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quinta-feira, 19 de março de 2009

Ensinamentos de Al-Mustafá

No livro “O Profeta”, Khalil Gibran conta a história de Al-Mustafá, um homem sábio que esta prestes a viajar num navio e no caminho ao porto dá ensinamentos ao povo sobre  a vida , o  amor, a amizade, etc. Alguns trechos (editados) dos quais apresento a seguir me agradam bastante:


O matrimônio

Vocês nasceram juntos, e juntos estarão mesmo quando as asas brancas da morte terminem com seus dias - porque continuarão unidos na memória silenciosa de Deus.

Mas que haja espaço entre os dois. Que o vento dos céus possa passar entre seus corpos.

Amem, mas não transformem o amor em uma atadura.

Que um encha o copo do outro, mas que jamais bebam do mesmo copo.

Cantem e dancem, estejam alegres, mas que cada um mantenha sua independência; as cordas de um alaúde estão sozinhas, embora vibrem com a mesma música.

Entreguem o seu coração, mas não para que seu companheiro o possua - porque só a mão da Vida pode conter corações inteiros.

Estejam juntos, mas não demasiado juntos - porque os pilares de um templo estão separados.

O carvalho não cresce à sombra do cipreste, e o cipreste não consegue crescer à sombra do carvalho.


Os filhos

Seus filhos não são seus filhos; são filhos e filhas da vida. Vieram através de vocês, mas não lhe pertencem.

Podem dar seu amor, mas não seus pensamentos - porque eles tem seus próprios sonhos.

Podem proteger seus corpos, mas não suas almas - porque suas almas habitam na casa do amanhã, que mesmo em sonho vocês não podem visitar.

Podem tentar ser como eles, mas não tentem fazer com que se comportem como vocês; porque a vida não retrocede, nem se deixa seduzir pelo dia de ontem.

Vocês são o arco onde seus filhos, como flechas vivas, são impulsionados para adiante; deixem que a mão do Arqueiro trabalhe, porque assim como Ele ama a flecha que voa, também ama o arco, que permanece estável.


O amor

Quando o amor chamar, aceitem seu chamado, mesmo que o caminho seja duro, difícil.

E quando suas asas se abrirem, entreguem-se, mesmo que a espada que está ali escondida termine provocando ferimentos.

E quando o amor disser algo, acreditem, mesmo que sua voz destrua seus sonhos, como o vento do norte devasta os jardins(...)

O amor não dá nada e não pede nada além de si mesmo. O amor não possui nem é possuído - porque ele se basta.

E não tentem dirigir o seu curso: porque se o amor achar que são dignos, ele os dirigirá até onde devem chegar.
*Khalil Gibran

sábado, 8 de novembro de 2008

Sentimento do Mundo by Gibran

Meus parentes estão mortos e vivo a chorá-los, na minha solidão e isolamento.
Meus amados estão mortos e o seu desaparecimento mergulhou a minha vida na desgraça.
Meus parentes estão mortos e as suas lágrimas e o seu sangue mancham os prados da minha terra e eu estou aqui, vivendo como vivia quando meus parentes e amados estavam sentados no trono da vida e a minha terra estava iluminada pelo sol.
Meus parentes morreram de fome e quem não morreu de fome, morreu pelo fio da espada e eu, vivo neste país longínquo, no meio de um povo alegre e satisfeito, que tem alimentos fartos e camas macias.

Meus parentes morreram de morte humilhante e eu vivo na paz e na abundância. Eis o drama que se desenrola no palco da minha alma.
Se estivesse esfomeado e perseguido, no meio da minha gente esfomeada e perseguida, os dias seriam menos pesados sobre o meu peito e as noites, menos escuras aos meus olhos, pois quem partilha do flagelo dos seus, sente o consolo que nasce do martírio e se orgulha de morrer inocente, entre os inocentes.
Mas não estou no meio do meu povo esfomeado, oprimido e martirizado. Estou aqui, além dos sete mares, protegido pela segurança, provido de todos os bens. Estou longe da tortura e dos torturadores e de nada posso me glorificar - nem mesmo das minhas lágrimas.
E o que pode o exilado distante fazer por seus parentes flagelados?
Sim, de que servem as elegias e o pranto do poeta?
Se eu fosse uma espiga de trigo no solo da minha pátria, o menino faminto me arrancaria e afastaria a sombra da morte com os meus grãos.
Se eu fosse um fruto maduro no jardim do meu país, a mulher prostrada me apanharia e me comeria para recuperar as suas forças.
Se eu fosse um passarinho, no céu da minha terra, o homem famélico me cacaria e com a minha carne, afastaria a invasão do túmulo em seu corpo.
Mas, ai! Não sou nem uma espiga de trigo, nem um fruto maduro na minha terra. E eis a minha infelicidade. Uma infelicidade muda, que me faz sentir pequeno, diante de mim mesmo e diante das sombras da noite.
Eis o drama doloroso que encadeia a minha língua e as minhas mãos e me deixa extenuado, vazio, sem vontade, sem iniciativa.
Dizem-me: "A desgraça da tua terra nada mais é do que um aspecto da desgraça universal e as lágrimas e o sangue que foram vertidos no teu país são apenas algumas gotas do rio de sangue e lágrimas que corre dia e noite nos vales e planícies da Terra".

