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Cabe a nós aqui, um breve comentário acerca da obra máxima de Franz Kafka. Em primeira análise é mister dizer que a base da força desse escrito é a sua atualidade. Mesmo depois de quase um século, a idéia central de “A Metamorfose” segue como tema de ordem do dia. Kafka redige seu texto às vésperas da primeira grande guerra na fase conhecida como crise da “Bélle Époque”. Nesse momento histórico o homem se vê em um dilema racional e religioso quanto a si mesmo. Era a crise nascente da modernidade oferecendo ao ente humano as mais agudas reflexões existenciais. Um dos temas mais bem trabalhados nesse livro é a impossibilidade da crença, o massacre de princípios que a esse passo estava financiado pela “nova era”, com seu espetáculo de frieza e relações impessoais. Nesse sentido, quando Samsa está metamorfoseado nesse inseto gigante, tem-se uma alegoria da falência social de nosso tempo. Convertemo-nos em seres essencialmente estranhos ao outro. Gregor é em verdade o arquétipo do homem moderno, esse desesperado, sem respostas, conforto ou esperança. O símbolo do inseto torna isso ainda mais exterior, esse animal esdrúxulo é o desprezo do homem por si mesmo.
O contemplo da pequenez humana, do estado de abandono ante a grandeza do mundo, levam aquele modesto caixeiro viajante a somatizar as penas de seu cotidiano, sendo essas de modo geral as mesmas de todos os cotidianos de qualquer homem comum. Ainda que esteja em casa na companhia dos seus, esse personagem verifica que suas experiências de vida são indissociáveis e inexpurgaveis dele, fazendo-o assim remoto por ser dono de um legado singular. Há também o fetiche da libertação, quando aquele homem se vê alheio ao mundo, sente-se de alguma sorte realizado em não estar mais participando de relações a seus olhos abomináveis.
Então por força sua atual forma, a de uma barata enorme, ele tem uma espécie de vingança inconsciente. Já não é mais o escravizado arrimo de família, já não é mais o vendedor obrigado a sorrir. Todavia, ao passo que se deleita, Gregor sente-se oprimido ao verificar que sua forma física não esta suficiente à expressão de tudo quanto sente. Sua repulsa acumulada pela família de exploradores, pelo insensível patrão, pela hipócrita social. Sentindo mais uma vez a impossibilidade de ação que é própria do homem médio em todos os lugares.
Gregor Samsa é em última análise um ser desprovido do “animus” da mudança, amordaçado em sua condição de filho dominado, de empregado explorado, de aspirante decadente a burguês. Como se aos poucos os pequenos fracassos fossem se sedimentando dentro dele de tal forma a reduzir-se em um animal treinado, abraçando assim a condição subumana. Para compreender o estruturalismo da psique desse personagem, possivelmente o momento mais simbólico é aquele em que seu pai atira-lhe uma maçã com intenção de matá-lo, isso sugere um algo bem edipiano e mau resolvido, dando assim as linhas gerais para o entendimento de sua inanição frente às desventuras do mundo. Há uma sugestão por parte de Kafka de que o pai de Gregor, aquela besta insensível, o tenha reduzido à condição de uma barata gigante mas, em verdade quem o tempo todo não arcou com o ônus da transformação foi o próprio Gregor.
Por fim vem a morte do protagonista em forma de libertação, tanto para ele quanto para os outros. Sua vida apática era um impecilio, um mal que acabara de ser curado. A irmã sai da completa solidão do lar para o convívio externo, o pai se vê remoçado. A morte de Samsa representa um marco na recuperação do tempo perdido, assim, por mais solitário que o homem esteja, sua existencia produz transformações nos outros.
A mensagem contida nessa idéia de transcendente do eu tem eco filosófico, psicológico e religioso muito acentuado. É o eterno discurso da imolação da carne própria em favor alheio, ainda que isso se dê de maneira involuntária. Dessa forma “A Metamorfose” nos convida a uma reflexão profunda acerca do papel do indivíduo no corpo social, seja em âmbito externo ou privado. O texto de Kafka é antes de mais nada um questionamento severo, sobre para onde caminha o ser guiado tão somente pela razão instrumental, pelas relações de consumo de nosso tempo, pelo desconhecimento do outro. É deveras ao leitor atento um texto imprescindível.
