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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Muito Além do Cidadão Kane - 17 anos depois

Com 17 anos de atraso o Soturna Primavera apresenta o documentário britânico “Muito Além do Cidadão Kane". Esse filme apresenta Roberto Marinho o então dono da mídia brasileira, como um exemplo perfeito da concentração de poder da imprensa no Brasil. O título é uma referência à personagem criada por Orson Welles no filme Cidadão Kane.

O tema central é o domínio crescente da TV Globo na imprensa brasileira no início dos anos 90, esse envolveria contratos ilegais com empresas estrangeiras, um apoio incondicional aos governos ditatoriais no Brasil e tudo o que estiver ao alcance para garantir seus interesses, incluindo-se mesmo a manipulação de debates políticos para eleger o governo, como ocorreu no caso Collor de Mello. Esse filme tem como proposta explicar de que maneira funciona a política brasileira de comunicações e os critérios arbitrários pelos quais se concedem e renovam as concessões de canais de televisão e rádio.

A manipulação da grande imprensa no Brasil tem uma longa história. Grandes jornalistas já atacavam a corrupção da imprensa na Primeira República. Rui Barbosa denunciou o primeiro presidente brasileiro, Marechal Deodoro da Fonseca, por utilizar o Banco do Brasil para calar uma redação que faria denúncias de fatos sórdidos, com a quantia, na época exorbitante, de 200 contos de réis. Essa prática continuou ao longo dos anos: em diversas ocasiões o Banco do Brasil foi pressionado pelos governantes para fazer grandes empréstimos que jamais foram pagos. Nos anos 50, jornalistas influentes como Assis de Chateaubriand recebiam tais "empréstimos" com freqüência.

Nos dias de hoje essas práticas continuam presentes, mostrando que a corrupção da imprensa além de fato é instituição nos meios de comunicação brasileiros. Porém agora, somam-se outros elementos ao jogo político da imprensa como instituições religiosas e profetas bilionários, se é que me entendem... Assim, mudam-se os atores, mas o libreto da opereta segue inalterado. Nesse sentido, esse documentário feito em 1993 é ainda muito atual. Ajudando a entender por exemplo, por que o jornal nacional e outros derivados sempre tem “explicações” pras notícias apresentadas ao invés de veiculá-las deixando livres os espectadores para se perguntarem a respeito. Sim, eles pensam por você.


Espero que apreciem.

*Leandro M. de Oliveira

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bento de Espinoza - Parte 2

(...) Foi a partir daí que tentei averiguar por que motivo se designaram os hebreus por eleitos de Deus. E como visse que isto signifique apenas que Deus escolheu para eles uma certa região do mundo onde pudessem viver em segurança e comodidade, conclui que as leis reveladas por Deus a Moisés não eram senão o direito particular do Estado hebraico e, por conseguinte, ninguém, a não ser os judeus, lhe estava sujeito. E mesmo estes, só enquanto durasse o referido Estado.

Depois, para saber se podia concluir da Escritura que o entendimento humano está por natureza corrompido, fui investigar a religião católica, ou seja, a lei divina revelada a todo gênero humano pelos profetas e pelos apóstolos, seria diferente daquela que a luz natural também ensina: e em seguida, se os milagres acontecem ao arrepio da ordem natural e provam a existência e a providência de Deus de maneira mais certa e mais clara do que as coisas que entendemos clara e distintamente pelas suas causas primeiras. Mas como não encontrasse, naquilo que a Escritura expressamente ensina nada que não tivesse de acordo com o entendimento ou lhe repugnasse, e como, por outro lado, visse que os profetas só ensinavam coisas extremamente simples e acessíveis a todos, além de recorrerem ao estilo e à argumentação que melhor pudessem incitar os ânimos da multidão à devoção para com Deus, fiquei completamente persuadido de que a Escritura deixa a razão em absoluta liberdade e não tem nada em comum com Filosofia, assentando, pelo contrário, cada uma delas nas suas próprias bases.

(...)

Passo em seguida a analisar os preconceitos que surgem pelo fato de o vulgo (sujeito à superstição e preferindo reliquías do passado à própria eternidade) adorar os livros da Escritura em vez do próprio Verbo de Deus. Depois, mostro que o Verbo de Deus revelado não consiste em determinado número de livros, mas sim num conceito simples da mente divina revelada aos profetas, a saber, obedecer inteiramente a Deus, praticando a justiça e a caridade. E provo que esta doutrina é ensinada na Escritura de maneira adequada ao poder da comprensão e às opiniões daqueles a quem os profetas e os apóstolos costumavam pregar a palavra de Deus, de modo a que os homens a pudessem aceitar integralmente e sem qualquer repugnância.

Uma vez assim apresentados os fundamentos da fé, concluo, finalmente, que o conhecimento revelado não tem outra finalidade senão a obediência e que, tanto pela finalidade como pelos fundamentos e pelo método, ele é completamente diferente do conhecimento natural, não tendo nada em comum com este, pois cada ocupa a sua área sem que o outro se insurja e sem que nenhum tenha de considerar subordinado. Como, além, disso, os homens são por temperamento bastante diferentes, e como uns preferem esta, outros aquela opinião, inspirando a uns sentimentos religiosos o que a outros só provoca escárnio, concluo ser necessário deixar a cada um a liberdade de julgar e a possibilidade de interpretar os fundamentos da fé segundo a sua maneira de ser, e não se ajuizar de ninguém, a não ser pelas suas ações, conforme piedosas ou impías. Só assim poderão todos obedecer a Deus de livre e inteira vontade e dar valor apenas à justiça e a caridade.

Após evidenciar a liberdade que a lei divina revelada concede a cada um, passo a outro aspecto da questão, o qual consiste em mostrar que essa mesma liberdade pode e deve ser concedida, sem que isso lese a paz social e o direito das autoridades soberanas, e que, pelo contrário, não pode ser suprimida sem graves riscos para a paz e em detrimento de todo o estado. Para demonstrar esse ponto, começo, porém, pelo direito natural do indivíduo, que vai até onde for o seu desejo e o seu poder, sem que alguém esteja, com base em tal direito, obrigado a viver a mando de outrem e sendo, em vez disso, cada um o responsável pela sua própria liberdade. A seguir, mostro que, em realidade, ninguém renuncia a esse direito, a não ser que transfira para outrem o poder de se defender, e que, nesse caso, aquele para quem todos transferiram o direito de viver à sua vontade e, ao mesmo tempo, o poder de se defenderem possui necessariamente um direito natural absoluto. Demonstro então que os que detém o poder supremo a tudo o que estiver em seu poder e são os únicos responsáveis pelo direito e pela liberdade, ao passo que os outros devem fazer tudo de acordo apenas com o que eles determinam.

Todavia, como ninguém pode privar-se a um ponto tal do seu poder de se defender que deixasse de ser um homem, resulta daí que ninguém pode ser absolutamente privado do seu direito natural e que os súditos mantém, quase como um direito da natureza, alguns privilégios que lhes não pode ser recusado sem grave perigo para o Estado e que, ou lhes são tacitamente concedidos, ou eles estipulam expressamente com aqueles que detém o poder. Posto isto, passo ao estado hebraico, que descrevo em pormenor, para explicar por que razão e por ordem de quem a Religião passou a ter força de lei, bem como outras coisas, que, de caminho me pareciam dignas de registro.

