domingo, 28 de fevereiro de 2010

Belphegor

Vento norte que em rota inesperada faz desnorte. Esse ar, essas ruas, esse cadáver, eternamente jaz, flutuando sobre mim. Queria uma emoção leve que fizesse do tempo um exercício comum, como não consigo, caminho como quem se suicida, ou tomo o ônibus que leva a um país iverossímil. A persistência que parece insustentável, o ermo feito indizível. Tudo é partida. Subi o monte com grandes expectativas, quando lá cheguei só haviam pedras e árvores. Buscar uma explicação é ter a alma pelo avesso, e eu como nada sei da direção comum, meto a mão no que sinto como um tumor que cresce de dentro pra fora. Viver custa caro, nisso tenho sido obrigado a por de própria algibeira. Por mil anos trabalhei no silêncio, obsoleto, agora minhas estão deformadas e minha vista cegou-se na incomensurável espera. Para o serviço de recenseamento seria eu excesso de contingente ou morto não declarado? Situação ingrata, ter de ser pertencido por alguma parte sem ser pertencido por parte alguma. Nessa terra devassa nem amargor é capaz de definir o meu amor. Todo sacrifício é degradação, toda vez que abro uma janela a paisagem persiste a mesma.

O silêncio às vezes é entrecortado pelos sons dum animal errante. O silêncio é um mistério inominável aos que carregam uma turba pelas ventas.Deus é som, animal, ou silêncio? Há tanta metafísica nas coisas ordinárias que a crença já não é algo mais tão seguro, os inquisidores tiraram férias... Não, não tiraram.

Apaixonar-se é ter nostalgia da perdida infância. Isso seria uma observação ou uma epígrafe? Talvez uma boa coisa pra se escrever nas paredes de um urinol público. As necessidades sempre fazem o homem parecer mais profundo. Irremediavelmente, a nostalgia tateia memórias além da memória, desce ao porão escuro agitando o pó já assentado. Na treva não há o que se contemple. La embaixo todos os sepulcros foram lacrados. Acaso existem infravermelhos pra se enxergar o escuro da alma? Na impossibilidade das respostas vou, com um cemitério na cabeça, com o universo todo por sobre os joelhos.

Conhecer do atemporal é engenho nobre. Irrelevante; debruçar-se a isso num mundo mais raso que um prato de sopa. Bem vindo à época da produção em série. Ave, triunfo burguês! Quem roubou meu cantil? Tenho sede e não há água em canto algum. Depois de certo tempo no deserto as pessoas passam a fazer parte dele. Homens de areia, mulheres de nada, paços insólitos permeiam a cidade. O mundo existe em mim como existe uma bruma a cobrir a paisagem, como existe alojada uma doença a que se quer purgar.

Prometeu amarga um perene castigo. Mandado ao Cáucaso por ser um homem bom? Bondosamente imbecil, salvar os outros é perder-se a si mesmo. O caminho e a resposta vêem de dentro. Também não sei por que cargas d’água me ponho a assim pensar, se dessa feita ocorresse, a espeleologia cuidaria de todos os vazios. Mãos ao alto ao mistério, mãos ao chão na queda. A gravidade é sempre inconstante, pode ser que estar em paz seja fechar os olhos e abrir a boca. Consumir idéias alheias é a forma mais antiética de canibalismo. Todavia fomos salvos, a TV democratizou o saber e fez com que todos soubessem as mesmas coisas. Boa noite e merda!

