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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Além

Muito além de lugar algum é como se beijasse o chão com a força de olhos. Faz o sinal da cruz e escarra sobre ele com a torpeza dos que envelheceram antes da infância. Meu lugar é o que virá e enfim começo a me sentir ressarcido. Ao talhe do artista mais raro, um corpo a simular verdades decaídas.

O que quererá a vida de nós, o que pretenderei eu que já não ouso coisa alguma... A chegada sempre tardia, as muitas intragabilidades da deficiência alheia. O cume de uma montanha só parece algo grandioso visto de baixo, no alto tudo é planície e ordinariedade como em qualquer viela marginal. O espelho mudado na invenção mais incerta, porque sustentar a beleza à luz do dia exige mais que um reflexo sofismático.

Setenta e sete metros abaixo do chão parece ser um bom lugar para se ocultar um cadáver. Todavia, isso não indica o que fazer o aquilo que resta dele. Gerir a transposição da existência numa coisa inominada, apreender a dimensão da verdade depois de haver existido em erro. Algures num planeta parecido com esse, inventado ou percebido pela intuição, pessoas fazem seu trabalho maquinal, riem, comem, lembram, esquecem. Num sítio diverso do que estou agora, tenho a impressão de que o existir existe apenas, com todo o resto sendo algo como uma doença nos olhos.

A tortura mais arcaica, um homem que sangra sozinho. Você só leu sobre o inferno na bíblia, meu amor. Eu, estive lá! Descendo ao Hades com a verdade dos nunca sentiram remorso, determinadamente a querer que a beleza se reinventasse do enxofre de estar vivo. Falhei como um amador barato, não consegui transpor o estige. Agora essa sombra é como todas as outras sombria, e ela ainda está lá. Desfolho os dedos por sobre uma lápide imaterial, taciturnamente um comboio imaginário de homens sem rosto leva o que restou daqui.

Qualquer encruzilhada que dê numa sala sem janelas sou eu, ermo, solene, desabitado. De todos os vícios a vaidade pode e deve ser o mais sórdido. Mergulhar num corpo alhures, arrancar de um organismo exterior a obstinação necessária. Ninguém jamais penetrará esse mistério, a geração que não virá, o entendimento selado onde as mãos não alcançam, como fora sonho ou maldição que não se sente. Imortalidade tem haver com ser incapaz de aceitar a grandeza das coisas. Que é o homem além de um ser amputado?

A consciência assim como vontade nunca se compartilham, amar frequentemente é um nome sofisticado que se criou para rituais antropofágicos.

*Leandro M. de Oliveira

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Imprecisão no conhecer

A minha pergunta - aquela que aos meus cinquenta anos, quase me levou ao suicídio - era a mais elementar que reside no fundo da alma de qualquer pessoa, desde a criança estúpida ao sábio ancião, a pergunta sem a qual a vida é impossível, como verifiquei na prática. A questão era: "O que vai resultar do que estou a fazer agora, do que vou fazer amanhã - o que vai resultar de toda a minha vida?"

Expressa de outra maneira, a pergunta será: "Para que tenho de viver, para que tenho de desejar, de fazer seja o que for?" mais uma forma de exprimir a mesma pergunta: "Haverá na minha vida um sentido que não seja eliminado inevitavelmente pela minha futura morte?"

Foi a esta pergunta, expressa de várias maneiras, que procurei uma resposta na sabedoria humana. E descobri que, em relação a esta questão, todos os conhecimentos humanos se dividiam em duas semiesferas opostas, por assim dizer, tendo dois pólos contrários: um negativo e outro positivo; mas também que em nenhum deles havia respostas às questões da vida.

Uma série de conhecimentos parece não reconhecer a questão mas, responde com clareza e exatidão às suas próprias perguntas, colocadas independentemente: é uma série de conhecimentos experimentais, no ponto extremo da qual se encontra a matemática; outra série reconhece a questão, mas não lhe dá resposta: é uma série de conhecimentos especulativos, e no seu ponto extremo encontra-se a metafísica.

(...)

Se nos virarmos para o ramo dessa ciência que tenta dar respostas às questões da vida - a fisiologia, a psicologia, a biologia a sociologia - encontramos uma impressionante pobreza de pensamento, uma enorme imprecisão, pretensões injustificadas de poder resolver questões fora do seu âmbito e as permanentes contradições em que um pensador cai relativamente aos outros e, até, relativamente a si próprio.

(...)

Se nos dirigirmos aos ramos da ciência que não procuram resolver as questões da vida, resolvendo apenas a especificidade das suas questões científicas, ficamos admirados com a força da mente humana, mas sabemos de antemão que não encontramos aqui a resposta às questões da vida. Estas ciências não querem saber da questão da vida. Dizem: "Não temos resposta para a pergunta sobre o que tu és e para que vives, não tratamos disso; mas se quiseres conhecer as leis da luz, dos compostos químicos, as leis da evolução dos organismos, se quiseres saber as leis dos corpos e das suas formas, e a relação dos números e das grandezas, ou as leis do teu intelecto, temos para tudo isso respostas claras, exatas e indubitáveis."
*Liev Tolstói

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Jardim

Labiatas de um jardim sem dono; aos que perderam os seus, algures querem quem nunca os teve. Amar é ser canibalizado sem piedade! Um tiro surdo na noite, a verve de um lavrador drenada pela fome da terra. Toda gota de sangue é carvão ermo na tempera duma fornalha acesa, constantemente trespassada, a rua projeta sensações de não estar. Não há metal por toda a parte, a vida a tornar em giz quebradiço a matéria. O mundo aninha-se aqui como uma procissão de sexos abertos. Uma iluminura que me leva além, uma doença que me há de matar. E que mais? Ademais o corpo, pedaço de rocha liquefeita, fio de orvalho pra sempre dissipado ao contato solar duma aurora. Só se vive uma vez, a não ser que a matéria assim como o desejo, se desdobre. Dimensões multiplicadas ao contato da presença exterior, o balanço das esferas mais interno que a impressão.

Uma aparição rara, confusão de hemisférios espraiados a cismar. Arroubos do mais puro impensado, o horizonte definitivamente a romper a linha do equador. Por que desejar tanto esse corpo? Refazer em novas curvas a busca antiga, abrir por sobre a terra o veio mais fecundo. Um instante e duas eras findaram, o que antes antagônico unido foi, num sítio anterior à presunção. Amar uma representação alheia, dissolver a fadiga dos campos à espera de cabelos e olhos.

(...)

Ter na carne o transcendente além da carne, uma chama feita de antiguidade, a afeição brotada dos lugares mais inesperados. Habita a casa e vê como é vazia, vias de caminhos bifurcados, talhas de um formão imperfeito. Logo passa o instante e descobre-se que o relógio nunca parou. Que Cronos é cego e a dor é muda, nenhuma fúria castiga mais que o lastro do não vivido. Onde estariam todos a não ser na lembrança do que não mais existe...

Talvez quando esse lugar for ainda mais longínquo possamos nos sentar ao pé de uma árvore, se acaso ainda restarem árvores e dimensioná-lo ao modo de alguém que fabrica ou pensa. Não é possível entender a grandeza das coisas a não ser olhando-as com distância. No momento em que aquele homem fincou nesse lugar os seus pés, deveria ter pego a primeira condução que findasse a jornada de volta à sua terra, mas a mulher a quem procurava estava aqui, estrangeira. Ele não tomou a primeira, nem a segunda e nem a terceira condução. Desejou com a ardência dos que nunca nasceram rasgar o tempo e voltar ao momento anterior à revelação, pra que pudesse morrer em paz, com as solenidades dos que existiram apenas. Deveras, onde era sua terra? O mundo todo convertido em exílio, o homem alheio de si.