(...)

Tinha ainda mais coisas a dizer, mas não quero que este prefácio se alongue ao ponto de parecer um volume, sobretudo porque julgo que o essencial é soberanamente conhecido dos filósofos. Quanto aos outros, não tento sequer recomedar-lhes este tratado, pois nada me leva a esperar que ele, por qualquer razão, lhes possa agradar. Sei, efetivamente, quão arriscado estão na mente os preconceitos a que se adere como se de coisa piedosa se tratasse; sei, além disso, que é impossível libertar o vulgo da superstição e do medo: e sei, finalmente, que a constância no comum dos homens é obstinação e que, em vez de ser a razão que os guia, é a tendência para louvar ou vituperar que os arrebata.

*Baruch de Espinoza

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Arnaldo e ela é "Dilmais"

Olá pessoal, como ja foi dito anteriormente a orientação política desse blog no sentido de filiação partidária é na verdade apolítica, isto é, não levantamos nenhuma bandeira em particular por entendermos que todo sectarismo é burro. E não obstante, principalmente pelo fato de que em tempos como os nossos a palavra ideologia tem continuamente se dissolvido em interesses digamos, obscuros às idéias originais.

Dito isso, apresento aqui um texto do Arnaldo Jabor que chegou a mim por e-mail. De um modo geral, o autor tece alguns comentários sobre os aliados da Dilma e o pacote que você recebe ao votar no PT nessas eleições. Todavia, o que está me levando a publicá-lo aqui não é somente seu conteúdo, posto que qualquer pessoa com o mínimo de senso crítico é capaz de entender o que está acontecendo... A grande questão é o contexto que envolveu a publicação original. Pelo que consta, tão logo o site da CBN deixou à disposição os comentários do Jabor, foi impelido a tirá-los do ar pelo TSE.


Amigos do Soturna Primavera, uma república não pode sobreviver sem democracia, o direito à liberdade de expressão é um bem sagrado no nosso sistema jurídico e é justamente o limiar que separa uma comunidade de homens livres de um fascismo travestido. Será que o PT pretende fabricar uma ditadura de modos mais sofisticados onde o cacetete aparece em forma de canetas de juízes comprometidos e nada isentos? Será que todas as lutas, a recessão, as crises pelas quais esse país passou serviram só para voltarmos ao mesmo lugar? Não me sinto capaz a afirmar nada categoricamente, entretanto me coloco obrigado a levantar essas questões. Lembrai: na década de 1930 Adolf Hitler foi considerado o melhor governante que a alemanha jamais teve... O poder absoluto corrompe e degenera absolutamente, mas isso eu acho que vocês ja sabiam. Abaixo segue o texto do Jabor e no fim alguns vídeos com performances da nossa candidata, seria cômico se não fosse trágico.

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Tudo isto e muito mais...




Isso mesmo, agora o plano é lutar contra o meio ambiente :s



*Arnaldo Jabor
**Leandro M. de Oliveira
***Ps: Agradecimentos à Aida Zorkot
****Pps: O pior é que é tudo verdade

sábado, 9 de outubro de 2010

Bento de Espinoza

Se os homens pudessem, em todas as circunstâncias, decidir pelo seguro, ou se a fortuna se lhes mostrasse sempre favorável, jamais seriam vitímas da superstição. Mas, como se encontram freqüentemente perante tais dificuldades que não sabem que decisão hão de tomar, e como os incertos benefícios da fortuna que desenfreadamente cobiçam os fazem oscilar, a maioria das vezes, entre a esperança e o medo, estão sempre prontos a acreditar seja o que for, se tem dúvidas, deixam-se levar com a maior das facilidades para aqui ou para ali; se hesitam, sobressaltados pela esperança e pelo medo em simultâneo, ainda é pior; porém, se estão confiantes, ficam logo inchados de orgulho e presunção.

Julgo que toda a gente sabe que é assim, não obstante eu estar convicto de que a maioria dos homens se ignoram a si próprios. Não há, com efeito, ninguém que tenha vivido entre os homens que não se tenha dado conta de que a maior parte deles, se estão em maré de prosperidade, por mais ignorantes que sejam, ostentam uma tal sabedoria que até se sentem ofendidos se alguém lhes quer dar um conselho. Todavia, se estão na adversidade, já não sabem para onde se virar, suplicam o conselho de quem quer que seja e não há nada que se lhes diga, por mais frívolo, absurdo ou inútil, que eles não sigam.

Depois, sempre por motivos insignificantes, voltam de novo a esperar melhores dias ou a temer desgraças ainda piores. Se acontece, quando estão com medo, qualquer coisa que lhes faz lembrar um bem ou um mal por que já passaram, julgam que é o prenúncio da felicidade ou da infelicidade e chamam-lhe, por isso, um presságio favorável ou funesto, apesar de já terem se enganado centenas de vezes. Se vêem, pasmados, algo de insólito, crêem que se trata de um prodígio que lhes revela a cólera dos deuses ou do Númem sagrado, pelo que não aplacar com sacríficios e promessas tais prodígios constitui um crime aos olhos desses homens submergidos na superstição e adversários da religião, que inventam mil e uma coisas e interpretam a natureza da maneira mais extravagante, como se toda ela delirasse ao mesmo tempo que eles. Tanto assim é, que quem nós vemos ser escravo de todas as superstições são sobretudo os que desejam sem moderação os bens incertos.

Todos eles, designadamente quando correm perigo e não conseguem por si próprios salvar-se, imploram o auxílio divino com promessas e lágrimas de mulher, dizem que a razão é cega porque não pode indicar-lhes um caminho seguro em direção às coisas vãs que desejam, ou que é inútil a sabedoria humana; em contrapartida, os devaneios da imaginação, os sonhos e as extravagâncias infantis, parecem-lhes respostas divinas. Até julgam que Deus sente aversão pelos sábios e que os seus decretos não estão inscritos na mente, mas sim nas entranhas dos animais, ou que são os loucos, os insensatos, as aves, quem por instinto ou sopro divino os revela.

A que ponto o medo ensandece os homens! O medo é a causa que origina, conserva e alimenta a superstição. Se, depois do que já dissemos, alguém quiser ainda exemplos, veja-se Alexandre, que só se tornou supersticioso e recorreu aos adivinhos, quando, às portas de Susa, começou pela primeira vez a temer por sua sorte (vide Q. Cúrcio, Livro V, §7); assim que venceu Dario, desistiu logo de consultar os adivinhos e arúspices. Até ao momento em que, uma vez mais aterrado pela adversidade, abandonado pelos Bactrianos, atacado pelos Citas e imobilizado devido a uma ferida, recaiu (como diz o mesmo Q. Cúrcio, Livro VII, §7) na superstição, esse logro das mentes humanas, e mandou Aristandro, em quem depositava uma desconfiança cega, explorar por meios de sacríficios a evolução futura dos acontecimentos.

Poderíamos acrescentar muitos outros exemplos que provam com toda a clareza o mesmo: os homens só se deixam dominar pela superstição enquanto têm medo: todas essas coisas que já alguma vez foram objetos de um fútil culto religioso não são mais do que fantasmas e delírios de um caráter amedrontado e triste; finalmente, é quando os Estados se encontram em maiores dificuldades que os adivinhos detém maior poder sobre a plebe e são mais temidos pelos seus reis. Mas como tudo isto, ao que presumo, é suficientemente conhecido de todos, não insistirei mais no assunto.