Depois que a mídia se tornou o nosso aiatolá, existir ficou tão colorido, tão nauseantemente simplificado que nem o vômito surte mais efeito. Tomaria alcalóides e dormiria como um xeique enfeitiçado, as garrafas estão vazias. Tenho de beber da esquizofrenia coletiva e fingir um pouco de lucidez. Onde estão meus óculos? Onde está a forma pacífica de ver as coisas? Já que tudo é guerra coloco botas de borracha e busco despojos na fossa sanitária das consciências. Estão vazias, visceralmente apartadas. Belphegor trabalha às tantas. Abençoados os que não se arrependem, amaldiçoados os que os abençoam. Discursar é uma forma de fazer com que as pessoas não reparem nossas vidraças, toda palavra é agressão. A luz apagou, a tempestade não estiou. Pra onde fugir agora? Que lugar é possível sem que hajam luzes, tempestades e memória? Fronteiras de meu reino, de tantas terras donde nunca ouvirei falar. O vento sopra a este bordo, o vento sempre soprou a mesma nota. Não escutar o arredor é ser ultrapassado pelas costas, talvez exista cera demais nos ouvidos. Quero partir em disparada mas, a letargia parece ter atrofiado meus membros.
*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Asmodeus

A justa medida de medir todas as coisas, sem conceito pregresso, sem participação no processo. Não se encontra uma boa solução na caixa de achados e perdidos. Salvo o amor próprio todo o tipo de paixão é decadência; essa é uma era de homens decadentes. Do olho furacão todos estão cegados, como criticar as cores do quadro se a vida te fez daltônico? O dia consumido em horas, as horas consumidas em não ser. Viver é tomar parte na antiga tragédia, morrer é figurar nas estatísticas. Solas gastas patinam na lama e é preciso um coturno que amasse a terra com indiferença. Compadecer-se do passo adiante é degradação da pior espécie. Nada se destrói, as coisas vão reformuladas no contínuo de existir. Uma navalha abre carnes, uma navalha decepa membros. Acaso ha lâminas nessa terra que abram idéias ou decepem ideologias? Se os cuteleiros tivessem consciência política a vida na polis seria menos hipócrita. O processo é mais sofisticado.

Vis escravos, pra sempre sejam.

A noite passa. Eu a tecer insônias como quem tece uma camisa de força. Qual a justa medida? Se cada homem é um e vários ao apelo das circunstâncias, qual o sentido de verdade? Toda fé é inútil. A vida vai arrombar sua casa, estuprar seus filhos e te fazer beber um café amargo pela manhã. Maldição! Na ditadura é fácil culpar alguém. Então vem você com seu senso democrático e sua mentira, quer comandar o mundo todo mas, falha no papel simplório de soberano da própria pele. Bem vindo aos tempos do teatro experimental. A selva não permite regras de etiqueta, o que diferencia os homens é o lugar que cada um ocupa na cadeia alimentar. Tragam-me pantomimas, uma vez na vida, deixem que aconteça de dentro pra fora. O preço do pão torna as coisas pouco poéticas, compaixão para com os animais é engenho da mais cínica extravagância. Que Asmodeus dê cabo dos luxuriosos. E aqui estamos e cá continuaremos, por muito tempo até que os guias usem óculos, até que rebente a vergonha naqueles que te fizeram acreditar.

A vida existe na matéria, a matéria existe na aglomeração de átomos. O átomo é cheio de vida, e ao mesmo tempo vazio de matéria. Se não há matéria que preencha o átomo, não há vida na matéria. E se assim é, a vida vem de outra fonte e nada é como se pensa ser ou tudo é representação e nada é sequer coisa alguma. No primeiro caso o discurso é inútil, no segundo, a palavra é na melhor das hipóteses alçapão ou embuste. Detesto o cinismo existencial. Em qualquer feita tudo é ausente de sentido além daquele que o condicionamento permite.

Resumidamente, se tudo é vazio e ausente de sentido, talvez tudo seja deveras nada e como nada, inexiste em realidade. Se isso for, eu que pensei estar raciocinando me enganei, você que pensou estar em dívidas com a vida foi absolvido, e as palavras todas tampouco fizeram sentido, elas nem mesmo foram. Foram? Não foram?
*Leandro M. de Oliveira

O homem que queria eliminar a memória

Entrou no hospital, mandou chamar o melhor neurocirurgião. Disse que era caso de vida e morte. Não se sabe como, o melhor neurocirurgião foi atendê-lo. Médicos são imprevisíveis. Precisa-se muito e eles falham; subitamente, estão ali, salvando nossas vidas, ele pensou, sem se incomodar com o lugar-comum.

