sábado, 12 de setembro de 2009

Liberdade (O impulso é externo?)

Pelo meu lado, digo que esta coisa é livre, que existe e age pela necessidade da sua natureza e é constrangida e determinada por uma outra a existir e a agir segundo uma modalidade precisa e determinada. Deus, por exemplo, existe livremente porque existe apenas pela necessidade da sua natureza. Vedes então que não sintuo a liberdade num decreto livre mas numa necessidade livre.
Mas regressemos às coisas criadas que, todas elas, são determinadas a existir e a agir segundo uma forma precisa e determinada. Uma pedra recebe de uma causa exterior que a atira, uma certa quantidade de movimento... todo o objeto singular é necessariamente determinado por qualquer causa exterior a existir e a agir segundo uma lei precisa e determinada...
Concebei agora, se quiserdes, que a pedra, enquanto se move, sabe e pensa que faz todo o esforço possível para continuar a mover-se. Este perdura, certamente, porque não tem consciência senão do seu esforço... julgará ser livre...
Tal é a liberdade humana que todos os homens se envaidecem de ter e que consiste em os homens serem conscientes dos seus desejos e ignorantes da causas que os determinam. É assim que uma criança julga desejar livremente o leite... Um ébrio julga dizer por decisão o que seguidamente quererá calar.

*Baruch de Espinoza

CANTO III

A ressurreição pagã. — Renascença.
— Prometeu desagrilhoado,
escalou o céu e matou os deuses.
O Olimpo doravante será na Terra.
— Prometeu libertador, revelando,
dominando e entregando aos
homens as forças prodigiosas
da natureza. A humanidade vai
libertar-se. Cada homem será um
deus.
*Guerra Junqueiro

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Vamos acordar a cidade (Estas livre?)

(...) Não há transformação, nem revolução, nem luta, nem caminho; já és o monarca de tua própria pele — tua liberdade inviolável espera para ser completada apenas pelo amor de outros monarcas: uma política de sonho, urgente como o azul do céu.
Para desfazer todos os direitos & hesitações ilusórios da história, é necessária a economia de uma lendária Idade da Pedra: xamãs ao invés de padres, bardos ao invés de senhores, caçadores ao invés de policiais, coletores dotados de preguiça paleolítica, gentis como sangue, saindo nus por aí ou pintados como pássaros, equilibrados na onda da presença explícita, o agora-e-sempre atemporal. Agentes do caos deitam olhares flamejantes sobre qualquer coisa ou pessoa capaz de prestar testemunho à sua condição, à sua febre de lux et voluptas. Estou desperto apenas naquilo que amo & desejo ao ponto do terror: todo o resto é apenas mobília coberta, anestesia cotidiana, merda na cabeça, tédio subreptiliano de regimes totalitários, censura banal & dor inútil. Avatares do caos agem como espiões, sabotadores, criminosos do amour fou, nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, educados como bárbaros, esfolados por obsessões, desempregados, sensualmente tresloucados, lobos angelicais, espelhos para contemplação, olhos como flores, piratas de todos os signos & sentidos. Cá estamos nos arrastando pelas rachaduras nos muros da igreja estado escola & fábrica, todos os monólitos paranóides. Cortados da tribo por uma nostalgia furiosa, escavamos em busca de palavras perdidas, bombas imaginárias. O último feito possível é aquele que define a percepção em si, um invisível cordão dourado que nos conecta: dança ilegal nos corredores do tribunal. Se eu te beijasse aqui eles chamariam isso de ato de terrorismo: vamos então levar nossas pistolas para a cama & acordar a cidade à meia-noite, como bandidos bêbados celebrando com uma fuzilaria a mensagem do gosto do caos.

*Hakim Bey

Acontece na América

Às vezes duvido de que se tenha captado desde a “primavera democrática” latino-caribenha a verdadeira natureza e o papel dado neste “continente da esperança” pelo imperialismo estadunidense e o sub-imperialismo israelense, ao regime colombiano que preside Álvaro Uribe Vélez.

Tomara que tudo o relacionado com a instalação de cinco novas bases militares e o re-forçamento das outras dois existentes, possibilite valorar a profundidade o real significado desse Estado em governos e sociedades da nossa América.

# Essência e evolução do poder colombiano.

Trata-se de algo realmente funesto, nefasto, de alta periculosidade.
Esse regime não é somente uma das democracias representativas da direita tradicional.
Não é simplesmente um governo de direita.
Não é exclusivamente um regime pró-oligárquico e pró-imperialista.
Não é só uma ditadura encoberta por um manto democrático-eleitoral.