Se esta é a causa da superstição, há que concluir, primeiro, que todos os homens lhe estão naturalmente sujeitos (digam o que disserem os que julgam que ela deriva do fato de os mortais terem todos uma qualquer idéia, mais ou menos confusa, da divindade); em segundo lugar, que ela deve ser extremamente variável e inconstante, como todas as ilusões da mente e os acessos de furor, e por último, que só a esperança, o ódio, a cólera e a fraude podem fazer com que subsista, pois não provém da razão, mas unicamente da paixão, e da paixão mais eficiente. Daí que seja tão fácil os homens acabarem vítimas de superstição de toda espécie quanto é difícil conseguir que eles persistam numa só e na mesma superstição.

Precisamente porque o vulgo persiste na sua miséria é que nunca está por muito tempo tranqüilo e só lhe agrada o que é novidade e o que ainda não lhe enganou, inconstância essa que tem sido a causa de inumeráveis tumultos e guerras atrozes. Na verdade (como se prova pelo que já dissemos e como Cúrcio muito bem observou, no livro IV, cap. X), não há nada mais eficaz que a superstição para governar as multidões. Por isso é que estas são facilmente levadas, sob a capa da religião, ora a adorar os reis como se fossem deuses, ora a execrá-los e a detestá-los como se fossem uma peste para todo gênero humano.

Foi, de resto para prevenir este perigo que houve sempre o cuidado de rodear a religião, fosse ela verdadeira ou falsa, de culto e aparato, de modo a que se revestisse da maior gravidade e fosse escrupulosamente observada por todos. Entre os turcos, isto foi tão bem sucedido que até o simples discutir eles consideram crime, deixando a inteligência de cada um ocupada com tantos preconceitos que não há mais lugar na mente para a reta razão, nem sequer para se duvidar.

Se, efetivamente, o grande segredo do regime monárquico e aquilo que acima de tudo lhes interessa é manter os homens enganados e disfarçar, sob o especioso nome de religião, o medo em que devem ser contidos para que combatam pela servidão como se fosse pela salvação e acreditem que não é vergonhoso, mas sumamente honroso, derramar o sangue e a vida pela vaidade de um só homem, em contrapartida, numa República livre, seria impossível conceber ou tentar algo de mais deplorável, já que repugna em absoluto à liberdade comum sufocar com preconceitos ou coartar de algum modo o livre discernimento de cada um. E no que diz respeito aos conflitos desencadeados a pretexto da religião, é evidente que eles surgem unicamente porque se estabelecem leis que concernem matéria de especulação e porque as opiniões são consideradas crime e, como tal, condenadas.

Os seus defensores e prosélitos são, por isso, imolados, não ao bem público, mas apenas ao ódio e à crueldade dos adversários. Porque se o direito estatal fosse de modo a que os fatos fossem incrimináveis, mas as palavras fossem impunes, semelhantes conflitos não poderiam jamais invocar qualquer espécie de direito, nem as controvérsias se converteriam em sedições. E já que nos coube em sorte esta rara felicidade de viver numa República, onde se concede a cada um inteira liberdade de pensar e de honrar a Deus como lhe aprouver e onde não há nada mais estimado nem mais agradável do que a liberdade, pareceu-me que não seria tarefa ingrata ou inútil mostrar que esta liberdade não só é compatível com a liberdade e paz social, como inclusivamente, não pode ser abolida, sem se abolir, ao mesmo tempo, a paz social e a piedade.

(...)

Inúmeras vezes fiquei espantado por ver homens que se orgulham por professar a religião cristã, ou seja o amor a alegria, a paz, a continência e a lealdade para com todos, combaterem-se com tal ferocidade e manifestarem cotidianamente uns para com os outros um ódio tão exacerbado que se torna mais fácil reconhecer a sua fé por estes do que por aqueles sentimentos. De fato, há muito que as coisas chegaram a um ponto tal que é quase impossível saber se alguém é cristão, turco, judeu ou pagão, a não ser pelo seu vestuário, pelo culto que pratica, por freqüentar esta ou aquela igreja, ou finalmente porque perfilha esta ou aquela opinião e costuma jurar pelas palavras deste ou daquele mestre. Quanto ao resto, todos levam a mesma vida.

Procurando então a causa deste mal, conclui que ele se deve, sem sombra de dúvidas, ao fato de os cargos da Igreja serem considerados como títulos de nobreza, os seus ofícios como benefícios, e consistir a religião, para o vulgo, em cumular de honras os pastores. Com efeito, assim que começou na Igreja este abuso, logo se apoderou dos piores homens um enorme desejo de exercerem os sagrados ofícios, logo o amor de propagar a divina religião se transformou em sórdida avareza e ambição; de tal maneira que o próprio templo degenerou em teatro onde não mais se veneravam doutores da Igreja mas oradores que, em vez de quererem instruir o povo, queriam era fazer-se admirar e censurar publicamente os dissidentes, não ensinando senão coisas novas e insólitas para deixarem o vulgo maravilhado. Daí o surgirem grandes contendas, invejas e ódio, que nem o correr do tempo foi capaz de apagar.
*Baruch de Espinosa
**Bento de Espinoza também Benedito Espinoza ou como é mais conhecido no Brasil, Baruch de Spinoza. Foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Nasceu em Amsterdam, nos Países Baixos, no seio de uma família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno

sábado, 2 de outubro de 2010

Aos eleitores indecisos (Circo do caos)

Amanhã dia 3 de outubro, mais uma vez estaremos convidados, ou melhor, compelidos a participar do processo eleitoral. É realmente ambíguo o que acontece aqui, todo cidadão maior de idade esta obrigado a votar ou sofrerá várias sanções se optar pelam não participação. É exatamente nesse ponto que reside o caráter esdrúxulo da eleição, a idéia é que vivamos em uma democracia, entretanto estamos coagidos a participar de coisas que nem sempre nos interessam, as eleições são grande exemplo disso. Por definição de Aurélio Buarque de Holanda:

de.mo.cra.ci.a

Substantivo feminino.
1.Governo do povo; soberania popular.
2.Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder.

Assim, quando se fala em soberania popular, deve-se entender que isso signifique respeitar a diversidade de opiniões produzidas por esse determinado povo dentro de um determinado contexto sociopolítico. Soberania sendo o suporte do exercício democrático indica uma liberdade plena para a expressão da vontade, fazer o contrário é exercer uma ditadura travestida. Nesse sentido, vive-se ainda num regime que considera a liberdade tão somente como uma ficção jurídica. Ela põe-se aqui como uma peça hipotética que serve de sustento à introjeção de ideologias que restam como garantia de exercício de poder a grupos determinados, e quando surgem novos, não passam de variações do mesmo tema. Vivemos aqui uma democracia amordaçada, enjaulada e adestrada de acordo com interesses pré-determinados.

