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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Antífona da chuva

I
Limalhas de aço a sibilar liquidamente

Espaço entre o corte e a compostura,
A presença da água assim como o desatino
A fazer mais úmida a caminhada do hoje.
A água cai, do mesmo modo que exita
Um homem em seu leito de morte.
Sepulcral, a forca em que entregaste
Aquilo que teu jamais pôde ser.
O metal rarefeito violenta o silêncio,
O corpo, a memória. Nesse país
Todo o sangue é vil, toda dor é vã.
Que as indelicadezas sejam perdoadas.
Ao cortar os pulsos pense em mim
Com um pouco mais de candura
Antes que a horda de cães chegue aqui.

II
Dorme enquanto os outros trabalham, trabalha enquanto todos dormem. O levante das Termópilas não durará toda uma vida. Quando a primavera chegar o clima será mais ameno caso todas as flores não tiverem sido pisadas. Sinto como se tivesse chovido mas, ao acordar constatei que a água era imaterial. Só eu é que me umedecera por dentro.


*Leandro M. de Oliveira

sábado, 16 de julho de 2011

A descendência de Caim

Num lugar ermo, donde mapas são indiferentes, um homem só vive entre a imensidão das montanhas e a modéstia de sua pequena casa. Um quarto austero, alguns livros de páginas amarelas, um bule amassado de chá, a cama feita com um colchão de palha e a velha escrivaninha única companheira inabalada em anos a fio. Acima de tudo, o negrume da noite é cortado por uma lamparina de bico já gasto ostentando uma pequena chama. Nas raras manhãs onde a enxaqueca ou gota não o atordoam como fossem uma fúria dos antigos amaldiçoados, ele caminha demoradamente entre as árvores, muito talvez invejando a espessura da casca que protege os troncos. Ademais, pensa e escreve. Debruçado no velho móvel sob o auxílio do precário lume, redige cartas a um amigo que nunca existiu. À 03 de março de um ano não pertencente ao calendário gregoriano:

“O mundo vive dias de indecência e superficialidade tamanha que às vezes sem pressentir, a idéia de suicídio me bate como uma das poucas coisas dignas que restaram. Mil vezes me envergonho, integralmente por ter partilhando as minhas mais elevadas aspirações dizendo-as ao público. Aspirações essas que mesmo em tempos muito mais valiosos e profundos, não deveria ter sido partilhadas. Depois de um século de liberdade o homem se vê prostrado sem saber que frutos essa árvore de fato deu, a abertura desmedida à imprensa transformou a vida em mercado, corrompeu o gosto, chacinou a beleza. Viver assim tão a mercê da imposição alheia é existir somente, como gado que foi marcado de forma voluntária. Todavia, abraço a solidão em que me recolho tal como Dante ou Espinosa, mesmo sabendo que esses homens eram muito mais preparados. É inegável que a sua maneira de processar o mundo era muito mais ajustada à solidão que a minha, afinal, os que conseguem inventar “Deus” por companhia jamais conhecerão a solidão que sinto. Sou um aborto da natureza e a minha razão não pode querer pretender mais(...)”

Olha pela janela, fita o opaco vidro com intensidade mesmo percebendo que nada se pode ver além da muralha escura da noite. Depois dessa pausa, mergulha mais uma vez a pena no tinteiro e escreve a frase derradeira:

“A minha fé tão parca, reside agora na esperança, ou na desesperança, de que surja um homem novo que possa demonstrar que tudo é deveras avesso ao que penso, que refunde o pesadelo da vida transformando-o em coisa mais viçosa. Creio que jamais me encontrei em tamanha decadência mas, estranhamente, sinto agora alívio em dizer minhas aspirações mais profundas”.
*Leandro M. de Oliveira

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Além

Muito além de lugar algum é como se beijasse o chão com a força de olhos. Faz o sinal da cruz e escarra sobre ele com a torpeza dos que envelheceram antes da infância. Meu lugar é o que virá e enfim começo a me sentir ressarcido. Ao talhe do artista mais raro, um corpo a simular verdades decaídas.

O que quererá a vida de nós, o que pretenderei eu que já não ouso coisa alguma... A chegada sempre tardia, as muitas intragabilidades da deficiência alheia. O cume de uma montanha só parece algo grandioso visto de baixo, no alto tudo é planície e ordinariedade como em qualquer viela marginal. O espelho mudado na invenção mais incerta, porque sustentar a beleza à luz do dia exige mais que um reflexo sofismático.

Setenta e sete metros abaixo do chão parece ser um bom lugar para se ocultar um cadáver. Todavia, isso não indica o que fazer o aquilo que resta dele. Gerir a transposição da existência numa coisa inominada, apreender a dimensão da verdade depois de haver existido em erro. Algures num planeta parecido com esse, inventado ou percebido pela intuição, pessoas fazem seu trabalho maquinal, riem, comem, lembram, esquecem. Num sítio diverso do que estou agora, tenho a impressão de que o existir existe apenas, com todo o resto sendo algo como uma doença nos olhos.

A tortura mais arcaica, um homem que sangra sozinho. Você só leu sobre o inferno na bíblia, meu amor. Eu, estive lá! Descendo ao Hades com a verdade dos nunca sentiram remorso, determinadamente a querer que a beleza se reinventasse do enxofre de estar vivo. Falhei como um amador barato, não consegui transpor o estige. Agora essa sombra é como todas as outras sombria, e ela ainda está lá. Desfolho os dedos por sobre uma lápide imaterial, taciturnamente um comboio imaginário de homens sem rosto leva o que restou daqui.

Qualquer encruzilhada que dê numa sala sem janelas sou eu, ermo, solene, desabitado. De todos os vícios a vaidade pode e deve ser o mais sórdido. Mergulhar num corpo alhures, arrancar de um organismo exterior a obstinação necessária. Ninguém jamais penetrará esse mistério, a geração que não virá, o entendimento selado onde as mãos não alcançam, como fora sonho ou maldição que não se sente. Imortalidade tem haver com ser incapaz de aceitar a grandeza das coisas. Que é o homem além de um ser amputado?

A consciência assim como vontade nunca se compartilham, amar frequentemente é um nome sofisticado que se criou para rituais antropofágicos.

*Leandro M. de Oliveira

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Sofismática da mansarda

Semelhante a um amor clandestino, a noite invade as salas antes mais iluminadas. Inscritas em matéria mais líquida que o fogo, sibilas inventam o futuro ainda presas ao hostil passado. A pertinência daquele corpo reside ao longo do edifício, muito embora de forma imaterial. O choque entre mundos deve ser um evento de natureza dúctil, caso contrário, seriam menos acidentados os caminhos que circundam o intransponível cume. Sentir na carne a verdade do mistério é ter de respirar no fundo d’água a plenos pulmões, como se compacta toda a fibra que espera ou se oprime qualquer porção de carne posta em torniquete, não há como retroagir quando se é cegado.

Dir-se-ia do homem que uma vez posto em jornada a um país estrangeiro perdera o caminho de volta pra casa. Sugerir que a crença do lar só existe quando não há mais nada para substituí-la pode ser uma das idéias mais honestas que se ousa. Nesse lugar, onde a fome de justiça conta com recursos tão parcos, só a quimera de alguns raros comporta a resignação necessária. Recorre-se à acolhida como uma porta que da para dentro de si, todo o resto que é lançado fora está igualmente perdido. O mundo a brotar como uma suspeição dos improváveis, pessoas a escavar o peito em busca de um abrigo anti-bombas.

O inteiro universo é uma massa oca e o buraco negro que sugou as constelações sou eu.

Impressentido, por campos abertos vou, ceifando a erva jovem, pisoteando as flores da insistente primavera. A natureza de um homicida não é diferente da de outro homem. No fim todos serão julgados com severidade, apesar de não haver quem saiba exatamente se são mais graves os vícios ou as virtudes ou se acaso há diferença entre eles. Ninguém pode ser belo ou grandioso demais sem que aconteça uma desgraça. Toda força, toda vitalidade há de ser subtraída um dia e aqueles que nos trouxeram aqui estarão na indiferença de suas distâncias, rindo como bêbados insanos.

Ademais da cisma de uma tragédia irreparável, a hesitação da vida rasga a consciência como um túnel.
*Leandro M. de Oliveira

domingo, 17 de abril de 2011

Terras de Abril

Terras de Abril, eu, cá fechado
Entre o gozo da rosa incriada
Ante o ermo da noite concreta.
Caminhando vou, involuntariamente
Perpasso ruas, vielas e coisas sem nome.
Não há mérito no movimento, não há
Inserção espacial que não seja arbitrária,
Contrariamente ao repouso do que pesa.

Surpreendo-me agora constante
Entendo súbito o que cresceu enigma,
Soturnamente pelo andrajo perdido
Abraço a Esfinge que sou e erro,
Inconsciente dum carinho maternal.
Eu morro com a memória de ontem,
Depois dela o que resta evade torpe
Como fuga ou vazio da alma.

Não se é senão o que se deixa matar.
A primavera mais uma vez replicante
A flanquear de novos sulcos a terra.
Como se pode viver em paz depois disso?

O que tenho de mais colorido é Ser pálido.
Não ousem roubar daqui essas sombras
Com elas pavimento o caminho
Quem sabe um dia iluminado.

*Leandro M. de Oliveira

quarta-feira, 2 de março de 2011

26º

Outro ano faz, tempo
Surdo, cego, mudo,
Agudo. De ter na mente
O éter que não se sente,
Apartado assim, um sei quê
Não sabendo de mim.

Cronos persiste algoz
De tudo quanto hesita.

Mais tarde será tarde,
E aqui, assim tardiamente
A porta por demais entreaberta.
A mão sombria tateia no ermo
O séquito do corpo jaz perdido.
Um carinho passa furioso por nós,
Pra morrer de cansaço tempos atrás.
Estar em si é pesado como chumbo.
Tempo alado dos dias calados,
Onde estás, a não ser na suposição?

*Leandro M. de Oliveira

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Jardim

Labiatas de um jardim sem dono; aos que perderam os seus, algures querem quem nunca os teve. Amar é ser canibalizado sem piedade! Um tiro surdo na noite, a verve de um lavrador drenada pela fome da terra. Toda gota de sangue é carvão ermo na tempera duma fornalha acesa, constantemente trespassada, a rua projeta sensações de não estar. Não há metal por toda a parte, a vida a tornar em giz quebradiço a matéria. O mundo aninha-se aqui como uma procissão de sexos abertos. Uma iluminura que me leva além, uma doença que me há de matar. E que mais? Ademais o corpo, pedaço de rocha liquefeita, fio de orvalho pra sempre dissipado ao contato solar duma aurora. Só se vive uma vez, a não ser que a matéria assim como o desejo, se desdobre. Dimensões multiplicadas ao contato da presença exterior, o balanço das esferas mais interno que a impressão.

Uma aparição rara, confusão de hemisférios espraiados a cismar. Arroubos do mais puro impensado, o horizonte definitivamente a romper a linha do equador. Por que desejar tanto esse corpo? Refazer em novas curvas a busca antiga, abrir por sobre a terra o veio mais fecundo. Um instante e duas eras findaram, o que antes antagônico unido foi, num sítio anterior à presunção. Amar uma representação alheia, dissolver a fadiga dos campos à espera de cabelos e olhos.

(...)

Ter na carne o transcendente além da carne, uma chama feita de antiguidade, a afeição brotada dos lugares mais inesperados. Habita a casa e vê como é vazia, vias de caminhos bifurcados, talhas de um formão imperfeito. Logo passa o instante e descobre-se que o relógio nunca parou. Que Cronos é cego e a dor é muda, nenhuma fúria castiga mais que o lastro do não vivido. Onde estariam todos a não ser na lembrança do que não mais existe...

Talvez quando esse lugar for ainda mais longínquo possamos nos sentar ao pé de uma árvore, se acaso ainda restarem árvores e dimensioná-lo ao modo de alguém que fabrica ou pensa. Não é possível entender a grandeza das coisas a não ser olhando-as com distância. No momento em que aquele homem fincou nesse lugar os seus pés, deveria ter pego a primeira condução que findasse a jornada de volta à sua terra, mas a mulher a quem procurava estava aqui, estrangeira. Ele não tomou a primeira, nem a segunda e nem a terceira condução. Desejou com a ardência dos que nunca nasceram rasgar o tempo e voltar ao momento anterior à revelação, pra que pudesse morrer em paz, com as solenidades dos que existiram apenas. Deveras, onde era sua terra? O mundo todo convertido em exílio, o homem alheio de si.

O perfume da rosa envolve por ser efêmero, qualquer paixão que vale a pena é suicida. E ele se perdeu mais uma vez, pra descobrir que todo corpo é feito de matéria e não há luz além daquela que a vontade projeta. Mas não falemos de empreitas frutadas, a experiência é um fim em si mesmo, quem perde termina mais rico que quem toma. No fim, o ser é feito de memória assim como de esquecimento, um caminho não trilhado nega ambos.
*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Os Doze Trabalhos

IV

Naquele tempo onde não se concebe
O instante fugiu aos olhos
E o senso mergulhou perdido
Na lembrança calcinada
Da fogueira antiga.

Resgatar como uma fênix invencível
A frágil ave que aqui tombou, silente.
Sem as potestades do encantamento
Ter um amor repartido em vinho e pão,
Costurar as pálpebras no mergulho
Fundir a vida ao calor de uma entrega.

O coração é um órgão de fogo!
Inaudita matéria, confusão de astros
Arremessando a esmo luz na treva.
Que o céu torna menos augusto
A cada destino não consumado.
O mundo convertido em massa fria,
E eu assim, perdidamente
A encher de magma os olhos.

*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Os Doze Trabalhos

III
A esmo de um poente esquecido
Corpos se contraem involuntários.
Onde mapas são dissolvidos por marés,
Pessoas dialogam com as estrelas
Utilizando o astrolábio torpe da imaginação.

Nessa jornada às origens
O lembrado é esquecido,
E o real, fragmento de não lembrança.
Nesse hemisfério só o mar insiste,
Ele e sua presença uterina.

Liquefazer um corpo sólido,
Descobrir no músculo que retrai
Uma torrente fluida.
Abraçarei o peso dos oceanos
Como pudesse encontrar a passagem,
Nada há de mais úmido
Que o sonho perdido antes de seu tempo.

*Leandro M. de Oliveira

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Os Doze Trabalhos

II

Um tempo que jamais pôde existir,
Pássaros e bússolas atordoadas.
Com a hostilidade do ar
Reinvento o teu peito no horizonte,
Vacante e imenso
Como fora esse sonho acontecido
No recôndito da mais pura verdade.

Dar aspecto às coisas inconcebíveis,
Apreender uma matéria longínqua
Ao modo dos que amam sem reservas.
O céu é uma escultura de chumbo
Porque o oxigênio é o mais imprevisível dos metais.

Suspirar como quem devora
Voar como a alma tivesse mãos e olhos.
Pintar as asas do grifo,
Espalhar cores de borboleta pela casa.
Onde adormecem os anjos?
Lá, muito além da suposição herdada.

*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tempis Fugit

A fuligem se espalha pelas reentrâncias da carne, o limo hei de triunfar no movimento de outras esferas. Além, aquém do momento esperado, há um segredo oculto entre mãos e olhos. Dar visão ao cego exige que a terra seja abraçada como uma mancha de sangue.

A solidão do animal mais solitário. Um espelho lustrado que não produz reflexo. Quando o vírus toma a corrente circulatória é preciso respirar arrancando a pele. O peito nu, o estar aberto ao sabor do inesperado. Olhos de ontem que não vêem mais que uma tentativa insólita de recompor o pretérito. Corpos expostos, atração de abutres. Sua carne há de ser dividida entre os que não foram convidados, um ato bravamente cristão da parte de quem o fizer.

Escarro, tortura e mutilação. Diversões que fazem algo pulsar no peito de loucos entre outras sortes de homens santos. Não se sabe bem até onde essas terapias podem se aplicar à pacientes cuja libertação é uma necessidade patológica. Você vai passar toda uma vida sendo privado por seus modos diferentes só pra que quando chegue o final, possa enfim ser tratado de uma maneira ordinária. Certidões mau digitadas de óbito, valas comuns, celas que se repartem entre sonhos e esquecimentos. Rasgue o tórax com as mãos, fustigue a boca até que não haja mais por onde dizer aquilo que não se sente. Punir o corpo pode ser um ato de desespero, mas em algumas ocasiões é o que resta.

Pagar ao síndico sempre pareceu menos oneroso que administrar a própria vida. Ajoelhe! Agora e um milhão de vezes mais até que solo tenha se apoderado de suas articulações.

(e a manhã veio...)

Um lugar onde a vida vivida agora pode já ter sido feita há mil anos. A cabeça confusa acorda espraiada no crepúsculo indolente, pessoas são sombras que o pensamento projeta. E é o próprio homem construído de suas sombras. Qual o fundamento da beleza? Tudo o que é cotidiano à uma presença, quanto mais viceja menos sustenta seus lumes.

A mulher que nunca tornará a essa cama torna perfeita nesse momento de distância do que não consente, assim como os cavalos gigantes, os circos de palhaços imperitos ou qualquer quadro da infância que arrebatada foi, pra sempre desse domínio. O encanto parece mesmo ter haver com aquilo que carrega mais de porvir e de ausência do possível, a contragosto da maravilha cotidiana que é sempre miséria aos que aqui estão.

O passado é uma cadeia de eventos como qualquer outra, mesmo um lixão costuma produzir bons mosaicos quando olhado de longe. E cá estão todos outra vez, o quarto, as paredes, a procissão de flashes que nubla a retina. Daqui a vinte anos sentirei saudades da atmosfera densa, da infiltração que torna precário o arremate dos prédios ou ainda, de urinar na rua enquanto a cidade adormece. Isso pode ser, se houver vida até lá. Será mesmo que todos os vigários são pederastas? Não tente aparar a grama enquanto o quintal está enlamaçado, não tente pisar o chão agora que seus pés foram arrancados. “Tu és pra sempre maldito!”. Assim bradava um deus antigo enquanto nós o sodomizamos pela manhã. Todas as ruas mau iluminadas do mundo, a falta de oxigênio no cérebro, lesões se confundem com o hábito de inventá-las.

Morfina custa caro, outros anestésicos podem custar ainda mais. As pessoas tem medo e violência, e eu preparo em silêncio uma bomba, que fará clarear a noite e escurecer o dia.
*Leandro M. de Oliveira

Os Doze Trabalhos

I

Nesse lugar esquecido
Onde se vive sem sentir
Pessoas morrem de alma inacabada.
Deixarei as carnes repartidas
Em memória ao soldado desconhecido,
Um ponto branco ao negrume do mar azul.

Pegadas fugidias na areia
Minha tresloucada memória,
A química não explica a cal da vida.
Só o que persiste,
É um bosque inocente
Cem mil peitos abertos,
E a fome de devorá-los
Como em um incêndio criminoso.

Lida incomum essa que fora herdada,
Fazer no desespero a calmaria,
Vistoriar o chão
Sem saber como umedecer a terra.
*Leandro M. de Oliveira

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Túmulo do Sol

Quando morri acho que as pessoas não se aperceberam muito bem. Fato é que deve mesmo ter importado pouco pois, embora a inegável ausência de uma substância mais sutil, a presença física teimou ainda de um modo ordinária. Liquefeito num corpo denso, inalteradamente tateável. Entretanto, nada seria como antes, a casa foi esvaziada e o jardim, irremediavelmente esquecido. Existe uma chaga aberta no peito de todo homem que ousou demais, uma vala comum onde se repartem sonho e impossível. Foi querer da vida que entre todas as navalhas, o bem fosse a mais afiada. Minha história não agradável como aquelas que são inventadas, é antes uma pré-história do nada porque o vazio é mais antigo que o silêncio. Pouca coisa fica pela estrada ademais do pó feito pela cal dos dias, árvores estéreis, certidões mau digitadas de óbito rememorando a não chegada do filho, aquele que vai, eternamente natimorto.

Não diga que me ama se não quer ver o mundo desmoronar outra vez. Quando o carinho colapsar em ausência, que não haja ninguém a lembrar da torpeza desses dias. Aqui é o ponto onde todos os caminhos se bifurcam, a linha de sangue que rasga os céus toda vez que o crepúsculo anuncia noites intranqüilas. Não é difícil partir, muito mais duro é ter afeto à decadência quando se entende a miséria das coisas. A moldura colorida do horizonte falseia o cinza que há por trás de tudo, o excelso da vida parece mais um momento de descuido onde tenta-se não ser e quando volta a vigilância tudo é mais agudo. A procissão de almas sem lar busca a todo custo imaginar beleza no além pra que ela maquie a feiúra do aquém. Tudo que é vida cheira a desespero. Essa não é uma festa de bastardos, ofereça seu corpo aos cães antes que a vida faça isso por você. Heis aí o túmulo do sol, que esse mundo é sepulcro em vida quando se quer vivê-lo além da rasurado comum.

Por que sentir tanto horror, logo eles virão silenciar o mundo, pra que no escuro das eras o seu choro seja voz de destaque. Vou tirar os sapatos quando chover, quero sentir a terra com entendimento, quero dedilhar sem afeto as lajes de minha última e fria morada. Pó e sombra, o instante passou e com ele o que construiu algum significado. Agora o que resta é aquilo que sempre fica aos que não quiseram o caminho já percorrido. Um leito ingrato de mãe prostituta, donde por fim hei de me ver em vencida derradeira. Tive sede e a água não chegou, fome quando tudo era deserto. Abrace-me com o seu maior carinho e terá o meu vômito mais sincero, não há como retroceder. O zelo dos grandes soa como injúria aos anões da alma, aprenda a machucar quem te ama. Nas batalhas a eficiência de um exército sempre é medida pela sua impiedade, ser livre só é possível implacavelmente. Tudo o que quiseres, toma com mão forte, o que não te serve, arremessa pela janela. Já é dia, e ainda escuro noutro hemisfério, o segredo da luz pode ser uma sombra que a sustente. Ou isso, ou tudo é mera especulação.

O ácido contido em minhas vísceras conseguiria digerir o universo inteiro. Nesse momento, demônios estão vindo dançar no jardim e o condutor da orquestra sou eu.
*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Papai Noel (e o pesadelo parece não terminar)

Falar que o Papai Noel é falcatrua ja virou redundância. Então como nenhuma verborragia ideológica parece ser capaz de barrar o avanço desse estratagema capitalista, abaixo segue o nosso singelo protesto contra o "bom" velhinho.

*Leandro M. de Oliveira

Do natal e outros engodos

Nessa época do ano onde há uma febre de falsa fraternidade e histeria coletiva patrocinada pelo nascimento de Jesus, desse feita, creio como válido considerarmos a outra parte da história, a sujeira por debaixo do tapete que todos os padres, pastores e homens santos escondem ao longo dos tempos. Jesus não é o messias, na verdade ele não representa mais que uma das versões da história que fala de um deus solar, um messias da luz. O único fato comprovadamente histórico que levou à prosperidade da sua lenda, é a publicidade patrocinada pelo império romano que impôs o cristianismo como dogma oficial e uma vez que esse império dominava cerca de 80% do mundo civilizado, não é difícil imaginar o por que da sua propagação.

O natal é uma festa essencialmente pagã onde se celebra o dia mais longo do ano ou o dia em que o sol permanece mais tempo no céu, nada mais que isso. Roma através da igreja católica incorporou essa celebração para os novos convertidos que na verdade e no princípio nem sabiam do que se tratavam os evangelhos. O vírus se espalhou, e o inconsciente coletivo foi contaminado. Objetivamente não tenho nada contra isso, a única coisa que me entristece é a ilusão e o fosso social que o natal fomenta num contexto capitalista como o nosso. Quando tudo é reduzido a troca de presentes e ceias fartas quem nada tem é mais uma vez excluído e essa exclusão dói mais que qualquer outra porque em alguma medida é patrocinada pelo deus ao qual prestam culto. O homem evoluiu e a construção de um legado para a humanidade do futuro passa necessariamente pelo abandono das sombras míticas do passado. É bonito, é poético, mas muitas vezes, senão todas, é mau intencionado.

A respeito da idéia de Jesus como uma das versões do mito do deus solar, abaixo seguem três vídeos que ilustram isso. Feliz solstício a todos.



*Leandro M. de Oliveira

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Tópicos Políticos: Stuart Mill, a utilidade da liberdade e da inclusão

Ha que se considerar afim de melhor entender o foco de Stuart Mill, o cenário político onde esse homem cresceu e se formou. Ele começa seus estudos ao longo da primeira metade dos anos 1800, tempo em que se consolidava a hegemonia do império colonial britânico, através do domínio cada vez mais largo e assentado de territórios ao redor do globo, sobretudo com suas ferrovias e sistemas de exploração comercial. No cenário interno, urge citar a emergência da classe operária e da nova burguesia urbana, ambas fruto da revolução industrial, assim como também a formação de uma economia de base monetária substituindo os velhos usos de trocas de mercadorias e afins. É nesse cenário onde novos atores emergem de forma cada vez mais presente, surge o autor em comento.

Desde sempre, a questão central apresentada a Mill possa ser identificada talvez como, de que maneira seria possível chamar ao processo político as massas falidas de trabalhadores vitimados pelo novo sistema industrial. A chave para a resposta a essa questão, passaria obrigatoriamente pelo crivo da invenção de um sistema legítimo de contestação pública, por meio de instituições que se mostrassem suficientes a canalizar os anseios da população como um todo. Além disso, era necessário se pensar as formas de condução do alargamento das bases sociais do sistema político. Nesse sentido, Mill propõem a universalização do voto e um grau jamais visto de emancipação da mulher como ferramentas para se promover a pluralidade de tendências nos partidos políticos, atendendo sobretudo as demandas do movimento operário de seu país.

Esses elementos somados vão dar vazão a uma concepção nova de liberalismo. Tal foco, atribui um valor extremado ao sujeito enquanto produtor de individualidade, pondo-o como predecessor da sociedade, valorizando nesse ponto mais que nunca a livre iniciativa. A sociedade aqui é um composto de artificialidades onde o sujeito navega e interage de acordo com seus interesses num cálculo de utilidade. Isso indica a acepção de que para Stuart Mill o individual produz o social e não o contrário, sendo a ação humana um algo que possui valor em si mesmo. É mister frisar que nesse jogo de inversões, o autor acaba transladando a teoria liberal da perspectiva descendente para a ascendente ao libertar-se de antigos paradigmas próprios do conservadorismo inglês como as idéias de cidadania restrita e voto censitário.

Dessa forma, o autor vai dialogar inclusive com as demandas formuladas pelos ideais democráticos do séc. XIX, ao perceber a participação da esfera política na dimensão de algo a ser repartido entre a sociedade, pensando a gestão da “res publica” como exercício que de alguma forma vai dizer respeito a todos os membros da comunidade política. Nesse ponto, surgem as implicações relativas à concepção de um modelo estatal que possua também ferramentas suficientes a garantir de forma institucional a participação cada vez mais abrangente no seu trato. Poder-se-ia dizer, que Mill em alguma medida flerta com um tipo agudo de democracia, entretanto isso seria errôneo da parte de quem o fizesse. Em verdade, ele abomina a tirania da maioria tanto quanto a da minoria representada pelos regimes passados.

O tema do perigo sempre presente num modelo democrático, de se formar um exercício tirânico por parte da maioria representada no poder, vai preocupar muito o autor.
Qualquer que seja a natureza de uma ditadura ou tirania, suas ações assim como a elaboração de leis, sempre terá um fundo ideológico relacionado a esse segmento que ocupa o poder, afastando dos juízos a equidade, degenerando as manifestações em ditames sectários. Por isso é imprescindível, que um sistema representativo ao qual se julge adequado, deve possibilitar a contestação e a coexistência dos interesses de setores diversos do campo social, a fim de que um contrabalanceie o outro para que em termos prático, nenhum se sobreponha a ponto de suprimir o que lhe é diverso.

A um outro ponto que se faz fundamental para entender as inclinações de Stuart Mill a conceber modelos de participação ampla. Esse ponto tem haver com a emergência na então Inglaterra de uma classe média excessivamente bairrista que prosperava cada vez mais, tornando-se em igual medida potência política e ameaça à liberdade de outros setores. Nesses termos colocado, era necessário a criação de medidas que contivessem o avanço da voraz classe média. Mill enxergava na participação popular através do voto uma sólida barreira protetora, à medida que diversificava tendências no momento da eleição. Enveredado nessa visão, ele parte rumo a duas proposições que se somam como mecanismos de contenção da barreira criada pelos novos atores que agora são chamados ao processo eleitoral.

Essas idéias vão dizer respeito a criar um sistema que valorizasse as proporcionalidades, garantindo espaço às minorias, por mais esparsas que essas se encontrassem pelo território. Além disso, uma espécie de filtro qualitativo, chamada voto plural. Nesse sistema, os votos tem peso diferenciado de acordo com o eleitor que o produz, no caso de Mill, a escolha dos segmentos intelectuais da sociedade possuía um peso maior que as escolhas de trabalhadores e proprietários. Assim, aos primeiros foi delegada a missão de ser o fiel da balança no sistema proposto. Mais uma vez é grato lembrar que, essas medidas foram propostas para tolher o avanço da classe média não como um ataque diretamente endereçado a ela, mas antes como medidas para prevenir a formação de uma tirania.

Lutar contra a tirania significa também salvaguardar a liberdade, pelo menos no sentido de liberdade de expressão. E essa que esta conecta à possibilidade de embate de opiniões na dimensão do público, encontra em Mill, um papel de extrema importância. De acordo com as linhas do autor, a liberdade é precisamente o valor que promove justiça e verdade entre homens, pois é o que faz emergir as diferenças levando ao confronto das idéias tão importante para apreender a significação das coisas numa dimensão ampliada. Uma última coisa a considerar é que quando esse texto pretendeu apresentar a liberdade como um valor, a intenção foi de mostrar algo diferente de um direito natural. Jonh Stuart Mill, como um defensor eminente do utilitarismo, colocava a liberdade enquanto conquista. Alcançada e perseguida por força de seu caráter útil na evolução humana. Assim, distanciando-a de um bem inato do indivíduo, o sistema colonialista britânico era lícito, pois as sociedades dominadas ainda não haviam atingido um gral de discernimento merecedor de liberdade.
*Leandro M. de Oliveira

Tópicos Políticos: Alexis de Tocqueville, sobre a vida intelectual da América

De antemão, é grato considerar as observações do autor referentes à diferença de postura em relação às expectativas acerca do homem numa sociedade aristocrática em contraposição com as perspectivas dentro de uma sociedade democrática. A aristocracia crê numa sociedade assentada essencialmente no que se poderia dizer de uma ordem natural imutável. Ela considera a possibilidade de evolução humana, porém, tão somente como uma melhora e nunca como um ganho qualitativo que possa acenar uma mudança substancial. Essa abordagem a respeito das faculdades de aperfeiçoamento do engenho humano, tem haver com a idéia de imutabilidade da ordem instituída. Significa dizer que ao aristocrata é necessária a concepção de um homem castrado, isto é, limitado em suas conquistas, para que a ordem “natural” das coisas seja mantida.

Em contraposição ao desejo aristocrático de uma manutenção perene das classes e posições sociais tornando a vida de uma comunidade política um exercício estático, a sociedade democrática aspira fundamentalmente a movimentação dos corpos em seu interior. A idéia a de que o homem está dotado indefinidamente da faculdade do aperfeiçoamento, incita a permissão aberta da livre iniciativa como talvez o laboratório máximo de erros e acertos humanos que irão mais tarde propiciar, nas palavras de Tocqueville, o encontro da grandeza imensa. Essa, pode ser traduzida em alguma medida como a promoção de uma igualdade entre homens, promovendo por força de sua presença, o fomento prosperidade geral onde os cidadãos possam se equivaler abundantemente em bens tanto materiais, como também imateriais.

Todavia, o autor coloca alguns dados que aparentemente contrariam a percepção, ou pelo menos, atacam um conceito tradicional do que seria uma sociedade evoluída nos moldes de então. Essas antíteses, apresentam-se todas na América, portanto, resta a proposta de estudar a democracia americana como algo aparte das demais experiências existentes. O fato é que pelo menos em tese, a quantificação dos avanços de uma sociedade esta identificada com o volume de descobertas científicas, de produção literária e artística de forma geral que esse corpo político é capaz de gerir. No caso dos Estados Unidos, o que se via então era uma atuação pífia nos campos da cultura em geral. Entretanto, o autor observa que as condições ímpares daquele país, geravam fenômenos não equivalentes em outras partes do mundo, assim, a América deve ser estudada em suas peculiaridades e não numa comparação equivalente com algumas sociedades européias por exemplo.

As condições da experiência democrática americana são excepcionais, não havendo paralelo com nenhuma outra até então vista. A proximidade do velho continente como forma de uma biblioteca com o acervo pronto para o estudo científico e artístico, a cultura fundada em hábitos comerciais, a origem assentada em puritanismo religioso e tantas outras facetas ímpares daquele país, levaram o povo a inclinar o espírito à lidas das coisas puramente materiais. Nesse sentido, os Estados Unidos, são uma experiência única, devendo-se assim estudá-los sem conclusões a priori. Talvez possa-se identificar, ainda que tacitamente, uma tendência de fundo nos escritos de Tocqueville que se manifesta no sentido de considerar que o avanço das ditas ciências do espírito no povo americano acontecerá impreterivelmente no momento em que esse alcançar um ápice econômico.

É um modelo mais ou menos criado em comparação às observações acerca da aristocracia tradicional européia. Essa casta, é constituída de homens que nunca necessitaram de uma afirmação social demonstrada em ganhos como os de prestígio político e financeiro. Considerado superior desde o berço, o aristocrata tem à mão todas as ferramentas às quais necessitar para a satisfação do corpo, podendo concentrar muito de seu tempo ao exame do espírito. O autor, também desse modo, deixa perceber sua crença que no momento em que alguns cidadãos forem se distanciando de outros na sociedade, esses então emergentes, estarão aptos a iniciar uma nova vanguarda de produção artística e científica. Os homens dentro de uma sociedade democrática cultivam a ciência, as letras e as artes, a única peculiaridade é que o fazem à sua maneira.

É importante salientar ainda que, num próximo momento, onde as necessidades do corpo são satisfeitas em toda a sociedade, o tempo ocioso é naturalmente voltado à alguma atividade, a tendência maior é que essa sempre esteja ligada à cultura. Então, de certa forma em Tocqueville, o caminho natural era que uma vez próspera, a sociedade americana alargasse o campo da pesquisa e da produção cultural em seu seio, o que provou-se acertado pelos anos que se seguiram.

Por fim, cita-se, a consideração feita pelo autor de que a igualdade gerada em um sistema político faz com que o homem nela imerso, busque julgar por si próprio, uma vez que as correntes da tradição, como aquela referente à idéia da existência de classes formadas por indivíduos superiores por exemplo, é inteiramente abolida e combatida. Essa tendência, de certa forma atrai o homem a uma vulgarização da ciência, livrando-a da abstração e preocupação teórica para inseri-la num campo de resultados práticos. Uma vez livre de intérpretes superiores, o homem está a vontade para codificar em si o conhecimento como bem entender.

Em se tratando do cenário americano, Tocqueville já identificava uma sedução especial pela parte teórica do conhecimento que permitisse sua imediata aplicação. Mais adiante, um álibi utilizado para o desinteresse na abstração pura, é que essa necessita meditação e tranqüilidade, ambos estados seriam virtualmente irrealizáveis numa everfescência democrática. As instituições dos sistemas democráticos levam os homens nela inseridos a agirem constantemente, isso subtrai o tempo necessário à contemplação. Nesse sentido, científica e culturalmente falando, poder-se-á dizer talvez que em Tocqueville que a sociedade americana é uma sociedade essencialmente pertencente ao porvir.
*Leandro M. de Oliveira

Tópicos Políticos: Jean-Jacques Rousseau, o contrato

De antemão consideramos para entender o impacto da obra de Jean-Jacques Rousseau que esse representa essencialmente uma ruptura, com alguns dos maiores nomes da escola contratualista como Thomas Hobbes e Jonh Locke, sendo para tanto sua visão de comunidade política algo ligado a uma idéia de associação voluntária e não mais de um pacto necessário nascido da dominação ou visando a auto-preservação por exemplo. Essa associação vai nascer, sobretudo da verificação de uma impossibilidade de se retomar a liberdade natural do homem, criando de alguma sorte como paliativo um modelo de liberdade artificial, que é aquilo que se chama de liberdade civil. O referido estado de liberdade existe dentro da comunidade política organizada, onde é enfatizado a imperatividade do direito em detrimento da ditadura da força.

Para Rousseau o direito construído numa determinada sociedade é um conceito de raízes morais arraigado em pressupostos da razão, portanto é uma manifestação da vontade geral. A força por sua vez, é mero fato da dimensão física, assim sendo, pode ser entendida como uma manifestação animal, o que não é compatível com o homem dotado de razão. Desse modo, não pode haver contrato, ou em outras palavras, é inexistente o direito num sistema tirânico de imposição da força. Essa afirmação parte do entendimento de que a liberdade é uma característica imanente da condição humana, tão logo, ninguém irá alienar sua liberdade gratuitamente. O contrato social é então apresentado como o pacto que garantiria a contraprestação de ganhos para aqueles que optaram por submeter suas liberdades a um governante.

Dito isso, vale frisar que para a obediência de um povo a um governante é imprescindível que antes haja um contrato de associação, já que a força não pode suplantar a vontade. Essa soma de intenções individuais é o que cria a chamada vontade geral que por ser um todo de aspirações comuns é indissolvível e imperiosa sobre qualquer vontade dissidente de um indivíduo em sociedade. Todavia, em Rousseau o homem é portador da essência do bem, isto é, ele é bom por natureza. Assim, qualquer princípio formulado fora do homem é degenerado e mau, é dito que a vontade geral pode errar porque em algum momento ela pode se perder em interesses privados construídos e defendidos por grupos organizados.

Para que a vontade geral se manifeste de maneira plena é mister que seja assegurado que cada cidadão manifeste seu pensamento de maneira livre e democrática. Por força de formulações como essa pode-se definir o Contrato Social como uma obra de viés republicano que funda a proposição de um modelo de Estado pautado em grande medida por valores da antiguidade clássica. Todavia, cabe por fim a observação de que o contrato social para Rousseau é a saída possível, mas não a ideal. Pois o contrato é o aprisionamento do homem à medida em que ele legitima um poder que estará constantemente contra o indivíduo e contra a sua natureza.
*Leandro M. de Oliveira

Tópicos Políticos: Hobbes, o homem e o medo

Em primeiro lugar ao situarmos esse autor no tempo, encontramo-lo dentro da tradição de pensamento conhecida como contratualista, isso significa dizer que em Hobbes o Estado surge como um ente necessário e desejável. Pois, em se tratando de uma ótica contratual, a idéia basilar é de que para se viver em harmonia, os homens devem abdicar da sua liberdade pessoal em favor do bem estar da comunidade. Nesse sentido, os homens necessitam então firmar um pacto, isto é, um contrato social, e para tanto o Estado é eleito como depositário e guardião dessa aliança. Assim, sua atuação é legítima e irrestrita frente a um cidadão, por força de ser o poder estatal o veículo de exercício da consciência coletiva.

É mister dizer a respeito da criação do pacto, que Hobbes teme antes de mais nada o retorno do homem a seu estado de natureza, que é em linhas gerais um estado de barbárie, o que pode impedir essa entrega aos sentidos é o acordo de convivência entre pessoas que se diz contrato social. Todavia, em oposição ao que o senso comum tende a aceitar, a barbárie natural do homem sem governo não é essencialmente causada por um “mau” imanente ao gênero humano, mas por um extinto de auto-preservação que torna as pessoas inimigas de seu próximo na disputa de bens que favoreçam a continuação da vida. Dito isso, observa-se uma cisão clara de pensamento com alguns autores importantes da mesma escola dos contratos, como Jean Jacques Rousseau por exemplo, que conceitua a existência da virtude e da bondade como naturais ao homem por si só.

Para Rousseau, o estado de natureza é o momento mais excelso do sentido de humanidade presente em cada um. Em contrapartida, o Estado positivo, que hobbesianamente é a ferramenta de salvação do gênero humano, para o autor francês é mais um mau necessário, um recurso de segunda ordem que vem pra conter os ânimos após a degenerescência enfrentada sobretudo na criação da propriedade privada. Hobbes é desse modo, a antítese direta à Rousseau e a todo o secto de pensadores desenvolvidos à margem de suas idéias. Bem como apresenta toda uma ruptura com a tradição grega em geral e o legado aristotélico, já que aqui a comunidade política não é exatamente uma aspiração de felicidade que condiz com a natureza do gênero, mas antes um acontecimento impreterível para a conservação da espécie.

Isso, por entender como já dito, que só pode haver um sentido de equilíbrio social quando existe um poder geral e imperativo para regular e suprimir a tendência natural das gentes que seria a agressão mútua. Outro ponto que a filosofia hobbesiana trabalha com esmero é a idéia de unidade contra a anarquia, frisando que a possibilidade de uma discussão aberta acerca do justo e do injusto, do certo e do errado, é exatamente o que pode provocar a desagregação do poder, colapsando o seio social e tornando o homem a seu estado originário. Dessa forma, o aumento da liberdade individual rima com diminuição do poder do Estado, o que num desenrolar natural dos eventos traz anarquia e instabilidade às nações.

Essa cadeia de eventos tende a desaguar naquilo que é a expressão máxima do anarquismo, a guerra civil. Esse tipo de conflito é a morte do Estado, a perda total de uma referência do convívio harmônico entre homens. Assim, pode-se dizer que para Hobbes as possibilidades benéficas de refundação da comunidade política não são exatamente aceitas. Pois, tudo o que tem haver com ofensa à ordem estabelecida é elencado como reflexo da condição humana degenerada, não há uma alternativa à realização plena do homem senão em um corpo político organizado. Sua obsessão é construir um Estado de bases indissolutíveis que contrarie o “direito de natureza” em favor do “direito positivo” que seria estabelecido pela própria sociedade, tendo no Estado a figura de seu fiel sentinela.

Esse Estado de viés radicalmente absolutista tem sua descrição máxima na metáfora do Leviatã e sua urgência para o bem estar da comunidade política vem de dois pressupostos básicos. Os quais sejam, a vida humana. O homem enquanto um átomo de egoísmo deve amenizar sua tendência à agressão mútua trabalhando em sociedade. Também o conceito de convencionalismo, esse vai dizer que os homens estabelecem entre si regras para que se possa sobreviver em paz até alcançar o direito a uma morte natural e não violenta. Percebe-se aqui o leviatã como a encarnação de uma consciência que pretende-se onisciente e onipresente.

Assim colocado, há no ente humano a urgência de regulação por um Estado total, positivo e concentrado em todos os aspectos da vida em grupo. Dele vai derivar o que se pode dizer da idéia de uma ferramenta capaz de racionalizar o egoísmo dos homens que termina por ser também auto-destrutivo. Hobbes vai argüir a atribuição de uma legitimidade ao governante por meio de um consenso em que todos tenham conhecimento. Isso se deve pelo fato de que esse indivíduo representa o Estado para normatizar a vida em grupo de uma maneira irretratável, uma vez que da firmeza do julgo estatal depende a vida estável da comunidade política. Como especula no trecho a seguir:

“(...) até o momento em que se tome conhecimento de uma lei que as proíba; o que será impossível até o momento em que sejam feitas as leis, e nenhuma lei pode ser feita antes de se ter determinado qual a pessoa que deverá fazê-la. (...) Seja como for, é fácil conceber qual seria o gênero de vida quando não havia poder comum a recear, através do gênero de vida em que os homens anteriormente viveram sob um governo pacífico costumam deixar-se cair, numa guerra civil”. (Hobbes, Thomas. 1983, p. 110)

Nessa passagem fica clara tanto a necessidade de um ente específico para regular a vida social, bem como uma necessidade latente da violência regulamentada do Estado para com seus cidadãos. É dessa feita, pelo grau de habilidade em subtração das consciências individuais e alienação das vontades singulares que se pode medir o sucesso de um governo.

Em último é importante salientar que o governante, o cérebro do Leviatã, não governa em nome próprio. Ele é um representante no sentido mais largo do termo e como tal, vai tratar apenas de zelar pelo bem estar dos representados. Assim o governante é absoluto e tem poderes plenos, todavia, quando não cumpre sua função social que é a de fomentar uma justiça distributiva no sentido de garantir direitos e deveres comuns a todos, ele pode a qualquer momento enfrentar a deposição.


Em Hobbes a sociabilidade do homem é uma criação artificial inventada face ao medo da guerra e ao desejo de paz, isso faz com que ele conceba leis comuns, estabelecendo o pacto social que fundamenta o Estado. Nsse sentido, é possível imaginar que o autor tenha sido uma grande fonte de inspiração aos modelos de Estado totalitário e das ditaduras de direita que ocorreram no último século.
*Leandro M. de Oliveira

sábado, 13 de novembro de 2010

Parábola do Inferno

(Em quase todas as culturas o arquétipo do demônio
e seus afins, está identificado com o movimento.
É ele, segundo o vulgo, quem faz o mundo acontecer primariamente.
Uma parábola do inferno pode ser o relato possível daquilo
que é apreendido numa viagem a reinos obscuros da
mente com a intenção de saber como tudo inicia...)

Ele começou a convencer-se da condição de alter-ego, sempre que algo não agradava a consciência oficial, aquele ser era compulsivamente evocada. Tais chamamentos por parte do consciente externo não foram raros, o vigilante puro embora entregue, havia desenvolvido uma sem conta de fantasias para deixar-se ao mundo. Ele precisava de quantos escudos pudesse reunir. Nosso personagem original não se queixava dessa concorrência que o fazia se manifestar um tanto quanto sazonalmente, uma vez que, deixado a mercê de sua vontade, tinha mais tempo para si mesmo. Embora não haja meditação suficiente a sanar a impressão de um corpo amputado, ele pensava. Quando aqui chegou, os efeitos de seu parto nesse mundo, ecoaram parecidos com um madeireiro a serrar galhos de planta condenada. Viver na mente de outrem seria um exílio?

A bendita sensação de distância, a maldita certeza de estar incompleto. No momento em que os portais dessa realidade se abriram, uma das condições exigidas foi a de que algo ficasse para trás. A totalidade do ser não obteve espaço suficiente na limitação débil do veículo a ele entregue. Era possível que o não-viver como incriado em alguma medida fosse mais grato que o viver como produto dum delírio. Pretendia-se lá e tão somente, algures de qualquer mataborrão de possibilidades. Agora que lhe deram o desejo do caminho, cortaram-lhe as pernas com uma lâmina cega. Ele poderia ter sido um ser humano digno, caso não fosse produto de pensamentos esparsos. O acaso é tudo! Um alter-ego é uma derivação ordinária do eu, não há um princípio divino em nada. Ele agora tem a impressão de ser feito da mesma substância que os sonhos. Sendo assim, com efeito, seu criador é também sonho?

Um homem projeta um mundo onde grassam animais por toda a parte, um animal projeta uma natureza repleta de espécies vegetais, um desses arbustos por sua vez, projeta um céu de chuva a nutrir a terra e essa água é a seus olhos a maior divindade que se pode conceber. Esses mundos embora hipotéticos, existem em alguma medida. Assim, tudo é ficção, o homem é um engenho vazio do da ânsia por si mesma. Criar dimensões é um álibi daqueles que se negam a testemunhar o nada inalterado. Ele saiu à rua com grandes expectativas, mas lá chegando, enfim deu por si... Da mesma forma que com as ruas onde nunca se caminhou e o homem do qual nunca se teve notícias, todo bem é hipotético. Você precisa morrer para viver de uma forma mais plena, sem desejo ou meta pode ser que as coisas se realizem, porque tudo é vazio em si.

Ele é deveras um alter-ego. Todavia, que mais se pode ser quando a impressão de não se guiar pela própria vontade é ininterrupta? O demônio nos daria abrigo do sol e uma bela roupa pra dançar, poderia ser, se acaso existisse de fato. Buscar a culpa na treva exterior é uma tentativa inútil de expurgar a própria escuridão. Deus só fez sentido algum dia por que a fé precisou ser testada, e de todas as invenções ele terminou por ser uma das mais impuras. Maldito seja quem nos transformou em fração do divino. Crer numa origem é uma das seduções mais infames. E você se sente elevado, e se sente pleno. O homem é o único animal da natureza que num projeto de busca do bem, usurpa e agride tudo quanto há de valoroso em seu semelhante. A raça humana é antes de mais qualquer coisa, filha da ganância e da dissimulação. Isso de fato poderia ter sentido, não fosse só um pensamento a me ocorrer enquanto escrevo.

E o homem que é não-homem, permanece latente, à espreita de um vacilo da consciência oficial. Será que nos tornamos algo quando aquilo que nos concebeu se pôs a dormir? Os religiosos provavelmente adorariam isso, mas o que é a vida senão um acidente da matéria. Onde estão os desígnios além de na cabeça de fanáticos que passam o tempo a imitar cruzados do medievo e de candidatos a homens bomba... A consciência é um cadáver, muitas vezes putrefato, que foi cuidadosamente acondicionado em cada uma de nossas costas. Ela pesa, porém abriga. Mas a que preço? Você vai morrer e sua contribuição mais alta será a de matéria orgânica decomposta para a manutenção de alguma colônia de vermes. Não é possível viver grandiosamente a não ser quando se convence que a vida é uma piada de quinta.
*Leandro M. de Oliveira