Nem sequer pode definir-se só como um governo sustentado em um Estado com forte vocação terrorista a respeito de tudo o que se lhe opõe.

É isso tudo e muito mais em quanto à sua gestão de poder dentro da sociedade colombiana e frente aos processos democrático-soberanos que se desenvolveram na atualidade em escala continental.

É um Estado-governo narco-paramilitar-terrorista, instrumentalizado e gerenciado por uma oligarquia feroz e voraz, por uma “classe política” mafiosa e por um generalato criminoso; apadrinhado por um imperialismo decadente e pentgonizado, impelido pelas suas próprias carências em planos de e operações de conquistas e reconquistas pela via militar; assistido, além do mais, pelas altas técnicas do terror sionista e estadunidense, e inspirado também em seus próprios ânimos agressivos e expansionistas.

É um poder montado sobre sessenta anos de guerra suja, de múltiplos exercícios terroristas e variadas misturas políticas com as máfias das drogas e seus cartéis paramilitares.

Rico na cultura do Norte, em práticas terríveis e em dinheiro sujo. Combinação das barbáries mais antigas com as técnicas guerreiras mais modernas e pós-modernas, estas últimas subministradas pelos EUA e Israel; mistura grotesca do picadinho de seres humanos com facões afiados e seu corte em fatias com moto-serras, de massacres próprios da idade média e da robotização da guerra suja. Amálgama granítica e aberrante de inúmeros métodos de terror e extermínio de fontes e épocas diversas



# Engendro pra dentro e pra fora

Sua malvada evolução se centrou primeiro no espaço territorial colombiano para enfrentar com supina crueldade a longa e heróica resistência civil e militar desse povo irmão; aferrada a oligarquia santanderista, a partidocracia tradicional e, sobretudo, o imperialismo estadunidense, ao seu domínio sobre uma vasta e rica região situada na entrada da apetecida Amazônia.

Mais tarde, –agora com maiores ímpetos que antes - esse engendro se sentiu cutucado pela necessidade de contra-restar o avanço do bolivarianismo e de sua formidável onda de transformações redentoras (Venezuela, Equador, Bolívia...), reforçando assim sua vocação sub-imperialista inspirada na experiência judeu-estadunidense no Meio Oriente.

O Estado colombiano, o poder oligárquico e pró-imperialista que o sustenta, o governo gangsteril que o administra, tem devindo não só em um conjunto despudoradamente opressor, punitivo, violento e agressivo contra sua própria sociedade e dentro de seu próprio território, senão ademais progressivamente estruturado como plataforma de agressão imperialista contra a “primavera democrática” continental e muito especialmente contra os processos libertadores da Venezuela, Equador, Bolívia... e os formidáveis movimentos sociais do Brasil e do Peru.

Plataforma do neosantanderismo decadente contra o neobolivarianismo em auge.

Plataforma em ultramar de um imperialismo senil, militarizado, em crise e carente de recursos naturais essências: petróleo, carvão, água, biodiversidade, minerais estratégicos... que apetece demais com gula insaciável.

Plataforma de agressão a partir de uma rede de bases militares estadunidenses encaminhadas a relançar o plano contra-revolucionário regional e o plano de ocupação militar da Amazônia, para o que, de imediato, se propõem tentar arrochar uma insurgência popular e uma resistência civil inquebrantáveis, reverter os processos transformadores na Venezuela, no Equador e na Bolívia, mudar a correlação de forças no Brasil em favor da direita dura e conter a possibilidade de virada à esquerda no Peru.

Plataforma de poderosas bases imperialistas, reforçadas por contingentes e unidades altamente especializadas procedentes das forças regulares dos EUA e dos corpos privatizados que serão localizados na Colômbia dotados de sofisticadas técnicas de guerra.

Plataforma também das forças autóctones muito volumosas e fanatizadas, experimentadas durante décadas em guerras de baixa e mediana intensidade. Agora com dupla tarefa: externa e interna, com muitas unidades paramilitares em processo de reativação e ampliação, e com um montão de recursos sujos disponíveis.

Isso não é qualquer uma coisa.

Isso é um verdadeiro engendro localizado precisamente na cabeça do Norte da América do Sul, exatamente onde se situa o vórtice da onda de mudanças à nova independência e à nova democracia.

