quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O oposicionismo dos valores

O que são os valores? Dizemos que os valores não existem por si mesmos: necessitam de um depositário sobre o qual descansam. Aparecem-nos, portanto como meras qualidades desses depositários: beleza de um quadro, elegância de um vestido, utilidade de uma ferramenta. Se observarmos o vestido, o quadro ou a ferramenta, veremos que a qualidade valorativa é distinta das outras qualidades.

Nos objetos mencionados há algumas qualidades que parecem essenciais para a própria existência dos objetos, por exemplo, a extensão. Mas o valor não confere nem agrega ser, pois a pedra existia plenamente antes de ser talhada, antes de se transformar num bem.

Enquanto as qualidades primárias não se podem eliminar dos objetos, bastam uns golpes de martelo para terminar com a utilidade de um instrumento ou a beleza de uma estátua. Antes de incorporar-se no respectivo portador ou depositário, os valores são meras "possibilidades", isto é, não têm existência real, mas virtual.
Ver-se-á melhor a diferença se se comparar a beleza, que é um valor, com a idéia de beleza, que é um objeto ideal. Captamos a beleza primordialmente por via emocional, enquanto a idéia de beleza aprende-se por via intelectual.
Com o fim de distinguir os valores dos objetos ideais, afirma-se que estes são, enquanto os valores não são, mas valem.

Uma característica fundamental dos valores é a polaridade. Enquanto as coisas são o que são, os valores apresentam-se desdobrados num valor positivo e o correspondente valor negativo. Assim, a beleza opõe-se à fealdade, o mal ao bem. A polaridade implica a ruptura com a indiferença. Não há obra de arte que seja neutra, nem pessoa que se mantenha indiferente a escutar uma sinfonia, ler um poema ou ver um quadro.
Aliás os valores estão ordenados hierarquicamente, isto é, há valores inferiores e superiores. É mais fácil afirmar a existência de uma ordem hierárquica do que indicar qual é essa ordem e quais são os critérios para a estabelecer.
Muitos são os axiólogos que têm enunciado uma tábua de valores, pretendendo que essa seja a "TÁBUA", mas a crítica mostra rapidamente os erros de tais tábuas e dos critérios usados na sua elaboração.

O homem individualmente, bem como as comunidades e os grupos culturais concretos, manejam sempre uma tábua de valores. É certo que tais tábuas não são fixas, mas flutuantes, e nem sempre coerentes; porém é indubitável que o nosso comportamento frente ao próximo, aos seus atos, às suas criações estéticas (...) é julgá-los e preferi-los de acordo com uma tábua de valores. Submeter essas tábuas de valores, que obscuramente influem na nossa conduta e nas nossas preferências, a um exame crítico, é a tarefa a que o homem moderno não pode renunciar.
*Frondizi

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Marx e o vil metal

Abaixo um texto da lavra de Karl Marx extraído de seu “manuscritos econômico-filosóficos”. O trecho citado é um manifesto sobre as impossibilidades que acompanham a falta de poder aquisitivo em uma sociedade capitalista, a subtração e a alienação de um sentido ético de comunidade frente ao apelo do domínio econômico. Marx faz o seu mergulho na alma desses tempos e nos alerta da perda das convicções profundas e da transformação do homem em um “ser-coisa”, na medida em que todos possuem seu preço e isso por sua vez orienta as escolhas do mesmo, fazendo-o prosperar ou enfrentar privações agudas. Aí vai:

"Eu, se não tenho dinheiro para viajar, não tenho necessidade alguma, isto é, nenhuma necessidade efetiva e efetivando-se de viajar. Eu, se tenho vocação para estudar, mas não tenho dinheiro algum para isso, não tenho vocação para estudar, isto é, nenhuma vocação efetiva, verdadeira. Se eu, ao contrario, não tenho vocação alguma para estudar, mas tenho a vontade e o dinheiro, tenho para isso uma vocação efetiva.

