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quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Gama do Vazio

Vi este perseguir tal meta e aquele tal outra; vi os homens fascinados por objetos díspares, sob o encanto de projetos e de sonhos ao mesmo tempo vis e indefiníveis. Analisando cada caso isoladamente para descobrir as razões de tanto fervor desperdiçado, compreendi o sem-sentido de todo gesto e de todo esforço.

Existe uma só vida que não esteja impregnada dos erros que fazem viver? Existe uma só vida clara, transparente, sem raízes humilhantes, sem motivos inventados, sem os mitos surgidos dos desejos? Onde está o ato puro de toda utilidade: sol que abomine a incandescência, anjo em um universo sem fé, ou verme ocioso em um mundo abandonado à imortalidade?

Quis defender-me contra todos os homens, reagir contra sua loucura, descobrir sua origem; escutei, vi e tive medo: medo de agir pelos mesmos motivos ou por qualquer outro motivo, de crer nos mesmos fantasmas ou em qualquer outro fantasma, de deixar-me afogar pelas mesmas embriaguezes ou por qualquer outra embriaguez; medo, enfim, de delirar em comum e de expirar em uma multidão de êxtases. Eu sabia que ao separar-me de uma pessoa despojara-me de um erro, que estava pobre da ilusão que lhe deixava…

Suas palavras febris a revelavam prisioneira de uma evidência absoluta para ela e irrisória para mim; ao contato de seu absurdo, despojava-me do meu… A quem aderir sem o sentimento de enganar-se e sem enrubescer? Só pode justificar-se aquele que pratica, com plena consciência, o disparate necessário para qualquer ato, e que não embeleza com nenhum sonho a ficção a que se entrega, do mesmo modo que só se pode admirar um herói que morre sem convicção, tanto mais disposto ao sacrifício quanto entreviu seu fundo.

Quanto aos amantes, seriam odiosos se no meio de suas caretas o pressentimento da morte não os roçasse. É perturbador pensar que levamos para o túmulo nosso segredo — nossa ilusão —, que não sobrevivemos ao erro misterioso que vivificava nosso alento, que excetuando as prostitutas e os céticos todos se perdem na mentira, por que não adivinham a equivalência, na nulidade, das volúpias e das verdades.

Quis suprimir em mim as razões que os homens invocam para existir e para agir. Quis tornar-me indizivelmente normal — e eis-me aqui, no embrutecimento, no mesmo plano que os idiotas e tão vazio como eles.
*Emil M. Cioran

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O gene egoísta (parte 1)

1. Por que as pessoas existem?

A vida inteligente de um planeta atinge a maioridade no momento em que compreende pela primeira vez a razão de sua própria existência. Se criaturas superiores vindas do espaço um dia visitarem a Terra, a primeira pergunta que farão, de modo a avaliar o nível da nossa civilização, será: "Eles já descobriram a evolução?". Os seres vivos já existiam na Terra há mais de 3 bilhões de anos, sem ter a menor idéia do porquê, antes que finalmente a verdade ocorresse a um deles. O seu nome era Charles Darwin. Para ser justo, é preciso dizer que laivos da verdade já haviam ocorrido a outros antes dele, mas foi Darwin quem, pela primeira vez, construiu uma explicação coerente e convincente da razão por que existimos. Devemos a ele a possibilidade de dar uma resposta racional à criança curiosa cuja pergunta serve de título a este capítulo. Não precisamos mais recorrer à superstição quando confrontados com questões profundas como as seguintes: "Há um sentido para a vida?"; "Para que existimos?"; "O que é o homem?". Depois de formular a última dessas perguntas, o eminente zoólogo G. G. Simpson declarou: "Aquilo que quero esclarecer agora é que todas as tentativas de responder a esta pergunta feitas antes de 1859 são totalmente desprovidas de valor e que estaremos em melhor posição se simplesmente as ignorarmos por completo".

Hoje, a teoria da evolução está tão sujeita à dúvida quanto a teoria de que a Terra gira em torno do Sol, mas as implicações mais profundas da revolução de Darwin ainda não foram amplamente compreendidas. Nas universidades, apenas uma minoria se dedica ao estudo da zoologia, e mesmo aqueles que escolhem essa área de estudos quase sempre o fazem sem avaliar o seu profundo significado filosófico. A filosofia e outras disciplinas conhecidas como "humanidades" continuam a ser ensinadas quase como se Darwin nunca tivesse existido. Não há dúvida de que isso se modificará com o tempo. Seja como for, este livro não pretende representar uma defesa geral do darwinismo. Na verdade, ele se propõe a explorar as conseqüências da teoria da evolução em relação a um problema específico. O meu propósito é examinar a biologia do egoísmo e do altruísmo.

