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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A lógica da descoberta científica (Popper)



O livro mais importante [de Karl Popper] sobre a filosofia da ciência, A Lógica da Descoberta Científica, faz duas grandes alegações sobre a investigação científica. Primeiro, Popper defende uma certa versão do falsificacionismo, a perspectiva de que a ciência procede, não verificando a verdade das hipóteses científicas, mas pondo de parte hipóteses falsas. O falsificacionismo, argumenta Popper, resolve o (ou pelo menos salva-nos do) terrível problema da indução. Segundo, Popper defende que as proposições científicas são diferentes das proposições pseudo- ou não-científicas, porque são falsificáveis empiricamente. (…)

Os problemas da indução e da demarcação
Recordemos que Hume deu conta de um problema envolvendo o que ele chamou 'raciocínio causal', uma dificuldade lógica respeitante ao nosso pensamento sobre factos para além da nossa experiência sensória do momento. Hume defende que ir para além das nossas experiências correntes requer que pensemos essas experiências como causas ou efeitos de coisas que no momento não nos rodeiam. Vejo pegadas na praia e, sabendo a partir da experiência passada que as pegadas são efeitos de uma pessoa que caminhou pela praia antes de mim, concluo que alguém caminhou pela praia antes de mim. Este tipo de raciocínio parece depender do princípio da indução, algo que liga muitas observações particulares a uma conclusão geral. O princípio pode ser descrito de diversas maneiras: o futuro será como o passado, a natureza é uniforme, as coisas continuarão a ser como sempre foram, e por aí em diante. Quando concluo que uma pessoa a caminhar pela praia foi a causa das pegadas faço uma inferência indutiva do género: 'Aqui há algumas pegadas. Vi muitos exemplos de pegadas no passado. Em cada uma dessas ocasiões passadas, as pegadas foram causadas por uma pessoa a caminhar. Assim, todas as pegadas são causadas por pessoas. Portanto, essas pegadas foram feitas por alguém que caminhou na praia antes de mim.' O princípio da indução, argumenta Hume, suporta a inferência indutiva que parte de muitas observações particulares para uma conclusão geral - neste caso, o raciocínio que parte de se ter encontrado várias pegadas causadas por pessoas a caminhar para a conclusão de que todas essas pegadas são causadas por pessoas a caminhar. É com base na alegação geral sobre todas a pegadas que penso que sei algo sobre a causa das pegadas que vi.
A dificuldade identificada por Hume, para nós o problema da indução, é que não há justificação racional para o próprio princípio da indução. Hume considera que as proposições justificáveis são apenas de dois tipos: matérias de facto e relações de ideias. Podemos determinar se certa matéria de facto alegada é verdadeira olhando para o mundo em nosso redor. As relações de ideias são ou verdades por definição ou verdades que se tornam tal em virtude de convenção simbólica. Hume diz que podemos identificar relações de ideias porque a negação destas resulta em contradição. (…) Hume mostrou que o princípio da indução não pode ser uma relação de ideias, porque a sua negação não envolve contradição; e não pode ser justificado numa base empírica, visto que isto nos levaria a raciocinar em círculo. Com efeito, não há contradição em pensar que o futuro possa não ser como foi o passado e estaremos a argumentar em círculo se dissermos que o futuro será como foi o passado porque os futuros passados sempre foram como os passados passados. Por outras palavras, o princípio da indução não tem uma base racional.
Se pensarmos um pouco neste contexto sobre a investigação científica, podemos ser conduzidos com alguma rapidez à conclusão de que a ciência não é, no fim de contas, racional. À primeira vista, a ciência procede através da experimentação, da recolha de um certo número de observações particulares, concluindo, com base nelas, que alguma afirmação geral é verdadeira. Por outras palavras, a ciência é posta em marcha quando se nota por observação que várias instâncias de um certo tipo de coisa possuem uma dada propriedade. Dado o princípio da indução, uma conclusão geral é atingida quando se diz que todas as coisas daquele tipo possuem a propriedade em questão. Este gás aquece quando a pressão sobre ele aumenta; este outro gás aquece da mesma maneira; também ainda este outro; portanto, a tempertura de todos os gases aumenta com uma intensificação da pressão. Se algo é indutivo, é isto; e se Hume está certo sobre a irracionalidade do princípio da indução, parece que a ciência é, no fundo, irracional. E se a ciência é irracional qual a diferença entre a pesquisa científica e os lunáticos da Nova Era? Se queremos predizer o comportamento dos gases sob pressão, porque não consultar um leitor de entranhas de pombo em vez de um cientista?
Deste modo, os dois problemas de Popper dizem respeito ao papel da indução na ciência e à diferença entre ciência e pseudo-ciência. A sua solução para ambos envolve a ideia de falsificação. Daremos conta de cada um deles à vez.

