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domingo, 2 de maio de 2010

Monoteísmo e a luta entre razão e crença

Se o pensamento tivesse encontrado a Verdade, cessaria de se questionar. Porém, não é o que constatamos ao nos debruçarmos sobre o monoteísmo; nem sobre os seus fundamentos, quanto menos sobre as variações doutrinais.

O difícil é que, quem quer crer, levar uma vida de fé e seguimento do Caminho, - não pode questionar: quem quer que creia na Verdade revelada pelo próprio Deus, por difícil que seja, não pode de modo algum questioná-la. Ou bem se crê ou bem se questiona. Não se pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas ambas podem perfeitamente se alternar numa mesma pessoa. Nesse sentido se poderia dizer que 'um crente que pensa', isto é, uma pessoa de fé que é ao mesmo tempo questionadora, é um tanto quanto esquizofrênica... No melhor dos sentidos.
Suponha-se alguém que tenha fé absoluta na bondade do Criador. Se de fato acredita que Deus é Justo e Providente, necessariamente acredita que Ele tem um motivo excelente para permitir que gente inocente sofra. Alguém que realmente creia na bondade divina, enquanto crer, não se perguntará "por que motivo um Deus Bom agiria dessa forma". E se por acaso questionar, é porque naquele instante não acredita totalmente, sua fé está balançando. Isso porque a fé se opõe à razão. Ambas parecem se odiar mortalmente.

A razão não pode conduzir à fé, e nem a fé conduzir à razão. Ambas se repelem como polos idênticos de dois ímãs.
Um fiel monoteísta se perguntará porque Deus permite que crianças sejam, todos os dias, no mundo inteiro e em especial nos países mais pobres, torturadas, escravizadas, estupradas, prostituídas e mortas das maneiras mais tenebrosas? É muito provável que não, mas se algo, alguém ou alguma situação lhe suscitar esse questionamento, talvez dissesse que a culpa é do pecado da humanidade. Por tal argumento, esse monoteísta clássico pretenderá ter conseguido isentar (sua idéia de) Deus da responsabilidade pelo sofrimento de quem aparentemente é inocente. Mas essa resposta satisfaria à razão? Não.

A razão se perguntaria por que Deus nos teria criado capazes de impor tanto sofrimento uns aos outros, antes de qualquer coisa. Seria um crente que se colocasse essa questão, capaz de suspender a fé no dogma de que Deus é bondoso, e assim deixar de crer? Se o fizesse, permaneceria agnóstico até encontrar na Revelação alguma resposta que o convencesse, como a de que Deus quis, exatamente por ser Bom, que o homem fosse livre.


Foi essa a explicação encontrada por Santo Agostinho. Ele diz que Deus não quis um exército de robôs pré-programados a cumprir a sua vontade automaticamente, sem escolha, para sempre. Preferiu contar com seres semelhantes a Ele, livres e capazes de tomar suas próprias decisões
*H. K. Merton

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Pequeno tratado das grandes virtudes: O Amor em Ágape

"Muitas coisas podem, de fato, acontecer que apresentam uma boa aparência, mas não procedem da raiz da caridade: mesmo os espinheiros têm flores.
Pelo contrário, certos gestos parecem rigorosos e até cruéis, mas são feitos para educar e são inspirados na caridade.
Aqui fica de uma vez para sempre, resumido o princípio:
Ama e faz o que quiseres:
Se tu te calares, cala-te por amor;
Se tu falares, fala por amor;
Se tu corrigires, corrige por amor;
Se perdoares, perdoa por amor;
Que a raiz do amor esteja dentro de ti, uma vez que desta raiz não pode proceder senão o bem.
A caridade não é maldosa nem preguiçosa;
Não é branda, nem tão pouco fraca;
Não é abúlica, nem permissiva.
Não te iludas pensando que amas o teu filho só porque não lhe impões uma regra de vida, ou que amas o teu próximo só porque não te queixas dele.
Isso não é caridade, mas fraqueza.
Não se ama no homem o erro, mas o homem."

(Agostinho de Hipona)

Em tempos como esses considero a mensagem de Agostinho de Hipona como algo inspirador. Não é preciso ser alguém religioso para entender, eu mesmo não o sou, quando Agostinho nos diz “ama e faz o que quiseres” ela convida a cada um de nós para contemplar a vida como um acontecimento mais profundo, desvelando além das breves formas materiais, até romper a tênue barreira e entrar no caminho que da no reino das coisas verdadeiras. A filosofia agostiniana está assentada sobre os pilares da obra de Platão, se considerarmos isso e retrocedermos aos anos 340 a.c. mais ou menos encontramos “O Banquete”, que é o discurso onde esse pensador grego debate a questão do Amor e as suas várias facetas, Eros, Philia e Àgape. Considerando por último em seu discurso que a melhor definição de Amor seria algo próximo da busca incessante pelo que é bom e pelo que é belo, Platão deixa seus ecos nas palavras de Agostinho quando esse nos chama à necessidade desse sentido ético que é a caridade (ágape), pois não pode haver beleza ou bondade na perdição e na injustiça por exemplo. Então “ama e faz o que quiseres”, assim sendo, se amar tudo te será lícito porém nem tudo te será conveniente, com efeito deve-se concluir que o limite do Amor e da Liberdade é o rosto sofrido do próximo, é a falta de sentido em usurpar algo de quem pouco tem. Nisso reside a grandeza humana, em aceitar a conexão invisível entre os seres e trabalhar pra que todos se realizem, pois essa realização é também a minha própria. Lembrai, a vida pouco vale, esse teatro a que estamos submetidos não é mais que pó na estrada da evolução.

*Espero que essa leitura tenha sido de algum proveito, minha "Constante Mítica". A você os meus melhores pensamentos e os gestos da minha mais profunda ternura.