terça-feira, 15 de junho de 2010

A Máquina de Joseph Walser

As máquinas de guerra vêm aí, mas não tenha medo. O problema não são as máquinas que se aproximam da cidade, são as máquinas que já aqui estão.
As diferentes gerações mecânicas, a sua História, Walser: progridem. Tal como as nossas ideias. Mas as máquinas começam a ter autonomia, as ideias não.

As máquinas interferem já na História do país e também na nossa biografia individual. Elas não têm já apenas um percurso material ou de factos. Têm também uma História do espírito, um caminho já realizado no mundo do invisível, no mundo daquilo que se sente e se pensa. Acredita-se até que as máquinas levam o Homem para sítios mais próximos da Verdade.
E também pode ser reduzida a um sistema binário, a alegria. A um sim ou a um não, a 0 ou a 1: existe ou não existe. E essa eficácia, meu caro, essa eficácia fundamental, essa eficácia primeira, depende já, também, em grande parte, das máquinas, da rapidez com que elas transformam causas e necessidades em efeitos benéficos.

A felicidade foi já reduzida a um sistema que as máquinas entendem, e no qual podem participar e intervir. Já nenhuma felicidade individual é independente da tecnologia, amigo, Walser. Se quiser números, podemos brincar aos números: a felicidade individual de um dia depende, vá lá, 70% da eficácia material das máquinas. Que a felicidade invisível esteja submetida a uma felicidade concreta, a uma felicidade de materiais em diálogo, de peças metálicas que encaixam umas nas outras e resolvem problemas fazendo determinadas tarefas, como tal pode parecer estranho; mas é o século.

Ser feliz já não depende de coisas que vulgarmente associamos à palavra Espírito. Depende de matérias concretas. A felicidade humana é um mecanismo.
*Gonçalo M. Tavares

Caçar a Água

caçar a água
no veludo escarlate da sede
pela madrugada
no coração tenro
da neblina
antes que a maré suba
os labirintos


aos pássaros
revelar a pedra
ensinar o lado de dentro
do musgo
a curva macia
dos seixos


porque a loucura
deve ser rasgada por dentro
com as mãos cravadas numa ponte
acesa ao abismo

*Gil T. Sousa

Outro lugar

Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.

E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.

Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onde que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.
Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.

Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina.

E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.

Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior
da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.

Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.

*Herberto Helder

Um Lugar

Este é um lugar de desafeição
O tempo antes e o tempo depois
Numa luz sombria: nem luz do dia
Investindo a forma de lúcida quietude
Transformando a sombra em efémera beleza
Com vagarosa rotação sugerindo permanência
Nem escuridão para purificar a alma
Esvaziando o sensual pela privação
Purificando a afeição do temporal.
Nem plenitude nem vazio. Apenas um tremeluzir
Sobre os rostos tensos devastados pelo tempo
Distraídos da distracção pela distracção
Cheios de fantasias e vazios de sentido
Túmida apatia sem concentração
Homens e pedaços de papel remoinhando no vento frio
Que sopra antes e depois do tempo,
Vento que entra e sai de pulmões viciados
Tempo antes e tempo depois.
Eructação de almas doentias
No ar desbotada, os miasmas
Levados no vento que varre os sombrios montes de Londres,
Hampstead e Clerkenwell, Campden e Putney,
Highgate, Primrose e Ludgate. Não aqui
Não aqui a escuridão, neste mundo de agitadas vozes.

Desce mais, desce apenas
Ao mundo da solidão perpétua,
Mundo não mundo, mas aquilo que não é mundo,
Escuridão interna, privação
E destituição de toda a propriedade,
Dissecação do mundo do sentido,
Evacuação do mundo da fantasia,
Inoperância do mundo do espírio;
Este é um dos caminhos, e o outro
É o mesmo, não em movimento
Mas abstenção de movimento; enquanto o mundo se move
Em apetência, nos seus caminhos metalizados
Do tempo passado e do tempo futuro.
*T. S. Eliot

Le Rouge

O vermelho no sangue, o rubro que há em tudo quanto deve ser ardor e desespero. Alguns recorrem à violência contra os seus, sem saber que o chicote pode revidar, como a pantera, o vazio ou o homem. O seu dilema é tão íntimo a mim, como são todos os dilemas de quem aprendeu a dançar numa corda bamba, o circo vem essa semana, fuja! Ou apodreça nesse delírio incólume. A magia só vale a pena quando não mais se acredita nela, as bochechas rosadas de uma virgem à espera da desonra, o gozo e a solidão dos homossexuais sem lar. Tudo é projeção, a consciência desses tempos tem causado ao homem o que mil Hitleres não teriam se tivessem chance. O real é o espaço entre o sonho e a lida, pra compreendê-lo é preciso estar além de ambos.

