segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Anarquismo (ou; daquilo de que é feito o homem?)

A Noite e o Caos são parte de mim. Dato do silêncio das estrelas. Sou o efeito de uma causa do tempo do Universo [e que o excede, talvez]. Para me encontrar tenho de me procurar nas flores, e nas aves, nos campos e nas cidades, nos actos, nas palavras e pensamentos dos homens, na luz do sol e nos escombros esquecidos de mundos que já pereceram.

Quanto mais cresço, menos sou eu. Quanto mais me encontro, mais me perco. Quanto mais me sinto mais vejo que sou flor e ave e estrela e Universo. Quanto mais me defino, menos limites tenho. Transbordo Tudo. No fundo sou o mesmo que Deus.

Na minha presença hodierna têm parte as idades anteriores à Vida, os tempos mais antigos do que a Terra, os ocos do espaço antes que o mundo fosse.

Na noite onde nasceram as estrelas comecei a constelar-me de ser.

Não há um único átomo da mais longínqua estrela que não colaborasse no meu ser.

Porque Afonso Henriques existiu, eu sou. Porque Nun'Álvares combateu, existo. Seria outro - não serei, portanto - se Vasco da Gama não tivesse achado o Caminho da Índia nem Pombal tivesse governado (...) anos.

Shakespeare é parte de mim. Para mim trabalhou Cromwell quando arquitectou a Inglaterra. Ao ganhar com Roma, Henrique Oitavo fez-me ser hoje o que eu sou.

Para mim pensou Aristóteles e cantou Homero. Neste sentido místico e profundo deveras [...], Cristo morreu por mim. Um místico índio que eu não sei se existiu, há 2000 anos colaborou no meu ser actual. Pregou moral Confúncio à minha presença de hoje. O primeiro homem que achou o fogo, o que inventou a roda, o primeiro que ideou a seta - se hoje eu sou eu é porque eles existiram.
*Fernando Pessoa

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Amor ao próximo

Está fora de dúvida que através dela [a atividade maquinal] uma existência sofredora é aliviada num grau considerável: a este fato chama-se atualmente, de modo algo desonesto, "a bênção do trabalho". O alívio consiste em que o interesse do sofredor é inteiramente desviado do sofrimento - em que a consciência é permanentemente tomada por um afazer seguido de outro, e em conseqüência resta pouco espaço para o sofrimento: pois ela é pequena, esta câmara da consciência humana!

A atividade maquinal e o que dela é próprio - a absoluta regularidade, a obediência pontual e impensada, o modo de vida fixado uma vez por todas, o preenchimento do tempo, uma certa permissão, mesmo educação para a "impessoalidade", para o esquecimento de si, para a "incuria sui" -: de que maneira completa e sutil o sacerdote ascético soube utilizá-la na luta com a dor! Precisamente quando tinha de lidar com sofredores [...] necessitava ele de pouco mais que a pequena arte de mudar os nomes e rebatizar as coisas, para fazer com que vissem benefício e relativa felicidade em coisas até então odiadas. [...] Um meio ainda mais apreciado na luta contra a depressão é a prescrição de uma pequena alegria que seja de fácil obtenção e possa ser tornada regra.

[...] A forma mais freqüente em que a alegria é assim prescrita como meio de cura é a alegria de causar alegria (ao fazer benefício, presentear, aliviar, ajudar, convencer, consolar, louvar, distinguir); no fundo, ao prescrever "amor ao próximo", o sacerdote ascético prescreve uma estimulação, embora em dosagem prudente, do impulso mais forte e mais afirmador da vida - da vontade de poder. A felicidade da "pequena superioridade", que acompanha todo ato de beneficiar, servir, ajudar, distinguir, é o mais abundante meio de consolo de que costumam servir-se os fisiologicamente obstruídos, supondo-se que estejam bem aconselhados. [...] Todos os doentes, todos os doentios, buscam instintivamente organizar-se em rebanho, na ânsia de livrar-se do surdo desprazer e do sentimento de fraqueza: o sacerdote ascético intui esse instinto e o promove; onde há rebanho, é o instinto de fraqueza que o quis, e a sabedoria do sacerdote que a organizou.