Estava na sala diante do doutor. Uma sala branca, anônima. Por que são sempre assim, derrotando a gente logo de entrada?

O médico:

– Sim?

– Quero me operar. Quero que o senhor tire um pedaço do meu cérebro.

– Um pedaço do cérebro? Por que vou tirar um pedaço do seu cérebro?

– Porque eu quero.

– Sim, mas precisa me explicar. Justificar.

– Não basta eu querer?

– Claro que não.

– Não sou dono do meu corpo?

– Em termos.

– Como em termos?

– Bem, o senhor é e não é. Há certas coisas que o senhor está impedido de fazer. Ou melhor; eu é que estou impedido de fazer no senhor.

– Quem impede?

– A ética, a lei.

– A sua ética manda também no meu corpo? Se pago, se quero, é porque quero fazer do meu corpo aquilo que desejo. E se acabou.

– Olha, a gente vai ficar o dia inteiro nesta discussão boba. E não tenho tempo a perder. Por que o senhor quer cortar um pedaço do cérebro?

– Quero eliminar a minha memória.

– Para quê?

– Gozado, as pessoas só sabem perguntar: o quê? por quê? para quê? Falei com dezenas de pessoas e todos me perguntaram: por quê? Não podem aceitar pura e simplesmente alguém que deseja eliminar a memória.

– Já que o senhor veio a mim para fazer esta operação, tenho ao menos o direito dessa informação.

– Não quero mais lembrar de nada. Só isso. As coisas passaram, passaram. Fim!

– Não é tão simples assim. Na vida diária, o senhor precisa da memória. Para lembrar pequenas coisas. Ou grandes. Compromissos, encontros, coisas a pagar.

– É tudo isso que vou eliminar. Marco numa agenda, olho ali e pronto.

– Não dá para fazer isso, de qualquer modo. A medicina não está tão adiantada assim.

– Em lugar nenhum posso eliminar a minha memória?

– Que eu saiba não.

– Seria muito melhor para os homens. O dia a dia. O dia de hoje para a frente. Entende o que eu quero dizer? Nenhuma lembrança ruim ou boa, nenhuma neurose. O passado fechado, encerrado. Definitivamente bloqueado. Não seria engraçado? Não se lembrar sequer do que se tomou no café da manhã? E para que quero me lembrar do que tomei no café da manhã?

– Se todo mundo fizesse isso, acabaria a história.

– E quem quer saber de história?

– Imaginou o mundo?

– Feliz, tranquilo. Só de futuro. O dia em vez de se transformar em passado de hoje, mudando-se em futuro. Cada instante projetado para a frente.

– Não seria bem assim. Teríamos apenas uma soma de instantes perdidos. Nada mais. Cada segundo eliminado. A sua existência comprovada através de quê?

– Quem quer comprovar a existência?

– A gente precisa.

– Para quê?

O médico pensou. Não conseguiu responder. O homem tinha-o deixado totalmente confuso. Pediu ao homem que voltasse outro dia. Despediram-se. O médico subiu para os brancos corredores do hospital, passou pela sala de operações. Chamou um amigo.

– Estou pensando em tirar um pedaço do meu cérbro. Eliminar a memória. O que você acha?

– Muito boa idéia. Por que não pensamos nisto antes? Opero você e depois você me opera. Também quero.
*Ignácio de Loyola Brandão

A liberdade e a obrigação do indivíduo (considerações sobre o alcançe do Estado)

De acordo com nossa hierarquia de valores, o sujeito econômico tem de subordinar-se à pessoa humana como cidadão, de tal modo que todas as leis sobre a simultaneidade dos processos econômicos não representam para a pessoa humana —enquanto membro do Estado—, isto é, para sua vontade como cidadão, senão uma simples soma de regras técnicas, aplicáveis a fins que variam livremente.

