sábado, 13 de dezembro de 2008

DA ORIGEM DAS IDÉIAS


 Cada um admitirá prontamente que há uma diferença considerável entre as percepções do espírito, quando uma pessoa sente a dor do calor excessivo ou o prazer do calor moderado, e quando depois recorda em sua memória esta sensação ou a antecipa por meio de sua imaginação. Estas faculdades podem imitar ou copiar as percepções dos sentidos, porém nunca podem alcançar integralmente a força e a vivacidade da sensação original. O máximo que podemos dizer delas, mesmo quando atuam com seu maior vigor, é que representam seu objeto de um modo tão vivo que quase podemos dizer que o vemos ou que o sentimos. Mas, a menos que o espírito esteja perturbado por doença ou loucura, nunca chegam a tal grau de vivacidade que não seja possível discernir as percepções dos objetos. Todas as cores da poesia, apesar de esplêndidas, nunca podem pintar os objetos naturais de tal modo que se tome a descrição pela paisagem real. O pensamento mais vivo é sempre inferior à sensação mais embaçada.
          Podemos observar uma distinção semelhante em todas as outras percepções do espírito. Um homem à mercê dum ataque de cólera é estimulado de maneira muito diferente da de um outro que apenas pensa nessa emoção. Se vós me dizeis que certa pessoa está amando, compreendo facilmente o que quereis dizer-me e formo uma concepção precisa de sua situação, porém nunca posso confundir esta idéia com as desordens e as agitações reais da paixão. Quando refletimos sobre nossas sensações e impressões passadas, nosso pensamento é um re flexo fiel e copia seus objetos com veracidade, porém as cores que emprega são fracas e embaçadas em comparação com aquelas que revestiam nossas percepções originais. Não é necessário possuir discernimento sutil nem predisposição metafísica para assinalar a diferença que há entre elas. Podemos, por conseguinte, dividir todas as percepções do espírito em duas classes ou espécies, que se distinguem por seus diferentes graus de força e de vivacidade. As menos fortes e menos vivas são geralmente denominadas pensamentosou idéias. A outra espécie não possui um nome em nosso idioma e na maioria dos outros, porque, suponho, somente com fins filosóficos era necessário compreendê-las sob um termo ou nomenclatura geral. Deixe-nos, por tanto, usar um pouco de liberdade e denominá-lasimpressões, empre gando esta palavra num sentido de algum modo diferente do usual. Pelo termo impressão entendo, pois, todas as nossas percepções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou que remos. E as impressões diferenciam-se das idéias, que são as percepções menos vivas, das quais temos consciência, quando refletimos sobre quais quer das sensações ou dos movimentos acima mencionados.
          À primeira vista, nada pode parecer mais ilimitado do que o pensamento humano, que não apenas escapa a toda autoridade e a todo poder do homem, mas também nem sempre é reprimido dentro dos limites da natureza e da realidade. Formar monstros e juntar for mas e aparências incongruentes não causam à imaginação mais em baraço do que conceber os objetos mais naturais e mais familiares. Apesar de o corpo confinar-se num só planeta, sobre o qual se arrasta com sofrimento e dificuldade, o pensamento pode transportar-nos num instante às regiões mais distantes do Universo, ou mesmo, além do Universo, para o caos indeterminado, onde se supõe que a Natureza se encontra em total confusão. Pode-se conceber o que ainda não foi visto ou ouvido, porque não há nada que esteja fora do poder do pensamento, exceto o que implica absoluta contradição.
          Entretanto, embora nosso pensamento pareça possuir esta liber dade ilimitada, verificaremos, através de um exame mais minucioso, que ele está realmente confinado dentro de limites muito reduzidos e que todo poder criador do espírito não ultrapassa a faculdade de combinar, de transpor, aumentar ou de diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experiência. Quando pensamos numa montanha de ouro, apenas unimos duas idéias compatíveis, ouro e montanha, que outrora conhecêramos. Podemos conceber um cavalo virtuoso, pois o sentimento que temos de nós mesmos nos permite conceber a virtude e podemos uni-la à figura e forma de um cavalo, que é um animal bem conhecido. Em resumo, todos os materiais do pensamento derivam de nossas sensações externas ou internas; mas a mistura e composição deles dependem do espírito e da vontade. Ou melhor, para expressar-me em linguagem filosófica: todas as nossas idéias ou percepções mais fracas são cópias de nossas impressões ou percepções mais vivas.