Indução e falsificação
Popper resolve o problema da indução substituindo a concepção indutivista da investigação científica por uma coisa diferente, nomeadamente, a falsificação. Os cientistas não precisam de proceder indutivamente inferindo afirmações gerais a partir de várias observações. Em vez disso, a prática científica envolve a proposição e depois o teste de alegações teóricas gerais. Por outras palavras, a ciência não tem de inferir teorias de observações - isto lumps us with o problema da indução. Em vez disso, os cientistas podem inferir dedutivamente consequências observacionais das teorias e então, com base nas suas deduções, sujeitar a teoria a testes rigorosos. Se os testes mostrarem que a teoria prediz falsas declarações observacionais, sabemos que a própria teoria é falsa.
O estratagema de Popper depende de uma assimetria lógica interessante. Uma forma de entender o problema da indução é notar que, independentemente do número de observações que possamos registar a favor da nossa conclusão indutiva, ela pode sempre vir a ser falsa. Isto é apenas dizer que as inferências indutivas não são logicamente válidas. Numa inferência indutiva podemos ter premissas inteiramente verdadeiras e, ainda assim, obter uma conclusão falsa. Suponhamos que esta pegada foi causada por uma pessoa a caminhar ao longo da praia, e esta também e ainda estoutra, e assim por diante por quantas observações quisermos. A minha conclusão indutiva de que todas as pegadas são causadas por pessoas caminhando ao longo da praia pode sempre mostrar-se falsa, mesmo sendo as minhas premissas verdadeiras. Basta para isso que um punhado de crianças criativas faça uma falsa pegada na praia.
Mas notemos o que acontece se voltarmos a lógica da situação de pernas para o ar e pensarmos apenas dedutivamente. Começamos com a teoria de que todas as pegadas são causadas por pessoas que caminham ao longo da praia. Supunhamos que deduzimos disto a consequência observacional que as pegadas observadas amanhã na Costa da Caparica serão causadas por pessoas a caminhar na praia. Vamos à praia dar uma olhadela. Se encontrarmos apenas um exemplo de pegadas falsas feitas por crianças, então sabem com certeza que a nossa teoria é falsa. A indução nunca nos leva a parte nenhuma, a falsificação pode pelo menos dizer-nos quando as nossas teorias são incorrectas.
Falando sem grande rigor, podemos dizer que Popper advoga que se mude de uma argumentação indutiva para uma forma de argumento que os lógicos chamam modus tollens. Estes argumentos têm a seguinte estrutura: se p implica q e q é falso, então p é falso. Traduzindo para o contexto da filosofia da ciência, Popper está a sugerir que a racionalidade científica consiste no mesmo tipo de forma lógica: se a minha teoria conduz a uma certa observação e a experiência contradiz a observação prevista, então a minha teoria é falsa. Se não podemos obter certeza indutiva acerca da verdade das nossas teorias, podemos, no entanto, pelo menos algumas vezes, ter certeza dedutiva da sua falsidade.

