domingo, 14 de junho de 2009

Cuerpo de mujer

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
¡Ah los vasos del pecho! ¡Ah los ojos de ausencia!
¡Ah las rosas del pubis! ¡Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

*Pablo Neruda

sábado, 13 de junho de 2009

Piedras antárticas

Allí termina todo
y no termina:
allí comienza todo:
se despiden los ríos en el hielo,
el aire se ha casado con la nieve,
no hay calles ni caballos
y el único edificio
lo construyó la piedra.
Nadie habita el castillo
ni las almas perdidas
que frío y viento frío
amedrentaron:
es sola allí la soledad del mundo,
y por eso la piedra
se hizo música,
elevó sus delgadas estaturas,
se levantó para gritar o cantar,
pero se quedó muda.
Sólo el viento,
el látigo
del Polo Sur que silba,
sólo el vacío blanco
y un sonido de pájaro de lluvia
sobre el castillo de la soledad.
*Pablo Neruda

Olhos (A Pepe)

Olhares, contemplam tudo por fora
Refletem tudo por dentro
Interiorizam pensamentos para a alma
A alma dá-lhes embelezamento

De fora vem beleza e angústia
De dentro vem a significação
Lágrimas vêm do fundo da alma
Beleza embeleza o coração

Olhos tristes revelam alma consternada
Exaustos da força de sofrimento e mágoa
Olhos jubilosos espelham alma suave
Compartilham paz de alma profunda e leve

Olhos misteriosos de pessoas misteriosas
Olhares e mistérios que se devem venerar
Do pouco que suas almas mostram
Mostram que muito mais têm para dar

Olhos profundos procuram profundidade
Vêem o exterior internamente
Enfraquecem com tão forte invasão no espírito
Engrandecem a alma com poderoso adorno vitalício

Olhos belos são os que procuram profundidade
Olhos profundos de profunda sagacidade
Que sua alma lhes implora por beleza intensa
Olhos belos são reflexo de alma sempre imensa

*Simão Cabral
**Vê se recupera logo, ja ta fazendo falta ;)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Dia dos Namorados

Não tenho nenhuma impressão de maior cunho filosófico ou passional sobre esse dia, e assim livre de pré-moldagens me ponho a uma pergunta que às vezes me faço a respeito de algumas quimeras populares parecidas com essa:

Por quê o maldito comércio insiste em inventar esse tipo de data pra tentar fazer as pessoas se sentirem uma droga???


*Leandro M. de Oliveira
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Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
*Mario Quintana

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Dúvida em Descartes, indução à busca de uma realidade desmistificada?

