terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Nalgum Lugar...


somewhere i have never travelled, gladly beyond  

by E. E. Cummings 


somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look will easily unclose me

though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,

as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,

rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)

nobody, not even the rain, has such small hands

Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além

E. E. Cummings

Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
De qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
No teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
Ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
Embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
Me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

Ou se quiseres me ver fechado, eu e
Minha vida nos fecharemos belamente, de repente
Assim como o coração desta flor imagina
A neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

Nada que eu possa perceber neste universo iguala
O poder de tua intensa fragilidade: cuja textura
Compele-me com a cor de seus continentes,
Restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
E abre; só uma parte de mim compreende que a
Voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)

Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

*Tradução Augusto de Campos.


O despertar tardio


274 

O problema dos que esperam. Requer sorte e muito daquilo que é incalculável para um ser humano superior, no qual dorme a solução de um problema , chegue a agir – “irromper”, poder-se-ia dizer – no momento certo. Geralmente isso não ocorre e em todos os cantos da Terra há pessoas esperando que dificilmente sabem em que medida esperam, mas menos ainda que estão esperando em vão. Às vezes a chamada do despertar, aquele acontecimento fortuito que dá “permissão” para agir, só vem tarde demais – quando a melhor parte da juventude e a força para agir já se desgastaram na postura imobilizada; e quantos homens descobriram, para o seu horror, ao “se levantarem”, que seus membros haviam ido dormir e seu espírito já se encontrava demasiado pesado! “É tarde demais!” – disseram a si mesmos, tendo perdido a fé em si próprios e daí por diante inúteis para sempre. Poderia ser que no domínio do gênio, “Rafael sem as mãos” fosse, tomando a frase no seu sentido mais lato, não a exceção mas a regra? Talvez o gênio não seja tão raro: talvez o que seja raro sejam as quinhentas mãos necessárias à tiranização do “Kairós”, o “momento justo” – para apanhar o acaso da melhor maneira! 

*F. Nietzsche - Além do Bem e do Mal

Memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.


*Drummond de Andrade

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Um instante


Aqui me tenho
Como não me conheço
  nem me quis


sem começo
nem fim

  aqui me tenho
  sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
  transparente
*Ferreira Gullar

O Refúgio da Arte (por Sigmund Freud)


"Fomos assim conduzidos a abordar a análise da produção literária e artística em geral. Reconhecemos que o reino da imaginação era uma "reserva" organizada quando da passagem dolorosamente experimentada do princípio do prazer ao princípio da realidade, a fim de permitir um substituto à satisfação instintiva a que era preciso renunciar na vida real. 


O artista retira-se para longe de uma realidade que o não satisfaz, para um mundo imaginário, mas (...) pretende encontrar um caminho de regresso e reafirmar-se na realidade. As suas criações, as suas obras de arte, são satisfações imaginárias de desejos inconscientes, tal como sonhos, com os quais aliás tinham em comum a característica de serem um compromisso, pois também elas deveriam evitar um conflito aberto com as potências de recalcamento."


*Freud, A minha vida e a psicologia


"Apenas num único campo da nossa civilização foi mantida a onipotência de pensamentos e esse campo é o da arte. Acontece que na arte um homem consumido por desejos efetua algo que se assemelha à realização desses desejos e fá-lo com um sentido lúdico que produz efeitos emocionais – graças à ilusão artística – como se fosse algo real. As pessoas falam com justiça da ‘magia da arte’ e comparam os artistas com mágicos. Mas a comparação talvez seja mais significativa do que pretende ser. Não pode haver dúvida de que a arte não começou como arte por amor à arte. Ela funcionou originalmente ao serviço de impulsos que estão hoje, em sua maior parte, extintos. E entre eles, podemos suspeitar da presença de muitos instintos mágicos."