*Leandro M. de Oliveira
"Numa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num monstruoso inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou a figura convexa de seu ventre escuro sulcado por pronunciadas ondulações, em cuja proeminência a colcha dificilmente mantinha a posição, estava visivelmente a ponto de escorregar até o solo. Comparadas ao resto do corpo e às suas antigas pernas, agora possuía inúmeras as inúmeras patas, todas lamentavelmente esquálidas, oferecendo a seus olhos um espetáculo inconsistente de uma agitação sem governo.
- Que me aconteceu ?
Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhado e em completa desordem, um vasto mostruário de tecidos: Samsa era caixeiro-viajante, pendia uma fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, muito aprumada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado (ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela) isso infundiu-lhe uma melancolia aguda. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? — cogitou."
(Franz Kafka)
Sobre o Autor e sua obra:
Franz Kafka nasceu em Praga, hoje capital da República Tcheca, em 3 de julho de 1883, e faleceu com 40 anos, em Klosterneuburg, cidade austríaca, em 3 de junho de 1924. Foi um dos maiores escritores de ficção da língua alemã do século XX. Sua família era da classe média judia, e estabelecida em Praga, Áustria-Hungria (agora República Tcheca).
O corpo de sua obra escrita destaca-se entre as mais influentes da literatura ocidental. No entanto, solitário e com a vida afetiva marcada por irresoluções e frustrações, Kafka nunca atingiu fama ou fortuna com seus livros, a maioria editados postumamente.
Seu estilo literário, presente em obras como a novela "A Metamorfose " de onde é extraído o trecho acima, retratam indivíduos inseridos no pesadelo de um mundo impessoal e burocrático. Seu estilo é despegado, imparcial, atencioso ao menor detalhe, verdadeiro e realista. Seus personagens são o retrato do homem do século XX, com todas as cismas e conflitos existenciais.
*Leandro M. de Oliveira** Tradução de minha lavra comparando versões em português e espanhol
“Um dia em sonho um homem veio me visitar, ele estava sentado com a postura dos sábios. Me aproximei e perguntei:
- Quem é você?
- Sou Aristóteles o sábio.
- Aristóteles, por favor defina uma palavra justa.
- Aquela que é conforme a razão.
- O quê mais?
- Aquela que é agradável ao ouvinte.
- O quê mais?
- Aquela a qual não se deve temer as conseqüências.
- O quê mais?
- Não há mais nada. Todo o resto serve apenas para divertir os tolos.”
(Califa al-Ma'mun)
Al-Ma’mun foi o grande patrono das artes, da literatura e do conhecimento geral na história do Islam. No início do séc. IX ele reuniu em Bagdá a nata dos intelectuais de todo o mundo, persas, gregos, indianos e todos os grandes eruditos daquele tempo independente de raça ou nacionalidade. O Islam se mudou em uma civilização aberta, ansiosa pela descoberta, pela troca. Nessa época o grande califa cria “Baitul Hiqma” a casa da sabedoria, provavelmente a maior iniciativa para a reunião de conhecimento do mundo desde a grande biblioteca de Alexandria. Em Baitul Hiqma, os homens de letras tinham acesso a todos os maiores autores já existidos até aquele tempo, nesse período os trabalhos helênicos e indus, através de uma série de traduções, penetraram a cultura islâmica. Essa incorporou em seus modos o método filosófico da indagação, característico do mundo helênico - e é por esta razão que filósofos como Platão e Aristóteles passaram para as gerações seguintes, influenciando grandes pensadores muçulmanos. Tal incorporação levou a uma nova prática intelectual baseada nos princípios da pesquisa racional e, até certo ponto, ao empirismo. Assim durante o Califado de Al-Ma’mun floresceram medicina, arquitetura, poesia, mecânica... Enquanto na Europa os livros eram raros e proibidos, em Bagdá as livrarias se multiplicavam e pessoas dos pontos mais remotos para lá convergiam sua jornada à busca de conhecimento. Hoje Al-Ma’mun foi esquecido, Bagdá em outrora dita o “umbigo da terra” foi saqueada, por séculos a ex-grande mãe do conhecimento foi violentada e subvertida. Mas que todos saibam que certa vez houve um homem e uma cidade, que seu Deus amava o conhecimento e que sua religião era antes a evolução humana.
