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Os filósofos antigos tiveram muito a dizer sobre a felicidade. Supunham que "a melhor vida" e "a vida feliz" eram a mesma coisa, e geralmente aceitavam que a felicidade consistia numa vida de razão e virtude. Epicuro (341-270 a. C.) recomendou uma vida simples, de modo a evitar-se sofrimentos e ansiedades. Os estóicos acrescentaram que um homem sábio não permitiria que a sua felicidade dependesse de coisas que estivessem fora do seu controlo, como a riqueza, a saúde, a boa aparência ou as opiniões dos outros. Não podemos controlar as circunstâncias externas, disseram, pelo que devemos ser indiferentes as essas coisas, aceitando-as como aparecem. Epicteto (c. 55-135), um dos grandes professores estóicos, deu este conselho aos seus estudantes: "Não peçam que as coisas ocorram segundo a vossa vontade; façam que a vossa vontade seja que as coisas ocorram como ocorrem de fato, e terão paz".
Algumas destas idéias podem parecer questionáveis, mas uma parte notável delas tem sido confirmada pela investigação psicológica moderna. Consideremos, por exemplo, a idéia de que a riqueza não traz felicidade. Dado que a maior parte das pessoas quer ser rica, poderíamos pensar que há alguma correlação entre a riqueza e a felicidade. Mas não há. Quando Ronald Inglehardt, cientista político da Universidade de Michigan, comparou os níveis de riqueza de países diferentes com aquilo que as pessoas desses países dizem sobre a sua satisfação com a sua vida, descobriu que as pessoas dos países mais ricos não são mais felizes do que as dos países mais pobres. Por vezes acontece o oposto: os alemães ocidentais têm o dobro da riqueza dos irlandeses, mas os irlandeses são mais felizes. Dentro de países particulares, encontrou a mesma ausência de correlação: as pessoas que têm mais dinheiro não são mais felizes do que as outras. Portanto, ser rico não importa. As pessoas afetadas pela pobreza tendem a ser menos felizes do que aqueles que possuem o suficiente para viver, mas, para quem está acima da linha de pobreza, o dinheiro adicional faz pouca diferença. O psicólogo David Myers observa que "Quando se ultrapassa a pobreza, o crescimento econômico suplementar não melhora significativamente o ânimo dos seres humanos".
Os estudos sobre vencedores de lotarias confirmam isto de forma notável. Como é óbvio, os vencedores de loterias ficam extremamente felizes quando sabem das boas notícias e a euforia tende a durar alguns dias. Mas, passado pouco tempo, regressam ao seu nível normal de felicidade. No essencial, as pessoas amuadas voltar a ficar amuadas. Podem ser capazes de deixar o emprego e de comprar muitas coisas, mas, no que respeita ao seu nível de felicidade, a riqueza recentemente adquirida não faz diferença.
Surpreendentemente, pode-se dizer algo semelhante das pessoas que sofrem desastres. Para as pessoas que são essencialmente felizes, uma calamidade — mesmo que tenha efeitos a longo prazo — pode causar uma descida momentânea de felicidade, mas elas recuperaram depressa. Um estudo incidiu em vítimas de acidentes de automóvel de Michigan que tinham sofrido danos na coluna. Três semanas depois, a felicidade prevalecia novamente entre elas (ou pelo menos foi isso que disseram). Um estudo da Universidade de Illinois descobriu que os estudantes sem deficiências e os estudantes deficientes se descreviam em termos virtualmente idênticos: felizes durante 49 por cento do tempo, infelizes durante 22 por cento do tempo e neutros em 29 por centro do tempo. Os estudos sobre pacientes com cancro também não mostraram diferenças de longo prazo entre os seus estados emocionais anteriores e posteriores ao diagnóstico.
Então o que tornará as pessoas felizes? Se não é a riqueza ou a saúde, o que será? Os estudos indicam que a felicidade está correlacionada com várias coisas. Uma delas é o controlo pessoal — ter controlo sobre a própria vida e destino, ou pelo menos acreditar que se tem esse controlo. (Curiosamente, as pessoas que vivem em países democráticos com imprensa livre declaram-se mais felizes do que aquelas que vivem noutros países. Entenda isto como quiser.) Ter boas relações com outras pessoas, especialmente com os amigos e familiares, também é vital. Um trabalho compensador é um terceiro elemento de uma vida feliz: as pessoas que sentem estar a fazer algo com valor declaram-se mais felizes do que as pessoas que não se ocupam de tarefas com sentido.