O critério da demarcação
Também podemos ver, novamente sem grande rigor, como a ideia de falsificação leva à solução de Popper para o segundo problema e encontrar uma distinção entre ciência e pseudo-ciência. Caracterizar esta distinção - mostrar 'o critério de demarcação', como Popper o designa - ajudar-nos-á a compreender o que é a ciência. Conduzir-nos-á também a pôr sob dúvida práticas a que se dá por vezes demasiada atenção, em particular, aquelas que se confundem com a ciência. Popper trabalhou por uns tempos com o freudiano Alfred Adler e é esclarecedor, neste contexto, dizer algumas palavras sobre o freudianismo.
Supunhamos que eu o incomodo a si com a minha teoria freudiana de que o desejo sexual inconsciente por figuras maternas está na base do comportamento masculino. Eu exijo-lhe provas e dirigimo-nos a um bar para observar o modo como os clientes interagem com o homem e com a mulher que estão ao balcão. Um cliente homem escolhe a mulher quando decide pedir uma bebida e eu exclamo 'Ah ah! O seu desejo inconsciente pela mãe levou-o a interagir primeiro com ela! Isto prova a minha teoria.' Mas se as coisas tivessem acontecido de maneira diferente e o cliente se tivesse dirigido ao homem atrás do balcão, eu poderia dizer também sem dificuldade 'Ah ah! Ele está a tentar ultrapassar o seu desejo pela mãe evitando a mulher do bar! Isto prova a minha teoria.'
O problema em Freud e até certo ponto, na óptica de Popper, em Marx, é que as perspectivas destes não são falsificáveis. Uma hipótese freudiana não tem consequências empíricas e é por isso que devemos hesitar em considerá-las científica. O que distingue a ciência da mera pseudo-ciência como o freudianismo é precisamente a testabilidade das hipóteses científicas. As teorias científicas têm consequências que podemos inspeccionar através da observação. (…)

Dificuldades da perspectiva de Popper
Há todo um conjunto de preocupações associadas à concepção da ciência de Popper, apesar de ele ter contornado o problema da indução e de ter conseguido distinguir a ciência dos pretensos candidatos a esse estatuto. Podemos perceber as dificuldades ao pensar como é que a perspectiva falsificacionista funciona supostamente na prática. Por exemplo, devemos pensar nos cientistas como alguém que tenta genuinamente falsificar, e não provar, as suas teorias? (…)
deve esperar-se que acreditemos que os cientistas devam ser ou sejam falsificacionistas? Dão eles saltos de alegria quando descobrem que a teoria sobre a qual trabalham, porventura à décadas, é falsa? Devia ser assim? Não é descabido pensar que os esforços de Popper para evitar o problema da indução o fizeram cair em algo que não se parece com a ciência tal como é praticada ou mesmo tal como deve ser praticada. Uma olhadela à história da ciência chega para sugerir que os próprios cientistas não pensam que o seu trabalho consiste em remover falsidades, mas em encontrar verdades. Seja como for, a perspectiva de Popper parece ignorar a dimensão social da ciência tal como esta é praticada, um facto explorado por filósofos posteriores como Thomas Khun e Paul Feyerabend.

*James Garvey

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Alguma Filosofia de Karl Popper (parte 2)


O MÉTODO CRÍTICO.

Não é tarefa da lógica do conhecimento “a reconstrução racional das fases que conduziram o cientista à descoberta” (Popper, 1985, p. 32) da teoria científica. Não há caminho estritamente lógico que leve à formulação de novas teorias. As teorias científicas são construções que envolvem na sua origem aspectos não completamente racionais, tais como a imaginação, criatividade, intuição, etc. “As teorias são nossas invenções, nossas idéias – não se impõe a nós” (Popper, 1982, p. 144). São tentativas humanas de descrever e entender a realidade.