O engendro de um imperialismo em fase de putrefação agressiva, decidido a operar agressivamente em pleno desenvolvimento desta crise mundial da civilização burguesa; de um imperialismo capaz de submeter aos seus desígnios e negócios militares inclusive à triunfante expressão do desejo de mudança em sua própria sociedade representada pessoalmente nas passadas eleições por Barack Obama.

Estamos agora ante um “bushismo” sem Bush, criador –antes de Obama e acompanhado de Obama- de um monstruoso engendro colombo-gringo dentro do cenário de um país não soberano, para agredir a soberania de terceiros.

Na calçada de enfrente isto requer de todos os esforços –tal e como está fazendo o comandante Chávez- para o fortalecimento e modernização dos exércitos das nações escolhidas como vítimas, através de convênios militares apropriados para tão delicadas circunstâncias (com a Rússia, a China...). Mas, exige, sobretudo de um desenho e uma preparação para a guerra de todo o povo (ou de todos os povos ameaçados) que dissuada aos agressores de seus planos de guerra ou lhe impeça impor-se se ousam desatá-la.

Porque ademais da importância e do valor relativo dos esforços para reduzir a enorme brecha tecnológica desde a lógica da guerra entre exércitos regulares, está demonstrado que só desde uma visão de guerra assimétrica, de resistência popular bolivariana (venezuelana, equatoriana, colombiana...) seria possível contra-restar, reduzir a efetividade e finalmente empantanar e inutilizar a enorme superioridade técnico-militar dessa superpotência já instalada mediante grandes bases de guerra na Colômbia.

# O uribismo é muito funcional ao engendro.

A esse engendro, cuja gestação data de bastante tempo atrás, tem lhe caído como luva a “liderança” fabricada de Álvaro Uribe Vélez, produto da podridão modernizada, informatizada e digitalizada destes tempos pós-modernos.

Ele e os seus tem substituído o partidarismo tradicional decadente.

Ex - sócio do narco-capo Pablo Escobar Gaviria, experto nas associações com o pára-militarismo e seus cartéis, carente de escrúpulos para favorecer seus massacres em alianças com um generalato feroz, inteligente por maldade, estudioso das gerências modernas, entreguista, audaz, hábil, agressivo, teatral, conhecedor das manobras mediáticas mais eficazes... tem lhe impresso corporativismo, eficiência, mística reacionária e neo-fascismo à gestão governamental colombiana. Sensível à chantagem desde Washington pelo seu passado e expert na chantagem dentro da sua “classe política”, tem todos os atributos para elevar-lhe a posição a esse engendro da re-colonização neoliberal.

Uribe é a nova cara política do monstro localizado no ambicionado paraíso amazônico, agora com papéis precisos indicados em nível nacional-colombiano, regional e mundial.

# O quê fazer com o engendro?

O quê fazer com este engendro anti-bolivariano, contra-revolucionário, contra-reformas, antidemocrático?
Tratá-lo com uma “democracia” porque no seu território se fazem “eleições” e existem instituições “eleitas”?
Considerá-lo como um “respeitável” Estado e um governo de um país irmão?
Tratá-lo como a um “bom vizinho”?
Como a um país soberano cujas decisões devem ser respeitadas?

Acredito ter chegado a hora de analisar as coisas com mais profundidade.

Tal engendro não deve ser tratado em função de suas simulações, nem desde as simples formalidades diplomáticas.

Esse engendro deve ser condenado, repudiado, isolado e politicamente acossado por todas as forças amantes da paz, a liberdade, a democracia, a justiça e a soberania. Estejam essas forças nos governos ou fora deles, sejam políticas, sociais, culturais ou religiosas, pensamos que elas deveriam dispor-se a derrotá-lo em suas duas versões: estatal e paraestatal.

As atrocidades do Estado narco-para-terrorista colombiano e do uribismo como tal devem ser profusamente difundidas em escala mundial por todos os meios possíveis.

Além de todas as formalidades institucionais e do seu próprio e enganoso formato liberal-representativo, esse regime é realmente oprobrioso; e seu presidente, que gosta tanto de qualificar aos seus adversários de “bandidos”, é uma espécie de gangster político hiper-modernizado.

Esse engendro deverias ser isolado desde o ponto de vista diplomático, econômico e político; tanto desde os governos e Estados com vocação revolucionária, progressista e democrática, como desde as organizações sociais, políticas, religiosas, culturais e artísticas de todos os países da região.

