segunda-feira, 20 de abril de 2009

As tarefas da inteligência: Um convite à ação intelectual

(...) Provàvelmente, o sr. Astrojildo Pereira, que não desconhece os outros aspectos da questão, dá maior importância êsse papel ativo e restrito dos intelectuais. Por motivos de preferências pessoais, por causa das condições históricas e culturais do Brasil e do mundo e ainda devido à situação mesmo da "inteligência" brasileira.

Em todo caso, parece-me que não devemos afastar os intelectuais assim, por qualquer causa, por mais "nítida" que ela seja. A campanha contra o analfabetismo é um dos elos de uma grande corrente; um dos aspectos de uma imensa tarefa. A contribuição dos intelectuais não pode e não deve ser de forma alguma específica - caso contrário estaremos numa modalidade nova de traição da inteligência: a de participação intencionalmente restrita, mínima. Os intelectuais compreendendo a impossibilidade do abstencionismo, procurando limitar o quanto possível suas atividades e sua participação. É uma forma de fugir à luta, aceitando-a; é também um meio de a "inteligência" conservar-se a serviço das classes dominantes, calcando suas mãos na balança dos dominadores e oprimidos. Jôgo duplo, amoral e perigoso, que poderia culminar no esmagamento da "inteligência" novamente.

Não. Parece-me que os intelectuais brasileiros não se devem iludir muito com as especificidades de suas funções. Sem trair a causa da "cultura" e sem deixar de fazer sua grande e histórica campanha contra o analfabetismo, em favor do povo - se é que de fato se preocupam com o povo brasileiro - é preciso que caiam de rijo? sôbre o corpo da questão. Quem pensa os fatos não pode fazer uma separação assim brutal nas atividades da "inteligência", uma limitação tão violenta nas tarefas dos intelectuais e acreditar na eficiência de uma ruptura dêsse gênero exatamente no momento em que é necessário colocar as fôrças do pensamento e de ação no campo aberto da luta contra as fôrças da reação, do aproveitamento e da opressão. É inconcebível, mesmo, que os intelectuais cheguem a fazer isso; e seria uma enormidade se o fizerem, justificando-se com a causa da cultura e a causa do povo. A causa da cultura e a causa do povo sob certos aspectos são uma só. Não é possível dissociar uma da outra. Ou, mais precisamente, a causa do povo implica a causa da cultura. Os intelectuais têm que considerar isto, se quiserem evitar a definição errada de posições. E se querem de fato defender a causa do povo, é lógico que não poderão dar uma importância desequilibradora à causa da cultura; situá-la, isto sim, no conjunto das outras causas e reivindicações do povo. Só assim conseguirão algo sólido para o povo e para a causa da cultura.

De nenhuma forma é conveniente, pois, a atribuição de uma tarefa exclusiva ou preponderante à inteligência brasileira, em nosso momento histórico. Ninguém desconhece a gravidade da situação educacional do povo brasileiro e ninguém ignora as consequências que um melhoramento sólido traria a todos nós. Ninguém pode desdenhar o alcance econômico, social e político do elemento do nível educacional de nossas populações do campo e da cidade e o significado de sua participação maior na "cultura". Entretanto, êsse admirável objetivo será alcançado com uma condição: que se atue sôbre os vários fatôres e condições do atual estado de fato. Aí as tarefas da "inteligência" são múltiplas. Ela deve começar por assumir várias posições de luta e de ação - pois que a definição da "posição" dos intelectuais só vale à medida que ela indica o preenchimento efetivo das diversas posições e a realização das tarefas correspondentes - e teríamos, para a "inteligência" brasileira, uma posição econômica, uma política, outra social etc., tôdas intimamente relacionadas e interdependentes.