O perfume da rosa envolve por ser efêmero, qualquer paixão que vale a pena é suicida. E ele se perdeu mais uma vez, pra descobrir que todo corpo é feito de matéria e não há luz além daquela que a vontade projeta. Mas não falemos de empreitas frutadas, a experiência é um fim em si mesmo, quem perde termina mais rico que quem toma. No fim, o ser é feito de memória assim como de esquecimento, um caminho não trilhado nega ambos.
*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tempis Fugit

A fuligem se espalha pelas reentrâncias da carne, o limo hei de triunfar no movimento de outras esferas. Além, aquém do momento esperado, há um segredo oculto entre mãos e olhos. Dar visão ao cego exige que a terra seja abraçada como uma mancha de sangue.

A solidão do animal mais solitário. Um espelho lustrado que não produz reflexo. Quando o vírus toma a corrente circulatória é preciso respirar arrancando a pele. O peito nu, o estar aberto ao sabor do inesperado. Olhos de ontem que não vêem mais que uma tentativa insólita de recompor o pretérito. Corpos expostos, atração de abutres. Sua carne há de ser dividida entre os que não foram convidados, um ato bravamente cristão da parte de quem o fizer.

Escarro, tortura e mutilação. Diversões que fazem algo pulsar no peito de loucos entre outras sortes de homens santos. Não se sabe bem até onde essas terapias podem se aplicar à pacientes cuja libertação é uma necessidade patológica. Você vai passar toda uma vida sendo privado por seus modos diferentes só pra que quando chegue o final, possa enfim ser tratado de uma maneira ordinária. Certidões mau digitadas de óbito, valas comuns, celas que se repartem entre sonhos e esquecimentos. Rasgue o tórax com as mãos, fustigue a boca até que não haja mais por onde dizer aquilo que não se sente. Punir o corpo pode ser um ato de desespero, mas em algumas ocasiões é o que resta.

Pagar ao síndico sempre pareceu menos oneroso que administrar a própria vida. Ajoelhe! Agora e um milhão de vezes mais até que solo tenha se apoderado de suas articulações.

(e a manhã veio...)

Um lugar onde a vida vivida agora pode já ter sido feita há mil anos. A cabeça confusa acorda espraiada no crepúsculo indolente, pessoas são sombras que o pensamento projeta. E é o próprio homem construído de suas sombras. Qual o fundamento da beleza? Tudo o que é cotidiano à uma presença, quanto mais viceja menos sustenta seus lumes.

A mulher que nunca tornará a essa cama torna perfeita nesse momento de distância do que não consente, assim como os cavalos gigantes, os circos de palhaços imperitos ou qualquer quadro da infância que arrebatada foi, pra sempre desse domínio. O encanto parece mesmo ter haver com aquilo que carrega mais de porvir e de ausência do possível, a contragosto da maravilha cotidiana que é sempre miséria aos que aqui estão.

O passado é uma cadeia de eventos como qualquer outra, mesmo um lixão costuma produzir bons mosaicos quando olhado de longe. E cá estão todos outra vez, o quarto, as paredes, a procissão de flashes que nubla a retina. Daqui a vinte anos sentirei saudades da atmosfera densa, da infiltração que torna precário o arremate dos prédios ou ainda, de urinar na rua enquanto a cidade adormece. Isso pode ser, se houver vida até lá. Será mesmo que todos os vigários são pederastas? Não tente aparar a grama enquanto o quintal está enlamaçado, não tente pisar o chão agora que seus pés foram arrancados. “Tu és pra sempre maldito!”. Assim bradava um deus antigo enquanto nós o sodomizamos pela manhã. Todas as ruas mau iluminadas do mundo, a falta de oxigênio no cérebro, lesões se confundem com o hábito de inventá-las.

Morfina custa caro, outros anestésicos podem custar ainda mais. As pessoas tem medo e violência, e eu preparo em silêncio uma bomba, que fará clarear a noite e escurecer o dia.
*Leandro M. de Oliveira

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Túmulo do Sol

Quando morri acho que as pessoas não se aperceberam muito bem. Fato é que deve mesmo ter importado pouco pois, embora a inegável ausência de uma substância mais sutil, a presença física teimou ainda de um modo ordinária. Liquefeito num corpo denso, inalteradamente tateável. Entretanto, nada seria como antes, a casa foi esvaziada e o jardim, irremediavelmente esquecido. Existe uma chaga aberta no peito de todo homem que ousou demais, uma vala comum onde se repartem sonho e impossível. Foi querer da vida que entre todas as navalhas, o bem fosse a mais afiada. Minha história não agradável como aquelas que são inventadas, é antes uma pré-história do nada porque o vazio é mais antigo que o silêncio. Pouca coisa fica pela estrada ademais do pó feito pela cal dos dias, árvores estéreis, certidões mau digitadas de óbito rememorando a não chegada do filho, aquele que vai, eternamente natimorto.

Não diga que me ama se não quer ver o mundo desmoronar outra vez. Quando o carinho colapsar em ausência, que não haja ninguém a lembrar da torpeza desses dias. Aqui é o ponto onde todos os caminhos se bifurcam, a linha de sangue que rasga os céus toda vez que o crepúsculo anuncia noites intranqüilas. Não é difícil partir, muito mais duro é ter afeto à decadência quando se entende a miséria das coisas. A moldura colorida do horizonte falseia o cinza que há por trás de tudo, o excelso da vida parece mais um momento de descuido onde tenta-se não ser e quando volta a vigilância tudo é mais agudo. A procissão de almas sem lar busca a todo custo imaginar beleza no além pra que ela maquie a feiúra do aquém. Tudo que é vida cheira a desespero. Essa não é uma festa de bastardos, ofereça seu corpo aos cães antes que a vida faça isso por você. Heis aí o túmulo do sol, que esse mundo é sepulcro em vida quando se quer vivê-lo além da rasurado comum.

Por que sentir tanto horror, logo eles virão silenciar o mundo, pra que no escuro das eras o seu choro seja voz de destaque. Vou tirar os sapatos quando chover, quero sentir a terra com entendimento, quero dedilhar sem afeto as lajes de minha última e fria morada. Pó e sombra, o instante passou e com ele o que construiu algum significado. Agora o que resta é aquilo que sempre fica aos que não quiseram o caminho já percorrido. Um leito ingrato de mãe prostituta, donde por fim hei de me ver em vencida derradeira. Tive sede e a água não chegou, fome quando tudo era deserto. Abrace-me com o seu maior carinho e terá o meu vômito mais sincero, não há como retroceder. O zelo dos grandes soa como injúria aos anões da alma, aprenda a machucar quem te ama. Nas batalhas a eficiência de um exército sempre é medida pela sua impiedade, ser livre só é possível implacavelmente. Tudo o que quiseres, toma com mão forte, o que não te serve, arremessa pela janela. Já é dia, e ainda escuro noutro hemisfério, o segredo da luz pode ser uma sombra que a sustente. Ou isso, ou tudo é mera especulação.

O ácido contido em minhas vísceras conseguiria digerir o universo inteiro. Nesse momento, demônios estão vindo dançar no jardim e o condutor da orquestra sou eu.
*Leandro M. de Oliveira

sábado, 13 de novembro de 2010

Parábola do Inferno

(Em quase todas as culturas o arquétipo do demônio
e seus afins, está identificado com o movimento.
É ele, segundo o vulgo, quem faz o mundo acontecer primariamente.
Uma parábola do inferno pode ser o relato possível daquilo
que é apreendido numa viagem a reinos obscuros da
mente com a intenção de saber como tudo inicia...)

