domingo, 30 de agosto de 2009

A esquerda e a direita tem raízes comuns?

Os comunistas odeiam utopias. Não foi à toa que Engels se insurgiu contra elas. As utopias são do campo da esperança e os comunistas gostam do campo do conhecimento. As utopias são feitas por aquilo que os filósofos modernos, desde Hobbes e Descartes, temem: a imaginação. Contra o Renascimento, os modernos abominaram a imaginação e a substituíram pelo entendimento iluminador que, depois, se transformou em iluminista. Antes conhecer do que imaginar. Antes propor o caminho reto do que criar utopias. Os marxistas se fizeram herdeiros aferrados dessa tradição iluminista, praticamente cientificista.

As utopias, como o próprio nome diz, não estão em lugar algum no campo do existente. Não são pensadas para serem realizadas. As melhores utopias são apenas propostas negativas, de denúncia da sociedade existente. Rousseau com o seu Emílio irritou Durkheim exatamente porque, como o sociólogo dizia, e com razão, era algo irrealizável. Diferente de Durkheim, Marx estava preparado para conviver com as utopias, mas os marxistas nunca as engoliram, pois, como frutos de uma árvore demasiadamente enraizada no século XIX, eles cultuaram o cientificismo, herdeiro do iluminismo estreito. Ao contrário da ciência, o cientificismo odeia a imaginação. Assim, uma boa parte do pensamento de esquerda, ainda hoje, apegado ao cientificismo do século XIX, não tolera quando se lida com a imaginação. Nisso, este tipo de esquerda se aproxima do pensamento da direita.

*Paulo Ghiraldelli Jr.

O que é um filósofo?

O que é um filósofo? Quase todos os mais escolarizados sabem o que é. Todavia, quando a pergunta é dirigida a alguém que estudou filosofia ou que fez o curso de graduação em filosofia ou que é reconhecidamente um filósofo, nem sempre aquele que pergunta obtém uma resposta satisfatória. Não raro, os que estão na empresa da filosofia complicam demais a resposta. Como todo e qualquer campo do saber, quem está nele sabe que detém algum poder – isso nos foi ensinado por Bacon, de um modo, e por Foucault, de outro. Alguns acreditam, então, que se respondem às perguntas que lhe fazem de um modo complicado, podem exercer o poder de maneira ampliada. Afinal, tudo que é misterioso, mesmo no mundo moderno, o mundo que Weber qualificou de desencantado, parece guardar mais poder que aquilo que é exposto claramente.

É claro que, como Aristóteles notou e praticou, pode-se falar de filosofia em diversos níveis e para diversos públicos segundo discursos diferentes. Mas, enfim, isso é desse modo para qualquer assunto. O que não é impossível de fazer é não conseguir explicar, para alguém com alguma escolarização, o que é ser filósofo, e isso de modo claro, objetivo e até mesmo simples. Aliás, quem não expõe de modo claro o que pensa, não pensa bem – não sabe corretamente o que acredita que sabe.

O filósofo ocidental é aquele tipo de intelectual que está inserido na conversação inaugurada pelos pré-socráticos e, enfim, colocada de um modo durável por Platão. Trata-se da conversa que, depois de Aristóteles, chamamos de metafísica. Metafísica e alguma coisa que começamos a saber o que é quando a comparamos com a física.