A visão kantiana do problema, por mais profunda que seja, não consegue atenuar o erro contido em seus conceitos e fundamentos, nos quais se identifica de um modo falso a pessoa simplesmente social com a pessoa em geral, a pessoa-razão com a pessoa espiritual-individual, e, além disso, a idéia de pessoas racionais, cuja igualdade é o pressuposto de todo direito, e ainda a pessoa-cidadão. Diante disso, não pode haver dúvida de que o núcleo da pessoa espiritual-individual —e a pessoa-razão, como a pessoa-social em geral, representam unicamente um conteúdo abstrato, conteúdo que existe graças à sua referência a certas esferas e funções— é superior a todo Estado e a toda mera personalidade (a pessoa-cidadão), e tanto como sua salvação última independe por completo de sua relação com o Estado. A idéia de Estado, inclusive, está fundada na solidariedade de pessoas espirituais-individuais —e não num contrato entre elas— sendo, antes, uma possível comunidade de amor recíproco.
Considerada do ponto de vista do individuo, da pessoa pura e simples, essa mesma idéia de Estado está fundada numa possível "comunidade de vida" —não é uma sociedade de fins— baseada em simpatia vital. E assim, a comunidade é a matéria do Estado. Como membro de um reino de pessoas espirituais livres, sempre individual e desigual, tanto em si como em seu valor, a pessoa, efetivamente, está, sob todos os aspectos, acima do Estado e até podemos dizer —acima do direito.

Por isto, pode o Estado, numa medida extrema, exigir o sacrifício da vida de uma pessoa —na guerra por exemplo— mas nunca o sacrifício da pessoa, de um modo geral —isto é, de sua consciência moral e de sua salvação— nem mesmo uma entrega absoluta da pessoa. Assim como a pessoa econômica fica submetida ao Estado, o núcleo da pessoa espiritual-individual está acima do Estado em geral. E toda a esfera da pessoa íntima está fora do Estado. Até mesmo com relação à pessoa íntima, porém, vigora o princípio da solidariedade originária, e também a pessoa íntima (a simples pessoa humana) é o núcleo espiritual na área mais íntima da unidade do ser, do ser sensível, vital, espiritual, que o homem representa. Por isso, o homem, como pessoa relativamente íntima, tem relação com outro homem na liberdade de ser próprio foro, acima e além do Estado, prescindindo da tirania de um pacto social, para a efetividade de uma sociedade fundada sobre o amor.

Assim como o pequeno centro de vida unitário, no indivíduo, restringe e ordena, de acordo com seus objetivos, todas as apetências que se dirigem ao útil e ao agradável, também, em proporções maiores, o Estado faz o mesmo com a sociedade e com o homem enquanto cidadão. Dessa forma, deve-se considerar um ato positivo da vontade do Estado o fato de ele abster-se de intervenções de sua vontade nos processos econômicos, regulados legalmente de acordo com entendimentos de um consenso geral.

Se, por exemplo, o Estado faz uma política de livre cambismo, em vez de uma política protecionista, não o faz por força do princípio de livre-cambismo, mas apenas porque entende oportuna, no momento, a abstenção no campo da livre concordância.
Trata-se, assim, de uma ingenuidade e de uma simplificação infantil dos problemas em confronto, a tentativa de encontrar interpretações diversas para os mecanismos do Estado, segundo posições do individualismo ou do universalismo orgânico. Para uns, o Estado é uma realidade, um valor superindividual por sua própria natureza, ao qual o indivíduo deve fazer todos os sacrifícios. Essa interpretação, tipicamente alemã, do valor do Estado, é a mesma dos povos antigos. Mas o Cristianismo eliminou para sempre, de uma vez por todas, aqueles conceitos sufocantes do valor do Estado.
*Max Scheler

Do ridículo amor

Amar é:
Estar imbecilmente vivo!