Ele começou a convencer-se da condição de alter-ego, sempre que algo não agradava a consciência oficial, aquele ser era compulsivamente evocada. Tais chamamentos por parte do consciente externo não foram raros, o vigilante puro embora entregue, havia desenvolvido uma sem conta de fantasias para deixar-se ao mundo. Ele precisava de quantos escudos pudesse reunir. Nosso personagem original não se queixava dessa concorrência que o fazia se manifestar um tanto quanto sazonalmente, uma vez que, deixado a mercê de sua vontade, tinha mais tempo para si mesmo. Embora não haja meditação suficiente a sanar a impressão de um corpo amputado, ele pensava. Quando aqui chegou, os efeitos de seu parto nesse mundo, ecoaram parecidos com um madeireiro a serrar galhos de planta condenada. Viver na mente de outrem seria um exílio?

A bendita sensação de distância, a maldita certeza de estar incompleto. No momento em que os portais dessa realidade se abriram, uma das condições exigidas foi a de que algo ficasse para trás. A totalidade do ser não obteve espaço suficiente na limitação débil do veículo a ele entregue. Era possível que o não-viver como incriado em alguma medida fosse mais grato que o viver como produto dum delírio. Pretendia-se lá e tão somente, algures de qualquer mataborrão de possibilidades. Agora que lhe deram o desejo do caminho, cortaram-lhe as pernas com uma lâmina cega. Ele poderia ter sido um ser humano digno, caso não fosse produto de pensamentos esparsos. O acaso é tudo! Um alter-ego é uma derivação ordinária do eu, não há um princípio divino em nada. Ele agora tem a impressão de ser feito da mesma substância que os sonhos. Sendo assim, com efeito, seu criador é também sonho?

Um homem projeta um mundo onde grassam animais por toda a parte, um animal projeta uma natureza repleta de espécies vegetais, um desses arbustos por sua vez, projeta um céu de chuva a nutrir a terra e essa água é a seus olhos a maior divindade que se pode conceber. Esses mundos embora hipotéticos, existem em alguma medida. Assim, tudo é ficção, o homem é um engenho vazio do da ânsia por si mesma. Criar dimensões é um álibi daqueles que se negam a testemunhar o nada inalterado. Ele saiu à rua com grandes expectativas, mas lá chegando, enfim deu por si... Da mesma forma que com as ruas onde nunca se caminhou e o homem do qual nunca se teve notícias, todo bem é hipotético. Você precisa morrer para viver de uma forma mais plena, sem desejo ou meta pode ser que as coisas se realizem, porque tudo é vazio em si.

Ele é deveras um alter-ego. Todavia, que mais se pode ser quando a impressão de não se guiar pela própria vontade é ininterrupta? O demônio nos daria abrigo do sol e uma bela roupa pra dançar, poderia ser, se acaso existisse de fato. Buscar a culpa na treva exterior é uma tentativa inútil de expurgar a própria escuridão. Deus só fez sentido algum dia por que a fé precisou ser testada, e de todas as invenções ele terminou por ser uma das mais impuras. Maldito seja quem nos transformou em fração do divino. Crer numa origem é uma das seduções mais infames. E você se sente elevado, e se sente pleno. O homem é o único animal da natureza que num projeto de busca do bem, usurpa e agride tudo quanto há de valoroso em seu semelhante. A raça humana é antes de mais qualquer coisa, filha da ganância e da dissimulação. Isso de fato poderia ter sentido, não fosse só um pensamento a me ocorrer enquanto escrevo.

E o homem que é não-homem, permanece latente, à espreita de um vacilo da consciência oficial. Será que nos tornamos algo quando aquilo que nos concebeu se pôs a dormir? Os religiosos provavelmente adorariam isso, mas o que é a vida senão um acidente da matéria. Onde estão os desígnios além de na cabeça de fanáticos que passam o tempo a imitar cruzados do medievo e de candidatos a homens bomba... A consciência é um cadáver, muitas vezes putrefato, que foi cuidadosamente acondicionado em cada uma de nossas costas. Ela pesa, porém abriga. Mas a que preço? Você vai morrer e sua contribuição mais alta será a de matéria orgânica decomposta para a manutenção de alguma colônia de vermes. Não é possível viver grandiosamente a não ser quando se convence que a vida é uma piada de quinta.
*Leandro M. de Oliveira

sábado, 2 de outubro de 2010

Aos eleitores indecisos (Circo do caos)

Amanhã dia 3 de outubro, mais uma vez estaremos convidados, ou melhor, compelidos a participar do processo eleitoral. É realmente ambíguo o que acontece aqui, todo cidadão maior de idade esta obrigado a votar ou sofrerá várias sanções se optar pelam não participação. É exatamente nesse ponto que reside o caráter esdrúxulo da eleição, a idéia é que vivamos em uma democracia, entretanto estamos coagidos a participar de coisas que nem sempre nos interessam, as eleições são grande exemplo disso. Por definição de Aurélio Buarque de Holanda:

de.mo.cra.ci.a

Substantivo feminino.
1.Governo do povo; soberania popular.
2.Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder.

Assim, quando se fala em soberania popular, deve-se entender que isso signifique respeitar a diversidade de opiniões produzidas por esse determinado povo dentro de um determinado contexto sociopolítico. Soberania sendo o suporte do exercício democrático indica uma liberdade plena para a expressão da vontade, fazer o contrário é exercer uma ditadura travestida. Nesse sentido, vive-se ainda num regime que considera a liberdade tão somente como uma ficção jurídica. Ela põe-se aqui como uma peça hipotética que serve de sustento à introjeção de ideologias que restam como garantia de exercício de poder a grupos determinados, e quando surgem novos, não passam de variações do mesmo tema. Vivemos aqui uma democracia amordaçada, enjaulada e adestrada de acordo com interesses pré-determinados.

No que se refere ao campo da ação política enquanto participação eleitoral, tem existido nos últimos anos um fenômeno que considero interessante. A cada novo pleito sobe o número de candidatos digamos, hilários ou sem um perfil clássico. Isso tem irritado muita gente que se vê ameaçada por essa horda de políticos que são de certo modo “não-políticos”. Talvez o caso mais emblemático seja o de um candidato a deputado federal por São Paulo, o humorista “Tiririca”. Esse homem teve toda sua documentação aceita e achada conforme no momento do registro de sua candidatura pelo órgão competente, tudo feito de boa-fé. Todavia, agora que as pesquisas o apontam como um possível fenômeno de votação, provavelmente o maior da história do país, passa a existir uma corrida de promotores e juízes com intenção de cerceá-lo ao de direito de ser votado e eleito. E tudo por causa da suspeita de ser o candidato analfabeto, ora, em 2007 foi concluído que o Brasil tinha a maior taxa de analfabetos da América Latina, perdendo para Haiti, Nicarágua, Guatemala, Honduras, El Salvador, República Dominicana, Bolívia e Jamaica em número de pessoas que não sabem ler nem escrever.

De acordo com o IBGE, 10% de nossa população é constituída de analfabetos e 38,9% de analfabetos funcionais. Com isso gostaria de dizer aos senhores poderosos, que vocês fabricaram o Tiririca, assim como ainda vão fabricar muitos outros que serão fruto do descaso e da ingerência de vocês com a máquina pública. Tenho uma tese de que esses candidatos apareçam pela obrigação jurídica dos apolíticos de participarem da política, assim escolhem alguém com quem possam se identificar. Minha opção particular nessa eleição é votar em branco, pois entre o mau caratismo e a estupidez completa, prefiro não tomar afeto por nenhum. Revisitando a constituição federal, uma brevíssima reflexão:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...)