Para além de seu interesse acadêmico, a importância humana desta questão é óbvia. Ela toca de perto todos os aspectos da nossa vida social, o nosso amor e o nosso ódio, a luta e a cooperação, o dar e o roubar, a nossa ganância e a nossa generosidade. As mesmas pretensões poderiam ser atribuídas a obras como On aggression [Sobre a agressividade], de Lorenz, The social contract [O contrato social], de Ardrey, e Love and hate [Amor e ódio], de Eibl-Eibesfeldt. O problema com esses livros é que seus autores erraram, total e completamente. E erraram porque não entenderam como a evolução opera. Eles supuseram que o importante na evolução é o bem da espécie (ou do grupo), em vez do bem do indivíduo (ou do gene). É irônico que Ashley Montagu tenha acusado Lorenz de ser um "descendente direto dos pensadores da 'natureza rubra em seus dentes e garras' do século XIX...". Até onde entendo a visão de Lorenz acerca da evolução, ele concordaria inteiramente com Montagu ao rejeitar as implicações da famosa frase de Tennyson. Ao contrário de ambos, eu penso que a idéia de "uma natureza rubra em seus dentes e garras" traduz admiravelmente bem a compreensão moderna da seleção natural.

Antes de iniciar a minha argumentação, quero explicar brevemente o tipo de argumentação de que se trata aqui, e também o tipo de que não se trata. Se nos dissessem que um homem viveu uma vida longa e próspera no mundo dos gângsteres de Chicago, nos sentiríamos autorizados a fazer certas especulações sobre que tipo de homem ele era. Seria de esperar que tivesse algumas qualidades, tais como valentia, rapidez no gatilho e habilidade de atrair amigos leais. Embora tais deduções não sejam infalíveis, podemos inferir algumas coisas sobre o caráter de um homem se tivermos conhecimento das condições em que ele sobreviveu e prosperou. O argumento deste livro é que nós, e todos os outros animais, somos máquinas criadas pelos nossos genes. Como os bem-sucedidos gângsteres de Chicago, nossos genes sobreviveram - em alguns casos, por milhões de anos - num mundo altamente competitivo. Isso nos permite esperar deles algumas qualidades. Sustentarei a idéia de que uma qualidade predominante que se pode esperar de um gene bem-sucedido é o egoísmo implacável. Em geral o egoísmo do gene originará um comportamento individual egoísta. No entanto, tal como veremos, existem circunstâncias especiais em que um gene pode atingir mais efetivamente seus próprios objetivos egoístas cultivando uma forma limitada de altruísmo, que se manifesta no nível do comportamento individual. "Especiais" e "limitada" são palavras importantes na última frase. Por mais que desejemos acreditar no contrário, o amor universal e o bem-estar da espécie como um todo são conceitos que simplesmente não fazem sentido do ponto de vista evolutivo.
*Richard Dawkins

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Por um sentido mais óbvio que a transcendência

Se vamos então tratar dos fenômenos do alto, das leis que regem os movimentos do sol e da lua, e que governam todas as coisas da terra, falta-nos ainda e sobretudo como meio de um método penetrante, investigar a formação do espírito e da alma, saber o que são estes objetos terríveis que nos aterrorizam na febre da doença, ou soterrados no sono, ao ponto de pensarmos ver e entender face a face aqueles que já ascenderam à morte e dos quais a terra guarda os ossos.

Sei bem que os obscuros sistemas dos gregos são difíceis de clarificar nos versos latinos, sobretudo porque é preciso usar tantos termos novos, por causa da pobreza da língua e da novidade dos temas!

Mas, todavia a atração da tua virtude, a doçura áspera da tua prezada amizade, levam-me a ultrapassar todas as fadigas, a velar nas noites serenas, procurando quais as palavras e em que versos poderei ascender no teu espírito uma luz que o ilumine sobre os segredos mais profundos da natureza. Este terror, estas trevas da alma, precisam, para se dissiparem, não dos raios do sol, os traços luminosos do dia, mas da visão exata da natureza e da sua raciocinada explicação.


O princípio que nos servirá de ponto de partida, é que nada se pode engendrar do nada por efeito de um poder divino. Se a necessidade tem agrilhoado todos os mortais, é porque sobre a terra e no céu lhes aparecem fenômenos dos quais não podem de modo nenhum perceber as causas e as atribuem a uma ação dos deuses. Quando tivermos visto que nada se forma de nada, então o que procuramos descobrir-se-á mais facilmente; saberemos do quê cada coisa pode receber o ser e como todas as coisas se formam sem a intervenção dos deuses.
*Lucrécio (Titus Lucretius Carus), Roma, 98 a.c

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Somos o que decidimos ser

Nenhuma moral geral pode indicar-vos o que há a fazer: não há sinais no mundo. Os católicos responderão: sim, há sinais. Admitamo-lo: sou eu mesmo, em todo o caso, quem escolhe o significado desses sinais. Quando estive preso, conheci um homem assaz notável que era jesuíta. Entrara ele para a Companhia da seguinte maneira: tinha sofrido um certo número de desastres bem dolorosos: em criança, tinha-lhe morrido o pai deixando-o pobre.

Bolseiro de uma instituição religiosa, faziam-lhe sentir aí constantemente que ele fora aceite por caridade; e em consequência disso não teve certas distinções honoríficas que agradam às crianças; depois, pelos dezoito anos, foi mal sucedido numa aventura sentimental; por fim, pelos vinte e dois anos, coisa bastante pueril, mas que foi a gota de água que fez transbordar o vaso, falhou a sua preparação militar.

Este jovem podia pois pensar que tinha falhado em tudo; era um sinal, mas um sinal de quê? Podia refugiar-se na amargura ou no desespero. Mas ele pensou, muito habilmente para si, que era o sinal de que não estava talhado para os triunfos seculares, e que só os triunfos da religião, da santidade, da fé, lhe eram acessíveis. Viu portanto nisso a palavra de Deus, e entrou na Ordem. Quem não vê que a decisão do significado do sinal foi só ele que a tomou?

