terça-feira, 20 de julho de 2010

Don Juan (A presa vem às cercanias de seu predador)

O momento passou sem que ela lesse os sinais do caminho. A premonição é um dom mais ordinário do que se imagina, mas as pessoas esquecem. Todos os avisos possíveis foram dados previamente, muito embora se reconheça que meus quadris os tenham dissimulado. Agora é uma viagem sem volta. Trarei meu coração vazio e a horda de cães famintos que me habitam em toda parte. Se fossemos espíritos tão grandiosos não estaríamos aqui, a fama ou a vitória é uma quimera cega. Por um momento ela hesitou de mim, mas a sensação de perigo é qualquer coisa como fugir ou estar de férias. Transgredir tem seu preço, é provável que aceitar a própria modéstia fosse uma garantia de perenidade. Pode ser. Então Don Juan não existiria e todos seriamos gado pastoreado do rebanho tedioso e uniforme. Não que eu a vá transformar em coisa mais digna.

Desde cedo compreendi que a brancura do couro virgem não combina com o negro de minhas sombras. Isso te excita mais que o aparente, vejamos de uma vez como você suporta o frenesi do carinho de mãos que n’alma soam como navalha afiada. Abrirei uma chaga no horto de teus sonhos, caso eles sobrevivam ao que esta por vir. A consciência de ter sido vomitado pelo universo não é exatamente algo reconfortante, mas sobretudo pedagógico. Quando não se espera nada de alguém ele é livre para ser o que quiser, mesmo não entendendo o que isso significa. Estar alheio ao comum confere uma espécie de onipotência, isso deve ser vivido em silêncio, a trilha de corpos já é alarde suficiente. Por que você não manteve distância antes que eu descobrisse que era só uma mulher? O seu direito à fuga acaba de ser cerceado, se houvesse uma próxima vez eu recomendaria mais cautela. Ninguém nunca conseguiu durar tanto tempo. Acredite em mim, você não é nem um pouco melhor.

Quando isso terminar... Não saberia o que dizer. Mergulharei em tuas entranhas como um javali selvagem rasga a pradaria. Terei ardor ao comer de tua carne, ao beber de teu sangue, mesmo não sendo algo pessoal. Sou refém da história que me deram, o que faço não é por vaidade, tudo é um fim em si mesmo. Essa, aquela, loura, parda, ruiva, completamente incidental. Não sinto amor, nem ódio, nem tristeza ou alegria. Essa situação pode parecer perversidade de minha parte, não é. Isso nada tem haver com discursos morais ou outras mentiras quaisquer, a questão aqui envolve apenas uma compreensão mais refinada da cadeia alimentar. Pedir ou berrar, a partir desse ponto ja é irrelevante. Ninguém me ensinou outros modos, a única coisa que sei é queimar plantações e derrubar casas, por mais vistosas que sejam.

Existe uma beleza intransponível na tragédia, se quer um sobrevôo pela vida, meu corpo é o único planador possível. O leito que te afaga e a dor que te há de consumir. Quando for levantar pela manhã, não estranhe a falta de paladar no café, é natural a quem já está morto. O prazer é um cavalo selvagem, sempre derruba quem nele monta sem demonstrar cautela. Eu só venho cobrar a tua dívida, nada mais. Olhe-me nos olhos enquanto escarro em teu rosto, esse é um gesto da minha ternura mais profunda. Quero que você se concentre no que havia antes de mim, porque agora tudo foi perdido.
*Leandro M. de Oliveira

O ethos e a genética

A seleção natural, nos tempos ancestrais, quando vivíamos em bandos pequenos e estáveis como o dos babuínos, programou impulsos altruístas em nosso cérebro, junto com impulsos sexuais, impulsos de fome, impulsos xenofóbicos, e assim por diante. Um casal inteligente pode ler Darwin e ficar sabendo que o motivo último de seus impulsos sexuais é a procriação. Eles sabem que a mulher não ficará grávida porque está tomando pílula. Mesmo assim seu interesse sexual não fica diminuído por conta desse conhecimento. Desejo sexual é desejo sexual, e sua força, na psicologia individual, independe da pressão darwiniana que o provocou. É um forte impulso que existe de forma independente de sua explicação racional.

Estou sugerindo que a mesma coisa aconteça com a bondade — com o altruísmo, a generosidade, a empatia, a compaixão. Nos tempos ancestrais, só tínhamos a oportunidade de ser altruístas em relação aos parentes próximos e a potenciais replicadores. Hoje essa restrição não existe mais, mas a regra geral persiste. Por que não persistiria? É a mesma coisa que o desejo sexual. Não podemos fazer nada para deixar de sentir pena quando vemos um desafortunado chorando (mesmo que não seja nosso parente nem seja capaz de retribuir), assim como não podemos fazer nada para deixar de sentir desejo por um integrante do sexo oposto (que pode ser estéril ou incapaz de reproduzir). As duas situações são “erros”, equívocos darwinianos: equívocos abençoados e maravilhosos.