Num certo sentido, a felicidade sustenta-se a si própria, já que as pessoas felizes tendem a comportar-se de formas que as mantêm felizes. Têm melhor opinião das outras pessoas e são menos cínicas. Por isso, fazem amizades com mais facilidade. As pessoas felizes são mais otimistas: quando se lhes coloca questões específicas sobre como estão a correr as coisas, têm uma maior tendência para pensar que os seus automóveis e televisões estão a funcionar bem. Têm também uma maior tendência para preferir recompensas de longo prazo a satisfações imediatas, e ganham com isso, já que essa geralmente é uma boa estratégia.
Podemos pensar então que, para sermos felizes, precisamos controlar a nossa vida, fazer amigos e procurar trabalho que tenha sentido. Isto pode ser verdade, mas há um problema. Paradoxalmente, se valorizarmos estas coisas apenas enquanto meio para a felicidade, elas não nos farão felizes. Não podemos procurar a felicidade diretamente. Em vez disso, temos de valorizar os amigos e o trabalho por si. A felicidade será então um efeito colateral bem-vindo. John Stuart Mill declarou ter aprendido esta lição com a sua depressão. Depois de ter recuperado, Mill compreendeu o seguinte:
Só são felizes (pensei) aqueles que fixam a sua mente num objeto que não a sua própria felicidade, como a felicidade dos outros, o aperfeiçoamento da humanidade ou mesmo alguma arte ou atividade, procurando-o não como meio, mas como fim ideal em si. Tendo outra coisa em vista, encontram a felicidade pelo caminho. […] Pergunte a si próprio se é feliz e deixará de o ser. A única hipótese é tratar, não a felicidade, mas outro fim que lhe seja exterior, como propósito da vida.
Morte
A idéia de que, num sentido mais amplo, mesmo uma vida feliz é absurda costuma ser apoiada por duas idéias. Uma delas é que vamos morrer inevitavelmente; a outra é que o universo nos é indiferente. Examinemos separadamente estas idéias.
Que atitude deveremos ter em relação à nossa mortalidade? Obviamente, isso depende do que julgamos que acontece quando morremos. Algumas pessoas acreditam que irão viver para sempre no paraíso. A morte, portanto, é como mudar para uma casa melhor. Se acreditamos nisto, devemos pensar que a morte é boa, pois ficaremos melhor depois de morrermos. Aparentemente, Sócrates tinha esta atitude, mas a maior parte das pessoas não a tem.
A morte pode ser, pelo contrário, o fim permanente da nossa existência. Se assim for, a nossa consciência extinguir-se-á e será o nosso fim. É importante compreender o que isto significa. Algumas pessoas parecem presumir que a inexistência é uma condição misteriosa, difícil de imaginar. Perguntam "Como será estar morto?" e ficam perplexas. Mas isto é um erro. A razão pela qual não conseguimos imaginar como é estar morto é o fato de estar morto ser como nada. Não conseguimos imaginar porque nada há para imaginar.
Se a morte é o fim da nossa existência, que atitude devemos ter relativamente a isso? A maior parte das pessoas pensa que a morte é uma perspectiva terrível. Odiamos a idéia de morrer e estamos dispostos a fazer quase tudo para prolongar a nossa vida. Porém, Epicuro disse que não devemos recear a morte. Numa carta a um dos seus seguidores, defendeu que "A morte nada é para nós", já que quando estivermos mortos não existiremos e, não existindo, nada de mal poderá acontecer-nos. Não estaremos infelizes, não sofreremos (não sentiremos medo, preocupações ou aborrecimentos) e não teremos desejos nem remorsos. Logo, concluiu Epicuro, a pessoa sábia não receará a morte. Epicuro acreditava que, ao eliminar o medo da morte, estas reflexões filosóficas podiam contribuir positivamente para a nossa felicidade durante a vida.