Está demonstrado que qualquer condescendência a ele se traduz em mais agressividade e perversidade de sua parte.

Há que contribuir para sua derrota por todas as vias e meios necessários, e isso implica em respaldar, acompanhar e aliar-nos a todas as forças, cívicas, políticas, político-militares, sociais, culturais, religiosas, movimentos étnicos que na Colômbia se opõem a esse engendro guerreirista.

Isso implica em confluir com as forças insurgentes e não insurgentes, de esquerda, populares, democráticas, progressistas decididas a produzir uma mudança política na Colômbia. Uma mudança que a liberte desse engendro e impeça novas agressões contra as novas democracias do continente.

# Convergência solidária com a Colômbia e Honduras

Honduras é ponto de partida de uma grande receita para as contra-reformas e contra-revoluções de novo tipo; e Colômbia é a plataforma sul-americana desse acionar contra a Venezuela, o Equador, a Bolívia, o Brasil... contra toda a primavera democrática continental.

A questão de Honduras ameaça de imediato a El Salvador e a Nicarágua e persegue estimular a revogação dos avanços na América Central e além, procurando à vez facilitar o Plano Puebla-Panamá (agora Puebla-Bogotá).

Já na Colômbia acontece o relançamento em escala maior do Plano Colômbia-Iniciativa Andina contra as possibilidades de mudanças nesse país, contra as mudanças políticas registradas na sua vizinhança e em favor da conversão desse país em uma grande plataforma de agressão militar contra outros países e processos do continente.

Sim há razões poderosas para clamar pelo isolamento e pela derrota do golpe de Estado e do governo de Pinochetti em Honduras, sobram os motivos para contribuir tenazmente aos esforços dirigidos a produzir o mais rapidamente possível uma mudança política democrática na Colômbia.

Não é questão para inibir-se pela simples formalidade institucional (embora isso tenha peso), senão de essências e problemas de fundo. Entre Honduras e a Colômbia –enquanto estado de terror e potencial contra-revolucionário oligárquico-imperialista-mafioso- se tem vantagens de uma sobre outras são muito a favor da Colômbia.

O passo dado por Uribe aceitando as bases militares estadunidenses no seu território não só coincide com o golpe em Honduras e com o reinício nesse país da era do Estado repressivo-terrorista, senão que é parte da mesma estratégia de re-colonização imperialista para voltar a submeter os países vizinhos que se lhe escapuliram das mãos e evitar mudanças progressistas em gestação em outras nações sul-americanas.

# Unidade revolucionária continental.

Vamos fazer o quê?

Resignar-nos a que Zelaya não possa retornar e a que o engendro colombiano siga crescendo em forma ominosa e perigosa?

Isto não é questão que deva decidir só o povo de Honduras ou só o povo da Colômbia, principais vítimas do relançamento da estratégia imperial que conta com o apoio aberto e/ou semi-encoberto dos governos da Colômbia, Panamá, Honduras, México e Peru, e com o apoio mais matreiro ou a atitude escorregadia ou timorata de outros Estados.

Acredito que seja momento para recolocar a estratégia das forças bolivarianas, morazanistas, martianas, guevaristas... do continente.

Penso que desde as grandes lideranças dos Estados e povos venezuelano, equatoriano, boliviano, cubano, nicaragüense, salvadorenho, uruguaio, brasileiro… há autoridade e influências para criar –junto a muitos outros, e sobretudo aos grandes, medianos e pequenos movimentos políticos, sociais, culturais, religiosos, étnicos, meio-ambientais, feministas –uma nova situação baseada em uma linha de denúncias, mobilizações, greves, protestas civilistas, cesse de relações, medidas de isolamento, rebeldias... capazes de debilitar ao máximo, acossar, cercar e derrotar os engendros oligárquico-mafioso-imperialista- colombiano e hondurenho.

Isso é possível. Só falta a vocação política para fazê-lo, sobretudo da parte das lideranças mais influentes na região e no mundo, e das forças com mais recursos e melhor posicionadas.

E é possível, sobretudo, se vai-se mais além dos acordos e espaços intergovernamentais e interestatais e se recorre ao poder dos povos e dos seus movimentos sociais e políticos coordenados, somando-lhe as capacidades logísticas institucionais e o poder mobilizador e carismático dos líderes estadistas.