*Leandro M. de Oliveira;
**Michael Radford

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Tempo de delicadeza

A álgebra e o dinheiro são essencialmente niveladores; o primeiro intelectualmente, o segundo efetivamente.

A beleza é a harmonia entre o acaso e o bem.


Quanto mais o nível da técnica aumenta, mais as vantagens que os novos progressos podem trazer diminuem em relação aos inconvenientes.


O bem é aquilo que dá maior realidade aos seres e às coisas; o mal é aquilo que disso os priva.


Pensa-se hoje na revolução, não como maneira de se solucionarem problemas postos pela atualidade, mas como um milagre que nos dispensa de resolver problemas.


Deus só pode estar presente na criação sob a forma de ausência.


A pureza é a capacidade de contemplar a mácula.


Dinheiro, maquinaria, álgebra: os três monstros da atual civilização.


O inferno é darmo-nos conta de que não existimos e não nos conformamos com isso.


A religião como fonte de consolação é um obstáculo à verdadeira fé; nesse sentido, o ateísmo é uma purificação.


Nada no mundo pode impedir o homem de se sentir nascido para a liberdade. Jamais, aconteça o que acontecer, ele pode aceitar a servidão: pois ele pensa.


A alegria é a nossa evasão do tempo.


Magoar alguém é transferir para outrem a degradação que temos em nós.


De entre os seres humanos, apenas conhecemos completamente a existência daqueles a quem amamos.


A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela exerce-se (é uma virtude).


O bem é aquilo que dá maior realidade aos seres e às coisas; o mal é aquilo que disso os priva.


É necessário realizar o possível para tocar o impossível.


Criar raízes quiçá seja a necessidade mais importante da alma humana. É uma das mais difíceis de se definir.


A violência às vezes é necessária, mas a meus olhos não há grandeza senão na doçura.
*Simone Weil

Deleuze e o significado da filosofia

Talvez só se possa colocar a questão "o que é a filosofia" tarde, quando vem a velhice e a hora de falar concretamente. É uma questão que se coloca quando não se tem mais nada a perguntar, mas suas consequências podem ser consideráveis. Antigamente, ela era colocada, não se parava de colocá-la, mas era demasiado artificial, demasiado abstrata, ela era exposta, era dominada mais que dominava. Existem casos em que a velhice dá, não uma eterna juventude, mas, ao contrário, uma soberana liberdade, uma necessidade pura em que se goza de um momento de graça entre a vida e a morte e onde todas as peças da máquina se combinam para enviar ao futuro um traço que atravessa as idades: Turner, Monet, Matisse. Turner velho adquiriu ou conquistou o direito de levar a pintura por um caminho deserto e sem volta, que não se distingue mais de uma última questão. Assim também na filosofia, a "Crítica do Juízo", de Kant, é uma obra de velhice, uma obra desembestada, atrás e da qual não vão parar de correr seus descendentes.

Nós não podemos aspirar a um tal status. Simplesmente veio a hora de perguntar o que é a filosofia. Não tínhamos cessado de fazê-lo anteriormente, e já tínhamos chegado à resposta, que não variou: a filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos. Mas não era suficiente que a resposta recolhesse a pergunta, era preciso que determinasse uma hora, uma ocasião, circunstâncias, paisagens e personagens, condições e incógnitas da questão. Era preciso poder colocá-la "entre amigos", como uma confidência ou uma confiança, ou então ante o inimigo, como um desafio, e de uma só vez alcançar essa hora, no lusco-fusco, em que se desconfia até mesmo do amigo.

