segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Acerca de metalinguagem e reflexão da arte

"Marcel Duchamp"


(...) Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? Nada.
Nada vivido? Tudo.
A orelha pouco explica
de cuidados terrenos:
e a poesia mais rica
é um sinal de menos.

*Drummond de Andrade

As Coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida
Violeta, monumento de uma tarde,
De certo inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido.
*Jorge Luis Borges

sábado, 19 de setembro de 2009

Uma música...


...Boa música.

Ao Reflexo

Dê-me alcalóide. Tenho suposto um passaporte só de ida. Deveria acaso voltar aqui? Deveria me dispor a chorar, implorar ou gemer? Sei que é esse o teu fetiche mais obscuro, o de me ver eternamente reduzido, me queres como um atavio desesperado, me queres como aquele que faz e reivindica o que for daquilo que insisto, é indigno de um homem livre. Se eu te desse hoje o afeto que jamais senti alguns chamariam isso de adaptação. Mas o que posso é te invadir agora enquanto meus membros ainda não são alcançados pela letargia. Com raiva e fúria abriria teus flancos, você estaria envergonhada de si e a natureza estaria plena de seu curso.

Eu poderia saltar em teu abismo, te beijar por misericórdia da sombra que um dia fomos, tristemente, isso seria pra mim como um ato de terrorismo. Quando você se tornou tão infeliz? Tente dançar de pés descalços, é a melhor forma de deixar com que o sangue circule. Coma alho, fume ópio, espante vampiros e fantasmas tenho suspeitado presenças estranhas. Eu te amaria agora, se pudesse fazer isso sem vomitar. Tudo está perdido! O dia passou, a vida deixou, os sorrisos amarelaram. Quando eu tinha cinco anos quis ajudar um passarinho morto, anos mais tarde trago como espólio o bastão do andarilho, tarde demais. Tempo atrás... O perfume da sacerdotisa gorda e obtusa teima em recender toda o sítio. Isso é o inferno? Não foi minha criação. Todavia, pode ser que eu estivesse dormindo enquanto o inconsciente trabalhava. Que sono remoto. Fora daqui! O caos pertence a mim. Não o reclame a ti.

Agora tu entendes, aquele te ofertou paz era o mesmo que velava na surdina com uma adaga. Como eu gostaria de sentir compaixão, não consigo. Fica aí, atado a esse mundo de cristal. Mando-te lembranças um dia, embora antes tenha de combinar isso, com meus olhos e sistema digestivo. Prefiro continuar como um pirata bêbado, sem cartografia ou sextante, saio por invadir além-mares sem fazer planos. À noite uivo, de dia durmo. Tenho tido tantas humanidades como tem um cão endoudecido. Convertido fui, em soberano de minha própria pele(..)

Agora me vou. Sempre me vou. Sempre retorno.

*Leandro M. de Oliveira

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Remake

Um fabricador d’engenhos apanha suas invenções já inventadas, plageia a própria alma, da seu âmago ao desatento que por aqui passou. Nada é original. Todo sacrifício é vão. Criador olha com retidão a criatura, não vê senão o eco perdido do abandonado caminho. O novo é uma casa antiga cujas paredes foram caiadas, no interior o sepulcro é o mesmo de tempos sem conta. Toda produção, toda expressão, é só um murmúrio da ânsia da vida por si mesma. Da vida que deveria ter sido mas, na perdição das horas lentas e ociosas viu se achegar ao peito um pleno de impossibilidades irrevogáveis. Idealização frente a construção é deveras, uma lida de menor esforço pra alguém tão exausto de ser ele mesmo.
E assim foi, o homem d’engenhos passou todo um dia (ou seria ano?) na clausura da cela à busca da revelação derradeira. Passou à memória seu legado, como passa um general à frente da tropa, como passa o pacifista frente ao tanque de guerra. Como pudesse fazer moenda do candial da vida pra erguer com ele a argamassa da resposta, conjeturou infância e velhice, mesmo sentindo-se desde sempre imune a condicionamentos temporais. “A única liberdade é esmerar um algo inédito, com vida insuspeitada, com estatura que se note. Quero sair desse teatro pra escrever minha própria peça, essa companhia tornou-se ao longo de tantas temporadas, demasiado enfadonha.” Nisso, pensava ele resignado enquanto arquitetava seu livramento. “Quero comer sem arrotar, doer sem chorar, amar sem morrer, sangrar sem doer... Tudo será possível àquele que cresceu selvagem, que o mundo não teve tempo hábil a gravar seus sortilégios de derrota no côncavo do peito nu. Ademais; existir é invariavelmente um assombro.” Desceu enfim até as catacumbas, ambicionando que de lá emergisse seu novo, se eterno incriado.