O desamparo implica sermos nós a escolher o nosso ser. O desamparo é paralelo da angústia. Quanto ao desespero, esta expressão tem um sentido extremamente simples. Quer ela dizer que nós nos limitamos a contar com o que depende da nossa vontade, ou com o conjunto das probabilidades que tornam a nossa ação possível.
*Jean-Paul Sartre

O que vem antes

O existencialismo ateu, que eu represento, é mais coerente. Declara ele que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana.

Que significará aqui o dizer-se que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. O homem é, não apenas como ele se concebe, mas como ele quer que seja, como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz.

Tal é o primeiro princípio do existencialismo. É também a isso que se chama a subjetividade, e o que nos censuram sob este mesmo nome. Mas que queremos dizer nós com isso, senão que o homem tem uma dignidade maior que uma pedra ou uma mesa? Porque o que nós queremos dizer é que o homem primeiro existe, ou seja, que o homem antes de mais nada é o que se lança para um futuro, e o que é consciente de se projetar no futuro. O homem é antes de mais nada um projeto que se vive subjetivamente, em vez de ser um creme, qualquer coisa podre ou uma couve-flor; nada existe anteriormente a este projeto; nada há no céu inteligível, e o homem será antes de mais o que tiver projetado ser.

Porque o que entendemos vulgarmente por querer, é uma decisão consciente, e que, para a maior parte de nós, é posterior àquilo que ele próprio se fez. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me; tudo isto não é mais do que a manifestação duma escolha mais original, mais espontânea do que o que se chama vontade. Mas se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é.

Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo o homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade da sua existência. E, quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o homem é responsável pela sua restrita individualidade, mas que é responsável por todos os homens.
*Jean-Paul Sartre

domingo, 2 de maio de 2010

Onde está o além?

A busca das criações anteriores parece mesmo uma senda inexorável àqueles que anseiam pelo encontro de si mesmo. O que quero dizer em outras palavras é que o homem ao longo do tempo foi construindo a transcendência como algo metódico, buscou intermediários, símbolos, lendas de passados longínquos que na maioria das vezes sequer são verificáveis, e quando o são, constantemente subvertem a história para que essa lhes sirva de escabelo ao ego. Pra que seja um andor das próprias esquizofrenias. Se não crer em igrejas e livros que não se sabe ao certo como foram construídos e escritos é acaso heresia, queimem-me agora. Esse é o tempo da não inocência, a época da distinção dos grãos que tornará o homem em eterna criança ou a criança em eterno homem.

Como conhecer a Deus? Essa questão perseguiu minhas buscas durante alguns anos, os católicos disseram que o caminho era a missa aos domingos, lá indo encontrei nos fiéis uma guerra de vaidades e no sacerdote um manancial de frases feitas, no fim conhecia todas as palavras mas, as palavras nunca me conhecerão.

Um amigo evangélico venerável entre os seus, disse a mim que a única forma era ler a bíblia, nela encontrei muitas coisas, um Deus que em grande parte do tempo vai mais preocupado com a vingança que com a compreensão de sua “prole”, uma série de abominações contra o pecado (isso nunca me foi exatamente compreensível, nesses livros quase sempre quando a pessoa se descobre livre ela está em afronta ao divino), depois aquela série de crônicas históricas sobre o trono de Israel, uma tradição que definitivamente nada tinha haver comigo que sou brasileiro e descendo de índios, escravos, e europeus.

Veio também um judeu, disse que se eu fizesse a circuncisão e deixasse de comer os animais impuros, chegaria lá, não entendo como uma mutilação e uma abstinência podem me fazer melhor, além disso, muito pior do que o que a boca consome é o que ela produz.

Entre os muçulmanos soube que Alah é grande, isso parecia bom, era um anestésico mas, veio com isso a idéia de que Meca é o lugar que nos torna dignos. Como habitar uma cidade faz diferença se o coração continua vazio? Não sei. Além disso as mulheres eram seres castrados, quase impuros, uma gama inferior da criação, quando fechava os olhos e pensava na minha mãe, na minha avó e nas outras grandes mulheres da minha vida não era difícil entender que aquilo era uma aberração.

O augusto e o bom no ser humano vai além do que existe entre as pernas de cada um. E assim se seguirão os dias, fui a muitos outros lugares, falei com muito mais gente, todos falavam, doutrinavam, ninguém explicava. Decidi-me pelo abandono, ao querer o todo, entendi que o segredo era não buscar em parte alguma. A transcendência é só uma extensão da imanência, o inferno e o paraíso, ambos podem ser terrenos e você os leva aonde for.

A propósito disso um pequeno interlúdio:

Deus habita nos altares? Não, não sei.
A criação é feita de outra essência
Que não o engenho humano.
Meu coração é uma rua entreaberta
Para cá é livre o trafego,
Para lá eternamente impedido.
Ando em becos, ruas e campas,
Ou Deus está em tudo
Ou não é coisa alguma.

Nas igrejas (todas elas) estátuas, ícones, livros e técnicas fascistas operam o divino. Na natureza, química e biologia, a ciência a tudo desvela. Adiante dos mitos, donde estariam o poder e a beleza senão na impressão que tudo é vazio. A vida é infinita e cabe aqui, no termo estreito de um pensamento a esmo. O tempo nada é, além de tardança daquilo em que se espera.
*Leandro M. de Oliveira

A condenação

O existencialista pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num universo inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente estamos num plano em que há somente homens.