O “método da dúvida” de Descartes implica pôr de lado qualquer crença ou conhecimento que admitam a mais pequena dúvida possível, por mais improvável ou absurda que essa dúvida possa ser, no intuito de ver se alguma coisa resta. Se alguma coisa resta é precisamente porque é invulnerável à dúvida: é certo. Uma vez que o objetivo de Descartes (…) é o de descobrir o que pode ser conhecido com certeza, o método da dúvida é crucial, pois constitui o caminho para o seu objetivo. A tentativa de considerar cada uma das suas crenças ou afirmações de conhecimento e submetê-las a escrutínio seria uma tarefa impossivelmente longa, de modo que Descartes teve necessidade de uma estratégia geral para pôr de lado todo o corpo de crenças dubitáveis. Procurou alcançá-la utilizando argumentos céticos.
É preciso notar que o uso de argumentos céticos por parte de Descartes não faz dele um céptico. Longe disso. Ele usa-os meramente como um instrumento heurístico para mostrar que nós possuímos efetivamente conhecimento. Ele é, portanto, um 'céptico metódico' e não um 'céptico problemático', entendo-se por esta última expressão alguém que pensa que os problemas colocados pelos céticos são sérios e colocam uma genuína ameaça à nossa ambição de adquirir conhecimento. Acontece que muitos filósofos desde o tempo de Descartes pensaram que ele não produziu uma resposta adequada às dúvidas cépticas que ele próprio levantou e que, por conseguinte, o cepticismo é deveras um problema. O próprio Descartes pensava enfaticamente o contrário.
As considerações cépticas que Descartes usou (…) merecem aqui referência. A primeira delas é a de recordar que os sentidos por vezes nos conduzem no caminho do erro. Equívocos perceptivos, ilusões e alucinações podem levar, e ocasionalmente levam, a crenças falsas. Isto pode fazer com que não depositemos confiança no que pensamos conhecer através da experiência dos sentidos, ou, no mínimo, a sermos cautelosos a depositar confiança nela como fonte de verdade. Não obstante, diz Descartes, haverá muita coisa em que eu acredito com base na minha experiência - tal como, por exemplo, que tenho mãos e que estou a segurar um pedaço de papel com elas, que estou sentado numa poltrona defronte de uma lareira, etc. e que duvidar disto seria uma loucura, mesmo dada a falta de fiabilidade dos sentidos.
Mas será mesmo loucura duvidar destas coisas? Não, diz Descartes - e aqui ele traz o seu segundo argumento - porque eu muitas vezes sonho quando durmo e se eu estou agora a sonhar que estou sentado em frente à lareira segurando um pedaço de papel, o pensamento de que assim estou é falso. Para estar certo de que assim estou sentado, teria de poder excluir a possibilidade de que estou meramente a sonhar que assim estou sentado. Como pode isso ser feito? Parece difícil, senão impossível, fazê-lo.
Mas se estivermos a dormir e a sonhar, continua ele, poderíamos saber que, por exemplo, um mais um é igual a dois. Na verdade, há muitas destas crenças que mesmo num sonho podemos conhecer como verdadeiras. Portanto, Descartes introduz uma consideração ainda mais extrema: suponha-se que em vez de existir um deus bom que quer que conheçamos a verdade, existe um demônio maligno cujo propósito central fosse o de nos enganar a respeito de todas as coisas, mesmo acerca de 'um mais um é igual a dois' e todas as outras verdades destas aparentemente indubitáveis. Se existisse um tal ser, teríamos uma razão geral para duvidar de todas as coisas de que se pode duvidar. E agora podemos perguntar: supondo que tal ser existe, haverá, não obstante, alguma crença de que eu não possa duvidar, mesmo que o demônio enganador faça com que cada crença que eu tenha seja falsa (se puder ser falsa)? E, como sabemos, a resposta é sim, há uma crença indubitável: é a de que eu existo.

Alguns críticos deste procedimento dizem que os argumentos céticos utilizados por Descartes não funcionam. Criticam os argumentos do sonho e do demônio maligno em vários aspectos “for respective examples”, que há na realidade critérios que permitem distinguir o sonho do estado de vigília e que a hipótese do demônio enganador é muito menos plausível do que a maior parte das crenças (tais como aquela de um mais um ser igual a dois) que supostamente coloca em questão. Mas estas tentativas de mostrar que o método da dúvida de Descartes não consegue descolar do chão são desajustadas. Os argumentos de Descartes podem ser menos plausíveis que aquilo que impugnam, mas isso não é importante. Eles são simplesmente uma ferramenta heurística, algo que nos ajuda a ver o que está em causa quando dizemos que 'Eu existo' não pode deixar de ser verdade. Se, em qualquer caso, o objetivo (…) é o de demonstrar o que pode ser conhecido com certeza, praticamente qualquer instrumento heurístico que torne possível descobrir certezas funcionará igualmente bem.

*A. C. Grayling. Descartes

terça-feira, 9 de junho de 2009

Sísifo, quem é?


Os mitos servem para expressar uma faceta da realidade, a alegoria tem um requinte pedagógico único, disso sabiam bem os gregos. Mas recentemente durante sua apresentação em um seminário, Paulo Herkenhoff recorreu à mitologia para demonstrar o quanto exaustiva e incessante é a missão do artista. Disse ele: “O artista é um Sísifo social e histórico que busca permanentemente novos sentidos para os percursos de sua pedra (...)”.
Mas afinal, quem é Sísifo?