Onde acaso daria esse poço se você fosse jogado contra a gravidade? Supor e entender é tão quimérico quanto amar ou delirar. Dance arlequim, como se a única coisa possível fosse a dança, como se caos não fosse irremediável em todas as instâncias. Uma prostituta deu à luz, não houve anjos a dizer amém, um homem depois de uma vida de sacrifícios conquista alguns objetos, haverão anjos, demônios e pessoas a dizer, “mãos ao alto”. A terra está ficando infértil com tanto vômito espalhado pela superfície. É hora de partir, ou interiorizar ainda mais, quem vai saber? A resposta definitiva é uma pergunta a qual ninguém pôde responder.

Você vai olhar sua silhueta sobre o sol e provavelmente não reconhecerá a própria sombra. A guerra é uma fábrica de vítimas e a catástrofe a profissão de fé dos homens de nossa época. Desnude seu corpo com a delicadeza de uma confissão silenciosa, eu o banharei de luz e graça, na redondilha que nunca fui capaz. Como te desejei no tempo que perdeu a linearidade, como operei exaustivamente o sexo com mãos e pensamento. De tudo quis ser estrangeiro e fora acabei estando mais dentro que uma semente ou uma idéia. Alheio nunca é quem tem em si o mundo e nas costas o peso.

A tua fronte, o teu imaculadamente prostituído seio. Alguém tem que levar a culpa para que a imagem não rache os espelhos, entendo o que se passou aqui. Você quer voltar ao tempo das coisas simples, quando o destino cabia em um suspiro. Todavia, as belle epóques se esgotaram junto com a infância, em sua cama agora só poeira e vertigem. A resistência é um fenômeno da biologia, está ligada ao instinto de sobrevivência, muito embora se cisme que seja algo mais. Há saltimbancos desdentados pela praça, pode acontecer que a miséria física seja a única privação existencial que permita ainda alguma alegria. É mais fácil mergulhar na frente de um ônibus, ou se atirar ao primeiro que passa ou só manter um desprezo cínico pelo que te é caro. A mesma pessoa, tantos rostos diferentes. O desatino é único em si e múltiplo na partilha, as pessoas se matam em doses homeopáticas pensando estar vivendo um pouco mais.

Madrugada chega e ninguém mais dorme por aqui. A divagação noturna só comove as corujas. Esse é o país da desesperança, onde agressão se confunde com a candura mais terna. Não é possível agir de outra forma, muito embora o coração assinta. Quer desfilar seu casaco vermelho? Isso significa estar exposto demais, assim corre-se o risco de uma ventania na cara. Seu peito continua aberto enquanto seus dedos estão enrugados pelas baixas temperaturas. O que os mártires fariam ao saber que todo sacrifício é vão? Recolhe-te à tua cela, bebe tua água, come teu pão. A desonra chega a todos, qualquer pressa é desnecessária.
*Leandro M. de Oliveira

Uma Fábula

-Quando os mortos choram, é sinal de que já há melhoras.
Disse solenemente o Corvo.
-Lamento contradizer o meu famoso amigo e colega.
Disse a Coruja,
-Mas, em minha opinião, se os mortos choram é porque
não têm vontade nenhuma de morrer.

*Carlo Collodi

Good News!

Futebol,
o
novo
ópio
do
povo.

***
Esse mês não haverá revoltas por aqui.


*Leandro M. de Oliveira

quinta-feira, 10 de junho de 2010

E a tua ferida, onde está?

E a tua ferida, onde está?

Pergunto onde fica,
em que lugar se oculta a ferida secreta
para onde foge todo o homem
à procura de refúgio
se lhe tocam no orgulho, se lho ferem?

Esta ferida
— que fica assim transformada em foro íntimo —
é que ele vai dilatar, vai preencher.

Sabe encontrá-la, todo o homem,
ao ponto de ele próprio ser a ferida,
uma espécie de secreto
e doloroso coração.

Se observarmos o homem ou a mulher
que passam com olhar rápido e voraz
— e também o cão, o pássaro, uma panela —
a velocidade do olhar é que nos mostra,
ela própria e com rigor máximo,
que ambos são a ferida
onde se escondem mal sentem o perigo.