Não encare nem por um segundo essa darwinização como desmerecedora das nobres emoções da compaixão e da generosidade. Nem do desejo sexual. O desejo sexual, quando canalizado pelos conduítes da cultura linguística, ressurge na forma de grandes obras de poesia e de dramaturgia: os poemas de amor de John Donne, por exemplo, ou Romeu e Julieta. E é claro que a mesma coisa acontece com o redirecionamento equivocado da compaixão baseada no parentesco e na retribuição. A piedade em relação a um devedor, quando vista fora de contexto, é tão antidarwiniana quanto adotar o filho de outra pessoa.
*Richard Dawkins

Deus Existe? (parte 2)

O Argumento do Desígnio

O Argumento do Desígnio (também conhecido como Argumento Teleológico) parte do fato de que o universo comporta toda a espécie de padrões ou de regularidades, tão diferentes como os intrincados padrões dos flocos de neve, a lei da atração universal e a maravilhosa complexidade do corpo humano. Algumas espécies de ordem (como, por exemplo, a ordem num mecanismo de um relógio de pulso ou na construção de uma represa por um castor) são explicadas pelo homem ou por outros animais. Mas muitas regularidades não podem ser explicadas dessa maneira; por exemplo, a ordem dos cristais ou a constância do ponto de fusão de cada uma das diferentes espécies de elementos. O argumento do desígnio postula um deus para explicar essas espécies de ordem que não são explicadas de outra maneira. Eis uma versão do argumento do desígnio:

1. Há ordem no universo.

2. Mas a ordem não pode existir sem desígnio. (Isto é, sem um projetista).

3. Logo, deve haver um projetista: Deus.

A força psicológica e apelativa do argumento é óbvia. A estonteante e maravilhosa complexidade de algo como o corpo humano parece gritar por um projetista ? um ser que calculou como funcionaria e depois o compôs. Nem a teoria da evolução satisfaz esta necessidade, dado que os detalhes de tais teorias dependem de leis da física e da química que, elas mesmas, exibem maravilhosas regularidades. No entanto o argumento tem falhas sérias ou mesmo fatais.

Objeções ao Argumento do Desígnio

A objeção mais óbvia é a de que, no melhor dos casos, o argumento do desígnio apenas prova que há um projetista e não um Deus padrão, tal como o argumento da causa primeira apenas provaria que há uma primeira causa. O projetista, claro, não precisa ser um Deus padrão; poderia muito bem ser o diabo, muitos deuses, um outro deus ou, talvez, um deus já falecido. Mas o argumento do desígnio nem sequer prova tanto porque a sua segunda premissa (a de que a ordem nem poderia existir sem um ordenador) é duvidosa, para não dizer pior. Porquê assumir que a ordem não pode existir sem um organizador?

Afirma-se muitas vezes que podemos justificar a existência de um projetista por um método chamado indução. Verifica-se que muitas coisas que manifestam ordem (relógios de pulso, por exemplo) foram deliberadamente compostas por projetistas humanos ou animais. Já vimos muitos relógios que sabemos que são projetados por humanos mas nunca vimos um que, sendo investigado, provasse não ter sido assim projetado. Portanto, se agora nós descobrirmos um relógio de pulso na areia de uma praia deserta. Assumimos (por indução) que ele também foi projetado por humanos.

Flocos de neve, as leis da natureza e o corpo humano manifestam ordem (apesar de, claro, nunca termos visto um projetista, humano ou não, a projetá-los). Sabemos, claro, que os seres humanos (ou noutros animais) não podem tê-los ordenado, pelo que concluímos, por indução, algum organizador não animal, nomeadamente Deus, deve tê-los feito assim.

Mas esta conclusão não está justificada. Quando concluímos por indução que o relógio de pulso encontrado na areia não se ajeitou sozinho ou que não apareceu completo por acidente, e que, portanto, deve ter sido projetado por seres humanos, estamos seguros. O nosso argumento assemelha-se a isto:

1. Já foram observados muitos relógios de pulso, e todos os que foram examinados foram projetados por humanos.

2. Este relógio deve ter sido projetado por seres humanos.

Podemos, inclusive, argumentar em termos mais gerais e, portanto, de uma maneira mais poderosa, assim:

1. Muitos dispositivos mecânicos foram já observados, e de todos os que foram examinados se concluiu que foram projetados por humanos.

2. Este dispositivo mecânico (que, por acaso, é um relógio de pulso) deve ter sido projetado por seres humanos.

Notemos agora quão mais geral um argumento teria de ser para nos levar até um projetista de flocos de neve, leis da natureza ou seres humanos:

1. Muitas das coisas organizadas têm sido observadas e de todas as que foram examinadas se concluiu que foram projetadas por humanos.

2. Esta coisa organizada (que, por acaso, é um floco de neve, uma lei da natureza ou um ser humano) deve ter sido projetada por um projetista.

O argumento é claramente defeituoso porque a sua premissa é obviamente falsa. Há um grande número de coisas ordenadas para as quais não descobrimos um projetista ou um organizador ? flocos de neve, arco-íris, cristais e seres humanos são alguns. (Se há um deus que projetou todas essas coisas, então, para observarmos o projetista de flocos de neve a trabalhar, teríamos de apanhar Deus no ato de os amoldar a partir de H20, ou, talvez, de o apanhar no ato de criar as leis da física de que resulta que H20 se compõe a si mesmo em flocos de neve).

O ponto é o de que as coisas que manifestam ordem parecem cair em duas classes distintas: aquelas que nós (ou outros animais) ordenaram; aquelas que não ordenamos. Já verificamos e encontramos muitos itens da primeira classe que são projetados por humanos. Mas nunca encontramos um projetista para um só membro da segunda classe. Portanto, não estamos autorizados a concluir por indução que toda a ordem implica um organizador ou um projetista, logo o argumento pelo desígnio não pode ser apoiado pelo raciocínio indutivo. Se estamos prontos para o aceitar, devemos estar a fazê-lo sem razão, isto é, pela fé.