No que se refere ao campo da ação política enquanto participação eleitoral, tem existido nos últimos anos um fenômeno que considero interessante. A cada novo pleito sobe o número de candidatos digamos, hilários ou sem um perfil clássico. Isso tem irritado muita gente que se vê ameaçada por essa horda de políticos que são de certo modo “não-políticos”. Talvez o caso mais emblemático seja o de um candidato a deputado federal por São Paulo, o humorista “Tiririca”. Esse homem teve toda sua documentação aceita e achada conforme no momento do registro de sua candidatura pelo órgão competente, tudo feito de boa-fé. Todavia, agora que as pesquisas o apontam como um possível fenômeno de votação, provavelmente o maior da história do país, passa a existir uma corrida de promotores e juízes com intenção de cerceá-lo ao de direito de ser votado e eleito. E tudo por causa da suspeita de ser o candidato analfabeto, ora, em 2007 foi concluído que o Brasil tinha a maior taxa de analfabetos da América Latina, perdendo para Haiti, Nicarágua, Guatemala, Honduras, El Salvador, República Dominicana, Bolívia e Jamaica em número de pessoas que não sabem ler nem escrever.

De acordo com o IBGE, 10% de nossa população é constituída de analfabetos e 38,9% de analfabetos funcionais. Com isso gostaria de dizer aos senhores poderosos, que vocês fabricaram o Tiririca, assim como ainda vão fabricar muitos outros que serão fruto do descaso e da ingerência de vocês com a máquina pública. Tenho uma tese de que esses candidatos apareçam pela obrigação jurídica dos apolíticos de participarem da política, assim escolhem alguém com quem possam se identificar. Minha opção particular nessa eleição é votar em branco, pois entre o mau caratismo e a estupidez completa, prefiro não tomar afeto por nenhum. Revisitando a constituição federal, uma brevíssima reflexão:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...)

Se a lei garante que todos são iguais, por que perseguem tanto o Tiririca? E se garante que todos são livres, por que não estou simplesmente à minha própria vontade para decidir ir ou não votar amanhã? Abaixo seguem vídeos que ilustram o pandemônio das eleições, devo concordar, é mesmo uma tragédia hilária.

Tirica:


Celebridades ou quase:



Ala diversidade sexual:



Plus dos humoristas:


E agora um bônus especial. Essa mulher quer ser governadora do distrito federal. O que vocês pensam disso? :)


*Leandro M. de Oliveira

sábado, 31 de julho de 2010

Da dentadura da discórdia e outras anotações acerca da religião em nossos dias

Acabo de assistir um vídeo da “comunidade canção nova” extraído de um programa que tem exibição em seu canal (sim, eles tem um canal próprio de televisão), nessa filmagem o citado grupo pertencente à igreja católica apostólica romana por meio dos dois apresentadores pedem deliberadamente que quem tenha ouro em casa doe para a construção de um templo. Fazendo propostas das mais esdrúxulas possíveis como enviar alianças de casamento, restos de outros objetos, chegando mesmo ao ponto de sugerir a extração de dentes de ouro de defuntos para enviar-lhes.

Nesse último caso em específico além de implicações morais, é mister lembrar que tal situação poderia gerar complicações de ordem legal, sendo aquele que pratica ato semelhante um concorrente ao enquadramento no crime disposto no Artigo 211 do Código Penal Brasileiro, “Destruição, Subtração ou Ocultação de Cadáver” que prevê reclusão de 1 a 3 anos, e multa. Os pedidos de doação citados acima são reforçados e veiculados no site da comunidade, como se observa num texto extraído dessa página há alguns meses:

“Não, o Centro de Evangelização não está pronto ainda. Podemos dizer que ele está em condição de uso. Hoje ainda o som é alugado, a iluminação é alugada, o sistema de TV é alugado, que são coisas que nós precisaremos ter fixas neste ambiente. Então você que doou o seu ouro na construção da alvenaria, da parte metálica, da parte elétrica... a campanha não acabou. Você que tem aí um pedaço de dente, de pulseira, uma aliança, uma corrente... seja o que for, talvez isso tudo servirá para você muito pouco. Você vai fazer muito pouco com isso, mas tudo isso junto aqui nós podemos mudar a vida de muita gente. Então manda para cá esse ouro.”

E agora segue abaixo o vídeo para que avaliem:



Recentemente tenho sofrido algumas críticas de leitores do blog, me acusando de ateísmo (como se isso fosse crime) e tentando colocar-me em circunstâncias às quais não vivo. Não me incomoda ser rotulado, esse é eternamente um preço a se pagar pela opinião própria. O que realmente incomoda é ver a inteligência degenerar em nome de dogmatismo vão, de um fundamentalismo do medievo. Senhores, o mundo evoluiu e as pessoas também. Quando esse tipo de assunto que envolve credos é levado à baila em nosso espaço, isso vem do desejo de esclarecimento que deve ser o fim último de qualquer criatura humana que é nessa condição por vosso entendimento, divina. Assim, é provável que transcender rime em absoluto com conhecer. Se existe um criador que nos deu como legado a terra, é no mínimo digno de nossa parte saber em que consiste essa herança.

Todavia, mais concretamente, quando se aborda o tema da religião organizada, é preciso considerar a priori que são elas redes e instrumentos de poder. Não é pelo fiel engajado que nos manifestamos, ele é livre, para sublimação absoluta ou degradação voluntária, como bem lhe aprouver. O nossa questão é relacionada aos clérigos estelionatários de qualquer igreja que tenham como profissão de fé a exploração do ingênuo, seja ela em qualquer campo, tanto no moral, espiritual ou material. Esses homens vão se apossando aos pouco da consciência das gentes, direcionam o povo a pensamentos pré-fabricados, o que vem se traduzindo com efeito em ascensão política de membros dessas congregações que se tornam vereadores, prefeitos, deputados, governadores... Nesse exato momento, eu, você e qualquer outro que nada tem haver com esses homens e suas falcatruas, passamos a ser afetados enquanto membros e utilizadores da “res publica”. A orientação do Estado não é laica por acaso, isso ocorre para que haja um ponto de neutralidade competente a mediar conflitos gerados em sociedade, e quando esse ponto é afetado por sectarismos, estamos a um passo de descambar.

Por exemplo, lembro-me de um caso agora. Em Belo Horizonte há alguns anos um casal homossexual vivia em plena comunhão marital, essa relação entre duas mulheres perdurou por cerca de dezesseis anos, até que uma morreu por complicações de saúde. Até aí tudo corria dentro da normalidade, o caminho natural da vida é a morte, nada de extraordinário. Foi quando a família da “de cujus” veio do interior e decidiu requerer os bens que a ela pertenciam, o fato grave é que quase a totalidade dos bens (apartamento, carro, conta-poupança), estava em nome da falecida. O resultado foi que a família conseguiu contra a cônjuge sobrevivente uma ordem judicial de despejo do apartamento que ela própria ajudou a adquirir. No final estava a mesma entregue à sarjeta.

Esse é um caso ilustrativo das milhares de situações semelhantes que ocorrem. Ele foi citado para uma pergunta simples, por que o Brasil não adotou o casamento gay ou pelo menos uma garantia real com os efeitos da união civil para os casais do mesmo sexo? Simples! É basicamente lob religioso meus caros. Existe um projeto de lei acerca da União civil entre pessoas do mesmo sexo de 1995 que foi engavetado por pressão de segmentos eclesiásticos. As mesmas represálias vem sofrendo leis a respeito do aborto e de muitas outras questões relacionadas à saúde pública e à responsabilidade civil.