Sim, mas a desgraça do meu povo é uma desgraça muda, preparada e executada por serpentes, nas trevas e no sigilo.
Se o meu povo se tivesse revoltado contra governantes tirânicos e tivesse perecido inteiramente na rebelião, diria eu que a morte pela liberdade é mais honrosa do que a vida na submissão. E quem penetra na eternidade de espada na mão, torna-se imortal - como a justiça é imortal.
Se o meu país tivesse tomado parte na luta das nações e perecido no campo de batalha, eu diria que a tempestade arranca na sua passagem os ramos verdes e os ramos secos e, que a morte na tempestade é mais honrosa que a morte na apatia da velhice.
Se um terremoto houvesse assolado a minha pátria e enterrado sob os seus escombros meus parentes e bem amados, eu diria que as leis ocultas obedecem a uma vontade superior 'a vontade humana e não devemos procurar penetrar nos seus mistérios.
Mas meus parentes não morreram numa rebelião, nem no campo de batalha, nem num terremoto.
Meus parentes morreram crucificados.
Morreram nas mãos estendidas para o Oriente, e o Ocidente, de olhos fitos na escuridão do espaço.
MORRERAM NO SILÊNCIO, POIS OS OUVIDOS DA HUMANIDADE SE FECHARAM PARA SEUS APELOS E GRITOS.
Morreram, porque não aceitaram aliar-se aos seus inimigos, como covardes; nem renegar seus amigos, como traidores.
Morreram porque não eram CRIMINOSOS.
Morreram porque eram pacíficos.
Morreram de fome na terra onde jorram o mel e o leite.
Morreram porque os demônios roubaram os produtos de seus campos e os rebanhos, de seus pastos.
Morreram porque as serpentes sopram o seu veneno na atmosfera, que antes era perfumada pelo hálito dos cedros e das rosas e do jasmin.

Meus e vossos parentes morreram, ó meus irmãos e compatriotas! Que podemos fazer por quem não morreu com eles?
Nossos lamentos não satisfarão a sua fome. Nossas lágrimas não aplacarão a sua sede. Deixá-los-emos perecer, sem fazermos uma tentativa para salvá-los?
Permaneceremos hesitantes, duvidosos, preguiçosos, distraídos do seu grande drama, pelas futilidades da vida?
O sentimento que nos leva a dar algo da nossa vida para salvar os que correm o risco de perder toda a sua é o único gesto que nos manterá dignos da luz do dia e da quietude da noite.
E o auxílio que colocamos na mão vazia que se estende para nós é o elo de ouro que ligará o que há de humano em nós, aos valores supra-humanos da vida.

*Khalil Gibran

A Beleza

E um poeta disse: “Fale-nos da beleza”. E ele respondeu: “Onde procurareis a beleza e como a podereis encontrar a menos que ela mesma seja vosso caminho e vosso guia? E como podereis falar a menos que ela mesma teça vossas palavras? Os aflitos e os feridos dizem: ‘A beleza é amável e suave. Como uma jovem mãe, meio encabulada na sua glória, ela caminha entre nós.’ Os apaixonados dizem: ‘Não, a beleza é uma força poderosa e temível. Como uma tempestade ela sacode a terra abaixo de nós e o céu acima de nós.’ Os cansados e os gastos dizem: ‘A beleza é um múrmurio suave. Fala em nosso espírito. Sua voz cede aos nossos silêncios como uma luz tênue que treme por medo da sombra.’ Mas os turbulentos dizem: ‘Nós a ouvimos gritar entre as montanhas, e com seus gritos chegavam o tropel de cavalos, o bater de asas e o rugir de leões.’À noite os guardas da cidade dizem: ‘A beleza despontará do Oriente com a alvorada.’ E, ao meio-dia, os trabalhadores e transeuntes dizem: ‘Nós a temos visto inclinada sobre a terra, das janelas do poente.’No inverno, os prisioneiros da neve dizem: ‘Ela virá com a primavera, pulando sobre as colinas.’E no calor do verão, os ceifeiros dizem: ‘Nós a vimos dançar com as folhas do outono, e havia neve no seu cabelo.’


Todas essas coisas dissestes da beleza. Na verdade não falastes dela, mas de desejos insatisfeitos. E a beleza não é um desejo, mas um êxtase. Não é uma boca sequiosa, nem uma mão vazia que se estende, Mas antes, um coração inflamado e uma alma encantada. Ela não é a imagem que desejais ver, nem a canção que desejais ouvir, Mas, antes, a imagem que contemplais com os olhos velados e a canção que ouvis com os ouvidos tapados. Não é a seiva por baixo da cortiça enrugada, nem uma asa atada a uma garra, Mas, sim, um pomar sempre em flor, e uma multidão de anjos em vôo. Povo de Orphalese, a beleza é a vida quando a vida desvela seu rosto sagrado. Mas vós sois a vida, e vós sois o véu.A beleza é a eternidade olhando para si mesma num espelho. Mas vós sois a eternidade, e vós sois o espelho.”

*khalil Gibran de "O Profeta"