          Para prová-lo, espero que serão suficientes os dois argumentos seguintes. Primeiro, se analisamos nossos pensamentos ou idéias, por mais compostos ou sublimes que sejam, sempre verificamos que se reduzem a idéias tão simples como eram as cópias de sensações pre cedentes. Mesmo as idéias que, à primeira vista, parecem mais dis tantes desta origem mostram-se, sob um escrutínio minucioso, deri­vadas dela. A idéia de Deus, significando o Ser infinitamente inteli gente, sábio e bom, nasce da reflexão sobre as operações de nosso próprio espírito, quando aumentamos indefinidamente as qualidades de bondade e de sabedoria. Podemos continuar esta investigação até a extensão que quisermos, e acharemos sempre que cada idéia que examinamos é cópia de uma impressão semelhante. Aqueles que dizem que esta afirmação não é universalmente verdadeira, nem sem exceção, têm apenas um método, e em verdade fácil, para refutá-la: mostrar uma idéia que, em sua opinião, não deriva desta fonte. Incumbir-nos-ia então, se quiséssemos preservar nossa doutrina, de mostrar a impres são ou percepção mais viva que lhe corresponde.
          Segundo, se ocorre que o defeito de um órgão prive uma pessoa de uma classe de sensação, notamos que ela tem a mesma incapacidade para formar idéias correspondentes. Assim, um cego não pode ter noção das cores nem um surdo dos sons. Restaurai a um deles um dos sentidos de que carecem: ao abrirdes as portas às sensações, pos sibilitais também a entrada das idéias, e a pessoa não terá mais difi culdade para conceber aqueles objetos. O mesmo fenômeno ocorre quando o objeto apropriado para estimular qualquer sensação nunca foi aplicado ao órgão do sentido. Um lapão ou um negro, por exemplo, não têm nenhuma noção do sabor do vinho. Apesar de haver poucos ou nenhum caso de semelhante deficiência no espírito, em que uma pessoa nunca sentiu ou que é completamente incapaz de um sentimento ou paixão próprios de sua espécie, constatamos, todavia, que a mesma observação ocorre em menor grau. Um homem de modos brandos não pode formar uma idéia de vingança ou de crueldade obstinada, nem um coração egoísta pode conceber facilmente os ápices da amizade e da generosidade. Em verdade, admitimos que outros seres podem possuir muitos sentidos dos quais não temos noção, por que as idéias destes sentidos nunca nos foram apresentadas pela única maneira por que uma idéia pode ter acesso ao espírito, isto é, mediante o sentimento e a sensação reais.
          Há, no entanto, um fenômeno contraditório que pode provar que não é absolutamente impossível que as idéias nasçam indepen­dentes de suas impressões correspondentes. Acredito que se concor daria facilmente que as várias idéias de cores diferentes que penetram pelos olhos, ou aquelas de sons conduzidas pelo ouvido, são realmente diferentes umas das outras, embora, ao mesmo tempo, parecidas. Ora, se isto é verdadeiro a respeito das diferentes cores, deve sê-lo igual mente para os diversos matizes da mesma cor; e cada matiz produz uma idéia diversa, independente das outras. Pois, se se negasse isto, seria possível, por contínua gradação dos matizes, passar insensivel mente de uma cor a outra completamente distante de série; se vós não admitis a distinção entre os intermediários, não podeis, sem ab surdo, negar a identidade dos extremos. Suponde, então, uma pessoa que gozou do uso de sua visão durante trinta anos e se tornou per feitamente familiarizada com cores de todos os gêneros, exceto com um matiz particular do azul, por exemplo, que nunca teve a sorte de ver. Colocai todos os diferentes matizes daquela cor, exceto aquele único, defronte daquela pessoa, decrescendo gradualmente do mais escuro ao mais claro. Certamente, ela perceberá um vazio onde falta este matiz, terá o sentimento de que há uma grande distância naquele lugar, entre as cores contíguas, mais do que em qualquer outro. Ora, pergunto se lhe seria possível, através de sua imaginação, preencher este vazio e dar nascimento à idéia deste matiz particular que, todavia, seus sentidos nunca lhe forneceram? Poucos leitores, creio eu, serão de opinião que ela não pode; e isto pode servir de prova que as idéias simples nem sempre derivam das impressões correspondentes, mas esse caso tão singular é apenas digno de observação e não merece que, unicamente por ele, modifiquemos nossa máxima geral.
          Eis, portanto, uma proposição que não apenas parece simples e inteligível em si mesma, mas que, se se fizer dela o uso apropriado, pode tornar toda discussão igualmente inteligível e eliminar todo jar gão, que há muito tempo se apossou dos raciocínios metafísicos e os desacreditou. Todas as idéias, especialmente as abstratas, são natural mente fracas e obscuras; o espírito tem sobre elas um escasso controle; elas são apropriadas para serem confundidas com outras idéias se melhantes, e somos levados a imaginar que uma idéia determinada está aí anexada se, o que ocorre com freqüência, empregamos qualquer termo sem lhe dar significado exato. Pelo contrário, todas as impres sões, isto é, todas as sensações, externas ou internas, são fortes e vivas; seus limites são determinados com mais exatidão e não é tão fácil confundi-las e equivocar-nos. Portanto, quando suspeitamos que um termo filosófico está sendo empregado sem nenhum significado ou idéia – o que é muito freqüente – devemos apenas perguntar: de que impressão é derivada aquela suposta idéia? E, se for, impossível designar uma, isto servirá para confirmar nossa suspeita. E razoável, portanto, esperar que, ao trazer as idéias a uma luz tão clara, removeremos toda discussão que pode surgir sobre sua natureza e realidade.