A aposta de Pascal

O grande matemático e filósofo francês, Blaise Pascal (1632-1662), argumentou pela existência de Deus de maneira algo diferente:

“Deus existe ou Deus não existe… Que apostarás tu? De acordo com a razão, não poderás fazer nem uma coisa nem outra; de acordo com a razão não poderás defender nenhuma das opções… mas deves apostar. [E quanto à] tua felicidade? Pesemos ganhos e perdas apostando que Deus existe… Se ganhares (a aposta), ganhas tudo; se perderes, não perdes nada. Aposta então, sem hesitação, que Ele existe.”

A base da aposta de Pascal parece ser esta: devemos apostar (acreditar) em que Deus existe ou em que Deus não existe. Se Deus não existe, aquilo em que apostarmos fará pouca diferença. Mas se ele existir, fazemos um grande negócio. Assim a pessoa esperta ou sensata apostará (acreditará) que Deus existe.

Objeções à aposta de Pascal

Em primeiro lugar, Pascal está enganado na sua crença de que devemos apostar contra ou a favor da existência de Deus. Podemos optar por permanecer nas margens como faz o agnóstico. Claro que nesse caso podemos perder o prémio, se houver um prémio, por termos apostado incorretamente. Mas Pascal não pode provar que há tal prémio.

Em segundo lugar, a aposta não é tão simples como Pascal pensou porque há um número indefinido de possíveis criadores. O Deus cristão padrão em quem Pascal apostou é apenas um deles. Assim, o número de possibilidades para apostar é muito maior do que duas e jogadores racionais não têm a possibilidade de escolher mesmo que queiram escolher um Deus ou outro. Por outras palavras, se a aposta de Pascal faz sentido, será tão razoável apostar num deus lua ou deus sol como no Deus dos Judeus, Cristão ou Muçulmano.

E, finalmente, não há nenhuma prova ou razão para supor que ganhamos um prémio se apostarmos no Deus que de fato exista. Porque não podemos assumir sem razões que Deus recompense os crentes ou que puna os descrentes. (De fato, em última análise o próprio Pascal apelou à revelação ou fé). Pelo contrário, as intuições de muitos de nós dizem precisamente o contrário talvez porque quando nos tentamos pôr no lugar de Deus, percebemos que estaríamos inclinados a olhar a crença baseada na aposta de Pascal como sendo hipócrita. Deus, se existir, pode impressionar-se bem mais com a honestidade daqueles que não conseguiram apostar (acreditar) na ausência de provas do que com aqueles que acreditam porque pensam que é prudente fazê-lo.
*Howard Kahane

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Minotauro

Depois de algum tempo a descoberta de estar colocado em um mundo de cabeça pra baixo é inevitável. Parece algo como enfiar as mãos em bolsos furados, ou um parto de cócoras sem auxílio profissional. Não há um analgésico específico, se a criança possuir saúde frágil, os recursos de tratamento são precários. O que ainda se pode tentar é ser resignado com a tragédia surda de mãos e olhos. Celebrar Baco com um copo sujo de água ferruginosa. Os Deuses foram exilados, a alegria também. Nos dias em que se passam é como que ser grande significa regredir ao pequeno, evadir-se ao triunfo em nome da piedade vã. A cratera dos mundos foi aberta a nossos pés, ninguém pode se sentir isento por não ter saltado. A vida é impiedosa àquele que hesita.

No meio de uma noite hipotética, dois carinhos se buscam, hipoteticamente. Esperar o encontro aqui, é como viver abaixo da linha da miséria. Ademais do inverno, entre as árvores e o impossível, uma revolução botânica prepara a primavera. Lírios, cravos, jasmins, rosas, amores-perfeitos... Essa apoteose dos bosques murmura nas veias da terra. O ar quer se tornar respirável de novo, liquens de formas inverossímeis são depositados pela relva. E eu que tenho estado daltônico, vejo a explosão de cores como um filme dos anos 30. A nostalgia é para o homem como estrelas são para o céu, ou o vômito é para o bêbado. Ha quem se conforte em carregar um cadáver nas costas, adorar um defunto conhecido pode ser mais estável que apostar em uma vida ainda por descobrir. O problema é que a matéria se decompõe e o corpo de quem carrega o cadáver, por extensão, acaba convertido em cemitério ambulante.

Dais as traças uma colônia no lado esquerdo de teu peito!

Abaixo de galhos, bromélias e sonhos, uma turba de jovens prageja contra o desabrochar das flores. Há um terrorismo cruel nos jardins. Atravessar um canteiro de orquídeas é muito mais difícil que saltar de um penhasco. A beleza põe abaixo o ímpeto. É impossível fugir, lá fora, leões e panteras desfecham golpes no ar, aqui dentro, mães choram por filhos que nunca nasceram. A morte faz pensar no que vem depois, isso não se aplica ha uma morte anterior à vida. Ver a bailarina rodopiante e ter no corpo o vigor exaurido para acompanhar a dança. Mergulhar sem querer num passado em que as coisas eram simples, descobrir que o que resta são rugas e frases de adeus mal formuladas.

E essa figura dourada invade a tela, a cena, a desesperança. Deve-se sentir compaixão por ela, que ainda não entendeu o propósito disso. Os homens nada mais são que escombros de si mesmos. Aquele encanto original só é possível quando inédito. Especular já significa ter certeza de algo, a condução do caminho fica mais branda quando estão obsoletos sentido e razão. Entregar-se, calcular-se, escarrar-se. A revolta parece ser o salário do que é parcial, há um vazio sublime na totalidade. Reorientemos as coordenadas porque, o fim da palavra é o silêncio, do mesmo modo como o do algo é o nada. Ou não é?