O quê?
Já lá estão, já os conquistou
— deu-lhes a sua forma —
e para ela a solidão:
lá estão inteiros no retesar de ombros
em que passam a concentrar-se,
com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca,
e contra a qual nada podem nem querem,
pois dela é que sabem esta solidão absoluta,
incomunicável — este castelo da alma —
para serem a própria solidão.

(...)

*Jean Genet

Por um sentido mais óbvio que a transcendência

Se vamos então tratar dos fenômenos do alto, das leis que regem os movimentos do sol e da lua, e que governam todas as coisas da terra, falta-nos ainda e sobretudo como meio de um método penetrante, investigar a formação do espírito e da alma, saber o que são estes objetos terríveis que nos aterrorizam na febre da doença, ou soterrados no sono, ao ponto de pensarmos ver e entender face a face aqueles que já ascenderam à morte e dos quais a terra guarda os ossos.

Sei bem que os obscuros sistemas dos gregos são difíceis de clarificar nos versos latinos, sobretudo porque é preciso usar tantos termos novos, por causa da pobreza da língua e da novidade dos temas!

Mas, todavia a atração da tua virtude, a doçura áspera da tua prezada amizade, levam-me a ultrapassar todas as fadigas, a velar nas noites serenas, procurando quais as palavras e em que versos poderei ascender no teu espírito uma luz que o ilumine sobre os segredos mais profundos da natureza. Este terror, estas trevas da alma, precisam, para se dissiparem, não dos raios do sol, os traços luminosos do dia, mas da visão exata da natureza e da sua raciocinada explicação.


O princípio que nos servirá de ponto de partida, é que nada se pode engendrar do nada por efeito de um poder divino. Se a necessidade tem agrilhoado todos os mortais, é porque sobre a terra e no céu lhes aparecem fenômenos dos quais não podem de modo nenhum perceber as causas e as atribuem a uma ação dos deuses. Quando tivermos visto que nada se forma de nada, então o que procuramos descobrir-se-á mais facilmente; saberemos do quê cada coisa pode receber o ser e como todas as coisas se formam sem a intervenção dos deuses.
*Lucrécio (Titus Lucretius Carus), Roma, 98 a.c

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Dos direitos e deveres

Como o próprio Kant notou, a lei moral tem um caráter absoluto. Os direitos não podem ser arbitrariamente ultrapassados, ou comparados com o benefício que se retira da sua ignorância. Os direitos não podem ser arbitrariamente rejeitados, ou cancelados pelos maus resultados da obediência devida. Tenho que respeitar o teu direito, sem olhar a conflitos de interesse, uma vez que só tu podes renunciar a ele ou cancelá-lo. Este é o ponto do conceito – oferecer uma barreira absoluta contra a invasão. Um direito é um interesse a que é dado proteção especial e que não pode ser ultrapassado ou cancelado sem o consentimento da pessoa que o detém. Descrevendo um interesse como um direito elevamo-lo do cálculo do custo e benefício, e colocamo-lo no recinto sagrado do eu.

Do mesmo modo, para existir, o dever tem que ter um caráter absoluto. Um dever só pode ser rejeitado quando cessa de ser um dever – só quando for cumprido ou cancelado. Pode haver conflitos de direitos e conflitos de deveres: mas estes conflitos são dolorosos justamente porque não podem ser resolvidos. Pesamos os direitos uns contra os outros e damos primazia àquele que acreditamos ser o mais sério – como quando tiramos comida que pertence ao João para salvar a vida do esfomeado Henrique. O direito do Henrique a ajuda assume primazia sobre o direito do João à sua propriedade; apesar disso, o direito do João subsiste, e o João é defraudado pelo ato que socorre o Henrique. As questões aqui implícitas são profundas e complexas.

Basta dizer que qualquer tentativa para destituir os conceitos de direito e dever do seu caráter absoluto também os destitui da sua utilidade. Devemos deste modo libertar-nos do supremo instrumento oferecido pela razão, e viver com os outros de acordo com isso, respeitando a sua liberdade, a sua individualidade e a soberania sobre a vida que é sua. É isto que significa, em última análise, tratar uma pessoa como um fim em si mesma: designadamente reconhecer-lhe os seus direitos contra nós, e os nossos deveres para com ela, e reconhecer que nem o dever nem o direito podem ser cancelados por qualquer outro bem. Traduzindo a lei moral por outras palavras, declaremos que ela nos diz que as pessoas têm que ser tratadas como sujeitos, não como objetos; e isto significa que os direitos têm que ser respeitados, e os deveres cumpridos.
*Roger Scruton