Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Antífona da chuva

I
Limalhas de aço a sibilar liquidamente

Espaço entre o corte e a compostura,
A presença da água assim como o desatino
A fazer mais úmida a caminhada do hoje.
A água cai, do mesmo modo que exita
Um homem em seu leito de morte.
Sepulcral, a forca em que entregaste
Aquilo que teu jamais pôde ser.
O metal rarefeito violenta o silêncio,
O corpo, a memória. Nesse país
Todo o sangue é vil, toda dor é vã.
Que as indelicadezas sejam perdoadas.
Ao cortar os pulsos pense em mim
Com um pouco mais de candura
Antes que a horda de cães chegue aqui.

II
Dorme enquanto os outros trabalham, trabalha enquanto todos dormem. O levante das Termópilas não durará toda uma vida. Quando a primavera chegar o clima será mais ameno caso todas as flores não tiverem sido pisadas. Sinto como se tivesse chovido mas, ao acordar constatei que a água era imaterial. Só eu é que me umedecera por dentro.


*Leandro M. de Oliveira

terça-feira, 19 de julho de 2011

Antes de Nascer o Mundo (Fragmentos) II

Mil vezes Ntunzi me fez recordar o motivo por que meu pai me elegera como predilecto. A razão desse favoritismo sucedera num único instante: no funeral da nossa mãe, Silvestre não sabia estrear a viuvez e se afastou para um recanto para se derramar em pranto. Foi então que me acerquei de meu pai e ele se ajoelhou para enfrentar a pequenez dos meus três anos. Ergui os braços e, em vez de lhe limpar o rosto, coloquei as minhas pequenas mãos sobre os seus ouvidos. Como se quisesse convertê-lo em ilha e o alonjasse de tudo que tivesse voz. Silvestre fechou os olhos nesse recinto sem eco: e viu que Dordalma não tinha morrido. O braço, cego, estendeu-se na penumbra:
- Alminha!
E nunca mais ele proferiu o nome dela.Nem evocou lembrança do tempo em que tinha sido marido. Queria tudo isso calado, sepultado em esquecimento.
- E você me ajude, meu filho.
Para Silvestre Vitalício, a minha vocação estava definida: tomar conta dessa insanável ausência, pastorear demónios que lhe abocanhavam o sono. Certa vez, enquanto partilhávamos sossegos, arrisquei:
- Ntunzi diz que lhe faço lembrar a mãe. É verdade, pai?
- É o contrário, você me afasta das lembranças. Esse Ntunzi é que me traz espinhos do antigamente.
- Sabe, pai? Ontem sonhei com a mãe.
- Como pode sonhar com alguém que nunca conheceu?
- Eu conheci, só não me lembro.
- É a mesma coisa.
- Mas recordo a voz dela.
- Qual voz dela? Dordalma quase nunca falava.
- Recordo um sossego que parece, sei lá, parece água. Às vezes penso que me lembro da casa, o grande sossego da casa...
- E Ntunzi?
- Ntunzi o quê, pai?
- Ele insiste que se recorda da mãe?
- Não há dia em que ele não se recorde dela.
Meu pai nada respondeu. Ruminou um novelo de resmungos e, depois, com voz rouca de quem foi ao fundo da alma, afirmou:
- Vou dizer uma coisa, nunca mais vou repetir: vocês não podem lembrar nem sonhar nada, meus filhos.
- Mas eu sonho, pai. E Ntunzi se lembra de tanta coisa.
- É tudo mentira. O que vocês sonham fui eu que criei nas vossas cabeças. Entendem?
- Entendo, pai.
- E o que vocês lembram sou eu que acendo nas vossas cabeças.
O sonho é uma conversa com os mortos, uma viagem ao país das almas.Mas já não havia nem falecidos nem território das almas.O mundo tinha terminado e o seu final era um desfecho absoluto: a morte sem mortos.O país dos defuntos estava anulado, o reino dos deuses cancelado. Foi assim que, de uma assentada, meu pai falou.Até hoje essa explanação de Silvestre Vitalício me parece lúgubre e confusa. Porém, naquele momento, ele foi peremptório:
- É por isso que vocês não podem nem sonhar nem lembrar. Porque eu próprio não sonho, nem lembro.
- Mas, pai, o senhor não tem memória da nossa mãe?
- Nem dela,nem da casa,nem de nada. Já não me lembro de nada.
E ele se ergueu, rangente, para esquentar o café.Os passos eram de embondeiro que vai arrancando as próprias raízes. Olhou o fogo, fez de conta que se mirava num espelho, fechou os olhos e aspirou os perfumosos vapores da cafeteira.Ainda de olhos fechados, sussurrou:
- Vou dizer um pecado: deixei de rezar quando você nasceu.
- Não diga isso, meu pai.
- Estou-lhe a dizer.
Uns têm filhos para ficarem mais perto de Deus. Ele se convertera em Deus desde que era meu pai. Assim falou Silvestre Vitalício. E prosseguiu: os falsos tristes, os maus solitários acreditam que os lamentos sobem às alturas.
- Mas Deus está surdo - disse.
Fez uma pausa para erguer a chávena e saborear o café e, depois, rematou:
- Mesmo que não estivesse surdo: que palavra há para falar a Deus?
Em Jesusalém, não havia igreja de pedra ou cruz. Era no meu silêncio que meu pai fazia catedral. Era ali que ele aguardava o regresso de Deus.
*Mia Couto

sábado, 16 de julho de 2011

A descendência de Caim

Num lugar ermo, donde mapas são indiferentes, um homem só vive entre a imensidão das montanhas e a modéstia de sua pequena casa. Um quarto austero, alguns livros de páginas amarelas, um bule amassado de chá, a cama feita com um colchão de palha e a velha escrivaninha única companheira inabalada em anos a fio. Acima de tudo, o negrume da noite é cortado por uma lamparina de bico já gasto ostentando uma pequena chama. Nas raras manhãs onde a enxaqueca ou gota não o atordoam como fossem uma fúria dos antigos amaldiçoados, ele caminha demoradamente entre as árvores, muito talvez invejando a espessura da casca que protege os troncos. Ademais, pensa e escreve. Debruçado no velho móvel sob o auxílio do precário lume, redige cartas a um amigo que nunca existiu. À 03 de março de um ano não pertencente ao calendário gregoriano:

“O mundo vive dias de indecência e superficialidade tamanha que às vezes sem pressentir, a idéia de suicídio me bate como uma das poucas coisas dignas que restaram. Mil vezes me envergonho, integralmente por ter partilhando as minhas mais elevadas aspirações dizendo-as ao público. Aspirações essas que mesmo em tempos muito mais valiosos e profundos, não deveria ter sido partilhadas. Depois de um século de liberdade o homem se vê prostrado sem saber que frutos essa árvore de fato deu, a abertura desmedida à imprensa transformou a vida em mercado, corrompeu o gosto, chacinou a beleza. Viver assim tão a mercê da imposição alheia é existir somente, como gado que foi marcado de forma voluntária. Todavia, abraço a solidão em que me recolho tal como Dante ou Espinosa, mesmo sabendo que esses homens eram muito mais preparados. É inegável que a sua maneira de processar o mundo era muito mais ajustada à solidão que a minha, afinal, os que conseguem inventar “Deus” por companhia jamais conhecerão a solidão que sinto. Sou um aborto da natureza e a minha razão não pode querer pretender mais(...)”

