à moral e moralidade escrava quanto a arte e entusiasmo da veneração, da dedicação, sintoma regular do modo aristocrático de pensamento e valoração.

Com isso, pode-se compreender por que o amor-paixão - nossa especialidade européia - deve absolutamente ter uma procedência nobre: é notório que ele foi invenção dos cavaleiros-poetas provençais, aqueles magníficos, inventivos homens do gai saber [gaia ciência], aos quais a Europa tanto deve, se não deve ela mesma." (NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal, § 260. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo, Companhia das Letras, 1992, p, 172-5)

A moral como contra-natureza - Todas as paixões têm uma época em que são meramente nefastas, durante a qual, com o peso da estupidez, arrastam as suas vítimas para uma depressão - e uma época mais tardia muito posterior, na qual desposam o espírito, na qual se "espiritualizam". Noutro tempo movia-se guerra à própria paixão, por causa da estupidez nela existente: as pessoas conjuravam-se para aniquilá-la, - todos os velhos monstros da moral coincidem unanimemente em que il faut tuer les passions.

A fórmula mais célebre desta idéia encontra-se no Novo Testamento, naquele Sermão da Montanha, no qual, diga-se de passagem, as coisas não são consideradas de modo algum desde as alturas. Nele se diz, por exemplo, aplicando-o na prática à sexualidade, "se o teu olho te escandaliza, arranca-o": por sorte nenhum cristão atua de acordo com esse preceito. Aniquilar as paixões e apetites meramente para prevenir a sua estupidez e as conseqüências desagradáveis desta é algo que hoje nos aparece simplesmente como uma forma aguda de estupidez. Já não admiramos os dentistas que extraem os dentes para que não continuem a doer... Com certa equidade concedamos, por outro lado, que o conceito "espiritualização da paixão" não podia ser concebido de forma alguma no terreno de que brotou o cristianismo. A Igreja primitiva lutou, com efeito, como é sabido, contra os "inteligentes" em favor dos "pobres de espírito": como esperar dela uma guerra inteligente contra a paixão? - A Igreja combate a paixão com a extirpação, em todos os sentidos da palavra: a sua medicina, a sua "cura" é a castração. Não pergunta nunca: "como espiritualizar, embelezar, divinizar um apetite?" - ela sempre carregou o acento da disciplina no extermínio (da sensualidade, do orgulho, da vontade de poder, da ânsia de posse, do desejo de vingança). - Porém atacar as paixões na sua raiz significa atacar a vida na sua raiz: a praxis da Igreja é hostil à vida...

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Esse mesmo remédio, a castração, o extermínio, é escolhido instintivamente, na luta contra um desejo, pelos que são demasiado débeis, pelos que estão demasiado degenerados para poderem impor-se moderação nesse desejo: por aquelas naturezas que, para falar em metáfora (e sem metáfora -), têm necessidade de La Trappe , de alguma declaração definitiva de inimizade, de um abismo entre elas e uma paixão. Os meios radicais afiguram-se indispensáveis tão-só aos. degenerados; a debilidade da vontade, ou, dito com mais exatidão, a incapacidade de não reagir a um estímulo é simplesmente outra forma de degenerescência. A inimizade radical, o ódio mortal contra a sensualidade. não deixa de ser um sintoma que induz a refletir: ele autoriza a fazer conjecturas sobre a saúde mental de quem comete tais excessos. - Essa hostilidade, esse ódio chega ao seu cúmulo, além disso, só quando tais naturezas não têm já firmeza bastante para a cura radical, para renunciar ao seu "demônio". Deite-se um olhar para a história inteira dos sacerdotes e filósofos, não esquecendo a dos artistas: as coisas mais venenosas contra os sentidos não foram ditas pelos impotentes, tão-pouco pelos ascetas, mas sim pelos ascetas impossíveis, por aqueles que teriam necessitado de ser ascetas...