* Friedrich Nietzsche in "Genealogia da Moral"

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O mito da igualdade

Em última instância, desde que criemos qualquer coisa, criamos desigualdade: se escrevo um livro terei um sucesso e um renome que o meu vizinho não tem porque ainda não escreveu um livro. Impossível terminar com as desigualdades (...) a nossa perturbação resulta de um exagero contemporâneo sobre o valor da igualdade. Ora Aristóteles - que em matéria moral nunca foi ultrapassado - demonstra na Ética a Nicómaco que se uma exigência (exigence) é forçada ao seu extremo, acaba por ter um efeito perverso. Isto é verdadeiro para qualquer valor: uma liberdade desmensurada acaba na tirania dos mais fortes. E, do mesmo modo, uma igualdade sem proporção provoca uma série de desigualdades.

Podemos observá-lo na Escola: em média há hoje menos crianças de operários nas grandes escolas do que havia nos anos cinquenta. Apesar da constante exigência de igualdade, houve uma regressão! Simplesmente porque hoje é considerado contra-produtivo, e enfim hipócrita, tratar de um modo igual uma criança da burguesia - que tem acesso aos bens culturais, a aulas particulares, etc - e uma criança dos subúrbios. Ao tratar cada caso de forma diferente , reforçamos as desigualdades iniciais.

De outro modo, penso que a ideologia igualitária é tanto mais perniciosa quanto põe em perigo a nossa necessidade de democracia. Porque acredito que há, não apenas um desejo mas uma necessidade de igualdade. É uma necessidade ética: um pobre é igual a um rico em dignidade, um deficiente mental tem-na tanto como um não-deficiente . É preciso que voltemos a Aristóteles: encontrar "o justo meio" (ou a justa medida) entre a igualdade extrema e a extrema desigualdade. Porque esta igualdade preguiçosa que reina hoje sem exceção, não encoraja ninguém a ultrapassar-se a si próprio. A nossa civilização ao perder o sentido do alto e do baixo, está ameaçada por aquilo que, num livro precedente, chamei de "Barbaria interior".
*Jean-François Mattéi

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Montserrat Caballé

Montserrat Caballé como Norma, performance executada no "Thèatre Antique d'Orange", 20 de julho de 1974. Casta Diva, uma de minhas árias favoritas.

Wagner

A algum tempo venho estudando o mundo de Wilhelm Richard Wagner (Leipzig, 22 de maio de 1813 — Veneza, 13 de fevereiro de 1883) e me achei na obrigação de citar algumas coisas a respeito. Mulherengo, aproveitador, cínico, vaidoso mas, sobretudo gênio. Foi ele o maior compositor clássico do povo alemão no gênero ópera, revolucionando aquele cenário musical de então com uma proposta inédita. Nessa época as óperas em sua maioria tinham temas leves, feitas somente para entreter, ou ainda possuíam argumentos que vislumbravam a decadência humana numa tradição próxima da tragédia grega, todavia, isso era realizado de um prisma mais individual. Wagner amplificou isso, com o auxílio de lendas do seu povo e alguns personagens históricos ele cria uma música que ambicionava unir o povo alemão em torno de um espírito comum. Exaltando-os como uma grande raça descendente direta dos míticos árias pais de Siegfried, Wotan e todos os outros heróis da gnose germânica. Além de músico, Wagner também era maestro, poeta, teórico musical e ensaísta. Alguns dos homens mais influentes da Alemanha vieram dar com ele mantendo relações estreitas como o filósofo Friedrich Nietzsche que chegou a considerar-se seu pupilo, além do rei Ludwig II da Bavária, o qual foi seu maior patrono e nutria por ele a admiração de um peregrino ante o sacrário. Apoiando-o ilimitadamente e sendo submisso a todos os seus caprichos. Mas talvez o que chame a atenção na obra de Wagner foi o fascínio que ela despertou sobre um homem já no século XX, seu nome era Adolf Hitler.