Se a lei garante que todos são iguais, por que perseguem tanto o Tiririca? E se garante que todos são livres, por que não estou simplesmente à minha própria vontade para decidir ir ou não votar amanhã? Abaixo seguem vídeos que ilustram o pandemônio das eleições, devo concordar, é mesmo uma tragédia hilária.

Tirica:


Celebridades ou quase:



Ala diversidade sexual:



Plus dos humoristas:


E agora um bônus especial. Essa mulher quer ser governadora do distrito federal. O que vocês pensam disso? :)


*Leandro M. de Oliveira

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

72 horas

Como se a vida redefinisse o ser ao do tempo e esse, um encontro além de seus domínios. Insuspeitado, o desvario infinito, onde cada segundo é eterno e todo o porvir cabe num suspiro. Assim foi, num arremate do que não se prevê, bruxas esquecidas sibilaram um canto de memória. A casa agora inundada, tudo é luz. Entre a linha de montanha e céu, um refúgio sinuoso no horizonte, como a primavera insinua lábios e mãos entrelaçadas. De ferro fundido ao passado, o chão a frente pavimenta o cotidiano mais leve. As casas e seu testemunho, o que é em desacordo finda em ruínas. Pela observação da natureza apreende-se que o sol sempre volta a liquefazer o granizo que cobre a terra, e o peso do céu torna outra vez numa coisa menos densa.

Eu te amei por setenta e duas horas a fio. Meus olhos cegaram na luz como ao admirar um deus antigo. Minha voz era o grito de todos os famintos do mundo, a nau de todo Pelegrino que deseja se afogar. Comi de tua carne, bebi de teu sangue. Seu corpo era impulso e refúgio, alimento e flagelo. Todavia, o inexorável se cumpriu enfim. O instante se perdeu, o granizo e o sol transmigraram como em aporte. Nada restou do caminho pretérito do mesmo modo que nada nunca resta além de uma cisma incurável das experiências possíveis. Voltamos ao país das pessoas de sal. Há uma ferida aberta em cada sonho, uma quimera impiedosa a debater a planta contra seu chão.

Encimesmadamente da sede que a boca contém. Como parto e amputação, tudo vai, tudo deflui. Uma foto é o caminho simbólico da denuncia de uma memória decrépita. Perenizar um momento faz parte das buscas dos que não sabem recomeçar. É o crime dos que perderam o contato com a fonte, um tonel de Danáides obsoletas no espaço. Aparte a representação, cada nicho é decadência. Pessoas são pessoas, se fossem algo mais já teriam transcendido essa condição. Nesse carrossel vindo de uma infância desbotada, o querer segue a girar em trajes maltrapilhos. A graça não habita uma casa amaldiçoada. Talvez. A potência deve residir no afastamento singular donde ninguém nunca tocou. Ajoelhar-se ao encontro pode significar lançar mão do que foi aprendido até aqui.

Apreender um corpo alheio. No circo de dentro vive um domador inverossímil, ele acaricia a fera, embala seu sono. Mas o coração é um órgão de fogo, sua fúria resume tudo. E a alma como uma caverna que é um bloco impenetrável por fora e uma coisa oca por dentro, deixou-se por mérito o reino do eco pra sempre perdido. Não quero ter alma, não quero ter metafísica. Por deus se ainda restou algum, não quero ganhar o prêmio Nobel da paz! Ocorre que o infinito pesa como uma tempestade de chumbo e não houve tempo hábil a fazer um telhado em minha casa. Um escarro seria um ato de descortesia, não fosse as senhoritas desse tempo serem mais abomináveis que vermes de outrora. Todo amor que é vivido se torna corrupto. Todo louvável é hipotético. Felicidade a dois é um cinismo ácido.
*Leandro M. de Oliveira

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Do vazio

Aceitar o estar só não é tão fácil assim. Saber que não havia ninguém quando tudo começou é parecido com ser vomitado, mesmo não havendo bocas ou orifícios. Algumas pessoas simplesmente perdem o controle. E existir que poderia ser um fim em si mesmo, um ciclo perfeito e por isso finito, tem de ganhar outras significações, com verdades sempre alheias ao que houver de certo e tangível. As luzes apagaram por um segundo, elas jamais estiveram acesas senão na ficção. Todo desespero requer uma fuga, retirar ou negar o pensar é a contrição de quem traiu a si e não consegue fazer o caminho da volta. Em qualquer noite que o sono não vem o tempo é como gordura acumulada na inação, e o mundo fica menor cada vez que uma possibilidade se esgota. No silêncio que invade quando todos vão deitar, Deus não é mais que um nome refinado para o delírio, viver tem uma dinâmica parecida com boiar numa corrente qualquer. Fechar os olhos será um dia, um crime sem perdão.

Entre a aragem e o sal, há em mim uma medida de sonho que pra sempre não se pode realizar. Porque a vida que me deste é um mosaico sem sentido, o prazer das peças reside unicamente em manuseá-las. Nunca, nunca se juntam. A esperança passou como um bonde velho, como passou noite, como passam carros inadivertidamente cada vez mais velozes, enquanto eu, estanque ao vento que me corta. O que pode ser compreendido são fragmentos, a totalidade esta além de tua vista. Olha pra baixo, afim de elevar a alma deves começar pelo corpo, é aqui donde a terás em plenitude. Algures nesse peito há um coração perdido no ártico de todo desencontro, sabê-lo tão mansamente poderia ser uma experiência sobrenatural. Se tudo te fosse revelado num segundo, desfecharias uma lâmina em teu seio. Por que não tentar? Rasgue com tuas unhas o que haver em ti de carne, estraçalhe as mãos com teus dentes para que não toquem ou ousem. Teu sangue tem gosto de medo, isso é patético.

Aquele sítio tornou-se inatingível aos mortais, e assim continuará, posto que não há mais ninguém. O mundo é um continente só, eu ensimesmado, permaneço como ilha mais a oriente do impossível. Ao que tem olhos, a vida de uma serpente no deserto contém mais sedução que a lida de uma ovelha em pastagens aparentemente verdejantes. Deixe-me cravar as presas em quem ousa caminhar sem sandálias, a humildade não é mais que uma garbosa afronta ao bom senso. Que será de nós? Cinzas? Decomposição? E tudo se resume em uma solidão incalculável. Como se ao entender que sempre se está só, nascêssemos já amputados. Deve-se sentir compaixão pelas pedras que não teêm olhos pra chorar. É realmente uma pena que tenham lhe cortado as pernas, fenecer nessa pocilga é o castigo mais hediondo. Talvez aconteça que pensar no além tenha mais haver com inconformismo que com qualquer outra coisa, que justificar a vida exija a figura de um grande pai, ainda que alegórica. É tempo de despertar.

Bebe criança, toma tudo o que acaso encontre. Quem tocar a ferida entenderá o motivo do torpor...


*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Princípio do fim?

O Manifesto Futurista escrito por Fillippo Marinetti e publicado em "Lo Figaro" no dia 20 de fevereiro de 1909, foi o grito de independência e marco inicial de um dos movimentos artísticos mais importantes doi século XX. A urgência e a fúria com que as palavras de Marinetti foram colocadas leva a pensar se o fim é mesmo inevitável. Se a vida num sentido de contemplação se perdeu para sempre. É acaso irremediável que o antigo feneça para que haja o nascimento do novo? O futuro é o laudo necopsial de um estupro do passado? Abaixo segue o texto em comento:

1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia, a rebelião, serão elementos essenciais da nossa poesia.