É que os conceitos precisam de personagens conceituais que contribuam para a sua definição. "Amigo" é um desses personagens, e diz-se mesmo que ele testemunha a origem grega da "filo-sofia", as outras civilizações tinham sábios, mas os gregos apresentam esses "amigos", que não são apenas sábios mais modestos. Os gregos teriam enterrado de vez o sábio, substituindo-o pelos filósofos, os amigos da sabedoria, os que buscam a sabedoria, mas não a possuem formalmente. Poucos pensadores entretanto, se perguntaram o que significa "amigo", mesmo e sobretudo entre os gregos. Amigo designaria uma certa intimidade competente, uma espécie de gosto material ou uma potencialidade, como a do marceneiro com a madeira: o bom marceneiro tem a madeira em potencial, ele é o amigo da madeira? A questão é importante já que o amigo, tal como aparece na filosofia, não designa um personagem extrínseco ao pensamento, um exemplo ou uma circunstância empírica, mas uma presença intrínseca, uma condição de possibilidade do próprio pensamento, em suma, uma categoria viva, uma experiência transcendental, um elemento constituinte do pensamento. E de fato, desde o nascimento da filosofia, os gregos dobram o amigo, que não entra mais em relação com um outro, mas com uma "entidade", uma "objetividade", uma "essência". É o que exprime bem a fórmula tão frequentemente citada, que é preciso traduzir: sou o amigo de Pedro, de Paulo, ou mesmo do filósofo Platão, mas mais ainda amigo da "verdade", da "sabedoria" ou do "conceito". O filósofo está por dentro dos conceitos, e da falta deles, sabe quais são inviáveis, arbitrários ou inconsistentes, não se sustentam um único instante, quais ao contrário são bem feitos, resultado de uma criação, mesmo inquietante ou perigosa (...).

O filósofo é o amigo do conceito, ele tem o conceito em potencial. Isso quer dizer que a filosofia não é uma simples arte de formar, inventar ou fabricar conceitos, pois esses não são necessariamente formas, achados ou produtos. A filosofia, mais rigorosamente, é a disciplina que consiste em criar conceitos. O amigo seria o amigo de suas próprias criações? Criar conceitos sempre novos é o objeto da filosofia. É porque o conceito deve ser criado que ele remete ao filósofo, como àquele que o tem em potencial, ou que guarda a sua potência e competência. Não se pode objetar que a criação seja atribuída antes ao sensível e às artes, já que a arte dá existência a entidades espirituais e que os conceitos filosóficos são também "sensibilia". Na verdade, as ciências, as artes, as filosofias são igualmente criadoras, embora caiba somente à filosofia criar conceitos em sentido estrito. Os conceitos não nos esperam já prontos, como corpos celestes. Não há céu para os conceitos. Eles devem ser inventados, fabricados, ou melhor criados, e não seriam nada sem a assinatura daqueles que os criam. Nietzsche determinou a tarefa da filosofia quando escreveu: "Os filósofos não devem se contentar em aceitar os conceitos que lhes são dados, apenas para limpá-los e lustrá-los, mas é preciso que comecem fabricando-os, criando-os colocando-os e persuadindo os homens a recorrer a eles. Até hoje, em suma, cada um confiava em seus conceitos, como num dote milagroso vindo de um mundo qualquer, igualmente milagroso", mas é preciso substituir a confiança pela desconfiança, e é dos conceitos que o filósofo deve desconfiar mais, já que não foi ele mesmo que os criou (Platão o sabia bem, embora tenha ensinado o contrário...). De que valeira um filósofo de quem se poderia dizer: ele não criou conceito? Vemos ao mesmo o que a filosofia não é: ela não é contemplação, nem reflexão, nem comunicação, mesmo se às vezes acreditou ser uma coisa, às vezes outra, em razão da capacidade de toda disciplina de engendrar sua próprias ilusões e se esconder por trás de uma névoa que emite especialmente. Ela não é contemplação, pois as contemplações são as próprias coisas vistas na criação de seus próprios conceitos. Ela não é reflexão, porque ninguém precisa da filosofia para refletir sobre o que quer que seja: acreditamos estar dando muito à filosofia ao fazer dela a arte de reflexão, mas estamos lhe tirando tudo, pois os matemáticos nunca esperaram os filósofos para refletir sobre a matemática, nem os artistas sobre a pintura ou a música; dizer que eles se tornam então filósofos é uma brincadeira de mau gosto, já que a reflexão deles pertence à sua criação respectiva. E a filosofia não encontra nenhum refúgio último na comunicação, que só trabalha com opiniões em potencial, para criar "consensus" e não conceito.
*Gilles Deleuze