O dinheiro (enquanto exterior, não oriundo do homem enquanto homem, nem da sociedade humana enquanto sociedade), meio e capacidade universais, faz da representação efetividade e da efetividade uma pura representação, transforma igualmente as forças essenciais humanas efetivas e naturais em puras representação abstrata e, por isso, em imperfeições, angustiantes fantasias, assim como, por outro lado, transforma as efetivas e fantasias, as suas forças essenciais realmente impotentes que só existe na imaginação do indivíduo, em forças essenciais efetivas e efetiva capacidade.

Já segundo esta determinação o dinheiro é, portanto, a inversão universal da individualidade, que ele converte no seu contrário e que aos seus atributos contraditórios. Enquanto tal poder inversor, o dinheiro se apresenta também contra o indivíduo e contra os vínculos sociais etc., que pretende ser, para si, essência. Ele transforma fidelidade em infidelidade, amor em ódio, ódio em amor, a virtude em vicio, o vicio em virtude, o servo em senhor, o senhor em servo, a estupidez em entendimento, o entendimento em estupidez (...)"
*Karl Marx

Cem Anos de Solidão (Trechos)

Uma noite, na época em que Rebeca se curou do vício de comer terra e foi levada para dormir no quarto das outras crianças, a índia que dormia com eles acordou por acaso e ouviu um estranho ruído intermitente no canto. Sentou-se alarmada, pensando que tinha entrado algum animal no quarto, e então viu Rebeca na cadeira de balanço, chupando o dedo e com os olhos fosforecentes como os de um gato na escuridão. Pasmada de terror, perseguida pela fatalidade do destino, Visitación reconheceu nesses olhos os sintomas da doença cuja ameaça os havia obrigado, a ela e ao irmão, a se desterrarem para sempre de um reino milenário no qual eram príncipes. Era a pesta da insônia.

Cataure, o índio, não amanheceu em casa. Sua irmã ficou, porque o coração fatalista lhe indicava que a doença fatal haveria de persegui-la de todas as maneiras até o último lugar da terra. Ninguém entendeu o pânico de Visitación. “Se a gente não voltar a dormir, melhor”, dizia José Arcadio Buendia, de bom humor. “Assim a vida rende mais”. Mas a índia explicou que o mais temível da doença da insônia não era a impossibilidade de dormir, pois o corpo não sentia cansaço nenhum, mas sim a sua inexorável evolução para uma manifestação mais crítica: o esquecimento. Queria dizer que quando o doente se acostumava ao seu estado de vigília, começavam a apagar-se da sua memória as lembranças da infância, em seguida o nome e a noção das coisas, e por último a identidade das pessoas e ainda a consciência do próprio ser, até se afundar numa espécie de idiotice sem passado. José Arcadio Buendia, morto de rir, considerou que se tratava de mais uma das tantas enfermidades inventadas pela superstição dos indígenas. Mas Úrsula, por via das dúvidas, tomou a precaução de separar Rebeca das outras crianças.

Ao fim de várias semanas, quando o terror de Visitación parecia aplacado, José Arcadio Buendia encontrou-se uma noite rolando na cama sem poder dormir. Úrsula, que também tinha acordado, perguntou-lhe o que estava acontecendo e ele respondeu: “Estou pensando outra vez em Prudencio Aguilar”. Não dormiram um minuto sequer, mas no dia seguinte se sentiam tão descansados que se esqueceram da noite ruim. Aureliano comentou assombrado na hora do almoço que se sentia muito bem, apesar de ter passado a noite no laboratório, dourando um broche que pensava dar a Úrsula no dia do seu aniversário. Não se alarmaram até o terceiro dia, quando na hora de deitar se sentiram sem sono, e deram conta de que estavam há mais de cinqüenta horas sem dormir.
- As crianças também estão acordadas – disse a índia com a sua convicção fatalista. – Uma vez que a peste entra em casa, ninguém escapa.

