quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Ensaios de Friedrich Nietzsche 1ª Parte

Moral como Antinatureza (Parte 1)

I
Todas paixões têm uma fase em que são meramente desastrosas, em que aviltam sua vítima com o peso
da estupidez – e uma fase posterior, muito posterior, em que se casam com o espírito, se
“espiritualizam”. Antigamente, em vista da estupidez na paixão, declarava-se guerra à própria paixão,
conspirava-se pela sua destruição; todos os velhos monstros da moral concordavam quanto a isto: il faut
tuer les passions [1]. A fórmula mais famosa para isso encontra-se no Novo Testamento, naquele Sermão
da Montanha, onde, diga-se de passagem, as coisas não foram de modo algum olhadas do alto. Nele é
dito, por exemplo, particularmente em relação à sexualidade: “Se teu olho te escandaliza, arranca-o
fora”. Felizmente nenhum cristão age de acordo com esse preceito. Destruir as paixões e os desejos,
simplesmente como uma medida preventiva contra a estupidez e as conseqüências desagradáveis dessa
estupidez – hoje isso se apresenta a nós apenas como outra forma aguda de estupidez. Não admiramos
mais os dentistas que arrancam dentes para que não doam mais. Para ser justo, deve-se admitir,
entretanto, que sobre o solo no qual o cristianismo se desenvolveu, o conceito de “espiritualização da
paixão” nunca poderia formar-se. Afinal, a Igreja primitiva, como todos sabem, lutou contra os
“inteligentes” em favor dos “pobres de espírito”. Como se poderia esperar dela uma guerra inteligente
contra a paixão? A Igreja combate a paixão através do aniquilamento em todos os sentidos: sua prática,
sua “cura” é a castração. Ela nunca pergunta: “como se pode espiritualizar, embelezar, divinizar um
desejo?” Em todos os tempos colocou a ênfase da disciplina na extirpação (da sensualidade, do orgulho,
do desejo de dominar, da avareza, da vingança). Mas um ataque às raízes da paixão significa um ataque
às raízes da vida: a prática da Igreja é hostil à vida.
[1] É necessário matar as paixões.

II
Os mesmos meios na luta contra um desejo – castração, extirpação – são instintivamente escolhidos por
aqueles que possuem uma vontade fraca demais, degenerada demais, para poderem impor a moderação
a si mesmos; por aqueles que necessitam de La Trappe, para falar figuradamente, ou (sem figuras de
linguagem) alguma espécie de declaração definitiva de hostilidade, um abismo entre eles e a paixão.
Meios radicais são indispensáveis apenas para os degenerados; a fraqueza da vontade – ou, falando de
modo mais preciso, a incapacidade de não responder a um estímulo – é em si apenas outra forma de
degeneração. A hostilidade radical, a hostilidade mortal contra a sensualidade é sempre um sintoma
merecedor de reflexão: ela nos permite fazer suposições concernentes ao estado geral de quem é
excessivo desta maneira.
Essa hostilidade, esse ódio, a propósito, alcança seu clímax apenas quando esses tipos carecem mesmo
da firmeza suficiente para a cura radical, para a renúncia a seu “Diabo”. Deveria-se examinar toda a
história dos sacerdotes e dos filósofos, incluindo a dos artistas: as coisas mais venenosas aos sentidos
foram ditas não pelos impotentes, nem pelos ascetas, mas pelos ascetas impossíveis, por aqueles que
realmente tinham uma necessidade enorme de ser ascetas.

III
A espiritualização da sensualidade é chamada amor: representa um grande triunfo sobre o cristianismo.
Outro triunfo é a nossa espiritualização da hostilidade. Ela consiste num profundo reconhecimento do
valor de se ter inimigos: em suma, significa agir e pensar de modo oposto ao que outrora era a regra. A
Igreja sempre desejou a destruição de seus inimigos; nós, imoralistas e anticristãos, encontramos nossa
vantagem nisto: que a Igreja existe. No âmbito da política a hostilidade também se tornou mais
espiritualizada – muito mais sensível, muito mais pensativa, muito mais ponderada. Quase todo partido
compreende que é de interesse à sua própria autopreservação que seus opositores não percam toda a
força; o mesmo vale para políticos poderosos. Uma nova criação em particular – um novo Reich, por
exemplo – necessita mais de inimigos que de amigos: somente na oposição ele sente-se necessário,
somente na oposição ele torna-se necessário. Nossa atitude perante o “inimigo interior” não é de modo
algum diferente: aqui também espiritualizamos a hostilidade; também aqui reconhecemos seu valor. O
preço da fecundidade é ser rico em oposições internas; permanece-se jovem enquanto a alma não relaxa
e anseia pela paz. Nada nos parece mais estranho que aquele desejo dos tempos antigos, o desejo
cristão: a “paz da alma”; nada nos causa menos inveja que a vaca moral e a felicidade gorda da boa
consciência. Renuncia-se à vida grandiosa quando se renuncia à guerra.
Em muitos casos, certamente, a “paz da alma” é apenas um mal-entendido – algo diverso, para o qual
falta um nome mais honesto. Sem mais rodeios ou preconceitos, vejamos alguns exemplos. A “paz da
alma” pode ser, para alguém, a suave irradiação de uma rica animalidade no interior da esfera moral (ou
religiosa). Ou o começo do cansaço, a primeira sombra da noite, qualquer espécie de noite. Ou o sinal de
que o ar está úmido, de que os ventos do sul se aproximam. Ou uma inconsciente gratidão por uma boa
digestão (por vezes chamada “amor aos homens”). Ou a obtenção da calma por um convalescente que
sente um novo sabor em todas as coisas, e aguarda. Ou o estado que se segue de uma completa
satisfação de nossa paixão dominante, o bem-estar de uma rara repleção. Ou a fraqueza senil de nossa
vontade, de nossos desejos, de nossos vícios. Ou a preguiça, persuadida pela vaidade a exibir uma
aparência moral. Ou o aparecimento da certeza, mesmo da certeza terrível, após uma longa tensão e
sofrimento causados pela incerteza. Ou a expressão da maturidade e maestria em meio ao agir, criar,
trabalhar e desejar – respirar tranqüilo, a “liberdade da vontade” alcançada. Crepúsculo dos Ídolos –
quem sabe? Talvez também apenas um tipo de “paz da alma”.

Bom Pessoal, acho que o cara que fez esse texto despreza apresentações, é o meu filósofo preferido, as suas lições sobre a necessidade de libertação do senso comum na busca pelo estado de Übermensch (super homem), sempre me afiguraram como um farol na noite escura... E hoje nesses tempos de descrença em que nos entregamos a verdades pré-fabricads, aparece novamente Nietzche, como uma sentinela velando pela libertação de cada um. A transcendência desse estado de torpor contínuo em que vivemos (sociedade) parece uma jornada dura, parece uma busca solitário, mas é a vida, se cada um não toma posse integral da sua termina como escravo retido sob os piores grilhões, que são aqueles que não se pode ver, e você se deita na confortável cama ou dirige seu novo carro, projeta uma imagem de sucesso para os que passam, mas naquela escura fenda por entre as rochas onde ninguém ousa descer existe uma insatisfação latente, que vem e sufoca com um toque silencioso, sem se explicar. E você se vê finalmente preso, sitiado pela artificialidade de suas próprias construções, a solução, faça como Nietzche deixe de ser apenas homem, seja dinamite¹ pura e exploda toda a hipocrisia que tão cuidadosamente você e as pessoas a seu redor tem alimentado. Nas próximas postagens virá a segunda parte do ensaio acima assim como novos textos, a todos boa leitura.

1 - "Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo - de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciência, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, querido. Eu não sou um homem, sou dinamite." (Nietzsche - Ecce Homo)

Um comentário:

Fairy disse...

sorte a nossa, imoralistas (mesmo que oportunamente..), com nossas pequenas e grandes loucuras... com nossos corações, mentes e olhos abertos...