Ao assistir Rienzi, a ópera sobre o dilema histórico do revolucionário Cola di Rienzo, ele teve um insight e no pequeno teatro de sua modesta cidade Linz vislumbrou o que seria anos mais tarde a ideologia que deixaria enfeitiçado todo a Alemanha. Essa peça que tanto o inspirou é ambientada na Roma Medieval, Rienzi, porta-voz do povo, opõe-se à aristocracia. Ele quer retroagir um século e restabelecer a República da Antiguidade. Ele passa a ser o porta-voz do povo e os convoca a uma luta pela soberania frente ao tirano rei. Hitler comoveu-se profundamente com Rienzi, e supondo-se como uma espécie de versão alemã do herói, ele traça planos para seu futuro e para o futuro do seu povo. Mais tarde diria: ''Foi naquela hora que tudo começou”. Além disso há outras passagens onde Hitler afirma por exemplo: ''Só entende o Nazismo, quem conhece Wagner''. Ocorre que nosso compositor era também um anti-semita radical. E esse fato associado à história de Hitler faria Wagner parecer o idealizador do nazismo no século XIX, o que não é verdade. Na época de Wagneriana, os judeus eram o bode expiatório da sociedade alemã, se algo não dava certo o lugar comum era culpar judeus por isso. Nesse sentido, ter idéias anti-semitas era considerado normal. Tão normal que o nazismo hitlerista emergeria anos depois como uma continuidade dessa linha de pensamento. Mas o fato é que politicamente correto ou não, amante da causa humanista ou não, Wagner foi grande.

Sua música é difícil, como ele mesmo dizia.
Para ouvir uma ópera italiana basta estar relaxado ou despretensioso, já a experiência de Wagner é tensa, traz uma busca pelo resgate da glória, como aceitar um escultor remodelando seus sentidos às marteladas. Abaixo deixo aqui alguns vídeos, de partes da ópera favorita de Hitler. Sua fantástica abertura e a bela “oração de Rienzi” onde ele pede forças aos Deuses para recompor o passado glorioso de seu povo, essa ária vai interpretada pelo tenor alemão René Kollo em setembro de 1986 na ópera de Berlim, espero que gostem.



*Leandro M. de Oliveira.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A ostra e a pérola

"Lasciate ogni speranza, voi che'ntrate"
(Dante)

Não se farte comendo outras pessoas, não as mutile pela necessidade de mutilar, esse é para o ser um crime sem perdão. Tal prática degrada a individualidade, nega tudo quanto há de augusto e belo na vida. Derrota o homem livre em sua expressão maiúscula. É preciso caminhar até ferir os pés, moldar a argila até que as mãos sangrem. O homem superior tem como seu Graal a senda do não querer, ele concede trégua à futilidade da vida média, da escravidão da vontade. Quer se desvenciliar dos fetiches primários, anseia ser livre para o que vem depois. Com efeito, a humanidade do futuro vai além, requer mais coragem e menos daquilo que nos deixou a todos ultrapassados. Porque assim caminhamos, perdidos no próprio tempo. A assim dita necessidade do outro, não é mais que um labirinto de clamores onde se perde o EU. Andei sobre a terra, vivi entre homens. Deles nada me foi mostrado além fraqueza e pensamento degenerado. No mundo exterior não a há espaço para mendicância emotiva, só uma lei prevalece, aquela que é a todos os animais irrevogável, a soberania do mais forte. Esses são tempos primitivos, selvagens nada sabem de cordialidade. É preciso treinar o corpo, aprender a resistir. Deixar a alma congelar ao sabor dos ventos, vê-la uivar com o fim dos ciclos. Rosnar é necessário, alto e forte até que todos os abutres e chacais tomem distância. Com o tempo as intempéries da natureza soarão como uma carícia ao longo da pele. E você será imune, outra vez gigante, outra vez Titã.

Compreender a beleza não é simples como dormir à noite ou copular em horas impróprias, se assim fosse os asnos seriam dramaturgos de renome e as gralhas, divas da ópera. Tem-se que se dar por inteiro, exaurir-se, afastar-se, submergir ao fundo do mar no ponto extremo onde só existe aquela ostra embrutecida e com ela obcecar-se. Perder as carnes dos dedos, dilacerar com os dentes, romper às cabeçadas, deve-se provocar a abertura custe o que custar. E quando estiver gasto, entregue e derrotado, do interior desse receptáculo hostil vai ver surgir a perfeição na redondilha sem verso de uma pérola virgem. Você é a ostra, agarre a pérola, ela esteve aí dentro o tempo todo. Mas antes de abrir a porta é preciso se livrar dos cadáveres, daqueles já frios vindos de um passado que pra sempre jaz imutável e dos outros, produtos da crença no impossível futuro, as crianças sem ovário, os bebês de alma anincéfala. Escravos dão a luz a outros escravos, liberte-se antes de acontecer. Você conseguiria por um minuto deixar de ser um animal de carga? Nada te impede de tentar. A esquizofrenia deve ser suplantada em nome de algo mais são, Chronos não se apieda de quem hesita, sua marcha é veloz.