Talvez aconteça que o silêncio da palavra seja o que faz dela mais grave e constante. Que o não existir é a substância única de tudo quanto pode haver. Quem vai ter a chave do dilema, o que julgar certo numa terra onde nada tem sentido... As palavras conseguem incendiar, ou congelar o homem mais constante, ainda que sejam abstrações da mente irrequieta ou convulsões da alma em descaminho. Reencontrar nelas a verdade, do pensamento ou do vazio, é como amputar uma parte do próprio corpo. Quero me deitar num sono leve, sem contudo saber exprimir o que estará acontecendo.

Não importa quanto tempo se dedique, no final tudo termina do jeito mais ingrato possível.

Escrever é a última coisa que resta depois que se traiu alguém...
*Leandro M. de Oliveira

Don Juan

(Em lugar algum perdido jovens sem futuro tramam cartas de amor,
senhoras puras maculam seus leitos beatos,
e enquanto isso um homem desesperado é sincero pela primeira vez...)

Dama de longos estivais, se me é permitido um conselho vos dou, esqueça a vaidade de teu nome. Suas veias ardem porque estão dominadas pela ambição invencível, pelo frenesi desmesurado e ancestral que leva o homem a pensar um estado de invulnerabilidade. Como uma sombra do tártaro, as seduções levianas do que pode haver de “casto” amordaçam seu corpo, enquanto o interior sequioso de suas coxas vislumbra coisas que vão além de uma retração absurda. Eu estava lá quando tudo começou... Essa jaula não comporta a geometria de tuas curvas, perecer em auto-degradação é coisa entregue a deuses e loucos.

Eventualmente você tem sentido um calafrio entre as pernas, como se minha barba mal feita roçasse lugares proibidos. Nesse momento seu corpo muda num arrepio inconsútil, a eletricidade te faz desesperar... Alheio ao entorno, seu corpo arcaico mostra sinais de vencida, seus olhos gritam como dois faróis. Reconhecer a força do oponente não é estar derrotado. Eu inventei o traçado de seus passos, montei guarda numa espera anterior à tua vinda. Salve a alma que te resta, tudo o mais já me pertence.

Há apenas uma mulher que usa vários rostos, você não pode querer ser diferente. És a mesma que me iniciou, e a mesma a quem fiz estremecer, quando já velho encontrei-a ainda como uma flor não colhida. Você quer fugir pra um lugar onde as coisas não pareçam tão irremediáveis, mas a calamidade em seu rosto te faz imóvel. Tenha o prazer do meu corpo de um modo animal, ou reze aos céus em contrição à decadência de tua vontade. Ainda é possível escolher, mas por pouco tempo. Se isso realmente conforta, eu não sei.

Há homens bem intencionados, como o outro que te quis. Suas mãos eram formadas em meandros de calos, as minhas são do mesmo modo em sangue, vertido de hímens inocentes, sugados de jugulares incautas. Há um charme febril nos assassinos por serem homens livres, você não é a primeira a perder a compostura quando me vê. Corte meus pulsos, por favor mate-me agora.Toda beleza é fugaz, todo carinho é agressão. Posso te ensinar a sorrir um pouco, depois como sempre, terá de aprender sozinha como se chora dignamente, não importa. De qualquer forma, a essa altura já estarei longe. Tudo o que existe de relevância vive em nós, entre o suor e fúria. Piedade é o único crime que não admite perdão.

Quero rasgar jugulares, me banhar em desejo rubro. Venha à mesa do sacrifício, naquele lugar terá tudo o que procura. Não é questão de estar se gabando, vendendo a visão de um sacerdote refinado. As coisas são como são, nasci para vitimar mulheres, como algumas flores nascem para a primavera ou uma moça puritana para ser desvirginada após o matrimônio. O vacilo de seus joelhos em permanecerem firmes não é medo, só um estado de incerteza quando se sabe estar perto do fim. Farei com que isso seja inesquecível, essa será tua pena mais aguda. Caminhar no tempo presente sempre dando conta de estar ainda abrigada por um passado longínquo. Minha imaterial lembrança te fará urrar como um cão quando a lua for cheia, ou gritar de horror quando perceber que tudo é sonho, pedaço de descaminho que vive onde não se consente.

Por quê eu faço isso? Pra cada mil perguntas há um milhão de respostas. Talvez uma delas seja, porque eu posso! A benevolência é luxo de quem tem família, eu fui abortado, a vida me fez assim e me deu ao mundo como flagelo. Sodomizaria minha própria mãe se a conhecesse, não é o que se passa. A pobre que me deu a luz foi só mais uma vítima das circunstâncias. Quando penso na criança que deves ter sido ha anos atrás, quase consigo consigo ter remorso, é impossível. O tempo assim como a natureza, são forças por demais implacáveis. Exterminarei o bom de ti sem mesmo saber o por que. Quando a máscara cair, pode ser que minhas cicatrizes a incomodem. Que a luz se apague então, para que fantasmas bailem em traje de gala.

*Leandro M. do Oliveira

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Deus existe? (Parte 1)

É racional acreditar na existência do Deus padrão? Poderá apresentar-se uma boa razão ou um argumento irresistível a favor da sua existência? Alguns teístas dizem que não e baseiam a sua crença na fé, ou seja, acreditam sem provas ou razões. Outros teístas, pelo contrário, pensam que se podem construir argumentos para provar que o Deus padrão existe.