Olha pela janela, fita o opaco vidro com intensidade mesmo percebendo que nada se pode ver além da muralha escura da noite. Depois dessa pausa, mergulha mais uma vez a pena no tinteiro e escreve a frase derradeira:

“A minha fé tão parca, reside agora na esperança, ou na desesperança, de que surja um homem novo que possa demonstrar que tudo é deveras avesso ao que penso, que refunde o pesadelo da vida transformando-o em coisa mais viçosa. Creio que jamais me encontrei em tamanha decadência mas, estranhamente, sinto agora alívio em dizer minhas aspirações mais profundas”.
*Leandro M. de Oliveira

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Além

Muito além de lugar algum é como se beijasse o chão com a força de olhos. Faz o sinal da cruz e escarra sobre ele com a torpeza dos que envelheceram antes da infância. Meu lugar é o que virá e enfim começo a me sentir ressarcido. Ao talhe do artista mais raro, um corpo a simular verdades decaídas.

O que quererá a vida de nós, o que pretenderei eu que já não ouso coisa alguma... A chegada sempre tardia, as muitas intragabilidades da deficiência alheia. O cume de uma montanha só parece algo grandioso visto de baixo, no alto tudo é planície e ordinariedade como em qualquer viela marginal. O espelho mudado na invenção mais incerta, porque sustentar a beleza à luz do dia exige mais que um reflexo sofismático.

Setenta e sete metros abaixo do chão parece ser um bom lugar para se ocultar um cadáver. Todavia, isso não indica o que fazer o aquilo que resta dele. Gerir a transposição da existência numa coisa inominada, apreender a dimensão da verdade depois de haver existido em erro. Algures num planeta parecido com esse, inventado ou percebido pela intuição, pessoas fazem seu trabalho maquinal, riem, comem, lembram, esquecem. Num sítio diverso do que estou agora, tenho a impressão de que o existir existe apenas, com todo o resto sendo algo como uma doença nos olhos.

A tortura mais arcaica, um homem que sangra sozinho. Você só leu sobre o inferno na bíblia, meu amor. Eu, estive lá! Descendo ao Hades com a verdade dos nunca sentiram remorso, determinadamente a querer que a beleza se reinventasse do enxofre de estar vivo. Falhei como um amador barato, não consegui transpor o estige. Agora essa sombra é como todas as outras sombria, e ela ainda está lá. Desfolho os dedos por sobre uma lápide imaterial, taciturnamente um comboio imaginário de homens sem rosto leva o que restou daqui.

Qualquer encruzilhada que dê numa sala sem janelas sou eu, ermo, solene, desabitado. De todos os vícios a vaidade pode e deve ser o mais sórdido. Mergulhar num corpo alhures, arrancar de um organismo exterior a obstinação necessária. Ninguém jamais penetrará esse mistério, a geração que não virá, o entendimento selado onde as mãos não alcançam, como fora sonho ou maldição que não se sente. Imortalidade tem haver com ser incapaz de aceitar a grandeza das coisas. Que é o homem além de um ser amputado?

A consciência assim como vontade nunca se compartilham, amar frequentemente é um nome sofisticado que se criou para rituais antropofágicos.

*Leandro M. de Oliveira

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Sofismática da mansarda

Semelhante a um amor clandestino, a noite invade as salas antes mais iluminadas. Inscritas em matéria mais líquida que o fogo, sibilas inventam o futuro ainda presas ao hostil passado. A pertinência daquele corpo reside ao longo do edifício, muito embora de forma imaterial. O choque entre mundos deve ser um evento de natureza dúctil, caso contrário, seriam menos acidentados os caminhos que circundam o intransponível cume. Sentir na carne a verdade do mistério é ter de respirar no fundo d’água a plenos pulmões, como se compacta toda a fibra que espera ou se oprime qualquer porção de carne posta em torniquete, não há como retroagir quando se é cegado.

Dir-se-ia do homem que uma vez posto em jornada a um país estrangeiro perdera o caminho de volta pra casa. Sugerir que a crença do lar só existe quando não há mais nada para substituí-la pode ser uma das idéias mais honestas que se ousa. Nesse lugar, onde a fome de justiça conta com recursos tão parcos, só a quimera de alguns raros comporta a resignação necessária. Recorre-se à acolhida como uma porta que da para dentro de si, todo o resto que é lançado fora está igualmente perdido. O mundo a brotar como uma suspeição dos improváveis, pessoas a escavar o peito em busca de um abrigo anti-bombas.

O inteiro universo é uma massa oca e o buraco negro que sugou as constelações sou eu.

Impressentido, por campos abertos vou, ceifando a erva jovem, pisoteando as flores da insistente primavera. A natureza de um homicida não é diferente da de outro homem. No fim todos serão julgados com severidade, apesar de não haver quem saiba exatamente se são mais graves os vícios ou as virtudes ou se acaso há diferença entre eles. Ninguém pode ser belo ou grandioso demais sem que aconteça uma desgraça. Toda força, toda vitalidade há de ser subtraída um dia e aqueles que nos trouxeram aqui estarão na indiferença de suas distâncias, rindo como bêbados insanos.

Ademais da cisma de uma tragédia irreparável, a hesitação da vida rasga a consciência como um túnel.
*Leandro M. de Oliveira

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Imprecisão no conhecer

A minha pergunta - aquela que aos meus cinquenta anos, quase me levou ao suicídio - era a mais elementar que reside no fundo da alma de qualquer pessoa, desde a criança estúpida ao sábio ancião, a pergunta sem a qual a vida é impossível, como verifiquei na prática. A questão era: "O que vai resultar do que estou a fazer agora, do que vou fazer amanhã - o que vai resultar de toda a minha vida?"

Expressa de outra maneira, a pergunta será: "Para que tenho de viver, para que tenho de desejar, de fazer seja o que for?" mais uma forma de exprimir a mesma pergunta: "Haverá na minha vida um sentido que não seja eliminado inevitavelmente pela minha futura morte?"

Foi a esta pergunta, expressa de várias maneiras, que procurei uma resposta na sabedoria humana. E descobri que, em relação a esta questão, todos os conhecimentos humanos se dividiam em duas semiesferas opostas, por assim dizer, tendo dois pólos contrários: um negativo e outro positivo; mas também que em nenhum deles havia respostas às questões da vida.

Uma série de conhecimentos parece não reconhecer a questão mas, responde com clareza e exatidão às suas próprias perguntas, colocadas independentemente: é uma série de conhecimentos experimentais, no ponto extremo da qual se encontra a matemática; outra série reconhece a questão, mas não lhe dá resposta: é uma série de conhecimentos especulativos, e no seu ponto extremo encontra-se a metafísica.

(...)

Se nos virarmos para o ramo dessa ciência que tenta dar respostas às questões da vida - a fisiologia, a psicologia, a biologia a sociologia - encontramos uma impressionante pobreza de pensamento, uma enorme imprecisão, pretensões injustificadas de poder resolver questões fora do seu âmbito e as permanentes contradições em que um pensador cai relativamente aos outros e, até, relativamente a si próprio.

(...)

Se nos dirigirmos aos ramos da ciência que não procuram resolver as questões da vida, resolvendo apenas a especificidade das suas questões científicas, ficamos admirados com a força da mente humana, mas sabemos de antemão que não encontramos aqui a resposta às questões da vida. Estas ciências não querem saber da questão da vida. Dizem: "Não temos resposta para a pergunta sobre o que tu és e para que vives, não tratamos disso; mas se quiseres conhecer as leis da luz, dos compostos químicos, as leis da evolução dos organismos, se quiseres saber as leis dos corpos e das suas formas, e a relação dos números e das grandezas, ou as leis do teu intelecto, temos para tudo isso respostas claras, exatas e indubitáveis."
*Liev Tolstói

terça-feira, 12 de abril de 2011

Antes de Nascer o Mundo (Fragmentos)

A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: "Jesusalém". Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final.