Ora, que tipo de Deus permite que pessoas que construíram uma vida juntas sejam ao final de tudo rechaçadas como criminosos vulgares? Que divindade deseja o crescimento da morte no ventre de uma mãe por meio da gestação de um bebê anencefalo? Não sei responder a essas perguntas, não sei mesmo dizer se isso é digno de ser discutido em termos de seriedade.

Deus é na verdade uma imagem e semelhança do homem que o projeta, nesses casos estamos em profundo desacordo com as sombras na parede.

*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Princípio do fim?

O Manifesto Futurista escrito por Fillippo Marinetti e publicado em "Lo Figaro" no dia 20 de fevereiro de 1909, foi o grito de independência e marco inicial de um dos movimentos artísticos mais importantes doi século XX. A urgência e a fúria com que as palavras de Marinetti foram colocadas leva a pensar se o fim é mesmo inevitável. Se a vida num sentido de contemplação se perdeu para sempre. É acaso irremediável que o antigo feneça para que haja o nascimento do novo? O futuro é o laudo necopsial de um estupro do passado? Abaixo segue o texto em comento:

1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia, a rebelião, serão elementos essenciais da nossa poesia.

3. Até hoje, a literatura exaltou a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril, o passo de corrida, o salto mortal, a bofetada e o sopapo.

4. Declaramos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida com a carroçaria enfeitada por grandes tubos de escape como serpentes de respiração explosiva… um carro tonitruante que parece correr entre a metralha é mais belo do que a Vitória de Samotrácia.

5. Queremos cantar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada, por sua vez, em corrida no circuito da sua órbita.

6. O poeta terá de se prodigar, com ardor, refulgência e prodigalidade, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo pode ser considerada obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas, para reduzi-las a prostrar-se perante o homem.

8. Estamos no promontório extremo dos séculos!… Porque deveremos olhar para detrás das costas se queremos arrombar as misteriosas portas do impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós vivemos já no absoluto, pois já criámos a eterna velocidade.

9. Nós queremos glorificar a guerra, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias por que se morre e o desprezo da mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo e combater o moralismo, o feminismo e todas as vilezas oportunistas ou utilitárias.

11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela revolta; cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas eléctricas; as gulosas estações de caminho-de-ferro engolindo serpentes fumegantes; as fábricas suspensas das nuvens pelas fitas do seu fumo; as pontes que saltam como atletas por sobre a diabólica cutelaria dos rios ensolarados; os aventureiros navios a vapor que farejam o horizonte; as locomotivas de vasto peito, galgando os carris como grandes cavalos de ferro curvados por longos tubos e o deslizante voo dos aviões cujos motores drapejam ao vento como o aplauso de uma multidão entusiástica.


É da Itália que lançamos ao mundo este manifesto de violência arrebatadora e incendiária com o qual fundamos o nosso Futurismo, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, arqueólogos, cicerones e antiquários.

(...)

Museus: cemitérios!... Idênticos, realmente, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos onde se repousa sempre ao lado de seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos dos matadouros dos pintores e escultores que se trucidam ferozmente a golpes de cores e linhas ao longo de suas paredes!

Que os visitemos em peregrinação uma vez por ano, como se visita o cemitério no dos dos mortos, tudo bem. (...) Mas não admitimos passear diariamente pelos museus nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa mórbida inquietude. Por que devemos nos envenenar? Por que devemos apodrecer?

E que se pode ver num velho quadro senão a fatigante contorção do artista que se empenhou em infringir as insuperáveis barreiras erguidas contra o desejo de exprimir inteiramente o seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivalente a verter a nossa sensibilidade numa urna funerária, em vez de projetá-la para longe, em violentos arremessos de criação e de ação.

Quereis, pois, desperdiçar todas as vossas melhores forças nessa eterna e inútil admiração do passado, da qual saís fatalmente exaustos, diminuídos e espezinhados?

(...)

Bem-vindos, pois, os alegres incendiários com seus dedos carbonizados! Ei-los!... Aqui!... Ponham fogo nas estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais para inundar os museus!... Oh, a alegria de ver flutuar à deriva, rasgadas e descoradas sobre as águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!

(...)

Nossos sucessores virão de longe contra nós, de toda parte, dançando à cadência alada dos seus primeiros cantos, estendendo os dedos aduncos de predadores e farejando caninamente, às portas das academias, o bom cheiro das nossas mentes em putrefação, já prometidas às catacumbas das bibliotecas.

Mas nós não estaremos lá... Por fim eles nos encontrarão - uma noite de inverno - em campo aberto, sob um triste galpão tamborilado por monótona chuva, e nos verão agachados junto aos nossos aeroplanos trepidantes, aquecendo as mãos ao fogo mesquinho proporcionado pelos nossos livros de hoje flamejando sob o vôo das nossas imagens.

Eles se amotinarão à nossa volta, ofegantes de angústia e despeito, e todos, exasperados pela nossa soberba, inestancável audácia, se precipitarão para matar-nos, impelidos por um ódio tanto mais mais implacável quanto seus corações estiverem ébrios de amor e admiração por nós.

A forte e sã Injustiça explodirá radiosa em seus olhos - A arte, de fato, não pode ser senão violência, crueldade e injustiça.

Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: no entanto, temos já esbanjado tesouros, mil tesouros de força, de amor, de audácia, de astúcia e de vontade rude, precipitadamente, delirantemente, sem calcular, sem jamais hesitar, sem jamais repousar, até perder o fôlego... Olhai para nós! Ainda não estamos exaustos! Nossos corações não sentem nenhuma fadiga, porque estão nutridos de fogo, de ódio e de velocidade!... Estais admirados? É lógico, pois não vos recordais sequer de ter vivido! Eretos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas!

Vós nos opondes objeções?... Basta! Basta! Já as conhecemos... Já entendemos!... Nossa bela e mendaz inteligência nos afirma que somos o resultado e o prolongamento dos nossos ancestrais. - Talvez!... Seja!... Mas que importa? Não queremos entender!... Ai de quem nos repetir essas palavras infames!...

Cabeça erguida!...

Eretos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas."
*Fillippo Marinetti
**Leandro M. de Oliveira

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Gramsci contra o apatismo

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
*Antonio Gramsci

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A cara da democracia (Hipótese de Huxley)

“Os homens são atormentados pelo pecado original dos seus instintos anti-sociais, que permanecem mais ou menos uniformes através dos tempos. A tendência para a corrupção está implantada na natureza humana desde o princípio. Alguns homens têm força suficiente para resistir a essa tendência, outros não a têm. Tem havido corrupção sob todo o sistema de governo.

A corrupção sob o sistema democrático não é pior, nos casos individuais, do que a corrupção sob a autocracia. Há meramente mais, pela simples razão de que onde o governo é popular, mais gente tem oportunidade para agir corruptamente à custa do Estado do que nos países onde o governo é autocrático.

Nos estados autocraticamente organizados, o espólio do governo é compartilhado entre poucos. Nos estados democráticos há muito mais pretendentes, que só podem ser satisfeitos com uma quantidade muito maior de espólio que seria necessário para satisfazer os poucos aristocratas. A experiência demonstrou que o governo democrático é geralmente muito mais dispendioso do que o governo por poucos.”