*Freud, Totem e tabu 

O processo do raciocínio


Raciocinar em filosofia é semelhante a raciocinar em outras áreas. Frequentemente raciocinamos acerca de questões como 'Quem cometeu o crime?', 'Que carro comprar?', 'Há um número primo maior do que todos?' ou 'Como curar o cancro?' Ao abordar estes temas, clarificamos as questões e colhemos informação de fundo. Consideramos o que outros disseram sobre o assunto. Consideramos perspectivas alternativas e as objeções a estas. Fazemos distinções e pesamos os prós e contras. O clímax do processo atinge-se quando tomamos posição e tentamos justificá-la. Explicamos que a resposta tem de ser tal e tal e apontamos para outros fatos que justificam a nossa resposta. Isto é raciocínio lógico, no qual vamos das premissas para uma conclusão. 
Raciocinar logicamente é concluir algo a partir de algo diferente. Por exemplo, concluir que foi o mordomo que cometeu o homicídio a partir das crenças (1) ou foi o mordomo ou a criada e (2) a criada não pode ter sido. Se colocamos o racicínio em palavras temos um argumento - uma série de proposições consistindo em premissas e uma conclusão:

Ou foi o mordomo ou a criada.
A criada não foi.
Logo, foi o mordomo.

[…] Este argumento é válido, o que significa que a conclusão se segue logicamente das premissas. Se as premissas são verdadeiras, então a conclusão tem de ser verdadeira. Portanto, se podemos ter confiança nas premissas, podemos estar confiantes de que foi mordomo que cometeu o crime.
Dizer que um raciocínio é válido é dizer que a conclusão se segue das premissas e não que as premissas são verdadeiras. Para provar algo precisamos, além da validade do argumento, de premissas verdadeiras. Provamos a nossa conclusão se ela se segue logicamente de premissas claramente verdadeiras.  
A filosofia envolve muito raciocínio lógico. A forma mais comum de raciocínio lógico em filosofia consiste em atacar-se uma tese P argumentando que ela conduz ao absurdo Q:

Se P é verdadeiro, então Q também o será.
Q é falso.
Logo, P é falso.

Ao examinarmos uma tese, consideramos as suas implicações e vamos à procura das falhas. Se encontramos implicações claramente falsas, então mostramos que a tese é falsa; se encontramos implicações altamente duvidosas, então a tese é duvidosa.
Na formação das nossas perspectivas filosóficas são igualmente importantes o raciocínio e o empenho pessoal. O raciocínio só por si não resolve todas as disputas. Uma vez considerados os argumentos de um lado e de outro, temos de tomar uma decisão. Se nos decidimos por uma perspectiva que levanta fortes objeções, temos de estar à altura de lhes responder.

*Harry Gensler, Ethics - A Contemporary Introduction. (London & New York, 1998, p. 3). Tradução de Carlos Marques.

Os padrões artificiais geradores de angústia e desespero no homem



Depois de um recesso de fim de ano voltamos aos trabalhos desse blogue apresentando breves comentários sobre as causas da angústia humana a partir da análise de esteriótipos criados por Soren Kierkegaard. Esse pequeno texto que segue foi escrito através da solicitação de um leitor após discutirmos a questão dos perfis artificiais que compõem a sociedade, não é um trabalho definitivo, apenas um esboço do qual pretedemos melhorar. Por hora serve de ponto inicial das primeiras discussões. Aos interessados meu contato é orpheu999@hotmail.com, aos leitores antigos, é bom tê-los de volta, e aos novos, sejam bem-vindos. Ai vaí...

             

                     "De uma forma geral, pode se dizer que na vida há três caminhos ou sendas que o indivíduo acaba escolhendo de maneira mais ou menos espontânea, de acordo com predileções particulares de cada qual, dentro dessas há uma série de subdivisões que serão descobertas a partir do sujeito em si. As três grandes vertentes são : A Estética, a ética, e a religiosa. 