Para Popper, a tarefa da epistemologia ou da filosofia da ciência é reconstruir racionalmente “as provas posteriores pelas quais se descobriu que a inspiração era uma descoberta ou veio a ser reconhecida como conhecimento” (Popper, 1985, p. 32). Em outras palavras, não deve a epistemologia se preocupar em reconstruir a inspiração do cientista (isto é tarefa da psicologia da ciência) e não é importante para a questão da validade do conhecimento em que condições o cientista formulou a teoria. O método da ciência se caracteriza pela discussão crítica do conhecimento científico e pode ser denominado método crítico de teste dedutivo. Dada uma teoria, é possível, com auxílio de condições específicas (ou iniciais ou de contorno) e com auxílio da lógica dedutiva, derivar conclusões. Como exemplo, consideremos a teoria sobre a queda dos corpos que afirma ser a velocidade de queda proporcional ao peso. Ou seja:

Hipótese: a velocidade de queda de um corpo é proporcional ao seu peso.
Condições específicas: este tijolo é mais pesado do que esta pedra pequena. Ambos são abandonados simultaneamente a 2 m do solo.
Conclusão: o tijolo atingirá o solo antes da pedra.
Esta predição (conclusão derivada da teoria e das condições específicas) pode então ser confrontada com os fatos. Poderá então a conclusão ser incompatível com os fatos ou ser compatível.

No primeiro caso, como a lógica dedutiva é retransmissora da falsidade, no mínimo uma das premissas é falsa, se as condições específicas forem verdadeiras, então a teoria foi falseada ou falsificada ou refutada.