O intelectual não deve deixar as massas abandonadas às manobras que aqui e no estrangeiro estão se fazendo, visando desviar a atenção do povo do aproveitamento da guerra e do próprio massacre de seus interêsses e reivindicações, facilitado às vêzes por certos escritores. Os intelectuais não podem deixar de discutir concretamente as condições de vida do povo brasileiro, se quiserem conseguir qualquer coisa prática. A situação de nossas populações das zonas rurais e urbanas do trabalhador do campo e da cidade, seu nível de vida e seus recursos econômicos, comparando-o os nossos escritores com o nível de vida e recursos econômicos dos que aqui passam por privilegiados: verificarão que o "cultural lag", a decalagem cultural, tem causas sociais econômicas, demográficas, políticas etc., precisas. É necessário atuar sôbre as causas quando se pretende eliminar ou agir sôbre os efeitos. A mesma coisa pode-se falar de outros problemas característicos de nosso povo. Isso tudo quer dizer como também reconhece o sr. Astrojildo Pereira, que a questão tem três lados: a democratização da cultura, que é o coroamento, o fim e o resultado; a "democratização política" e a "democracia econômica". O escritor nunca chegará à "democracia cultural" diretamente saltando seus princípios políticos e suas bases econômicas. O salto seria além de perigoso, inócuo. É indispensável que a "inteligência" brasileira compreendendo isso, não se negue a realizar suas tarefas em todos os três setores, integralmente, como o mundo moderno necessita. E não ficar imobilizada pelo fantasma do mêdo e do comodismo comprometida por uma pseudo-campanha, unilateral e por isso condenada de início.

*Florestan Fernandes

domingo, 19 de abril de 2009

Aos soturnos de Portugal: Exposição da Cristina

A arte está morta! Nisso Hegel concordaria comigo, pelo menos em se tratando do sentido lato da palavra arte. Quero dizer com isso que a acepção do ideal de produção artística só é possível se reinventada, o valor dos cânones estéticos da grande arte se perderam entre a antiguidade clássica e o renascimento, dessa forma qualquer alusão a um resgate das propostas de Michelangelo, Leonardo ou Policleto soaria inútil ou sem razão de ser. A idéia de contemplação por si só já não cabe em um mundo tão massificado como o nosso hoje, atualmente o dever sagrado do artista para consigo mesmo é dar testemunho da tragédia. A nova arte deve antes de mais nada psicografar a ruína da alma humana, ela deve prestar testemunho da dor ancestral. Deve ser por excelência o transporte da indiferença, da revolta e do medo que eclodem nesses tempos. Há alguns meses fui a uma exposição, continha telas de um pintor notório em meu estado e me foi muito recomendada, mas quando lá cheguei nada pude ver além de obras vazias, muito técnicas, mas ainda assim, corpos sem alma. Eu fiquei por uma hora na frente da obra mais badalada e confesso, não consegui ouvir suas vozes, era um conjunto mudo, cego, surdo... A tecnocracia enfim vitimou o nosso senso de comunicação com o indizível. Mas então houve um pequeno milagre, alguns dias depois dei-me a conhecer uma pessoa de Portugal que se tornou especial pra mim, um ser humano sem definições, Cristina Henriques. Suas composições falam como dois olhos. Essa Artista desce ao submundo, à caverna mais profunda e retorna com notícias de um país onde todos somos iguais em nossa dor, mesmo ela não gostando devo dizer, é uma “Frida Kahlo das terras geladas”. Pois bem, em breve, no primeiro de maio haverá um evento em Peniche onde ela apresentará uma instalação “Segredo”, da qual à distância tenho o privilégio de acompanhar a gestação. O Cartaz acima é desse evento, “A Rota da Muralha” e a obra será exposta na fortaleza, hoje museu. Espero que vocês possam prestigiar por mim, meus amigos Portugueses. A todos um grande abraço e até a próxima.

"Acima uma vista parcial da fortaleza, local da exposição" 
 

*Leandro M. de Oliveira 
**Abaixo segue o endereço e alguns contatos onde penso ser possível obter informações: 
Campo da República – Peniche 
2520-607 PENICHE
Distrito: Leiria
Concelho: Peniche
Freguesia: São Pedro
Telefone: 262780116
Fax: 262780116

Eu vi

"Eu vi o brioso no largo terreiro 
  Cantar prisioneiro 
Seu canto de morte, que nunca esqueci: 
Valente, como era, chorou sem ter pejo; 
  Parece que o vejo, 
Que o tenho nest’hora diante de mi. 

"Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo! 
  Pois não, era um bravo; 
Valente e brioso, como ele, não vi! 
E à fé que vos digo: parece-me encanto 
  Que quem chorou tanto, 
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"

*Gonçalves Dias; do canto X de I-Juca Pirama

sábado, 18 de abril de 2009

A esfinge prostituta

O homem nasce escravo! Que pesadelo hediondo é a vida, gasta-se os melhores anos na luta obstinada por reconhecimento e quando alcançamos o cume mais alto ou nossos órgãos já estão putrefatos, consumidos pelo uso das tantas máscaras necessárias a jogar o jogo ou estamos simplesmente velhos demais usufruir de algum prazer intenso. Os virtuosos buscam o triunfo pela verdade, os filósofos a amam como se ama a jóia mais rara. Mas o que temos nós com a verdade, como algo que se põe absoluto pode ser tão suscetível às mudanças de valores? Os antigos ensinavam que a virtude é a verdade da natureza e só ela conduz à paz de espírito. Mas não somos mais tão ingênuos e a natureza sabemos, desconhece a caridade, o bem, a constância. Ela é indiferente e grave, desmedida e selvagem. E vós, oh homens de bem, se auto-tiranizam por essa ficção perigosa que já matou mais que qualquer guerra! Vós buscais a verdade de ser pai, mãe, irmão e esqueceis de servos vós próprios, o chamado interno um dia se cala e quando o homem mergulha à sua procura descobre que nada restou além de ecos vazios à borda da caverna. Vós também vos obstinais na luta por tudo possuir, pela verdade da posse, esqueceis com isso que aquele que mais possui mais será possuído. Observai os lírios do campo! Diria o amoroso pregador, morto pela verdade, que não era a mesma de seus compatriotas. Até o dia de hoje tudo foi dado em sacrifício à verdade, essa esfinge prostituída que responde a uma pergunta com outros mil questionamentos. Os conceitos de verdade nada legaram ao homem além de disputas intermináveis. Por que não tentar a mentira? Por que não ser ignorante com os letrados e colérico com os pacíficos? Ele queria conhecer o mistério da vida e entregou seu coração àquela fé, resignado esperou como uma sentinela. Mas quando foi chamado à mesa não pode ir, suas pernas já se viam atrofiadas pela espera. Por permanecer em ti é esse o salário que deixas à nossa porta, Deusa do érebo, uma nação de oprimidos e uma fábrica de membros inúteis?

*Leandro M. de Oliveira

O Mito Revelado (Sistema escravista, a revolução que não aconteceu)

Os mitos existem para esconder a realidade. Por isso mesmo, eles revelam a realidade íntima de uma sociedade ou de uma civilização. Como se poderia no Brasil colonial ou imperial acreditar que a escravidão seria, aqui, por causa de nossa "índole cristã", mais humana, suave e doce que em outros lugares? Ou, então, propagar-se, no século 19, no próprio país no qual o partido republicano preparava-se para trair simultaneamente a ideologia e a utopia republicanas, optando pelos interesses dos fazendeiros contra os escravos, que a ordem social nascente seria democrática? Por fim, como ficar indiferente ao drama humano intrínseco à Abolição, que largou a massa dos ex-escravos, dos libertos e dos ingênuos à própria sorte, como se eles fossem um simples bagaço do antigo sistema de produção? Entretanto, a idéia da democracia racial não só arraizou. Ela se tornou um mores, como dizem alguns sociológos, algo intocável, a pedra de toque da "contribuição brasileira" ao processo civilizatório da Humanidade.

Ora, a revolução social que se vincula à desagregação da produção escravista e da ordem social correspondente não se fazia para toda a sociedade brasileira. Os seus limites históricos eram fechados, embora os seus dinamismos históricos fossem abertos e duráveis. Naqueles limites, não cabiam nem o escravo e o liberto, nem o "negro" ou o "branco pobre" como categorias sociais. Tratava-se de uma revolução das elites, pelas elites e para as elites; no plano racial, de uma revolução do Branco para o Branco, ainda que se tenha de entender essa noção em sentido etnológico e sociológico. Colocando-se a idéia de democracia racial dentro desse vasto pano de fundo, ela quer dizer algo muito claro: um meio de evasão dos estratos dominantes de uma classe social diante de obrigações e responsabilidades intransferíveis e inarredáveis. Daí a necessidade do mito. A falsa consciência oculta a realidade e simplifica as coisas. Todo um complexo de privilégios, padrões de comportamento e "valores" de uma ordem social arcaica podia manter-se intacto, em proveito dos estratos dominantes da "raça branca", embora em prejuízo fatal da Nação. As elites e as classes privilegiadas não precisavam levar a revolução social à esfera das relações raciais, na qual a democracia germinaria espontaneamente... Cinismo? Não! A consciência social turva, obstinada e mesquinha dos egoismos enraizados, que não se viam postos à prova (antes, se protegiam) contra as exigências cruéis de uma estratificação racial extremamente desigual.

Portanto, nem o branco "rebelde" nem a República enfrentaram a descolonização, com a carga que ela se impunha, em termos das estruturas raciais da sociedade. Como os privilégios construídos no período escravista, estas ficam intocáveis e intocadas. Mesmo os abolicionistas, de Nabuco a Patrocínio, procuram separar o duro golpe do abolicionismo do agravamento dos "ódios" ou dos "conflitos" raciais. Somente Antonio Bento perfilha uma diretriz redentorista, condenando amargamente o engolfamento do passado no presente, através do tratamento discriminativo e preconceituoso do negro e do mulato. Em consequência, o mito floresceu sem contestação, até que os próprios negros ganharam condições materiais e intelectuais para erguer o seu protesto. Um protesto que ficou ignorado pelo meio social ambiente, mas que teve enorme significação histórica, humana e política. De fato, até hoje, constitui a única manifestação autêntica de populismo, de afirmação do povo humilde como gente de sua autoliberação. O protesto negro se corporificou e floresceu na década de trinta, irradiando-se pouco além pela década subsequente. Foi sufocado pela indiferença dos brancos, em geral; pela precariedade da condição humana da gente negra; e pela intolerância do Estado Novo diante do que fosse estruturalmente democrático.

Na lei, a ordem é uma; nos fatos, a ordem é outra:

O principal feito do protesto negro configura-se na elaboração de uma contra-ideologia racial. Por um jogo dialético, o farisaismo do branco rico e dominante era tomado ao pé da letra: e o liberalismo vazio, acima de tudo, via-se saturado em todos os níveis. O negro assume o papel do burguês conquistador (ou do "notável" iluminista) e comporta-se como o paladino da causa da democracia e da ordem republicana. Não era propriamente um teatro popular, que se montava com o Tribunal dos justos. Porém, tudo se desenrola através de dois planos, por meio dos quais o jogo cênico e a realidade se interpenetram. O que resulta é uma cabal e indignada desmistificação: na lei, a ordem é uma; nos fatos, é outra; na consciência, as variações não são registradas. O negro desmascara e, ao mesmo tempo em que ergue a sua denúncia e mostra a sua ira, exige uma Segunda Abolição. Em suma, clama por participar da revolução social que não o atingiu, levantando o véu de uma descolonização que ficara interrompida desde a Proclamação da Independência e indicando sem subterfúgios os requisitos sine qua non da democracia racial. O protesto se confinara à ordem estabelecida. Mas era autêntico e revolucionário, pois exigia a plena democratização da ordem republicana - através das raças contra os preconceitos e privilégios raciais.

A eclosão liberal de após Segunda Guerra Mundial não liberou as forças sociais que alimentaram o protesto negro. Ao contrário, este refluiu e apagou-se, enquanto as energias da gente negra forçavam a democratização e a igualitarização progressiva pelos subterrâneos da porosidade de uma sociedade capitalista em crescimento desigual. O talento negro condena-se à seleção ao acaso, à venda no mercado e às duas regras da acefalização das raças dominadas, perdidas nas classes subalternas. O novo negro, que se afirma como categoria social, e assusta o branco conformista, tradicionalista ou autoritário, não constitui um rebento do protesto negro, mas da luta pela vida e do êxito na competição inter-racial numa sociedade de classes multi-racial. Por aí, a modernização generaliza-se às elites em formação do meio negro e cria um "novo começo" que procurei descrever sob alguns de seus aspectos mais importantes ou fascinantes.