*Aldous Huxley

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Marx e o vil metal

Abaixo um texto da lavra de Karl Marx extraído de seu “manuscritos econômico-filosóficos”. O trecho citado é um manifesto sobre as impossibilidades que acompanham a falta de poder aquisitivo em uma sociedade capitalista, a subtração e a alienação de um sentido ético de comunidade frente ao apelo do domínio econômico. Marx faz o seu mergulho na alma desses tempos e nos alerta da perda das convicções profundas e da transformação do homem em um “ser-coisa”, na medida em que todos possuem seu preço e isso por sua vez orienta as escolhas do mesmo, fazendo-o prosperar ou enfrentar privações agudas. Aí vai:

"Eu, se não tenho dinheiro para viajar, não tenho necessidade alguma, isto é, nenhuma necessidade efetiva e efetivando-se de viajar. Eu, se tenho vocação para estudar, mas não tenho dinheiro algum para isso, não tenho vocação para estudar, isto é, nenhuma vocação efetiva, verdadeira. Se eu, ao contrario, não tenho vocação alguma para estudar, mas tenho a vontade e o dinheiro, tenho para isso uma vocação efetiva.

O dinheiro (enquanto exterior, não oriundo do homem enquanto homem, nem da sociedade humana enquanto sociedade), meio e capacidade universais, faz da representação efetividade e da efetividade uma pura representação, transforma igualmente as forças essenciais humanas efetivas e naturais em puras representação abstrata e, por isso, em imperfeições, angustiantes fantasias, assim como, por outro lado, transforma as efetivas e fantasias, as suas forças essenciais realmente impotentes que só existe na imaginação do indivíduo, em forças essenciais efetivas e efetiva capacidade.

Já segundo esta determinação o dinheiro é, portanto, a inversão universal da individualidade, que ele converte no seu contrário e que aos seus atributos contraditórios. Enquanto tal poder inversor, o dinheiro se apresenta também contra o indivíduo e contra os vínculos sociais etc., que pretende ser, para si, essência. Ele transforma fidelidade em infidelidade, amor em ódio, ódio em amor, a virtude em vicio, o vicio em virtude, o servo em senhor, o senhor em servo, a estupidez em entendimento, o entendimento em estupidez (...)"
*Karl Marx

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Haiti é aqui

Desde o terremoto ocorrido no Haiti há alguns dias, vê-se um desfile de boas ações noticiadas em todas as instâncias da mídia. Governos nacionais, atletas, empresas, milionários, gente comum,todos unidos em prol do socorro a esse país vítima da mais aguda miséria histórica das Américas. Fato pacífico é que esse estado do caribe vive em condições de uma precariedade às vezes inimaginável no século XXI, desde sua fundação como colônia escravista de exploração econômica francesa, até o século XX com a ocupação militar e depois política America, esse país foi continuamente dilapidado em seus recursos financeiros, naturais e sociais. A tragédia haitiana vem de longa data, ao contrário do que se imagina, grande parte do quadro de caos apresentado pelas redes de TV como grande população de rua, falta de emprego, inacesso à educação, escassez alimentícia entre outros, são flagelos que acompanham a população desse desafortunado país com ou menor intensidade desde sua conturbada independência nos idos do ano 1.804.

Como humanista não há como não se apiedar, entendo o homem do futuro como um ser essencialmente sem bandeiras, que se alista em qualquer trincheira disponível à busca do progresso global, aceitando o mundo como pátria, desconhecendo as fronteiras. Entretanto, esse homem novo a meu ver depende de mais que boa vontade e romantismo pra surgir, ele há de ser um evento concreto quando a opção for de dentro pra fora, quando em seu próprio país conhecer e trabalhar por uma justiça social efetiva, poderá ir a outros estados e reivindicar isso àqueles que lá vivem, todo o mais de empreita semelhante é conjetura ou aceitar a condição de massa de manobra dos poderosos.

O que se busca dizer com esse discurso, é que faz-se em esforço de pouca valia nos abstermos de questões básicas à evolução social interna em favor de outra ordem externa. Nesse caso vale o antigo dito popular de não adiantar em nada “descobrir um buraco pra tapar outro”. Vejo nos dias atuais o cinismo do governo brasileiro, enquanto milhões morrem de inanição, falta de emprego, educação, esclarecimento e oportunidade em inúmeros pontos desse país, nosso presidente ainda tem surtos de líder sindical e como em sonho ou ataque psicótico parece se sentir discursando na velha internacional comunista, com aquele grito de guerra inflamado e cheio de segundas intenções. Mas a era das revoluções foi (tristemente) sepultada, e os antigos líderes eram muito mais que fantoches nas mãos de uma pequena elite intelectual filha da classe média que os usa como símbolo e contraponto a uma já alardeada decadência burguesa, objetivando em última análise o status de novos messias da sociedade. Não, aqueles homens eram mais que massa de manobra.

Infelizmente hoje estamos enquanto sociedade acometidos pelo mau do “imbecil coletivo”, essa praga que em parte vem desses tempos de globalização, em parte das intenções escusas de quem nos informa do panorama geral (mídia) e seus afiliados. Tem-se a idéia de que é melhor salvar alguém do outro lado do mundo do que aquele que está perdido à sua porta e tudo só porque o jornal nacional falou que assim soa mais humano. Esse momento de mobilização das boas intenções por um país vizinho é também uma oportunidade de repensar a capacidade e necessidade de resolução das questões domésticas. Acaso é legítimo enviar milhões de dólares entre outros recursos a um país estrangeiro enquanto nós ainda que em menor escala perecemos das mesmas faltas? Os Estados Unidos estão lá, por uma dívida histórica e pela capacidade recursal que possuem, assim como os demais países europeus e os grandes asiáticos. Mas e o Brasil? Será que vale a pena deixar o sistema público de saúde em petição de miséria, igualmente a rede de ensino que nada oferece. Abandonar os miseráveis do nordeste e do Jequitinhonha à própria sorte, tudo em nome da vaidade, do reclame de uma liderança regional que não governa a si própria... Por fim, a respeito dessas intervenções e abstenções do governo faço minhas as palavras do mestre Darcy Ribeiro, um dos maiores humanistas que esse país já conheceu:

“(...) Quem mais representa como massa humana a Latinidade somos nós, os mestiços Brasileiros. Nesse sentido, nós somos a Nova Roma, uma Roma que o mundo vai ver espantado, no momento em que realizarmos nossa potencialidade — tantas! No momento em que resolvermos problemas elementares: que todo mundo coma todo dia, que toda criança tenha uma escola, que se façam aquelas reformas urbanas e rurais para que a terra seja acessível para quem trabalha, para que as cidades sejam a morada dos homens, cordial. Nesse dia, vai florescer no mundo uma civilização diferente, que nunca ninguém viu. (...) Ao lado dos eslavos, milhões de eslavos! Ao lado dos neo-britânicos , milhões! Ao lado dos chineses, milhões! Dos árabes, milhões! De outros tantos milhões, existirá essa face morena."
*Leandro M. de Oliveira

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Acontece na América

Às vezes duvido de que se tenha captado desde a “primavera democrática” latino-caribenha a verdadeira natureza e o papel dado neste “continente da esperança” pelo imperialismo estadunidense e o sub-imperialismo israelense, ao regime colombiano que preside Álvaro Uribe Vélez.

Tomara que tudo o relacionado com a instalação de cinco novas bases militares e o re-forçamento das outras dois existentes, possibilite valorar a profundidade o real significado desse Estado em governos e sociedades da nossa América.

