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A bengala, as moedas, o chaveiro,A dócil fechadura, as tardiasNotas que não lerão os poucos diasQue me restam, os naipes e o tabuleiro,Um livro e em suas páginas a ofendidaVioleta, monumento de uma tarde,De certo inesquecível e já esquecida,O rubro espelho ocidental em que ardeUma ilusória aurora. Quantas coisas,Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,Nos servem como tácitos escravos,Cegas e estranhamente sigilosas!Durarão muito além de nosso olvido:E nunca saberão que havemos ido.
*Jorge Luis Borges
Dê-me alcalóide. Tenho suposto um passaporte só de ida. Deveria acaso voltar aqui? Deveria me dispor a chorar, implorar ou gemer? Sei que é esse o teu fetiche mais obscuro, o de me ver eternamente reduzido, me queres como um atavio desesperado, me queres como aquele que faz e reivindica o que for daquilo que insisto, é indigno de um homem livre. Se eu te desse hoje o afeto que jamais senti alguns chamariam isso de adaptação. Mas o que posso é te invadir agora enquanto meus membros ainda não são alcançados pela letargia. Com raiva e fúria abriria teus flancos, você estaria envergonhada de si e a natureza estaria plena de seu curso.
Eu poderia saltar em teu abismo, te beijar por misericórdia da sombra que um dia fomos, tristemente, isso seria pra mim como um ato de terrorismo. Quando você se tornou tão infeliz? Tente dançar de pés descalços, é a melhor forma de deixar com que o sangue circule. Coma alho, fume ópio, espante vampiros e fantasmas tenho suspeitado presenças estranhas. Eu te amaria agora, se pudesse fazer isso sem vomitar. Tudo está perdido! O dia passou, a vida deixou, os sorrisos amarelaram. Quando eu tinha cinco anos quis ajudar um passarinho morto, anos mais tarde trago como espólio o bastão do andarilho, tarde demais. Tempo atrás... O perfume da sacerdotisa gorda e obtusa teima em recender toda o sítio. Isso é o inferno? Não foi minha criação. Todavia, pode ser que eu estivesse dormindo enquanto o inconsciente trabalhava. Que sono remoto. Fora daqui! O caos pertence a mim. Não o reclame a ti.
Agora tu entendes, aquele te ofertou paz era o mesmo que velava na surdina com uma adaga. Como eu gostaria de sentir compaixão, não consigo. Fica aí, atado a esse mundo de cristal. Mando-te lembranças um dia, embora antes tenha de combinar isso, com meus olhos e sistema digestivo. Prefiro continuar como um pirata bêbado, sem cartografia ou sextante, saio por invadir além-mares sem fazer planos. À noite uivo, de dia durmo. Tenho tido tantas humanidades como tem um cão endoudecido. Convertido fui, em soberano de minha própria pele(..)
Agora me vou. Sempre me vou. Sempre retorno.
*Leandro M. de Oliveira
Um fabricador d’engenhos apanha suas invenções já inventadas, plageia a própria alma, da seu âmago ao desatento que por aqui passou. Nada é original. Todo sacrifício é vão. Criador olha com retidão a criatura, não vê senão o eco perdido do abandonado caminho. O novo é uma casa antiga cujas paredes foram caiadas, no interior o sepulcro é o mesmo de tempos sem conta. Toda produção, toda expressão, é só um murmúrio da ânsia da vida por si mesma. Da vida que deveria ter sido mas, na perdição das horas lentas e ociosas viu se achegar ao peito um pleno de impossibilidades irrevogáveis. Idealização frente a construção é deveras, uma lida de menor esforço pra alguém tão exausto de ser ele mesmo.
