
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
ANARQUISMO (Pequena Introdução às Idéias Libertárias) - Teotonio Simões

O QUE É O ANARQUISMO
Anarquia não é confusão. Anarquista não é bagunceiro. Anarquia, do grego: an (=sem) e arché (=poder). Anarquismo: movimento que luta por uma sociedade em que ninguém tenha poder sobre ninguém.
Também podem ser chamados de ácratas, defensores da Acracia, do grego: an (=sem) e kratos (=governo). Os ácratas, ou anarquistas, querem uma sociedade em que ninguém governe ninguém.
Pela ênfase que dão à liberdade e à negação de qualquer autoridade, são também conhecidos como libertários.
REBELIÃO RADICAL
O anarquismo é a revolta radical contra a sociedade autoritária que está aí, com seus preceitos, preconceitos e negação da liberdade individual. Para o anarquismo, o único limite à liberdade de cada um deveria ser a liberdade do outro.
O anarquismo defende a democracia direta, exercida por indivíduos que se organizam voluntariamente em federações que se confederam. Uma sociedade que se organizaria de baixo para cima, sem nenhuma autoridade..
Os anarquistas não acreditam nem em democracia representativa, nem em parlamentos, nem em eleições para eleger “representantes”. Para eles, legisladores e governantes só têm um interesse: manter o poder para eles mesmos.
AÇÃO DIRETA
Defendem ações diretas como greves, boicotes, resistência pacífica, desobediência civil, desrespeito a leis e regulamentos impostos. Ignorar e desobedecer o Poder (não conquistá-lo) é para eles a forma de destruí-lo.
A maioria dos anarquistas sempre condenou a violência. Mas como alguns optaram por ela (e isso mereceu destaque por parte de seus opositores) há quem generalize, identificando anarquismo com violência.
A opção pela ação direta e a negação da sociedade burguesa levou outros libertários a porem em prática suas idéias, vivendo de acordo com seus princípios, em comunidades alternativas ou individualmente.
ANTICAPITALISMO
Para o anarquismo, a igualdade é um meio para a liberdade. Não tem sentido igualdade sem liberdade. Mas a liberdade de fato só seria possível com a igualdade de fato.
Anarquistas foram socialistas, comunistas, coletivistas, mutualistas, cooperativistas. Mas sempre negadores do capitalismo e da sociedade burguesa e a favor da gestão dos meios de produção pelos próprios trabalhadores.
Para alguns (Tólstoi, Thoureau) a simplicidade e a negação do supérfluo (o que não lhe faz falta) seria o caminho para a igualdade. Para outros (Bakunin, Proudhon) isso só seria possível com o fim da propriedade privada.
SOCIALISMO
Socialistas, marxistas e anarquistas estiveram juntos na I Internacional. Os anarquistas, que denunciaram Marx e seguidores como autoritários, por pregarem a tomada do poder e não seu fim, foram expulsos em 1872.
Os anarquistas chegaram a apoiar a revolução russa de 1917. Mas logo passaram a denunciá-la como anti-libertária, pela perseguição aos anarquistas e pelo fortalecimento do Estado.
A existência de um Estado que se dizia operário debilitou o movimento anarquista. Alguns aderiram à Internacional de Lenin (III Internacional). Entre eles, os fundadores do PCB (Partido Comunista do Brasil). Outros continuaram denunciando o regime soviético.
INDIVIDUALISMO
Para o anarquismo, indivíduos livres são a realidade primeira e final da sociedade. São eles que, superando os condicionamentos, com sua ação e sua vontade, poderiam fazer a revolução social.
O anarquismo não aceita uma natureza humana, boa ou má. Afirma que o homem pode se aperfeiçoar, sendo cada vez mais livre, ajudando outros a se libertarem, sendo solidários.
Nem Servo, Nem Senhor! Os anarquistas não aceitam que ninguém tenha poder sobre eles. Nem querem ter poder sobre ninguém. Por isso enfatizam a solidariedade, não a competição.
ORGANIZAÇÃO
Ninguém deve ser impedido de se organizar. Mas ninguém deve ser obrigado a se organizar. O anarquismo, ao colocar a liberdade individual em primeiro plano, sempre privilegiou a organização voluntária.
Multiplicade de organizações. Liberdade irrestrita de auto-organização dos invidivíduos. Nenhuma organização definitiva. O respeito irrestrito às minorias. Estas são algumas das consequências da liberdade organizacional defendida pelo movimento anarquista.
O princípio federativo, com unidades menores que se federam para gerar unidades maiores, trabalhando voluntariamente juntas, é uma das formas de organização preferidas pelos libertários.Organizações em rede, não piramidais.
INTERNACIONALISMO
O anarquismo é internacionalista. Não aceita fronteiras, nem nações. Da mesma forma que não aceita o Estado. A fraternidade de todos, na liberdade e na igualdade é um objetivo anarquista.
A não-discriminação é outra conseqüência da posição libertária. O anarquismo é contra qualquer tipo de discriminação. O respeito às opções individuais é uma conclusão lógica do respeito à liberdade de cada indivíduo...
Daí a defesa das uniões livres, da educação livre, do amor livre, da liberdade de expressão, da liberdade feminina que encontramos em obras anarquistas, como, por exemplo, as peças de Ibsen.
AUTOGESTÃO
O anarquismo é autogestionário. Como não aceita o poder de uma pessoa sobre outra, não aceita a existência de chefes, nem de patrões, nem de burocratas, mas de um trabalho livremente coordenado.
Na educação, tem como objetivo liberar as crianças de toda autoridade moral, religiosa ou política. Defende a escola laica, não religiosa. O respeito pela vontade física, moral e intelectual de cada criança.
Nas artes e na cultura, a negação das escolas e de um bom gosto oficial. A livre manifestação estética é uma posição anárquica amplamente difundida.