*David Hume - INVESTIGAÇÃO ACERCA DO ENTENDIMENTO HUMANO 1.748


sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

FAZ SENTIDO ARGUMENTAR ACERCA DA EXISTÊNCIA DE DEUS?


PERGUNTA
Têm sido propostos muitos argumentos que visam dar suporte à proposição que afirma que Deus existe. Até agora, parece que nenhum deles foi convincente. Pensa que é possível que um argumento que conclua ‘Deus existe’ venha a ser alguma vez convincente? Se um tal argumento não puder ser convincente, não podemos inferir que não é convincente nenhum argumento que procure estabelecer a existência de Deus? Ou pensa que podemos vir a tomar conhecimento de um argumento que possa ser convincente?

RESPOSTA (de Allen Stairs)
Se por “convincente” quer dizer algo como “acima de qualquer dúvida”, a resposta é quase de certeza não. No entanto, isto não é algo exclusivo dos argumentos acerca da existência de Deus. A tese que afirma que Deus existe tem pelo menos em comum com as teses filosóficas em geral o fato de haver bastante margem de manobra para se argumentar a favor ou contra.
Por outro lado, se a questão é se existem argumentos para acreditar em Deus que alguém possa achar convincentes sem caír na irracionalidade, a resposta é quase de certeza sim. Mas, uma vez mais, isto não é algo exclusivo dos argumentos acerca da existência de Deus. Pense no que quer que seja em que os filósofos estejam em desacordo e verificará que alguns filósofos no seu perfeito juízo se deixam convencer por argumentos que os outros não consideram persuasivos. 
Pode alguém, razoavelmente, considerar um argumento persuasivo, mesmo tendo consciência de que este dá azo a objeções que ainda não obtiveram resposta? Se um padrão de razoabilidade é alcançável pelos seres humanos, a resposta é também sim. Em parte, isto deve-se ao fato de haver duas maneiras de encarar objeções. Uma, é pensar nelas como refutações; outra, como problemas a resolver: ‘se calhar esta questão que me atormenta vai ser fatal para as minhas convicções’; ou ‘se calhar, com algum jeito, eu ou outra pessoa, acabaremos por descobrir uma resposta convincente’. Pessoas razoáveis podem diferir, e diferem, sobre como encarar cada caso. Na verdade, o fato de os filósofos e outro gênero de teóricos diferirem quanto a isto é uma das coisas que os vai mantendo ocupados!