A física fala do mundo, das coisas materiais. Sua função, ao menos no início das cosmologias, era o de procurar um princípio (um arkhé, em grego), dado por um elemento material (água, terra, ar e fogo – para os gregos antigos), cujo funcionamento e conduta, uma vez mostrados, diria como todo o mundo se faz e se organiza. A meta-física, como o próprio nome já diz, não se prende ao que é físico, vai além da física (ou aquém, dependendo do ponto de vista), e quer encontrar princípios que regem o mundo em algo não material. Está embutida na metafísica a idéia de que há a aparência e há a realidade essencial de tudo, e que, em geral, tomamos a aparência pelo real e, então, vivemos na ilusão. Assim, o irmos para além da física, ao entrarmos na metafísica, podemos desvendar os mecanismos pelos quais cometemos esse erro, o que nos faz cair na ilusão e não enxergar o real. Eis aí o trabalho da filosofia. Eis aí o que faz um filósofo, em um sentido bem amplo: ele é aquele que acredita que há uma ilusão – um especial tipo de ilusão – que dá um trança-pés na maioria das pessoas, os não-filósofos, e que ele, o filósofo, pode contar a tais pessoas como a estrutura do cosmos coloca a perna na frente de todos, armando o trança-pés. Antes que simplesmente expor o que é o real, o filósofo seria aquele capaz de mostrar o mecanismo pelo qual o real não estaria sendo captado pelo chamado senso comum.

É claro que há filósofos que dizem que toda essa conversa de metafísica é bobagem. São essas pessoas, que se dizem antimetafísicos, também filósofos? Na maioria dos casos, sim! Denunciar as ilusões da filosofia ou da metafísica, pela via cética ou pela via de pensamentos deflacionários – ou descritivos, como os de Donald Davidson – não coloca tais pessoas como quem não sabe o que diz a metafísica, mas, antes, como experts da conversação que veio desde os pré-socráticos e Platão – filósofos, então.

Cada filósofo autêntico é um ingênuo e, não raro, um presunçoso. Ele acredita – e tem de acreditar – que pode dar fim à filosofia, pois vai desvendar de uma vez o mecanismo que estaria dando o trança-pés em todos, ou seja, a armação do cosmos ou do mundo que faz com que o chamado senso comum tome o que é a mera aparência pelo real. Ao mesmo tempo, cada filósofo autêntico é um presunçoso, pois ele continua essa investigação mesmo olhando para trás e vendo que os que investigaram antes a questão não eram tolos – eram grandes filósofos.

Assim, em termos gerais, há dois tipos de filósofos: o metafísico e o deflacionário. Um, infla a filosofia com metafísica, o outro tenta fazer uma descrição do mundo racional, mas de um modo descritivo, querendo mostrar que não é necessário usar da dualidade central da metafísica – aparência e realidade – para tecer uma boa descrição do mundo, da nossa atividade no mundo e tudo o mais.

Esses segundos filósofos poderiam ser os cientistas? Não! Por uma razão simples: ainda que esses filósofos possam evocar algum tipo de empirismo ou pragmatismo, ou mesmo algum tipo de ceticismo, eles não fazem investigação a partir de experimentos e experiências, como os cientistas. Quando falam em experiências, estas são imaginárias, não são possíveis de serem efetivamente feitas em laboratório. São filósofos, sim, pois tentam fazer uma exposição geral do mundo a partir de uma descrição racional, ainda que digam que a exposição racional do mundo que estão fornecendo ou que poderiam oferecer tenha dispensado a presença do célebre trança-pés.

Particularmente, como filósofo, eu sou daqueles que ama ler os colegas metafísicos, embora me sinta mais companheiro dos deflacionários. Amo Platão, é certo, mas fui amigo, mesmo, de Rorty.

Ao longo dos anos em que fui me filiando à empresa da filosofia, procurei criar minha própria definição do que seria a filosofia, e do que eu mesmo seria nisso tudo. Cheguei então à formulação atual: o filósofo é um desbanalizador do banal. O filósofo não busca o que está “por trás”, mas é aquele que fica estupefato com o mais banal, o que está sob a visão e observação de todos. Não é que ele esteja vendo mais que outros, ou de modo mais profundo, ele apenas é capaz de redescrever o que vê (ou que escuta ou que lê) de modo que aquilo que ficou banal se desbanaliza e ganha ou recupera fama, prestígio, adquire ou readquire capacidade de não ser mais banal.