E assim foi, o homem d’engenhos passou todo um dia (ou seria ano?) na clausura da cela à busca da revelação derradeira. Passou à memória seu legado, como passa um general à frente da tropa, como passa o pacifista frente ao tanque de guerra. Como pudesse fazer moenda do candial da vida pra erguer com ele a argamassa da resposta, conjeturou infância e velhice, mesmo sentindo-se desde sempre imune a condicionamentos temporais. “A única liberdade é esmerar um algo inédito, com vida insuspeitada, com estatura que se note. Quero sair desse teatro pra escrever minha própria peça, essa companhia tornou-se ao longo de tantas temporadas, demasiado enfadonha.” Nisso, pensava ele resignado enquanto arquitetava seu livramento. “Quero comer sem arrotar, doer sem chorar, amar sem morrer, sangrar sem doer... Tudo será possível àquele que cresceu selvagem, que o mundo não teve tempo hábil a gravar seus sortilégios de derrota no côncavo do peito nu. Ademais; existir é invariavelmente um assombro.” Desceu enfim até as catacumbas, ambicionando que de lá emergisse seu novo, se eterno incriado.
Chegando ao átrio, eis que então, crente e desavisado aquele ser de indiferença e esquecimento confronta seu legado. Para o próprio assombro, descobre que é ele. É ele duplicado!
*Leandro M. de Oliveira
Não há sentido nesse banquete de mentiras, espere um pouco, vou escalar as paredes pra urinar no telhado. Por quem é que me trocaram quando estava a acreditar que só a mudança cabal do “status quo” salvaria minha pele? Papai Noel é um porco capitalista e a medida dos sonhos é a de quanto se pode pagar por eles. Não há regras nem pudores. Então vamos calçar nossas botas de chumbo e pisotear o canteiro florido, ha mais estrume nessa terra do que em meu mundo concebia. Quero que você dance como uma bacante bêbada, vomite em mim, a revolta sou eu. Se quer salvar meu espírito é aqui que vai encontrá-lo, açaime meu corpo entre tuas pernas, possua minha carne com agressividade, nesse lugar repousa meu santuário. Invada-o! Ou deixe que os cães terminem sua valia. Quanto tempo faz não te vejo, quebrei os espelhos com fúria, ao ver que eles nunca traziam descobertas novas. O tempo tem sido líquido e esgarçado, como uma poça que seca lentamente. A cidade acordará, ela sempre desperta com aquele velho passo maquinal de fuligem e gente. Como passaram a sentir tanta aversão por si próprios? Que venha a sabedoria das coisas simples, para entender o mistério insondável de uma agressão mútua. “Amai o teu próximo como a ti mesmo”, palavras razoáveis para um messias mas, a grande morte exige uma motivação descente. Vamos derramar o nosso ódio contido, a besta nunca é escravizada, ou vive sob seus próprios ditames, ou morre em nome de sua ideologia. Ouvi notícias de um homem, era mais retido que um asceta e mais pacato que uma ovelha tosquiada, precocemente seus músculos atrofiaram e sua vida pereceu. Esse mundo é insano, se eu acreditasse na monogamia me acusariam de subversão. Queria estar com você todo o tempo, não posso ousar. Há ainda muitos botões por abrir antes que chegue a primavera. Tenho a vocação de um javali selvagem e o caos da noite primeira, não posso sorrir na fila do matadouro. Se soubesse, talvez escreveria um poema, como não sei, sigo ruminando os intermináveis dilemas até que a aurora violente o escudo da noite.