Χρόνος (Chronos)

Em vezes é como se o tempo rastejasse mais lento, o ar é denso, quase viscoso. Em vezes essa sensação me acomete, como estar dopado numa camisa de força. Aparte isso, o mundo pulsa a virulência das horas irresgatáveis, por entre animais e homens, cospe a fúria do tempo a recolher seus tributos. Olho a medo as sacadas distantes, onde em tempos remotos haviam castelãs virtuosas à minha espera. Constato. A vida corrompe até os mais distantes. Sensação; as mulheres são espectros, a virtude também, todas as coisas são invenções de um recém-chegado a tentar redefinir a dor que se sente na queda.

Tenho medo que meu corpo seja composto da argila dessa terra, que ele tenha se fundido ao chão enquanto os anos passavam sem alarde. A noite passa qual quimera, como passa o desfile de sombras, como passam e se aninham em mim tudo o que há de grave e profundo. Queria buscar na cidade um propósito novo, lá caminhando só encontrei postes e praças. Pelas ruas um silêncio inconsútil reina soberano, às vezes um cão cruza o caminho; silencioso.

O ar é de gelatina, definitivamente baço, mesmo ao sopé das luzes de sódio. Os sinos do campanário anunciam indiferentes, todos tem de prestar contas um dia. Antes, os que devem a si mesmos. Viver pra morrer, morrer pra viver. O pasmo de existir é oscilante em olhos e mãos, postura imobilizada. A única coisa digna de nota parece ser o dilema. Bem aventurados os que não nasceram...
*Leandro M. de Oliveira

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Nothing Else Matters

O homem mais solitário

Prólogo (buscando justificação);

Que pra ser livre é preciso ser solitário. Absorver a indignidade alheia frente ao que te se é mais sacro. Caminhar até aquela fenda escura donde reside a vida além do mito cotidiano. Abandonar-se, mil vezes um milhão à ida sem volta, resignar e inromper na peregrinação sem ícones. Eis o desafio do novo, o impulso que nasce derradeiro insuspeitado, que faz o homem abandonar a condição de homem e recriar-se no além. Mudado em besta, pedra e esquecimento, segue ele o caminho do qual ninguém retorna. Urge amar como um Jesus ressuscitado e odiar como um nazista convicto. O homem livre não tem padrão. A ele cabe, entre puritanos dançar como um bandido bêbado, e entre malfeitores pregar os códigos da ética mais mosaica. A estrada é erma, no ermo qualquer homem vacila sua crença, é preciso ter fé que toda fé vazia em si. O ponto de chegada não existe, entre paredes e objetos só a aceitação do vôo solo é o que o faz conhecer um mundo em além mundos. Ser todas as coisas e ao mesmo tempo não ser nada, estar em todos lugares sem nunca sair de si mesmo.

Tudo é construção. Tudo é um simulacro copioso do nada que os miseráveis inventaram para conceberem sua desgraça em inferior medida. O vazio é a única realidade possível.