# Essência e evolução do poder colombiano.

Trata-se de algo realmente funesto, nefasto, de alta periculosidade.
Esse regime não é somente uma das democracias representativas da direita tradicional.
Não é simplesmente um governo de direita.
Não é exclusivamente um regime pró-oligárquico e pró-imperialista.
Não é só uma ditadura encoberta por um manto democrático-eleitoral.

Nem sequer pode definir-se só como um governo sustentado em um Estado com forte vocação terrorista a respeito de tudo o que se lhe opõe.

É isso tudo e muito mais em quanto à sua gestão de poder dentro da sociedade colombiana e frente aos processos democrático-soberanos que se desenvolveram na atualidade em escala continental.

É um Estado-governo narco-paramilitar-terrorista, instrumentalizado e gerenciado por uma oligarquia feroz e voraz, por uma “classe política” mafiosa e por um generalato criminoso; apadrinhado por um imperialismo decadente e pentgonizado, impelido pelas suas próprias carências em planos de e operações de conquistas e reconquistas pela via militar; assistido, além do mais, pelas altas técnicas do terror sionista e estadunidense, e inspirado também em seus próprios ânimos agressivos e expansionistas.

É um poder montado sobre sessenta anos de guerra suja, de múltiplos exercícios terroristas e variadas misturas políticas com as máfias das drogas e seus cartéis paramilitares.

Rico na cultura do Norte, em práticas terríveis e em dinheiro sujo. Combinação das barbáries mais antigas com as técnicas guerreiras mais modernas e pós-modernas, estas últimas subministradas pelos EUA e Israel; mistura grotesca do picadinho de seres humanos com facões afiados e seu corte em fatias com moto-serras, de massacres próprios da idade média e da robotização da guerra suja. Amálgama granítica e aberrante de inúmeros métodos de terror e extermínio de fontes e épocas diversas



# Engendro pra dentro e pra fora

Sua malvada evolução se centrou primeiro no espaço territorial colombiano para enfrentar com supina crueldade a longa e heróica resistência civil e militar desse povo irmão; aferrada a oligarquia santanderista, a partidocracia tradicional e, sobretudo, o imperialismo estadunidense, ao seu domínio sobre uma vasta e rica região situada na entrada da apetecida Amazônia.

Mais tarde, –agora com maiores ímpetos que antes - esse engendro se sentiu cutucado pela necessidade de contra-restar o avanço do bolivarianismo e de sua formidável onda de transformações redentoras (Venezuela, Equador, Bolívia...), reforçando assim sua vocação sub-imperialista inspirada na experiência judeu-estadunidense no Meio Oriente.

O Estado colombiano, o poder oligárquico e pró-imperialista que o sustenta, o governo gangsteril que o administra, tem devindo não só em um conjunto despudoradamente opressor, punitivo, violento e agressivo contra sua própria sociedade e dentro de seu próprio território, senão ademais progressivamente estruturado como plataforma de agressão imperialista contra a “primavera democrática” continental e muito especialmente contra os processos libertadores da Venezuela, Equador, Bolívia... e os formidáveis movimentos sociais do Brasil e do Peru.

Plataforma do neosantanderismo decadente contra o neobolivarianismo em auge.

Plataforma em ultramar de um imperialismo senil, militarizado, em crise e carente de recursos naturais essências: petróleo, carvão, água, biodiversidade, minerais estratégicos... que apetece demais com gula insaciável.

Plataforma de agressão a partir de uma rede de bases militares estadunidenses encaminhadas a relançar o plano contra-revolucionário regional e o plano de ocupação militar da Amazônia, para o que, de imediato, se propõem tentar arrochar uma insurgência popular e uma resistência civil inquebrantáveis, reverter os processos transformadores na Venezuela, no Equador e na Bolívia, mudar a correlação de forças no Brasil em favor da direita dura e conter a possibilidade de virada à esquerda no Peru.

Plataforma de poderosas bases imperialistas, reforçadas por contingentes e unidades altamente especializadas procedentes das forças regulares dos EUA e dos corpos privatizados que serão localizados na Colômbia dotados de sofisticadas técnicas de guerra.

Plataforma também das forças autóctones muito volumosas e fanatizadas, experimentadas durante décadas em guerras de baixa e mediana intensidade. Agora com dupla tarefa: externa e interna, com muitas unidades paramilitares em processo de reativação e ampliação, e com um montão de recursos sujos disponíveis.

Isso não é qualquer uma coisa.

Isso é um verdadeiro engendro localizado precisamente na cabeça do Norte da América do Sul, exatamente onde se situa o vórtice da onda de mudanças à nova independência e à nova democracia.

O engendro de um imperialismo em fase de putrefação agressiva, decidido a operar agressivamente em pleno desenvolvimento desta crise mundial da civilização burguesa; de um imperialismo capaz de submeter aos seus desígnios e negócios militares inclusive à triunfante expressão do desejo de mudança em sua própria sociedade representada pessoalmente nas passadas eleições por Barack Obama.

Estamos agora ante um “bushismo” sem Bush, criador –antes de Obama e acompanhado de Obama- de um monstruoso engendro colombo-gringo dentro do cenário de um país não soberano, para agredir a soberania de terceiros.

Na calçada de enfrente isto requer de todos os esforços –tal e como está fazendo o comandante Chávez- para o fortalecimento e modernização dos exércitos das nações escolhidas como vítimas, através de convênios militares apropriados para tão delicadas circunstâncias (com a Rússia, a China...). Mas, exige, sobretudo de um desenho e uma preparação para a guerra de todo o povo (ou de todos os povos ameaçados) que dissuada aos agressores de seus planos de guerra ou lhe impeça impor-se se ousam desatá-la.

Porque ademais da importância e do valor relativo dos esforços para reduzir a enorme brecha tecnológica desde a lógica da guerra entre exércitos regulares, está demonstrado que só desde uma visão de guerra assimétrica, de resistência popular bolivariana (venezuelana, equatoriana, colombiana...) seria possível contra-restar, reduzir a efetividade e finalmente empantanar e inutilizar a enorme superioridade técnico-militar dessa superpotência já instalada mediante grandes bases de guerra na Colômbia.

# O uribismo é muito funcional ao engendro.

A esse engendro, cuja gestação data de bastante tempo atrás, tem lhe caído como luva a “liderança” fabricada de Álvaro Uribe Vélez, produto da podridão modernizada, informatizada e digitalizada destes tempos pós-modernos.

Ele e os seus tem substituído o partidarismo tradicional decadente.

Ex - sócio do narco-capo Pablo Escobar Gaviria, experto nas associações com o pára-militarismo e seus cartéis, carente de escrúpulos para favorecer seus massacres em alianças com um generalato feroz, inteligente por maldade, estudioso das gerências modernas, entreguista, audaz, hábil, agressivo, teatral, conhecedor das manobras mediáticas mais eficazes... tem lhe impresso corporativismo, eficiência, mística reacionária e neo-fascismo à gestão governamental colombiana. Sensível à chantagem desde Washington pelo seu passado e expert na chantagem dentro da sua “classe política”, tem todos os atributos para elevar-lhe a posição a esse engendro da re-colonização neoliberal.

Uribe é a nova cara política do monstro localizado no ambicionado paraíso amazônico, agora com papéis precisos indicados em nível nacional-colombiano, regional e mundial.