*Leandro M. de Oliveira
A boca seca, a boca cospe, a boca amarga o fel do dia. As mãos tem sangue, as veias ferrugem, o escuro incerteza, o mundo tem um oco. Pude muitas coisas, e agora com meu medo e minha esclerose, não sei mais como ousá-las. Ela estava aqui, ela ainda continua aqui, como um cão ou uma árvore. Acordei cedo pra tomar o desjejum, fui moço à cozinha antiga, achei-me a deglutir um pão mofado, quis caminhar até a padaria mas, havia esquecido meus pés. Quem me roubou de mim? As horas consumidas na fuligem de um quadro desbotado significam o mesmo que não ser coisa alguma. Tenho pena do que tenho sido, vem a mim, quero vomitar o antigo e copular o novo. Se meus sonhos me causarem indigestão acaso haveria antiácidos para isso? Vou morrer, ou viver um dia mais, que importa? O mundo não deu importo a essa querela? A lavra dos anos perdidos, a lavra do caminho não trilhado. Tenho vergonha de tanta covardia, tenho uma indiferença miserável. Se eu tivesse uma arma guardaria em segredo, se eu tivesse flores deixaria que murchassem sem colhê-las. Ela violentou a si mesma, assim como desde sempre, o bode expiatório sou eu. Eternamente culpado, eternamente em exílio, quando verei as luzes de Roma outra vez? Não sei, nunca sei conjeturar ânsias tão íntimas. Perdi as certezas e o alforje, o caminho e a vontade, perdi tudo quanto aos homens é aprazível, e mal percebi acontecer. O dilema das prostitutas sifilíticas, a dor silente dos homossexuais sem teto, os judeus matando palestinos... O mundo prossegue em suas tragédias ancestrais. Eu obtuso, não dei conta disso. As geleiras antárticas, a rota invisível do sal, cordilheiras líquidas que separam homens e ideações. As caravanas terminam todas no fundo do meu pátio de marfim. A casa é repleta, as sombras abrigam por longas horas. Noite mudada em manhã sem sol, noite nesse país é um evento perene. Os ecos batem à porta, donde estão aqueles que aqui habitavam? Partiram pra longe, partiram pra sempre... Que queres nobre peregrino? Há mais não informo, também tenho andado exterior a mim.
*Leandro M. de Oliveira
Pelo meu lado, digo que esta coisa é livre, que existe e age pela necessidade da sua natureza e é constrangida e determinada por uma outra a existir e a agir segundo uma modalidade precisa e determinada. Deus, por exemplo, existe livremente porque existe apenas pela necessidade da sua natureza. Vedes então que não sintuo a liberdade num decreto livre mas numa necessidade livre.
Mas regressemos às coisas criadas que, todas elas, são determinadas a existir e a agir segundo uma forma precisa e determinada. Uma pedra recebe de uma causa exterior que a atira, uma certa quantidade de movimento... todo o objeto singular é necessariamente determinado por qualquer causa exterior a existir e a agir segundo uma lei precisa e determinada...
Concebei agora, se quiserdes, que a pedra, enquanto se move, sabe e pensa que faz todo o esforço possível para continuar a mover-se. Este perdura, certamente, porque não tem consciência senão do seu esforço... julgará ser livre...
Tal é a liberdade humana que todos os homens se envaidecem de ter e que consiste em os homens serem conscientes dos seus desejos e ignorantes da causas que os determinam. É assim que uma criança julga desejar livremente o leite... Um ébrio julga dizer por decisão o que seguidamente quererá calar.
*Baruch de Espinoza
A ressurreição pagã. — Renascença.
— Prometeu desagrilhoado,
escalou o céu e matou os deuses.
O Olimpo doravante será na Terra.
— Prometeu libertador, revelando,
dominando e entregando aos
homens as forças prodigiosas
da natureza. A humanidade vai
libertar-se. Cada homem será um
deus.
*Guerra Junqueiro
(...) Não há transformação, nem revolução, nem luta, nem caminho; já és o monarca de tua própria pele — tua liberdade inviolável espera para ser completada apenas pelo amor de outros monarcas: uma política de sonho, urgente como o azul do céu.