Chegando ao átrio, eis que então, crente e desavisado aquele ser de indiferença e esquecimento confronta seu legado. Para o próprio assombro, descobre que é ele. É ele duplicado!

*Leandro M. de Oliveira

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Cisma Primeva

Não há sentido nesse banquete de mentiras, espere um pouco, vou escalar as paredes pra urinar no telhado. Por quem é que me trocaram quando estava a acreditar que só a mudança cabal do “status quo” salvaria minha pele? Papai Noel é um porco capitalista e a medida dos sonhos é a de quanto se pode pagar por eles. Não há regras nem pudores. Então vamos calçar nossas botas de chumbo e pisotear o canteiro florido, ha mais estrume nessa terra do que em meu mundo concebia. Quero que você dance como uma bacante bêbada, vomite em mim, a revolta sou eu. Se quer salvar meu espírito é aqui que vai encontrá-lo, açaime meu corpo entre tuas pernas, possua minha carne com agressividade, nesse lugar repousa meu santuário. Invada-o! Ou deixe que os cães terminem sua valia. Quanto tempo faz não te vejo, quebrei os espelhos com fúria, ao ver que eles nunca traziam descobertas novas. O tempo tem sido líquido e esgarçado, como uma poça que seca lentamente. A cidade acordará, ela sempre desperta com aquele velho passo maquinal de fuligem e gente. Como passaram a sentir tanta aversão por si próprios? Que venha a sabedoria das coisas simples, para entender o mistério insondável de uma agressão mútua. “Amai o teu próximo como a ti mesmo”, palavras razoáveis para um messias mas, a grande morte exige uma motivação descente. Vamos derramar o nosso ódio contido, a besta nunca é escravizada, ou vive sob seus próprios ditames, ou morre em nome de sua ideologia. Ouvi notícias de um homem, era mais retido que um asceta e mais pacato que uma ovelha tosquiada, precocemente seus músculos atrofiaram e sua vida pereceu. Esse mundo é insano, se eu acreditasse na monogamia me acusariam de subversão. Queria estar com você todo o tempo, não posso ousar. Há ainda muitos botões por abrir antes que chegue a primavera. Tenho a vocação de um javali selvagem e o caos da noite primeira, não posso sorrir na fila do matadouro. Se soubesse, talvez escreveria um poema, como não sei, sigo ruminando os intermináveis dilemas até que a aurora violente o escudo da noite.
*Leandro M. de Oliveira

sábado, 12 de setembro de 2009

Solilóquio perdido

A boca seca, a boca cospe, a boca amarga o fel do dia. As mãos tem sangue, as veias ferrugem, o escuro incerteza, o mundo tem um oco. Pude muitas coisas, e agora com meu medo e minha esclerose, não sei mais como ousá-las. Ela estava aqui, ela ainda continua aqui, como um cão ou uma árvore. Acordei cedo pra tomar o desjejum, fui moço à cozinha antiga, achei-me a deglutir um pão mofado, quis caminhar até a padaria mas, havia esquecido meus pés. Quem me roubou de mim? As horas consumidas na fuligem de um quadro desbotado significam o mesmo que não ser coisa alguma. Tenho pena do que tenho sido, vem a mim, quero vomitar o antigo e copular o novo. Se meus sonhos me causarem indigestão acaso haveria antiácidos para isso? Vou morrer, ou viver um dia mais, que importa? O mundo não deu importo a essa querela? A lavra dos anos perdidos, a lavra do caminho não trilhado. Tenho vergonha de tanta covardia, tenho uma indiferença miserável. Se eu tivesse uma arma guardaria em segredo, se eu tivesse flores deixaria que murchassem sem colhê-las. Ela violentou a si mesma, assim como desde sempre, o bode expiatório sou eu. Eternamente culpado, eternamente em exílio, quando verei as luzes de Roma outra vez? Não sei, nunca sei conjeturar ânsias tão íntimas. Perdi as certezas e o alforje, o caminho e a vontade, perdi tudo quanto aos homens é aprazível, e mal percebi acontecer. O dilema das prostitutas sifilíticas, a dor silente dos homossexuais sem teto, os judeus matando palestinos... O mundo prossegue em suas tragédias ancestrais. Eu obtuso, não dei conta disso. As geleiras antárticas, a rota invisível do sal, cordilheiras líquidas que separam homens e ideações. As caravanas terminam todas no fundo do meu pátio de marfim. A casa é repleta, as sombras abrigam por longas horas. Noite mudada em manhã sem sol, noite nesse país é um evento perene. Os ecos batem à porta, donde estão aqueles que aqui habitavam? Partiram pra longe, partiram pra sempre... Que queres nobre peregrino? Há mais não informo, também tenho andado exterior a mim.
*Leandro M. de Oliveira