É claro que bons escritores, diretores de cinema, artistas de teatro etc. podem desbanalizar o banal. Mas, o banal do qual eu falo é o banal desbanalizado a partir da conversação e da linguagem da filosofia. Encaixa-se perfeitamente na tradição dos assuntos que se colocaram, de uma maneira ou de outra, na agenda da filosofia ocidental ou que poderiam ter sido colocados. Por isso, não raro, a minha redescrição é sempre a partir de uma já boa redescrição. Não à toa a filosofia, como eu a prático, é uma forma de conversação sobre a cultura. Nessa linha, tento manter a articulação entre filosofia teórica e prática, como os filósofos gregos fizeram, negando o que atualmente a maioria dos professores de filosofia da universidade fazem – eles falam de filosofia e, no entanto, não vivem filosoficamente. O que os guia na vida são os interesses mundanos, são levados pela vida e não conseguem eles próprios levar a vida. Não são filósofos, de modo algum.

Uma boa definição de filosofia é aquela que não serve apenas para explicar o que o filósofo que a formulou faz. Ela tem de se encaixar como boa explicação da atividade de todos os outros filósofos do passado. Eles, os filósofos do passado, explicaram suas atividades de outro modo, é claro. No entanto, se voltassem à vida e lessem a minha definição de filosofia, seriam capazes de dizer: “é, isso não foge tanto do que eu mesmo fiz”. Isso deve valer, inclusive, para os não deflacionários. A definição tem de ser específica, para caracterizar o que é o filósofo, e ao mesmo tempo ampla, de modo a trazer para o seu interior até os metafísicos – contra os quais podemos, ora ou outra, nos colocar.

Ora, minha definição obedece a esses critérios? Isso é uma das coisas que tenho posto à prova, a cada dia, a cada iniciativa minha na vida filosófica que levo. Sempre convido o meu leitor ou ouvinte a participar dessa aventura comigo. Pois, filosofia é algo da conversação pública, da investigação coletiva. Nenhum filósofo imaginou filosofar sozinho. O filósofo que pensa fazer isso, não percebeu ainda que não é filósofo.

*Paulo Ghiraldelli Jr.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

1 Ano de Paranóia

Hoje nosso blog completa 1 ANO! Recentemente fui chamado de formador de opinião num e-mail que recebi, fiquei um pouco incomodado com isso pensando que talvez minhas responsabilidades houvessem se multiplicado derepente mas, por outro lado, num país onde pessoas como Luciana Gimenez (entres outros asnos falantes) são formadores de opinião e o programa do Jô é a coisa mais cult que a maioria ousa, não creio que a tarefa seja tão árdua assim. De toda forma fico feliz em saber que chegamos a algum lugar, e muito embora compreenda que essa humilde página nunca será suficiente a sanar com a indigência intelectual de nossos dias, temos a sensação de que mesmo sendo uma minúscula gota, sem nós o oceano seria ainda menor. Um reconhecimento sem termo à Pititi, Lú, Lidy, Karina e Penélope (In Memorian). E a todos aqueles que acreditaram quando tudo era ainda uma quimera, o meu muito obrigado.

Aos nossos incentivadores; amigos e inimigos, a minha afeição ou o meu desprezo!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Oswaldo Giacóia e Nietzsche

Os Seguintes vídeos são fragmentos de uma palestra dada pelo filósofo Oswaldo Giacóia para um especial de televisão. Ele faz suas leituras das idéias de Nietzsche e esplana acerca de conceitos basilares de sua obra, como as diferenças entre niilismos ativo e passivo, homem superior e além do homem e por fim a morte de Deus.