Nosso tempo: Sociedade do Espectáculo (O parecer em detrimento do ser)


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A sociedade que repousa sobre a moderna indústria não é fortuitamente espectacular ou superficialmente espectacular, ela é fundamentalmente "espectalista". No espectáculo, imagem da economia reinante, a finalidade não é nada, o desenvolvimento tudo. O espectáculo não quer vir a ser outra coisa senão ele mesmo.

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Enquanto adereço indispensável dos objetos produzidos, enquanto exposição geral da racionalidade do sistema, enquanto setor econômico que forma diretamente uma multidão de imagens/objetos, o espectáculo é a principal produção da sociedade.

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O espectáculo submete os homens vivos na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Não há mais nada senão economia desenvolvendo-se a si mesma. O espectáculo é o reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores.

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A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social acarretou na definição de toda a realização humana uma degradação evidente, degradação do ser no haver. A presente fase da ocupação total da vida social através dos resultados acumulados da economia, conduz a um deslizamento generalizado do haver no parecer, do qual todo o haver efetivo deve tirar o seu prestígio imediato e a sua última função (parecer). Ao mesmo tempo, toda a realização individual tornou-se social, diretamente dependente da força social, formada por ela. Aqui, quando nada é, permitem-lhe aparecer.


*Guy Debord, La société du Spectacle (Gallimard, Paris 1992).

Retirando o tom apologético e datado na forma como simplifica as relações sociais e econômicas de modo a obter um produto discursivo inflamante , a leitura de Debord não deixa de fazer todo o sentido e obrigar-nos a pensar de novo este produto imagem/espectáculo onde as verdadeiras motivações do sistema são apagadas ou elididas. Um sistema que se mostra e autopromove a todo o momento numa espécie de máquina histórica que submete as relações individuais e sociais, mesmo aquelas que supostamente se queriam marginais, a um efeito promocional; de fato à luz desta leitura nenhum discurso parece poder escapar a este efeito de globalização.

domingo, 7 de dezembro de 2008

O fim?


UMA CRIATURA



Sei de uma criatura antiga e formidável, Que a si mesma devora os membros e as entranhas, Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas; E no mar, que se rasga, à maneira de abismo, Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo. Cada olhar que despede, acerbo e mavioso, Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo, Gosta do colibri, como gosta do verme, E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme; E caminha na terra imperturbável, como Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo Vem a folha, que lento e lento se desdobra, Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra: Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto; E é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto; Começa e recomeça uma perpétua lida, E sorrindo obedece ao divino estatuto. Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a vida.



*Machado de Assis (Ocidentais, in Obras completas, 1901.)

A necessidade da descoberta de um sentido de ética


FILOSOFIA MORAL
Fazer filosofia moral (ou Ética) é raciocinar sobre as questões fundamentais da moralidade. [Há] duas questões principais:

Metaética
Qual é a natureza dos juízos morais e qual a metodologia que lhes está subjacente?

Ética normativa
Quais os princípios segundo os quais devemos viver?

A filosofia moral tem assim dois ramos principais.
metaética estuda a natureza dos juízos morais e a metodologia a estes subjacente. Faz perguntas como: O que significam ‘bem’ e ‘dever’? Há verdades morais? Como podemos justificar e defender racionalmente o que pensamos sobre o que é moral ou imoral?
Uma perspectiva metaética contém normalmente duas partes. Uma delas diz respeito à natureza dos juízos morais e traduz-se habitualmente numa definição de “bem”. A outra parte tem a ver com metodologia, com o modo como os princípios morais são escolhidos. Por exemplo, o relativismo cultural diz:

 “Bom” significa “socialmente aceite.”
 Escolhe os teus princípios morais de acordo com o que é socialmente aceite.

O relativismo cultural baseia a moralidade nas convenções sociais. Outras perspectivas baseiam-na, por exemplo, em sentimentos pessoais, na vontade divina ou em verdades auto-evidentes.
ética normativa estuda os princípios segundo os quais devemos viver. Faz perguntas como: Quais os princípios básicos do moral e do imoral? Que coisas valem a pena nesta vida? Como deve ser a sociedade justa? O que faz de alguém uma boa pessoa? Quais são os direitos humanos básicos? O aborto é moral ou imoral? A ética normativa tem dois níveis. A teoria normativa procura princípios morais muito gerais, como “Devemos sempre fazer o que maximiza o prazer para o maior número de pessoas.” A ética normativa aplicada estuda questões morais em áreas específicas, como o aborto ou a mentira. Ambos os níveis formulam e defendem princípios morais. Dizem coisas como “Devemos fazer isto e aquilo…”
A metaética é o ramo mais básico da filosofia moral, pois estuda o método que permite determinar quer os princípios morais, quer a ética normativa. (…)

PORQUÊ ESTUDAR ÉTICA?
Consigo lembrar-me de três razões para estudar filosfia moral – para além do facto de muitos de nós a acharem muito interessante.
Primeiro, a filosofia moral pode tornar mais profunda a nossa reflexão sobre as questões mais fundamentais da vida. Isto tem valor em si mesmo, independentemente dos seus benefícios práticos. Quem ainda não enfrentou algumas das mais profundas questões da vida não é uma pessoa bem formada.
Segundo, a filosofia moral pode ajudar-nos a pensar melhor sobre a moralidade. Quando fazemos juízos morais estamos implicitamente a pressupor uma certa visão da moralidade ou uma mistura confusa de visões. A nossa visão, boa ou má, defensável ou não, oferece-nos uma perspectiva a partir do qual pensamos e agimos. A filosofia moral pode melhorar a nossa perspectiva, tornando-a mais reflectida e melhor pensada. Pode também melhorar os nossos pensamentos acerca de questões específicas.
À medida que crescemos é-nos dito constantemente o que é bom e o que é mau, o que devemos e o que não devemos fazer. Os nossos pais dizem-nos isto, assim como os nossos professores, amigos e sociedade em geral. Chega um dia em que temos de escolher de entre estes valores e formar as nossas próprias convicções. Mas como podemos fazê-lo da melhor maneira e do modo mais prudente? Esta é a questão central da filosofia moral.
Um terceiro objectivo da filosofia moral é o de aguçar os nossos processos mentais em geral. Quando fazemos filosofia adquirimos aptidões intelectuais importantes. Aprendemos a pensar com rigor sobre questões fundamentais – a compreender e a avaliar pontos de vista em conflito – a expressar as ideias com clareza e a raciocinar cuidadosamente. Estas aptidões são de grande valor para a vida real e a filosofia, como nenhuma outra coisa, pode ajudar ao desenvlvimento destas aptidões.



*Harry J. Gensler, Ethics. A Contemporary Introduction (London and New York, 1998, pp. 4-6). Tradução Carlos Marques.

Nel Mezzo del Camin…


Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.




segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Da Vida Feliz


“ Dizemos que o prazer é o começo e o fim da vida feliz. Sabemos que ele é o bem primeiro e conforme à nossa natureza e é dele que derivamos toda a escolha e toda a rejeição. (…) Há casos em que excluímos muitos prazeres se daí resultar para nós aborrecimento, julgamos muitas dores preferíveis aos prazeres quando dos sofrimentos que suportamos resulta para nós um prazer mais elevado.
Assim, todo o prazer é, em si mesmo, um bem, mas nem todo o prazer deve ser procurado; do mesmo modo, toda a dor é um mal, mas nem toda a dor deve ser evitada.
Deste modo, para decidir, convém analisar atentamente o que é útil e o que é prejudicial, porque usamos, às vezes, o bem como se fosse um mal e o mal como se fosse um bem.”

*Epicuro, Carta a Meneceu

ARGUMENTUM AD HOMiNEM


Uma das falácias mais difíceis de expor e também uma das mais comuns chama-se 'argumentum ad hominem'. Esta designação refere-se a um argumento que é dirigido CONTRA A PESSOA E NÃO CONTRA O QUE A PESSOA DIZ, A FIM DE SE MOSTRAR QUE O QUE A PESSOA DIZ NÃO PODE SER VERDADEIRO . A política dá-nos muitos exemplos de argumenta ad hominem. Suponhamos que um deputado de um partido de esquerda argumenta: 'É extremamente importante rejeitar a construção de centrais nucleares, pois os efeitos destas são nefastos para o ambiente no longo prazo.' Um deputado de direita poderia responder: 'Oh claro! Não podemos acreditar no que ele diz, pois ele é um homem de esquerda e sabemos que a esquerda está sempre a deitar abaixo o nuclear.' O deputado de direita está a dirigir o seu argumento contra o homem. Tentou refutar o que o deputado de esquerda disse referindo que este é partidário de uma ideologia oposta. Porém, esta refutação é baseada numa falácia, visto que a forma apropriada de refutar um tal argumento consistiria em reunir fatos que mostrassem que o que ele disse é falso - nomeadamente, que a construção de centrais não é assim tão nefasta para o ambiente.