(...) Quando José Arcadio Buendia percebeu que a peste tinha invadido a povoação, reuniu os chefes de família para explicar-lhes o que sabia sobre a doença da insônia, e estabeleceram medidas para impedir que o flagelo se alastrasse para as outras povoações do pantanal. Foi assim que se tiraram dos cabritos os sininhos que os árabes trocavam por papagaios, e se puseram na entrada do povoado, à disposição dos que desatendiam os conselhos e as súplicas dos sentinelas e que insistiam em visitar a aldeia. Todos os forasteiros que por aquele tempo percorriam as ruas de Macondo tinham que fazer soar o sininho para que os doentes soubessem que estavam sãos. Não se lhes permitia comer nem beber nada durante a sua estada, pois não havia dúvidas de que a doença só se transmitia pela boca, e todas as coisas de comer e de beber estavam contaminadas pela insônia. Desta forma, manteve-se a peste circunscrita ao perímetro do povoado. Tão eficaz foi a quarentena, que chegou o dia em que a situação de emergência passou a ser encarada como coisa natural e se organizou a vida de tal maneira que o trabalho retomou o seu ritmo e ninguém voltou a se preocupar com o inútil costume de dormir.

Foi Aureliano quem concebeu a fórmula que havia de defendê-los, durante vários meses, das evasões da memória. Descobriu-a por acaso. Insone experimentado, por ter sido um dos primeiros, tinha aprendido com perfeição a arte da ourivesaria. Um dia, estava procurando a pequena bigorna que utilizava para laminar os metais, e não se lembrou do seu nome. Seu pai lhe disse: “tás”. Aureliano escreveu o nome num papel que pregou com cola na base da bigorninha: tás. Assim, ficou certo de não esquecê-lo no futuro. Não lhe ocorreu que fosse aquela a primeira manifestação do esquecimento, porque o objeto tinha um nome difícil de lembrar. Mas poucos dias depois, descobriu que tinha dificuldade de se lembrar de quase todas as coisas do laboratório. Então, marcou-as com o nome respectivo, de modo que bastava ler a inscrição para identificá-las. Quando seu pai lhe comunicou o seu pavor por ter-se esquecido até dos fatos mais impressionantes de sua infância, Aureliano lhe explicou o seu método, e José Arcadio o pôs em prática para toda a casa e mais tarde o impôs a todo o povoado. Com um pincel cheio de tinta, marcou cada coisa com o seu nome: mesa, cadeira, relógio, porta, parede, cama, panela. Foi ao curral e marcou os animais e as plantas: vaca, cabrito, porco, galinha, aipim, taioba, bananeira. Pouco a pouco, estudando as infinitas possibilidades do esquecimento, percebeu que podia chegar um dia em que se reconhecessem as coisas pelas suas inscrições, mas não se recordasse a sua utilidade. Então foi mais explícito. O letreiro que pendurou no cachaço da vaca era uma amostra exemplar da forma pela qual os habitantes de Macondo estavam dispostos a lutar contra o esquecimento: Esta é a vaca, tem-se que ordenhá-la todas as manhãs para que produza o leite e o leite é preciso ferver para misturá-lo com o café e fazer café com leite. Assim, continuaram vivendo numa realidade escorregadia, momentaneamente capturada pelas palavras, mas que haveria de fugir sem remédio quando esquecessem os valores da letra escrita.

Na entrada do caminho do pântano, puseram um cartaz que dizia Macondo e outro maior na rua central que dizia Deus existe. Em todas as casas haviam escrito lembretes para memorizar os objetos e os sentimentos. Mas o sistema exigia tanta vigilância e tanta fortaleza moral que muitos sucumbiram ao feitiço de uma realidade imaginária, inventada por eles mesmos, que acabava por ser menos prática, porém mais reconfortante. Pilar Ternera foi quem mais contribuiu para popularizar essa mistificação, quando concebeu o artifício de ler o passado nas cartas como antes tinha lido o futuro. Com esse recurso, os insones começaram a viver num mundo construído pelas alternativas incertas do baralho, onde o pai se lembrava de si apenas como o homem moreno que havia chegado no princípio de abril, e a mãe se lembrava de si apenas como a mulher trigueira que usava um anel de ouro na mão esquerda, e onde uma data de nascimento ficava reduzida à última quarta-feira em que cantou a calhandra no loureiro (...)
*Gabriel García Márquez

Arte e tipos de artistas

A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte.

Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida à ação, a ação a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve (...)
*Fernando Pessoa

O trilha para a felicidade (Volta às origens)

As coisas humanas não vão tão bem que as melhores soluções agradem à maioria: a opinião da multidão é indício do pior. Procuremos, pois, aquilo que é o melhor e não aquilo que é mais comum, aquilo que nos colocará na posse de uma felicidade eterna e não o que tem aprovação do vulgar, que é o pior intérprete da verdade; ora, no vulgar, alinham tanto as pessoas com clâmides* como as pessoas coroadas, pois não olho a cor das vestes com que os corpos estão cobertos; quando se trata de avaliar um homem, não confio nos meus olhos; tenho, para distinguir o verdadeiro do falso, um melhor e mais seguro critério; o bem da alma tem de ser descoberto pela alma. (...)

Procuro de preferência um bem que possa sentir a um que possa expor; aquilo que se vê, aquilo que atrai os olhares, aquilo que se aponta ao outro com uma admiração plena de surpresa, isso brilha por fora, mas por dentro é apenas miséria. Procuremos um bem que não se afirme pela sua aparência, mas que seja sólido, constante com uma beleza interna e oculta; desenterremo-lo.(...)

De resto, e aqui todos os estóicos estão de acordo, é à natureza que dou a minha concordância, a sabedoria reside em não nos afastarmos dela, em nos conformarmos à sua lei e ao seu modelo.


A vida feliz é pois uma vida conforme à sua própria natureza; não podendo ser alcançada, a menos que a alma esteja sã, em posse contínua da saúde, e que seja depois corajosa e enérgica, bela e paciente, adaptada às circunstâncias, cuidadosa do seu corpo e daquilo que lhe diz respeito, sem no entanto ficar inquieta, diligente em relação aos outros meios de embelezar a vida sem admirar nenhum deles, pronta a fazer uso dos presentes da sorte, mas não a sujeitar-se a eles. Compreenderás, mesmo que nada acrescente, que daí resultam a tranquilidade para sempre e a liberdade, pois ficamos livres daquilo que nos agita e assusta.
*Sêneca
**Clâmides: capa curta que se usava na Grécia.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sofístico (ou da crise criativa)

O que é escrever senão fingir? Dissimular o ego, pregar ideais por nós nunca acreditados, ou quem sabe, ser subversivo, criar mil teses anarquistas e ainda assim engraxar os sapatos de manhã e escovar os dentes a noite. Escrever é transfigurar-se, é ter na matéria ordinária a quintessência de todas as pedras filosofais. Ser abduzido pela alma do mundo, psicografá-la, como um amante sexualiza seu primeiro amor, se perder na acolhida, deixar-se consumir pela cal. Escrever é deveras fingir! Fingir copiosamente a dor quer nunca habitou, esquecer a razão entre lembranças, cabelos e dentes. É dar parte ao furacão fazendo sombra à paragem mais densa, é reclamar liberdade ansiando pelos mil grilhões que unem a teia de existir.

A vida é curta. A alegria cotidiana é pífia. E o “escrevedor” que disso nada entende, segue em peregrinação santa por rotas ordinárias. Onde está o Graal? Na minha cabeça ou no meio das pernas dela? Ademais que é cabeça ou perna, ou sangue ou sonho, tudo mitificado está, pela dicotomia do não-ser sendo. No redondo escuro da hora, carregar o fardo é papel daquele que hesita. Ainda que tenha hesitado da maneira mais meticulosa possível, ninguém engana a vida. Quero rasgar o chão com as mãos nuas, quero rasgar pescoços com meus dentes à amostra. Tudo é hipótese. Essa terra imunda não conserva mais diamantes.

Partir ficando, ficar partindo, a palavra cuida, acaricia, sodomiza, espanca. A palavra beija e cospe, na cara uma verdade antiga muda mentira nova. Escrever é perder a razão pra nunca mais, e por fim quando lá nada haver ser, restituído de tudo, e outra vez perder, e outra vez ganhar. Eternamente farto, eternamente miserável. O profeta maldito segue porque escrever é uma maldição que a auto-piedade transformou em bênção. Não sei por que os bebês tem refluxo, não sei por que o homem mata a si mesmo. Tudo lisérgico, suavemente insuportável. É o mundo... Ser abortado da consciência em nome do espírito coletivo, uma mentira que deu certo, ou não. Assim, aquele que cria meios na individualidade o faz para ser múltiplo, para repartir entre as bestas, membros, tronco, cabeça e coração. Escrever é deixar-se à cova dos leões. Hoje quis me doar, todavia, acordei com a disposição ao martírio em baixa...
*Leandro M. de Oliveira