 A primeira diz respeito ao homem comprometido com o prazer da vida, com o gozo de cada momento, é a caricatura tradicional do assim chamado irresponsável, do playboy; Já a vida no sentido ético, vem nos falar do tradicional pai de família, de um ser humano maquinalmente comprometido com as suas “obrigações”, trabalho, crença na sociedade etc; A última concepção de agir, a ação religiosa, vem inevitavelmente de encontro ao sentimento de impotência do homem ante a vastidão do mundo, o indivíduo religioso é alguém essencialmente desacreditado, ele busca uma realidade sobrenatural, tentando conceber a origem e o motivo das coisas. 
 A grande questão, entretanto, não é ter conhecimento dos comportamentos, mas sim ter ciência do ponto de partida para a ocorrência desses estereótipos. É necessário entender, a priori de qualquer reflexão, que o homem antes de ser envolvido em todo o arcabouço de valores sociais, tradicionais ou não, é ele um ser livre no sentido lato. E uma vez que se defronta com a realidade (artificial) do senso comum, ele (o homem) se sente acuado, nessa condição de pasmo com o próprio “eu”, se vê entregue. Hora pela falta de auto-crença, hora pela crença exacerbada em verdades alheias o ser se coloca em uma sub-condição de não governo e cria fugas diversas, pela projeção de uma imagem de potência (ideal estético), pela projeção de uma imagem de retidão (ideal ético) ou pela justificação de si numa sofismática transcendente (ideal religioso), mas por mais escravo que se apresente, por mais esquecido de si,no coração do homem, no recanto mais sombrio, existe um vulcão latente (a essência de cada um...) que se não se permitir caminho para a vazão de sua lava quando chega a erupção ela apenas atinge o seu próprio produtor. Quero dizer com isso que em linhas gerais as nossas personalidades ou modos pessoais de interagir em sociedade são de fundamentalmente artificiais, o homem sempre pauta suas ações em diretrizes impostas por linhas de pensamento que introjetam valores pré-fabricados no indivíduo, ou quando não fazem oposição a elas não deixando igualmente o traço de artificialidade, posto que ao se isolar da experiência perde-se a chance de conhecê-la ainda que seja apenas para melhor julgar e isso gera uma angústia. O afã pela novidade é algo próprio do homo sapiens, e viver algo estático é extremamente frustrante, então esqueça as regras e deixe-se envolver... 
 Homem se vê posto na linha de tiro entre o ser e o dever, a razão e o desejo, o teatro e a vida... Mas o tempo parece curto demais para se encenar tantos papéis. Se vencermos a nós mesmos não haverão mais adversários. Um velho mestre disse uma vez: “O HOMEM É UM DEUS ENFAIXADO !” Retirem-se as faixas e busque-se a verdade de cada um. Não é tão difícil a autenticidade é o único caminho. " 


Ps: Espero que esses comentários breves o auxiliem em suas reflexões.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Enxergua-me a alma


Enxergua-me a alma,
Antes que o dia feneça
Enxergua-me por completo.
Observe, além pele e músculo
Sou fúria e sonho, ideal e não existir...
Amiúde sou infinito, cotidiano sou ninguém,
Me recomponho na aragem do dia,
Me reinvento silente por entre esse caminho de imensidão.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

OS TRABALHOS DE MARIA E O LAMENTO DE JOSE


Em menção ao Natal e todo esse "espírito religioso" que aflora dentro sociedade ocidental nesse período do ano posto uma série de Helder Macedo da qual gosto muito. Espero que apreciem...


OS TRABALHOS DE MARIA E O LAMENTO DE JOSE

ANUNCIAÇÃO

Espada dúctil de fogo

negro sol latejando vertical

ave branca explodia no meu ventre

é sem partilha

o amor que me anuncias

nem é humana

ou tua

a sombra que cresceu sobre o meu corpo

e me alongou num fundo mar

sem esperança

pois não há esperança no mistério revelado

e o que a carne concebe

é já divino

porque sem comando.

NATIVIDADE

Latejar intervalado de orgasmo já em ferida.

Rotura. Espanto. Irreversível dor.

Um ventre inchado golfa a expectativa de si próprio.

Porém já fui pequena

já fui também pequena

e me nasceram seios

e me cresceram pelos

e o sexo me floriu

no afago quente

do primeiro sangue.