Sísifo, filho de Éolo, da raça de Deucalião, era sucessor de Medéia , do reino de Corinto. Conta a mitologia que Zeus, deus do Olimpo, casado com Hera, raptou Egina, filha do deus-rio Asopo. Essa ação foi presenciada por Sísifo, que em troca de uma fonte concedida pelo pai de Egina, revelou-lhe o nome do raptor.

  O castigo não tardou a chegar pela delação. Quando Hades, irmão de Zeus, reclamou ao deus do Olimpo que havia pouca gente morrendo, Zeus, atendendo ao seu pedido e cumprindo uma vingança pessoal contra Sísifo, enviou-lhe Tanatos a Morte).
Sísifo, muito esperto, convenceu sua mulher que deixasse de fazer as honras fúnebres para que fosse inviabilizada a sua permanência nas trevas. Chegando ao reino de Hades, as trevas, foi-lhe cobrado as cerimônias adequadas de morte e Sísifo mentiu, culpando a mulher por tamanho esquecimento. Pediu ao poderoso Hades a possibilidade de voltar para a terra e castigar sua mulher por esse descaso. Impossibilitado de permanecer nas trevas sem ter recebido as devidas honras mortuárias, Hades consentiu e Sísifo voltou para a terra.

Como Sísifo havia mentido para Hades não se preocupou em aplicar o castigo na mulher, traindo , mais uma vez, a confiança de um deus , Hades. Já velho, Tanatos veio buscá-lo para o reino das trevas e desta vez ele não escapou. Por ter traído por duas vezes os deuses, Sísifo recebeu um castigo complementar e foi condenado a empurrar, indefinidamente, uma pesada pedra até o cume da montanha mais alta. Seu castigo era esse: de dia, empurrava a pedra até o cume da montanha, à noite dormia exausto e deixava a pedra rolar. No dia seguinte, voltava novamente à base da montanha e recomeçava o trabalho. E assim ocorria sucessivamente.

*Antonio Carlos Tonca Falseti

Uma vida com sentido?

“ A ideia de uma distinção entre uma vida com sentido e uma vida sem sentido não é equivalente à diferença mais óbvia e incontroversa entre uma vida que é subjetivamente satisfatória ou enriquecedora e outra que não o é. Quando perguntamos se as nossas vidas têm sentido não estamos a fazer algo totalmente introspectivo, e quando procuramos uma forma de dar sentido às nossas vidas, não estamos à procura do comprimido da felicidade. A vida de Sísifo, perpetuamente condenado a carregar um pedregulho por um monte acima que depois caía outra vez, tem sido caracterizada (…) como um paradigma da ausência de sentido. Se imaginarmos que Sísifo encontrava uma perversa satisfação nesta atividade repetitiva e inútil, não é claro se pensamos que nesse caso a sua vida tem mais sentido, ou se pelo contrário é mais miserável.”

*Susan Wolf

De quem é o pecado: dele; dela ou de ambos?

Quando me interrogou, refleti. Um dia, Ana Carolina (Karolzinha) fez-me uma pergunta. Uma pergunta que foi para mim um pouco inquietante pelo contexto da mesma e foi, por assim dizer, reflexiva. Mas como reflexiva algo que foi inquietante? Acredite! Foi uma pergunta reflexiva, pois me inquietou. Se ela não tivesse me deixado perturbado, talvez, passasse despercebida e seria mais uma palavra no meio de tantas outras. Isto porque existem inúmeras perguntas, palavras e fatos que passam a cada dia por nós, mas que não são percebidos, e nem mesmo são levado em conta. Mas não quer dizer que as perguntas não são feitas, que as palavras deixam de falar por si e pelo seu contexto e também que os fatos cairão no nosso esquecimento. Nada disso. Os três: perguntas, palavras e fatos estão interligados de uma forma tal que podem até serem confundidos.

01.

A pergunta não vem sem uma palavra. Como, de igual modo, a palavra não vem até nós fora de um contexto, tornando, então, um fato. 

Quando a pergunta vem até nossa compreensão, ela vem com uma resposta prévia. Pois uma indagação é levada a ação quando já, no nosso entendimento, temos uma resposta. Mesmo que uma resposta sem tanto fundamento teórico ela — a resposta — já tem sua palavra que a justifica.