A alma de Guernica

Era uam vez a guerra civil espanhola, e nela uma aldeia de Guernica, essa atacada e praticamente destruida pela Luftwaffe, inspirou uma das mais famosas pinturas de Pablo Picasso. Frente à tragédia do bombardeamento e o caos disseminado entre destroços e corpos, esta obra, que já vinha sendo trabalhada pelo artista há algum tempo, é finalizada e recebe o nome da aldeia então arrasada, nascendo e perpetuando-se Guernica.

Lena Gieseke propôs-se a fazer uma representação a três dimensões desta famosa pintura, idéia que surge a partir da influência da montagem de puzzles de pinturas famosas.Segundo Lena, através da montagem de puzzles a percepção de toda a obra adquire um significado diferente, pelo fato deste processo obrigar a um estudo detalhado das linhas, formas e cores que dão vida a toda a composição. A minúcia necessária para a execução de tal tarefa permite que tenhamos consciência de certos detalhes que, de outra forma, jamais seriam percepcionados.

A experiência da pintura torna-se então mais intensa, pela interação causada pela solução do puzzel mas, ao mesmo tempo, fortalecida e expandida pela própria fantasia do observador, a medida que vai analisando pequenos pedaços desconexos da obra. Aqui o simbólico recria o horror da vida que nos é ofertado como flores de uma consistência rara. Bem vindo ao mundo da delicadeza nascida da brutalidade, bem vindo à alma de Guernica.

*Leandro M. de Oliveira

Entartete Kunst, o crime nazi contra a arte

Entartete Kunst - literalmente Arte Degenerada - foi a designação que o regime nazi da Alemanha deu genericamente à arte moderna, a toda aquela que não fosse figurativa, imitativa, realista ou tradicional. Nesta classificação incluíam-se sobretudo as obras vanguardistas da pintura e da escultura de caráter abstrato, surrealista ou expressionista. Os autores destas "aberrações" eram, segundo os nazis, alegadamente judeus bolcheviques - uma ameaça, portanto - e, consequentemente, sujeitos a sanções de várias ordens, como interdição de expor, de dar aulas, de vender as suas obras, etc. Estamos falando de artistas como Wassily Kandinsky, Marc Chagall, Max Ernst, Paul Klee, para citar apenas alguns dos mais conhecidos. Tratou-se de uma tentativa sistemática de dilapidação da alma simbólica de uma época suprimindo a produção dos artistas modernos que exprimiam as incertezas do então século XX pós primeira guerra mundial.
Dentro de um grande ideal nazi que era o mito do corpo do povo alemão, onde difundiu-se a idéia de que a massa de pessoas formava uma espécie de sistema circulatório, sendo assim o elemento básico para a purificação da raça. Josef Goebbels trabalha artífices para o expurgo das pragas e doenças que impediam esse corpo de se manter totalmente são e prosperar na criação de um reich de mil anos. A arte bolchevique era uma das piores doenças incutidas nas artérias do “corpo” alemão, então era dever do estado eliminar essa praga visual e ideológica que nublava o siso das pessoas impedindo o encontro do arquétipo do homem verdadeiro (ariano). Essa foi a justificativa para alguns dos piores crimes praticados contra a expressão artística do mundo na história.
A expressão Arte Degenerada foi habilmente difundida pelo ministro da propaganda de Hitler, Goebbels, numa imensa campanha de descrédito da produção modernista. Em 1937, uma comissão por ele nomeada ficou incumbida de confiscar dos museus e coleções particulares todas as obras consideradas "subversivas" - ao todo mais de 5000. A maioria era de artistas alemães mas, entre elas também se encontravam telas de Matisse, Picasso e até van Gogh. Com este imenso lote montou-se então uma exposição para ridicularizar a arte moderna e tentar incutir nos seus visitantes repulsa pelas expressões artísticas que na ótica dos seus organizadores, maculavam a genuína cultura alemã. Como era de prever Entartete Kunst foi o nome dessa exposição.
Em 19 de Julho de 1937 cerca de 650 pinturas, esculturas, gravuras, etc. foram mostradas ao público num decrépito edifício de Munique. A forma propositadamente desordenada, amontoada e tendenciosa como as obras se encontravam patentes juntavam-se slogans "pedagógicos" que pretendiam explicar o seu significado aos visitantes: Revelação da alma racial judia, Insulto às mulheres alemãs, Natureza vista por mentes perturbadas, Troça do Divino, etc. A exposição viajou ainda por mais algumas cidades da Alemanha e da Áustria.
O crime nazi então se alargou a proporções dantescas pois, enquanto decorria este evento Goebbels ordenou a apreensão de mais obras de arte degenerada, um número que se pensa ter chegado a mais de 16.000! Depois da exposição várias obras integraram as coleções particulares de alguns membros do partido nazi que sabiam bem o que valiam (Hermann Goering foi um deles) enquanto outras foram enviadas para a Suíça para serem leiloadas. Só assim puderam sobreviver até hoje.
Curiosamente, esta campanha de descrédito teve um reverso da medalha e um desenlace irônico. Ao mesmo tempo os nazis promoveram outra enorme mostra destinada a divulgar a arte oficial, caucionada pelo regime. Chamaram-lhe pomposamente Grosse deutsche Kunstausstellung (Grande Exposição da Arte Alemã) e alojaram-na no magnífico Haus der Kunst, em Munique. Após o seu término verificou-se que tinha sido visitada por pouco mais do que um quarto das pessoas que visitaram a Entartete Kuns, fato engraçado é que o adquirente de quase a totalidade das obras expostas em Grosse deutsche Kunstausstellung foi Adolf Hitler...
*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Civilidade, melhoria do gênero humano ou alienação dos sentidos?