3. Até hoje, a literatura exaltou a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril, o passo de corrida, o salto mortal, a bofetada e o sopapo.

4. Declaramos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida com a carroçaria enfeitada por grandes tubos de escape como serpentes de respiração explosiva… um carro tonitruante que parece correr entre a metralha é mais belo do que a Vitória de Samotrácia.

5. Queremos cantar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada, por sua vez, em corrida no circuito da sua órbita.

6. O poeta terá de se prodigar, com ardor, refulgência e prodigalidade, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo pode ser considerada obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas, para reduzi-las a prostrar-se perante o homem.

8. Estamos no promontório extremo dos séculos!… Porque deveremos olhar para detrás das costas se queremos arrombar as misteriosas portas do impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós vivemos já no absoluto, pois já criámos a eterna velocidade.

9. Nós queremos glorificar a guerra, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias por que se morre e o desprezo da mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo e combater o moralismo, o feminismo e todas as vilezas oportunistas ou utilitárias.

11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela revolta; cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas eléctricas; as gulosas estações de caminho-de-ferro engolindo serpentes fumegantes; as fábricas suspensas das nuvens pelas fitas do seu fumo; as pontes que saltam como atletas por sobre a diabólica cutelaria dos rios ensolarados; os aventureiros navios a vapor que farejam o horizonte; as locomotivas de vasto peito, galgando os carris como grandes cavalos de ferro curvados por longos tubos e o deslizante voo dos aviões cujos motores drapejam ao vento como o aplauso de uma multidão entusiástica.


É da Itália que lançamos ao mundo este manifesto de violência arrebatadora e incendiária com o qual fundamos o nosso Futurismo, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, arqueólogos, cicerones e antiquários.

(...)

Museus: cemitérios!... Idênticos, realmente, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos onde se repousa sempre ao lado de seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos dos matadouros dos pintores e escultores que se trucidam ferozmente a golpes de cores e linhas ao longo de suas paredes!

Que os visitemos em peregrinação uma vez por ano, como se visita o cemitério no dos dos mortos, tudo bem. (...) Mas não admitimos passear diariamente pelos museus nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa mórbida inquietude. Por que devemos nos envenenar? Por que devemos apodrecer?

E que se pode ver num velho quadro senão a fatigante contorção do artista que se empenhou em infringir as insuperáveis barreiras erguidas contra o desejo de exprimir inteiramente o seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivalente a verter a nossa sensibilidade numa urna funerária, em vez de projetá-la para longe, em violentos arremessos de criação e de ação.

Quereis, pois, desperdiçar todas as vossas melhores forças nessa eterna e inútil admiração do passado, da qual saís fatalmente exaustos, diminuídos e espezinhados?

(...)

Bem-vindos, pois, os alegres incendiários com seus dedos carbonizados! Ei-los!... Aqui!... Ponham fogo nas estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais para inundar os museus!... Oh, a alegria de ver flutuar à deriva, rasgadas e descoradas sobre as águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!

(...)

Nossos sucessores virão de longe contra nós, de toda parte, dançando à cadência alada dos seus primeiros cantos, estendendo os dedos aduncos de predadores e farejando caninamente, às portas das academias, o bom cheiro das nossas mentes em putrefação, já prometidas às catacumbas das bibliotecas.

Mas nós não estaremos lá... Por fim eles nos encontrarão - uma noite de inverno - em campo aberto, sob um triste galpão tamborilado por monótona chuva, e nos verão agachados junto aos nossos aeroplanos trepidantes, aquecendo as mãos ao fogo mesquinho proporcionado pelos nossos livros de hoje flamejando sob o vôo das nossas imagens.

Eles se amotinarão à nossa volta, ofegantes de angústia e despeito, e todos, exasperados pela nossa soberba, inestancável audácia, se precipitarão para matar-nos, impelidos por um ódio tanto mais mais implacável quanto seus corações estiverem ébrios de amor e admiração por nós.

A forte e sã Injustiça explodirá radiosa em seus olhos - A arte, de fato, não pode ser senão violência, crueldade e injustiça.

Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: no entanto, temos já esbanjado tesouros, mil tesouros de força, de amor, de audácia, de astúcia e de vontade rude, precipitadamente, delirantemente, sem calcular, sem jamais hesitar, sem jamais repousar, até perder o fôlego... Olhai para nós! Ainda não estamos exaustos! Nossos corações não sentem nenhuma fadiga, porque estão nutridos de fogo, de ódio e de velocidade!... Estais admirados? É lógico, pois não vos recordais sequer de ter vivido! Eretos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas!

Vós nos opondes objeções?... Basta! Basta! Já as conhecemos... Já entendemos!... Nossa bela e mendaz inteligência nos afirma que somos o resultado e o prolongamento dos nossos ancestrais. - Talvez!... Seja!... Mas que importa? Não queremos entender!... Ai de quem nos repetir essas palavras infames!...

Cabeça erguida!...

Eretos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas."
*Fillippo Marinetti
**Leandro M. de Oliveira

terça-feira, 20 de julho de 2010

O fim e essas coisas

“Um minuto de vida ainda é vida”
(Autor desconhecido em uma parede de auschwitz)

E deixe-me voltar ao que sei. Da reza, vela, menina morta. Corpo que flutua no alqueire da lembrança perdida. Que perdidamente pude me apaixonar tantas vezes; não o fiz, não o quis, não o pude querer fazer. De sal de terra corrompida é a ferida em cada pé. Capitães devassos, donzelas frígidas, estivadores sem porto, cães que ladram de dia, uma floresta de sistemas respiratórios a soterrar o que dantes leve foi. A consciência do mundo é um cadinho de desesperanças. Meu jardim foi infestado, senhoras hediondas, metáforas inverossímeis... Onde estão meus óculos de ficar cego? Por deus, se há acaso deuses aqui!

O mar que é massa de água por fora, é tormenta líquida por dentro, sem contudo deixar de ser massa ou água. Dêem-me um sedativo barato ou me deixem dormir de calças azuis, a imaginação deixou de fazer sentido quando todo o sentido se perdeu. Algumas flores saúdam minha passagem pelo relvado, elas devem me ver como um gnomo ou elfo perdido de sua gente. Isso me faz sentir uma compaixão profunda, saber que há quem acredite no espírito de corpos em decomposição. O feerismo deve habitar instâncias mais altas que a de um pântano travestido, isso não seria digno a quem acredita.

Preciso continuar, preciso estuprar a terra com minha verdade inventada. O mundo sou eu, o nada é meu peito! Sobre a vista cansada um constelação de mil Judas querem trair os sentidos, abaixo dos pés um lamaçal de um milhão de olhos famintos me consome a recomeço. Arremedo de gente, cidade perdida no tempo, paixão achada no ontem. O bojo de um seio que alimente a promessa do longínquo de todo passado, alheio a qualquer início, o que se passa é a mentira de um Oasis em terra infértil. Só os sonhos são felizes, pelo menos isso válido às crianças que tiveram família. Depois vem a vida, e as crianças são dissolvidas junto com seus sonhos.