De fato, muitas espécies de razões foram apresentadas para acreditar em Deus (e as mesmas razões foram expostas para acreditar em deuses diferentes e incompatíveis). Algumas razões são facilmente classificadas de insatisfatórias. Por exemplo, o argumento de que Deus deve existir porque em quase todas as sociedades as pessoas acreditam nele. A aceitação generalizada de uma crença não é, decerto, uma boa razão para aceitá-la.

Muitas crenças falsas são ou foram quase universais (por exemplo, a de que a Terra é plana). Mais ainda, apesar de a crença num deus ou noutro ser quase universal, não há um deus em que a maioria das pessoas acredite. Como poderia, por exemplo, o fato de algumas pessoas acreditarem num deus crocodilo justificar a crença no Deus cristão? (Lembremos que a grande maioria dos crentes não acredita no Deus cristão)

Falta de razões para acreditar no contrário

Alguns crentes, notando que os agnósticos afirmam que não podemos provar que Deus não existe, seguem outra via. Argumentam que se não podemos provar que Deus não existe, então eles estão autorizados a acreditar que ele existe. Mas os ateus podem virar este argumento do avesso. Podem fazer notar que os agnósticos também afirmam que nós não podemos provar que Deus existe. Logo, se não podemos provar que Deus existe, estamos igualmente autorizados a acreditar que ele não existe. Um método de raciocínio que nos permite "provar" ambos os lados de uma disputa, não prova nenhum. A ausência de prova do contrário não é uma boa razão para acreditar em alguma coisa.

Argumentos cosmológicos

Vários argumentos estreitamente relacionados para a existência de Deus baseiam-se na aparente necessidade de o universo como um todo ter uma causa. Parecem existir três possibilidades. Ou o universo começou a existir por si só ou existiu desde sempre ou, então, foi trazido para a existência por alguma força ou ser extremamente poderoso. Geralmente, aqueles que acreditam em Deus acham incrível que o universo possa ter chegado à existência apenas por si mesmo e igualmente incrível que ele possa ter já existido durante uma quantidade infinita de tempo. Acreditam que um ser extremamente poderoso, Deus, o deve ter criado. Esta é uma das razões que as pessoas dão com mais frequência para acreditar em Deus.

O Argumento da Primeira Causa

Os argumentos da primeira causa resultam das nossas observações quotidianas das maneiras pelas quais as coisas ou acontecimentos da vida de todos os dias parecem ser causados para ser ou para ocorrer. Observamos, por exemplo, que pôr açúcar na chávena do café causa a doçura do seu gosto, que pôr água na planta causa o seu crescimento e que riscar um fósforo na presença de oxigênio o faz arder. No entanto, parece impossível explicar a existência de tudo em termos de causa e efeito, porque isso significaria que deveria haver uma série infinita (ou sem fim) de causas, o que parece impossível.

Eis uma maneira pela qual estas idéias têm sido usadas para argumentar a favor da existência de Deus:

1. Na vida de todos os dias, descobrimos que tanto os objetos como os acontecimentos são causados por outros (tal como o crescimento das plantas é provocado pela absorção de nutrientes).

2. Mas uma série infinita de causas desse tipo é impossível porque então não haveria uma primeira causa, e, portanto, não haveria uma segunda, terceira, etc.

3. Logo, deve haver uma primeira causa: Deus.

Objeções ao argumento da Causa Primeira

Em termos aproximados, podemos dizer que um argumento é conclusivo (deve persuadir-nos a aceitar a respectiva conclusão) apenas se satisfaz duas condições:

1. As suas premissas são aceitáveis ou estão justificadas.

2. As suas premissas (justificadas) fornecem provas ou razões suficientes para justificar a aceitação da conclusão (neste caso o argumento é dito válido).

Muitas pessoas que rejeitam o argumento da primeira causa acreditam que argumentos deste tipo sofrem todos de um de dois defeitos: ou as suas premissas são tão inaceitáveis ou questionáveis como as suas conclusões; ou as respectivas conclusões não se seguem validamente das premissas. Por exemplo, uma objeção levantada contra o argumento da primeira causa é o de que a segunda premissa não é aceitável (quase todas as pessoas aceitam a sua primeira premissa). Os matemáticos em particular têm argumentado a favor da possibilidade de séries infinitas de eventos ou causas em termos técnicos e alguns filósofos têm aceitado o seu raciocínio.
Suponhamos, no entanto, que rejeitamos a idéia de que pode haver uma série infinita de causas, de tal modo que ambas as premissas do argumento da causa primeira se tornam aceitáveis. Apesar disso o argumento ainda falharia em ser válido e, portanto, a aceitação da sua conclusão também não se justificaria.

Em primeiro lugar, o argumento apenas provaria que cada série de causas tem uma causa primeira ou incausada, mas não prova que todas as causas sejam parte de uma série única de causas que tenha a única primeira causa, porque é possível que nem todas as causas sejam partes de uma série única de causas. Por outras palavras, o argumento provaria que há uma ou mais causas primeiras, mas não que exista apenas uma.

Em segundo lugar, apenas provaria, no melhor dos casos, que a primeira causa existe, não que essa primeira causa seja Deus. Em vez disso, a primeira causa poderia ter sido o Diabo (um candidato plausível, dada a natureza do universo). E mesmo que o argumento tivesse provado que a primeira causa tinha de ser um deus, não provaria que ele tivesse de ser o seu Deus (se for um crente) ou um deus que encaixasse na imagem padrão que os cristãos, judeus ou muçulmanos têm de Deus. Poderia ser qualquer um dos milhares de deuses diferentes em que os seres humanos acreditam ou, talvez, um em que um ser humano nunca tenha pensado. De fato, o argumento da primeira causa abre a possibilidade de que tenha existido um Deus que criou o universo (ou talvez muitos deuses), mas que agora Deus esteja morto.

