terça-feira, 17 de março de 2009

O Homem Furioso


" Não ouviram falar daquele homem em fúria que, numa manhã clara, acendeu uma lanterna, correu pela praça pública e gritou incessantemente: "Procuro Deus! Procuro Deus!" - Como justamente aí se encontravam muitos daqueles que não acreditavam em Deus, provocou uma grande hilariedade. " Então ele extraviou-se?", disse um "Perdeu-se como uma criança?" disse outro. " Ou está ele escondido? Tem medo de nós? Emigrou?", assim gritavam e riam em confusão.

O homem em fúria saltou para o meio deles e trespassou-os com o olhar. "Para onde foi Deus", gritou, "eu vou dizer-vos! Nós matamo-lo-vós e eu! Nós todos somos os seus assassinos! Mas como fizemos nós isto? Como pudemos nós tragar o mar inteiro? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos quando desligamos esta terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não continuamos sempre a cair? (...)Há ainda um em cima e um em baixo? Não erramos como através de um nada infinito? (...)Ainda não ouviram nada do ruído dos coveiros que sepultam Deus? Não cheiramos ainda nada da decomposição divina? - Também os deuses entram em decomposição! Deus morreu! Deus permanece morto! E nós matámo-lo! Como nos consolaremos nós os assassinos de todos os assassinos? Aquilo que o mundo possuiu até agora de mais poderoso sangrou sob as nossas facas - quem limpará de nós este sangue? "(...)

Aqui o homem em fúria calou-se e olhou de novo para os seus auditores: também eles se calaram e encaram-no com estranheza. Por fim, lançou a lanterna ao chão, que saltou em pedaços e se apagou. " Venho demasiado cedo" disse então " não estou ainda na altura. Este acontecimento tremendo está ainda a caminho - não atingiu ainda os ouvidos dos homens."

*Friedrich Nietzsche em "A Gaia Ciência"

Que dizer desse homem; o coração mais revolto e ao mesmo tempo o mais amoroso, incompreendido por ser audaz. O visionário sem pudor, crucificado pela coragem de vomitar todo o nosso lixo em nossas próprias caras, homens, contemplai o absurdo de existir nesse mundo. Viva a verdade que ainda tardamos em alcançar, viva Friedrich Wilhelm Nietzsche!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Conjetura

A mente existe, como máquina ou armadilha.
O corpo imaterial (caminha) como sombra ou idéia,
Tudo o que poderia ser e não foi,
Todos os sorrisos, todas as lágrimas
Amordaçados pelo abismo surdo do tempo,
O cão que nunca tive, meu filho que jamais irá nascer...
Que importa se as pessoas se matam inconscientes?
A vida prossegue; Em formas insuspeitadas.

*Leandro M. de Oliveira

(Madrugada, madrugada. Minha mãe, minha prostituta...)

terça-feira, 10 de março de 2009

O problema da existência no tempo


A vida só é curta se a coloco no patíbulo do tempo. As suas possibilidades só são limitadas se me ponho a contar o número de palavras ou livros que a morte me dará ainda tempo de descobrir. Mas porque me hei-de eu por a contar? No fundo, o tempo de nada serve, inútil instrumento de medida que só regista o que a vida já me trouxe. Na verdade nada do que é importante e acontece e me faz vivo, tem a ver com o tempo. O encontro com um ser amado, uma carícia na pele, a ajuda no momento crítico, a voz solta de uma criança, o frio gume da beleza - nada disso tem horas e minutos. Tudo se passa como se não houvesse tempo. Que importa se a beleza é minha durante um segundo ou por cem anos? A felicidade não só se situa à margem do tempo, como nega toda a relação deste com a vida.
Assim, num só movimento, liberto os ombros do peso de dois fardos: o tempo e as tarefas que teimam em me exigir. Nem a vida é mensurável, nem viver é uma tarefa. O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há-de sê-lo a vida humana - força surda a crescer na dor da perfeição? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz - mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver? Faz máquinas? Escreve livros? Faça o que fizer, poderia muito bem fazer outra coisa. Não é isso que importa. Importa é saber-se um fim autônomo, que repousa em si mesmo como uma pedra sobre a areia.