# O quê fazer com o engendro?

O quê fazer com este engendro anti-bolivariano, contra-revolucionário, contra-reformas, antidemocrático?
Tratá-lo com uma “democracia” porque no seu território se fazem “eleições” e existem instituições “eleitas”?
Considerá-lo como um “respeitável” Estado e um governo de um país irmão?
Tratá-lo como a um “bom vizinho”?
Como a um país soberano cujas decisões devem ser respeitadas?

Acredito ter chegado a hora de analisar as coisas com mais profundidade.

Tal engendro não deve ser tratado em função de suas simulações, nem desde as simples formalidades diplomáticas.

Esse engendro deve ser condenado, repudiado, isolado e politicamente acossado por todas as forças amantes da paz, a liberdade, a democracia, a justiça e a soberania. Estejam essas forças nos governos ou fora deles, sejam políticas, sociais, culturais ou religiosas, pensamos que elas deveriam dispor-se a derrotá-lo em suas duas versões: estatal e paraestatal.

As atrocidades do Estado narco-para-terrorista colombiano e do uribismo como tal devem ser profusamente difundidas em escala mundial por todos os meios possíveis.

Além de todas as formalidades institucionais e do seu próprio e enganoso formato liberal-representativo, esse regime é realmente oprobrioso; e seu presidente, que gosta tanto de qualificar aos seus adversários de “bandidos”, é uma espécie de gangster político hiper-modernizado.

Esse engendro deverias ser isolado desde o ponto de vista diplomático, econômico e político; tanto desde os governos e Estados com vocação revolucionária, progressista e democrática, como desde as organizações sociais, políticas, religiosas, culturais e artísticas de todos os países da região.

Está demonstrado que qualquer condescendência a ele se traduz em mais agressividade e perversidade de sua parte.

Há que contribuir para sua derrota por todas as vias e meios necessários, e isso implica em respaldar, acompanhar e aliar-nos a todas as forças, cívicas, políticas, político-militares, sociais, culturais, religiosas, movimentos étnicos que na Colômbia se opõem a esse engendro guerreirista.

Isso implica em confluir com as forças insurgentes e não insurgentes, de esquerda, populares, democráticas, progressistas decididas a produzir uma mudança política na Colômbia. Uma mudança que a liberte desse engendro e impeça novas agressões contra as novas democracias do continente.

# Convergência solidária com a Colômbia e Honduras

Honduras é ponto de partida de uma grande receita para as contra-reformas e contra-revoluções de novo tipo; e Colômbia é a plataforma sul-americana desse acionar contra a Venezuela, o Equador, a Bolívia, o Brasil... contra toda a primavera democrática continental.

A questão de Honduras ameaça de imediato a El Salvador e a Nicarágua e persegue estimular a revogação dos avanços na América Central e além, procurando à vez facilitar o Plano Puebla-Panamá (agora Puebla-Bogotá).

Já na Colômbia acontece o relançamento em escala maior do Plano Colômbia-Iniciativa Andina contra as possibilidades de mudanças nesse país, contra as mudanças políticas registradas na sua vizinhança e em favor da conversão desse país em uma grande plataforma de agressão militar contra outros países e processos do continente.

Sim há razões poderosas para clamar pelo isolamento e pela derrota do golpe de Estado e do governo de Pinochetti em Honduras, sobram os motivos para contribuir tenazmente aos esforços dirigidos a produzir o mais rapidamente possível uma mudança política democrática na Colômbia.

Não é questão para inibir-se pela simples formalidade institucional (embora isso tenha peso), senão de essências e problemas de fundo. Entre Honduras e a Colômbia –enquanto estado de terror e potencial contra-revolucionário oligárquico-imperialista-mafioso- se tem vantagens de uma sobre outras são muito a favor da Colômbia.

O passo dado por Uribe aceitando as bases militares estadunidenses no seu território não só coincide com o golpe em Honduras e com o reinício nesse país da era do Estado repressivo-terrorista, senão que é parte da mesma estratégia de re-colonização imperialista para voltar a submeter os países vizinhos que se lhe escapuliram das mãos e evitar mudanças progressistas em gestação em outras nações sul-americanas.

# Unidade revolucionária continental.

Vamos fazer o quê?

Resignar-nos a que Zelaya não possa retornar e a que o engendro colombiano siga crescendo em forma ominosa e perigosa?

Isto não é questão que deva decidir só o povo de Honduras ou só o povo da Colômbia, principais vítimas do relançamento da estratégia imperial que conta com o apoio aberto e/ou semi-encoberto dos governos da Colômbia, Panamá, Honduras, México e Peru, e com o apoio mais matreiro ou a atitude escorregadia ou timorata de outros Estados.

Acredito que seja momento para recolocar a estratégia das forças bolivarianas, morazanistas, martianas, guevaristas... do continente.

Penso que desde as grandes lideranças dos Estados e povos venezuelano, equatoriano, boliviano, cubano, nicaragüense, salvadorenho, uruguaio, brasileiro… há autoridade e influências para criar –junto a muitos outros, e sobretudo aos grandes, medianos e pequenos movimentos políticos, sociais, culturais, religiosos, étnicos, meio-ambientais, feministas –uma nova situação baseada em uma linha de denúncias, mobilizações, greves, protestas civilistas, cesse de relações, medidas de isolamento, rebeldias... capazes de debilitar ao máximo, acossar, cercar e derrotar os engendros oligárquico-mafioso-imperialista- colombiano e hondurenho.

Isso é possível. Só falta a vocação política para fazê-lo, sobretudo da parte das lideranças mais influentes na região e no mundo, e das forças com mais recursos e melhor posicionadas.

E é possível, sobretudo, se vai-se mais além dos acordos e espaços intergovernamentais e interestatais e se recorre ao poder dos povos e dos seus movimentos sociais e políticos coordenados, somando-lhe as capacidades logísticas institucionais e o poder mobilizador e carismático dos líderes estadistas.

Penso que é hora para uma grande convergência de Estados, governos, forças políticas e sociais não governamentais, povos empobrecidos, comunidades originárias... para propor-se desde uma atitude beligerante, mobilizadora, consistente e firme, isolar, acossar, e derrotar os regimes da Colômbia e de Honduras, peças chaves de uma parte da contra-ofensiva gringa instrumentalizada através de ambos os cenários ocupados.

Há que acompanhar as intervenções nos cenários governamentais multilaterais com uma linha de ação desde as bases da sociedade, desde a aliança das forças governamentais e não governamentais mais avançadas, desde os povos e suas expressões institucionais e não institucionais.

Tirar o uribismo do governo na Colômbia e derrotar esse engendro maior. Deslocar do poder os golpistas em Honduras e impedir a consolidação desse engendro menor. Relançar com vigor a campanha nenhum soldado ianque na nossa América, são ao meu entender tarefas atuais de primeira ordem e de sentido estratégico.

Não é hora para ambigüidades e meias-tintas. Empenhemo-nos em pressionar nessas direções e convencer aos nossos povos e à diversidade de suas forças condutoras dessa imperiosa necessidade.


(Viva la America Libre!)
*Por N. I. Conde. República. Dominicana
Fonte: www.desacato.info
Versão em português, Raul Fitipaldi, de América Latina Palavra Viva.