Dostoievski escreveu: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido.” Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem, fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade.

Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas.

É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer. O existencialista não crê na força da paixão. Não pensará nunca que uma bela paixão é uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos atos e que por conseguinte, tal paixão é uma desculpa.
*Jean-Paul Sartre

sábado, 1 de maio de 2010

Desscobrir-se no alheio (Limites e a necessidade do outro)

O existencialismo é a única teoria a conferir uma dignidade ao homem, é a única que não faz dele um objeto. Todo o materialismo leva a tratar os homens, cada qual incluído, como objetos, quer dizer como um conjunto de reações determinadas, que nada distingue do conjunto das qualidades e dos fenômenos que constituem uma mesa ou uma cadeira ou uma pedra. Mas a subjetividade que nós atingimos não é uma subjetividade rigorosamente individual, porque demonstramos que no cogito nos não descobrimos só a nós, mas também aos outros.

Pelo “penso” contrariamente à filosofia de Descartes, contrariamente à filosofia de Kant, atingimo-nos a nós próprios, em face do outro, e o outro é tão certo para nós como nós mesmos. Assim o homem que se atinge diretamente pelo cogito descobre também todos os outros, e descobre-os como a condição da sua existência. O outro é indispensável à minha existência, tal como, aliás, ao conhecimento que eu tenho de mim. Nestas condições, a descoberta da minha intimidade descobre-me ao mesmo tempo o outro como uma liberdade posta em face de mim, que nada pensa, e nada quer senão a favor ou contra mim. Assim, descobrimos imediatamente um mundo a que chamaremos a intersubjetividade, e é neste mundo que o homem decide sobre o que ele é e o que são os outros.

Além disso, se é impossível achar em cada homem uma essência universal que seria a natureza humana, existe, contudo uma universalidade humana de condição. Não é por acaso que os pensadores de hoje falam mais facilmente da condição do homem que da sua natureza. Por condição entendem mais ou menos distintamente o conjunto dos limites a priori que esboçam a sua condição fundamental no universo. As situações históricas variam: o homem pode nascer escravo numa sociedade pagã ou senhor feudal ou proletário. Mas o que não varia é a necessidade para ele de estar no mundo, de lutar, de viver com os outros e de ser moral.

Os limites não são nem subjetivos nem objetivos, têm antes uma face objetiva e uma face subjetiva. Objetivos porque tais limites se encontram em todo o lado e em todo o lado são reconhecíveis; subjetivos porque são vividos e nada são se o homem os não viver, quer dizer se o homem não se determina livremente na sua existência em relação a eles.
*Jean-Paul Sartre

A escolha

Devemos comparar a escolha moral com a construção duma obra de arte. Posto isto, acaso se censurou já um artista que faz um quadro por não se inspirar em regras estabelecidas a priori? Já se disse alguma vez qual o quadro que ele deve fazer? Sabemos bem que não há um quadro definido a fazer, que o artista se aplica à construção do seu quadro, e que o quadro a fazer é precisamente o quadro que ele tiver feito; sabemos bem que não há valores estéticos a priori, mas sim valores que se descobrem depois na coerência do quadro, nas relações que há entre a vontade de criação e o resultado. Que relação tem isto com a moral? Estamos na mesma situação criadora. Não falamos nunca de gratuidade duma obra de arte.

O que há de comum entre a arte e a moral, é que, nos dois casos, temos criação e invenção. Não podemos decidir a priori sobre o que há a fazer. Creio ter-vo-lo mostrado bem ao falar do caso daquele aluno que veio procurar-me e que podia recorrer a todas as doutrinas morais kantianas ou outras, sem achar nelas qualquer indicação; estava obrigado a inventar ele próprio a sua lei.

O homem faz-se; não está realizado logo de início, faz-se escolhendo a sua moral, e a pressão das circunstâncias é tal que não pode deixar de escolher uma. Não definimos o homem senão em relação a um compromisso. É portanto absurdo acusarem-nos de gratuidade na escolha.

*Jean-Paul Sartre

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Asmodeus

A justa medida de medir todas as coisas, sem conceito pregresso, sem participação no processo. Não se encontra uma boa solução na caixa de achados e perdidos. Salvo o amor próprio todo o tipo de paixão é decadência; essa é uma era de homens decadentes. Do olho furacão todos estão cegados, como criticar as cores do quadro se a vida te fez daltônico? O dia consumido em horas, as horas consumidas em não ser. Viver é tomar parte na antiga tragédia, morrer é figurar nas estatísticas. Solas gastas patinam na lama e é preciso um coturno que amasse a terra com indiferença. Compadecer-se do passo adiante é degradação da pior espécie. Nada se destrói, as coisas vão reformuladas no contínuo de existir. Uma navalha abre carnes, uma navalha decepa membros. Acaso ha lâminas nessa terra que abram idéias ou decepem ideologias? Se os cuteleiros tivessem consciência política a vida na polis seria menos hipócrita. O processo é mais sofisticado.

Vis escravos, pra sempre sejam.