*Leandro M. de Oliveira
As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades?
Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u'a nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.
Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.
Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só 0 ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só 0 ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo - desde o crepúsculo aos olhos da amada - sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.
Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!
*Jorge Amado
**Naty esse é seu.
Filosofia, como entenderei a palavra, é algo intermédio entre a teologia e a ciência. Como a teologia consiste em especulações sobre matérias inacessíveis até agora ao conhecimento definido, mas como a ciência apela para a razão de preferência à autoridade, quer da tradição, quer da revelação. Todo o conhecimento definido (...) pertence à ciência; todo o dogma como o que exEstacede o conhecimento definido pertence à teologia. Mas entre teologia e ciência há uma terra sem dono exposta aos ataques de ambos os lados: é a filosofia. As questões de maior interesse para os espíritos especulativos raro têm resposta científica e as respostas confiantes dos teólogos já não parecem tão confiantes como nos séculos anteriores. Estará o mundo dividido entre espírito e matéria? E, sendo assim, que é espírito e que é matéria? Está a alma sujeita à matéria ou tem energias independentes? Tem o universo unidade ou fim? Evolui para algum objetivo? Há realmente leis da natureza ou cremos nelas devido ao nosso inato amor da ordem? É o homem o que aparece ao astrônomo, um pequeno conjunto de carvão impuro e água, a arrastar-se impotente sobre um pequeno planeta sem importância? Ou é o que pensava Hamlet? Será as duas coisas? Há um tipo nobre e um tipo baixo de vida ou são todos meramente fúteis? Se um deles é nobre, em que consiste e como realizá-lo? Deve o bem ser eterno para poder ser apreciado ou merece procurar-se ainda quando o universo caminha inexoravelmente para a morte? existe de fato a sabedoria ou não passa de derradeiro requinte de loucura? Não há resposta em laboratório para tais questões. Pretenderam as teologias dar respostas, todas demasiado definidas, o que as torna suspeitas a espíritos modernos. Estudar essas questões, senão responder-lhes, é a tarefa da filosofia.
*Bertrand Russell
Sou uma vergonha. Minha inércia, meu excesso de teoria,
Minha preguiça em fazer a barba. Estou longe, muito longe.
Quantas rosas se abrem e não consigo sentir o perfume,
Nas noites mais longas Belchior me dava razão. Assim era.
Diga-me o que não posso. Hei de ser um cismador eter(no).
Se há acaso lugar seguro para ambições hipotéticas,
Não sei dizer com muita convicção, nisso tenho vacilado.
Já é outro dia, fiz a barba, dancei como um bêbado desesperado.
Superar a auto-abominação necessita um pouco mais daquilo...
Será ópio? Será coragem? Sei que posso rir enquanto escrevo.
Tão alheio ao nada, muito estranho ao tudo, fui ao largo campo
Em trote marcial, não reconheci meus inimigos. Donde foram?
A guerra tem seus próprios desígnios. É antes empresa íntima.
Nesse caso, estou em petição de miséria, por algum sacerdote
Ou um punhado de alcalóide. Nada sei das longas campanhas.
Desaprendi das mulheres, reaprendi da selvageria; é o mundo.
Se isso não fosse ato de terrorismo, teria te convidado a dançar.
Bá carneiro ovelha, se eu sentisse menos pena de mim mesmo
Poderíamos estar todos embriagados. Já é o terceiro dia...
Ele não ressuscitou. Confetes desbotados, apnéia do sono.
Lama nas ruas, lama nos pés. Gatos e homens desvalidos.
Mas eu estava lá, sempre existirei nalgum lugar, distante.
*Leandro M. de Oliveira
**Ps: A formatação ficou uma droga mas, acho que deu pra entender a moral da História.
A história de Adônis inicia-se com uma rede de histórias interpessoais, regadas aparentemente a paixão sexual; mais precisamente, é um desdobramento de ritos envolvendo o processo de individuação de homens e de mulheres.