Penso que é hora para uma grande convergência de Estados, governos, forças políticas e sociais não governamentais, povos empobrecidos, comunidades originárias... para propor-se desde uma atitude beligerante, mobilizadora, consistente e firme, isolar, acossar, e derrotar os regimes da Colômbia e de Honduras, peças chaves de uma parte da contra-ofensiva gringa instrumentalizada através de ambos os cenários ocupados.

Há que acompanhar as intervenções nos cenários governamentais multilaterais com uma linha de ação desde as bases da sociedade, desde a aliança das forças governamentais e não governamentais mais avançadas, desde os povos e suas expressões institucionais e não institucionais.

Tirar o uribismo do governo na Colômbia e derrotar esse engendro maior. Deslocar do poder os golpistas em Honduras e impedir a consolidação desse engendro menor. Relançar com vigor a campanha nenhum soldado ianque na nossa América, são ao meu entender tarefas atuais de primeira ordem e de sentido estratégico.

Não é hora para ambigüidades e meias-tintas. Empenhemo-nos em pressionar nessas direções e convencer aos nossos povos e à diversidade de suas forças condutoras dessa imperiosa necessidade.


(Viva la America Libre!)
*Por N. I. Conde. República. Dominicana
Fonte: www.desacato.info
Versão em português, Raul Fitipaldi, de América Latina Palavra Viva.

sábado, 5 de setembro de 2009

Cansei-me daqui

Acontece que estou cansado, de inventar coisas que não tenho, de tentar doutrinar em fé que não creio. Quero a espiritualidade do corpo em carne viva, o riso fácil, o ímpeto livre, a comida desregrada. Quero acordar de noite e dormir de dia, andar entre homens apagados como quem caminha em estrelas.

Maldito seja!

Maldito seja!

Quem roubou minhas certezas? Tudo parecia bem enquanto boiava naquele caos, e agora vens a mim como um homem santo. Dê-me cá esse seu deus, vamos enterrar nossos mortos, dê-me todos os seus deuses, messias, arcanjos e demônios. Como quero aniquilá-los! Bem vindo à época da não inocência. Eu fui aquele que subiu a montanha durante a treva, velei enquanto todos dormiam. No regresso, ofertei meu coração aos homens e aos seus ídolos, tive de vê-lo se partir em mil enquanto as bestas famintas tentavam devorá-lo, intragável, muito acre, mesmo para uma besta. Confiei nos que estavam ao meu redor, não obtive mais que correntes e desenganos. Com uma mão me ofereciam com tantas outras me esvaziavam. É hora de batizar com fogo! Deus, me faça um Deus! Mas eu não sou Deus, eu não sou homem; eu não sou ninguém. Muito embora isso, ainda posso cismar. E é o mínimo que se outorga a um ser desperto em alta noite, ter a própria consciência, ainda que isso o entregue ao abandono. Não tenho pai, mãe, irmãos ou amigos, às vezes ocorre que não tenho a mim mesmo. É essa a ultima catarse, deixar-se ao abandono.


Não sei!

Não sei!
Mil vezes, Não sei!

Por que violentar o silêncio em sítios de meditação? Cala-te língua traiçoeira! A noite avança e a lua não veio, cala-te depressa. Quem mo dera uma tumba sem lápide, e eu teria a graça dos animais que passam mas, a memória ambiciona em silêncio. Vocês me entretiveram aqui, agora a lama soterra minhas pernas e tronco, como voltar pra casa? Tenho as mãos livres e a cabeça atada, tenho o sol do dia e a perversão em cada célula. O galo canta, o céu se anuvia. Uma menina perde a virgindade, uma mulher perde a vida, o mundo caminha sem sentido como houvesse harmonia na desordem. E eu me sinto insólito e sinto no existir uma lida tresloucada. Onde está o taberneiro, quero em mim a mãe de todas as carraspanas, contudo ergo a taça, não há vinho. Certa vez ouvi dizer, Dionísio perecera no último inverno. Vamos homem! Avante; se ainda há tempo.
*Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A verdade?