Essa evolução faz com que, em pleno fim do século, a descolonização não tenha penetrado profundamente na esfera das relações e das estruturas raciais da sociedade brasileira. No último censo em que o levantamento racial foi contemplado, o de 1950, os números demarcavam que o desenvolvimento desigual era ainda mais desigual no que diz respeito à estratificação racial. De Norte a Sul, dos Estados tidos como "tradicionalmente mais democráticos" aos que foram contemplados como representativos de um "racismo importado", prevalece a mesma tendência estrutural à extrema desigualdade racial - à centralização e à concentração raciais da riqueza, do prestígio social e do poder. Tanto a estrutura ocupacional quanto a pirâmide educacional deixam uma participação ínfima para o negro e o mulato, assinalando uma quase-exclusão e uma marginalização sistemática e desvendando, inclusive, que, na luta pelas oportunidades tão desiguais e sonegadas, há uma desigualdade adicional entre o negro e o mulato (pois este vara relativamente melhor várias das barreiras raciais camufladas).

Os fatos - e não as hipóteses - confirmam que o mito da democracia racial continua a preencher as funções de um retardador das mudanças estruturais. As elites que se apegaram a ele numa fase confusa, incerta e complexa de transição do escravismo para o trabalho livre continuam a usá-lo como expediente para "tapar o sol com a peneira" e de autocomplacência valorativa. Pois consideremos: o mito - não os fatos - permite ignorar a enormidade da preservação de desigualdades tão extremas e desumanas como são as desigualdades raciais no Brasil; dissimula que as vantagens relativas "sobem" - nunca "descem" - na pirâmide racial; e confunde as percepções e as explicações - mesmo as que se têm como "críticas", mas não vão ao fundo das coisas - das realidades cotidianas.

Onde não existe sequer democracia para o dissidente branco de elite haveria democracia racial, democracia para baixo, para os que descendem dos escravos e libertos negros ou mulatos?! Poderia existir democracia racial sem certas equivalências (não digamos igualdades) entre todas as raças? Um mito para dissimular as coisas: A tenacidade do mito e a importância de suas funções para a "estabilidade da ordem" exigem uma reflexão política séria. De um lado, fica patente que o negro ainda é o fulcro pelo qual se poderá medir a revolução social que se desencadeou com a Abolição e com a proclamação da República (e que ainda não se concluiu). De outro, é igualmente claro que, no Brasil, as elites não concedem espaço para as camadas populares e para as classes subalternas de motu próprio. Estas têm de conquistá-lo de tal forma que o avanço apareça como "fato inevitável e consumado". O que quer dizer que, em sua tentativa de desmascaramento e de auto-afirmação, o protesto negro antecipou a substância da realidade histórica do presente que estamos enfrentando com tantas angústias e sobressaltos. Cabe às classes subalternas e às camadas populares revitalizar a República democrática, primeiro, para ajudarem a completar, em seguida, o ciclo da revolução social interrompida, e, por fim, colocarem o Brasil no fluxo das revoluções socialistas do século 20. O que sugere a complexidade do formoso destino que cabe ao negro na cena histórica e no vir a ser político. A revolução da qual ele foi o motivo não se concluiu porque ele não se converteu em seu agente - e, por isso, não podia levá-la até o fim e até ao fundo. Hoje, a oportunidade ressurge e o enigma que nos fascina consiste em verificar se o negro poderá abraçar esse destino histórico, redimindo a sociedade que o escravizou e contribuindo para libertar a Nação que voltou as costas à sua desgraça coletiva e ao seu opróbrio.

Essa interpretação global contém uma mensagem clara aos companheiros que tentam refundir e reativar o protesto negro. É preciso evitar o equívoco do "branco de elite", no qual caiu a primeira manifestação histórica do protesto negro. Nada de isolar raça e classe. Na sociedade brasileira, as categorias raciais não contêm, em si e por si mesmas, uma potencialidade revolucionária. De onde vinha o temor dos brancos, nos vários períodos escravistas? Do entroncamento entre escravidão e os estoques raciais dos quais eram retirados os contingentes que alimentavam o trabalho escravo. Essa superposição ou paralelismo (como a descreveu Caio Prado Junior) ou essa estrutura simultaneamente racial e social conferia ao escravo a condição do "vulcão que ameaçava a sociedade". A realidade histórica de hoje não é a mesma. Não obstante, desvinculada da estrutura de classes da sociedade brasileira atual, da marginalização secular que tem vitimado o negro nas várias etapas da revolução burguesa e da exploração capitalista direta ou da espoliação inerente à exclusão, os estoques raciais perdem o seu terrível potencial revolucionário e dilui-se o significado político que o negro representa como limite histórico da descolonização (negativamente) e da revolução democrática (positivamente). Portanto, para ser ativada pelo negro e pelo mulato, a negação do mito da democracia racial no plano prático exige uma estratégia de luta política corajosa, pela qual a fusão de "raça" e "classe" regule a eclosão do Povo na história.

*Florestan Fernandes
**Espero que esse texto tenha servido pelo menos em parte para elucidar a sua questão, ou quando não, para redirecionar-lhe o foco. Continuamos o contato por e-mail. Att, Leandro M. de Oliveira

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Vesti la Giubba

Recitar! mentre preso dal delirio,
non so più quel che dico,
e quel che faccio!
eppur è d’uopo, sforzati!
bah! sei tu forse un uom?
tu se’ pagliaccio!

vesti la giubba,
e la faccia infarina.
la gente paga, e rider vuole qua.
e se arlecchin t’invola colombina,
ridi, Pagliaccio, e ognun applaudirà!
tramuta in lazzi lo spasmo ed il pianto
in una smorfia il singhiozzo e ‘l dolor, ah!

ridi, pagliaccio,
sul tuo amore infranto!
ridi del duol, che t’avvelena il cor!

*Ruggero Leoncavallo - Il Pagliacci 1892 (Ato I)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Lucio Aneu Sêneca: Da vida feliz (ou a busca de si mesmo)

"Como trataremos da vida feliz, não me poderás responder estupidamente aquilo que costumam dizer: 'É desse lado que parece estar a maioria'. Ora, por isso mesmo é pior. Nas coisas humanas não se procede com acerto tentando agradar á maioria, pois a multidão é a prova do que é pior. Busquemos, portanto, o que é melhor e não o que é mais comum, aquilo que nos estabelece na posse de uma felicidade eterna e não o que é aprovado pela massa, o pior intérprete da verdade. Designo com o nome de 'vulgo' tanto as personagens vestidas de clâmide como os coroados, pois não considero a cor da indumentária que reveste os corpos; não dou crédito aos olhos, quando julgo a respeito dos homens; tenho um critério mais seguro para discernir o falso do verdadeiro: é a alma que deve encontrar o seu próprio bem. Quando ela, algum dia, tiver tempo de respirar e entrar dentro de si, ah, reconhecerá que se afligiu e ver-se-á obrigada a confessar a verdade e dizer: 'Eu gostaria de não ter feito tudo o que fiz; ao lembrar-me de tudo o que disse invejo os mudos; tudo o que desejei reputo como sendo maldição dos meus inimigos, tudo o que temi, ó deuses bem-aventurados!, foi muito mais suave do que aquilo que ambicionei! Tive inimizade com muitos e depois de odiá-los tornei a ser amigo deles (se é que pode haver alguma amizade entre maus): no entanto ainda não sou amigo de mim mesmo.