Para desfazer todos os direitos & hesitações ilusórios da história, é necessária a economia de uma lendária Idade da Pedra: xamãs ao invés de padres, bardos ao invés de senhores, caçadores ao invés de policiais, coletores dotados de preguiça paleolítica, gentis como sangue, saindo nus por aí ou pintados como pássaros, equilibrados na onda da presença explícita, o agora-e-sempre atemporal. Agentes do caos deitam olhares flamejantes sobre qualquer coisa ou pessoa capaz de prestar testemunho à sua condição, à sua febre de lux et voluptas. Estou desperto apenas naquilo que amo & desejo ao ponto do terror: todo o resto é apenas mobília coberta, anestesia cotidiana, merda na cabeça, tédio subreptiliano de regimes totalitários, censura banal & dor inútil. Avatares do caos agem como espiões, sabotadores, criminosos do amour fou, nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, educados como bárbaros, esfolados por obsessões, desempregados, sensualmente tresloucados, lobos angelicais, espelhos para contemplação, olhos como flores, piratas de todos os signos & sentidos. Cá estamos nos arrastando pelas rachaduras nos muros da igreja estado escola & fábrica, todos os monólitos paranóides. Cortados da tribo por uma nostalgia furiosa, escavamos em busca de palavras perdidas, bombas imaginárias. O último feito possível é aquele que define a percepção em si, um invisível cordão dourado que nos conecta: dança ilegal nos corredores do tribunal. Se eu te beijasse aqui eles chamariam isso de ato de terrorismo: vamos então levar nossas pistolas para a cama & acordar a cidade à meia-noite, como bandidos bêbados celebrando com uma fuzilaria a mensagem do gosto do caos.
*Hakim Bey
Às vezes duvido de que se tenha captado desde a “primavera democrática” latino-caribenha a verdadeira natureza e o papel dado neste “continente da esperança” pelo imperialismo estadunidense e o sub-imperialismo israelense, ao regime colombiano que preside Álvaro Uribe Vélez.
Tomara que tudo o relacionado com a instalação de cinco novas bases militares e o re-forçamento das outras dois existentes, possibilite valorar a profundidade o real significado desse Estado em governos e sociedades da nossa América.
# Essência e evolução do poder colombiano.
Trata-se de algo realmente funesto, nefasto, de alta periculosidade.
Esse regime não é somente uma das democracias representativas da direita tradicional.
Não é simplesmente um governo de direita.
Não é exclusivamente um regime pró-oligárquico e pró-imperialista.
Não é só uma ditadura encoberta por um manto democrático-eleitoral.
Nem sequer pode definir-se só como um governo sustentado em um Estado com forte vocação terrorista a respeito de tudo o que se lhe opõe.
É isso tudo e muito mais em quanto à sua gestão de poder dentro da sociedade colombiana e frente aos processos democrático-soberanos que se desenvolveram na atualidade em escala continental.
É um Estado-governo narco-paramilitar-terrorista, instrumentalizado e gerenciado por uma oligarquia feroz e voraz, por uma “classe política” mafiosa e por um generalato criminoso; apadrinhado por um imperialismo decadente e pentgonizado, impelido pelas suas próprias carências em planos de e operações de conquistas e reconquistas pela via militar; assistido, além do mais, pelas altas técnicas do terror sionista e estadunidense, e inspirado também em seus próprios ânimos agressivos e expansionistas.
É um poder montado sobre sessenta anos de guerra suja, de múltiplos exercícios terroristas e variadas misturas políticas com as máfias das drogas e seus cartéis paramilitares.
Rico na cultura do Norte, em práticas terríveis e em dinheiro sujo. Combinação das barbáries mais antigas com as técnicas guerreiras mais modernas e pós-modernas, estas últimas subministradas pelos EUA e Israel; mistura grotesca do picadinho de seres humanos com facões afiados e seu corte em fatias com moto-serras, de massacres próprios da idade média e da robotização da guerra suja. Amálgama granítica e aberrante de inúmeros métodos de terror e extermínio de fontes e épocas diversas
# Engendro pra dentro e pra fora
Sua malvada evolução se centrou primeiro no espaço territorial colombiano para enfrentar com supina crueldade a longa e heróica resistência civil e militar desse povo irmão; aferrada a oligarquia santanderista, a partidocracia tradicional e, sobretudo, o imperialismo estadunidense, ao seu domínio sobre uma vasta e rica região situada na entrada da apetecida Amazônia.
Mais tarde, –agora com maiores ímpetos que antes - esse engendro se sentiu cutucado pela necessidade de contra-restar o avanço do bolivarianismo e de sua formidável onda de transformações redentoras (Venezuela, Equador, Bolívia...), reforçando assim sua vocação sub-imperialista inspirada na experiência judeu-estadunidense no Meio Oriente.