Há alguma verdade nisto. Ainda assim, esta perspectiva ignora a possibilidade de a morte ser má por constituir uma privação enorme — se a nossa vida pudesse continuar, poderíamos desfrutar de todos os gêneros de coisas boas. Deste modo, a morte é um mal porque põe fim às coisas boas da vida. Isto parece-me correto. Depois de eu morrer, a história humana prosseguirá, mas não conseguirei fazer parte dela. Não verei mais filmes, não lerei mais livros e não farei mais amigos nem mais viagens. Se eu morrer antes da minha mulher, não conseguirei estar com ela. Não irei conhecer os meus bisnetos. Surgirão novas invenções e far-se-ão novas descobertas sobre a natureza do universo, mas nunca irei conhecê-las. Será composta nova música, mas não irei ouvi-la. Talvez venhamos a estabelecer contacto com seres inteligentes de outros mundos, mas não saberei disso. É por esta razão que não quero morrer e que o argumento de Epicuro é irrelevante.
Mas será que o fato de ir morrer torna a minha vida absurda? Afinal, diz-se, o que interessa trabalhar, fazer amigos e constituir uma família se acabaremos por deixar de existir? Esta idéia tem uma certa ressonância emocional, mas envolve um erro fundamental. Temos de distinguir o valor de uma coisa da sua duração. Estas são questões diferentes. Uma coisa pode ser boa enquanto dura, mesmo que não vá durar para sempre. Enquanto controlaram o Afeganistão, os talibã destruíram diversos monumentos antigos. Isso foi uma tragédia porque esses monumentos eram maravilhosos, e o fato de serem vulneráveis não os tornava menos valiosos. Também uma vida humana pode ser maravilhosa, mesmo que tenha de terminar inevitavelmente. Pelo menos, o simples fato de que vai terminar não anula o valor que tenha.
*James Rachels
Atendendo a pedidos venho postar esse pequeno texto do português Alexei Buruian, ele trata talvez da maior dicussão médico-ética de nosso ponto, a clonagem humana. Esclareço que não expressa a minha convicção integral sobre o assunto, todavia, julguei consistente o bastante para início de uma discussão mais larga a qual pretendo iniciar com novos posts. Espero que gostem. Abraços a todos.
Att,
Leandro M. de Oliveira
"Será a clonagem humana moralmente aceitável?
Há duas possíveis aplicações para a clonagem humana: a clonagem terapêutica, que não vou abordar neste ensaio, e a clonagem reprodutiva. Este tipo de clonagem visa a criação de indivíduos geneticamente iguais a um organismo já existente, através do processo de transferência nuclear. Este processo consiste em introduzir um núcleo dador num ovócito anucleado, implantar a nova célula obtida num útero e esperar pelo desenvolvimento do feto.
Importa chegar a um consenso acerca da moralidade da clonagem. Enquanto não o fizermos, poderemos estar injustificadamente a privar as pessoas de gozarem de um novo meio de reprodução.
Irei defender que, dado o deficiente estado de aperfeiçoamento da técnica da clonagem, não é moralmente aceitável recorrer à clonagem reprodutiva humana.
São diversos os argumentos contra a clonagem: o argumento das relações familiares, o argumento da identidade, o do apelo à natureza e outros. Contudo, não são estes argumentos que influenciaram a minha opinião acerca deste assunto. Objeções fortes, como as de que a família tradicional não é o único modelo aceitável de relações familiares; a objeção de que a identidade de uma pessoa não depende apenas do seu DNA; e a objeção de que o apelo à natureza se baseia numa definição imprecisa daquilo que a natureza é, de que modo a clonagem se lhe opõe e por que é errado fazer coisas antinaturais, levaram-me a não ter em consideração estes argumentos.
Mas há outras razões talvez mais fortes contra a clonagem. Em primeiro lugar, há o perigo de eugenia, ou seja, a seleção de indivíduos com genes mais favoráveis ao desenvolvimento da nossa raça. As pessoas poderiam recorrer à clonagem para tentar ultrapassar a sua longevidade, através da perpetuação do seu ADN; criar grupos de pessoas geneticamente iguais, para desempenharem uma determinada função (por exemplo, clonar pessoas altas, para que estas constituíssem uma equipe homogênea de basquetebol) ou até clonar celebridades para que os filhos (os clones) herdassem o talento deles. Em todos estes casos, haveria também uma forte expectativa para que o clone sirva o objetivo para o qual foi criado. Desta maneira o clone seria instrumentalizado, seria usado como um meio e não como um fim em si, o que constituiria um atentado à sua dignidade.