Meu velho, Silvestre Vitalício, nos explicara que o mundo terminara e nós éramos os últimos sobreviventes. Depois do horizonte, figuravam apenas territórios sem vida que ele vagamente designava por "Lado-de-Lá". Em poucas palavras, o inteiro planeta se resumia assim: despido de gente, sem estradas e sem pegada de bicho. Nessas longínquas paragens, até as almas penadas já se haviam extinto.

Em contrapartida, em Jesusalém, não havia senão vivos.Desconhecedores do que fosse saudade ou esperança, mas gente vivente. Ali existíamos tão sós que nem doença sofríamos e eu acreditava que éramos imortais. À nossa volta, apenas os bichos e as plantas morriam. E, nas estiagens, desfalecia de mentira o nosso rio sem nome, um riacho que corria nas traseiras do acampamento.

A humanidade era eu, meu pai, meu irmão Ntunzi e Zacaria Kalash, nosso serviçal que, conforme verão, nem presença tinha. E mais nenhum ninguém. Ou quase nenhum. Para dizer a verdade, esqueci-me de dois semi-habitantes: a jumenta Jezibela, tão humana que afogava os devaneios sexuais de meu velho pai. E também não referi o meu Tio Aproximado.Esse parente vale uma menção: porque ele não vivia connosco no acampamento. Morava junto ao portão de entrada da coutada, para além da permissível distância, e apenas nos visitava de quando em quando. Entre nós e a sua cabana ficava a lonjura de horas e feras.

Para nós, os miúdos, a chegada de Aproximado era razão de festa maior, uma sacudidela na nossa árida monotonia. O Tio trazia mantimentos, roupas, bens de necessidade. Meu pai, nervoso, saía ao encontro do camião onde se amontoavam as encomendas. Interceptava o visitante antes que o veículo invadisse a vedação que circundava o casario. Nessa cerca, Aproximado era forçado a lavar-se para não trazer contaminações da cidade. Lavava-se com terra e com água, fizesse frio ou fizesse noite. Depois do banho, Silvestre desbagageava o camião, apressando as entregas, abreviando as despedidas. Num volátil instante,mais breve que um bater de asas, ante o nosso olhar angustiado, Aproximado voltava a extinguir-se para além do horizonte.

- Ele não é um irmão directo - justificava Silvestre. - Não quero muita conversa, esse homem não conhece os nossos costumes.

Essa humanidadezita, unida como os cinco dedos, estava afinal dividida: meu pai, o Tio e Zacaria tinham pele escura; eu e Ntunzi éramos igualmente negros, mas de pele mais clara.

- Somos de outra raça? - perguntei um dia. Meu pai respondeu:

- Ninguém é de uma raça. As raças- disse ele - são fardas que vestimos.
Talvez Silvestre tivesse razão. Mas eu aprendi, tarde demais, que essa farda se cola, às vezes, à alma dos homens.

- Vem de sua mãe, Dordalma, essa claridade da pele. Alminha era um bocadinho mulata - esclareceu o Tio.

A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado.Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar,um talento para apurar silêncios.Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

- Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.

Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia:


- Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.

Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado.Talvez fosse legado de minha mãe,Dona Dordalma,quem podia ter a certeza? De tão calada,ela deixara de existir e nem se notara que já não vivia entre nós, os vigentes viventes.


- Você sabe, filho: há a calmaria dos cemitérios. Mas o sossego desta varanda é diferente.

Meu pai. A voz dele era tão discreta que parecia apenas uma outra variedade de silêncio.Tossicava e a tosse rouca dele, essa, era uma oculta fala, sem palavras nem gramática.


Ao longe, se entrevia, na janela da casa anexa, uma bruxuleante lamparina. Por certo, meu irmão nos espreitava. Uma culpa me raspava o peito: eu era o escolhido, o único a partilhar proximidades com o nosso eterno progenitor.
*Mia Couto

quarta-feira, 2 de março de 2011

A memória estrangeira

Ora as lembranças de amor não constituem exceção às leis gerais da memória, também elas regidas pelas leis mais gerais do hábito. Como este enfraquece tudo, o que melhor nos recorda um ser é justamente o que esquecemos (porque era insignificante e lhe deixámos assim toda a sua força).

Por isso é que a melhor parte da nossa memória está fora de nós, numa aragem pluviosa, no cheiro de um quarto fechado ou no cheiro de uma primeira labareda, em toda a parte onde encontramos de nós mesmos o que a nossa inteligência, por não o utilizar, pusera de lado, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando todas as nossas lágrimas parecem esgotadas, nos sabe ainda fazer chorar.
*Marcel Proust

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Jardim

Labiatas de um jardim sem dono; aos que perderam os seus, algures querem quem nunca os teve. Amar é ser canibalizado sem piedade! Um tiro surdo na noite, a verve de um lavrador drenada pela fome da terra. Toda gota de sangue é carvão ermo na tempera duma fornalha acesa, constantemente trespassada, a rua projeta sensações de não estar. Não há metal por toda a parte, a vida a tornar em giz quebradiço a matéria. O mundo aninha-se aqui como uma procissão de sexos abertos. Uma iluminura que me leva além, uma doença que me há de matar. E que mais? Ademais o corpo, pedaço de rocha liquefeita, fio de orvalho pra sempre dissipado ao contato solar duma aurora. Só se vive uma vez, a não ser que a matéria assim como o desejo, se desdobre. Dimensões multiplicadas ao contato da presença exterior, o balanço das esferas mais interno que a impressão.

Uma aparição rara, confusão de hemisférios espraiados a cismar. Arroubos do mais puro impensado, o horizonte definitivamente a romper a linha do equador. Por que desejar tanto esse corpo? Refazer em novas curvas a busca antiga, abrir por sobre a terra o veio mais fecundo. Um instante e duas eras findaram, o que antes antagônico unido foi, num sítio anterior à presunção. Amar uma representação alheia, dissolver a fadiga dos campos à espera de cabelos e olhos.

(...)

Ter na carne o transcendente além da carne, uma chama feita de antiguidade, a afeição brotada dos lugares mais inesperados. Habita a casa e vê como é vazia, vias de caminhos bifurcados, talhas de um formão imperfeito. Logo passa o instante e descobre-se que o relógio nunca parou. Que Cronos é cego e a dor é muda, nenhuma fúria castiga mais que o lastro do não vivido. Onde estariam todos a não ser na lembrança do que não mais existe...

Talvez quando esse lugar for ainda mais longínquo possamos nos sentar ao pé de uma árvore, se acaso ainda restarem árvores e dimensioná-lo ao modo de alguém que fabrica ou pensa. Não é possível entender a grandeza das coisas a não ser olhando-as com distância. No momento em que aquele homem fincou nesse lugar os seus pés, deveria ter pego a primeira condução que findasse a jornada de volta à sua terra, mas a mulher a quem procurava estava aqui, estrangeira. Ele não tomou a primeira, nem a segunda e nem a terceira condução. Desejou com a ardência dos que nunca nasceram rasgar o tempo e voltar ao momento anterior à revelação, pra que pudesse morrer em paz, com as solenidades dos que existiram apenas. Deveras, onde era sua terra? O mundo todo convertido em exílio, o homem alheio de si.

O perfume da rosa envolve por ser efêmero, qualquer paixão que vale a pena é suicida. E ele se perdeu mais uma vez, pra descobrir que todo corpo é feito de matéria e não há luz além daquela que a vontade projeta. Mas não falemos de empreitas frutadas, a experiência é um fim em si mesmo, quem perde termina mais rico que quem toma. No fim, o ser é feito de memória assim como de esquecimento, um caminho não trilhado nega ambos.
*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tempis Fugit

A fuligem se espalha pelas reentrâncias da carne, o limo hei de triunfar no movimento de outras esferas. Além, aquém do momento esperado, há um segredo oculto entre mãos e olhos. Dar visão ao cego exige que a terra seja abraçada como uma mancha de sangue.