A civilidade é uma questão de costumes, etiqueta, urbanidade, ritos informais que facilitam as nossas interações e, dessa forma, nos fornecem modos de nos tratarmos mutuamente com consideração. Cria espaço social e psicológico para as pessoas viverem as suas vidas e fazerem as suas escolhas. Os jovens que cospem para o passeio e praguejam nos ônibus revelam sintomas meramente superficiais de incivilidade. Mais grave é a violação da privacidade por parte dos jornais sensacionalistas e as incursões em áreas da vida pessoal irrelevantes para as questões públicas - por exemplo, revelações acerca da vida sexual dos políticos. A nossa época é, efetivamente, moralista. Nauseantemente moralista. E isso constitui grande parte do problema, uma vez que as atitudes moralistas são intolerantes, e a intolerância é uma das piores descortesias. Exigir a cortesia é de certa forma, exigir muito pouco: "Devemos ser corteses com um homem da mesma forma como o somos com um quadro, ao qual estamos dispostos a conceder o benefício de uma boa luz", dizia Emerson.

A perda de civilidade significa que o sentimento social foi substituído pela defensiva, com os grupos a reunir-se em torno de conceitos de identidade nacionalista, étnica e religiosa, erigindo barreiras contra os outros e, assim protegendo-se a si mesmos. A sociedade fragmenta-se em subgrupos cujos membros esperam assim escudar-se do egoísmo e desconsideração cáusticos dos outros.


"Há uma cortesia do coração que possui um caráter semelhante ao amor. Dela nasce a cortesia mais pura, no comportamento exterior", disse Goethe (...) a civilidade promove uma sociedade que se comporta bem em relação a si mesma, cujos membros respeitam o valor intrínseco do indivíduo e os direitos das pessoas diferentes de si.