Quero um bilhete só de ida, o papel da impressora acabou. Existe um sentido de impunidade em apodrecer cativo num país que tem a prisão perpétua como uma prática abominável. Se fosse possível uma amigdalectomia na alma, talvez conseguisse vomitar as chaves da cela. Já passou, elas foram apropriadas pelas paredes do estômago. O dilema da vida tem mais em comum com um cão que corre atrás do próprio rabo que com algo profundamente poético. As coisas se repetem insuportavelmente, se remoçam e voltam quando parecem já ultrapassadas. Eles querem que você cave com os dentes até que a gengiva reste em carne viva, que você roa as unhas até terminar por comer os dedos. Quando nada mais restar pode acontecer que esse ninguém tenha se tornado um Ser livre, isso se você ainda tiver fôlego e pouco daquilo que diferencia o conquistador das pessoas ordinárias.

Pode gritar a vontade, não fará diferença, sua voz foi roubada há anos. O ruído desarticulado que sai de sua boca não é mais que blasfêmia a tudo quanto houve de belo. Eu só queria retornar ao passado, mas o tempo é a mentira mais perigosa. Para Getúlio Vargas o único tempo possível é aquele preso ao instante em que uma bala lhe foi desfechada ao coração, assim como para uma donzela solitária o tempo será eternamente o momento de partida do amado. Todos boiamos num rio sem correnteza, isso é incondicional.

Que a terra lhe seja leve, ou pesada como queira. Construir um modo de sobrevivência nesses tempos tem haver com a capacidade de fuga. Dêem-me um comprimido de dormir com princípio ativo de religião, claro, se os de sexo, agressão e ou dinheiro já tiverem se esgotado. Há mais farmácias no mundo do que supõe nossa vã filosofia. Não fique feliz tão rápido, o uso repetitivo de analgésicos e sedativos os fazem perder efeito. É uma dor insuportável quando acontece... Você reza antes de dormir? Prepare-se para praguejar a partir de agora, esse é um lugar de desesperança, só a maldição triunfa.

O que pensei fazer foi dar um aviso, não uma solução. O enigma das coisas parece irremediável, mesmo quando são por demais simples. Para estar alheio é preciso estar no todo, e sendo tudo pode-se ser um nada, estar alforriado enfim. Deus é o grande vazio, não sei qual a coerência disso, mas é confortável pensar que se possa ir um dia para o aquém do picadeiro. A imaginação subverte o óbvio da vida. Mesmo havendo um só lugar e um único tempo, escrever isso é como sentir no corpo as lacunas deixadas por pedaços que se perderam. O excelente é ter descoberto como estar longe, de tudo fui um andarilho só, nenhuma novidade foi surpresa, nenhuma noite foi intangível. Todavia, não houve por onde fosse uma só alma, planta ou horizonte que não me tenha compartido.


*Leandro M. de Oliveira

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Minotauro

Depois de algum tempo a descoberta de estar colocado em um mundo de cabeça pra baixo é inevitável. Parece algo como enfiar as mãos em bolsos furados, ou um parto de cócoras sem auxílio profissional. Não há um analgésico específico, se a criança possuir saúde frágil, os recursos de tratamento são precários. O que ainda se pode tentar é ser resignado com a tragédia surda de mãos e olhos. Celebrar Baco com um copo sujo de água ferruginosa. Os Deuses foram exilados, a alegria também. Nos dias em que se passam é como que ser grande significa regredir ao pequeno, evadir-se ao triunfo em nome da piedade vã. A cratera dos mundos foi aberta a nossos pés, ninguém pode se sentir isento por não ter saltado. A vida é impiedosa àquele que hesita.

No meio de uma noite hipotética, dois carinhos se buscam, hipoteticamente. Esperar o encontro aqui, é como viver abaixo da linha da miséria. Ademais do inverno, entre as árvores e o impossível, uma revolução botânica prepara a primavera. Lírios, cravos, jasmins, rosas, amores-perfeitos... Essa apoteose dos bosques murmura nas veias da terra. O ar quer se tornar respirável de novo, liquens de formas inverossímeis são depositados pela relva. E eu que tenho estado daltônico, vejo a explosão de cores como um filme dos anos 30. A nostalgia é para o homem como estrelas são para o céu, ou o vômito é para o bêbado. Ha quem se conforte em carregar um cadáver nas costas, adorar um defunto conhecido pode ser mais estável que apostar em uma vida ainda por descobrir. O problema é que a matéria se decompõe e o corpo de quem carrega o cadáver, por extensão, acaba convertido em cemitério ambulante.

Dais as traças uma colônia no lado esquerdo de teu peito!

Abaixo de galhos, bromélias e sonhos, uma turba de jovens prageja contra o desabrochar das flores. Há um terrorismo cruel nos jardins. Atravessar um canteiro de orquídeas é muito mais difícil que saltar de um penhasco. A beleza põe abaixo o ímpeto. É impossível fugir, lá fora, leões e panteras desfecham golpes no ar, aqui dentro, mães choram por filhos que nunca nasceram. A morte faz pensar no que vem depois, isso não se aplica ha uma morte anterior à vida. Ver a bailarina rodopiante e ter no corpo o vigor exaurido para acompanhar a dança. Mergulhar sem querer num passado em que as coisas eram simples, descobrir que o que resta são rugas e frases de adeus mal formuladas.

E essa figura dourada invade a tela, a cena, a desesperança. Deve-se sentir compaixão por ela, que ainda não entendeu o propósito disso. Os homens nada mais são que escombros de si mesmos. Aquele encanto original só é possível quando inédito. Especular já significa ter certeza de algo, a condução do caminho fica mais branda quando estão obsoletos sentido e razão. Entregar-se, calcular-se, escarrar-se. A revolta parece ser o salário do que é parcial, há um vazio sublime na totalidade. Reorientemos as coordenadas porque, o fim da palavra é o silêncio, do mesmo modo como o do algo é o nada. Ou não é?

Talvez aconteça que o silêncio da palavra seja o que faz dela mais grave e constante. Que o não existir é a substância única de tudo quanto pode haver. Quem vai ter a chave do dilema, o que julgar certo numa terra onde nada tem sentido... As palavras conseguem incendiar, ou congelar o homem mais constante, ainda que sejam abstrações da mente irrequieta ou convulsões da alma em descaminho. Reencontrar nelas a verdade, do pensamento ou do vazio, é como amputar uma parte do próprio corpo. Quero me deitar num sono leve, sem contudo saber exprimir o que estará acontecendo.

Não importa quanto tempo se dedique, no final tudo termina do jeito mais ingrato possível.

Escrever é a última coisa que resta depois que se traiu alguém...
*Leandro M. de Oliveira

Don Juan

(Em lugar algum perdido jovens sem futuro tramam cartas de amor,
senhoras puras maculam seus leitos beatos,
e enquanto isso um homem desesperado é sincero pela primeira vez...)

Dama de longos estivais, se me é permitido um conselho vos dou, esqueça a vaidade de teu nome. Suas veias ardem porque estão dominadas pela ambição invencível, pelo frenesi desmesurado e ancestral que leva o homem a pensar um estado de invulnerabilidade. Como uma sombra do tártaro, as seduções levianas do que pode haver de “casto” amordaçam seu corpo, enquanto o interior sequioso de suas coxas vislumbra coisas que vão além de uma retração absurda. Eu estava lá quando tudo começou... Essa jaula não comporta a geometria de tuas curvas, perecer em auto-degradação é coisa entregue a deuses e loucos.

