sexta-feira, 10 de abril de 2009

O POETA

Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite? Sem paz,
sem amor, sem teto,

caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.
*Rainer Maria Rilke

LE MIROIR D’UN MOMENT

Il dissipe le jour,
Il montre aux hommes les images déliées de l’apparence,
Il enlève aux hommes la possibilité de se distraire.
Il est dur comme la pierre,
La pierre informe,
La pierre du mouvement et de la rue,
Et son éclat est tel que toutes les armures, tous les
masques en sont faussés.
Ce que la main a pris dédaigne même de pendre la
forme de la main,
Ce qui a été compris n’existe plus,
L’oiseau s'est confondu avec le vent,
Le ciel avec sa vérité,
L’homme avec sa realité.


*Paul Éluard

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Os novos dez mandamentos

1. Amarás o universo, a natureza e a vida sobre todas as coisas. (Francisco de Assis).

2. Amarás a ti mesmo com o esquecimento e o mundo com a lembrança. (Buda, Hannah Arendt)

3. Darás sempre início ao novo, pois os humanos, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para recomeçar. (Agostinho de Hipona, Hannah Arendt)

4.Não forjarás ideais contrários à vida e à alegria de viver. (Sêneca, Lucrécio, Nietzsche)

5. Não te torturarás com o passado e com o futuro para não sofreres em vão. (Buda, Sêneca, Nietzsche)

6. Só desejarás a justa medida das riquezas: primeiro, o necessário; segundo, o suficiente. (Sêneca)

7. Não dirás que tua vida é ou foi frustrada; vida alguma jamais se frustra. (Sêneca, Nietzsche, Henry James)

8. Não obedecerás sem pensar no que te leva a obedecer. (Hannah Arendt, Winnicott)

9. Não dirás que tua verdade é a única, e sim aquela em que mais acreditas. (William James)

10. Não eternizarás esse decálogo. (todas as vítimas da intolerância)

*Folha de São Paulo, Caderno MAIS!, 26 de dezembro de 1999.

O Consolo de Zeus

“Quando buscávamos o amor, quando nos apaixonávamos, estávamos em busca da outra metade que tínhamos perdido, como tinha dito Aristófanes, mas também Platão num discurso atribuído a Aristófanes. No início, homens e mulheres eram redondos como o sol e a lua, eram ambos macho e fêmea e tinham dois órgãos genitais. Em alguns casos ambos os órgãos eram machos. E o mito continuava. Estes eram seres auto-suficientes e orgulhosos. Desafiaram os deuses do Olimpo, que os puniram cortando-os ao meio. Foi esta mutilação que a humanidade sofreu. De modo que, geração após geração, buscamos a outra metade, ansiando ser de novo inteiros.

***

Ser-se humano era ser-se mutilado, amputado. O homem é incompleto. Zeus é um tirano. O Monte Olimpo é uma tirania. O trabalho da humanidade no seu estado amputado é procurar a metade que falta. E, após tantas gerações, a nossa verdadeira metade simplesmente não é encontrada. Eros é uma compensação outorgada por Zeus – provavelmente por motivos políticos próprios. E a busca pela nossa outra metade é em vão. O encontro sexual permite um temporário esquecimento de nós próprios, mas a dolorosa consciência da nossa mutilação é permanente.

***

As pessoas são vencidas por fim pelos seus desejos solitários e pelo intolerável isolamento. Elas precisam da certa, da porção que falta para ficarem completas e, como em termos realistas não podem esperar encontrá-la, acabam por aceitar um substituto razoável. Reconhecendo que não podem nunca, acomodam-se. O casamento entre espíritos verdadeiros raramente ocorre. O amor que se busca a si próprio até aos limites do destino não é um projeto moderno."