No segundo caso, como a lógica dedutiva não é retransmissora da verdade, não é necessariamente verdadeira a teoria. Na terminologia de Popper, a teoria foi corroborada, passou pelo teste empírico. Sempre haverá a possibilidade de no futuro derivar da teoria uma conseqüência que seja incompatível com os fatos e, portanto, as teorias científicas são sempre conjecturas. Não há forma de se provar a verdade de uma teoria científica; por mais corroborada que uma teoria seja, não está livre de crítica e no futuro poderá se mostrar problemática e poderá ser substituída por outra. Os indutivistas sempre enfatizaram a necessidade de se verificar as teorias através das suas conseqüências; na filosofia indutivista o importante é a verificação, pois, através dela, poder-se-ia justificar a verdade ou pelo menos a probabilidade das teorias. Para Popper, as verificações relevantes são aquelas que colocaram em risco a teoria, aquelas que aconteceram como decorrência de tentativas de teste (de refutação).
Casos verificadores são facilmente encontráveis para quase todas as teorias. Exemplificando mais uma vez com a hipótese de que a velocidade de queda de um corpo é proporcional ao seu peso: é possível se encontrar uma imensidade de casos verificadores constituídos por pares de corpos do tipo pedra e pena. Outro bom exemplo de alto grau de verificação pode ser encontrado na teoria astrológica; qualquer astrólogo é capaz de apresentar um número grande de previsões concretizadas. As severas tentativas de refutar uma teoria e que resultam em corroborações são as que realmente importam.
A história da ciência mostra teorias que durante um certo período de tempo foram corroboradas e, apesar disso, acabaram se tornando problemáticas. O exemplo mais impressionante é o da mecânica newtoniana: durante mais de duzentos anos foi corroborada espetacularmente. Aliás, algumas corroborações da mecânica newtoniana mostram que a lógica indutiva é insustentável. Ela corrigiu os fatos dos quais os indutivistas (e o próprio Newton) acreditavam ter sido logicamente derivada a lei da gravitação universal; supostamente a lei da gravitação universal teria sido logicamente induzida das leis de Kepler (Newton afirmara que não inventava hipóteses e pretendia que a sua teoria houvesse sido obtida dos fatos). A lei da gravitação universal não pode ser logicamente derivada das leis de Kepler simplesmente porque ela contradiz, corrige as mesmas; a primeira lei de Kepler afirmava que as órbitas planetárias eram elipses e a teoria de Newton permitiu demonstrar que as mesmas não são rigorosamente elipses (são aproximadamente elipses); adicionalmente Kepler afirmara que os cometas descreviam trajetórias retilíneas e a teoria de Newton predisse trajetórias aproximadamente elípticas, parabólicas ou hiperbólicas para eles. Predições da mecânica newtoniana foram surpreendentemente corroboradas (algumas após a morte de Newton, como a do retorno do cometa previsto por Halley - o cometa Halley). Ora, se existisse a lógica indutiva, o mínimo que deveria ocorrer nas induções das leis a partir dos fatos é que as leis não contraditassem estes mesmos fatos. Outras corroborações importantes da mecânica newtoniana são as descobertas dos dois últimos planetas do sistema solar (Netuno e Plutão). A previsão da órbita de qualquer planeta do sistema solar a partir das leis de Newton (as três leis do movimento e a lei da gravitação universal) é possível de ser realizada se adicionalmente se dispuser de um modelo sobre o sistema solar; este modelo deve especificar quantos são os planetas, as suas massas, as distâncias ao sol, etc. A órbita de um planeta particular depende principalmente da força gravitacional que ele sofre por parte do Sol, mas também depende das ações dos outros planetas. No século XIX foi observado que a órbita prevista para Urano era incompatível com as observações astronômicas; Adams e Leverrier, admitindo que o problema não se devia à mecânica newtoniana, mas ao modelo existente sobre o sistema solar, trabalharam sobre hipótese de existência de um planeta ainda não conhecido além da órbita de Urano – o planeta Netuno. Conseguiram, inclusive, calcular a posição do novo planeta e orientaram os astrônomos a realizarem novas observações; estes acabaram por confirmar a existência de Netuno. Esta história se repetiu novamente, já no século XX, em relação a Plutão. A descoberta dos dois últimos planetas do sistema solar exemplifica um outro aspecto relativo ao método crítico: a possibilidade de se evitar o falseamento de uma teoria a partir de uma hipótese suplementar; se a conseqüência de uma teoria é contraditada pelos fatos, é logicamente possível retransmitir a falsidade às condições específicas (no exemplo anterior, a falsidade foi retransmitida ao modelo sobre o sistema solar). Esta hipótese suplementar, que salvou a mecânica newtoniana, era testável independentemente; hipótesessuplementares ad-hoc (hipóteses a favor das quais os únicos fatos são aqueles que elas pretendem explicar) devem ser evitadas.
Popper destaca que “todo o nosso conhecimento é impregnado de teoria, inclusive nossas observações” (Popper, 1975, p. 75). Não existem dados puros, fatos neutros (livres de teoria). Exemplifiquemos mais uma vez com a mecânica newtoniana: a fim de testar a previsão de uma determinada órbita planetária, é necessário confrontar posições previstas para o planeta com posições observadas a partir da Terra. Os fatos aqui seriam resultantes de um processo de observação astronômica; ora, estes fatos são interpretações a partir de diversas teorias, tais como a da ótica do telescópio, propagação da luz no espaço interplanetário, refração da luz na atmosfera, teoria de erros de medida, etc. Mesmo os fatos que são baseados apenas em nossa percepção também estão impregnados de teorias; os órgãos dos sentidos e o sistema nervoso incorporam teorias físicoquímicas, neurofisiológicas que interpretam os estímulos, nos dando as sensações. “Não há órgãos de sentido em que não se achem incorporadas geneticamente teorias antecipadoras” (Popper, 1975, p. 76).
A inexistência de fatos livres de teoria implica a insustentabilidade de uma versão de falseacionismo ou refutacionismo ingênuo que erradamente é atribuída a Popper. Para o refutacionismo ingênuo, uma teoria estaria indubitavelmente refutada quando os resultados observacionais (e/ou experimentais) fossem incompatíveis com alguma conseqüência ou conclusão da teoria. Entretanto tal não é necessariamente verdade, pois o problema pode estar nas condições específicas (é o caso da descoberta de Netuno e Plutão), ou, pode se encontrar nas próprias observações. Ou seja, se houver alguma discrepância entre posições observadas para um dado planeta, pode ser que a teoria observacional esteja com problema. Aliás, isto efetivamente ocorreu quando Newton propôs ao astrônomo real uma correção da luz na atmosfera, de modo a adequar os dados astronômicos às previsões por ele feitas. Todo o nosso conhecimento é conjectural, inclusive as falsificações das teorias; as falsificações não se encontram livres de críticas e nenhuma teoria pode ser dada como “definitivamente ou terminantemente ou demonstravelmente falsificada” (Popper, 1987a, p. 22). Assim sendo, “qualquer falsificação pode, por sua vez, ser testada de novo” (Popper, 1987a, p. 23).
O progresso da ciência depende da objetividade científica. Esta “encontra-se única e exclusivamente na tradição crítica” (Popper, 1989a, p. 78), na tradição que permite questionar qualquer teoria. Entretanto a objetividade da ciência não é uma questão individual dos cientistas; individualmente o cientista é, via de regra, parcial, conquistado por suas próprias idéias. “Alguns dos mais destacados físicos contemporâneos fundaram inclusivamente escolas que opõem uma forte resistência a qualquer idéia nova” (Popper, 1989a, p. 77). A objetividade da ciência é uma questão social dos cientistas, envolvendo a crítica recíproca, a “divisão hostil- amistosa de trabalho entre cientistas, ou sua cooperação e também sua competição” (Popper, 1978, p. 23). O fato do cientista individualmente ser parcial ou dogmático é até desejável. “Se nos sujeitarmos à crítica com demasiada facilidade, nunca descobriremos onde está a verdadeira força de nossas teorias” (Popper, 1979, p. 68).