Eventualmente você tem sentido um calafrio entre as pernas, como se minha barba mal feita roçasse lugares proibidos. Nesse momento seu corpo muda num arrepio inconsútil, a eletricidade te faz desesperar... Alheio ao entorno, seu corpo arcaico mostra sinais de vencida, seus olhos gritam como dois faróis. Reconhecer a força do oponente não é estar derrotado. Eu inventei o traçado de seus passos, montei guarda numa espera anterior à tua vinda. Salve a alma que te resta, tudo o mais já me pertence.

Há apenas uma mulher que usa vários rostos, você não pode querer ser diferente. És a mesma que me iniciou, e a mesma a quem fiz estremecer, quando já velho encontrei-a ainda como uma flor não colhida. Você quer fugir pra um lugar onde as coisas não pareçam tão irremediáveis, mas a calamidade em seu rosto te faz imóvel. Tenha o prazer do meu corpo de um modo animal, ou reze aos céus em contrição à decadência de tua vontade. Ainda é possível escolher, mas por pouco tempo. Se isso realmente conforta, eu não sei.

Há homens bem intencionados, como o outro que te quis. Suas mãos eram formadas em meandros de calos, as minhas são do mesmo modo em sangue, vertido de hímens inocentes, sugados de jugulares incautas. Há um charme febril nos assassinos por serem homens livres, você não é a primeira a perder a compostura quando me vê. Corte meus pulsos, por favor mate-me agora.Toda beleza é fugaz, todo carinho é agressão. Posso te ensinar a sorrir um pouco, depois como sempre, terá de aprender sozinha como se chora dignamente, não importa. De qualquer forma, a essa altura já estarei longe. Tudo o que existe de relevância vive em nós, entre o suor e fúria. Piedade é o único crime que não admite perdão.

Quero rasgar jugulares, me banhar em desejo rubro. Venha à mesa do sacrifício, naquele lugar terá tudo o que procura. Não é questão de estar se gabando, vendendo a visão de um sacerdote refinado. As coisas são como são, nasci para vitimar mulheres, como algumas flores nascem para a primavera ou uma moça puritana para ser desvirginada após o matrimônio. O vacilo de seus joelhos em permanecerem firmes não é medo, só um estado de incerteza quando se sabe estar perto do fim. Farei com que isso seja inesquecível, essa será tua pena mais aguda. Caminhar no tempo presente sempre dando conta de estar ainda abrigada por um passado longínquo. Minha imaterial lembrança te fará urrar como um cão quando a lua for cheia, ou gritar de horror quando perceber que tudo é sonho, pedaço de descaminho que vive onde não se consente.

Por quê eu faço isso? Pra cada mil perguntas há um milhão de respostas. Talvez uma delas seja, porque eu posso! A benevolência é luxo de quem tem família, eu fui abortado, a vida me fez assim e me deu ao mundo como flagelo. Sodomizaria minha própria mãe se a conhecesse, não é o que se passa. A pobre que me deu a luz foi só mais uma vítima das circunstâncias. Quando penso na criança que deves ter sido ha anos atrás, quase consigo consigo ter remorso, é impossível. O tempo assim como a natureza, são forças por demais implacáveis. Exterminarei o bom de ti sem mesmo saber o por que. Quando a máscara cair, pode ser que minhas cicatrizes a incomodem. Que a luz se apague então, para que fantasmas bailem em traje de gala.

*Leandro M. do Oliveira

terça-feira, 15 de junho de 2010

A Máquina de Joseph Walser

As máquinas de guerra vêm aí, mas não tenha medo. O problema não são as máquinas que se aproximam da cidade, são as máquinas que já aqui estão.
As diferentes gerações mecânicas, a sua História, Walser: progridem. Tal como as nossas ideias. Mas as máquinas começam a ter autonomia, as ideias não.

As máquinas interferem já na História do país e também na nossa biografia individual. Elas não têm já apenas um percurso material ou de factos. Têm também uma História do espírito, um caminho já realizado no mundo do invisível, no mundo daquilo que se sente e se pensa. Acredita-se até que as máquinas levam o Homem para sítios mais próximos da Verdade.
E também pode ser reduzida a um sistema binário, a alegria. A um sim ou a um não, a 0 ou a 1: existe ou não existe. E essa eficácia, meu caro, essa eficácia fundamental, essa eficácia primeira, depende já, também, em grande parte, das máquinas, da rapidez com que elas transformam causas e necessidades em efeitos benéficos.

A felicidade foi já reduzida a um sistema que as máquinas entendem, e no qual podem participar e intervir. Já nenhuma felicidade individual é independente da tecnologia, amigo, Walser. Se quiser números, podemos brincar aos números: a felicidade individual de um dia depende, vá lá, 70% da eficácia material das máquinas. Que a felicidade invisível esteja submetida a uma felicidade concreta, a uma felicidade de materiais em diálogo, de peças metálicas que encaixam umas nas outras e resolvem problemas fazendo determinadas tarefas, como tal pode parecer estranho; mas é o século.

Ser feliz já não depende de coisas que vulgarmente associamos à palavra Espírito. Depende de matérias concretas. A felicidade humana é um mecanismo.
*Gonçalo M. Tavares

Good News!

Futebol,
o
novo
ópio
do
povo.

***
Esse mês não haverá revoltas por aqui.


*Leandro M. de Oliveira

domingo, 23 de maio de 2010

O Dilema da Caridade

Então o dilema é esse, o homem veio até você vestido pelas agruras da mais austera humildade, pediu por piedade auxílio na nutrição de seu filho, repartiu entre palavras e gestos a tragédia cotidiana de uma mulher doente, uma criança “idem” e um desempregado que em acidente de trabalho acabou por perder além do sustento o respeito de chefe de família.

A situação era flagrantemente periclitante. A esse ponto, alguma coisa na sua alma pediu que o ajudasse mas, seus sentidos foram entorpecidos por aquele hálito de tons etílicos que o homem fazia rescender no ar. E seria o hálito deveras etílico? Agora, é tarde demais... A velocidade das circunstâncias não mostram complacência ao que duvida. E o homem partiu com um não a mais pesando por sobre seus ombros. Partiu resignado de que o mundo era mau e as pessoas piores ainda.


Foi-se corporalmente, sem todavia deixar o recinto como idéia. Ele passou a habitar
o imaginário. Tal aninhamento afunilou-se na sua consciência e em seu mergulho invadiu concentração e sono...


....


(no meio da noite)


...


...é lícito a um homem incapacitado entorpecer-se até a morte! Afinal, que mais pode um desgraçado senão beber em honra à sua desgraça? A cachaça custa menos que a rebelião!


Mas você não pôde, não quis entender. O dinheiro em suas mãos irá esvaecer muito facilmente, seduzido pelo prazer vulgar de um chocolate, um bombom ou outro capricho qualquer, enquanto a gordura vai multiplicando os domínios em seu corpo aquela criança continua chorando, sem comida e sem esperança. O pai prostituirá os últimos resquícios da dignidade de um arrimo de família em nome da mendicância pela subsistência dos seus. A mãe já doente se curará, ou adoecerá ainda mais, ou morrerá quem sabe. Não importa, no conforto de sua casa os outros são no máximo aquele pensamento tacanho que ocupa um pouco do ócio. Nada de agenciamentos, seu dia tem outras prioridades.


Por quê se importar? Cada um é dono de sua história, não ha razões de envolvimento. Pessoas nascem, morrem, vivem, sobrevivem. O mundo é indiferente ao pasmo de existir. Só você pode consertar os próprios desvios. Mas algo, ainda assim goteja na alma. Talvez o pensamento vá um pouco turbado pela imagem de um deus mendigo, talvez compartilhar a dor alheia seja o prazer mais sublime; ou não.