O que é então a verdade? Uma multidão movente de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, em resumo, um conjunto de relações humanas poeticamente e retoricamente erguidas, transportadas, enfeitadas, e que depois de um longo uso, parecem a um povo firmes, canoniais, e constrangedoras: as verdades são ilusões que nós esquecemos que o são, metáforas que foram usadas e que perderam a sua força sensível, moedas que perderam o seu cunho e que a partir de então entram em consideração, já não como moeda, mas apenas como metal.
*Friedrich Nietzsche

O Caos

“O CAOS NUNCA MORREU. Bloco não-lapidado primordial, único monstro venerável, inerte e espontâneo, mais ultra-violeta do que qualquer mitologia (como as sombras frente à Babilônia), a original e indiferenciada unidade-do-ser ainda se irradia serena como as flâmulas negras dos Assassinos, aleatória & perpetuamente intoxicada. O Caos surgiu antes de todos os princípios de ordem & entropia, não é nem um deus nem um verme, seus desejos insensatos circundam & definem todas as coreografias possíveis, todos os éteres & flogistons: suas máscaras são cristalizações de seu próprio rosto inexistente, como nuvens. Tudo na natureza é perfeitamente real, incluindo a consciência; não há absolutamente nada com o que se preocupar. Não apenas os grilhões da Lei foram quebrados; eles nunca existiram: demônios nunca vigiaram as estrelas, o Império nunca se iniciou, Eros nunca deixou a barba crescer. Não, ouça, o que aconteceu foi o seguinte: eles mentiram para ti, venderam-te idéias de bem & mal, fizeram-te perder a confiança em teu próprio corpo & sentir vergonha por teus dons de profeta do caos, inventaram palavras de desprezo para teu amor molecular, te hipnotizaram com distrações, te entediaram com a civilização & todas suas emoções usurárias.
*Hakim Bey

Antero fala sobre Filosofia (Filosofar é se fundir no todo?)