No entanto, estes argumentos talvez sejam exagerados, já que não há uma ligação necessária entre a clonagem e a eugenia e pode-se alegar que não é pelo fato de o clone ter sido criado com um objetivo que este perderá a sua dignidade (muitos pais também têm objetivos pessoais para os seus filhos e isso não leva a que estes percam a sua dignidade como seres humanos). O clone seria uma pessoa autônoma, pois teria sempre o direito de fazer as suas próprias escolhas na vida, como um ser humano comum.
O argumento mais forte contra a clonagem acaba por ser o de que a própria taxa de sucesso da clonagem é muito baixa. O nascimento da ovelha Dolly, por exemplo, foi o resultado de 276 clonagens fracassadas, e há indícios de que os clones criados com a tecnologia atual poderão nascer defeituosos e ter uma esperança de vida bastante inferior a media. Afinal Dolly morreu com apenas 6 anos de idade, quando o normal seria cerca de 12 anos. Na minha opinião, estes elevados custos humanos são inaceitáveis.
Contudo, como qualquer outra tecnologia, também a clonagem pode evoluir e há sempre a possibilidade de esta chegar a ter um sucesso semelhante ao da reprodução tradicional e, neste caso, o argumento seria anulado.
Os principais argumentos a favor da clonagem, invocam o valor prático que esta poderá ter. A clonagem permitiria aos casais inférteis ou homossexuais a possibilidade de obterem filhos geneticamente relacionados com pelo menos um dos progenitores. Aliás, um direito que muitos seres humanos reclamam é o da sua autonomia reprodutiva, pelo que proibir a clonagem com fins reprodutivos iria também pôr em causa esse direito. Além disso, a clonagem reprodutiva também poderia ajudar na investigação científica e filosófica relacionada com o ser humano. Por exemplo, poderia melhorar a nossa compreensão das doenças genéticas e ajudaria a responder a perguntas como «De onde provém o talento de uma pessoa? Será algo com que a pessoa já nasce ou será algo adquirido durante a sua vida?».
Contudo, acho que o argumento da baixa taxa de sucesso da clonagem é suficientemente forte para que, pelo menos, se limite esse direito. Afinal, nascer uma criança em quase 300 tentativas, com a possibilidade de ter graves doenças congênitas, só por si já constitui um grande obstáculo, tanto à obtenção de um filho como à pesquisa científica.
Concluindo, atualmente a clonagem ainda não está suficientemente bem desenvolvida para que seja aplicada aos seres humanos, pelo que estou contra. Contudo, terei de rever a minha posição caso algum dia a clonagem prove ser um método tecnicamente fiável."
*Alexei Buruian
Existe uma gama de espíritos inferiores, os ressentidos e mal situados no fluxo da vida. Esses tentam a toda custa justificar o ato de existir com indulgências mentirosas e palavras construídas sob a égide da hipocrisia. Relutam incessantemente a tomar nas mãos o que a vida lhes deu de forma gratuita,e pagam o mais alto preço para que renunciem ao bem que lhes persegue em favor de alguém que julgam mais necessitados. Esses homens de sal, essas pessoas sem cor fazem isso não por caridade em seu sentido lato, mas antes para autoglorificarem-se a si mesmos. Absortos que estão, não percebem que o tempo é veloz e que a vida não exita em tirar num dia aquilo que deu em outro. Preferem as penas aos horizontes, as lágrimas ao riso, isso não é apenas irracional, é uma blasfêmia contra a vida. Julgar que a esquiva do mundo por si só é uma forma de melhora, de elevação. E esses ditos puros nos olham do alto de suas torres de papel, imaginam em suas cabeças “Como sofrem essas pobres formiguinhas, tenho pena delas...” Homens puros eu vos abomino! Um homem desses poder-se-ia dizer um novo Prometeu, mas isso seria insidioso, esses grandes de outrora nunca aspiraram a própria grandeza, compará-los como desejam é dar vazão à mãe de todas as insídias. Todavia, a segunda espécie de homens a dos Homens livres, em nada se coaduna com esse ideal de autoflagelo voluntário. O Homem livre ama a vida, a sua busca última é a realização plena. Ele é uma aspiração da vida por si mesma. Enquanto o ressentido diz, “você foi stigmatizado pelo pecado, arrependa-se!” O Homem livre diz, “a ti foi entregue o dom supremo, a medida de compaixão da vida que lhe permite recomeçar sempre, não importando tua falta consigo mesmo, celebre!”
A diferença básica entre esses dois tipos de seres reside sobretudo no radical de cada um, isto é, na raiz da crença de vida em cada um. O ressentido, aquele que teceu o próprio açoite, persegue o pecado original, luta incessantemente para dar testemunho de seu arrependimento por algo que nem ele e nem mesmo um antepassado distante cometeu. Aceita a hipótese em que pela privação de todos os prazeres, torna-se muito superior, gosta de fantasiar em seu ego que a incapacidade que possui de apreciar a vida e sua pena por si mesmo podem levá-lo a um a um estado de sublimação ímpar. Todavia, o homem livre, aquele algo além que deve ser a busca última da humanidade não é apenas conflitante com esse indivíduo mas, com efeito, diametralmente oposto. Ele crê num conceito revolucionário, uma forma de ver que desafia toda a religião, toda a ordem social e qualquer outra sorte de apologia ao se sentir escravo criada para justificar a condição humana. O homem livre crê na pureza original, no viver a partir do coração, não importando o quanto esdrúxulo isso pareça. Ele descarta as palavras “feio”, “proibido”, “impossível”. Abomina a tradição do nosso tempo, essa culpa incriada, que foi nossa muleta ao sentirmos tanta pena de nós mesmos. Ele diz: “Lance fora essas escoras, deixe de andar como aleijo!”
*Leandro M. de Oliveira
Às vezes chamar "bom" a alguém não quer dizer nada de bom: a tal ponto que costuma dizer-se coisas como esta - "O Fulano coitado, é muito bom." O poeta espanhol António Machado estava consciente desta ambiguidade e na sua autobiografia poética escreveu: " Sou bom no bom sentido da palavra..." Sabia que, com frequência, o fato de se chamar a um indivíduo "bom" se refere apenas à sua docilidade, à sua tendência para não contrariar os outros e para não causar problemas, para ser ele sempre a virar os discos enquanto os outros dançam, e assim por diante.
Para alguns ser bom significará ser resignado e paciente, mas outros chamarão boa à pessoa empreendedora, original, que não se encolhe quando chega a hora de dizer o que pensa ainda que isso possa ferir alguém. Em países como a África do Sul, por exemplo, alguns considerarão bom o negro que não causa problemas e se conforma com o apartheid, ao passo que outros só chamarão bons aos apaniguados de Nelson Mandela. E sabes por que é que não é simples dizer quando é que um ser humano é "bom" e quando é que não o é? Porque não sabemos para que servem os seres humanos. Um futebolista serve para jogar futebol de uma maneira que ajude a sua equipe a ganhar fazendo gols no adversário; uma moto serve para nos deslocarmos com velocidade, estabilidade, resistência... Sabemos quando é que um especialista nalguma coisa ou instrumento funcionam como devem ser porque temos uma idéia do serviço que eles devem prestar, uma idéia do que se espera deles. Mas, se considerarmos o ser humano em geral, a coisa complica-se: dos seres humanos exige-se umas vezes resignação e outras vezes rebeldia, umas vezes iniciativa e outras obediência, umas vezes generosidade e outras vezes previsão do futuro, etc. Não é fácil determinar sequer uma qualquer virtude: o fato de um futebolista um gol no time contrário sem cometer falta é sempre uma coisa boa, mas dizer a verdade poderá não o ser. Chamarias "bom" ao que por crueldade diz ao moribundo que vai morrer ou ao que denuncia ao assassino o lugar onde se esconde a vítima que ele pretende matar?
*Savater in Ética para um jovem
Saudações,
Quero agradecer a vocês amigos e fiéis leitores que possibilitaram a indicação dessa singela página ao "Top Blog 2009". A sua constância nos acessos e na atenção que teêm comigo é o que inspira e move meu esforço, fazendo com que seja mais esmerado a cada dia para oferecer uma ferramenta que possa não possibilitar todas as respostas, mas quando pouco, formular algumas boas questões. Pois como diria um grande mestre da antiga Athenas, "uma vida não questionada é uma vida que não se vale a pena viver". Essa é a mensagem básica que tento expor aqui por meio de textos, reflexões, poemas e gravuras. Aos que acreditam nessa idéia, muito obrigado por estarem aqui. Esse sentido de identidade comum entre nós é o que me tem feito sonhar mais alto e tem-me possibilitado esses flertes com coisas maiores dantes não imaginadas. De coração agradeço a todos irrestritamente, mesmo àqueles que em algum momento vieram com o intuito de me desacreditar, vocês me lembraram de coisas importantes... Por fim, aos amigos e novos visitantes, peço que deixem seu voto clicando na figura branca que aparece no canto superior direito da página.
A todos, saudações soturnas,
Mais uma vez obrigado, muito obrigado...
Ps: Um agradecimento especial a Lú, Pititi e ao Kurt, em meio à incerteza desses tempos a força da crença de vocês faz tudo parecer possível. Aos três, os meus carinhos e as minhas elevadas formas de amar...
Att,
Leandro M. de Oliveira
Ora se o fundamental da Filosofia é, de fato, a crítica, e se a Filosofia deve ser estudada, não pelo mérito das respostas precisas sobre um certo número de questões primárias, mas pelo valor que em si mesma ela assume, para a cultura do espírito, a mera discussão de tais problemas, segue-se que é ideia inteiramente absurda a de se dar a alguém uma iniciação filosófica pela pura transmissão das respostas precisas com que pretendeu resolver esses tais problemas um determinado autor ou uma certa escola. Deverá pois a iniciação filosófica assumir um caráter essencialmente crítico, e consistir num debate dos problemas básicos que não seja dominado pelo intuito dogmático de cerrar as portas a discussões ulteriores. (...) Repito: seja a Filosofia para o aprendiz de filósofo, não uma pilha de conclusões adotadas, e sim uma atividade de elucidação dos problemas. É esta atividade o que realmente importa, e não o aceitar e propagandear conclusões. (...) Pode ser muito útil para a vida prática o simples enunciado de uns tantos teoremas de matemática: porém, não há nisso sombra de valor cultural: só possui de fato valor cultural o perfeito entendimento dos raciocínios que nos dão as provas dos enunciados.
Por isso mesmo, ao lermos um filósofo de genuíno mérito, de dois erros opostos nos cumprirá guardar-nos: o primeiro de nos mantermos aí eternamente passivos e de tudo aceitarmos como se fossem dogmas, de que depois tentaremos convencer o próximo; o segundo, o de criticarmos demasiado cedo, antes de chegarmos à compreensão do texto. Para evitar o escolho do segundo erro, a atitude inicial do aprendiz de filósofo deverá ser receptiva e de todo humilde. Se achar uma ideia no texto de um Mestre que lhe pareça de fácil refutação, conclua que ele próprio é que não percebe, e que o pensar do autor deverá ser mais fino, mais meandroso, mais facetado, mais verrumante, do que ao primeiro relance se lhe afigurou: e que se lhe impõe, portanto uma atenção maior...
*António Sérgio in Os problemas da Filosofia,de Bertrand Russell (Prefácio)
Tipos de Conhecimento
No quotidiano (…) falamos acerca do “conhecimento” de coisas. Dizemos também que certas crenças estão “fortemente apoiadas por provas”; que elas estão “justificadas” ou “bem confirmadas”.(…)
A epistemologia tenta avaliar a idéia do senso comum de que possuímos (frequentemente, senão sempre) realmente conhecimento e que as crenças que temos estão (frequentemente, senão sempre) racionalmente justificadas. Alguns filósofos tentaram defender com argumentação filosófica estas idéias do senso comum. Outros desenvolveram uma posição filosófica que nega estas idéias do senso comum. Um filósofo que sustenta que não temos conhecimento, ou que as nossas crenças não têm justificação racional, está a defender uma versão de cepticismo filosófico. (…)
Três tipos de conhecimento
Antes de perguntarmos a nós mesmos se conhecemos alguma coisa, temos de tornar claro o que é o conhecimento. Para focar idéias, quero distinguir três diferentes sentidos em que podemos falar de conhecimento. (…)
Considere-se a diferença entre as declarações seguintes, relativas a um sujeito, a quem chamarei S (o sujeito):
(1) S sabe andar de bicicleta.
(2) S conhece o Presidente dos Estados Unidos.
(3) S sabe que as Montanhas Rochosas ficam na América do Norte.