*A.C. Grayling

J. D. Salinger

Nem parecia que tinha nevado, as calçadas já estavam quase limpas. Mas fazia um frio de rachar e tratei de tirar do bolso meu chapéu vermelho e botei na cabeça - estava pouco ligando para minha aparência. Cheguei até a baixar os protetores de orelha. Bem que gostaria de saber qual o safado que tinha roubado minhas luvas no Pencey, porque minhas mãos estavam geladas. Não que eu fosse fazer muita coisa se soubesse. Sou um desses sujeitos covardes pra chuchu. Procuro não demonstrar, mas sou. Por exemplo, se tivesse descoberto quem roubou minhas luvas no Pencey, provavelmente teria ido até o quarto do vigarista e diria: "Muito bem. Que tal ir me passando as luvas?". Aí, o vigarista que as tinha roubado provavelmente responderia, com a voz mais inocente do mundo: "Que luvas?". Aí eu provavelmente ia até o armário dele e encontrava as luvas num canto qualquer, escondida na porcaria das galochas ou coisa que o valha. Apanhava as luvas, mostrava a ele e perguntava: "Quer dizer que essas luvas são tuas, não é?". Aí o filho da mãe provavelmente olharia para mim, com a maior cara de anjinho, e diria: "Nunca vi essas luvas em toda a minha vida. Se são tuas, pode levar. Não quero mesmo essa droga pra nada". Aí eu provavelmente teria ficado uns cinco minutos de pé, no mesmo lugar, com as luvas na mão e tudo. Ia me sentir na obrigação de dar um soco no queixo do sujeito, quebrar a cara dele. Só que não iria ter coragem de fazer nada. Ia só ficar ali, de pé, tentando fazer cara de mau. Talvez dissesse alguma coisa bem cortante e sarcástica, para aporrinhar o sujeito - em vez de lhe dar um soco no queixo. Seja lá como for, se eu dissesse alguma coisa bem cortante e sarcástica, ele provavelmente se levantaria, chegaria mais perto de mim e perguntaria: "Escuta, Caulfield. Você tá me chamando de ladrão?". Aí, em vez de dizer que era isso mesmo, que ele era um filho da mãe dum ladrão, eu provavelmente só teria dito: "Só sei que a droga das minhas luvas estavam na droga das tuas galochas". A essa altura o sujeito já saberia com certeza que eu não ia mesmo dar um soco nele e diria: "Olha, vamos deixar esse negócio bem claro. Você ta me chamando de ladrão?". Eu então provavelmente responderia: "Ninguém está chamando ninguém de ladrão. Só sei que as minhas luvas estavam na porcaria das tuas galochas". O negócio podia continuar assim durante horas. Finalmente eu iria embora sem ter dado um sopapo nele. Provavelmente ia para o banheiro, acendia um cigarro e ficava me olhando no espelho, fazendo cara de valente. De qualquer maneira, era nisso que eu estava pensando enquanto voltava para o hotel. Não é nada engraçado ser covarde. Talvez eu não seja totalmente covarde. Sei lá. Acho que talvez eu seja apenas em parte covarde, e em parte o tipo de sujeito que está pouco ligando se perder as luvas. Um de meus problemas é que nunca me importo muito quando perco alguma coisa - quando eu era pequeno minha mãe ficava danada comigo por causa disso. Tem gente que passa dias procurando alguma coisa que perdeu. Eu acho que nunca tive nada que me importaria muito de perder. Talvez por isso eu seja em parte covarde. Mas isso não é desculpa. Sei que não é. O negócio é não ser nem um pouquinho covarde. Se é hora de dar um soco na cara de alguém, e dá vontade mesmo de fazer isso, a gente não devia nem conversar. Mas não consigo ser assim. Eu preferia empurrar um sujeito pela janela, ou cortar a cabeça dele com um machado, do que dar um soco no queixo dele. Odeio briga de soco. Não que me importe muito de apanhar - embora, naturalmente, não seja fanático por pancada - mas o que me apavora mais na briga é a cara do outro sujeito. Não consigo ficar olhando a cara do outro sujeito, esse é que é o meu problema. Não seria tão ruim se a gente estivesse com os olhos vendados, ou coisa que o valha. Pensando bem, é um tipo gozado de covardia, mas não deixa de ser covardia. E eu não procuro me iludir (...)
*J. D. Salinger em "O Apanhador no Campo de Centeio"
**Em tempo, uma nota de pesar pelo empobrecimento do mundo das letras ocorrido hoje (dia 28 de janeiro de 2009) com a morte desse grande artista no auto de seus 91 anos. Vida longa ao doce pessimista...