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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Com fúria e raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras


Pois é preciso saber que
a palavra é sagrada
Que de longe muito longe
um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada


De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse


Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

*Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 20 de dezembro de 2008

Não creias, Lídia que nenhum estio


Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo


*Sophia de Mello Breyner, Homenagem a Ricardo Reis, 1972