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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Os Doze Trabalhos

IV

Naquele tempo onde não se concebe
O instante fugiu aos olhos
E o senso mergulhou perdido
Na lembrança calcinada
Da fogueira antiga.

Resgatar como uma fênix invencível
A frágil ave que aqui tombou, silente.
Sem as potestades do encantamento
Ter um amor repartido em vinho e pão,
Costurar as pálpebras no mergulho
Fundir a vida ao calor de uma entrega.

O coração é um órgão de fogo!
Inaudita matéria, confusão de astros
Arremessando a esmo luz na treva.
Que o céu torna menos augusto
A cada destino não consumado.
O mundo convertido em massa fria,
E eu assim, perdidamente
A encher de magma os olhos.

*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Os Doze Trabalhos

III
A esmo de um poente esquecido
Corpos se contraem involuntários.
Onde mapas são dissolvidos por marés,
Pessoas dialogam com as estrelas
Utilizando o astrolábio torpe da imaginação.

Nessa jornada às origens
O lembrado é esquecido,
E o real, fragmento de não lembrança.
Nesse hemisfério só o mar insiste,
Ele e sua presença uterina.

Liquefazer um corpo sólido,
Descobrir no músculo que retrai
Uma torrente fluida.
Abraçarei o peso dos oceanos
Como pudesse encontrar a passagem,
Nada há de mais úmido
Que o sonho perdido antes de seu tempo.

*Leandro M. de Oliveira

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Os Doze Trabalhos

II

Um tempo que jamais pôde existir,
Pássaros e bússolas atordoadas.
Com a hostilidade do ar
Reinvento o teu peito no horizonte,
Vacante e imenso
Como fora esse sonho acontecido
No recôndito da mais pura verdade.

Dar aspecto às coisas inconcebíveis,
Apreender uma matéria longínqua
Ao modo dos que amam sem reservas.
O céu é uma escultura de chumbo
Porque o oxigênio é o mais imprevisível dos metais.

Suspirar como quem devora
Voar como a alma tivesse mãos e olhos.
Pintar as asas do grifo,
Espalhar cores de borboleta pela casa.
Onde adormecem os anjos?
Lá, muito além da suposição herdada.

*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Os Doze Trabalhos

I

Nesse lugar esquecido
Onde se vive sem sentir
Pessoas morrem de alma inacabada.
Deixarei as carnes repartidas
Em memória ao soldado desconhecido,
Um ponto branco ao negrume do mar azul.

Pegadas fugidias na areia
Minha tresloucada memória,
A química não explica a cal da vida.
Só o que persiste,
É um bosque inocente
Cem mil peitos abertos,
E a fome de devorá-los
Como em um incêndio criminoso.

Lida incomum essa que fora herdada,
Fazer no desespero a calmaria,
Vistoriar o chão
Sem saber como umedecer a terra.
*Leandro M. de Oliveira