02.

A palavra pode até ser dada com a mesma pergunta. De que forma? Quando se pergunta sabendo da resposta ou quando a pergunta é feita para dar (...) certeza da resposta antecedente que se tem.

Contudo, a resposta dada a uma pergunta pode ser formulada sobre urna outra pergunta. E desta maneira, nem aquele que pergunta e nem mesmo o que da a resposta tem "culpa" seja parcial ou total da própria resposta. Visto que, cada uma se isenta — com palavras — de uma fatalidade prevista por uma resposta forjada.

03.

De igual peso se tem a palavra. Ela que comunica e faz comunicar. Uma palavra que comunica é aquela que vem em forma de indagação, conversa e tantos outros meios. A palavra que faz comunicar tem sua peculiaridade, ao passo que ela trabalha sobre os signos — sinais visuais. As placas de sinais de trânsito são os melhores exemplos. Eles nos remetem a uma comunicação que diz algo para nós, como por exemplo, "pare (stop)".

Porque quando temos aos olhos algo parecido isto nos levará a uma linguagem que vem antes disso: no "pare", vemos um perigo. Isto porque o perigo toma-se um fato.

04.

O fato tão pouco é importante quanto à pergunta, ou a palavra. Ambos possuem igualmente seu peso na (...) pergunta, que vem, por sua vez, com construções de palavras.

05.

Agora depois de versar sobre a minha inquietude e reflexão frente a uma pergunta, ponho-me a indagar: qual foi, portanto, a pergunta a qual me inquieta. A pergunta foi: "caso uma jovem beija (na boca) um presbítero, de quem é o pecado? Do padre, da garota ou dos dois?" Aqui se faz necessário uma análise por panes, para que possamos olhar as duas realidades imbuídas no contexto, de forma universal: um amor terreno e o outro espiritual. Para este amor, que se diz terreno, (...) estamos analisando, primeiro, uma conjuntura: "uma garota que beija", ou seja, que é livre para amar.

06.

Todo homem é livre para amar. Esta capacidade não é mérito puramente do humano, pois a possibilidade de amar é dada a cada ser humano pelo próprio Amor. Este eleva seus filhos e dão a eles a dignidade do amor na relação do amor que respeita e deixa o outro livre para amar. Sim. Para amar. Porque o Amor derrama no coração de cada pessoa o Seu amor. Aqui vemos um Amor que jorra o amor. Então fomos impressos com o selo do amor e isto nos faculta amar a nós mesmos e, sobretudo, amar o outro. Pois, somos capacitados a amar e sermos amados, visto que o amor nunca se esvai.

É justamente porque o amor nunca se finda que se pode afirmar que o amor vem para o homem da mesma forma que vem para a mulher. Entretanto, aqui é que se depara com a realidade concreta de realizar este amor: todo ser humano é convocado a amar naquilo que lhe é específico: amar o outro e a si. Porque cada qual deve amar na sua capacidade.

07.

A capacidade de amar do ser humano já está inscrita na sua consciência. Assim, o amor de uma jovem é diferente, mesmo que todos amam, do amor de um padre. Isto porque a pessoa é livre para amar uma pessoa em particular e assim, se for por designo do Oculto, constituir uma família. No entanto, a capacidade de amar de um sacerdote vai além de um amor que seja contrascivo (...) ou seja, um amor que se doa a uma pessoa específica, visto que um consagrado ao Oculto é convidado a amar de forma expansiva, que atinge a todos e que todos se sintam por ele amado. Dessa forma, o homem não está negando sua sexualidade.

08.

O homem pode e ama por meio da sexualidade. Nessa é que está contida a genitalidade. Essa, vivida sem a certeza de que o homem é um ser para o outro, então, vai existir uma banalização da sexualidade, a qual foi deixada por Deus para que os cônjuges se complementem com o gozo. Gozo este que é a alegria de estar utilizando a capacidade de amar (de forma profunda) que os esposos experimentam a cada ato conjugal.