Esmirna (posteriormente, Mirra) era filha de Téias, rei da Síria; desavisada dos perigos envolvendo a inveja de uma mulher pela beleza de outra, Esmirna deseja competir beleza com Afrodite.
Os mitos, geralmente, têm variações e numa versão diferente, Esmirna é filha de Cíniras, rei de Chipre, e de Cencréia: porque nasce muito bela, a mãe de Esmirna espalha a notícia ou a infâmia de que sua filha é mais bela que a própria Afrodite.
Ofendida com a petulância de Cencréia, Afrodite pune a mãe de Esmirna através da criança supostamente mais bela que a própria deusa.
O senso comum e até inúmeros especialistas costumam reduzir as qualidades de Afrodite a um caráter pejorativamente sensual, vingativa, explosiva, movida por descontroladas paixões e multiamores: é preciso aprofundar a compreensão da psique de Afrodite, despatologizando o seu caráter.
A deusa grega Afrodite é a deusa romana Vênus: o cognome de deusa do amor procede de uma interpretação redutiva do seu nascimento.
A deusa Géia e o deus Úrano tiveram vários filhos, os Titãs e as Titânidas, os Ciclopes e os Hecatonquiros.: após o nascimento, Úrano devolvia os próprios filhos ao ventre de Géia, temendo ser por eles destronado.
Cansada da atitude do marido, Géia liberta todos os seus filhos de seu ventre e a eles pede ajuda para destronar Úrano; todos, porém, se recusam a ajudar a mãe e destronar o pai, exceto um deles – o Titã Crono.
Com uma foice dada por Geia, o seu filho Crono corta os testículos do pai tão logo o mesmo se deita sobre a mãe para mais uma relação sexual: no clímax do orgasmo, os testículos de Crono são arrancados e lançados ao mar.
O sangue dos testículos de Úrano derrama-se sobre Geia e dele nascem as Erínias, os Gigantes e as Ninfas dos freixos (Melíades ou Mélias); quando os testículos de Crono caem no mar formam uma grande espuma da qual nasce Afrodite.
Afrodite, portanto, não é filha do amor mas filha da castração do pai, castração executada pelo próprio filho sob o pedido da mãe.
Filha de um pai castrado, tão prontamente nasce é levada pelas ondas do mar ou pelo vento Zéfiro para Citera e, depois, para Chipre aonde é acolhida, vestida e ornamentada pelas deusas Horas, guardiãs das portas de acesso à mansão dos deuses: por isso, após o acolhimento, a vestimenta e a ornamentação, Afrodite é levada pelas Horas ao Olimpo.
Horas ou Estações são mais três das outras quatro filhas de Zeus e de Têmis, a deusa da justiça divina e uma das Titânidas: Eunômia ou Talo (personificando a Disciplina, aquela que faz brotar), Dique ou Auxo (personificando a Justiça, aquela que faz crescer) e Irene ou Carpo (personificando a Paz, aquela que faz frutificar).
As deusas Horas estão sempre acompanhando Afrodite e Dioniso (Zagreu, Brômio e Iaco) – o masculiníssimo filho de Zeus desenvolvido em suas próprias coxas para suceder-lhe o reinado divino. Zagreu, o primeiro Dioniso, é filho de Zeus e Perséfone: Zagreu é raptado, despedaçado, cozinhado e devorado pelos Titãs, fulminados por Zeus e de cujas cinzas nasceram os humanos. Entretanto, Atená ou Deméter salvaram o coração de Zagreu que foi engolido pela princesa Sêmele, amante de Zeus, e tornando-se grávida do segundo Dioniso: mau orientada pela esposa oficial de Zeus, Hera, a amante Sêmele é fulminada pela visão absoluta de Zeus ao pedir-lhe para que se apresente a ela em toda a sua grandeza divina. Num gesto supremo, Zeus retira o feto do segundo Dioniso no ventre de Sêmele e o coloca em sua coxa de deus para continuar a gestação. Nasce o terceiro Dioniso gestado na coxa de Zeus.
Citeréia e Cípris são os outros nomes gregos de Afrodite, aludindo ao seu destino após o nascimento: não se trata de duas origens, mas de dois caminhos percorridos por Afrodite após o seu nascimento.