O dois lados

Quem supõe que ...o ser superior, em qualquer coisa como circunstâncias iguais, não é mais feliz que o inferior -confunde as duas idéias muito diferentes de felicidade e contentamento. É indiscutível que um ser cujas capacidades de deleite são baixas tem maior probabilidade de tê-las inteiramente satisfeitas, e que um ser altamente dotado sentirá sempre que qualquer felicidade que pode esperar, tal como o mundo é constituído, é imperfeita. Mas pode aprender a suportar as suas imperfeições, se de todo forem suportáveis, e elas não o farão invejar o ser que na verdade não tem consciência das imperfeições, mas só porque não sente de maneira nenhuma o bem que essas imperfeições qualificam. É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito. E se o idiota ou o porco têm uma opinião diferente é porque só conhecem o seu próprio lado da questão. A outra parte da comparação conhece ambos os lados.
*Jonh Stuart Mill

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

À caça da origem: Fragmento primeiro

E se tudo que te disseram até agora fosse só uma forma mais refinada de te manter escravo? O mundo é um lugar escuro e sozinho, vence nele o menos dependente e o mais agressivo, pensar o contrário é trair a natureza humana. O ideal cristão de caridade e temperança, não é mais que uma derrota auto-consentida do homem e um conjunto de sandices de padres. O vencedor, o ser além, deve estar alheio, deve se deixar indiferente ao mercado de indulgências que se vende a si mesmo. Até hoje tentamos (sociedade) o amor, ou pelo menos a idéia que nos introjetaram dele, e assim fracassamos em tudo. As pessoas são infelizes porque foram pudorizadas pelo inconsciente coletivo e se prostam envergonhadas ante a esfinge social, não conseguem expressar o cinismo e a revolta que teêm para com seu próximo, e a chuva caiu e ninguém se molhou... Todos querem justificar a sua vida miserável com o amor, por que não tentar o ódio? Em vez de amor, desprezo ao próximo, talvez seja essa a última instância de elevação da alma humana. A estrada mais caudalosa e a opção mais resignada. É conturbado, é duro mas, a única forma possível. Lembrai aquele homem livre que primeiro emergiu da caverna¹ ele era o único a conseguir enxergar o mundo em suas cores verdadeiras, ainda assim os ressentidos, os humilhados de si mesmo o abominaram por querer libertar-lhes de sua fustigante auto-piedade.
*Leandro M. de Oliveira
**1 – Ver Platão in a República, alegoria da caverna.

Caballero Solo

Los jóvenes homosexuales y las muchachas amorosas,
y las largas viudas que sufren el delirante insomnio,

y las jóvenes señoras preñadas hace treinta horas,

y los roncos gatos que cruzan mi jardín en tinieblas,

como un collar de palpitantes ostras sexuales

rodean mi residencia solitaria,

como enemigos establecidos contra mi alma,

como conspiradores en traje de dormitorio

que cambiaran largos besos espesos por consigna.

El radiante verano conduce a los enamorados
en uniformes regimientos melancólicos,
hechos de gordas y flacas y alegres y tristes parejas:
bajo los elegantes cocoteros, junto al océano y la luna,
hay una continua vida de pantalones y polleras,
un rumor de medias de seda acariciadas,
y senos femeninos que brillan como ojos.

El pequeño empleado, después de mucho,
después del tedio semanal, y las novelas leídas de noche en cama,
ha definitivamente seducido a su vecina,
y la lleva a los miserables cinematógrafos
donde los héroes son potros o príncipes apasionados,
y acaricia sus piernas llenas de dulce vello
con sus ardientes y húmedas manos que huelen a cigarrillo.

Los atardeceres del seductor y las noches de los esposos
se unen como dos sábanas sepultándome,
y las horas después del almuerzo en que los jóvenes estudiantes
y las jóvenes estudiantes, y los sacerdotes se masturban,
y los animales fornican directamente,
y las abejas huelen a sangre, y las moscas zumban coléricas,
y los primos juegan extrañamente con sus primas,
y los médicos miran con furia al marido de la joven paciente,
y las horas de la mañana en que el profesor, como por descuido,
cumple con su deber conyugal y desayuna,
y más aún, los adúlteros, que se aman con verdadero amor
sobre los lechos altos y largos como embarcaciones:
seguramente, eternamente me rodea
este gran bosque respiratorio y enredado
con grandes flores como bocas y dentaduras
y negras raíces en forma de uñas y zapatos.

*Pablo Neruda

sábado, 22 de agosto de 2009

Literatura Portuguesa: Cantigas de Amor (considerações)

Quer'eu em maneira de proençal
fazer agora un cantar d'amor,
e querrei muit'i loar mia senhor
a que prez nen fremusura non fal,
nen bondade; e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de ben
que mais que todas las do mundo val.


Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
quando a faz, que a fez sabedor
de todo ben e de mui gran valor,
e con todo est'é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bon sen,
e des i non lhi fez pouco de ben,
quando non quis que lh'outra foss'igual.


Ca en mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad'e loor
e falar mui ben, e riir melhor
que outra molher; des i é leal
muit', e por esto non sei oj'eu quen
possa compridamente no seu ben
falar, ca non á, tra-lo seu ben, al.

*El-Rei D. Dinis

1. Sabido é como todos os que se têm ocupado da nossa antiga poesia desdenham mais ou menos das cantigas-d'amor porque as consideram a parte mais convencional, menos portuguesa, do lirismo trovadoresco. A graça e a frescura da cantiga-d'amigo são culpadas nisso. E é assim que D. Carolina Michaëlis, no prefácio do Glossário do Cancioneiro da Ajuda, pôde dizer, em 1922, esta coisa lamentável: que guardara inédito esse Glossário durante dezoito anos, devido à indiferença com que o texto fora acolhido! Essa opinião, estribada principalmente num vicioso conceito estético, que não mede as distâncias, e na incompreensão das delicadezas do texto, é falsa, como quase tudo o que considera apenas a superfície. Não que as cantigas-d'amor constituam uma série de obras-primas, como o não é de resto a cansó provencal, cujo modelo seguem de longe. Mas há nelas alto nível poético. Quanto ao convencionalismo, já dissemos que é isso um elemento indispensável, obrigado em toda a escola. Clássica, romântica, realista, simbolista, todas têm as suas normas, o seu sistema de formas, o seu convencionalismo, enfim, pela razão bem simples de que todas têm os seus programas; e para a execução dum programa é necessário um método. (...) E um dos primeiros problemas a tratar, entrevisto lucidamente por D. Carolina Michaëlis, em 1897, é o de averiguar as razões que levaram os nossos trovadores àquela "propositada indiferença pela riqueza e variedade do pensamento, e tendência predilecta para a repetição e monotonia"; pois não é de acreditar que os nossos trovadores fossem menos dotados que os de outros países, depois do que dissemos acerca do banho lustral da cultura francesa, que a quase todas directa ou indirectamente atingiu. De resto, já em 1894 Lang acentuava que o paralelismo se não podia explicar por falta de individualidade ou de diligência artística, e que possivelmente a sua origem se reduziria a uma questão de forma (Das Liederbuch des Königs Denis von Portugal, XLVII). O carácter repetitivo do nosso lirismo explica-se por razões de ordem psicológica e artística. Em primeiro lugar, a nossa poesia amorosa é mais do coração que a poesia provençal. Nesta, como vimos, a inteligência e a imaginação suprem muitas vezes a falta de emoção. Por Isso, a poesia se alonga, num recreio dos sentidos, através de seis e sete estrofes e mais ainda. O trovador compraz-se no jogo da sua fantasia, sente-se a divisória entre o artista e o homem. A nossa cantiga-d'amor dá-nos uma impressão diferente e de maior verdade psicológica. (...) A emoção não se pulveriza em cintilações de forma artística; sempre uno, o turbilhão emocional permanece até ao fim substancialmente o mesmo, com uma ou outra modificação levíssima de forma. Isto dá à cantiga-d'amor um cunho de obsessão de monotonia pungente, que resultaria fastidiosa se fosse desenrolada em mais de três ou quatro estrofes. Talvez por isso mesmo os trovadores limitassem a este número a repartição estrófica das cantigas. Para exprimir esta devoradora monotonia do nosso sentimentalismo os trovadores tinham já na cantiga tradicional dois elementos que habilmente utilizaram o paralelismo e o refrão, que se completam um ao outro. Se o paralelismo exige que, pelo menos no início, as estrofes se assemelhem, o refrão que é muitas vezes um verdadeiro mote e a alma da cantiga, determina necessariamente um mesmo teor para os versos que o precedem. Por outras palavras: devendo todos os versos da estrofe confluir no refrão, e sendo este, naturalmente, o mesmo ara cada estrofe, é Inevitável a repetição da ideia, com ligeiras variantes da forma. O amor, entre nós, é uma súplica apaixonantemente triste. E não há nada que exprima tão bem esse carácter de prece do que a tautologia, a repetição necessária do apelo para alcançar um dom, que não chega mais. Por isso o nosso lirismo é por vezes um documentário precioso de poesia pura tudo se exala num suspiro, numa queixa, numa efusão exclamativa.