A solidão do animal mais solitário. Um espelho lustrado que não produz reflexo. Quando o vírus toma a corrente circulatória é preciso respirar arrancando a pele. O peito nu, o estar aberto ao sabor do inesperado. Olhos de ontem que não vêem mais que uma tentativa insólita de recompor o pretérito. Corpos expostos, atração de abutres. Sua carne há de ser dividida entre os que não foram convidados, um ato bravamente cristão da parte de quem o fizer.

Escarro, tortura e mutilação. Diversões que fazem algo pulsar no peito de loucos entre outras sortes de homens santos. Não se sabe bem até onde essas terapias podem se aplicar à pacientes cuja libertação é uma necessidade patológica. Você vai passar toda uma vida sendo privado por seus modos diferentes só pra que quando chegue o final, possa enfim ser tratado de uma maneira ordinária. Certidões mau digitadas de óbito, valas comuns, celas que se repartem entre sonhos e esquecimentos. Rasgue o tórax com as mãos, fustigue a boca até que não haja mais por onde dizer aquilo que não se sente. Punir o corpo pode ser um ato de desespero, mas em algumas ocasiões é o que resta.

Pagar ao síndico sempre pareceu menos oneroso que administrar a própria vida. Ajoelhe! Agora e um milhão de vezes mais até que solo tenha se apoderado de suas articulações.

(e a manhã veio...)

Um lugar onde a vida vivida agora pode já ter sido feita há mil anos. A cabeça confusa acorda espraiada no crepúsculo indolente, pessoas são sombras que o pensamento projeta. E é o próprio homem construído de suas sombras. Qual o fundamento da beleza? Tudo o que é cotidiano à uma presença, quanto mais viceja menos sustenta seus lumes.

A mulher que nunca tornará a essa cama torna perfeita nesse momento de distância do que não consente, assim como os cavalos gigantes, os circos de palhaços imperitos ou qualquer quadro da infância que arrebatada foi, pra sempre desse domínio. O encanto parece mesmo ter haver com aquilo que carrega mais de porvir e de ausência do possível, a contragosto da maravilha cotidiana que é sempre miséria aos que aqui estão.

O passado é uma cadeia de eventos como qualquer outra, mesmo um lixão costuma produzir bons mosaicos quando olhado de longe. E cá estão todos outra vez, o quarto, as paredes, a procissão de flashes que nubla a retina. Daqui a vinte anos sentirei saudades da atmosfera densa, da infiltração que torna precário o arremate dos prédios ou ainda, de urinar na rua enquanto a cidade adormece. Isso pode ser, se houver vida até lá. Será mesmo que todos os vigários são pederastas? Não tente aparar a grama enquanto o quintal está enlamaçado, não tente pisar o chão agora que seus pés foram arrancados. “Tu és pra sempre maldito!”. Assim bradava um deus antigo enquanto nós o sodomizamos pela manhã. Todas as ruas mau iluminadas do mundo, a falta de oxigênio no cérebro, lesões se confundem com o hábito de inventá-las.

Morfina custa caro, outros anestésicos podem custar ainda mais. As pessoas tem medo e violência, e eu preparo em silêncio uma bomba, que fará clarear a noite e escurecer o dia.
*Leandro M. de Oliveira

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Os Desinteressados

Durante milênios o mundo foi semelhante a essas pinturas italianas da Renascença onde, sobre as lajes frias, são torturados homens enquanto outros olham para outro lado na distração mais perfeita. O número dos “desinteressados” era vertiginoso em comparação com o dos interessados.
O que caracterizava a história era a quantidade de pessoas que não se interessavam pela desgraça dos outros. Algumas vezes os desinteressados também se tornavam vítimas. Mas passava-se tudo no meio da distração geral e uma coisa compensava a outra. Hoje toda a gente faz menção de se interessar. Nas salas do palácio as testemunhas voltam-se de súbito para o flagelado.
*Albert Camus

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Túmulo do Sol

Quando morri acho que as pessoas não se aperceberam muito bem. Fato é que deve mesmo ter importado pouco pois, embora a inegável ausência de uma substância mais sutil, a presença física teimou ainda de um modo ordinária. Liquefeito num corpo denso, inalteradamente tateável. Entretanto, nada seria como antes, a casa foi esvaziada e o jardim, irremediavelmente esquecido. Existe uma chaga aberta no peito de todo homem que ousou demais, uma vala comum onde se repartem sonho e impossível. Foi querer da vida que entre todas as navalhas, o bem fosse a mais afiada. Minha história não agradável como aquelas que são inventadas, é antes uma pré-história do nada porque o vazio é mais antigo que o silêncio. Pouca coisa fica pela estrada ademais do pó feito pela cal dos dias, árvores estéreis, certidões mau digitadas de óbito rememorando a não chegada do filho, aquele que vai, eternamente natimorto.

Não diga que me ama se não quer ver o mundo desmoronar outra vez. Quando o carinho colapsar em ausência, que não haja ninguém a lembrar da torpeza desses dias. Aqui é o ponto onde todos os caminhos se bifurcam, a linha de sangue que rasga os céus toda vez que o crepúsculo anuncia noites intranqüilas. Não é difícil partir, muito mais duro é ter afeto à decadência quando se entende a miséria das coisas. A moldura colorida do horizonte falseia o cinza que há por trás de tudo, o excelso da vida parece mais um momento de descuido onde tenta-se não ser e quando volta a vigilância tudo é mais agudo. A procissão de almas sem lar busca a todo custo imaginar beleza no além pra que ela maquie a feiúra do aquém. Tudo que é vida cheira a desespero. Essa não é uma festa de bastardos, ofereça seu corpo aos cães antes que a vida faça isso por você. Heis aí o túmulo do sol, que esse mundo é sepulcro em vida quando se quer vivê-lo além da rasurado comum.

Por que sentir tanto horror, logo eles virão silenciar o mundo, pra que no escuro das eras o seu choro seja voz de destaque. Vou tirar os sapatos quando chover, quero sentir a terra com entendimento, quero dedilhar sem afeto as lajes de minha última e fria morada. Pó e sombra, o instante passou e com ele o que construiu algum significado. Agora o que resta é aquilo que sempre fica aos que não quiseram o caminho já percorrido. Um leito ingrato de mãe prostituta, donde por fim hei de me ver em vencida derradeira. Tive sede e a água não chegou, fome quando tudo era deserto. Abrace-me com o seu maior carinho e terá o meu vômito mais sincero, não há como retroceder. O zelo dos grandes soa como injúria aos anões da alma, aprenda a machucar quem te ama. Nas batalhas a eficiência de um exército sempre é medida pela sua impiedade, ser livre só é possível implacavelmente. Tudo o que quiseres, toma com mão forte, o que não te serve, arremessa pela janela. Já é dia, e ainda escuro noutro hemisfério, o segredo da luz pode ser uma sombra que a sustente. Ou isso, ou tudo é mera especulação.

O ácido contido em minhas vísceras conseguiria digerir o universo inteiro. Nesse momento, demônios estão vindo dançar no jardim e o condutor da orquestra sou eu.
*Leandro M. de Oliveira

sábado, 13 de novembro de 2010

Parábola do Inferno

(Em quase todas as culturas o arquétipo do demônio
e seus afins, está identificado com o movimento.
É ele, segundo o vulgo, quem faz o mundo acontecer primariamente.
Uma parábola do inferno pode ser o relato possível daquilo
que é apreendido numa viagem a reinos obscuros da
mente com a intenção de saber como tudo inicia...)

Ele começou a convencer-se da condição de alter-ego, sempre que algo não agradava a consciência oficial, aquele ser era compulsivamente evocada. Tais chamamentos por parte do consciente externo não foram raros, o vigilante puro embora entregue, havia desenvolvido uma sem conta de fantasias para deixar-se ao mundo. Ele precisava de quantos escudos pudesse reunir. Nosso personagem original não se queixava dessa concorrência que o fazia se manifestar um tanto quanto sazonalmente, uma vez que, deixado a mercê de sua vontade, tinha mais tempo para si mesmo. Embora não haja meditação suficiente a sanar a impressão de um corpo amputado, ele pensava. Quando aqui chegou, os efeitos de seu parto nesse mundo, ecoaram parecidos com um madeireiro a serrar galhos de planta condenada. Viver na mente de outrem seria um exílio?

A bendita sensação de distância, a maldita certeza de estar incompleto. No momento em que os portais dessa realidade se abriram, uma das condições exigidas foi a de que algo ficasse para trás. A totalidade do ser não obteve espaço suficiente na limitação débil do veículo a ele entregue. Era possível que o não-viver como incriado em alguma medida fosse mais grato que o viver como produto dum delírio. Pretendia-se lá e tão somente, algures de qualquer mataborrão de possibilidades. Agora que lhe deram o desejo do caminho, cortaram-lhe as pernas com uma lâmina cega. Ele poderia ter sido um ser humano digno, caso não fosse produto de pensamentos esparsos. O acaso é tudo! Um alter-ego é uma derivação ordinária do eu, não há um princípio divino em nada. Ele agora tem a impressão de ser feito da mesma substância que os sonhos. Sendo assim, com efeito, seu criador é também sonho?

Um homem projeta um mundo onde grassam animais por toda a parte, um animal projeta uma natureza repleta de espécies vegetais, um desses arbustos por sua vez, projeta um céu de chuva a nutrir a terra e essa água é a seus olhos a maior divindade que se pode conceber. Esses mundos embora hipotéticos, existem em alguma medida. Assim, tudo é ficção, o homem é um engenho vazio do da ânsia por si mesma. Criar dimensões é um álibi daqueles que se negam a testemunhar o nada inalterado. Ele saiu à rua com grandes expectativas, mas lá chegando, enfim deu por si... Da mesma forma que com as ruas onde nunca se caminhou e o homem do qual nunca se teve notícias, todo bem é hipotético. Você precisa morrer para viver de uma forma mais plena, sem desejo ou meta pode ser que as coisas se realizem, porque tudo é vazio em si.

Ele é deveras um alter-ego. Todavia, que mais se pode ser quando a impressão de não se guiar pela própria vontade é ininterrupta? O demônio nos daria abrigo do sol e uma bela roupa pra dançar, poderia ser, se acaso existisse de fato. Buscar a culpa na treva exterior é uma tentativa inútil de expurgar a própria escuridão. Deus só fez sentido algum dia por que a fé precisou ser testada, e de todas as invenções ele terminou por ser uma das mais impuras. Maldito seja quem nos transformou em fração do divino. Crer numa origem é uma das seduções mais infames. E você se sente elevado, e se sente pleno. O homem é o único animal da natureza que num projeto de busca do bem, usurpa e agride tudo quanto há de valoroso em seu semelhante. A raça humana é antes de mais qualquer coisa, filha da ganância e da dissimulação. Isso de fato poderia ter sentido, não fosse só um pensamento a me ocorrer enquanto escrevo.

E o homem que é não-homem, permanece latente, à espreita de um vacilo da consciência oficial. Será que nos tornamos algo quando aquilo que nos concebeu se pôs a dormir? Os religiosos provavelmente adorariam isso, mas o que é a vida senão um acidente da matéria. Onde estão os desígnios além de na cabeça de fanáticos que passam o tempo a imitar cruzados do medievo e de candidatos a homens bomba... A consciência é um cadáver, muitas vezes putrefato, que foi cuidadosamente acondicionado em cada uma de nossas costas. Ela pesa, porém abriga. Mas a que preço? Você vai morrer e sua contribuição mais alta será a de matéria orgânica decomposta para a manutenção de alguma colônia de vermes. Não é possível viver grandiosamente a não ser quando se convence que a vida é uma piada de quinta.
*Leandro M. de Oliveira

sábado, 9 de outubro de 2010

Fragmentos de Uma História do Homem

Na terra iluminada por aquela estrela vizinha, cujo esplendor é a ampla luz do dia, existem muitas coisas muito variadas, imóveis e móveis. Move-se entre elas uma raça que em sua relação com as outras é uma raça de deuses. Essa realidade não é diminuída mas sim realçada pelo fato de essa raça poder comportar-se como uma raça de demônios. A superioridade dela não é uma ilusão individual, como um pássaro que se veste com sua própria plumagem; é algo muito sólido e multifacetado. Isso fica demonstrado nas próprias especulações que levaram à sua negação. Que os homens, os deuses deste mundo inferior, estão ligados a ela de várias maneiras, é verdade; mas esse é outro aspecto da mesma verdade. Que eles crescem como cresce a relva e caminham como caminham os animais, é uma necessidade secundária que acentua a superioridade primária.

É como dizer que um mágico deve no fim das contas ter a aparência de um homem; ou que até mesmo as fadas não poderiam dançar se não tivessem pés. Recentemente tem sido moda focar a inteligência inteiramente nessas semelhanças ligeiras e subordinadas e esquecer completamente o fato principal. Existe o costume de insistir que o homem se parece com as outras criaturas. Certo, e exatamente essa semelhança só ele pode ver. O peixe não descobre o modelo da espinha de peixe nas aves do céu, nem o elefante e o meu comparam esqueletos. Mesmo no sentido de que o homem está em harmonia com o universo, trata-se de uma universalidade absolutamente solitária. O próprio sentido de que está unido a todas as coisas é suficiente para separá-lo de todas.

Olhando a seu redor sob essa luz única, tão solitário como a chama que literalmente só ele acendeu, esse semideus ou demônio do mundo visível torna esse mundo visível. Ele vê ao seu redor um mundo de certo estilo ou tipo, que parece proceder seguindo certas normas ou pelo menos repetições. Ele observa a arquitetura verde que se constrói a si mesma sem mãos visíveis, mas se ergue formando um plano ou padrão muito exato, semelhante a um desenho já traçado no ar por um dedo invisível. Não se trata, como agora vagamente se sugere, de alguma coisa vaga. Não é um crescer ou um tatear de vida às cegas. Cada coisa procura um fim, um fim glorioso e radiante, até mesmo no caso de cada margarida ou dente-de-leão que vemos observando a superfície de um campo qualquer.

Na própria forma das coisas existe algo mais que um crescimento verde: existe a finalidade da flor. É um mundo de corolas. Essa impressão, ilusória ou não, tem influenciado tão profundamente a raça de pensadores e mestres do mundo material que sua vasta maioria foi levada a assumir certa visão desse mundo. Eles concluíram, errando ou acertando, que o mundo tinha um plano, assim como a árvore parecia ter um plano; e tinha um fim e uma coroa como flor. Mas, enquanto a raça de pensadores teve a capacidade de pensar, pareceu óbvio que a admissão dessa idéia de plano trazia consigo outro pensamento mais emocionante e até mais terrível.

Havia mais alguém, algum ser estranho e nunca visto, que havia desenhado essas coisas, se é que de fato elas haviam sido desenhadas. Havia uma pessoa de fora que também era um amigo: um misterioso benfeitor que existira antes e construíra os bosques e as colinas para a chegada deles, e acendera o sol nascente para o surgimento deles como um servo acende o fogo da cozinha. Ora, essa idéia de uma mente que dá sentido ao universo recebeu confirmações cada vez maiores das mentes humanas, por meio de meditações e experiências muito mais sutis e investigadoras que qualquer argumento sobre o plano externo do mundo.

Mas o que aqui me interessa é manter a história nos seus termos mais simples e até mais concretos: basta dizer aqui que a maioria dos homens, inclusive os mais sábios, chegou à conclusão de que o mundo tem esse propósito final e, portanto, essa causa primeira. Mas a maioria dos homens nalgum sentido se separou dos homens mais sábios quando se passou ao tratamento dessa idéia. Passaram a existir duas maneiras de tratar delas, que entre si constituíram a maior parte da história do mundo.

A maioria, assim como a minoria, tinha essa forte sensação da presença de um segundo significado nas coisas, de um perito estranho que conhecia o segredo do mundo. Mas a maioria, a multidão ou massa humana, tendia naturalmente a tratar disso num espírito um pouco fofoqueiro. Como toda fofoca, essas fofocas continham boa parte de verdade e de falsidade. O mundo começou a contar para si mesmo fábulas sobre o ser desconhecido ou sobre seus filhos, ou servos, ou mensageiros. Algumas das fábulas podem verdadeiramente ser chamadas de histórias de comadres, no sentido de que professam ser apenas histórias remotas do começo do mundo: mitos sobre o bebê lua ou as montanhas semi-assadas. Algumas delas poderiam ser chamadas, mais de acordo com a verdade, de contos de viajantes; eram contos curiosos mas contemporâneos trazidos de certas fronteiras da experiência como curas milagrosas ou sussurros do que havia acontecido com os mortos.

Muitas delas eram provavelmente contos verdadeiros, verdadeiros o suficiente para manter numa pessoa mais ou menos de bom senso a consciência de que realmente existe alguma coisa maravilhosa por trás da cortina cósmica. Mas em certo sentido isso se norteia pelas aparências, mesmo quando as aparências são chamadas de aparições. É uma questão de aparecimentos – e desaparecimentos. No máximo esses deuses são fantasmas; isto é, são vislumbres. Para a maioria de nós eles são fofocas sobre vislumbres. E para o resto, o mundo inteiro está repleto de boatos, e a maioria deles são quase confessadamente histórias de aventuras. A grande maioria dos contos sobre deuses e fantasmas e o rei invisível é contada, se não pelo amor do conto, pelo amor do tópico. São prova do eterno interesse do tema; não são prova de mais nada nem pretendem ser. São a mitologia ou a poesia que não está encadernada em livros – ou amarrada de nenhuma outra forma.

Entrementes a maioria, os sábios e pensadores, se afastara e assumira uma atividade igualmente agradável. Estavam traçando os planos do mundo: daquele mundo que todos acreditavam ter um plano. Estavam tentando estabelecer o plano com seriedade e dentro de uma escala. Fixavam-se de forma direta na mente que havia criado o misterioso mundo, considerando que tipo de mente poderia ser e qual poderia ser seu último objetivo. Alguns deles a tornaram muito mais impessoal que geralmente aparece aos olhos da humanidade; alguns a simplificaram e quase a reduziram a um vazio; poucos, muito poucos, duvidaram dela completamente. Um ou dois dos mais mórbidos imaginaram que ela pudesse ser o mal ou um inimigo; apenas um ou dois dos mais degradados da outra classe adoraram demônios em vez de deuses. Mas na maioria esses teóricos eram teístas: e eles não só viram um plano moral na natureza, mas em geral também estabeleceram um plano moral para a humanidade. Eram na maioria homens bons que realizaram um bom trabalho, e foram lembrados e reverenciados de várias maneiras. Eram escribas: e suas escrituras se tornaram mais ou menos escrituras sagradas. Eram legisladores: e sua tradição se tornou não apenas legal mas também cerimonial. Podemos dizer que receberam honras divinas no sentido de que reis e grandes capitães de certos países muitas vezes recebem honras divinas.

Numa palavra, sempre que o outro espírito, o espírito da lenda e da fofoca, pôde entrar no jogo, eles foram envolvidos na atmosfera mística própria dos mitos. A poesia popular transformou sábios em santos. Mas foi só isso que ela fez. Os sábios continuaram sendo sábios, e os homens nunca de fato esqueceram que eles eram homens que só foram transformados em deuses no sentido de heróis. Divino Platão ou Divus Caesar – eram títulos e não dogmas. Na Ásia, onde a atmosfera era mais mitológica, o homem acabou sendo transformado e parecendo-se mais com um mito, porém permaneceu homem. Continuou sendo um homem de certa classe social ou de certa escola de homens, recebendo e merecendo grandes honras da humanidade. É a ordem ou a escola dos filósofos: homens que se dedicaram seriamente a descobrir a ordem através do caos aparente da visão da vida. Em vez de viverem de rumores da imaginação ou de remotas tradições e de excepcionais experiências sobre a mente e o significado da vida por trás do mundo, eles tentaram em certo sentido projetar o objetivo primário daquela mente a priori. Tentaram colocar no papel um possível plano do mundo, quase como se o mundo ainda não houvesse sido criado.
*G. K. Chesterton

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

72 horas

Como se a vida redefinisse o ser ao do tempo e esse, um encontro além de seus domínios. Insuspeitado, o desvario infinito, onde cada segundo é eterno e todo o porvir cabe num suspiro. Assim foi, num arremate do que não se prevê, bruxas esquecidas sibilaram um canto de memória. A casa agora inundada, tudo é luz. Entre a linha de montanha e céu, um refúgio sinuoso no horizonte, como a primavera insinua lábios e mãos entrelaçadas. De ferro fundido ao passado, o chão a frente pavimenta o cotidiano mais leve. As casas e seu testemunho, o que é em desacordo finda em ruínas. Pela observação da natureza apreende-se que o sol sempre volta a liquefazer o granizo que cobre a terra, e o peso do céu torna outra vez numa coisa menos densa.

Eu te amei por setenta e duas horas a fio. Meus olhos cegaram na luz como ao admirar um deus antigo. Minha voz era o grito de todos os famintos do mundo, a nau de todo Pelegrino que deseja se afogar. Comi de tua carne, bebi de teu sangue. Seu corpo era impulso e refúgio, alimento e flagelo. Todavia, o inexorável se cumpriu enfim. O instante se perdeu, o granizo e o sol transmigraram como em aporte. Nada restou do caminho pretérito do mesmo modo que nada nunca resta além de uma cisma incurável das experiências possíveis. Voltamos ao país das pessoas de sal. Há uma ferida aberta em cada sonho, uma quimera impiedosa a debater a planta contra seu chão.

Encimesmadamente da sede que a boca contém. Como parto e amputação, tudo vai, tudo deflui. Uma foto é o caminho simbólico da denuncia de uma memória decrépita. Perenizar um momento faz parte das buscas dos que não sabem recomeçar. É o crime dos que perderam o contato com a fonte, um tonel de Danáides obsoletas no espaço. Aparte a representação, cada nicho é decadência. Pessoas são pessoas, se fossem algo mais já teriam transcendido essa condição. Nesse carrossel vindo de uma infância desbotada, o querer segue a girar em trajes maltrapilhos. A graça não habita uma casa amaldiçoada. Talvez. A potência deve residir no afastamento singular donde ninguém nunca tocou. Ajoelhar-se ao encontro pode significar lançar mão do que foi aprendido até aqui.