Assim, apartado o caos da vida; que é homem, pedra, ou idéia? Que são todas as coisas senão coisa alguma que a mente fingi, distorce, direciona ou aborta? É uma estrada sem pavimento, um jogar-se aos lobos, uma rota sem mapa. O regresso ao comando de si exige abandono e um pouco mais daquilo que é impensável à maioria dos homens, impedidos de um passo a frente, inúteis para sempre. A natureza é implacável. Quantos gênios se perderam entre o instante de agir e o pudor à transgressão do que lhes era imposta? Imobilizados pelo medo, descartáveis como lenços de papel. Não se deve consumir de outros homens idéias ou carne (como é comum nesses tempos), canibalizar-se é ordem do dia. Na indigestão dos tecidos mui familiares, no adocicado ferruginoso do sangue a ser metabolizado pelo mesmo sangue, um algo novo há de surgir. Para essa vida pré-fabricada, nauseantemente confortável, é decretado o fim. É tempo de ser selvagem, o último rei sempre esteve enforcado nas entranhas do último papa, entre a visão e a percepção as brumas do inglório Zeitgeist¹ turbaram um pouco o siso. É hora de recobrar-se da letargia. O que existe para o homem que abraça a caminhada? Nada. Tudo!

Capítulo um: Abençoado seja;

Para além de qualquer revolta meramente desnecessária (como todas o são), as impossibilidades são o conjunto de fatores que moldam a vida. A cara na porta, o carro que nunca se pode possuir, o restaurante em que nunca se pode comer, são no mundo em que o verbo ter a tudo conjuga, determinantes que canalizam as buscas do indivíduo. O homem desentranha da privação o fomento da transcendência, a nascente da força e o domínio do gênio que impulsiona para o além, vivem encerrados no não ser. Pegar o que se tem a mão e daí alçar vôos maiores, quando não há rebelião, tudo é possível. O homo sapiens é como uma árvore, com raízes cravadas à terra mas, tendo no cume uma copa que se abre ao infinito. A chave do universo dorme nesse chão e nessa abertura, não é preciso buscá-la em outro lugar. O caminho da aceitação é a senda da vida plena, os boicotes do destino não vem como castigo, com efeito como impulso ao aprimoramento.
O ser humano está nessa terra como síntese do todo, e participando de cada instância da vida deve realizar-se compreendendo então a totalidade de que é forjado. As privações são apenas uma forma de nos manter mais gratos na conquista e menos soberbos no desfrute. Tudo é perfeito. Abençoado seja.

Capítulo dois: Maldito esteja;

A vida é uma mentira. A compaixão é anestesia barata que cheira a decadência. Essa sandice propagada pelos ressentidos não é mais que um plano para o agrilhoar-se daqueles que nascem livres. “Se te baterem em um lado da face ofereça o outro”, eis aí a forma mais tirana de agressão. O homem de bem só deve odiar seus inimigos, é a única forma de digna de honrá-los. A vida é uma acidente da matéria, o mundo é fruto das predisposições convulsivas da natureza. Fomos todos abortados! Todos frutos indesejados de uma relação maldita entre o natural e o acaso. O amor só é possível na cabeça de alguns sacerdotes e nos filmes de Hollywood, esse ídolo onisciente tem o mesmo fundamento das divagações de um bêbado.

(à minha frente um homem clama misericórdia divina, é preciso dizer a verdade...)

Vocês esquartejaram Deus, comeram suas carnes, e agora com o dedo na garganta querem vomitar pra fora a graça e a clemência que o tempo jamais permitiu aos que hesitam. Abandonem o cadáver, abrace o vivo, o que anda pela terra. O homem herdou um paraíso e fez dele um esgoto a céu aberto. Maldito seja!

Epílogo (das impossibilidades);

O tempo passou, a juventude também. As palavras tornaram alheias nos meandros de seu próprio labirinto. O escritor perdeu-se à procura delas...
Morreu por fim, em desencanto, ao descobrir que a emoção é muda, cega e surda. Toda representação é vã. A noite esmoreceu e o sonho com ela.
Abençoada a vida. Maldita a vida. Incerto o caminho.
*Leandro M. de Oliveira
1 - Zeitgeist é um termo alemão cuja tradução significa espírito de época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo.