quarta-feira, 8 de julho de 2009

O Sal da vida

Escuta que quero te falar em segredo
Escuta bem, quero falar baixo,
Porque o sussurro é tão mais belo que o grito
E a palavra dita com cuidado mais esmerada.
Ouve e guarda como um selo o que te digo.
Guarda em teu lembrar somente,
Porque o que direi não mudará nada,
Sequer a mim.
Escuta meu silêncio de planície,
Minhas mãos desertas, meu sonho perdido...
Nunca se muda aquilo que não se permitiu mudar.
Escravo caí de joelhos ante a rocha silenciosa
O oráculo hediondo se me afigurou,
E eu me vi moço e eu me vi desesperado.
Tempo tem seu próprio tempo,
E o tempo do tempo foi veloz demais
Para nosso passo vacilante.

Escuta as rugas de minha alma
Elas são vales e rios, montanhas e planícies.
Quero teu amor suicida!
Amor que se mata e torna a viver
E torna a sofrer e a morrer d’enganos.
Porque sob minhas asas
Não houve acomodação à tua dor,
E agora em meus olhos não há espaço
Senão para o teu vulto sorrateiro.
*********
Ignora minhas palavras, o verbo confunde.
Eu falo do não foi vivido ou do que tenha sido há tanto,
Que não foi possível nenhuma sinapse de lembrança.
Aguarda no silêncio das colinas sombrias,
No oco das cavernas que somos nós.
Quero escavar a terra com os dentes,
Tragar o mar com minha boca e estômago,
Quero estuprar o útero da terra
Pra que eu a veja renascer dele.
Minha memória é uma nau perdida
A navegar oceanos de tempo e espaço.

Minhas velas desfraldadas
Buscam a esmo teu norte,
Minha boca de pasmo e exaustão
Já não sabe dizer o teu nome.
*********
Agora que tudo se perdeu em nós
O mundo soa remoto,
O ar soa espesso.
Se eu fosse um cão
Talvez teria mais afeições com a vida.
Mas sou homem
E dessa deficiência estou fadado.
Minha eterna amiga,
Meu corpo sem vida,
Minha vida sem termo.
Embora o mundo seja desfigurado
Ante ao espelho, comigo sempre estás...

Escuta minhas palavras que não querem eco
Além do silêncio de tua ausência.
Escuta como a canção mais elevada
Como a dor de homem que homem não quer ser,
Como um beijo de fúria em teu peito
Resoluto.
Que essas palavras não valem nada,
Que essas palavras valem tudo.
Elas são o sal da língua
A semente da vida nova.

*Leandro M. de Oliveira
**Dedicado à minha grande amiga, dizem que partiu no dia 27 do último mês. Mas eu não entendo. Como pode estar ausente, se está dentro de mim? Não sei se posso crer na morte quando ainda existe tanta vida. Minha princesa atordoada, a você os meus carinhos e as minhas alegrias perdidas. Te encontro breve, te encontro sempre...

terça-feira, 7 de julho de 2009

O crer e o conhecer

"A Fé é diferente do conhecimento. Giordano Bruno acreditava e Galileu sabia. Exteriormente estavam ambos na mesma situação. O tribunal da Inquisição exigia, sob pena de morte, tanto a um como a outro que se retratassem. Giordano Bruno estava pronto a retratar certas proposições, mas não as que julgava essenciais; teve a morte dos mártires. Galileu retratou a doutrina do movimento da terra à volta do Sol, mas conta-se a sua exclamação significativa: "E no entanto ela move-se". É precisamente aí que reside a diferença: há uma verdade que sofre por ser retratada e há outra que nenhuma retratação consegue abalar. Os dois acusados agiram de acordo com o que consideravam ser a sua verdade. O que é para mim vital só existe quando me identifico com ele.É histórico quanto à sua aparição, não tem valor universal quanto à sua expressão objetiva, mas é absoluto.
A verdade que posso demonstrar subsiste sem mim: é universalmente válida, não histórica, independente do tempo, mas não é absoluta, visto que se subordina a hipóteses, aos métodos de conhecimento na relatividade do finito. Seria desproporcionado querer morrer por ela. Mas em compensação, para o pensador que acredita ter alcançado o fundo das coisas e não pode mais retratar as suas declarações sem atentar contra a própria verdade, o debate trava-se no segredo da sua consciência."

*Karl Jaspers, in "La foi philosophique"

O que é real?

Uma vez admitidos dois fatos: que o devir não tem fim e que não é dirigido por qualquer grande unidade na qual o indivíduo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta só uma escapatória possível: condenar todo esse mundo do devir como ilusório e inventar um mundo situado no além, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo não é senão construído sobre as suas próprias necessidades psicológicas e que ele não é de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a última forma do niilismo, que implica a negação do mundo metafísico e que a si mesma se proíbe de crer num mundo verdadeiro. Alcançado este estado, reconhecemos que a realidade do devir é a única realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam à crença em outros mundos e em falsos deuses - mas não suportamos este mundo que não temos já a vontade de negar.
(...) Que se passou portanto? Chegamos ao sentimento do não valor da existência quando compreendemos que ela não pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade. Não chegamos a nada, não logramos coisa nenhuma dessa espécie; a unidade global não aparece na pluralidade do devir: o caráter da existência não é o de ser verdadeira, mas o de ser falsa (...) não há razão alguma para nos persuadirmos de que existe um mundo verdadeiro. (...) Em suma, as categorias de fim, de unidade, de ser, graças às quais demos um valor ao mundo, retiramo-lhas e o mundo parece ter perdido todo o valor.

*F. Nietzsche, de “A Vontade de Poder”.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Beleza, impulso e refúgio (Parte 1)

Desde sempre a humanidade é tiranizada pela busca da beleza, cada qual em sua leitura tem buscado entendê-la de maneira própria. A teoria dominante na antiguidade clássica provinha de Platão que propôs a beleza como um objeto com função dupla, ao mesmo tempo em que encerrava e convergia para si o afã do desejo era também um ponto de partida, pois a contemplação do belo era o que abria as portas para o transcendental. No medievo Tomás de Aquino, com uma leitura bem coerente à visão pudico-teológica da época produz um conceito de beleza ligado à idéia de uma dádiva de Deus manifesta em atributo do ser, assim era a beleza uma espécie elo teológico entre criador e criatura, fazendo o primeiro das últimas sua imagem e semelhança.
Decerto é a beleza bem mais que apenas uma tese continuadamente reformulada de acordo com o animus social de cada tempo, ela é deveras, uma espécie de inconsciente coletivo que habita o arcabouço do desejo humano, muitas vezes sendo a peça que delimita o seu direcionamento. Então o que se pretende em verdade com esse breve comentário, não é listar dados históricos de um conceito dominante de beleza, mas sim lançar uma pergunta, sendo essa a pergunta fundamental. Que lugar deve ela, a beleza, ocupar em nossas vidas?

Grandes teóricos tem debatido a questão visando formular um conceito estético-funcional adequado ao nosso tempo, porém, embora hajam muitas especulações, pouco se conclui a respeito. Particularmente quero crer na tese da beleza como um gatilho de acionamento do desejo, sendo ela uma espécie de combustível para a ação humana. Nesse sentido, seria lícito dizer que a vida converter-se-ia em algo que talvez não valesse tanto a pena viver, não fosse a beleza e o interesse (estímulo para a ação) que ela desperta. Não entenda o belo como algo meramente subjetivo, porém e mais acertadamente em forma de algum sentimento essencialmente abstrato, como o Platão ensinava na grande Atenas de outrora.

Esse mestre do mediterrâneo propunha um ponto de contemplação para a beleza, mas não encerrava na ação de culto visual àquela forma bela o único estágio da contemplação. Com efeito, era aquele ser idolatrado nada mais que um ponto de partida ou um gatilho de acionamento para a busca do aperfeiçoamento pessoal. Nesse foco poder-se-ia justificar o zelo do mestre para com seu pupilo e vise-versa na pederastia ateniense por exemplo. Há também passagens na literatura universal das quais gosto muito que refletem o sentimento de zelo dado ao ser que se presta culto, como em “A Morte em Veneza” de Thomas Mann onde o autor apresenta um determinismo obstinado sofrido por Gustav Aschenbach quando descobre a peste que prolifera em Veneza e quer a todo custo resguardar Tadzio, seu ser idolatrado, do contágio da mesma.

Todavia, trazendo o foco para formas mais cotidianas a nós, pode-se citar o caráter de busca da beleza como um exercício de elevação pessoal na situação muito comum onde por exemplo, um homem se apaixona pela imagem de uma mulher e para chegar até ela tenta se melhorar como um todo, idealizando algo de mais elevado naquele ser e buscando evoluir em pontos difusos para se equiparar a ele. O homem então passa a praticar exercícios para melhorar seu físico, a ler poemas ou algo de literatura para fecundar idéias mais sensíveis em seu subconsciente, etc. Com isso vem a segunda fase (insuspeitada) que é onde tudo fica mais abstrato, aquele homem antes sedentário toma gosto pela atividade física e torna-se com isso mais saudável, o antes extremamente racional e frio aprende a ser menos calculista e a ver a beleza dispersa pelo mundo, num por do sol, numa flor ou no rosto puro de uma criança, aprende o sentido de sensibilidade no conceito lato de ser-humano. Se o intento inicial de conquistar a mulher é ora conseguido ou não, no bojo da conjuntura isso tem papel de sorte incidental, a coisa em si é, com efeito, o grau de sublimação que aquele momento de frenesi causou.

Não há como negar, o impacto da beleza é sentido por todos, lembro de quando li meu primeiro livro por volta dos nove anos mais ou menos, era o “Livro de Sonetos” do Vinícius de Moraes, as palavras, a textura, o cheiro do papel, a densidade do ar naquela pequena biblioteca do colégio... É tudo tão presente em minha memória, como se tivesse sido ontem. Aquela experiência me impactou de uma forma que quando dei por mim era já um compulsivo por poesia, daquele momento até muitos anos depois. A descoberta de Vinícius, Pessoa, Bandeira, Quintana, Cecília e assim por diante, tenho certeza me protegeram de muitas coisas tão menos ou nada edificantes a que qualquer adolescente desses tempos está exposto. O milagre da força do belo se fez em mim. Não cabiam estereótipos, meias intenções ou qualquer outra tentativa de caricaturização intelectual. Naqueles anos eu não buscava a leitura como forma de justificar alguma superioridade ou de obtenção poder por força dela, a beleza contida nas palavras era a meu ver auto-suficiente. Como tenho sentido falta daqueles anos...


*Leandro M. de Oliveira
**Esse comentário breve não encerra a nossa discussão acerca da beleza, em breve postarei novas considerações para se somarem a essas.

domingo, 28 de junho de 2009

Artistas estetas e filósofos estetas

Dado que qualquer resposta à pergunta "O que é a arte?" tem de ser dividida em duas fases, há duas maneiras de correr mal. Pode resolver o problema do uso satisfatoriamente, mas errar no problema da definição; ou pode lidar competentemente com o problema da definição mas falhar no problema do uso. Estes dois tipos de deficiência podem ser respectivamente descritos do seguinte modo: saber do que estamos a falar, mas dizer coisas destituídas de sentido; e dizer coisas com sentido, mas não saber do que estamos a falar. O primeiro tipo dá-nos um tratamento bem informado e relevante, mas desordenado e confuso; o segundo, um tratamento arrumado e metódico, mas irrelevante.
As pessoas que têm interesse em filosofia da arte subsumem-se aproximadamente em duas classes: artistas com uma inclinação para a filosofia e filósofos com um gosto pela arte. O artista esteta sabe do que está a falar. Consegue discriminar coisas que são arte de coisas que são pseudo-arte, e consegue dizer o que são estas outras coisas: o que as impede de serem arte e o que engana as pessoas fazendo-as pensar que são arte. Isto é a crítica de arte, que não é a mesma coisa que filosofia da arte, mas apenas com a primeira das duas fases que a constituem. É uma atividade perfeitamente válida e valiosa em si; mas as pessoas que são boas nessa atividade não conseguem necessariamente de modo algum chegar à segunda fase e oferecer uma definição de arte. Tudo o que conseguem fazer é reconhecê-la. Isto acontece porque se contentam com uma idéia demasiado vaga das relações que a arte mantém com as coisas que não são arte: não tenho em mente os vários tipos de pseudo-arte, mas coisas como ciência, filosofia, e assim por diante. Contentam-se em conceber estas relações como meras diferenças. Para formular uma definição de arte é necessário pensar em que consistem essas diferenças exatamente.
Os filósofos estetas têm formação para fazer bem exatamente o que os artistas estetas fazem mal. Estão admiravelmente protegidos contra a conversa destituída de sentido: mas não há garantia de que saibam do que estão a falar. Daí que a sua teorização, por mais competente que seja em si, facilmente sofra de fraquezas na sua fundamentação factual. A tentação que sentem é iludir esta dificuldade dizendo: "Não pretendo ser um crítico; não estou à altura de ajuizar os méritos do Sr. Joyce, do Sr. Eliot, da Menina Sitwell, ou da Menina Stein; de modo que me limito a Shakespeare e Miguel Ângelo e Beethoven. Há muito a dizer sobre a arte com base apenas nos clássicos reconhecidos." Isto seria aceitável para um crítico; mas para um filósofo não. O uso é particular, mas a teoria é universal, e a verdade que se tem em vista é index sui et falsi. O esteta que declara saber o que faz de Shakespeare um poeta está tacitamente a declarar que sabe se a Menina Stein é ou não uma poetisa, e, se não o é, por que não. O filósofo esteta que se restringe a artistas clássicos garante certamente que localizará a essência da arte não no que faz deles artistas, mas no que os faz deles clássicos, isto é, aceitável aos olhos do espírito acadêmico.
A estética dos filósofos, não dispondo de um critério material a favor da verdade das teorias na sua relação com os fatos, não pode senão aplicar um critério formal. Pode detectar defeitos lógicos numa teoria e conseqüentemente rejeitá-la por ser falsa; mas nunca pode aclamar ou proclamar qualquer teoria como verdadeira. É completamente inconstrutiva; tamquam virgo Deo consecrata, nihil parit. Contudo, a virtude fugitiva e enclausurada da estética acadêmica não é totalmente destituída de aplicação, ainda que meramente negativa. A sua dialética é uma escola na qual o artista esteta ou o crítico podem aprender as lições que lhe mostrarão como passar da crítica de arte à teoria estética.

*R. G. Collingwood
**Tradução de Desidério Murcho

sábado, 27 de junho de 2009

Vide cor meum

E pensando di lei
Mi sopragiunse uno soave sonno

Ego dominus tuus
Vide cor tuum
E d'esto core ardendo
Cor tuum

Lei paventosa umilmente pascea
Appresso gir lo ne vedea piangendo

La letizia si convertia
In amarissimo pianto

Io sono in pace
Cor meum
Io sono in pace
Vide cor meum.
* Aria de Patrick Cassidy sobre texto de Dante Alighieri.

O Sono

Le Sommeil, 1866
Gustave Courbet

Óleo sobre tela; (135 x 200).

Petit Palais, Musée des Beaux-Arts de la Ville de Paris - França.

"Sem comentários a essa obra que pra mim é um dos pontos máximos da escola realista Francesa, apenas sublime..."

Link Externo:

http://www.paris.fr/portail/Culture/Portal.lut?page_id=6229&document_type_id=4&document_id=13956&portlet_id=14052&multileveldocument_sheet_id=1353

sexta-feira, 26 de junho de 2009

As duas condições de uma teoria estética

(...) "O que é a arte?"

Uma pergunta deste tipo tem de ser respondida em duas fases. Em primeiro lugar, temos de garantir que a palavra crucial (neste caso "arte") é tal que sabemos aplicá-la onde deve ser aplicada e recusá-la onde deve ser recusada. Não serviria de muito começar por discutir a definição correta de um termo geral cujos casos não pudéssemos reconhecer quando os víssemos. A nossa primeira tarefa é, então, colocarmo-nos numa posição em que possamos dizer confiantemente "isto e isto e isto são arte; aquilo e aquilo e aquilo não são arte."
Dificilmente valeria a pena insistir nisto não fossem dois fatos: que a palavra "arte" é de uso comum, e que é usada equivocadamente. Se não fosse uma palavra de uso comum, poderíamos decidir por nós quando aplicá-la e quando recusá-la. Mas o problema de que nos ocupamos não é tal que se possa abordar desse modo. É um daqueles problemas em que o que queremos fazer é clarificar e sistematizar idéias que já temos; consequentemente, não vale a pena usar palavras de acordo com uma regra privada que seja nossa, temos de as usar de um modo que se adéqüe ao uso comum. Uma vez mais, isto seria fácil não fosse o fato de o uso comum ser ambíguo. A palavra "arte" quer dizer várias coisas diferentes; e temos de decidir qual destes usos nos interessa. Além disso, os outros usos não podem ser simplesmente eliminados por serem irrelevantes. São muito importantes para a nossa investigação; em parte porque se geram teorias falsas por incapacidade para os distinguir, de modo que ao elucidar um uso temos de dar uma certa atenção a outros; em parte porque confundir os vários sentidos da palavra pode resultar em má prática tal como em má teoria. Temos conseqüentemente de passar em revista os sentidos inapropriados da palavra "arte" de um modo cuidadoso e sistemático; de maneira que no fim possamos não apenas dizer "aquilo e aquilo e aquilo não são arte", mas "aquilo não é arte por exemplo é pseudo-arte do tipo A; aquilo, porque é pseudo-arte do tipo B; e aquilo, porque é pseudo-arte do tipo C".
Em segundo lugar, temos de definir o termo "arte". Isto vem em segundo lugar, e não em primeiro, porque ninguém pode sequer tentar definir um termo até ter estabelecido na sua própria mente um dado uso do termo: ninguém pode definir um termo de uso comum até se sentir satisfeito de que o seu uso pessoal está em harmonia com o uso comum. Definir significa necessariamente definir uma coisa em termos de outra; logo, para definir qualquer coisa, temos de ter não apenas uma idéia clara do que há a definir, mas também uma idéia igualmente clara de todas as outras coisas com referência às quais o definimos. As pessoas erram muitas vezes nisto. Pensam que para construir uma definição ou (o que é o mesmo) uma "teoria" de algo, é suficiente ter uma idéia clara dessa coisa. Isso é absurdo. Ter uma idéia clara da coisa permite-lhes reconhecê-la quando a vêem, tal como ter uma idéia clara de uma certa casa lhes permite reconhecê-la quando lá estão; mas definir a coisa é como explicar onde fica a casa ou indicar a sua posição no mapa; é necessário conhecer igualmente as suas relações com as outras coisas, e se as nossas idéias sobre essas outras coisas são vagas, a nossa definição será fútil.

*R. G. Collingwood
**
Tradução Desidério Murcho

As nações tem desígnios próprios?

O respeito pelas pessoas como agentes morais autônomos exige que lhes concedamos o direito de escolher uma posição moral para si próprias, por mais repulsiva que possamos achar a sua escolha. Segundo a filosofia do liberalismo político, exige-se também que insistamos que o governo não comece por ocupar as escolhas morais individuais estabelecendo uma religião de estado ou uma moralidade de estado. Mas a oposição intransigente a todas as formas de autoritarismo político e moral não deve comprometer-nos com o relativismo moral ou com o cepticismo moral. A razão pela qual é errado o governo ditar uma moralidade ao cidadão individual não é que existam dúvidas acerca de quais são as formas de vida satisfatórias e quais são as formas de vida não satisfatórias, ou de algum modo moralmente erradas. (Se não houvesse tal coisa como o moralmente errado, então não seria errado o governo impor escolhas morais.) O fato de algumas pessoas recearem, ao admitirem abertamente algum tipo de objetividade moral, encontrar algum governo a impor-lhes a sua noção de objetividade é, sem dúvida, uma das razões pelas quais tanta gente subscreve um subjetivismo moral ao qual não dá um assentimento real.
*Hilary Putnam

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Felicidade: A morte e o absurdo (Simbolismo e Valor)