Qual é a causa da existência de Deus?

Para além das duas objeções que acabamos de levantar contra o argumento da primeira causa, há uma objeção geral a todas as espécies de provas cosmológicas da existência de Deus. Lembremos que a força do argumento cosmológico reside na idéia de que não é plausível pensar que o universo tenha brotado para a existência apenas por si mesmo. Por outras palavras, parece a muitos crentes que uma coisa tão grandiosa como o universo requer, como seu criador, um ser que seja pelo menos tão grandioso.

Mas esta linha de raciocínio põe-nos em apuros. Se um universo requer um deus para explicar a sua existência, o que explica a existência do próprio Deus? Da mesma maneira, ou Deus existiu desde sempre ou apenas apareceu ou então deve ter tido uma causa. No entanto, é tão implausível pensar que Deus sempre existiu ou que tenha simplesmente surgido, como pensar que também foi assim com o universo. O próprio raciocínio que nos leva a propor um deus como causa do universo deve levar-nos a propor um supradeus como sendo a causa de Deus. E, claro, o supradeus também precisa de uma causa, o suprasupradeus e assim infinitamente.

Portanto, sejam quais forem as voltas que dermos, o que obtemos no fim é igualmente implausível. É tão implausível um deus incausado como um universo incausado, e é tão incrível uma série infinita de causas como uma série infinita de deuses.

Em resumo, podemos desafiar as provas cosmológicas da existência de Deus de, pelo menos, três maneiras importantes. Primeiro, podemos desafiar a idéia de que uma série infinita de causas não seja possível. Segundo, podemos questionar a validade da conclusão de que há apenas uma primeira causa e de que a primeira causa seja Deus. Terceiro, podemos defender que qualquer deus proposto como primeira causa para explicar o universo precisa tanto de uma causa como o próprio universo e, assim, o argumento, se provar a existência de um deus, provará a existência de uma série infinita de deuses.

Os argumentos cosmológicos tentam explicar a existência do universo postulando um criador. Outros argumentos concluem por um deus, não para explicar o universo como um todo mas apenas para explicar alguns dos seus aspectos, tais como a existência do bem ou o fato de o universo ser ordenado em vez de ser caótico.

(continua...)
*Howard Kahane

Discutindo o Relativismo 2 (A crítica de Harry Gensler)

O relativismo cultural considera o mundo como algo que está dividido de uma forma nítida em sociedades distintas. Em cada uma delas não existe desacordo em questões morais ou apenas em pequena escala, dado que a perspectiva majoritária determina o que é considerado um bem ou um mal nessa sociedade. Mas o mundo não é assim. Pelo contrário, o mundo é uma mistura confusa de sociedades e grupos sobrepostos; e os indivíduos não seguem necessariamente o ponto de vista da maioria.

O relativismo cultural ignora o problema dos subgrupos. Todos nós fazemos parte de grupos sobrepostos. Cada um de nós, por exemplo, faz parte de uma nação, de um estado, de uma cidade, de um bairro. Além disso, cada um de nós pertence a várias comunidades, profissionais, religiosas, grupos de amigos, etc. É frequente estes grupos terem valores que estão em conflito. De acordo com o RC, quando afirmo "O racismo é um mal" pretendo dizer "A minha sociedade desaprova o racismo". Mas a que sociedade nos referimos?

Talvez a maioria das pessoas que pertencem à minha comunidade religiosa e ao meu país desaprove o racismo, enquanto a maioria dos que fazem parte do meu grupo profissional e familiar o aprovem. O relativismo cultural poderia dar-nos meios para nos conduzirmos corretamente no plano moral apenas se cada um de nós pertencesse a uma única sociedade. Mas o mundo é bastante mais complicado do que este quadro sugere. Até certo ponto, todos nós somos indivíduos multi-culturalizados.

O RC não tenta estabelecer normas comuns entre sociedades. À medida que a tecnologia invade o planeta, as disputas morais entre diferentes sociedades têm tendência para se tornarem mais importantes. O país A aprova a existência de direitos iguais para as mulheres (ou outras raças e religiões), mas o país B desaprova-o. Que deve fazer uma companhia multinacional que opera nos dois países? Ou as sociedades A e B têm conflitos de valores que conduzem à guerra. Dado que o relativismo cultural pouco nos ajuda acerca destes problemas, oferece-nos uma base muito pobre para responder às exigências da vida no século XXI.

Como responder à diversidade cultural entre sociedades? Ana rejeita a atitude dogmática do gênero "Nós estamos certos e eles errados". Percebe a necessidade de compreender as sociedades e culturas diferentes da sua própria a partir do ponto de vista dessas culturas e sociedades. Estas são idéias positivas. Mas, em seguida, afirma também que nenhum dos lados pode estar errado. Isto limita a nossa capacidade para aprender. Se a nossa cultura não pode estar errada, não pode aprender com os seus próprios erros. Compreender as normas de outras culturas não permitirá ajudar-nos a corrigir os erros das nossas próprias sociedades.

Aqueles que acreditam em valores objetivos vêem estes assuntos de um modo diferente. Poderiam defender algo como isto:

Existem verdades para descobrir no domínio moral, mas nenhuma cultura possui o monopólio destas verdades. As diferentes culturas necessitam de aprender umas com as outras. Para que tomemos consciência dos erros e dos nossos valores, é necessário conhecer como procedem as outras culturas, e de que forma reagem ao que nós fazemos. Aprender com diferentes culturas pode ajudar-nos a corrigir os nossos valores e a aproximar-nos da verdade acerca do modo como devemos viver.
*Harry Gensler

Discutindo o Relativismo 1 (A crítica de Harry Gensler)

O relativismo cultural afirma que "bem" significa o que é "socialmente aprovado" pela maioria de uma dada cultura. O infanticídio não é objetivamente um bem ou um mal; pelo contrário, é um bem numa sociedade que o aprove e um mal numa sociedade onde não obtenha aprovação.

O relativismo cultural considera que a moral é um produto da cultura. Afirma que as diferentes sociedades discordam amplamente sobre a moral e que não temos meios claros para resolver as diferenças. Os relativistas culturais consideram-se pessoas tolerantes; olham para as outras culturas não como estando "erradas" mas como "diferentes".

Apesar de inicialmente plausível, o relativismo cultural tem vários problemas. Por exemplo, torna impossível discordar dos valores da nossa sociedade. Acontece, por vezes, afirmarmos que, apesar de socialmente aprovada, uma certa atitude não é boa. E isto está em contradição com o relativismo.

Além disso, o relativismo cultural implica que a intolerância e o racismo sejam um "bem" se a sociedade o aprovar. Leva-nos ainda a aceitar as normas da nossa sociedade acriticamente.
O relativismo cultural combate a idéia de que existem valores objetivos. O ataque pode ser desmontado com facilidade se o examinarmos cuidadosamente.

São muitos os especialistas em ciências sociais que se opõem ao relativismo cultural. O psicólogo Lawrence Kohlberg, por exemplo, defende que as pessoas de todas as culturas passam pelos mesmos estádios de desenvolvimento moral.

O relativismo cultural representa um estádio relativamente baixo no qual simplesmente nos conformamos com os valores da sociedade em que vivemos. Em estádios mais avançados, o relativismo cultural é rejeitado; consideramos criticamente as normas aceites e pensamos pela nossa cabeça em questões de ordem moral.
*Harry Gensler

Considerações sobre como educar

"...ligamo-nos aos nossos semelhantes menos pelo reconhecimento dos seus prazeres que pelo reconhecimento das suas penas; pois vemos melhor, por aí, a identidade da nossa natureza e a garantia da sua ligação conosco. Se as nossas comuns necessidades nos unem pelo interesse, as nossas misérias comuns unem-nos pela afeição.O aspecto de um homem feliz inspira aos outros menos amor que inveja; acusá-lo-emos de usurpar um direito que não tem ao tomar para si a exclusividade da felicidade; e o amor-próprio sofre ainda porque nos faz sentir que não precisa de nós para nada.

Mas quem é que não se compadece do infeliz que vê sofrer? Quem não desejaria libertá-lo dos seus males se o custo não fosse demasiado alto? A imaginação coloca-nos melhor no lugar do miserável do que no do homem feliz. A piedade é doce, porque ao colocarmo-nos no lugar daquele que sofre experimentamos o prazer de não sentir como ele. A Inveja, é amarga na medida em que o aspecto do homem feliz, longe de suscitar ao invejoso colocar-se no seu lugar, dá-lhe, pelo contrário, o remorso de não o poder fazer. Parece que um nos isenta dos males que sofre e o outro nos afasta dos bens que usufrui.

Se quereis excitar e alimentar no coração de um homem jovem os primeiros movimentos da sensibilidade , e formar o seu caráter para o bem agir e a bondade; não tenteis fazer germinar nele o orgulho, a vaidade, a inveja, através da imagem enganadora da felicidade dos homens; não exponhais logo aos seus olhos a pompa da corte, o fausto dos palácios, a atração dos espetáculos; não o passeies pelos circuitos, nas brilhantes assembléias, não lhe mostreis o exterior da grande sociedade que depois poderá vir a apreciar em si mesma. Mostrar-lhe o mundo antes que conheça os homens, não é formá-lo, é corrompê-lo; não é instruí-lo, é enganá-lo.

Os homens não são naturalmente nem reis, nem grandes, nem cortesãos, nem ricos; todos nascem nus e pobres, todos sujeitos às misérias da vida, aos desgostos, aos males, às necessidades, às dores de toda a espécie; enfim, todos estão condenados à morte. Aqui está o que é verdadeiramente o homem; aqui está aquilo a que nenhum mortal pode escapar. Comecem então por estudar a natureza humana, no que lhe é inseparável, no que constitui o melhor da humanidade."
*Jean Jacqes Rousseau

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Hume e as formas de se saber a respeito de algo

Hume começa, tal como Locke, por considerar os conteúdos da mente, os objetos do entendimento humano ou – nas suas palavras – as percepções da mente ou materiais do pensamento. Hume divide estes conteúdos em impressões e idéias. Há uma clara distinção, já notada por Locke, entre sentir realmente dor, calor, raiva, ver uma paisagem, ouvir uma sirene ou desejar uma bebida fresca e recordar mais tarde ou imaginar estas experiências. Hume usa o termo “impressões” para indicar “as nossas percepções mais vívidas, quando ouvimos, ou vemos, ou sentimos, ou amamos, ou odiamos”. As idéias têm menos força, são cópias fracas das impressões, trazidas à mente pela memória ou pela imaginação.