O Estado colombiano, o poder oligárquico e pró-imperialista que o sustenta, o governo gangsteril que o administra, tem devindo não só em um conjunto despudoradamente opressor, punitivo, violento e agressivo contra sua própria sociedade e dentro de seu próprio território, senão ademais progressivamente estruturado como plataforma de agressão imperialista contra a “primavera democrática” continental e muito especialmente contra os processos libertadores da Venezuela, Equador, Bolívia... e os formidáveis movimentos sociais do Brasil e do Peru.
Plataforma do neosantanderismo decadente contra o neobolivarianismo em auge.
Plataforma em ultramar de um imperialismo senil, militarizado, em crise e carente de recursos naturais essências: petróleo, carvão, água, biodiversidade, minerais estratégicos... que apetece demais com gula insaciável.
Plataforma de agressão a partir de uma rede de bases militares estadunidenses encaminhadas a relançar o plano contra-revolucionário regional e o plano de ocupação militar da Amazônia, para o que, de imediato, se propõem tentar arrochar uma insurgência popular e uma resistência civil inquebrantáveis, reverter os processos transformadores na Venezuela, no Equador e na Bolívia, mudar a correlação de forças no Brasil em favor da direita dura e conter a possibilidade de virada à esquerda no Peru.
Plataforma de poderosas bases imperialistas, reforçadas por contingentes e unidades altamente especializadas procedentes das forças regulares dos EUA e dos corpos privatizados que serão localizados na Colômbia dotados de sofisticadas técnicas de guerra.
Plataforma também das forças autóctones muito volumosas e fanatizadas, experimentadas durante décadas em guerras de baixa e mediana intensidade. Agora com dupla tarefa: externa e interna, com muitas unidades paramilitares em processo de reativação e ampliação, e com um montão de recursos sujos disponíveis.
Isso não é qualquer uma coisa.
Isso é um verdadeiro engendro localizado precisamente na cabeça do Norte da América do Sul, exatamente onde se situa o vórtice da onda de mudanças à nova independência e à nova democracia.
O engendro de um imperialismo em fase de putrefação agressiva, decidido a operar agressivamente em pleno desenvolvimento desta crise mundial da civilização burguesa; de um imperialismo capaz de submeter aos seus desígnios e negócios militares inclusive à triunfante expressão do desejo de mudança em sua própria sociedade representada pessoalmente nas passadas eleições por Barack Obama.
Estamos agora ante um “bushismo” sem Bush, criador –antes de Obama e acompanhado de Obama- de um monstruoso engendro colombo-gringo dentro do cenário de um país não soberano, para agredir a soberania de terceiros.
Na calçada de enfrente isto requer de todos os esforços –tal e como está fazendo o comandante Chávez- para o fortalecimento e modernização dos exércitos das nações escolhidas como vítimas, através de convênios militares apropriados para tão delicadas circunstâncias (com a Rússia, a China...). Mas, exige, sobretudo de um desenho e uma preparação para a guerra de todo o povo (ou de todos os povos ameaçados) que dissuada aos agressores de seus planos de guerra ou lhe impeça impor-se se ousam desatá-la.
Porque ademais da importância e do valor relativo dos esforços para reduzir a enorme brecha tecnológica desde a lógica da guerra entre exércitos regulares, está demonstrado que só desde uma visão de guerra assimétrica, de resistência popular bolivariana (venezuelana, equatoriana, colombiana...) seria possível contra-restar, reduzir a efetividade e finalmente empantanar e inutilizar a enorme superioridade técnico-militar dessa superpotência já instalada mediante grandes bases de guerra na Colômbia.
# O uribismo é muito funcional ao engendro.
A esse engendro, cuja gestação data de bastante tempo atrás, tem lhe caído como luva a “liderança” fabricada de Álvaro Uribe Vélez, produto da podridão modernizada, informatizada e digitalizada destes tempos pós-modernos.
Ele e os seus tem substituído o partidarismo tradicional decadente.