O epíteto de Afrodite Urânia lembra sua paternidade divina; o epíteto de Afrodite Pandêmia lembra sua paternidade humana.
Afrodite pertence à primeira geração divina (Úrano e Géia): nasceu de Úrano, ou mais exatamente da espuma formada pelo sangue dos testítulos de Úrano caído no mar.
Afrodite não foi concebida por mulher: sua geração pode ser tida como filha de Úrano e das espumas formadas no mar pelo sangue dos testículos do pai castrado.
Não há ligações seminais de Afrodite nem com a mulher nem com o chão da terra; sua ligação é com as águas do mar, receptoras do sangue dos testículos de Úrano: a interação águas do mar e sangue dos testículos produziram a espumarada da qual nasceu a deusa.
Mar ou Oceano e Úrano são homens, não se esquecendo de que Oceano é um dos Titãs filho de Úrano e Géia: pai de todos os rios, das espumas do deus Oceano formadas pelo sangue dos testículos de Urano.
Para mais amplas considerações, Úrano foi gerado por Geia sem o concurso de nenhum deus: ou seja, autogeradora, Géia fez nascer de si Úrano (personificação do Céu), Montes e Pontos (personificação do Mar).
Filho e esposo de Géia, do próprio Úrano sem Géia nasceu Afrodite – neta de Géia.
Nem Celestial nem Mundana, nem totalmente Urânia nem totalmente Pandêmia, Afrodite nasce de homens sem mulher; tais homens, por sua vez, nasceram de mulher sem homens.
Úrano, representado pelo touro, é símbolo masculino-feminino de força e de potência fálicas: eis porque Afrodite, sua filha, é símbolo feminino-masculino de força e de potência fálicas.
Deusa do amor e deusa da beleza são reduções humanas da força e da potência fálicas de Afrodite: o castigo por ela imposto a Mirra se deve à petulância da impotência fálica desta e não a uma mera disputa por quem é a mais bela.
O castigo de Afrodite a Esmirna dirige-se não à consecução de prazer com o objeto sexual – o pai; Esmirna deverá reverenciar o deus Falo que encarna exclusivamente no homem.
Falo é o pênis ereto e exclusivamente o pênis ereto como símbolo da encarnação do deus no homem: é extremamente fácil – e comum – desviar a força e a potência fálicas para a força e a potência genitais. Nesse desvio está o castigo.
Força e potência fálicas são atributos do deus Falo – independente da tipificação física e da orientação sexual de uma pessoa: a tal força e potência nomeio de energia fálica.
Por energia fálica entendo a energia psíquica do homem e da mulher a serviço da construção da personalidade total – nem feminina nem masculina: não se apóia, pois, nos estereótipos de masculino e de feminino criados e impostos pelo patriarcado e pela anatomia, igualmente mantidos na caracterização dos arquétipos anima e animus por Carl Gustav Jung.
Em verdade, a energia fálica é expressão do arquétipo animi também expresso em Adônis e Afrodite (...)
*Carlos Fernandes
Tudo isto são coisas, coisas que nós podemos amar. Mas não posso amar palavras. É por isso que não aprecio as doutrinas, não têm dureza ou moleza, não têm cores, não têm arestas, não têm cheiro, não têm gosto, nada têm senão palavras.
Talvez seja isto que impede de encontrares a paz, talvez sejam as palavras em excesso. Porque também libertação e virtude, também Samsara e Nirvana são meras palavras. Nada existe que seja o Nirvana; apenas existe a palavra Nirvana.
*Hermann Hesse
Nunca fui entusiasta dos parnasianos, todas aquelas formas marmóreas e o excesso de sobriedade tão maquinalmente calculado. Uma poesia sem sangue, pensava eu. Recentemente descobri um algo surpreendente para a maioria, o senhor Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, mais conhecido por uma abreviação desse como Olavo Bilac, carregava em si uma devassidão velada. Você não leu errado, estamos falando da mesma pessoa. Aquele senhor polido, direitista e reacionário era em seus domínios, um anarquista sexual. Vim a dar conhecimento disso quando por acaso descobri um embaraçoso epitáfio da lavra de Emílio de Menezes para o túmulo de nosso amigo em questão: "Bilac esta cova encerra. Choram sacros e profanos... Muitos anos coma a terra, a quem comeu tantos ânus!". O apático gentleman era então um sodomita de carteirinha, deve mesmo ocorrer que de perto ninguém é tão normal assim. Pois bem, em busca de uma prova literária do apetite sexual do nosso poeta até pouco tempo senhor de virtudes cristalinas, me pus a lê-lo. Abaixo seguem alguns fragmentos.