A noite passa. Eu a tecer insônias como quem tece uma camisa de força. Qual a justa medida? Se cada homem é um e vários ao apelo das circunstâncias, qual o sentido de verdade? Toda fé é inútil. A vida vai arrombar sua casa, estuprar seus filhos e te fazer beber um café amargo pela manhã. Maldição! Na ditadura é fácil culpar alguém. Então vem você com seu senso democrático e sua mentira, quer comandar o mundo todo mas, falha no papel simplório de soberano da própria pele. Bem vindo aos tempos do teatro experimental. A selva não permite regras de etiqueta, o que diferencia os homens é o lugar que cada um ocupa na cadeia alimentar. Tragam-me pantomimas, uma vez na vida, deixem que aconteça de dentro pra fora. O preço do pão torna as coisas pouco poéticas, compaixão para com os animais é engenho da mais cínica extravagância. Que Asmodeus dê cabo dos luxuriosos. E aqui estamos e cá continuaremos, por muito tempo até que os guias usem óculos, até que rebente a vergonha naqueles que te fizeram acreditar.

A vida existe na matéria, a matéria existe na aglomeração de átomos. O átomo é cheio de vida, e ao mesmo tempo vazio de matéria. Se não há matéria que preencha o átomo, não há vida na matéria. E se assim é, a vida vem de outra fonte e nada é como se pensa ser ou tudo é representação e nada é sequer coisa alguma. No primeiro caso o discurso é inútil, no segundo, a palavra é na melhor das hipóteses alçapão ou embuste. Detesto o cinismo existencial. Em qualquer feita tudo é ausente de sentido além daquele que o condicionamento permite.

Resumidamente, se tudo é vazio e ausente de sentido, talvez tudo seja deveras nada e como nada, inexiste em realidade. Se isso for, eu que pensei estar raciocinando me enganei, você que pensou estar em dívidas com a vida foi absolvido, e as palavras todas tampouco fizeram sentido, elas nem mesmo foram. Foram? Não foram?
*Leandro M. de Oliveira

domingo, 17 de janeiro de 2010

Filosofar é estar sozinho

“Mas, tratando-se da natureza em seu conjunto, o irracional maravilhoso sempre estará presente, pois o infinito excede a razão. No seio da enormidade do tempo e do espaço, num ponto da natureza infinita, ou talvez infinitamente infinita, como quer Espinosa, o homem tem o sentimento do Englobante e do sem limites como de um mistério insondável, diante do qual a razão se detém.

Decerto a filosofia é obra da razão, do “bom senso”, como diz Descartes. Mas ao contrário da razão científica que passa ao lado do maravilhoso e do mistério sem o ver, a razão filosófica reconhece, identifica o irracional, o maravilhoso, o mistério. Seu fracasso, sua impotência em apreender os arcanos das coisas lhe revelam mistérios impossíveis de desvendar: o mistério da natureza insondável e infinita, o mistério da morte e do sentido, ou do não-sentido, do homem. Não há, aqui, “problemas” que o filósofo poderia resolver. A filosofia não resolve nenhum problema. Não existe, a bem da verdade, problema filosófico. O papel da filosofia é, para além do racional nos fazer tomar consciência do demônico que age na natureza, do mistério que envolve todas as coisas, e revelar o homem a si mesmo como enigma: enigma do qual resulta a liberdade radical da escolha filosófica. Pois a filosofia repousa não numa “revelação” qualquer, ou em alguma necessidade demonstrativa, mas na liberdade.


Abstração feita da experiência religiosa que, dizem, revela-lhe o sagrado e o coloca em relação com o Tu absoluto, o homem está sozinho. Não há ninguém para escutar suas questões e sua queixa. A “luz natural” serve principalmente para acentuar, de todos os lados, as sombras. Resta-lhe, tendo abandonado o sagrado no caminho, assumir sua solidão. Filosofar é isso.”

*Marcel Conche

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Anarquismo (ou; daquilo de que é feito o homem?)

A Noite e o Caos são parte de mim. Dato do silêncio das estrelas. Sou o efeito de uma causa do tempo do Universo [e que o excede, talvez]. Para me encontrar tenho de me procurar nas flores, e nas aves, nos campos e nas cidades, nos actos, nas palavras e pensamentos dos homens, na luz do sol e nos escombros esquecidos de mundos que já pereceram.

Quanto mais cresço, menos sou eu. Quanto mais me encontro, mais me perco. Quanto mais me sinto mais vejo que sou flor e ave e estrela e Universo. Quanto mais me defino, menos limites tenho. Transbordo Tudo. No fundo sou o mesmo que Deus.

Na minha presença hodierna têm parte as idades anteriores à Vida, os tempos mais antigos do que a Terra, os ocos do espaço antes que o mundo fosse.

Na noite onde nasceram as estrelas comecei a constelar-me de ser.

Não há um único átomo da mais longínqua estrela que não colaborasse no meu ser.

Porque Afonso Henriques existiu, eu sou. Porque Nun'Álvares combateu, existo. Seria outro - não serei, portanto - se Vasco da Gama não tivesse achado o Caminho da Índia nem Pombal tivesse governado (...) anos.

Shakespeare é parte de mim. Para mim trabalhou Cromwell quando arquitectou a Inglaterra. Ao ganhar com Roma, Henrique Oitavo fez-me ser hoje o que eu sou.