Ex - sócio do narco-capo Pablo Escobar Gaviria, experto nas associações com o pára-militarismo e seus cartéis, carente de escrúpulos para favorecer seus massacres em alianças com um generalato feroz, inteligente por maldade, estudioso das gerências modernas, entreguista, audaz, hábil, agressivo, teatral, conhecedor das manobras mediáticas mais eficazes... tem lhe impresso corporativismo, eficiência, mística reacionária e neo-fascismo à gestão governamental colombiana. Sensível à chantagem desde Washington pelo seu passado e expert na chantagem dentro da sua “classe política”, tem todos os atributos para elevar-lhe a posição a esse engendro da re-colonização neoliberal.
Uribe é a nova cara política do monstro localizado no ambicionado paraíso amazônico, agora com papéis precisos indicados em nível nacional-colombiano, regional e mundial.
# O quê fazer com o engendro?
O quê fazer com este engendro anti-bolivariano, contra-revolucionário, contra-reformas, antidemocrático?
Tratá-lo com uma “democracia” porque no seu território se fazem “eleições” e existem instituições “eleitas”?
Considerá-lo como um “respeitável” Estado e um governo de um país irmão?
Tratá-lo como a um “bom vizinho”?
Como a um país soberano cujas decisões devem ser respeitadas?
Acredito ter chegado a hora de analisar as coisas com mais profundidade.
Tal engendro não deve ser tratado em função de suas simulações, nem desde as simples formalidades diplomáticas.
Esse engendro deve ser condenado, repudiado, isolado e politicamente acossado por todas as forças amantes da paz, a liberdade, a democracia, a justiça e a soberania. Estejam essas forças nos governos ou fora deles, sejam políticas, sociais, culturais ou religiosas, pensamos que elas deveriam dispor-se a derrotá-lo em suas duas versões: estatal e paraestatal.
As atrocidades do Estado narco-para-terrorista colombiano e do uribismo como tal devem ser profusamente difundidas em escala mundial por todos os meios possíveis.
Além de todas as formalidades institucionais e do seu próprio e enganoso formato liberal-representativo, esse regime é realmente oprobrioso; e seu presidente, que gosta tanto de qualificar aos seus adversários de “bandidos”, é uma espécie de gangster político hiper-modernizado.
Esse engendro deverias ser isolado desde o ponto de vista diplomático, econômico e político; tanto desde os governos e Estados com vocação revolucionária, progressista e democrática, como desde as organizações sociais, políticas, religiosas, culturais e artísticas de todos os países da região.
Está demonstrado que qualquer condescendência a ele se traduz em mais agressividade e perversidade de sua parte.
Há que contribuir para sua derrota por todas as vias e meios necessários, e isso implica em respaldar, acompanhar e aliar-nos a todas as forças, cívicas, políticas, político-militares, sociais, culturais, religiosas, movimentos étnicos que na Colômbia se opõem a esse engendro guerreirista.
Isso implica em confluir com as forças insurgentes e não insurgentes, de esquerda, populares, democráticas, progressistas decididas a produzir uma mudança política na Colômbia. Uma mudança que a liberte desse engendro e impeça novas agressões contra as novas democracias do continente.
# Convergência solidária com a Colômbia e Honduras
Honduras é ponto de partida de uma grande receita para as contra-reformas e contra-revoluções de novo tipo; e Colômbia é a plataforma sul-americana desse acionar contra a Venezuela, o Equador, a Bolívia, o Brasil... contra toda a primavera democrática continental.
A questão de Honduras ameaça de imediato a El Salvador e a Nicarágua e persegue estimular a revogação dos avanços na América Central e além, procurando à vez facilitar o Plano Puebla-Panamá (agora Puebla-Bogotá).
Já na Colômbia acontece o relançamento em escala maior do Plano Colômbia-Iniciativa Andina contra as possibilidades de mudanças nesse país, contra as mudanças políticas registradas na sua vizinhança e em favor da conversão desse país em uma grande plataforma de agressão militar contra outros países e processos do continente.