Um grito rouco. Um ventre rasgado de dentro.

Viscoso, um novo corpo

tomba

e limita a eternidade.

Fiquei então sozinha

no corpo que era meu

para que o desse.

E dei-o

e mo romperam

com amor.

Não tem olhos nem dentes, não tem nome,

digere, vage, suga,

é calvo, é mole, é outrem,

só fúria sem contornos de crescer.

E agora

por mim própria violada

me castrei.

O amor que existe

Começa e acaba em mim.

Como negar-me

Se eu fui quem me devora:

Mas fui pequena

mas fui também pequena.

O DESERTO

Agora o vazio

agora o deserto

agora o vazio

porque estou sem mim

agora o deserto

porque a vida que gerei

negou a vida

chorai chorai comigo

ou tapai-me a boca

com pedras e com estrume

chorai chorai chorai

porque aquele que tinha em si

a morte e a vida

escolheu a morte

essas vozes que ouvias

meu menino

essas vozes que ouviste

e chamavam por ti

não era a morte não

que a morte é muda

e quando a morte fala

é porque a vida

era a voz do que tu és

e não conheces

a chamar-te por ti

a chamar o seu dono

para lhe mostrar

que toda a eternidade

está contida

no teu corpo

que podes conhecer

a eternidade

pois não há outra

além de conhecê-la

no prazo temporário

do teu ser

e só ai

só em ti

porque ela é tão finita

como tu

é tão mutável

e tudo o que o não seja

é só o nada

nada

nada

ah chorai comigo

ou então matai-me

recusaste

ser tudo quanto és

recusaste

encontrar-te

face a face

com o segredo de ti

ou cegaste

quando o viste

e guardaste só nos olhos

a visão

que projectaste no vazio

e então morreste

antes de ser

pois és profeta

de mundos que não há

e não do mundo

e morreste

e morreste

e morreste antes de seres

e não deste o teu nome

à tua vida

e eu choro

choro

choro

sobre o teu pavor

de não teres alma

de não seres tu

a alma do teu corpo

e choro sobre mim

que te gerei

e pari morte

porque negaste

a vida que em mim tinha

e que te dei

e fiquei só

e estou sem nada

e o meu ventre está oco

é o vazio

e sequei

e sequei

como o deserto

CRUCIFICAÇÃO

O que ofereces não chega.

Tua vontade tem o teu tamanho]

e o corpo que lhe dás é o teu corpo

meu corpo anterior que me usurpaste.

Nem o reino que anuncias pode abrir-se

para ti

mais que os lábios rasgados do meu sexo.

Um parto é sem regresso.

E é já dos outros

a fé que rege o mundo

e que os teus braços breves esticou

num abraço maior do que podias.

Não o teu verbo

mas o teu corpo

eu quero

que nele se transformou o meu poder.

Morre sozinho

Se não crês em ti.

Meu ventre bifurcando lembra ainda

a forma imaculada do teu crânio.

RESSURREIÇÃO

E agora há morte

porque tu morreste

e agora já sou eu quem vai morrer

quando eu morrer

tu foste o sangue

mas eu sou a carne

devolveste-me a vida

quando acabaste a vida que te dei

e tenho medo agora

e já não sei

em que sonhos de ti me hei-de ocultar

teu cadáver não foi meu impunemente

pois desceste de ti

não ao teu ventre

mas ao ventre amorfo

e triturante

da terra

que te despojará da tua forma

corroendo de ti todo o meu ser

para ressuscitares

em nada

para sempre.

O LAMENTO DE JOSÉ

Amei. Não fui amado. Sem paixão.

O mundo que inventaste não permite

nem que o rancor defina o meu amor.

Teu corpo fecundei

inchou de mim

mas como um estupro do que te ofereci

recusaste a verdade do meu corpo

no filho que pariste

em vez do meu.

Meu destino cumpri em não ter sido.

Estou velho e só.

Que venha a morte

Mas que seja minha.

