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domingo, 21 de março de 2010

Cogito Ergo Sum (A hipótese do divino racionalismo)

E, enfim, considerando que quaisquer pensamentos que nos ocorrem quando estamos acordados nos podem também ocorrer enquanto dormimos, sem que exista nenhum, nesse caso, que seja correto, decidi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais corretas do que as ilusões de meus sonhos.

Porém, logo em seguida, percebi que, ao mesmo tempo em que eu queria pensar que tudo era falso, fazia-se necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava.

(.........)

“Depois, havendo refletido a respeito daquilo que eu duvidava, e que, por conseguinte, meu ser não era totalmente perfeito, pois via claramente que o conhecer é perfeição maior do que o duvidar, decidi procurar de onde aprendera a pensar em algo mais perfeito do que eu era; e descobri, com evidência, que devia ser de alguma natureza que fosse realmente mais perfeita. No que se refere aos pensamentos que eu formulava sobre muitas outras coisas fora de mim, como a respeito do céu, da Terra, da luz, do calor e de mil outras, não me era tão difícil saber de onde vinham, porque, não notando neles nada que me parecesse torná-los superiores a mim, podia julgar que, se fossem verdadeiros, seriam dependências de minha natureza, na medida em que esta possuía alguma perfeição; e se não o eram, que eu os formulava a partir do nada, ou seja, que existiam em mim pelo que eu possuía de falho. Mas não podia ocorrer o mesmo com a idéia de um ser mais perfeito do que o meu; pois fazê-la sair do nada era evidentemente impossível; e, visto que não é menos repulsiva a idéia de que o mais perfeito seja uma conseqüência e uma dependência do menos perfeito do que a de admitir que do nada se origina alguma coisa, eu não podia tirá-la tampouco de mim próprio. De maneira que restava somente que tivesse sido colocada em mim por uma natureza que fosse de fato perfeita do que a minha, e que possuísse todas as perfeições de que eu poderia ter alguma idéia, ou seja, para dizê-lo numa única palavra, que fosse Deus.
*René Descartes

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Racionalismo 1



Definição de método científico de análise lógica segundo René Descartes:

"O racionalismo pode consistir em considerar a razão como essência do real, tanto natural quanto histórico. Sustenta a primazia da razão, da capacidade de pensar, de raciocinar, em relação ao sentimento e à vontade, pressupondo uma hierarquia de valores entre as faculdades psíquicas; ou a posição segundo a qual somente a análise lógica ou a razão pode propiciar desta forma o desenvolvimento da análise científica, do método matemático, que passa a ser considerado como instrumento puramente teórico e dedutivo, que prescinde de dados empíricos, aplicados às ciências físicas que levaram a uma crescente fé na capacidade do intelecto humano para isolar a essência no real e ao surgimento de uma série de sistemas metafísicos fundados na convicção de que a razão constitui o instrumento fundamental para a compreensão do mundo, cuja ordem interna, aliás, teria um caráter racional".

Após o séc. XV o debate filosófico renasce com muita força na Europa pós Idade Média, os questionamentos antes latentes no interior de alguns homens começam a emergir como cartas de alforria à uma elite intelectual para a libertação do pensar, do sentir e do expressar, anteriormente tão coagidos pela religião que a tudo inferia exercendo a ditadura de suas próprias verdades. 

 Há de se convir que no processo de amadurecimento das idéias e dos questionamentos as correntes anteriores como a escolástica e principalmente a renascentista foram determinantes, porém haviam ainda no seio da sociedade Européia feridas expostas que necessitavam de cuidados minuciosos para serem aplacadas. Então a partir do séc. XVII atendendo à antigos anseios criou-se uma forma muito mais sofisticada e menos sectária de se chegar ao coração das questões que afligiam o homem, a investigação científica tornou-se algo comprometido desde seu início com a razão pura e essa foi sendo organizada pela primeira vez em um método o que trouxe um diferencial a essa corrente filosófica em relação às suas antecessoras.

 Uma peculiaridade do séc. XVII é que quase todos os seus grandes pensadores eram também grandes matemáticos e investiram pesado nessa ciência como meio de se comprovar seguramente as verdades do conhecimento, criou-se a idéia de que o método matemático era infalível e só ele poderia garantir a exatidão dos conhecimentos adquiridos, isso entre outras coisas quer dizer que a partir do séc. XVII começa-se a acreditar que todo o conhecimento poderia ser alcançado com o uso exclusivo da razão e que a verdade era de fato algo acessível ao homem. Esse intenso apego aos métodos matemáticos e uma busca profunda pelo pensar emancipado de toda a pressão religiosa e moral foram chaves que caracterizaram a visão objetiva do racionalismo moderno. O ideal Racionalista pressupõe que nada existe sem uma lógica (razão que justifique a existência da coisa em si), de modo geral um racionalista é alguém comprometido com a certeza de que tudo se pode explicar e justificar através de métodos apoiados em raciocínios sistematizados. E diferentemente do que ocorria em outras correntes deve-se salientar que os racionalistas consideravam os sentidos como uma fonte descartável e confusa de conhecimento causando assim a ruptura com as correntes antecessoras, foi René Descartes quem dentre todos os pensadores do início do período teve maior projeção,não só pelo seu potencial mas também por sua originalidade, ele discutiu duramente a cisão proposta entre filosofia e ciência, buscou a reinvenção do sistema de pensamento e dizia que todos os fundamentos das ciências eram insólitos considerando que de tempos em tempos todo o saber era questionado e os paradigmas eram sempre mudados de acordo com as novas convenções, e foi aí que em linhas gerais Descartes e os demais de seu tempo concentraram o seu foco, na busca por uma verdade absoluta e que só viria com uma sistematização fria e racional do mundo. 

Ps: O texto acima é uma parte menor extraída de anotações sobre história da filosofia realizadas há alguns anos, nada revisado, nada corrigido, foi tirado de um rascunho por esse motivo  peço que  perdoe alguma eventual falha ou desatenção. Está sendo postado como primeira resposta àquele e-mail que pergunta sobre o período racionalista, no futuro colocarei à disposição uma versão ampliada  e revisada, matenha contato.

Att, Leandro M. Oliveira.