O homem novo, o gigante gerado pelo anão, que se rebela e encontra na rebeldia um algo maior. Ele nada possui, vai serpenteando à casa celeste e lá chegando ultrapassa-a, mais alto que o céu, mais baixo que o inferno. E assim sendo é o todo e ao mesmo tempo o nada, eternamente vazio, pra se preencher do que vier, onipresente. O que for de urgência, as circunstâncias proverão, a vida cuidará pra que se realize. Por hora basta estar atento ao fluxo interior, não ao passo cambaleante das ovelhas ou de qualquer outra das miseráveis manadas. Vocês mataram Deus e agora querem que eu pague para que o mantenham vivo. Vocês transformaram o que havia de nobre, converteram em favores de pecúnia, vocês e suas malditas tabelas de preço. Sempre a pisotear o campo quando esta prestes a florir, sempre a urinar nas fontes quando a água ainda é límpida. Solte fogos no velório, chore nos bacanais da “moralidade”. Constatar que essa vida é uma causa perdida pode não ser o melhor juízo pra começar o dia mas, com alguma boa vontade pode ser a raiz pedagógica de aprender um algo inédito. A transformação não permite escudeiros, é uma busca singular. Dessa vez tente com as próprias pernas. Sem cadáveres nas costas, sem rédeas na boca, só o caminho importa. Se te parece belo, torpe, colorido, cinza ou vil. Tudo o que acrescer de ti é incidental, frívolo e dispensável. O caminho tem desígnios próprios, ele é a opção dos que já não buscam mais mentir a si mesmos.

*Leandro M. de Oliveira

Justificativa da ação

Saber a razão primária por que alguém agiu como agiu é saber a intenção com que a ação foi feita. Se viro à esquerda numa bifurcação porque quero chegar a Katmandu, a minha intenção, ao virar à esquerda, é chegar a Katmandu. Mas saber a intenção não consiste, necessariamente, em conhecer a razão primária com todo o pormenor. Se James vai à igreja com a intenção de agradar à sua mãe, deverá ter alguma pró-atitude face a agradar à sua mãe, mas é necessária mais informação para que se possa dizer se a sua razão é a de gostar de agradar à sua mãe, se é pensar que isso é o correto, se é um dever ou se é uma obrigação.

[...]

Quando perguntamos a alguém por que agiu como agiu, queremos obter uma interpretação. Talvez o seu comportamento pareça estranho, alienígena, ultrajante, injustificado, mal interpretado, desconexo. Ou talvez nem consigamos mesmo reconhecer uma ação nesse comportamento. Quando compreendermos a sua razão teremos uma interpretação, uma nova descrição do que fez e que encaixará num quadro habitual. Esse quadro inclui algumas das crenças e atitudes do agente. Talvez também inclua metas, fins, princípios, traços gerais de caráter, virtudes ou vícios. Para além disto, a redescrição de uma ação proporcionada por uma razão pode situá-la num contexto de avaliação — social, econômico, linguístico — mais alargado. Compreender, mediante a compreensão da razão, que o agente concebeu a sua ação como uma mentira, o pagamento de uma dívida, um insulto, o cumprimento de uma obrigação avuncular ou um jogo de xadrez, significa apreender o desígnio da ação enquanto aplicação de regras, práticas, convenções e expectativas.

Comentários como estes, inspirados no segundo Wittgenstein, têm sido elaborados com sutileza e profundidade por um considerável número de filósofos. E não há maneira de negar que são verdadeiros: quando explicamos uma ação através da respectiva razão, redescrevêmo-la. Redescrever a ação dá à ação um lugar num certo padrão e, por este caminho, explica-se a ação.