Empreguei todos os esforços para distinguir-me da multidão e fazer-me notável por meio de uma qualidade especial. Ora, não fiz mais do que me tornar alvo de projéteis e expor-me às mordeduras da malevolência. Vês todos esses que louvam a eloquência, buscam as riquezas, granjeiam o crédito por meio da adulação e enaltecem o poder? Todos eles ou são inimigos ou podem sê-lo, o que equivale ao mesmo. No povo, o número dos admiradores é igual ao dos invejosos. Por que não procuro algum bem que a experiência me mostre ser útil, mas aquele que só serve para a ostentação? As coisas que provocam nossa admiração e nos fazem parar diante delas brilham por fora, mas por dentro são mesquinhas'

Busquemos um bem que não seja aparente, mas sólido e constante, e seja tanto mais belo quanto mais íntimo. (...) De resto, conforme pensam todos os estóicos, em comum consenso, concordo com a natureza. A sabedoria consiste em não se desviar dela e em se regular segundo suas leis e exemplos."

*Lucio Aneu Sêneca, Da Vida Feliz. SP, Martins Fontes, 2000. p. 5-9

Todo homem é filósofo

É preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são 'filósofos', definindo os limites e as características desta 'filosofia espontânea', peculiar a 'todo o mundo', isto é, da filosofia que está contida:
1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo;
2) no senso comum e no bom senso;
3) na religião popular e, consequentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e de agir que se manifestam naquilo que geralmente se conhece por 'folclore'.

Após demonstrar que todos são filósofos, ainda que a seu modo, inconscientemente – já que, até mesmo na mais simples manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na 'linguagem', está contida uma determinada concepção do mundo, passa-se ao segundo momento, ao momento da crítica e da consciência, ou seja, ao seguinte problema: é preferível 'pensar' sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, 'participar' de uma concepção do mundo 'imposta' mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paróquia e na 'atividade intelectual' do vigário ou do velho patriarca, cuja 'sabedoria' dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pela própria estupidez e pela impotência para a ação), ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?

Pela própria concepção do mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que compartilham um mesmo modo de pensar e de agir. Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens-coletivos. O problema é o seguinte: qual é o tipo histórico de conformismo, de homem-massa do qual fazemos parte? Quando a concepção do mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homens-massa, nossa própria personalidade é compósita, de uma maneira bizarra: nela se encontram elementos dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e progressista, preconceitos de todas as fases históricas passadas estreitamente localistas e intuições de uma futura filosofia que será própria do gênero humano mundialmente unificado. Criticar a própria concepção do mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído. Significa também, portanto, criticar toda a filosofia até hoje existente, na medida em que ela deixou estratificações consolidadas na filosofia popular. O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é realmente, isto é, um 'conhece-te a ti mesmo' como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica. Deve-se fazer, inicialmente, essa análise."

*ANTONIO GRAMSCI

terça-feira, 14 de abril de 2009

Marco Aurélio o último estóico de Roma (fragmentos)

"Quanto mais se é impassível, mais se é forte. Assim como a aflição demonstra fraqueza, a cólera também. Ambas magoam e inferiorizam."

"Previne a ti mesmo ao amanhecer: "Vou encontrar um intrometido, um mal-agradecido, um insolente, um astucioso, um invejoso, um avaro". Eles devem todos esses vícios à ignorância do bem e do mal. Eu, porém, que observei ser o belo a natureza do bem e a vergonha a do mal, bem como consistir a natureza do próprio pecador em seu parentesco comigo, não em razão do mesmo sangue ou da mesma semente, mas por ter parte na inteligência e numa parcela da divindade, nenhum dano posso receber deles, pois nenhum me cobrirá de vergonha. Tampouco me posso exacerbar com um parente, nem odiá-lo porque nascemos para a ação conjunta, como os pés, como as mãos, como as pálpebras, como as filas de dentes superiores e inferiores. Por isso, é contra a natureza agir em sentido contrário; agastar-se é agir em sentido contrário."

"A que vem isso? Embarcaste; navegaste, aportaste. Desembarca! Se há de ser para uma outra vida, nela igualmente nada é vazio de deuses; se é para a insensibilidade, deixarás de suportar dores e prazeres e de servir ao teu invólucro, tão desvalioso que o servidor vale mais, pois este é inteligência e divindade, aquele, terra e lama de sangue."


*Marco Aurélio in Meditações

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

*Manuel Bandeira