O que faz com que o argumentum ad hominem seja tão persuasivo, e tão difícil de refutar, pode mostrar-se com o seguinte exemplo. Suponhamos que uma testemunha num tribunal está a depor e diz que viu o réu cometer um crime. Suponhamos, além disso, que ao interrogar a testemunha o advogado de defesa prova que esta já depôs em outros julgamentos e que em alguns casos o seu testemunho se veio a revelar falso (assumamos, para ajudar ao exemplo, que a testemunha chegou a ser condenada por perjúrio). A nossa tentação, enquanto juízes, seria a de não ter em conta o que a testemunha diz neste julgamento, pelo fato de esta não ser uma fonte de informação confiável. Contudo, não tê-lo em conta é incorrer na falácia do argumentum ad hominem. O que a testemunha diz nesta ocasião pode ser verdadeiro. Se possível, o seu testemunho devia ser testado confrontando-o com outra evidência disponível ou que pudesse vir a estar disponível durante o julgamento. Aquilo que é importante é reconhecer que devemos considerar o que é dito independentemente de quem o diz. NÃO PODEMOS MOSTRAR QUE UMA DECLARAÇÃO É FALSA APENAS PORQUE SE PODE MOSTRAR QUE O INDIVÍDUO QUE A PROFERE TEM FALTA DE CARÁCTER.




*Richard Popkin and Avrum Stroll,
"Philosophy Made Simple"

Breve consideração sobre o fim


Os marroquinos afirmam que a vida plena pressupõe a contemplação regular da morte. Concordo sem reservas. Infelizmente, sou incapaz de conceber a minha própria morte sem colocá-la na mise en scène bem mais terrível da velhice. Lá estou eu sem dentes, incapaz de me mexer, completamente dependente de alguém a quem pago para cuidar de mim e que, a qualquer momento, sai pela porta do quarto para não mais voltar. Claro que não é isto que os marroquinos entendem por contemplação da morte. Eles considerariam estes cenários da minha imaginação uma forma desprezível de medo. A terapia de uma cultura é a tortura de outra.
“ ‘Adeus’, diz o moribundo para o espelho que seguram diante de si. ‘Não voltaremos a ver-nos.’ ” Quando citei o epigrama de Valéry em The Sheltering Sky [o primeiro, e mais célèbre, romance de Paul Bowles], pareceu-me uma pequena fantasia pungente. Hoje, porque já não me imagino a mim próprio como espectador dessa cena, mas como o principal protagonista, ela parece-me repugnante. Para tornar o epigrama mais apropriado, o moribundo devia acrescentar três palavras à sua pequena despedida. Elas são: “Graças a Deus!”

*
Paul Bowles


Paul Bowles (1910-1999) foi um grande escritor norte-americano. Desde cedo se tornou um viajante incansável, acabando por fazer de Tânger a sua cidade de eleição. Nesta cidade marroquina viveu boa parte da sua longa existência, aí acabando também os seus dias. Na primeira fase de sua vida, dedicou-se sobretudo à música, tornando-se um compositor bastante requisitado. Foi, no entanto, a literatura que o tornou um nome incontornável. Escreveu quatro romances e inúmeros contos. A deambulação por paisagens (físicas e morais) estranhas e vertiginosas e a descida inexorável para o abismo são porventura os temas mais recorrentes na sua ficção. O contraste de uma prosa desapaixonada, exasperantemente descritiva, com a pungência das suas histórias, fazem de Paul Bowles um escritor do seu tempo e simultaneamente um escritor intemporal.

sábado, 29 de novembro de 2008

CHANSON D'AUTOMNE

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
* Paul Verlaine