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A espiritualização da sensualidade chama-se amor: ela é um grande triunfo sobre o cristianismo. Outro triunfo é a nossa espiritualização da inimizade. Consiste em compreender profundamente o valor que possui o ter inimigos: dito brevemente, em proceder e extrair conclusões ao inverso de como se procedia e extraia conclusões noutro tempo. A Igreja quis sempre a aniquilação dos seus inimigos: nós, nós os imoralistas e anticristãos, vemos a nossa vantagem em que a Igreja subsista. Também no âmbito político a inimizade se tornou agora mais espiritual, - muito mais inteligente, muito mais reflexiva, muito mais indulgente. Quase todos os partidos se dão conta de que para a sua própria autoconservação lhes interessa que o partido oposto não perca forças; o mesmo se deve dizer para a grande política. Especialmente uma criação nova, por exemplo o novo Reich, tem uma maior necessidade de inimigos que de amigos: só na antítese se sente necessário, só na antítese chega a tornar-se necessário... Não nos comportamos de outro modo com o nosso "inimigo interior": também aqui temos espiritualizado a inimizade, também aqui temos compreendido o seu valor. Só se é fecundo pelo preço de se ser rico em contradições; só se permanece jovem na condição de que a alma não se relaxe, não deseje a paz... Nada se nos tornou mais estranho que aquela aspiração de outrora, a aspiração à "paz de espírito", a aspiração cristã; nada nos causa menos inveja do que a moral ruminante e a sebosa felicidade da consciência tranqüila. Renunciou-se à vida grande quando se renunciou à guerra... Em muitos casos, desde logo, a "paz de espírito" não é mais do que um mal-entendido, - outra coisa, a que unicamente não se sabe atribuir um nome mais honrado. Sem divagações nem preconceitos aqui temos uns quantos casos. "Paz de espírito" pode ser, por exemplo, a plácida projeção de uma animalidade rica no terreno moral (ou religioso). Ou o começo da fadiga, a primeira sombra que traz o crepúsculo, qualquer espécie de crepúsculo. Ou um sinal de que o ar está úmido, de que se aproximam ventos do Sul. Ou o agradecimento, sem se o saber, por uma digestão feliz (chamado às vezes "filantropia"). Ou a calma do convalescente, para o qual todas as coisas têm um sabor e que está à espera... ou o estado que se segue a uma intensa satisfação da nossa paixão dominante, o sentimento de bem-estar próprio de uma saciedade rara. Ou a debilidade senil da nossa vontade, dos nossos apetites, dos nossos vícios. Ou a preguiça, persuadida pela vaidade a ataviar-se com adornos morais. Ou o advento de uma certeza, mesmo de uma certeza terrível, após uma tensão e tortura prolongadas devidas à incerteza. Ou a expressão da maturidade e a maestria na atividade, no criar, agir, querer, a. respiração tranqüila, a alcançada "liberdade da vontade"... Crepúsculo dos ídolos: quem sabe?, talvez também unicamente uma espécie de "paz de espírito"... 

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Vou reduzir a fórmula um princípio. Todo o naturalismo em moral, quero dizer, toda a moral sã está regida por um instinto da vida, - um mandamento qualquer da vida é cumprido com um certo cânone de "deves" e "não deves", um obstáculo e uma inimizade qualquer no caminho da vida ficam com isso eliminados. A moral contranatural, ou seja, quase toda a, moral, até agora ensinada, venerada e pregada, dirige-se, pelo contrário, precisamente contra os instintos da vida - é uma condenação, por vezes encoberta, por vezes ruidosa e insolente, desses instintos. Ao dizer "Deus lê nos corações", a moral diz não aos apetites mais baixos e mais altos da vida e considera Deus inimigo da vida... O santo para quem Deus tem a sua complacência é o castrado ideal... A vida acaba onde começa o reino de Deus"...

*Friedrich Nietzsche, de "Crepúsculo dos ídolos, ou como se filosofa à marteladas"

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ensaios de Friedrich Nietzsche 2ª Parte



Moral como Antinatureza (Parte 2)

IV

– Reduzo um princípio a uma fórmula. Todo naturalismo na moral – isto é, toda moral saudável – é
dominado por um instinto vital; qualquer mandamento de vida é preenchido por um determinado cânone
de “deves” e “não deves”; remove-se assim um elemento hostil e inibitório no caminho da vida. A moral
antinatural – ou seja, quase toda moral que até agora foi ensinada, venerada e pregada – volta-se, de
modo oposto, contra os instintos vitais: é uma condenação desses instintos, ora secreta, ora explícita e
impudente. Quando ela diz “Deus observa os corações”, diz Não tanto aos desejos mais baixos quanto aos
mais altos da vida, colocando Deus na posição de inimigo da vida. O santo com o qual Deus se encanta é
um castrado ideal. A vida termina onde o “Reino de Deus” começa...