Para mim pensou Aristóteles e cantou Homero. Neste sentido místico e profundo deveras [...], Cristo morreu por mim. Um místico índio que eu não sei se existiu, há 2000 anos colaborou no meu ser actual. Pregou moral Confúncio à minha presença de hoje. O primeiro homem que achou o fogo, o que inventou a roda, o primeiro que ideou a seta - se hoje eu sou eu é porque eles existiram.
*Fernando Pessoa

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A ostra e a pérola

"Lasciate ogni speranza, voi che'ntrate"
(Dante)

Não se farte comendo outras pessoas, não as mutile pela necessidade de mutilar, esse é para o ser um crime sem perdão. Tal prática degrada a individualidade, nega tudo quanto há de augusto e belo na vida. Derrota o homem livre em sua expressão maiúscula. É preciso caminhar até ferir os pés, moldar a argila até que as mãos sangrem. O homem superior tem como seu Graal a senda do não querer, ele concede trégua à futilidade da vida média, da escravidão da vontade. Quer se desvenciliar dos fetiches primários, anseia ser livre para o que vem depois. Com efeito, a humanidade do futuro vai além, requer mais coragem e menos daquilo que nos deixou a todos ultrapassados. Porque assim caminhamos, perdidos no próprio tempo. A assim dita necessidade do outro, não é mais que um labirinto de clamores onde se perde o EU. Andei sobre a terra, vivi entre homens. Deles nada me foi mostrado além fraqueza e pensamento degenerado. No mundo exterior não a há espaço para mendicância emotiva, só uma lei prevalece, aquela que é a todos os animais irrevogável, a soberania do mais forte. Esses são tempos primitivos, selvagens nada sabem de cordialidade. É preciso treinar o corpo, aprender a resistir. Deixar a alma congelar ao sabor dos ventos, vê-la uivar com o fim dos ciclos. Rosnar é necessário, alto e forte até que todos os abutres e chacais tomem distância. Com o tempo as intempéries da natureza soarão como uma carícia ao longo da pele. E você será imune, outra vez gigante, outra vez Titã.

Compreender a beleza não é simples como dormir à noite ou copular em horas impróprias, se assim fosse os asnos seriam dramaturgos de renome e as gralhas, divas da ópera. Tem-se que se dar por inteiro, exaurir-se, afastar-se, submergir ao fundo do mar no ponto extremo onde só existe aquela ostra embrutecida e com ela obcecar-se. Perder as carnes dos dedos, dilacerar com os dentes, romper às cabeçadas, deve-se provocar a abertura custe o que custar. E quando estiver gasto, entregue e derrotado, do interior desse receptáculo hostil vai ver surgir a perfeição na redondilha sem verso de uma pérola virgem. Você é a ostra, agarre a pérola, ela esteve aí dentro o tempo todo. Mas antes de abrir a porta é preciso se livrar dos cadáveres, daqueles já frios vindos de um passado que pra sempre jaz imutável e dos outros, produtos da crença no impossível futuro, as crianças sem ovário, os bebês de alma anincéfala. Escravos dão a luz a outros escravos, liberte-se antes de acontecer. Você conseguiria por um minuto deixar de ser um animal de carga? Nada te impede de tentar. A esquizofrenia deve ser suplantada em nome de algo mais são, Chronos não se apieda de quem hesita, sua marcha é veloz.

O homem novo, o gigante gerado pelo anão, que se rebela e encontra na rebeldia um algo maior. Ele nada possui, vai serpenteando à casa celeste e lá chegando ultrapassa-a, mais alto que o céu, mais baixo que o inferno. E assim sendo é o todo e ao mesmo tempo o nada, eternamente vazio, pra se preencher do que vier, onipresente. O que for de urgência, as circunstâncias proverão, a vida cuidará pra que se realize. Por hora basta estar atento ao fluxo interior, não ao passo cambaleante das ovelhas ou de qualquer outra das miseráveis manadas. Vocês mataram Deus e agora querem que eu pague para que o mantenham vivo. Vocês transformaram o que havia de nobre, converteram em favores de pecúnia, vocês e suas malditas tabelas de preço. Sempre a pisotear o campo quando esta prestes a florir, sempre a urinar nas fontes quando a água ainda é límpida. Solte fogos no velório, chore nos bacanais da “moralidade”. Constatar que essa vida é uma causa perdida pode não ser o melhor juízo pra começar o dia mas, com alguma boa vontade pode ser a raiz pedagógica de aprender um algo inédito. A transformação não permite escudeiros, é uma busca singular. Dessa vez tente com as próprias pernas. Sem cadáveres nas costas, sem rédeas na boca, só o caminho importa. Se te parece belo, torpe, colorido, cinza ou vil. Tudo o que acrescer de ti é incidental, frívolo e dispensável. O caminho tem desígnios próprios, ele é a opção dos que já não buscam mais mentir a si mesmos.