Satânia
(...)
Sobe... cinge-lhe a perna longamente;
Sobe...- e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril!- prossegue,
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca,
E antes de se ir perder na escura noite,
Na densa noite dos cabelos negros,
Pára confusa, a palpitar, diante
Da luz mais bela dos seus grandes olhos.
E aos mornos beijos, às carícias ternas,
Da luz, cerrando levemente os cílios,
Satânia os lábios úmidos encurva,
E da boca na púrpura sangrenta
Abre um curto sorriso de volúpia...
Beijo Eterno
Diz tua boca: "Vem!"
"Inda mais!" diz a minha, a soluçar...Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morro por teu amor!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim! O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
Delírio
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
Mais abaixo, meu bem! ? num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
Mais abaixo, meu bem! ? disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci…
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Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos
Numa palpitação de flores e de ninhos.
Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos
(Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos.
Verão. (Lembras-te Dulce?) À beira-mar, sozinhos,
Tentou-nos o pecado: olhaste-me... e pecamos;
E o outono desfolhava os roseirais vizinhos,
Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos...
Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos,
Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos,
(Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor...
(...)
*Leandro M. de Oliveira
As repreensões santas e bem intencionadas requerem outras circunstâncias e pedem outros assuntos; pelo menos, o repreender-me em público e tão asperamente, excedeu todos os limites da censura cordata; porque às primeiras cabe melhor a brandura do que a aspereza; não me parece bem que, sem ter conhecimento do pecado que se repreende, se chame ao pecador, sem mais nem mais, mentecapto e tonto. Senão, diga-me Vossa Mercê: que tonteria viu em mim, para me condenar e vituperar, e mandar-me que vá para minha casa tomar conta do seu governo, e de minha mulher e de meus filhos, sem saber se tenho filhos e mulher? Então não é mais senão entrar a trouxe-mouxe pelas casas alheias a governar os donos delas, e, tendo-se criado alguns dos que isso fazem na estreiteza dum seminário, sem terem visto mais mundo do que o que pode encerrar-se em vinte ou trinta léguas de comarca, meterem-se de rondão a dar leis à cavalaria e a julgar os cavaleiros andantes? Porventura é assunto vão, ou é tempo desperdiçado o que se gasta em vaguear pelo mundo, não procurando os seus regalos, mas sim as asperezas por onde ascendem os bons à sede da imortalidade?
Se me tivessem por tonto os cavaleiros, os magníficos, os generosos, os de alto nascimento, considerá-lo-ia eu afronta irreparável; mas que me tenham por sandeu os estudantes, que nunca pisaram a senda da cavalaria, pouco me importa; cavaleiro sou e cavaleiro hei-de morrer;
Se aprouver ao Altíssimo: uns seguem o largo campo da ambição soberba, outros o da adulação servil e baixa, outros o da hipocrisia enganosa, e alguns o da verdadeira religião; mas eu, guiado pela minha estrela, sigo a apertada vereda da cavalaria andante, por cujo exercício desprezo a fazenda, mas não a honra. Tenho satisfeito agravos, castigado insolências, vencido gigantes e atropelado vampiros: sou enamorado, só porque é forçoso que o sejam os cavaleiros andantes, e, sendo-o, não pertenço ao número dos viciosos, mas sim ao dos platônicos e continentes. As minhas intenções sempre as dirijo para bons fins, que são fazer bem a todos e mal a ninguém. Se quem isto entende, se quem isto pratica, se quem disto trata, merece ser chamado bobo, digam-no vossas grandezas, duque e duquesa excelentes.
*Miguel de Cervantes, Dom Quixote - capítulo XXXII