“A filosofia é eterna como o pensamento humano: mas, porque é eterna como ele, é que é como ele continuamente instável e flutuante, susceptível de progresso e sujeita ao retrocesso, desenvolvendo-se, como todas as coisas vivas, segundo uma linha sinuosa e complicada, que representa ao mesmo tempo a directriz da força íntima inicial e a acção mais ou menos perturbadora das forças concomitantes que lhe condicionam a expansão. Sempre igual a si mesma, no fundo, mas num fundo envolto, inconsciente e quase impenetrável, é continuamente diversa de si mesma nas suas manifestações, nas afirmações conscientes e sistemáticas do misterioso princípio ideal que forceja por exprimir e que, a cada ensaio de expressão definida, encobre quase tanto quanto revela. Ela representa assim, neste seu fieri incessante, o que há de absoluto no pensamento humano e o que há de relativo na consciência que o pensamento humano tem de si mesmo: uma potência infinita e um acto limitado: o segredo sublime das coisas gaguejado numa linguagem deficiente e bárbara, cheia de lacunas e obscuridades: e esta sua incurável imperfeição é justamente a condição da sua indestrutível vitalidade, da sua fecunda e incansável actividade. A filosofia alimenta-se das suas próprias dúvidas. Duvidar não é só uma maneira de propor os grandes problemas: é já um começo de resolução deles, porque é a dúvida que lhes circunscreve o terreno e que os define: ora, um problema circunscrito e definido é já uma certa verdade adquirida e uma preciosa indicação para muitas outras verdades possíveis.' É pela dúvida que a filosofia concebe, é a dúvida que a torna fecunda e a sua relatividade é, afinal, toda a sua razão de ser.
Iludem-se então os que procuram a verdade na filosofia? Sim e não. Iludem-se, por certo, se procuram na filosofia a verdade total e definitiva, a fórmula completa, nítida e inalterável da lei suprema das coisas, esse segredo transcendental, que, uma vez conhecido, se isso fosse possível, os tornaria deuses, segundo a expressão bíblica, ou, segundo o nosso modo de ver, os tomaria inertes, ininteligentes, moralmente decrépitos, adormecidos beatificamente à sombra da árvore da ciência. Saber tudo equivaleria a nada saber. Uma filosofia definitiva, feita e assente uma vez para todo o sempre, implicaria a imobilidade do pensamento humano: o absoluto anesstesiá-Io-ia. Essa tal verdade, aspiração ingénua de espíritos incultos, pode animar os crentes e exaltar os entusiastas; nos domínios do puro pensamento nunca produzirá senão vertigem e ilusão. Mas a verdade filosófica, com ser outra, nem por isso deixa de existir e ser verdade. A sua relatividade não implica erro, mas só limitação. É simbólica. Imagem imperfeita da verdade incognoscível, apresenta todavia alguns traços, alguns vagos lineamentos do inatingível original. Não é o absoluto, mas participa da natureza do absoluto e tem em si, como diz o poeta, parte alguma de infinito. O sol, visto através do nevoeiro, é ainda o sol, e as propriedades físicas e químicas da sua luz, diminuídas e alteradas, são todavia as propriedades fundamentais da luz solar. Se nunca o pudéssemos ver senão através desse meio ofuscante, poderíamos ainda assim estudá-lo e conhecê-lo. É assim que cada esboço, cada tentativa, de definição da verdade filosófica contém em si, apesar das alterações inerentes ao nosso indissipável nevoeiro, a indicação preciosa dalguma propriedade fundamental da verdade absoluta. O que é então a filosofia? É a equação do pensamento e da realidade, numa dada fase do desenvolvimento daquele e num dado período do conhecimento desta: o equilíbrio momentâneo entre a reflexão e a experiência: a adaptação possível em cada momento histórico (da história da ciência e do pensamento) dos factos conhecidos às ideias directoras da razão, e a definição correlativa dessas ideias, não por esses factos, mas em vista deles. É por isso que a cada período histórico corresponde a sua filosofia: e, se o espírito humano parece condenado a mover-se dentro dum certo número de fórmulas fixas, de tipos fundamentais de compreensão, sempre os mesmos e como que inquebrantáveis, esses tipos apresentam todavia uma feição particular em cada período histórico, e os sistemas, que os traduzem, repetem-se sem serem idênticos. O idealismo indiano distingue-se do idealismo grego e de ambos se distingue o idealismo germânico: o conceptualismo de Kant não é o conceptualismo de Sócrates, assim como o nous de Anaxágoras se não confunde com o espírito de Descartes, que todavia lhe corresponde, e o atomismo de Demócrito pareceria bem extravagante no nosso século, sem que isso impeça que o nosso século tenha, e muito legitimamente, a sua escola atomística. A razão é, em si, a mesma sempre e em todos os tempos: mas a experiência, em virtude da qual a razão define, coordena e sistematiza as suas concepções, é que varia continuamente. É por isso que, entre os vários sistemas, que em cada idade se repetem, sistemas tipicamente distintos e, ao que parece, irredutíveis entre si, há o que quer que é comum e como que um ar de família. O espírito da época penetra-os a todos: o génio da raça e da civilização, que os viu nascer, imprimiu em todos igualmente o seu cunho indelével. A Academia e o Pórtico podem combater-se: são todavia irmãos. Entre Plotino e Aristóteles, por exemplo, ou entre Bacon e Leibniz, há certas afinidades, certa obscura concordância, que a crítica filosófica só vagamente logra rastrear, mas que se sentem e são muito reais. Haverá, em cada época, em cada civilização, uma metafísica latente, mais profunda que a que se formula nos diversos sistemas e tão profunda que a todos escapa, mas que influa insentida em todos e de que cada um murmure muito confusamente um vago eco? E estará essa metafísica latente em relação perfeita com o estado íntimo psicológico de cada período da civilização humana, influenciando-se reciprocamente, formando em comum o stratum mais fundo da alma colectiva de cada idade, de tal sorte que as grandes criações espirituais, mergulhando as últimas radículas nessas profundezas, tragam de lá aquele elemento comum, que lhes dá, no meio dos seus mais patentes contrastes, aquela indefinível conformidade?É possível que assim seja. Em todo o caso, neste ponto de vista, que é aliás indiferente à exactidão ou inexactidão das explicações que se possam dar ao facto, os diferentes sistemas têm de ser considerados, dentro de cada período histórico, como os aspectos diversos duma mesma figura, de que são, entre si, os traços complementares, quero dizer, como momentos e modalidades do espírito geral e total do período. Sem o quererem, completam-se uns aos outros, e é só no conjunto deles que o espírito que anima a idade, o ciclo humano que os produziu, se encontra inteiro e pode ser bem estudado e compreendido. A expressão completa desse espírito seria pois uma teoria geral do universo, que formulasse superiormente, reduzindo-os à sua unidade, todos aqueles pontos de vista parciais, aqueles momentos limitados de compreensão, que cada sistema representa isolada e divergentemente. Seria essa a síntese do pensamento da época e a sua verdadeira filosofia. Será possível tal síntese? Decidi-lo a priori seria talvez arrojo, conquanto a unidade fundamental da razão e os contínuos esforços que faz para se possuir na sua inteireza e simplicidade constituam uma grave presunção no sentido afirmativo. Por outro lado, havemos de reconhecer que a experiência histórica (e o seu testemunho é sem dúvida de grande peso) está longe de ser favorável a esta suposição, antes parece indicar no espírito humano a incapacidade de se elevar tão alto, de reunir num feixe compacto todas as suas concepções, apresentando-o quase como condenado a um certo fraccionamento, ou, pelo menos, ao vago e à indeterminação nos pontos verdadeiramente capitais. Mas, admitindo ainda que essa síntese por assim dizer cíclica não seja possível, ou, pelo menos, reconhecendo, pois é um facto, que não o tem sido até hoje, nem por isso é menos evidente o fenómeno histórico duma convergência gradual dos sistemas uns para os outros, tendência em que se patenteia a invencível necessidade de unidade que há na inteligência humana, e que, se não logrou ainda realizar-se em parte alguma, tem chegado entretanto a produzir quase por toda a parte uma espécie de penetração recíproca das diversas doutrinas, de aproximação dos diferentes pontos de vista, um eclectismo ou um sincretismo mais ou menos sistemático. O sincretismo aparece pois como o possível sucedâneo daquela síntese irrealizável.”