Qual, para Hume, é a relação entre idéias e impressões? Hume afirma que “todas as nossas idéias ou percepções mais débeis são cópias das nossas impressões ou percepções mais “vívidas””. Por outras palavras, as idéias derivam apenas da experiência. É claro que Hume sabe que algumas idéias – por exemplo, a minha idéia de unicórnio – não correspondem exatamente a uma impressão particular. Mas as partes que compõem a minha idéia de um unicórnio – idéias de cavalos e de chifres – são cópias de coisas que já vi no mundo. Limitei-me a combinar idéias derivadas da experiência de uma maneira nova. A idéia de Hume é que apesar de a mente parecer porventura quase ilimitada na sua capacidade de imaginar e pensar abstratamente, a matéria bruta sobre a qual ela opera é sempre extraída de impressões.


É este o cerne do empirismo, e Hume oferece alguns argumentos em sua defesa. Sugere que pensemos nas nossas próprias idéias e que tentemos apontar uma que não dependa de uma impressão original. Ataca também diretamente a idéia favorita dos racionalistas – a idéia de Deus –, e mostra que podemos adquiri-la pensando nas qualidades das nossas mentes exagerando depois tanto quanto quisermos o que há nelas de bom e de sábio. Finalmente, considera os indivíduos que têm falta de uma aptidão sensorial – os cegos, por exemplo – e nota que estes não têm nenhuma idéia de cor. A explicação, argumenta, é que as idéias são cópias das impressões, e que quem nunca teve impressões relevantes não pode ter as idéias correspondentes.


Há certos fatos sobre impressões e idéias que nas mãos de Hume têm conseqüências filosóficas de longo alcance. Comparadas com as impressões, as idéias são naturalmente fracas e obscuras e é fácil cometer dois tipos de erros quando pensamos sobre elas. Em primeiro lugar, podemos confundir uma idéia com outra, podemos pensar que se justifica tirar uma certa conclusão acerca de uma idéia quando o que realmente acontece é que estamos a pensar numa idéia semelhante, mas diferente. Em segundo lugar, e pior, usamos palavras para representar idéias, e o nosso discurso pode desenrolar-se alegremente mesmo que as partes relevantes da nossa linguagem não tenham correspondência com alguma idéia fixa ou determinada.

Numa disputa filosófica, quando não estamos a falar em cavalos e de chifres, mas em idéias muito complexas e abstratas, é fácil termos uma conversa em que são usadas as mesmas palavras para mencionar coisas diferentes. Podemos até discutir sobre nada. A nossa disputa poderá ser sobre idéias ilusórias, meros fantasmas sem base na experiência – o equivalente filosófico dos unicórnios.


Estas reflexões fornecem um procedimento que nos permite remover as idéias fictícias e encontrar saídas para as disputas filosóficas, e mesmo para acabar com elas. Hume escreve:

“Quando por conseguinte temos alguma suspeita de que um termo filosófico é empregue sem nenhum significado ou idéia (como é muito freqüente), basta-nos perguntar sobre a impressão de que a idéia supostamente deriva. E se for impossível encontrar alguma, isto servirá para confirmar a nossa suspeita. Ao clarificar assim as idéias, podemos razoavelmente esperar que possam ser removidos todos os conflitos que possam surgir sobre a sua natureza e realidade.”

As conseqüências destas linhas são estonteantes.

Consideremos a idéia de um eu durável, algo de substancial que persiste por detrás das muitas mudanças que experimentamos ao vivermos a vida. Suponho, por exemplo, que esta manhã sou essencialmente o mesmo eu que era quando me fui deitar a noite passada. Não só isso, acho também que sou o mesmo eu que era na juventude que desaproveitei. Acho que serei o mesmo eu enquanto viver. Sem dúvida, algumas coisas mudaram: cresci, ganhei algumas cicatrizes, o meu cabelo está a tornar-se um pouco grisalho. Contudo, parece haver algo de essencial, o meu verdadeiro eu, que persiste em todas estas alterações acidentais.


Se concordarmos com o princípio de Hume sobre a relação entre idéias e impressões, e se estivermos convencidos de que o seu método de remover idéias fictícias é o caminho certo, temos apenas que perguntar: “De que impressão é a minha idéia derivada?” Ao olhar para dentro de mim, afirma Hume, não encontro nada, exceto uma série de impressões fugazes – ódio, amor, calor, dor, imagens, sons, cheiros e coisas do gênero –, mas nada permanente, nada que persista em todas as alterações. Em suma, nenhuma impressão corresponde à nossa idéia de eu. A idéia presente na palavra “eu” pode juntar-se a “unicórnio”: “Eu” é uma palavra que expressa uma idéia ilusória, uma ficção da imaginação.


Mas as coisas tornam-se muito piores. A abordagem que Hume faz da natureza do entendimento humano começa com uma distinção entre dois tipos de “objetos da razão humana”: relações de idéias e matérias de fato. As relações de idéias podem ser descobertas apenas pela razão. Podemos saber que os solteiros são homens não casados ou que duas vezes cinco é metade de vinte pensando apenas sobre as relações entre as idéias em causa. As matérias de fato, porém, podem apenas ser descobertas pela experiência.

Podemos meditar o tempo que quisermos sobre a proposição de que o sol está a brilhar, mas só saberemos se ela é verdadeira olhando pela janela. Há outra diferença entre estes dois tipos de proposição. O contrário de uma matéria de fato é possível, mas se negarmos uma relação entre idéias verdadeira, incorremos numa contradição. O sol pode não ser brilhante, mas não se pode estar mais longe da verdade do que quando alegamos que os solteiros são casados.
*James Garvey