*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Carta à minha alma (se de fato existires)

Sabes quanto é inexplicável. Muitos tentaram insistentemente me convencer disso, nunca acreditei de todo. E vós sois minha mais grave testemunha. Todavia, avesso àquelas implacáveis convicções produzidas em outrora, devo ceder. Há deveras alguns processos na mente humana que embora conduzidos por essa, não possuem um vínculo lógico com a racionalidade. Está acontecendo comigo agora. Alheio a tudo quanto foi de alto e elevado a meu pretenso entender, mergulho agora no túnel das lembranças mais frugais. Nenhum momento capital se me afigurou. Nem a lembrança de quando tive sexo pela primeira vez, nem a de quando chorei perdido ou a de quando fiz que chorassem por mim, nem mesmo o dia em que ganhei a primeira soma de dinheiro que me permitia mais que um punhado de balas e fui ludibriado por aquela velha que me vendeu coisas que eu nem queria. Nada. O frisson que nesse instante me domina é concebido de momentos banais, e ainda mais agudamente da displicência com esses. Vem me visitar agora por exemplo, a lembrança que nem sabia se tinha, daquele dia de chuva. Um dia qualquer sem grandes eventos. Mas lembro-me bem, a visão de meus pés pisando a terra molhada, a densidade do ar, o cheiro de vida acontecendo no ambiente... Tudo soa tão imaterial e mesmo assim tão presente. As formas assimétricas de minhas pegadas impressas no chão cor de chocolate, a fúria reconquistada das corredeiras do rio que com a chuva se despediam da vazante. O som da água contra as rochas na ribeira, o som dos cânticos pra sempre perdidos no tempo. Sempre. Haverão de existir em toda parte coisas perdidas, portos vazio, louça em cacos. Mas agora, depois de tempo passado é que posso enfim concluir. Na simplicidade daquele momento úmido eu estava em paz. Num assalto de inesperada transição fui dar em visita a outro quarto dessa casa estranha. Agora me vejo ainda mais remoçado. Minha pele lisa. Ainda virgem de pêlos e espinhas, marcas de expressão ou testemunho dos anos. Olho à frente, como em mágica ou engenho do sobrenatural, assisto a mulher de olhos agudos passar por mim. Não foi sequer um flerte, ela nem olhou diretamente. Mas como me lembro e de forma tão lúcida, do desenho assombrosamente perfeito de sua íris, naquela fração de segundo em que o sol raiva por sobre a fronte corada, pude testemunhar o reflexo que cega, a metamorfose de cores que daquela aquarela viva emanavam. Primeiro o negro, depois aclareando até um tom de mel e depois até um verde opaco. Misterioso, coisa em si ao mesmo tempo esparsa e concisa. Hipnótico como uma esmeralda tirada do útero da terra. Encantamento em estado bruto, perfeição não lapidada. Ela passou por mim. Foi quando nesse momento me dei ao exame mais apurado de sua silhueta. A textura de um algo esculpido por mãos superiores, o espírito das tentações míticas. Acho que foi ali, naquele acaso rápido, naquele momento insuspeitado, foi ali onde deveras aprendi a admirar uma anca. Não era mais possível retroceder. Não haviam mais chances de tornar a ser criança. A invasão da masculinidade se fez em mim como tributo pago pelo fito ao desconhecido e eu subtraído da identidade cotidiana, nem me dei conta do que em verdade se formava à minha frente. De qualquer forma ela passou por mim, se foi pra nunca mais. Quantos anos fazem? Dez, quinze? Não sei. Mas o perfume ainda habita minhas narinas como um hálito fresco. Mais um porta cerrou, dei em outro quarto. Não reconheço o lugar, estou como que de olhos fechados. As sensações são familiares. Parte dos cabelos longos de uma moça deitados sobre meu ombro enquanto durmo, o cheiro que invadia a casa quando minha bisavó derretia rapadura pra fazer pé-de-moleque, o transe durante um beijo de quase hora em quem se gosta, ficar deitado ouvindo o som das tempestades de março. É tudo tão diverso e ao mesmo tempo tão uno. Filhos diferentes de um mesmo pai, dedos inaparentes da mesma mão. É como se durante a vida inteira eu tivesse feito a mesma coisa de várias maneiras. Uma forma diferente a cada dia, um dia em cada minuto. E sendo desagregado fui intenso, e perdendo o que mais amava encontrei a mim mesmo. É impossível recobrar a ausência adormecida por sob as areias do tempo. É impossível fazer planos quando a morte passeia por entre o bosque. Talvez tenha descoberto o enigma. Talvez entenda porque tanto me é agora revelado. Estou pra morrer! Há um pelotão de fuzilamento à minha frente. Nazistas, fascistas, judeus, cristãos, mulheres, crianças, chineses, neo-zelandeses... Gente de bem. Todos com armas apontadas. Todos estão com sede de sangue. Foi breve demais, minha alma. Será que de fato existes? Ou aquilo a que chamo alma é um departamento de arquivos que em momentos de angústia nos permite revisitar tudo o que não foi completamente sorvido pela percepção? Claro, um pouco de cada vez. Do contrário, o repertório se tornaria monótono. Parece injusto o fato ter consciência de como se existe só quando esse estado de percepção vai prestes a fenecer. Nunca fui saudosista, aceito o novo, a mudança da biologia que é por si dinâmica. Entretanto, mesmo sabendo que não há perdão àquele que hesita, creio ter direitos de pelo menos nisso poder vacilar um pouco. Quase me entristece partir quando ainda existem tantos diamantes semeados pela estrada. Tão longa, tão sinuosa. Não tenho garantias e nem preciso tê-las. Durante alguns anos idealizei Valhala, onde os grandes ascendem à sede da imortalidade. Depois... Pó e sombra! Acidente da matéria, disso me senti composto. Quando a luz cessa sobre o corpo ele se funde com o esquecimento, deixa de existir. Foi bom sentir assim, foi bom ser tão livre quanto possível. Nenhum devir, nenhuma obrigação com a perenidade. O dilema de existir tem me vitimado nesses tempos. A consciência é minha porção divina? A consciência é o sintoma mais agudo da minha síndrome de fuga da própria condição? Pode ser que ocorra, talvez seja que tudo não passe de covardia. Seja como for, estou pronto. Posso morrer se assim o querem. Posso partir em vez derradeira. Mas como morrer ou partir? E se há algo depois? E se Valhala existe com outro nome, ou sem ele? Se esse escrito mesmo sobreviver, acaso não é uma forma de estar perene no inconsciente alheio e assim resistir à evasão última? O legado de cada um parece implacável, sempre reféns de nossos próprios fantasmas. Queria que alguém desligasse o plugue de meu corpo. Talvez uma oração sincera à santa da boa morte fosse útil. É pena, já não sou mais tão inocente. O pelotão faz mira em meu peito, engatilha as armas. Sei que a maioria das pessoas em meu lugar estaria no mínimo aterrorizada ou puta da vida, claro, no caso de que o medo permitisse essa última. Concretamente se pode dizer, pensar na brevidade da hora, ter ciência que caminha à extinção sem ter feito mais quando se podia. Andar a passos humanos por sobre a terra não é uma sucessão de horas coordenadas mas, antes uma corrente infinda de questionamentos. Nunca ter perguntado o nome daquela moça, não ter rolado naquela lama que parecia chocolate, nunca ter se entregue à correnteza do rio que em minha frente seguia... Aos de osso e carne lá estava, alheio e insondável como qualquer milagre deve ser. Sei que a indignação é legítima. Pelo julgamento dos que me conhecem e possivelmente daqueles que talvez me conhecerão (se houverem para conhecer). Tenho tudo, ao mesmo tempo nada possuo. Não há segurança do que se leva, tão somente do que se deixa. Se acaso penetramos na totalidade daquilo que à nossa volta subsiste em silêncio. E são tantas coisas... É preciso mais que a eternidade pra chegar à comunhão plena e esse nó na garganta me fornece a suspeita vil de que talvez nem isso haja à disposição daquele vai. Meu deus, meu deus por quê me abandonastes?! Quando dei por mim já não estavas. Existes em aqui ou no sonho? Nas igrejas ou nos bordéis? Existes? Há muito não sei que são trombetas nem vejo anjos aqui ou lá. Queria ter a retidão dos monges, como não posso, galopo por sobre os sapatos me meto a cabeça em fazer anarquias. Descendência de Caim. Tenho a praga dos hereges, se assim não fosse meu contento seria mais prático. Curiosamente, mesmo com toda a gravidade ainda quero sorrir. Poderia praguejar ou revoltar ou desesperar. Mas pra mim não parece justo. Como desperdiçar mais tempo se há entre nós tanta beleza?