*Donald Davidson

domingo, 15 de novembro de 2009

Ao mestre com carinho

"É assim que me identifico, viajante,
arqueólogo do espaço,
procurando em vão reconstituir
o exotismo
com o auxílio de fragmentos
e de destroços"

Claude Lévi-Strauss Bruxelas, 28 de novembro de 1908 — Paris, 30 de outubro de 2009


Morreu no último dia 30 Claude Lévi-Strauss, andei me sentindo culpado por não ter citado nada a respeito desse homem que tanto fez pela formação intelectual do mundo nos últimos 50 anos. Foi antes de antropólogo, etnólogo ou pensador das gentes um devoto à causa de entender o fenômeno humano. Esse homem devolveu aos povos indígenas as suas almas, reconhecendo os mais distintos legados e legitimando-os perante nossa cultura (branca) através de teses estruturalistas (por ele inventadas) que investigaram questões capitais para a formação da psique das sociedades como a herança toteísta, à qual dedicou uma quadrilogia. Mas a obra desse pensador em verdade, talvez diga mais a nós brasileiros. Como não desfolhar “Tristes Trópicos” e ao sentir o impacto daquele olhar estrangeiro dizendo que a baía de Guanabara é feia, que a pureza do selvagem foi corrompida não parar um pouco e se perguntar? Lembro de um título lançado originalmente em 1994, “Saudades do Brasil”, onde através da observação da produção artística marajoara em cerâmica Claude propõe que esses artefatos produzidos no interior da Amazônia Brasileira são indícios de uma grandiosa civilização de tempos remotos a qual deu origem à toda cultura andina tal qual se conhece, fazendo assim um contraponto com tudo o que aprendemos até então. Essa suposição da grandeza ancestral leva-nos à redescoberta de nossa própria terra e à busca do significado profundo de nosso papel histórico nas Américas. Realmente de estremecer...
Sem mais o que acrescentar além de meus respeitos e minha reverência, deixo o fragmento de uma entrevista em vídeo onde relembra entre outras coisas sua passagem pela terra brasilis.


*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Esmo

A história vai, a história leva consigo o que quer, deforma, fingi, fica. E eu homem comum, estou para ela como está uma folha, inadvertidamente a boiar na corrente de um rio, que está a boiar numa placa de terra, que bóia no magnetismo dum pólo, que bóia feito esfera na amplidão dum infinito. Quantos auges e decadências, quantas partidas e chegadas, quanta existência tenho ainda de suportar? Já vivi muitas vidas, habitei muitos corpos. A cada dia passado distancio mais dos sentidos de outrora. Permaneço solto pela campa onde muitas vezes não queria estar. O ser aqui vai fluindo em estado de sobrevida, acima dos modos locais e ao mesmo tempo, emaranhado em seus meandros como raízes de um jardim suspenso. Pode ser que eternamente permaneça aqui atado, nesse estreito horizonte tendo das assas tão somente o delírio. Irremediavelmente na condição de uma pérola que cresceu por reação alérgica ou na de um objeto estranho que numa cúpula se entranha sem que ninguém o pressinta. Pra quebrar a rotina procurei trabalhar na encenação do próximo espetáculo, preparei um discurso de redentor mas, a mim só coube o papel do gentio. Não, não fui educado na casa grande. Não tive tempo apto a decorar o catecismo romano, pensei ser uma abstenção salutar o exercício de não aprender dos homens as formas tradicionais de auto-repulsa. Quis dar aos que se diziam meus um mundo novo, a mensagem não era exatamente didática, na impossibilidade do passo além recebi na fronte o selo agudo da anátema. Cresci como cedro por entre eucaliptos, ou seria o contrário? Caminhei descalço só pra ver como é sentir os pés em carne viva. Contestação como profissão de fé. Sempre o estreito ao invés do largo, porque há mais luz fora que dentro da caverna. Fartei-me das sombras dos seres, quero agora conhecer o ser, contato imediato. Não tenho etiqueta, obediência, dieta saudável. O que trago no alforje é espólio das resultantes de um carisma selvagem. Minha fúria, minha tragédia, meu cabelo mau cortado. Tenho a irrelevância do anônimo e a turba da multidão. E isso se me afigura grave e isso me confunde o julgo. No ermo das noites não dormidas, na amplidão das estradas desabitadas, ao passo que me encontro me perco. E sendo eu, não sou ninguém. E não sendo nada, sinto as humanidades mais improváveis. Meu coração é essa fenda delgada donde o sol não visita. Meu coração é o lar donde habitam os homens que não querem mais mentir a si mesmos. Eles estão aqui, eles vem de toda parte, depositando por sobre o altar imaginário suas flores e suas cicatrizes.

Acordei com grandes planos, como a vida é pequena, esqueci tudo e me dei a seduções gratuitas.
*Leandro M. de Oliveira

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ah, perdona al primo affetto

Já que beleza nunca é demais, um pouco de Mozart para nós.