V

Compreendendo o sacrilégio que tal revolta contra a vida representa, tal como se tornou quase
sacrossanta na moral cristã, também se compreende, felizmente, outra coisa: o caráter fútil, aparente,
absurdo e mendaz de tal revolta. Uma condenação da vida pelo próprio vivente no fim continua sendo
apenas um sintoma de um tipo específico de vida: com isso a questão de ela ser justificada ou não nem
chega ser levantado. Seria necessário posicionar-se fora da vida, e ainda conhecê-la tão bem quanto um,
quanto muitos, quando todos que a viveram, para que seja permitido mesmo tocar o problema do valor
da vida: razões suficientes para compreendermos que esse problema é inacessível a nós. Quando falamos
de valores, falamos com a inspiração, com a perspectiva das coisas que são parte da vida: a própria vida
nos força a estabelecer valores; a vida mesma valora através de nós quando estabelecemos valores.
Segue-se disso que mesmo aquela moral antinatural que concebe Deus como contra-conceito e
condenação da vida é apenas um juízo de valor da vida – mas de que vida? De que tipo de vida? Já dei a
resposta: da vida decadente, enfraquecida, cansada, condenada. A moral, tal como até aqui foi entendida
– como por fim foi formulada uma vez mais por Schopenhauer, como “negação da vontade de vida” –, é o
próprio instinto da decadência que se fez um imperativo. Ela diz: “Pereça!”; é uma condenação
pronunciada pelo condenado.

VI

Finalmente, consideremos quão ingênuo é dizer: “O homem deveria ser de tal ou de tal modo!” A
realidade nos mostra uma encantadora riqueza de tipos, uma abundante profusão de jogos e mudanças
de forma – e um miserável serviçal de um moralista comenta: “Não! O homem deveria ser diferente.”
Esse beato pedante até sabe como o homem deveria ser: ele pinta seu retrato na parede e diz: “Ecce
homo!(1)”Mas mesmo quando o moralista dirige-se a apenas um indivíduo e diz “você deveria ser de tal e
de tal modo!”, ainda não deixa de ser ridículo. O ser humano, visto pela frente ou por trás, é um pedaço
de destino, uma lei a mais, uma necessidade a mais para tudo que há de vir e será. Dizer-lhe “muda-te” é
exigir que tudo seja mudado, mesmo retroativamente. E realmente houve moralistas conseqüentes que
desejavam tornar o homem diferente, isto é, virtuoso – desejavam-no reformado à sua própria imagem,
como pedante: e, para tal fim, negavam o mundo! Nenhuma pequena loucura! Nenhum modesto tipo de
imodéstia!
A moral, à medida que condena por sua própria causa, e não a partir dos interesses, considerações e
pontos de vista da vida, é um erro específico pelo qual não se deve ter compaixão – uma idiossincrasia de
degenerados que causou danos imensuráveis.
Nós outros, nós imoralistas, pelo contrário, fizemos de nosso coração uma morada para todo tipo de
entendimento, compreensão e aprovação. Não negamos facilmente; encontramos honra no fato de
sermos afirmativos. Cada vez mais, nossos olhos se abrem a uma economia que necessita e sabe utilizar
tudo que a sagrada insensatez do padre, a doentia razão do padre, rejeita – aquela economia na lei da
vida que encontra alguma vantagem mesmo nas espécies mais repulsivas de pedantes, padres e
virtuosos. Que vantagem? Mas nós mesmos, nós imoralistas, somos a resposta.
[1] “Eis o homem”

Como prometido aí vai a segunda parte de uma crônica acerca da moral redigida pela "dinamite humana". Decerto a maior parcela de quem estudou esse filósofo jamais conseguiu ler os seus "sinais", muito provavelmente eu também, entretanto de uma coisa pode-se ter certeza pela vivência empírica, a transformação assim como a evolução nunca é gratuita! Algo tem de morrer pra que outra coisa possa viver, o objetivo meta-existencial mesmo só pode ser alcançado em plenitude quando se leva à mesa do sacrifício os mitos criados imolando-os em honra a um algo além. Apesar do tom místico da última declaração isso tem muito mais de cotidiano e pragmático do que de transcedental, a revelação se dá no exercício diário, o homem deve renegar as verdades alheias para encontrar as suas próprias. Nietzche como contestador do senso comum é sem sombra de dúvidas perseguido, pois ha entre muitos dos assim ditos ou auto-denominados intelectuais o pressuposto de que compreendem tudo e de que aquilo que por acaso não compreendam deve ser mesmo coisa muito ruim; vive-se em uma época ainda demasiado primitiva, o ser humano enquanto representação prefere dar as costas às mudanças que lhe batem a porta.  Talvez no futuro  eles transformem Friedrich Nietzche, como fizeram com todos outros (Jesus, Luther King, Chê Guevara...) que pareciam ofensivos em seu tempo, em um martir ou  um visionário mas até la ja teram logrado êxito em transformar sua doutrina em engodo avesso a ele próprio, como  ha de se esperar nesses tempos, a dissimulada visão poderá ser recebida por alguns como profética, ja consigo até imaginar, "Igreja Nietzche Cristo É O Senhor Do Reino De Deus". Quando isso acontecer muitos se beneficiarão do fenômeno, sobretudo os seus inimigos que compulsivamente hão de comer da sua carne e beber de seu sangue, talvez até o representem como sacerdotes e escondam atrás da batina ou do terno todo o ressentimento acumulado contra a humanidade, mas isso é outro papo...
   