Att,
P.A
Porto Firme; Ano Domini? MMIX
*Leandro M. de Oliveira

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Se te queres matar

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria…
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente…
Talvez, acabando, comeces…
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…

A mágoa dos outros?… Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão…
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros…

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada…
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além…
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido…
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia…

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
Se queres matar-te, mata-te…
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! …
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo…

*Fernando Pessoa

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Metamorfose, um breve delírio

"Numa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num monstruoso inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou a figura convexa de seu ventre escuro sulcado por pronunciadas ondulações, em cuja proeminência a colcha dificilmente mantinha a posição, estava visivelmente a ponto de escorregar até o solo. Comparadas ao resto do corpo e às suas antigas pernas, agora possuía inúmeras as inúmeras patas, todas lamentavelmente esquálidas, oferecendo a seus olhos um espetáculo inconsistente de uma agitação sem governo.

- Que me aconteceu ?

Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhado e em completa desordem, um vasto mostruário de tecidos: Samsa era caixeiro-viajante, pendia uma fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, muito aprumada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado (ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela) isso infundiu-lhe uma melancolia aguda. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? — cogitou."
(Franz Kafka)

Sobre o Autor e sua obra:
Franz Kafka nasceu em Praga, hoje capital da República Tcheca, em 3 de julho de 1883, e faleceu com 40 anos, em Klosterneuburg, cidade austríaca, em 3 de junho de 1924. Foi um dos maiores escritores de ficção da língua alemã do século XX. Sua família era da classe média judia, e estabelecida em Praga, Áustria-Hungria (agora República Tcheca).

O corpo de sua obra escrita destaca-se entre as mais influentes da literatura ocidental. No entanto, solitário e com a vida afetiva marcada por irresoluções e frustrações, Kafka nunca atingiu fama ou fortuna com seus livros, a maioria editados postumamente.

Seu estilo literário, presente em obras como a novela "A Metamorfose " de onde é extraído o trecho acima, retratam indivíduos inseridos no pesadelo de um mundo impessoal e burocrático. Seu estilo é despegado, imparcial, atencioso ao menor detalhe, verdadeiro e realista. Seus personagens são o retrato do homem do século XX, com todas as cismas e conflitos existenciais.

*Leandro M. de Oliveira
** Tradução de minha lavra comparando versões em português e espanhol