Fato é que a caridade, pelo menos essa aos moldes do ocidentalismo clássico é mesmo uma construção social mas, talvez possa representar um algo mais. Não há como não viver certas situações e não se perguntar, por exemplo, se o impulso que leva o homem à compaixão é ou não empresa exclusiva do arcabouço de costumes da comunidade em que se vive? Essa é uma problemática controversa. Há em verdade uma essência de bem, ou só um ajustamento entre homens para pra que a vida seja tolerável? Toda filosofia, toda religião, todo o humanismo se preocuparam com isso ao longo dos séculos e muito embora as conclusões sejam divergentes em essência, isso não te isenta da ação. Ou isenta?


Aquele homem do mercado continua vagando, sua mulher cada vez mais debilitada, seu filho cada vez mais faminto. Disso, dois juízos:


1 - É uma tragédia! Se fartar enquanto outros nada tem. A conexão invisível entre os seres impede a saúde da alma enquanto há irmãos doentes do corpo, o pão não tem sabor enquanto alguns não puderem comê-lo, as roupas não embelezarão enquanto muitos ainda se vestirem de farrapos. Não é possível o bem onde reside a injustiça. A virtude não habita átrios corrompidos, fazer algo é preciso. Irremediavelmente imperioso.


2 – A vida é assim, uns tem de estar por baixo pra outros se apoiarem e ficarem por cima. É uma conseqüência intrínseca à evolução, alguns exemplares desde sempre tem de serem sacrificados em nome da sublimação da espécie. O dinamismo do mundo é esse. Não há que se lamentar por quem não alcançou instâncias mais pacíficas da vida. Chorar por esses é desonrar o que te foi ofertado. Que importa que la estejam os miseráveis, desvalidos e pobres de toda a espécie, o importante é que você esta vencendo, caminhando à margem da desgraça cotidiana.


Agora é decidir, sempre existe mais de uma resposta ao problema. Sempre existe mais de um demônio a te culpar por não ter feito o que deveria ou por fazer exatamente o que era cabido. Quem pode julgar uma ação, eu não sei.

*Leandro M. de Oliveira

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Sábio e cientista; o papel da escola

As diferenças entre um sábio e um cientista? São muitas e não posso dizer todas. Só algumas. O sábio conhece com a boca, o cientista, com a cabeça. Aquilo que o sábio conhece tem sabor, é comida,conhecimento corporal. O corpo gosta. A palavra "sapio", em latim, quer dizer "eu degusto"... O sábio é um cozinheiro que faz pratos saborosos com o que a vida oferece. O saber do sábio dá alegria, razões paraviver. Já o que o cientista oferece não tem gosto, nãomexe com o corpo, não dá razões para viver. O cientista retruca: "Não tem gosto, mas tem poder"... É verdade.

O sábio ensina coisas do amor. O cientista, do poder. Para o cientista, o silêncio é o espaço da ignorância.Nele não mora saber algum; é um vazio que nada diz. Para o sábio o silêncio é o tempo da escuta, quando se ouve uma melodia que faz chorar, como disse Fernando Pessoa num dos seus poemas. Roland Barthes, já velho,confessou que abandonara os saberes faláveis e se dedicava, no seu momento crepuscular, aos sabores inefáveis. Outra diferença é que para ser cientista há de se estudar muito, enquanto para ser sábio não é preciso estudar. Um dos aforismos do Tao-Te-Ching diz o seguinte: "Na busca dos saberes, cada dia alguma coisa é acrescentada. Na busca da sabedoria, cada dia alguma coisa é abandonada".

O cientista soma. O sábio subtrai. Riobaldo, ao que me consta, não tinha diploma. E, não obstante, era sábio. Vejam só o que ele disse: "O senhor mire e veja: o mais importante e bonito do mun­do é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando..." É só por causa dessa sabedoria que há educadores. A educação acontece enquanto as pessoas vão mudando, para que não deixem de mudar. Se as pessoas estivessem prontas não haveria lugar para a educação. O educador ajuda os outros a irem mudando no tempo. Eu mesmo já mudei nem sei quantas vezes. As pessoas da minha geração são as que viveram mais tempo, não pelo número de anos contados pelos relógios e calendários, mas pela infinidade de mundos por que passamos num tempo tão curto.

Nos meus 74 anos, meu corpo e minha cabeça viajaram do mundo da pedra lascada e da madeira- monjolo, pi­lão, lamparina - até o mundo dos computadores e da internet. Os animais e plantas também mudam, mas tão devagar que não percebemos. Estão prontos. Abelhas, vespas, cobras, formigas, pássaros, aranhas são o que são e fazem o que fazem há milhões de anos. Porque estão prontos, não precisam pensar e não podem ser educados. Sua programação, o tal de DNA, já nasce pronta. Seus corpos já nascem sabendo o que precisam saber paraviver.

Conosco aconteceu diferente. Parece que, ao nos criar,o Criador cometeu um erro (ou nos pregou uma peça!): deu-nos um DNA incompleto. E porque nosso DNA é incompleto somos condenados a pensar. Pensar para quê? Para inventar a vida! É por isso, porque nosso DNA é incompleto, que inventamos poesia, culinária, música, ciência, arquitetura, jardins, religiões, esses mundos a que se dá o nome de cultura. Pra isso existem os educadores: para cumprir o dito do Riobaldo... Uma escola é um caldeirão de bruxas que o educador vai mexendo para "desigualizar" as pessoas e fazer outros mundos nascerem...
*Rubem Alves

sábado, 24 de abril de 2010

Amniótico (das crenças de hoje)

A resposta justa ao problema não foi proposta por ser a melhor, antes por ser produto de convicções internas muito subjacentes na ação teoricamente não intencional. Esse homem chamado cientista, é só um homem, passível de toda a sorte de paixões e decisões partidárias a que qualquer outro está exposto.

E mais uma vez você deu a vida pela verdade e de novo se viu morrendo em vão, no campo infértil dos trigais de quem acreditou. Se você se pensa livre por ser socialista, é tão preso quanto qualquer liberal. Se se acha puro por ser cristão, é mais corrompido que todos os ateus. Se por fim se sente livre em não levantar bandeiras, será a liberdade deveras, o teu ópio e o teu calabouço. A intransigência da negação nubla a vista e encerra a potência. Ser reacionário não é testemunho de fortaleza. Que há de justo, verdade ou conveniência além daquela mentira indecorosa contada tantas vezes?

Deus é fiel, a sua mãe não foi... Te fez acreditar que a prisão é o melhor remédio. Aqui se vai, tão aquém do que se era possível... Se no mundo todas as verdades são provisórias, que há de eterno além da ilusão? Participar é aceitar enxergar através de uma lente que você não pintou, ou quem sabe, fingir humildade na dominância. O mundo não permite a inocência, bem vindo à época das segundas intenções.

Sempre ela, a ciência. Te faz crer na evolução mas, o que evoluiu ao longo dos anos foi só a argúcia daqueles que dominam a técnica pra te fazer pensar que há um sentido de perenidade, além daquele guiado pelo interesse de quem opera o sistema. Ninguém vai te salvar aqui, a verdade científica em geral é tão verdade quanto o vôo de Ícaro ou os trabalhos de Hércules. A consciência humana bóia “in vitro” no fluido amniótico das imposições cotidianas. Você, tão arrebatado das promessas, não percebe sequer por um momento que essa é uma casa sem paredes e que qualquer intempérie da natureza pode assim nos dilacerar.

No bojo das ações, isenção é mito.
*Leandro M. de Oliveira