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Ensaios de Friedrich Nietzsche 1ª Parte

Moral como Antinatureza (Parte 1)

I
Todas paixões têm uma fase em que são meramente desastrosas, em que aviltam sua vítima com o peso
da estupidez – e uma fase posterior, muito posterior, em que se casam com o espírito, se
“espiritualizam”. Antigamente, em vista da estupidez na paixão, declarava-se guerra à própria paixão,
conspirava-se pela sua destruição; todos os velhos monstros da moral concordavam quanto a isto: il faut
tuer les passions [1]. A fórmula mais famosa para isso encontra-se no Novo Testamento, naquele Sermão
da Montanha, onde, diga-se de passagem, as coisas não foram de modo algum olhadas do alto. Nele é
dito, por exemplo, particularmente em relação à sexualidade: “Se teu olho te escandaliza, arranca-o
fora”. Felizmente nenhum cristão age de acordo com esse preceito. Destruir as paixões e os desejos,
simplesmente como uma medida preventiva contra a estupidez e as conseqüências desagradáveis dessa
estupidez – hoje isso se apresenta a nós apenas como outra forma aguda de estupidez. Não admiramos
mais os dentistas que arrancam dentes para que não doam mais. Para ser justo, deve-se admitir,
entretanto, que sobre o solo no qual o cristianismo se desenvolveu, o conceito de “espiritualização da
paixão” nunca poderia formar-se. Afinal, a Igreja primitiva, como todos sabem, lutou contra os
“inteligentes” em favor dos “pobres de espírito”. Como se poderia esperar dela uma guerra inteligente
contra a paixão? A Igreja combate a paixão através do aniquilamento em todos os sentidos: sua prática,
sua “cura” é a castração. Ela nunca pergunta: “como se pode espiritualizar, embelezar, divinizar um
desejo?” Em todos os tempos colocou a ênfase da disciplina na extirpação (da sensualidade, do orgulho,
do desejo de dominar, da avareza, da vingança). Mas um ataque às raízes da paixão significa um ataque
às raízes da vida: a prática da Igreja é hostil à vida.
[1] É necessário matar as paixões.

II
Os mesmos meios na luta contra um desejo – castração, extirpação – são instintivamente escolhidos por
aqueles que possuem uma vontade fraca demais, degenerada demais, para poderem impor a moderação
a si mesmos; por aqueles que necessitam de La Trappe, para falar figuradamente, ou (sem figuras de
linguagem) alguma espécie de declaração definitiva de hostilidade, um abismo entre eles e a paixão.
Meios radicais são indispensáveis apenas para os degenerados; a fraqueza da vontade – ou, falando de
modo mais preciso, a incapacidade de não responder a um estímulo – é em si apenas outra forma de
degeneração. A hostilidade radical, a hostilidade mortal contra a sensualidade é sempre um sintoma
merecedor de reflexão: ela nos permite fazer suposições concernentes ao estado geral de quem é
excessivo desta maneira.
Essa hostilidade, esse ódio, a propósito, alcança seu clímax apenas quando esses tipos carecem mesmo
da firmeza suficiente para a cura radical, para a renúncia a seu “Diabo”. Deveria-se examinar toda a
história dos sacerdotes e dos filósofos, incluindo a dos artistas: as coisas mais venenosas aos sentidos
foram ditas não pelos impotentes, nem pelos ascetas, mas pelos ascetas impossíveis, por aqueles que
realmente tinham uma necessidade enorme de ser ascetas.