*Antero de Quental in As tendências Gerais da Filosofia (Séc. XIX)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Nasce Selvagem

Mais do que um país
que a uma família ou geração
mais do que a um passado
que a uma história ou tradiçao

tu pertences a ti
não é de ninguém ...

mais do que a um patrão
que a uma rotina ou profissão
mais do que a um partido
que a uma equipa ou religião

tu pertences a ti
não é de ninguém ...
vive selvagem
e para ti serás alguém nesta viagem ...

quando alguém nasce
nasce selvagem
não é de ninguém

Por mim, isso é utopicamente verdade…

*M. Angelo et F. Cunha

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A Armadilha

"Por que tendes tanto medo de despertar de noite? Porque para vós a força das razões da vida vem da luz do dia. Das ilusões da luz(...)
Fiz rir sempre os meus amigos pelas inúmeras... como as chamáveis? alterações, isso, alterações, dos meus sinais. Mas podíeis rir, porque nunca vos ajudastes a considerar a minha necessidade estranha de me ver a mim próprio no espelho com um aspecto diverso, de iludir-me de não ser sempre aquele um que sou, de ver-me outro!
Mas, claro! Que pude alterar? Cheguei, é verdade, mesmo a rapar a cabeça para me ver calvo antes do tempo; e ora rapei os bigodes, deixando a barba; ou vice-versa; ora cortei bigodes e barba; ou deixei crescer esta duma maneira, ou de outra, em ponta, dividida no queixo, em colar...
Brinquei com os pelos.
Os olhos, o nariz, a boca, as orelhas, o tronco, as pernas, os braços, as mãos, não pude alterá-los coisa nenhuma. Mascarar-me como um ator de teatro? Tive às vezes a tentação. Mas depois pensei que debaixo da máscara o meu corpo continuava sempre aquele... e envelhecia!
Procurei compensar-me com o espírito. Ah, com o espírito pude jogar bem melhor!
Vós considerais acima de tudo e não vos cansais nunca de louvar a constância dos sentimentos e a coerência do caráter. E por quê? Mas sempre pela mesma razão! Porque sois covardes, porque tendes medo de vós mesmos, isto é, de perder – mudando – a realidade que vos destes e de reconhecer, desse modo, que ela não era outra coisa que uma ilusão vossa e portanto que não existe nenhuma realidade, se não a que nós mesmos nos damos.
Mas que quer dizer, pergunto eu, dar-se uma realidade, se não fixar-se num sentimento, prender-se, inteiriçar-se, encrostar-se nele? E por conseguinte, deter em nós o perpétuo movimento vital, fazer de nós outros tantos pequenos e miseráveis pântanos à espera de putrefação, enquanto que a vida é fluxo contínuo, incandescente e indistinto.
Vede, é este pensamento que me revolve e me torna feroz!
A vida é o vento, a vida é o mar, a vida é o fogo e não a terra que enruga e assume forma.
Toda forma é morte.
Tudo o que se retira do estado de fusão e se prende, neste fluxo contínuo, incandescente e indistinto, é a morte.
Nós todos somos seres presos numa armadilha, destacados do fluxo que nunca se detém, e fixados para a morte.”

*Luigi Pirandello in A Armadilha