Os filósofos antigos tiveram muito a dizer sobre a felicidade. Supunham que "a melhor vida" e "a vida feliz" eram a mesma coisa, e geralmente aceitavam que a felicidade consistia numa vida de razão e virtude. Epicuro (341-270 a. C.) recomendou uma vida simples, de modo a evitar-se sofrimentos e ansiedades. Os estóicos acrescentaram que um homem sábio não permitiria que a sua felicidade dependesse de coisas que estivessem fora do seu controlo, como a riqueza, a saúde, a boa aparência ou as opiniões dos outros. Não podemos controlar as circunstâncias externas, disseram, pelo que devemos ser indiferentes as essas coisas, aceitando-as como aparecem. Epicteto (c. 55-135), um dos grandes professores estóicos, deu este conselho aos seus estudantes: "Não peçam que as coisas ocorram segundo a vossa vontade; façam que a vossa vontade seja que as coisas ocorram como ocorrem de fato, e terão paz".
Algumas destas idéias podem parecer questionáveis, mas uma parte notável delas tem sido confirmada pela investigação psicológica moderna. Consideremos, por exemplo, a idéia de que a riqueza não traz felicidade. Dado que a maior parte das pessoas quer ser rica, poderíamos pensar que há alguma correlação entre a riqueza e a felicidade. Mas não há. Quando Ronald Inglehardt, cientista político da Universidade de Michigan, comparou os níveis de riqueza de países diferentes com aquilo que as pessoas desses países dizem sobre a sua satisfação com a sua vida, descobriu que as pessoas dos países mais ricos não são mais felizes do que as dos países mais pobres. Por vezes acontece o oposto: os alemães ocidentais têm o dobro da riqueza dos irlandeses, mas os irlandeses são mais felizes. Dentro de países particulares, encontrou a mesma ausência de correlação: as pessoas que têm mais dinheiro não são mais felizes do que as outras. Portanto, ser rico não importa. As pessoas afetadas pela pobreza tendem a ser menos felizes do que aqueles que possuem o suficiente para viver, mas, para quem está acima da linha de pobreza, o dinheiro adicional faz pouca diferença. O psicólogo David Myers observa que "Quando se ultrapassa a pobreza, o crescimento econômico suplementar não melhora significativamente o ânimo dos seres humanos".
Os estudos sobre vencedores de lotarias confirmam isto de forma notável. Como é óbvio, os vencedores de loterias ficam extremamente felizes quando sabem das boas notícias e a euforia tende a durar alguns dias. Mas, passado pouco tempo, regressam ao seu nível normal de felicidade. No essencial, as pessoas amuadas voltar a ficar amuadas. Podem ser capazes de deixar o emprego e de comprar muitas coisas, mas, no que respeita ao seu nível de felicidade, a riqueza recentemente adquirida não faz diferença.
Surpreendentemente, pode-se dizer algo semelhante das pessoas que sofrem desastres. Para as pessoas que são essencialmente felizes, uma calamidade — mesmo que tenha efeitos a longo prazo — pode causar uma descida momentânea de felicidade, mas elas recuperaram depressa. Um estudo incidiu em vítimas de acidentes de automóvel de Michigan que tinham sofrido danos na coluna. Três semanas depois, a felicidade prevalecia novamente entre elas (ou pelo menos foi isso que disseram). Um estudo da Universidade de Illinois descobriu que os estudantes sem deficiências e os estudantes deficientes se descreviam em termos virtualmente idênticos: felizes durante 49 por cento do tempo, infelizes durante 22 por cento do tempo e neutros em 29 por centro do tempo. Os estudos sobre pacientes com cancro também não mostraram diferenças de longo prazo entre os seus estados emocionais anteriores e posteriores ao diagnóstico.
Então o que tornará as pessoas felizes? Se não é a riqueza ou a saúde, o que será? Os estudos indicam que a felicidade está correlacionada com várias coisas. Uma delas é o controlo pessoal — ter controlo sobre a própria vida e destino, ou pelo menos acreditar que se tem esse controlo. (Curiosamente, as pessoas que vivem em países democráticos com imprensa livre declaram-se mais felizes do que aquelas que vivem noutros países. Entenda isto como quiser.) Ter boas relações com outras pessoas, especialmente com os amigos e familiares, também é vital. Um trabalho compensador é um terceiro elemento de uma vida feliz: as pessoas que sentem estar a fazer algo com valor declaram-se mais felizes do que as pessoas que não se ocupam de tarefas com sentido.
Num certo sentido, a felicidade sustenta-se a si própria, já que as pessoas felizes tendem a comportar-se de formas que as mantêm felizes. Têm melhor opinião das outras pessoas e são menos cínicas. Por isso, fazem amizades com mais facilidade. As pessoas felizes são mais otimistas: quando se lhes coloca questões específicas sobre como estão a correr as coisas, têm uma maior tendência para pensar que os seus automóveis e televisões estão a funcionar bem. Têm também uma maior tendência para preferir recompensas de longo prazo a satisfações imediatas, e ganham com isso, já que essa geralmente é uma boa estratégia.
Podemos pensar então que, para sermos felizes, precisamos controlar a nossa vida, fazer amigos e procurar trabalho que tenha sentido. Isto pode ser verdade, mas há um problema. Paradoxalmente, se valorizarmos estas coisas apenas enquanto meio para a felicidade, elas não nos farão felizes. Não podemos procurar a felicidade diretamente. Em vez disso, temos de valorizar os amigos e o trabalho por si. A felicidade será então um efeito colateral bem-vindo. John Stuart Mill declarou ter aprendido esta lição com a sua depressão. Depois de ter recuperado, Mill compreendeu o seguinte:
Só são felizes (pensei) aqueles que fixam a sua mente num objeto que não a sua própria felicidade, como a felicidade dos outros, o aperfeiçoamento da humanidade ou mesmo alguma arte ou atividade, procurando-o não como meio, mas como fim ideal em si. Tendo outra coisa em vista, encontram a felicidade pelo caminho. […] Pergunte a si próprio se é feliz e deixará de o ser. A única hipótese é tratar, não a felicidade, mas outro fim que lhe seja exterior, como propósito da vida.