III
A espiritualização da sensualidade é chamada amor: representa um grande triunfo sobre o cristianismo.
Outro triunfo é a nossa espiritualização da hostilidade. Ela consiste num profundo reconhecimento do
valor de se ter inimigos: em suma, significa agir e pensar de modo oposto ao que outrora era a regra. A
Igreja sempre desejou a destruição de seus inimigos; nós, imoralistas e anticristãos, encontramos nossa
vantagem nisto: que a Igreja existe. No âmbito da política a hostilidade também se tornou mais
espiritualizada – muito mais sensível, muito mais pensativa, muito mais ponderada. Quase todo partido
compreende que é de interesse à sua própria autopreservação que seus opositores não percam toda a
força; o mesmo vale para políticos poderosos. Uma nova criação em particular – um novo Reich, por
exemplo – necessita mais de inimigos que de amigos: somente na oposição ele sente-se necessário,
somente na oposição ele torna-se necessário. Nossa atitude perante o “inimigo interior” não é de modo
algum diferente: aqui também espiritualizamos a hostilidade; também aqui reconhecemos seu valor. O
preço da fecundidade é ser rico em oposições internas; permanece-se jovem enquanto a alma não relaxa
e anseia pela paz. Nada nos parece mais estranho que aquele desejo dos tempos antigos, o desejo
cristão: a “paz da alma”; nada nos causa menos inveja que a vaca moral e a felicidade gorda da boa
consciência. Renuncia-se à vida grandiosa quando se renuncia à guerra.
Em muitos casos, certamente, a “paz da alma” é apenas um mal-entendido – algo diverso, para o qual
falta um nome mais honesto. Sem mais rodeios ou preconceitos, vejamos alguns exemplos. A “paz da
alma” pode ser, para alguém, a suave irradiação de uma rica animalidade no interior da esfera moral (ou
religiosa). Ou o começo do cansaço, a primeira sombra da noite, qualquer espécie de noite. Ou o sinal de
que o ar está úmido, de que os ventos do sul se aproximam. Ou uma inconsciente gratidão por uma boa
digestão (por vezes chamada “amor aos homens”). Ou a obtenção da calma por um convalescente que
sente um novo sabor em todas as coisas, e aguarda. Ou o estado que se segue de uma completa
satisfação de nossa paixão dominante, o bem-estar de uma rara repleção. Ou a fraqueza senil de nossa
vontade, de nossos desejos, de nossos vícios. Ou a preguiça, persuadida pela vaidade a exibir uma
aparência moral. Ou o aparecimento da certeza, mesmo da certeza terrível, após uma longa tensão e
sofrimento causados pela incerteza. Ou a expressão da maturidade e maestria em meio ao agir, criar,
trabalhar e desejar – respirar tranqüilo, a “liberdade da vontade” alcançada. Crepúsculo dos Ídolos –
quem sabe? Talvez também apenas um tipo de “paz da alma”.

Bom Pessoal, acho que o cara que fez esse texto despreza apresentações, é o meu filósofo preferido, as suas lições sobre a necessidade de libertação do senso comum na busca pelo estado de Übermensch (super homem), sempre me afiguraram como um farol na noite escura... E hoje nesses tempos de descrença em que nos entregamos a verdades pré-fabricads, aparece novamente Nietzche, como uma sentinela velando pela libertação de cada um. A transcendência desse estado de torpor contínuo em que vivemos (sociedade) parece uma jornada dura, parece uma busca solitário, mas é a vida, se cada um não toma posse integral da sua termina como escravo retido sob os piores grilhões, que são aqueles que não se pode ver, e você se deita na confortável cama ou dirige seu novo carro, projeta uma imagem de sucesso para os que passam, mas naquela escura fenda por entre as rochas onde ninguém ousa descer existe uma insatisfação latente, que vem e sufoca com um toque silencioso, sem se explicar. E você se vê finalmente preso, sitiado pela artificialidade de suas próprias construções, a solução, faça como Nietzche deixe de ser apenas homem, seja dinamite¹ pura e exploda toda a hipocrisia que tão cuidadosamente você e as pessoas a seu redor tem alimentado. Nas próximas postagens virá a segunda parte do ensaio acima assim como novos textos, a todos boa leitura.

1 - "Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo - de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciência, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, querido. Eu não sou um homem, sou dinamite." (Nietzsche - Ecce Homo)