Chamo conhecimento proposicional ao tipo de conhecimento apresentado em (3). Note-se que o objeto do verbo em (3) é uma proposição — uma coisa que é verdadeira ou falsa. Existe uma proposição — as Montanhas Rochosas ficam na América do Norte — e (3) afirma que S sabe que essa proposição é verdadeira. As frases (1) e (2) não têm esta estrutura. O objeto do verbo em (2) não é uma proposição, mas uma pessoa. O mesmo tipo de conhecimento estaria envolvido se eu dissesse que S conhece Chicago. A afirmação (2) diz que S está ou esteve na presença de uma pessoa, de um lugar ou de uma coisa. Por isso, direi que (2) descreve uma instância de conhecimento por contacto.(…)
Consideremos agora o tipo de conhecimento descrito na afirmação (1). Chamar-lhe-ei conhecimento de saber fazer. Que significa dizer que sabemos fazer qualquer coisa? Penso que esta idéia tem pouco a ver com o conhecimento proposicional. O meu filho Aaron sabia andar de bicicleta aos cinco anos. Isso significa que ele tinha certas aptidões – sabia como manter o equilíbrio, como pedalar, e por aí fora. Se perguntar a um físico para descrever o que Aaron fazia para poder andar na bicicleta, ele poderia pôr por escrito um conjunto de proposições. Estabeleceria fato acerca da gravidade, do movimento para frente, do equilíbrio de forças. Porém, Aaron, com a idade de cinco anos, não era um físico. Não conhecia as proposições que o físico especifica. Aaron obedece aos princípios que o físico descreve – o seu comportamento está em conformidade com o que aqueles dizem. Mas não o faz aprendendo as proposições em questão. Aaron possui um conhecimento de saber-fazer, mas pouco conhecimento do tipo proposicional. Conversamente, um físico que tem um conhecimento detalhado dos princípios físicos que descrevem como se deve andar de bicicleta pode, não obstante, não saber como andar de bicicleta. (…) Não necessitamos de conhecimento proposicional para saber executar uma tarefa, nem ele é suficiente para tal.
Dois Requisitos para o Conhecimento: Crença e Verdade
Devemos fazer notar desde já duas idéias que fazem parte do conceito de conhecimento. Primeiro, se S sabe que p, então tem de acreditar que p. Segundo, se S sabe que p, então p tem de ser verdadeira. O conhecimento requer tanto a crença quanto a verdade. (…)
A segunda idéia requer alguma explicação. As pessoas dizem às vezes que sabem coisas que mais tarde se revelam falsas. Ora, isto não quer dizer que sabem coisas que são falsas, mas que pensavam que sabiam coisas que, de fato, se revelaram falsas.
O conhecimento tem um lado subjetivo e um lado objetivo. Um fato é objetivo se a sua verdade não depende da mente das pessoas. É um fato objetivo que as montanhas rochosas estão a 3000 metros acima do nível do mar. Por outro lado, um fato é subjetivo se não é objetivo. O exemplo mais óbvio de um fato subjetivo é uma descrição do que acontece na mente de alguém. Se uma pessoa acredita ou não que as montanhas rochosas estão a 3000 metros acima do nível do mar é uma questão subjetiva, mas se a montanha tem realmente essa propriedade é uma questão objetiva. O conhecimento requer tanto um elemento subjetivo como um elemento objetivo. Para que S conheça p, p tem de ser verdadeira e o sujeito, S, tem de acreditar que p é verdadeira.
*Elliott Sober
Se alguém tentar expressar em palavras a diferença entre a experiência de percepcionar e a experiência de agir é que, na percepção, se tem esta sensação: "Isto está a contecer-me", e, na ação, a sensação é a seguinte: "Faço isto acontecer". Mas a sensação de que "Faço isto acontecer" traz consigo a sensação de que "poderia fazer alguma coisa mais". Eis a fonte da inabalável convicção da nossa vontade livre. Saliento que estou a discutir a ação humana normal. Se alguém está a braços com uma grande paixão, ou se encontra numa cólera imensa, por exemplo, perde esse sentido da liberdade e pode mesmo surpreender-se ao descobrir o que está a fazer.