Não cabe um consagrado se valer dos benefícios que a vida à dois concede. Entretanto, não dispensa ao casal viver uma castidade matrimonial, ao passo que a vida nupcial pode, também, ser oferecida através de alguns sacrifícios ao Amor, o Oculto. 

Um dos caminhos que se pode traçar é pela castidade. Castidade esta que reflete na vida de cada presbítero no segmento do Cristo Casto.

A castidade é para ser praticada com intensidade e muito amor. Amor que vem do próprio Amor e é oferecido, por cada célebre a Ele mesmo.

Por isto, a maior terapia que se possa fazer para viver a castidade é o amor de Deus. O que é, então, a castidade? A castidade, tal qual ouvi de um presbítero, "é amar sem querer possuir nada ou ninguém; é ter o desejo de amar com o amor sempre mais puro; é uma autonomia do voo. É voar sem um peso na asa".

A castidade sendo este "amar sem querer possuir nada ou ninguém", remete-me ao que tinha me perguntado: "... é pecado para o padre?" A resposta para esta sua indagação toma-se bastante clara com a citação feita acima, porque o padre tem que apresentar um coração indiviso e principalmente assemelhar-se ao coração do Cristo. Um coração casto. Por isto e tantas outras coisas, que é pecado para qualquer padre que beija — usando sentimentos — qualquer pessoa que seja. Ele é chamado a viver uma íntima relação com o Amor. O padre é um homem do Amor e não para o amor.

09.

O presbítero é um homem que consagra a sua vida ao Amor. Ele pode dar-se aos outros, no serviço, através do amor. Isto ele deve realizar de forma consciente e gratuita. Uma gratuidade que se manifesta pelo zelo e pelo pastoreio das ovelhas que a ele são confiadas.

Pastorear é ser pastor. E ser pastor requer uma cautela e um amor por suas ovelhas a ponto de dar a própria vida em resgate de uma que por ventura venha a se desgarrar do rebanho. O pastor dá a vida em prol das ovelhas, jamais ele tem a coragem de usar destas pobres ovelhas para fazê-las o mal.

Desta forma, o pastor é obsequiado a sarar todas as doenças de suas ovelhas e, se alguma se perder, o primeiro responsável é, sem dúvida, o pastor. Porque é ele quem deve conduzir cada ovelha ao Amor.

Esta é uma das funções do pastor: encaminhar seu rebanho ao encontro do seu Senhor. O pastor não pode ferir as ovelhas, ao contrário, como já disse, tem que cura-las de suas feridas com o amor espiritual e não utilizar a doença da ovelha para alimentar em si o amor terreno.

10.

Agora posso responder a dúvida. Sempre será pecado para o padre, pois ele tem a consciência de que cada pessoa ama na sua capacidade de amar. E pode não ser pecado para a garota, uma vez que o padre não conte a ela ou mesmo que ela não saiba do estado de vida do padre. E pecado tanto para um como para o outro se a garota sabe do estado de vida do servo de Deus e mesmo assim deixa estampar seus sentimentos por ele.

11.

No desfecho dessa reflexão, é plausível fixar que, com os fatos e as experiências da mesma existência não se fala para as várias vivências. Cada existente tem na sua vida um ponto, o qual o fez pensar diferente ou mesmo reflete sobre seu existir, seu relacionar com as pessoas. Porque cada ser humano que está no mundo não fica sem se relacionar com outro ser. 

Nisto encontra não só as experiências de cada homem, mas também o próprio sentido do seu existir e o existir do outro tirando este de uma miséria afetiva e dando-lhe a dignidade de uma pessoa.

O outro, com a compostura de uma pessoa, passa a ser inteiramente outro que se dá na relação interpessoal pela manifestação do corpo e da sua sexualidade. Esta manifestação é que vai elevar a dignidade do ser humano como sendo um ser corporal.