Rodrigues Lapa,
Lições de Literatura Portuguesa, Época Medieval

2.
Não há dúvida de que as cantigas de amor devem a forma e os temas à arte provençal, mas também se torna evidente que a imitação é imperfeita. Têm construção menos laboriosa, menos subtileza de pensamento e menos técnica na retórica. Cotejar as cantigas de amor com as canções amorosas de Rernart de Ventadour, de Guiraut de Borneil ou de Guiraut Riquier é notar sensivelmente diferenças quase tão impressionantes como as semelhanças. As poesias galego-portuguesas dão impressão de monotonia com a repetição dum número limitado de conceitos simples, expressos em número comparativamente pequeno de versos-tipo. Poder-se-ia tentar explicar este fenómeno, quer por relativo atraso da cultura peninsular, quer por se supor que os poetas da Península imitaram modelos arcaicos franco-provençais. Quanto à suposição, não é fácil acreditar que escritor tão importante como Afonso X não pudesse acompanhar o progresso da técnica provençal, especialmente quando consideramos os elogios que lhe fizeram alguns trovadores que o visitaram. Afonso II e Pedro II de Aragão, Afonso VIII e Afonso X de Castela sobressaíram como os mais ardentes patronos da Gaia Ciência, competindo com os poetas pelas vantagens da sua situação elevada e de igual cultura, e pela possibilidade de trocarem versos com os seus visitantes, segundo todas as subtilezas das convenções provençais. Pelo que diz respeito à técnica, menos desenvolvida do que a arte perfeita das poesias líricas dos trovadores anualmente existentes, onde é que a encontramos? Para além da técnica que empregaram, temos apenas um pequeno punhado de velhas chansons à refrain francesas, que são até bastante diferentes da maneira das cantigas de amor. Se, pois, não podemos atribuir a simplicidade das canções corteses galego-portuguesas à ignorância ou à inexperiência dos poetas nem à imitação de alguma técnica mais antiga, hoje desaparecida, vemo-nos forçados a concluir que a divergência dos dois estilos é deliberada. A poderosa atracção de qualquer outro ideal sentiu-se até quando o novo ideal era exaltado. Os poetas corteses aceitam em princípio as leis da Gaia Ciência, mas põem-nas em execução parcial e intermitentemente, porque não querem sacrificar certos outros recursos e prazeres poéticos. Apresentando as coisas como elas são a maneira estrangeira, embora revestida de todo o seu possível prestígio, tinha de conquistar terreno já ocupado pela poesia nativa, só triunfando após haver leito concessões. As cantigas de amor são, em consequência, poesias de inspiração provençal, profundamente modificadas pelas cantigas de amigo. Por outro lado, as cantigas de amigo, tal como se nos apresentam nos antigos Cancioneiros, estão parcial ou profundamente provençalizadas. A maior parte delas, pelos temas e pelo estilo, não se distinguem das cantigas de amor, excepto pelo acidente a que se atribuem, embora cossantes, tal como agora os lemos, são obras de poetas corteses e usam algumas das convenções provençais. Não há poeta de inspiração mais popular do que João Zorro, autor das inimitáveis barcarolas e bailadas; mas as barcarolas de Zorro referem-se a expedições reais, sendo a dama a que alude uma senhor, dona d'algo ou dona virgo, e o seu amado membro do séquito do rei. A sua bailada «Bailemos agora, por Deus, ai velidas» usa um modelo de estrofes também conhecido de Guilhem IX. Martim Códax, o esquisito cantor das ondas de Vigo, é amigo dum rei (del-rei amigo). Martim de Ginzo dirige-se à sua dama à maneira cortesã chamando-lhe a do mui bon parecer, e emprega o termo semitécnico de lezer no mesmo sentido que Peire d'Alvernhe. Pêro Meogo canta primorosamante os cervos do monte, mas fá-lo apenas como incidente duma caçada real. Não quero dar mais exemplos dum facto bem conhecido citando os compositores de encantadores cossantes que desempenharam altos cargos na Corte, tais como o almirante Pai Gomes Charinho ou o rei D. Dinis. Basta concluir que, sob as mais elementares condições poéticas recolhidas nos Cancioneiros, os estilos indígena e estrangeiro se encontram em luta e se fazem mutuamente concessões.