Morte

A idéia de que, num sentido mais amplo, mesmo uma vida feliz é absurda costuma ser apoiada por duas idéias. Uma delas é que vamos morrer inevitavelmente; a outra é que o universo nos é indiferente. Examinemos separadamente estas idéias.

Que atitude deveremos ter em relação à nossa mortalidade? Obviamente, isso depende do que julgamos que acontece quando morremos. Algumas pessoas acreditam que irão viver para sempre no paraíso. A morte, portanto, é como mudar para uma casa melhor. Se acreditamos nisto, devemos pensar que a morte é boa, pois ficaremos melhor depois de morrermos. Aparentemente, Sócrates tinha esta atitude, mas a maior parte das pessoas não a tem.
A morte pode ser, pelo contrário, o fim permanente da nossa existência. Se assim for, a nossa consciência extinguir-se-á e será o nosso fim. É importante compreender o que isto significa. Algumas pessoas parecem presumir que a inexistência é uma condição misteriosa, difícil de imaginar. Perguntam "Como será estar morto?" e ficam perplexas. Mas isto é um erro. A razão pela qual não conseguimos imaginar como é estar morto é o fato de estar morto ser como nada. Não conseguimos imaginar porque nada há para imaginar.
Se a morte é o fim da nossa existência, que atitude devemos ter relativamente a isso? A maior parte das pessoas pensa que a morte é uma perspectiva terrível. Odiamos a idéia de morrer e estamos dispostos a fazer quase tudo para prolongar a nossa vida. Porém, Epicuro disse que não devemos recear a morte. Numa carta a um dos seus seguidores, defendeu que "A morte nada é para nós", já que quando estivermos mortos não existiremos e, não existindo, nada de mal poderá acontecer-nos. Não estaremos infelizes, não sofreremos (não sentiremos medo, preocupações ou aborrecimentos) e não teremos desejos nem remorsos. Logo, concluiu Epicuro, a pessoa sábia não receará a morte. Epicuro acreditava que, ao eliminar o medo da morte, estas reflexões filosóficas podiam contribuir positivamente para a nossa felicidade durante a vida.
Há alguma verdade nisto. Ainda assim, esta perspectiva ignora a possibilidade de a morte ser má por constituir uma privação enorme — se a nossa vida pudesse continuar, poderíamos desfrutar de todos os gêneros de coisas boas. Deste modo, a morte é um mal porque põe fim às coisas boas da vida. Isto parece-me correto. Depois de eu morrer, a história humana prosseguirá, mas não conseguirei fazer parte dela. Não verei mais filmes, não lerei mais livros e não farei mais amigos nem mais viagens. Se eu morrer antes da minha mulher, não conseguirei estar com ela. Não irei conhecer os meus bisnetos. Surgirão novas invenções e far-se-ão novas descobertas sobre a natureza do universo, mas nunca irei conhecê-las. Será composta nova música, mas não irei ouvi-la. Talvez venhamos a estabelecer contacto com seres inteligentes de outros mundos, mas não saberei disso. É por esta razão que não quero morrer e que o argumento de Epicuro é irrelevante.
Mas será que o fato de ir morrer torna a minha vida absurda? Afinal, diz-se, o que interessa trabalhar, fazer amigos e constituir uma família se acabaremos por deixar de existir? Esta idéia tem uma certa ressonância emocional, mas envolve um erro fundamental. Temos de distinguir o valor de uma coisa da sua duração. Estas são questões diferentes. Uma coisa pode ser boa enquanto dura, mesmo que não vá durar para sempre. Enquanto controlaram o Afeganistão, os talibã destruíram diversos monumentos antigos. Isso foi uma tragédia porque esses monumentos eram maravilhosos, e o fato de serem vulneráveis não os tornava menos valiosos. Também uma vida humana pode ser maravilhosa, mesmo que tenha de terminar inevitavelmente. Pelo menos, o simples fato de que vai terminar não anula o valor que tenha.

*James Rachels