A ciência está à procura da verdade apesar de não haver critérios através dos quais se possa demonstrar que uma dada teoria seja verdadeira. A atitude crítica pressupõe a “verdade absoluta ou objetiva como idéia reguladora; quer isto dizer, como padrão de que podemos ficar abaixo” (Popper, 1987a, p. 59).
Quando uma teoria é criticada, está sendo questionada a pretensão da mesma ser verdadeira, da mesma ser capaz de resolver os problemas que lhe competem. Mesmo não havendo a possibilidade de demonstrar a verdade de uma dada teoria T2, algumas vezes se pode defender racionalmente que ela se aproxima mais da verdade que outra teoria T1; tal ocorre quanto T2 explica todos os fatos corroboradores (conteúdo de verdade) e os problemáticos para T1 (conteúdo de falsidade), adicionalmente explicando fatos sobre os quais T1 não se pronunciava (a teoria T2 tem então um excesso de conteúdo em relação à T1). Isto se dá com a teoria geral da relatividade em relação à teoria de Newton; a segunda é uma excelente aproximação da primeira para baixas velocidades e campos gravitacionais fracos. Todos os problemas que a antiga teoria resolveu com sucesso, a nova também resolve e alguns, como o caso do periélio anômalo de Mercúrio que era incompatível com a mecânica newtoniana, também são explicados pela teoria geral da relatividade. Adicionalmente a teoria de Einstein fez predições sobre aspectos da realidade sobre os quais a de Newton não se pronunciava (é o caso do desvio da luz por campos gravitacionais, corroborado no eclipse de 1919). “Contudo, Einstein jamais chegou a acreditar que sua teoria fosse verdadeira. Chocou Cornelius Lanczos, em 1922, ao dizer que sua teoria não era mais que um estágio passageiro: chamou-lhe ‘efêmera’” (Popper, 1976, p. 112). Também “buscou uma melhor aproximação da verdade durante quase quarenta anos, até a sua morte” (Popper, 1987a, p. 58). A concepção de que as teorias científicas perseguem a verdade objetiva coloca a filosofia popperiana como realista. Os realistas afirmam a existência das coisas em si, de objetos cuja existência independe de nossa mente (Bunge, 1973, 1983 e 1985; Silveira, 1991) e que estes podem ser conhecidos, embora parcialmente e por aproximações sucessivas (Rodrigues, 1986).
"Assim, as teorias são invenções nossas, idéias nossas, o que foi claramente percebido pelos idealistas epistemológicos. No entanto, algumas dessas teorias são tão ousadas que podem entrar em conflito com a realidade: são essas as teorias testáveis da ciência. E quando podem entrar em conflito, aí sabemos que há uma realidade (...). É por esta razão que o realista tem razão” (Popper, 1989b, p. 25).

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Alguma filosofia de Karl Popper (parte 1)


*por Fernando Lang da Silveira

AS EXPLICAÇÕES CIENTÍFICAS E A LÓGICA DEDUTIVA


Uma das tarefas da ciências é a explicação. Ao longo da história da prática da explicação, muitos métodos e tipos diferentes foram tidos como aceitáveis, mas todos eles têm algo em comum: “consistem todos de uma dedução lógica; uma dedução cuja conclusão é o explicandum - uma asserção da coisa a ser explicada”
(Popper, 1982, p. 321) e de um conjunto de premissas - o explicans - constituído por leis e condições específicas.
Qualquer explicação envolve no mínimo um enunciado universal (lei) que, combinada com as condições específicas, permite deduzir o que se deseja explicar. Apenas condições específicas não são suficientes para se produzir uma explicação. Por exemplo, se quisermos explicar o aumento da resistência elétrica de um fio de cobre pela elevação da temperatura, podemos supor um enunciado universal que afirma que os condutores metálicos possuem resistência variando com a temperatura.

Lei: a resistência elétrica dos condutores metálicos varia com a temperatura.

Condições específicas: a temperatura do fio de cobre variou de 20° C para 6° C.

Conclusão: a resistência elétrica deste fio de cobre variou. Obviamente que esta não é a única explicação possível. Outras explicações mais profundas e complexas recorreriam a leis e condições específicas sobre a estrutura da matéria, justificando o fenômeno macroscópico (a variação da resistência) a partir deste nível microscópico. Uma explicação desta ordem envolveria uma longa cadeia dedutiva para finalmente atingir o explicandum. O importante na presente discussão é o aspecto dedutivo das explicações e a necessidade de se recorrer a no mínimo uma lei e às condições específicas.
 
Outras tarefas das ciências, como a derivação de predições e aplicações técnicas, também “podem ser analisadas por meio de esquema lógico que apresentamos para analisar a explicação” (Popper, 1982, p. 324).
A derivação de predições parte do suposto conhecimento das leis e das condições específicas, obtendose algo que ainda não foi observado. Nas aplicações técnicas são especificados os resultados a serem obtidos, como, por exemplo, a construção de uma ponte, e são admitidas certas leis e teorias relevantes. O que se procura então são condições específicas que possam ser tecnicamente realizadas. A lógica dedutiva desempenha um papel de grande importância no conhecimento científico. Segundo Popper, ela é:

– transmissora da verdade.
– retransmissora da falsidade.
– não-retransmissora da verdade.

Ela transmite a verdade do explicans para o explicandum, ou seja, sendo verdadeiras as leis e ascondições específicas, será necessariamente verdadeira a conclusão. Ela retransmite a falsidade do explicandum para o explicans, ou seja, se a conclusão é falsa, então uma ou mais premissas são falsas. Ela não retransmite a verdade do explicandum para o explicans, ou seja, sendo a conclusão verdadeira, poderá ser parcialmente ou totalmente falso o explicans. Em outras palavras, de premissas falsas é possível se obter conclusões verdadeiras. Essas três propriedades da lógica dedutiva podem ser exemplificadas através do raciocínio dedutivo abaixo:

Primeira premissa: todos os A são B.
Segunda premissa: X é A.
Conclusão: X é B.
A transmissão da verdade das premissas para a conclusão ocorre no seguinte exemplo onde as premissas são verdadeiras:
Primeira premissa: todos os metais são condutores elétricos.
Segunda premissa: o cobre é metal.
Conclusão: o cobre é condutor elétrico.
A retransmissão da falsidade da conclusão para as premissas ocorre no seguinte exemplo onde a conclusão é falsa porque a segunda premissa é falsa:
Primeira premissa: todos os metais são condutores elétricos.
Segunda premissa: o vidro é metal.
Conclusão: o vidro é condutor elétrico.
A não-retransmissão da verdade da conclusão para as premissas ocorre no seguinte exemplo Onde a primeira premissa e a conclusão são verdadeiras e a segunda premissa é falsa:
Primeira premissa: todos os metais são condutores.
Segunda premissa: o carvão é metal.
Conclusão: o carvão é condutor elétrico. A estrutura dedutiva das explicações científicas e as propriedades da lógica dedutiva são importantes para a filosofia da ciência de Popper, em especial no método crítico exposto mais adiante.


O PROBLEMA DA INDUÇÃO.


Um dos problemas da filosofia da ciência investigado por Popper é o chamado “problema da indução”. Acreditavam os indutivistas ser possível justificar logicamente a obtenção das leis, das teorias científicas a partir dos fatos; poder-se-ia, utilizando a lógica indutiva, chegar às leis universais, às teorias científicas.
"É comum dizer-se “indutiva” uma inferência, caso ela conduza de enunciados singulares (...), tais como descrições dos resultados de observações ou experimentos, para enunciados universais, tais como hipóteses ou teorias. Ora, está longe de ser óbvio de um ponto de vista lógico, haver justificativa no inferir enunciados universais de enunciados singulares, independentemente de quão numerosos sejam estes; com efeito, qualquer conclusão colhida desse modo sempre pode revelar-se falsa; independentemente de quantos cisnes brancos possamos observar, isso não justifica a conclusão de que todos os cisnes são brancos" (Popper, 1985, p. 27/28).

O problema da indução também pode ser formulado de outra maneira: há leis universais certamente verdadeiras ou provavelmente verdadeiras? É possível se justificar a alegação de que uma teoria é verdadeira ou provavelmente verdadeira a partir de resultados experimentais ou de observações?

Aqui também a resposta de Popper é negativa. Não importa quantas asserções de teste (resultados experimentais ou de observações) se tenha, não é possível justificar a verdade de uma teoria, pois a lógica dedutiva não retransmite a verdade. O confronto da teoria com as asserções de teste nunca é direta; há necessidade de se combinar as leis universais com condições específicas e derivar dedutivamente hipóteses ou conclusões com baixo nível de generalidade. Estas podem em princípio ser confrontadas com os fatos. Se os fatos apoiarem as conclusões, se as conclusões forem dadas como verdadeiras, não há retransmissão da verdade para as hipóteses com alto nível de generalidade (as leis universais). Não importando quantas “confirmações” de uma teoria tenham sido obtidas, é sempre logicamente possível que no futuro se derive uma conclusão que não venha a ser confirmada. Conforme o exposto na secção anterior, é possível de premissas falsas se obter conclusões verdadeiras. Outra razão contra a existência da lógica indutiva está em que um conjunto de fatos sempre é compatível com mais de uma generalização (rigorosamente com um número infinito de generalizações).

Por exemplo, se todos os cisnes até hoje observados são brancos, algumas possíveis generalizações são as seguintes:

– Todos os cisnes são brancos.

– Todos os cisnes são brancos ou negros.

– Todos os cisnes são brancos ou vermelhos ou azuis.

Qualquer enunciado que afirma o observado e um pouco mais (ou muito mais) será compatível com as observações ocorridas. Estes aspectos lógicos que contraditam a existência da lógica indutiva serão complementados nas secções seguintes com outros que se apoiam na história da ciência. A história da ciência mostra exemplos que teorias que passaram a corrigir os fatos que pretensamente teriam servido como “base indutiva” das mesmas (a mecânica newtoniana assim o fez). Além disso, há exemplos de teorias científicas que se originaram não em fatos mas em teorias metafísicas (é o caso da teoria copernicana). Tendo Popper negado a possibilidade de uma solução positiva ao problema da indução, parte então para uma resposta à questão do método das ciências empíricas (física, química, biologia, psicologia, sociologia, etc.).