Liberdade (O impulso é externo?)

Pelo meu lado, digo que esta coisa é livre, que existe e age pela necessidade da sua natureza e é constrangida e determinada por uma outra a existir e a agir segundo uma modalidade precisa e determinada. Deus, por exemplo, existe livremente porque existe apenas pela necessidade da sua natureza. Vedes então que não sintuo a liberdade num decreto livre mas numa necessidade livre.
Mas regressemos às coisas criadas que, todas elas, são determinadas a existir e a agir segundo uma forma precisa e determinada. Uma pedra recebe de uma causa exterior que a atira, uma certa quantidade de movimento... todo o objeto singular é necessariamente determinado por qualquer causa exterior a existir e a agir segundo uma lei precisa e determinada...
Concebei agora, se quiserdes, que a pedra, enquanto se move, sabe e pensa que faz todo o esforço possível para continuar a mover-se. Este perdura, certamente, porque não tem consciência senão do seu esforço... julgará ser livre...
Tal é a liberdade humana que todos os homens se envaidecem de ter e que consiste em os homens serem conscientes dos seus desejos e ignorantes da causas que os determinam. É assim que uma criança julga desejar livremente o leite... Um ébrio julga dizer por decisão o que seguidamente quererá calar.

*Baruch de Espinoza

CANTO III

A ressurreição pagã. — Renascença.
— Prometeu desagrilhoado,
escalou o céu e matou os deuses.
O Olimpo doravante será na Terra.
— Prometeu libertador, revelando,
dominando e entregando aos
homens as forças prodigiosas
da natureza. A humanidade vai
libertar-se. Cada homem será um
deus.
*Guerra Junqueiro

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Vamos acordar a cidade (Estas livre?)

(...) Não há transformação, nem revolução, nem luta, nem caminho; já és o monarca de tua própria pele — tua liberdade inviolável espera para ser completada apenas pelo amor de outros monarcas: uma política de sonho, urgente como o azul do céu.
Para desfazer todos os direitos & hesitações ilusórios da história, é necessária a economia de uma lendária Idade da Pedra: xamãs ao invés de padres, bardos ao invés de senhores, caçadores ao invés de policiais, coletores dotados de preguiça paleolítica, gentis como sangue, saindo nus por aí ou pintados como pássaros, equilibrados na onda da presença explícita, o agora-e-sempre atemporal. Agentes do caos deitam olhares flamejantes sobre qualquer coisa ou pessoa capaz de prestar testemunho à sua condição, à sua febre de lux et voluptas. Estou desperto apenas naquilo que amo & desejo ao ponto do terror: todo o resto é apenas mobília coberta, anestesia cotidiana, merda na cabeça, tédio subreptiliano de regimes totalitários, censura banal & dor inútil. Avatares do caos agem como espiões, sabotadores, criminosos do amour fou, nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, educados como bárbaros, esfolados por obsessões, desempregados, sensualmente tresloucados, lobos angelicais, espelhos para contemplação, olhos como flores, piratas de todos os signos & sentidos. Cá estamos nos arrastando pelas rachaduras nos muros da igreja estado escola & fábrica, todos os monólitos paranóides. Cortados da tribo por uma nostalgia furiosa, escavamos em busca de palavras perdidas, bombas imaginárias. O último feito possível é aquele que define a percepção em si, um invisível cordão dourado que nos conecta: dança ilegal nos corredores do tribunal. Se eu te beijasse aqui eles chamariam isso de ato de terrorismo: vamos então levar nossas pistolas para a cama & acordar a cidade à meia-noite, como bandidos bêbados celebrando com uma fuzilaria a mensagem do gosto do caos.

*Hakim Bey