*Saul Bellow in Ravelstein

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Pequeno tratado das grandes virtudes: O Amor em Ágape

"Muitas coisas podem, de fato, acontecer que apresentam uma boa aparência, mas não procedem da raiz da caridade: mesmo os espinheiros têm flores.
Pelo contrário, certos gestos parecem rigorosos e até cruéis, mas são feitos para educar e são inspirados na caridade.
Aqui fica de uma vez para sempre, resumido o princípio:
Ama e faz o que quiseres:
Se tu te calares, cala-te por amor;
Se tu falares, fala por amor;
Se tu corrigires, corrige por amor;
Se perdoares, perdoa por amor;
Que a raiz do amor esteja dentro de ti, uma vez que desta raiz não pode proceder senão o bem.
A caridade não é maldosa nem preguiçosa;
Não é branda, nem tão pouco fraca;
Não é abúlica, nem permissiva.
Não te iludas pensando que amas o teu filho só porque não lhe impões uma regra de vida, ou que amas o teu próximo só porque não te queixas dele.
Isso não é caridade, mas fraqueza.
Não se ama no homem o erro, mas o homem."

(Agostinho de Hipona)

Em tempos como esses considero a mensagem de Agostinho de Hipona como algo inspirador. Não é preciso ser alguém religioso para entender, eu mesmo não o sou, quando Agostinho nos diz “ama e faz o que quiseres” ela convida a cada um de nós para contemplar a vida como um acontecimento mais profundo, desvelando além das breves formas materiais, até romper a tênue barreira e entrar no caminho que da no reino das coisas verdadeiras. A filosofia agostiniana está assentada sobre os pilares da obra de Platão, se considerarmos isso e retrocedermos aos anos 340 a.c. mais ou menos encontramos “O Banquete”, que é o discurso onde esse pensador grego debate a questão do Amor e as suas várias facetas, Eros, Philia e Àgape. Considerando por último em seu discurso que a melhor definição de Amor seria algo próximo da busca incessante pelo que é bom e pelo que é belo, Platão deixa seus ecos nas palavras de Agostinho quando esse nos chama à necessidade desse sentido ético que é a caridade (ágape), pois não pode haver beleza ou bondade na perdição e na injustiça por exemplo. Então “ama e faz o que quiseres”, assim sendo, se amar tudo te será lícito porém nem tudo te será conveniente, com efeito deve-se concluir que o limite do Amor e da Liberdade é o rosto sofrido do próximo, é a falta de sentido em usurpar algo de quem pouco tem. Nisso reside a grandeza humana, em aceitar a conexão invisível entre os seres e trabalhar pra que todos se realizem, pois essa realização é também a minha própria. Lembrai, a vida pouco vale, esse teatro a que estamos submetidos não é mais que pó na estrada da evolução.

*Espero que essa leitura tenha sido de algum proveito, minha "Constante Mítica". A você os meus melhores pensamentos e os gestos da minha mais profunda ternura.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O ESPELHO

E como eu passasse por diante do espelho
não vi meu quarto com as suas estantes
nem este meu rosto
onde escorre o tempo.

Vi primeiro uns retratos na parede:
janelas onde olham avós hirsutos
e as vovozinhas de saia-balão
Como pára-quedistas às avessas que subissem do
fundo do tempo.

O relógio marcava a hora
mas não dizia o dia. O Tempo,
desconcertado,
estava parado.

Sim, estava parado
Em cima do telhado...
Como um catavento que perdeu as asas!

*Mario Quintana

O rio


Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.

Um rio nasceu.



*Vinicius de Moraes

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Com fúria e raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras


Pois é preciso saber que
a palavra é sagrada
Que de longe muito longe
um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada


De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse


Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

*Sophia de Mello Breyner Andresen

Canção Amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

*Carlos Drummond de Andrade

Mensageiro dos Tempos


Dann kenn ich dich, Kronion! dann hör ich dich,
Den weisen Meister, welcher, wie wir, ein Sohn
Der Zeit, Gesetze gibt und, was die
Heilige Dämmerung birgt, verkündet.

***

Então reconheço-te, filho de Cronos! Então escuto-te,
Sábio mestre, que tal como nós, filho do tempo,
Decretas leis, e , ao mesmo tempo, anuncias
O que o santo crepúsculo esconde.




*Friedrich Hölderlin