Apreender um corpo alheio. No circo de dentro vive um domador inverossímil, ele acaricia a fera, embala seu sono. Mas o coração é um órgão de fogo, sua fúria resume tudo. E a alma como uma caverna que é um bloco impenetrável por fora e uma coisa oca por dentro, deixou-se por mérito o reino do eco pra sempre perdido. Não quero ter alma, não quero ter metafísica. Por deus se ainda restou algum, não quero ganhar o prêmio Nobel da paz! Ocorre que o infinito pesa como uma tempestade de chumbo e não houve tempo hábil a fazer um telhado em minha casa. Um escarro seria um ato de descortesia, não fosse as senhoritas desse tempo serem mais abomináveis que vermes de outrora. Todo amor que é vivido se torna corrupto. Todo louvável é hipotético. Felicidade a dois é um cinismo ácido.
*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Refundação da idéia

Mil trombetas rachadas alardeiam um legado maldito, quebrando consigo o frágil silêncio: Gostar da vida é um ato obsceno! Quantas mãos e corpos podem se necessários até a conclusão da grande obra? Contar membros ou esperas nada faz de afinidade com o alquímico das utopias. Ela continuará distante, fingindo no silêncio, ademais todo gesto sequioso sofrerá condenação num lugar onde a morte do desejo há muito fora decretada. Quem busca uma catarse deve se concentrar no teatro, o mundo real tem sido bem mais insosso. Na realidade nada há de papável, não se sabe ao certo a receita de um sono profundo. E que é realidade enfim, senão o nome mais traiçoeiro da fantasia absurda.

Cotidianamente seguem homens a passar por mim. Como um covil de verificações incorpóreas ou um trem que sem alarde apita às tantas da noite, olho o comboio de olhos em espanto. Na distância surda, respirar parece com ser oprimido por escombros intangíveis. Por entre a fresta aberta no sonho, a cisterna oculta da alma às vezes abriga entes imaginários bradando um desespero incólume. Uma boa nova depois de anos de barbárie: “Deus foi assassinado a golpes de machado, somos livres enfim!”

Tire os sapatos e dance de um maneira que cause espanto, não há censuras no país da indignidade. Tudo que nossos antepassados foram significa quando muito aquilo que esperamos deles. Amar é usar lentes desfocadas, e isso é repugnante demais pra qualquer ser que se julgue em síntese, livre. Prender-se por vontade é clamar por uma amputação sem anestesia, nunca da certo.

O inferno foi evacuado, demônios ardilosos rodam a casa. Não há nada no logro dos deuses além de charlatanismo e terror psicológico de quinta. Aquele que ama o seu próximo deve esfaqueá-lo pelas costas! O único antídoto possível parece ser uma dose cavalar de desengano. Que cada altar, crucifixo ou templo seja uma latrina para ti, urine sem piedade. Seus dejetos são mais limpos que o sangue de qualquer profeta suicida. Maldito seja todo aquele que disser o contrário.

A divindade esvaziou o homem porque tudo que há de excelência no gênio humano agora é creditado num ente hipotético. A catástrofe parece infinda, a lida entre homens tornou-se rasa, o realmente sublime só é possível fora desse mundo, isso tem que parar. A vida é um acidente da matéria, a consciência é uma vingança embaraçosa contra os fatos. Há lodo demais no pântano da eternidade, quanto mais precária uma coisa é, quão mais bela há de ser. Se o problema é encontrar o paraíso, ele está aqui. Entre lençóis e coxas, abraços e encontros. Na flor, na pedra e no espinho. A beleza é saber que tudo declina, que nada é perene, como a flor que murcha e a pedra se desfaz em pó.

A vida pode ser uma droga completa, mas é engraçada. Não deve haver implicações maiores senão a de vivê-la. As tradições tem ensinado uma gama larga de pornografias sem sentido, essa masturbação mental precisa conhecer seu fim. Por que tudo tem que ser feio, sujo ou pecaminoso? Isso é loucura e ingratidão com o que temos.Talvez calhe que o mais adequado seja pensar no todo como um estado de graça. Abrir os olhos pode ser um fim em si mesmo, por mais penoso que pareça.
*Leandro M. de Oliveira

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Do vazio

Aceitar o estar só não é tão fácil assim. Saber que não havia ninguém quando tudo começou é parecido com ser vomitado, mesmo não havendo bocas ou orifícios. Algumas pessoas simplesmente perdem o controle. E existir que poderia ser um fim em si mesmo, um ciclo perfeito e por isso finito, tem de ganhar outras significações, com verdades sempre alheias ao que houver de certo e tangível. As luzes apagaram por um segundo, elas jamais estiveram acesas senão na ficção. Todo desespero requer uma fuga, retirar ou negar o pensar é a contrição de quem traiu a si e não consegue fazer o caminho da volta. Em qualquer noite que o sono não vem o tempo é como gordura acumulada na inação, e o mundo fica menor cada vez que uma possibilidade se esgota. No silêncio que invade quando todos vão deitar, Deus não é mais que um nome refinado para o delírio, viver tem uma dinâmica parecida com boiar numa corrente qualquer. Fechar os olhos será um dia, um crime sem perdão.

Entre a aragem e o sal, há em mim uma medida de sonho que pra sempre não se pode realizar. Porque a vida que me deste é um mosaico sem sentido, o prazer das peças reside unicamente em manuseá-las. Nunca, nunca se juntam. A esperança passou como um bonde velho, como passou noite, como passam carros inadivertidamente cada vez mais velozes, enquanto eu, estanque ao vento que me corta. O que pode ser compreendido são fragmentos, a totalidade esta além de tua vista. Olha pra baixo, afim de elevar a alma deves começar pelo corpo, é aqui donde a terás em plenitude. Algures nesse peito há um coração perdido no ártico de todo desencontro, sabê-lo tão mansamente poderia ser uma experiência sobrenatural. Se tudo te fosse revelado num segundo, desfecharias uma lâmina em teu seio. Por que não tentar? Rasgue com tuas unhas o que haver em ti de carne, estraçalhe as mãos com teus dentes para que não toquem ou ousem. Teu sangue tem gosto de medo, isso é patético.

Aquele sítio tornou-se inatingível aos mortais, e assim continuará, posto que não há mais ninguém. O mundo é um continente só, eu ensimesmado, permaneço como ilha mais a oriente do impossível. Ao que tem olhos, a vida de uma serpente no deserto contém mais sedução que a lida de uma ovelha em pastagens aparentemente verdejantes. Deixe-me cravar as presas em quem ousa caminhar sem sandálias, a humildade não é mais que uma garbosa afronta ao bom senso. Que será de nós? Cinzas? Decomposição? E tudo se resume em uma solidão incalculável. Como se ao entender que sempre se está só, nascêssemos já amputados. Deve-se sentir compaixão pelas pedras que não teêm olhos pra chorar. É realmente uma pena que tenham lhe cortado as pernas, fenecer nessa pocilga é o castigo mais hediondo. Talvez aconteça que pensar no além tenha mais haver com inconformismo que com qualquer outra coisa, que justificar a vida exija a figura de um grande pai, ainda que alegórica. É tempo de despertar.

Bebe criança, toma tudo o que acaso encontre. Quem tocar a ferida entenderá o motivo do torpor...


*Leandro M. de Oliveira

sábado, 31 de julho de 2010

Rota Antártida

A Invenção:

Do mesmo modo como é impossível entender a migração das aves sem saber voar, não se pode ter ciência de qual a substância do sonho estando à deriva das estrelas. Há um rio subterrâneo que passa clandestinamente no coração de cada homem. Uma torrente aquática que impede a cristalização dos pés à terra; ela te faz boiar. Cada rio é em si oceano, e cada oceano é por si um homem. É impossível pressentir a cor dos navios, sobretudo quando vão a pique no contato só de uma esperança perdida. Algures no infinito há uma extensão da vida que ninguém tocou, isso é suficiente para comover as pedras. Cada veleiro que se alinha no horizonte é a projeção de um desejo de reencontro. Desbravar novas terras é como poder voltar à casa ou rezar em silêncio enquanto todos dormem. Para cada demarcação equatorial uma outra, e depois mais uma e tantas sem número que vão dar no encontro feérico de um lavrador com a terra derradeira ou o de uma mãe com seu filho incriado. As circunferências em semelhança às pessoas, tem o faculto do desdobramento.