(De Poesia – 1957-1968)

*Helder Macedo - Poeta, romancista, ensaísta, crítico e investigador literário, nasce em 1935, em Krugersdorp, perto de Joanesburgo, África do Sul. Passa a infância em Moçambique até 1948, ano em que vem para Lisboa. Entre 1955 e 1959 frequenta a Faculdade de Direito de Lisboa. No ano seguinte, Helder Macedo instala-se em Londres, onde se licencia em Estudos Portugueses e Brasileiros e História. Em 1971, inicia a sua carreira académica no King’s College, em Londres — onde obtém o doutoramento na área de Letras, em 1974 —, passando, entre outras universidades, por Harvard (E.U.A.), pela EHECS (França) e pela Universidade de São Paulo (Brasil). Especializou-se nas obras de Camões, Bernardim Ribeiro e Cesário Verde, detendo, desde 1982, a cátedra Camões no King’s College. Colaborou na organização de várias antologias poéticas e assinou artigos ensaísticos em diversos jornais e revistas nacionais e internacionais.

O seu primeiro livro de poesia, Vesperal, foi publicado em 1957, marcando o início da sua obra poética.

Guillaume Apollinaire


LIENS

Cordes faites de cris

Sons de cloches à travers 1'Europe
Siécles pendus

Rails qui ligotez les nations
Nous ne sommes que deux ou trois hommes
Libres de tous liens
Donnons-nous la main

Violente pluie qui peigne les fumées
Cordes
Cordes tissées
Câbles sous-marins
Tours de Babel changées en ponts
Araignées-Pontifes
Tous les amoureux qu'un seul lien a liés

D'autres liens plus ténus
Blancs rayons de lumiére
Cordes et Concorde

J'ecris seulement pour vous exalter
O Sens ô sens chéris
Ennemis du souvenir
Ennemis du désir

Ennemis du regret
Ennemis des larmes
Ennemis de tout ce que j'aime encore

LAÇOS

Cordas feitas de gritos

Sons de sinos badalam pela Europa
Séculos suspensos

Trilhos ligando nações
Somos só dois homens ou três
Livres de todos os laços
Vamos de mãos dadas

Chuva violenta penteia a fumaça
Cordas
Cordas tecidas
Cabos submarinos
Torres de Babel transformadas em pontes
Aranhas-Pontífices
Todos os amantes que um só laço ligou
Outros laços mais tênues
Alvos raios de luz
Cordas e Concórdia

Escrevo só para celebrar vocês
Oh meus sentidos queridos
Inimigos da memória
Inimigos do desejo

Inimigos do pesar
Inimigos das lágrimas
Inimigos de tudo que amo agora


*Guillaume Apollinaire,
escritor francês de origem polonesa, nasceu em 1880. Poeta, estudioso de artes plásticas e dramaturgo, esteve ligado aos movimentos de vanguarda do início do século XX, como o cubismo e o futurismo. Lutou na I Guerra Mundial, sendo gravemente ferido; de volta a Paris, levou vida boêmia, desregrada, tendo inclusive publicado obras pornográficas para ganhar seu pão. Faleceu em 1918, ano de conclusão do conflito bélico. A poesia de Apollinaire, inovadora (sobretudo Alcools, de 1913, e Caligramas, de 1918) adotou recursos como o verso livre, a supressão da pontuação, as "palavras em liberdade" e recursos espaciais da caligrafia ideogrâmica chinesa. Apollinaire destacou-se também como dramaturgo (As Mamas de Tirésias, 1917), crítico de artes plásticas (Os Pintores Cubistas, 1913) e ensaísta (O Espírito Novo e os Poetas, 1946 ), e é de sua autoria o termo "surrealista". De sua enorme produção, é a poesia que ocupa o primeiro plano; além das coletâneas citadas, merecem destaque o Bestiário (1911), Choix de Poésies (1946), Poèmes Secrets a Madelaine(1949) e Poèmes (1962). Apollinaire exerceu notável influência sobre os modernistas brasileiros, nos anos 20, como Mário e Oswald de Andrade.