*Stig Dagerman

A los espacios


A los espacios entregarme quiero 
Donde se vive en paz, y con un manto 
De luz, en gozo embriagador henchido, 
Sobre las nubes blancas se pasea, ? 
Y donde Dante y las estrellas viven. 
Yo sé, yo sé, porque lo tengo visto 
En ciertas horas puras, cómo rompe 
Su cáliz una flor,? y no es diverso 
Del modo, no, con que lo quiebra el alma. 
Escuchad, y os diré: ?viene de pronto 
Como una aurora inesperada, y como 
A la primera luz de primavera 
De flor se cubren las amables lilas... 
Triste de mí: contároslo quería 
Y en espera del verso, las grandiosas 
Imágenes en fila ante mis ojos 
Como águilas alegres vi sentadas. 
Pero las voces de los hombres echan 
De junto a mí las nobles aves de oro: 
Ya se van, ya se van: ved cómo rueda 
La sangre de mi herida. 
Si me pedís un símbolo del mundo 
En estos tiempos, vedlo: un ala rota. 
Se labra mucho el oro, el alma apenas!? 
Ved cómo sufro: vive el alma mía 
Cual cierva en una cueva acorralada:? 
¡Oh, no está bien: 
me vengaré, llorando!

*José Martí

Alba

Mi corazón oprimido 
Siente junto a la alborada 
El dolor de sus amores 
Y el sueño de las distancias. 
La luz de la aurora lleva 
Semilleros de nostalgias 
Y la tristeza sin ojos 
De la médula del alma. 
La gran tumba de la noche 
Su negro velo levanta 
Para ocultar con el día 
La inmensa cumbre estrellada. 

¡Qué haré yo sobre estos campos 
Cogiendo nidos y ramas 
Rodeado de la aurora 
Y llena de noche el alma! 
¡Qué haré si tienes tus ojos 
Muertos a las luces claras 
Y no ha de sentir mi carne 
El calor de tus miradas! 
¿Por qué te perdí por siempre 
En aquella tarde clara? 
Hoy mi pecho está reseco 
Como una estrella apagada.


*Federico García Lorca

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Poema de uma Quarta -Feira de Cinzas


Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
feita de sonho e de desgraça...

o seu delírio manso agrupa
atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa...
indiferente a tais ataques,

Nublaba a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...




*Manuel Bandeira

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Carnaval ?


Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
que tudo emborca e faz caco...
Evoe' Baco!

La se me parte a alma lavada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoe' Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lividos venenos ...
Evoe' Venus!

Se perguntarem: Que mais queres,
Alem de versos e mulheres?...
- Vinhos!... o vinho que e meu fraco!...
Evoe' Baco!

O alfange rutilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu nao domo!...
Evoe' Momo!

A Lira eterea, a grande Lira!...
Por que eu extatico desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoe' Venus!
 


*Manoel Bandeira (publicada em 1918)

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.



*Drummond de Andrade

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Antologia Grega: Paladas de Alexandria



1.
Só isso, a vida: um instante de prazer. Para longe, mágoas.
Se é tão breve a existência dos homens, que venha Baco
com as suas danças, coroas de flores, mulheres.
Hoje eu quero ser feliz - ninguém sabe nada do amanhã. (5.72)

2.
Fortuna que retalhaste sempre a vida,
desnaturando-lhe o vinho sem mistura,
agora que taverneira, não mais deusa,
te dedicas a misturar e a servir,
tens ofício mais conforme ao teu caráter. (9,180)

3.
Ouro, pai dos aduladores,filho da aflição e do cuidado,
não te possuir dá medo e possuir-te aflição. (9.394).

4.
Admirou-me ver, nas encruzilhadas, o brônzeo filho
de Zeus, tão invocado outrora, ora por terra,
e irado exclamei: "Oh trilunar que nos guarda dos males
e nunca foste derrotado, hoje tombaste".
Mas de noite, ao pé do leito, Héracles disse-me a sorrir:
"Embora deus, aprendi a sujeitar-me aos tempos". (9.441)

5.
A filha do gramático ajuntou-se e teve uma criança
do gênero masculino, feminino e neutro. (9.489)

6.
Muita coisa pode acontecer entre o cálice e o lábio. (10.32).

7.
Se lembrares, homem, como foste por teu pai gerado,
esquecerás as idéias de grandeza.
Platão, o sonnhador, encheu tua cabeça de empáfia
ao te chamar de imortal, planta celeste.
De barro és feito; por que a presunção? Só fala assim
quem se compraz em fingimentos vistosos.
Mas se buscas a verdade, recorda que vieste de um
ato de luxúria e de uma gota suja. (10.45)