Sim há razões poderosas para clamar pelo isolamento e pela derrota do golpe de Estado e do governo de Pinochetti em Honduras, sobram os motivos para contribuir tenazmente aos esforços dirigidos a produzir o mais rapidamente possível uma mudança política democrática na Colômbia.
Não é questão para inibir-se pela simples formalidade institucional (embora isso tenha peso), senão de essências e problemas de fundo. Entre Honduras e a Colômbia –enquanto estado de terror e potencial contra-revolucionário oligárquico-imperialista-mafioso- se tem vantagens de uma sobre outras são muito a favor da Colômbia.
O passo dado por Uribe aceitando as bases militares estadunidenses no seu território não só coincide com o golpe em Honduras e com o reinício nesse país da era do Estado repressivo-terrorista, senão que é parte da mesma estratégia de re-colonização imperialista para voltar a submeter os países vizinhos que se lhe escapuliram das mãos e evitar mudanças progressistas em gestação em outras nações sul-americanas.
# Unidade revolucionária continental.
Vamos fazer o quê?
Resignar-nos a que Zelaya não possa retornar e a que o engendro colombiano siga crescendo em forma ominosa e perigosa?
Isto não é questão que deva decidir só o povo de Honduras ou só o povo da Colômbia, principais vítimas do relançamento da estratégia imperial que conta com o apoio aberto e/ou semi-encoberto dos governos da Colômbia, Panamá, Honduras, México e Peru, e com o apoio mais matreiro ou a atitude escorregadia ou timorata de outros Estados.
Acredito que seja momento para recolocar a estratégia das forças bolivarianas, morazanistas, martianas, guevaristas... do continente.
Penso que desde as grandes lideranças dos Estados e povos venezuelano, equatoriano, boliviano, cubano, nicaragüense, salvadorenho, uruguaio, brasileiro… há autoridade e influências para criar –junto a muitos outros, e sobretudo aos grandes, medianos e pequenos movimentos políticos, sociais, culturais, religiosos, étnicos, meio-ambientais, feministas –uma nova situação baseada em uma linha de denúncias, mobilizações, greves, protestas civilistas, cesse de relações, medidas de isolamento, rebeldias... capazes de debilitar ao máximo, acossar, cercar e derrotar os engendros oligárquico-mafioso-imperialista- colombiano e hondurenho.
Isso é possível. Só falta a vocação política para fazê-lo, sobretudo da parte das lideranças mais influentes na região e no mundo, e das forças com mais recursos e melhor posicionadas.
E é possível, sobretudo, se vai-se mais além dos acordos e espaços intergovernamentais e interestatais e se recorre ao poder dos povos e dos seus movimentos sociais e políticos coordenados, somando-lhe as capacidades logísticas institucionais e o poder mobilizador e carismático dos líderes estadistas.
Penso que é hora para uma grande convergência de Estados, governos, forças políticas e sociais não governamentais, povos empobrecidos, comunidades originárias... para propor-se desde uma atitude beligerante, mobilizadora, consistente e firme, isolar, acossar, e derrotar os regimes da Colômbia e de Honduras, peças chaves de uma parte da contra-ofensiva gringa instrumentalizada através de ambos os cenários ocupados.
Há que acompanhar as intervenções nos cenários governamentais multilaterais com uma linha de ação desde as bases da sociedade, desde a aliança das forças governamentais e não governamentais mais avançadas, desde os povos e suas expressões institucionais e não institucionais.
Tirar o uribismo do governo na Colômbia e derrotar esse engendro maior. Deslocar do poder os golpistas em Honduras e impedir a consolidação desse engendro menor. Relançar com vigor a campanha nenhum soldado ianque na nossa América, são ao meu entender tarefas atuais de primeira ordem e de sentido estratégico.
Não é hora para ambigüidades e meias-tintas. Empenhemo-nos em pressionar nessas direções e convencer aos nossos povos e à diversidade de suas forças condutoras dessa imperiosa necessidade.(Viva la America Libre!)
*Por N. I. Conde. República. DominicanaFonte: www.desacato.infoVersão em português, Raul Fitipaldi, de América Latina Palavra Viva.