Aubrey Bell et alii, Da Poesia Medieval Portuguesa, 1985

3.
As cantigas de amor são poesias ao sabor provençal, em que quem fala é o apaixonado, que consagra à sua dona um amor platónico, sem esperança. Não se trata. por isso, de um amor adúltero. O poeta confia o seu destino ao bom senso da senhora perante a qual se apresenta numa atitude submissa. Queixa-se da sua sorte por ela não acreditar nele, afirma que sofre por vê-la e por não vê-la, considera-a a mais formosa de quantas mulheres existem, promete servi-la e honrá-la como o mais humilde servo, louva-a por ser a mais ajuizada de todas, diviniza-a como mensageira e protectora,... São, entretanto, cantigas artificiais em que o poeta raras vezes sente o amor que diz ter. Trata-se pois, geralmente, dum amor fingido «que é mais produto da inteligência e da imaginação do que propriamente da sensibilidade».

Alexandre Costa, Questões sobre a História da Literatura Portuguesa, Edições Asa, 1985.
*Espero que suas dúvidas tenham sido sanadas. Att, Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Darcy Ribeiro

Era uma vez um homem que teve um sonho, ele sonhou que o Brasil poderá ser um dia aquilo que poderia ter sido desde sempre...
Ao saudoso mestre as nossas reverências.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