O Corpo:

Os lugares de tormenta e as sombras de qualquer calmaria, um cidadão obrando seu projeto de república, jovens se prostituindo por migalhas. Toda pedra, todo seixo, toda reminiscência é o meu corpo imaterial partilhado no que for ausência e desvario. Translucidamente oculto em regiões densas, ao sabor das promessas vazias inscritas em cada mastro. O predador é sempre mais devorado que qualquer presa. O acaso florescerá mais rico entre pernas e espelhos. Na equação interminada da viagem, contabilizou-se um coração oco e um alforje em petição de miséria. Nada será como antes, porque o tempo deixou de existir num país onde os relógios perderam os ponteiros. A única mensura possível são todas as partidas que ao final da jornada dão no mesmo porto, e enfim são uma partida só, vista de ângulos contrários. O corpo é sobretudo uma unidade de medida, aqui se mensuram anos, paixões, distancias... Uma casa de muitas portas, várias janelas sem vista alguma. O peregrino que vai arrebatado pelo deserto em vez última, uma criança em sua primeira menstruação, pés e genitálias constantemente metamorfoseados.

O Irremediável:

O trovão silenciou como fosse uma fantasia de eu menino, pra onde quer que se olhasse o acre da descoberta inconsentida fazia sombra ao sabor do passo adiante. No instante seguinte o ar não soou leve em razão da insistência de alguém, o fato é que talvez as coisas devessem ser assim, mesmo parecendo uma corrente quebrada. Aparentemente. Só a alegria é feita de caos, o fim tem menos urgência e mais daquela medida de paz esquecida em cada convulsão passional. Quando a boca renega os lábios as palavras podem ser ditas como se não existissem, nesse momento breve o mundo se realiza como um projeto incalculado, e por isso meticuloso. As folhas caem das árvores e eu sinto por elas um amor sem termo, cada grão de pó esta a pulsar em mim do mesmo modo que artérias e excessos. O momento de despedida é uma ficção perfeita, descobrir-se imóvel é empresa de dura lida. Meus olhos já não distinguem cores, mas reconhecem o cheiro do sangue estival. Que o paraíso possa se reinventar em jugulares incautas. Se essa opção restar impossível, então que no negrume do sentimento de que alguma coisa ficou pra trás, a magia possa me bater como em um circo de interior. A vida é o truque mais barato dentre os que se podem conhecer. Na letargia, é como algo se me fugisse aos sentidos.

A descoberta:

Não sei como dizer algo que nunca foi experimentado antes. Palavras são prova de degredo, os deuses costumavam operar em silêncio por aqui. Um sentido de proibição absurda ao homem os sítios mais exuberantes. E agora tudo se resume em não estar, uma hora de fogo antes do gelo vir. Eu vi o dia seguinte como quem perdera seus agasalhos. Semáforo constantemente fechado, ou sempre aberto em rotas difusas. O impossível é um lugar que existe, e inominado termina como uma obsessão dos que se perderam. A jornada nasce do desejo, do caudaloso rio ocultado entre ossos e sonhos. No porão da alma há um mar imaginário pousado ao deságüe desse rio, ele é cada fragmento do que existe sem ser. Uma geometria onírica conduz o disforme às elipses perfeitas, enquanto a vida passa como uma errante perdida sem se dar conta disso. O cruzeiro do sul inscrito em cada peito tem leituras diversas, ele é abismo e reencontro, presença e exílio. Você pode livremente decepar as mãos para que cessem os carinhos a uma presença maculada, mas de todo, isso não extinguirá a incalidez do vento ao roçar seus cabelos. Peguei o trem para um país distante, lá chegando percebi que tudo era igual. Terra, árvores e gentes, qualquer variação da experiência deve requerer um estado de espírito peculiar. Se tudo é o mesmo e no fundo não é nada, tem-se direito a um trago. Insubstanciado, estar aqui é desatino.
*Leandro M. de Oliveira

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O silêncio de um homem só

O que vale um homem só? Para que serve? Que inominável pecado cometeu para receber o castigo de continuar vivendo? Talvez Luís Maria não tivesse chegado a formular nenhuma destas interrogações enquanto permaneceu imóvel no banco da praça - não porque preferisse evitá-las, mas porque não se achava aparelhado para cogitações e metafísicas, habituado como estava a ir vivendo sem meditar no que fazia. O facto de não lhe ocorrerem tais ideias não significava, porém, que as não sentisse a medrar no peito como um bolbo gordo que fosse crescendo ao redor da garganta até ao ponto de quase o sufocar. Faltar-lhe-iam as palavras para expressar o chumbo que sentia na testa - e talvez fosse isso o que procurava com os olhos fixos na poeira do chão.

Percebera, com um único olhar em redor, a razão daquele rocambolesco despertar no meio da calçada e, enquanto caminhava os poucos passos que o separavam do banco onde se sentou, lamentou o facto de ter o caixão tosco caído da carroça, ressuscitando-o. Melhor teria sido que o enterassem de uma vez por todas, para sempre, abreviando-lhe a existência inútil, eternizando-lhe o silêncio na sepultura que não havia de ser mais do que uma elevação de terra seca assinalando o volume do seu corpo. Quando, enfim, ganhou ânimo para se erguer do banco e rumar a casa - onde mais? -, fê-lo ainda com os olhos baixos para não enfrentar a vergonha dos olhares que sentia colados às costas, nem sentir na carne as interrogações, o espanto, eventualmente o medo que neles haveria. Deteve-se apenas quando os três amigos lhe pousaram as mãos no ombro, mais por camaradagem do que para transmitir algum afecto, mas não foi sequer capaz de dizer

- Lamento.

Seguiu pelo caminho do costume, até à porta de casa, até à mesa da cozinha onde sempre se senta quando chega, com os pés junto e as palmas das mãos pousadas no tampo, olhando em frente para a parede enegrecida, dando voltas ao vazio de chumbo que usa por cima dos olhos até serem horas de dormir e esperar que um novo dia chegue.

Neste dia, porém, quando Luís Maria sentir a casa solidamente cercada pela noite, não é para a cama que dirigirá os seus passos. Virá à janela para olhar as estrelas, abrirá a porta - que ficará escancarada - depois de ter agarrado a corda que fica presa num prego pelo lado de dentro e sairá para a calçada, principiando a caminhar sem pressa entre as pequenas casas que empalidecerão ao luar. Terá esquecido o chapéu. Ao longe, haverá um cão uivando. Atravessará a vila na direcção do cemitério, ignorando o coreto, aconchegará o rolo de corda no ombro e respirará com força para sentir o cheiro da terra e o calor que dela se desprende nas noites de Verão. Sentirá os pés pesados, como se estivessem mais fortes as velhas raízes que sempre o tinham puxado para dentro da terra. Sentir-se-á cansado e parará para beber água numa fonte antes de alcançar o olival cujo muro construíra, um dia, com as próprias mãos. Forçará o portão de ferro, fundir-se-á com as sombras dos troncos retorcidos e lançará a corda sobre um ramo alto, junto à ruína de um lagar. Procedendo como se já se tivesse enforcado mil vezes, afivelará o nó numa ponta da corda, prenderá a outra cuidando para que o laço fique a uma altura fatal, subirá à oliveira, ajustará o garrote ao pescoço e deixar-se-á cair como se fosse voar, sem tristeza, sem angústia, e ficará a sentir a forca apertando-se na garganta, o estalar das vértebras, os pés baloiçando cada vez mais devagar - até que a árvore deixe de ranger com o seu peso e o mundo volte a ser só silêncio e estrelas.
*Manuel Jorge Marmelo