*Joacir Soares d'Abadia

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O velho

Ele olhou pela janela dos fundos como quem olhasse através do tempo. Inspirou o hálito externo àquela cela, como em milagre ou sonho sentiu por um instante que tudo tornara a ser simples outra vez, aquele homem havia desafiado o destino e o que lhe restou era nada mais que a lembrança de um tempo que há tempos se foi. Cada ruga em sua face conservava a insígnia daquele nome, cada polegada de sua alma sentia ainda fresco o hálito daquela que poderia ter sido companheira, mas não, era tarde demais. Ali estava um homem marcado pela calamidade da própria grandeza, com os olhos perdidos nada ambicionava além do nada sem termo. Cheguei manso como chega a morte aos enfermos, ao notar que ele percebera a minha presença prontifiquei-me logo em me apresentar, ele continuou inerte, absorto em si. Depois por um instante me olhou com relutância, porém alguns minutos depois a minha presença era algo já pacífico. Foi como se eu estivesse por muito tempo naquele lugar, tudo soou comum de repente. O homem me falou da vida com tal gravidade que desejei por um momento nunca ter nascido, embora tivesse o olhar cândido, as nuances de seu rosto pesavam como mil bigornas de Hefesto. Perguntei ao velho qual a melhor e a pior coisa da vida, ele me disse que falaria, mas era necessário ter ouvidos para “sentir”. Então ele começou:

“Escuta que quero falar como dois olhos, pra que você veja através de mim. Uma palavra define o melhor e o pior da vida, é uma chave que pode abrir todas as portas ou fechar outras mil. Desejo! Esse é o mestre de toda ruína e de toda exaltação humana. Desejo ardente é consumido nas próprias chamas, o resignado raro é suficiente para o impulso necessário à manipulação do Kairós¹. O desejo é como a mão que segura o grão de areia se a deixas relaxada a areia se esvai com o vento, se contrai a fim de segurar mais firme, a areia escapa por entre os dedos e igualmente põe tudo a perder. Luz não existe sem treva assim como bem sem mal. Faz da parte de teu desejo que é besta escolta para a parte que é mansidão, pede a essa que seja conselho para a outra que tão alto se põe a rugir. Não te enganes pela minha aparência, hoje sou decadente é verdade, mas já fui jovem como tu, já tive mulheres, admiradores, paixões... Nada posso te ensinar senão isso, guarda teu desejo como uma relíquia sagrada, esconde-o sob o alforje de tua montaria quando reiniciares o caminho. Se queres amar alguém, ame um pouco menos a si próprio, transforma teu desejo de amar em devoção pelo amor e serve a esse Deus humildemente com a constância do sol de janeiro. Se queres conhecer, transforma teu desejo por sabedoria em compaixão pelos ignorantes, compartilha desambicionado o que sabe, imita a fé do jardineiro que semeia em campos incertos. Se queres crescer, desejas ser pequenino, aprende passo a passo, não permita que a soberba de teu coração te converta em alguém intoxicado de si ou nunca ultrapassará o teu próprio tamanho, lembrai que a planta sem sol definha e morre... A vida nunca será para homem nenhum uma equação resolvida, ela é quando mais amena um fluxo interminável de questionamentos aos quais só as eras mais remotas poderão responder. A prudência diria, o melhor é resignação com o mundo, aprende com urgência a não contabilizar com tanta dureza o não vivido, glorifica o que há diante de ti, os acontecimentos mais singelos são o passaporte de teu milagre, crê na força da vida, ela te trouxe até aqui e pode te conduzir além. Eu poderia ter tido uma trajetória comum, filhos, netos, me ver continuar através deles, mas não, quis o perigo, o inusitado. À minha maneira tive meus triunfos mas, agora que tento remoldar o meu mundo pasmo em ver que tenho as mãos decepadas... Como é difícil, como é difícil dominar o leão que carregamos no peito. O tempo é veloz! Sonha e realiza, ou vive e resigna...”

Senti um nó na garganta. Interrompendo perguntei quem era ele. E ele me respondeu:

“Eu sou o teu futuro.”

Naquele momento meus olhos umedeceram... Não pude mais continuar.


1 – Kairós: Do grego antigo, genericamente justa medida, podendo ser empregado como tempo oportuno.
*Leandro M. de Oliveira
05 de Junho de 2009; 02 43 hs