É preciso disputar

Algumas pessoas imaginam que a filosofia tem algo a ver com os manuais de boas maneiras da Danuza Leão (jornalista brasileira). Mas não tem. O filósofo polido demais e incapaz de se irritar deveria desconfiar desse seu comportamento, talvez não seja um bom filósofo. Esse é um aviso que vem desde Heráclito, de gênio forte e, como sabemos, filósofo de mão cheia. Por outro lado, desde Sócrates, filósofos incapazes de irritar alguém, de provocar mesmo, corajosamente, nunca foram glorificados como autênticos filósofos. Os filósofos vivem intensamente as suas doutrinas.
As disputas em filosofia são necessárias – e a veemência e o ardor da disputa fazem parte do fato de que as discussões filosóficas não são “meramente sobre idéias”. São de fato e principalmente sobre idéias e discursos que os filósofos possuem como todas as outras pessoas. Quem diz, “eu ataco idéias e não pessoas”, ou está a mentir e é hipócrita, ou não entendeu nada de filosofia. As idéias da filosofia são todas pessoais, pois direta ou indiretamente podem mudar a vida de cada um de nós. Os filósofos são os que sabem disso de modo apropriado, e por isso se exacerbam na defesa e ataque do que podemos contar e argumentar. Wittgenstein chegou a dizer que um filósofo que nunca entrou numa disputa dura pelas suas idéias seria como um boxeur que nunca subiu ao ringue.
Ora, por falar em ringue, foi exatamente para este lugar que Karl Popper e Wittgenstein quase se deslocaram na primeira e única vez que se encontraram, e por poucos minutos. Popper sempre foi um polemista ardente e adorava uma contenda. E, se confiarmos nas observações de Bertrand Russel sobre Wittgenstein, que dizia “vou ver se Deus chegou” ao avisar a esposa que iria buscar seu jovem amigo à estação, o quase-pugilismo (ou esgrima – por conta do “poker”) é perfeitamente compreensível. Isso não os fez menos inteligentes, nem menos razoáveis. Ambos sabiam bem – como também Russell sabia – que filósofos ocidentais são, antes de tudo, ocidentais, não são monges.
Bem, é certo que Nietzsche até achava que todos os filósofos eram da mesma linhagem de Buda e Cristo, mais (dissimuladamente) mansos do que deveriam ser. Mas, o fato é que entre o folclore que restou do encontro, uma das versões diz que a mansidão só imperou porque o anfitrião Bertrand Russell interveio, e assim Wittgenstein e Popper não chegaram a ficar feridos.
As versões sobre o evento são contestadas, sendo que as fãs de ambos os contendores ainda hoje se mobilizam para puxar a brasa para as suas sardinhas. Além disso, essa é uma disputa esquisita, pois ao contrário do que ocorre no desporto, neste caso até surgiram fãs do árbitro. Há os que viram Bertrand Russell no papel de herói do momento que, com sua autoridade, rugiu na sala em favor de Popper, o visitante. Tudo teria ocorrido a partir de um determinado momento da palestra de Popper. Popper estava ali para falar sobre “Os problemas da filosofia”, e estava a enumerá-los. Wittgenstein interveio e de maneira rápida tentou desqualificar todos os problemas, insistindo que eram pseudo-problemas. Wittgenstein gesticulava com uma bengala na mão, que costumava usar, e Popper aproveitou a chance: “Not to threaten visiting lecturers with pokers.” Ainda na versão de Popper, Wittgenstein deitou a bengala ao chão e saiu batendo a porta com força.
Wittgenstein de fato usava tal bengala e, não raro, quando se entusiasmava, gesticulava agressivamente, mas sem intenção de ir adiante, é claro. É certo que a maneira como Popper contou o caso colocou-o em boa posição; era como se tivesse tido presença de espírito e, ao colocar jocosamente Wittgenstein em situação de agressor, desmontou-o. Era a única coisa a fazer, diante da maneira seca de Wittgenstein atuar. Dado que Wittgenstein o desqualificava de modo rápido, sem grandes argumentos, o melhor seria livrar-se dele com um tipo de piada, de brincadeira. Usando um tom grave, Popper teria atraído a atenção de Russell que, conhecendo bem Wittgenstein – e também Popper – preferiu intervir o mais cedo possível.
Os adeptos de Danuza Leão podem ler tudo isso hoje e achar que os filósofos são “mal-educados”. Os medíocres podem achar que os filósofos são como que crianças – seres egocêntricos, imaturos. Os medíocres falam de “disputas de egos” para avaliar o encontro de filósofos, mas não possuem a menor idéia de como um ego filosófico funciona, pois não entendem o material de manuseio do filósofo.
Ambos os filósofos sabiam que o que defendiam era importante – importantíssimo. E de fato ali ocorreu um confronto entre as duas principais maneiras de se compreender a filosofia no mundo contemporâneo. Popper sempre acreditou que podia distinguir ciência de não-ciência de uma maneira filosófica tão rigorosa quanto aos critérios que exigia para que uma teoria fosse ciência. Por sua vez, Wittgenstein acreditava – contra o seu passado – que a filosofia não tinha esse poder, uma vez que seu papel, ao menos até então, havia sido o de criar problemas por causa da sua vocação para a desterritorialização da linguagem (…)

*Paulo Ghiraldelli Jr.