8.
A inveja, segundo Píndaro, é melhor que a compaixão;
os invejados levam uma vida esplêndida,
enquanto aos desgraçados lamentamos. Mas eu não queria
ser rico por demais nem motivo de pena.
O meio termo é ideal, pois a opulência extremada
traz perigos e a extremada penúria insultos. (10.51)

9.
Vim nu à terra e nu irei para debaixo dela.
Por que canseiras vãs se o fim é só nudez? (10.58)

10.
A espera da morte é causa de aflição dolorosa;
dela se poupa o mortal quando perece.
Por conseguinte, não lamentes quem desta vida se foi:
além da morte não existe mais dor. (10.59)

11.
Enriqueces; e daí? Quando morreres, a riqueza por acaso
te seguirá ao te arrastarem para o túmulo?
No juntá-la gastaste o teu tempo de vida; não poderias
pagar por ela preço mais exorbitante. (10.60)

12.
Navegação perigosa, a vida: em meio às tempestades,
somos às vezes mais de lastimar que náufragos.
Tendo como piloto de nossas vidas a Fortuna,
incertamente é que vogamos no mar alto;
uns fazem boa viagem, outros ao contrário, mas
todos chegam ao mesmo porto sob a terra (10.65).

13.
Um palco, a vida, e uma comédia; ou aprendes a dançar, deixando
a sisudez de lado, ou lhe aguentarás as dores. (10.72)

14.
Acaso estamos mortos e só aparentamos
estar vivos, nós gregos caídos em desgraça,
que imaginamos a vida semelhante a um sonho,
ou estamos vivos e foi a vida que morreu? (10.82).

15.
Creio que o deus é também um filósofo.
As blasfêmias não o irritam desde logo,
mas com o passar do tempo, ele aumenta os castigos
dos mortais miseráveis e perversos. (10.94)

16.
Todos os mortais têm de pagar a dívida da morte
pois ninguém sabe se amanhã estará vivo.
Aprende bem esta lição e cuida de alegrar-te, oh homem,
que tens no vinho o esquecimento do teu fim.
Deleita-te com Afrodite nessa tua vida efêmera
e deixa a Fortuna cuidar de todo o resto. (11.62)

17.
Quem por desgraça se casou com mulher feia
vê o escuro da noite quando acende as lâmpadas.(11.287)

18.
Toda mulher desperta cólera, salvo em dois bons momentos:
um quando na cama, o outro quando na campa. (11.381).

19.
Melhor louvar, a repreensão sempre traz inimizade.
Falar mal todavia é puro mel ático.(11.341)

20.
A cólera de Aquiles foi motivo, para mim também,
de funesta pobreza ao me tornar gramático.
Prouvera com os gregos me matasse aquela cólera antes
que me arruinasse a amarga fome da gramática.
No entanto, para que Agamemnon raptasse Briseida e Páris
roubasse Helena, foi que me fiz indigente.(9.169)



*Tradução: José Paulo Paes. Fonte: Paladas de Alexandria, epigramas. São Paulo: Alexandria, 1992.


Se não Falas


Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.



*Rabindranath Tagore - Poeta, contista, dramaturgo e crítico de arte hindu; nascido em Calcutá. Nasceu no dia 7 de Maio de 1861. Ele foi o maior poeta moderno da Índia e o gênio mais criativo da renascença indiana.Além de poesia, Tagore escreveu canções (letras e melodias), contos, novelas, peças de teatro (em prosa e verso), ensaios sobre diversos temas incluindo críticas literárias, textos polêmicos, narrativas de viagens, memórias e histórias infantis: O Jardineiro, O Carteiro do Rei, e Pássaros Perdidos. Grande parte de sua obra está escrita em Bengali. Gitanjali (1912), uma tradução e interpretação de uma obra poética em Bengali do original de 1910 fez com que Tagore ganhasse o Prêmio Nobel de Literatura em 1913.
Seu pensamento abriu novos caminhos para a interpretação do misticismo, procurando atualizar as antigas doutrinas religiosas nacionais. Colaborou em revistas americanas, tendo obras publicadas em francês, inglês e espanhol . Realizou conferências no Uruguai, Argentina, França, Estados Unidos. Recebeu o título de "Doutor Honoris Causa e Membro Honoris Causa" de universidades e associações do Brasil e outros países, e de Oficial da Legião de Honra da França e da Ordem do Leão Branco da Tcheco-Eslováquia.
Morr
eu em 7 de agosto de 1941 na casa onde nasceu, em Calcutá.