Desde que atentemos nesta característica da experiência do agir, muitos dos fenômenos intrigantes que mencionei se explicam. Por que é que, por exemplo, o homem no caso da sugestão pós-hipnótica não está a agir livremente no sentido em que nós somos livres, mesmo que ele possa pensar que está a agir livremente? A razão é que, num sentido importante, ele não sabe o que está a fazer. A sua efetiva intenção na ação é completamente inconsciente. As opções que ele vê disponíveis para si são irrelevantes para a motivação efetiva da sua ação. Note-se também que os exemplos compatibilistas do comportamento "forçado" implicam ainda, em muitos casos a experiência da liberdade. Se alguém me diz para fazer algo apontando-me uma arma, mesmo em tal caso eu tenho uma experiência que tem o sentido dos cursos alternativos nela incrustados. Assim, a experiência da liberdade é uma parte essencial da experiência do agir.
Isto explica também, creio eu, porque é que não podemos abandonar a nossa convicção de liberdade. Achamos fácil abandonar a convicção de que a Terra é plana logo que compreendemos a prova para a teoria heliocêntrica do sistema solar. Mas não podemos de modo semelhante abandonar a convicção de liberdade, porque esta convicção está inserida em toda a ação intencional normal e consciente. E usamos esta convicção para identificarmos e explicarmos as ações. Efetivamente não podemos agir de outra maneira senão com base na suposição da liberdade.
*John Searle in Mente, Cérebro e Ciência
A justiça é a virtude primeira das instituições sociais, tal como a verdade o é para os sistemas de pensamento. Uma teoria, por mais elegante ou parcimoniosa que seja, deve ser rejeitada ou alterada se não for verdadeira; da mesma forma, as leis e instituições, apesar de poderem ser eficazes e bem concebidas, devem ser reformadas ou abolidas se forem injustas. Cada pessoa beneficia de uma inviolabilidade que decorre da justiça, a qual nem sequer em benefício do bem-estar da sociedade como um todo poderá ser eliminada. Por esta razão, a justiça impede que alguns percam a liberdade para outros passarem a partilhar um bem maior. Não permite que os sacrifícios impostos a uns poucos sejam compensados pelo aumento das vantagens usufruídas por um maior número. Assim, numa sociedade justa, a igualdade de liberdade e direitos entre os cidadãos é considerada definitiva.
(...)
Na teoria da justiça como equidade, a posição da igualdade original corresponde ao estado de natureza na teoria tradicional do contrato social.Esta posição original não é, evidentemente, concebida como uma situação histórica concreta, muito menos como um estado cultural primitivo. Deve ser vista como uma situação puramente hipotética, caracterizada de forma a conduzir a uma certa concepção da justiça. Entre as características essenciais está o facto de que ninguém conhece a sua posição na sociedade, a sua situação de classe ou estatuto social, bem como a parte que lhe cabe na distribuição de atributos e talentos naturais, como a sua inteligência, a sua força e outras qualidades semelhantes. Parto inclusivamente do princípio de que as partes desconhecem as suas concepções do bem e as suas tendências psicológicas particulares. Os princípios da justiça são escolhidos a coberto de um véu de ignorância. Assim se garante que ninguém é beneficiado ou prejudicado na escolha daqueles princípios pelos resultados do acaso natural ou pela contingência das circunstâncias sociais. Uma vez que todos os participantes estão numa situação semelhante e que ninguém está em posição de designar princípios que beneficiem a sua situação particular, os princípios da justiça são o resultado de um acordo ou negociação equitativa, (...) isto justifica a designação "justiça como equidade": transmite a ideia de que o acordo sobre os princípios da justiça é alcançado numa situação inicial que é equitativa. Não decorre daqui que os conceitos de justiça e equidade sejam idênticos, tal como também não decorre da frase "a poesia como metáfora" que os conceitos de poesia e de metáfora o sejam.
*John Rawls in Uma Teoria da justiça
Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,te pareces al mundo en tu actitud de entrega.Mi cuerpo de labriego salvaje te socavay hace saltar el hijo del fondo de la tierra.Fui solo como un túnel. De mí huían los pájarosy en mí la noche entraba su invasión poderosa.Para sobrevivirme te forjé como un arma,como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.Pero cae la hora de la venganza, y te amo.Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.¡Ah los vasos del pecho! ¡Ah los ojos de ausencia!¡Ah las rosas del pubis! ¡Ah tu voz lenta y triste!Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.
*Pablo Neruda