ANTIGA ASPIRAÇÃO
A aspiração libertária é antiga. Lúcifer é reputado como tendo sido o primeiro a se rebelar contra a autoridade e o governo divinos, trazendo luz aos homens. É comparado por alguns libertários a Prometeu. Por outros, a Hermes Trimegisto.
Aristipo (400 A.C.) dizia que o prazer só poderia ser gozado por quem nem governasse nem fosse governado. Zenão propunha uma sociedade sem governo, com as pessoas só respeitando a lei moral.
Lao Tse dizia no Tao Te King: “onde o governo for mais lento e inativo, o povo será mais próspero. Onde o governo intervém e é eficiente, o povo está descontente.”
ANARQUISTAS
“Com que deleite deve todo (...) amigo da humanidade olhar para (...) a dissolução do governo político, esse engenho estúpido que tem sido a única causa perene dos vícios da humanidade.” — William Godwin.
“Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim para me governar é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo.” — P. J. Proudhon.
“O Estado não pode desistir da idéia de que suas leis e ordens são sagradas. E o indivíduo é considerado então como um ímpio (...) que está contra o Estado.” — Max Stiner
“Em uma palavra, nós rejeitamos toda autoridade e toda influência privilegiada, licenciada, oficial e legal, mesmo vinda de sufrágio universal, convencidos de que ela só pode vir em vantagem para uma minoria de exploradores contra os interesses da imensa maioria dos sujeitos a ela. Este é o sentido em que nós somos realmente anarquistas.” — Bakunin.
“O primeiro golpe na igualdade foi dado pela propriedade. O primeiro golpe na liberdade foi dado pelas sociedades políticas ou governos. Os únicos apoios da propriedade e dos governos são as leis religiosas e civis.” — Spartacus Weishaupt
“Tornando-nos anarquistas, declaramos guerra contra esta onda de iniquidade que eles colocaram em nossos corações. Declaramos guerra contra seu modo de agir, contra seu modo de pensar. Nós não queremos ser mandados. E dizendo isso não declaramos, ao mesmo tempo, que não queremos mandar em ninguém?” —Kropotikin.
“Reconheço que o poder, seja qual for, é uma praga. É por isso que eu professo o anarquismo.” — Louise Michel
“Se há um fato inegável atestado milhares de vezes pela experiência é o efeito corruptor da autoridade sobre os que a detêm.” — Federação do Jura da I Internacional-1871
PRIMEIRO DE MAIO
Chicago, maio de 1886. A polícia intervém em manifestação pelas oito horas de trabalho. Anarquistas são presos. Quatro enforcados. Mas suas palavras ainda ressoam:
“Todo anarquista é um socialista mas todo socialista não é necessariamente anarquista.”
Adolph Fischer — discurso no tribunal após ter sido sentenciado ao enforcamento — 1886.
“Eu desprezo vocês. Desprezo sua ordem: suas leis, sua autoridade baseada na força. Enforquem-me por isso.”
Louis Lingg — 1886 — Discurso no tribunal.
“...o estado em que uma classe domina e vive às custas de outra classe e chama isto de ordem está condenado a morrer e dar lugar a uma sociedade livre, associação voluntária, fraternidade universal.”
August Spies — 1886 — Discurso no tribunal
“Governo é para escravos; homens livres se governam.”
Albert Parsons — 1886 — Discurso no tribunal
LIBERTÁRIOS NO BRASIL
A autoridade gera sua contestação. Também no Brasil. Os quilombos são exemplos citados pelos anarquistas das aspirações de liberdade, igualdade e rebeldia contra a autoridade no Brasil.
Assumindo o anarquismo, já em 28-2-1835 aparece o jornal “Anarquista Fluminense”. Em 1848, o “Grito Anarquial”. Livros e jornais anarquistas de outros países chegam ao Brasil.
Em 1890, é constituída no Paraná a Colônia Cecilia, comunidade libertária idealizada por Giovanni Rossi, em 300 alqueires cedidos por D. Pedro II. Foi liquidada (pela República!) em 1892.
COMUNIDADES
Uma comunidade formada em Guararema por Artur Camagnoli em 1888 durou até os anos 30. Além da comunidades e sindicatos, escolas e sociedades de ajuda mútua eram formadas pelos anarquistas.
No Rio Grande do Sul foi estabelecida uma comunidade por migantes russos ucranianos em Erechim (atual Getúlio Vargas!). Foi um pólo de difusão das idéias libertárias no sul do País.
Com o aumento da migração, as idéias anarquistas frutificaram, reforçadas principalmente por italianos, portugueses e espanhóis já familiarizados com a corrente libertária da Internacional, predominante em seus países.
ANARCO-SINDICALISMO
O sindicalismo brasileiro nasceu livre, anti-estatal, libertário. A corrente majoritária era a anarco-sindicalista ou sindicalista revolucionária, que introduziu questões como a total redução do Estado e da autogestão operária.
Em 1906 foi realizado o I Congresso Operário com predominância anarquista, sendo fundada a primeira central de trabalhadores no Brasil, a COB (Confederação Operária Brasileira).
De 1908 a 1915, a COB publica “A Voz do Trabalhador”, difundindo idéias libertárias, anunciando livros, encontros, espetáculos, implantação de escolas modernas, greves e outras atividades nacionais e internacionais.
REPRESSÃO
Os anarquistas e o movimento sindical revolucionário eram perseguidos. A “lei” Afonso Gordo previa a deportação de estrangeiros. Mesmo antes da “lei”, no início do século, haviam sido expulsos do Brasil Galileu Botti, diretor do jornal Gli Schiave Bianchi e assassinado Polinice Mattei.
O Brasil fazia parte do roteiro de visitas dos militantes anarquistas, como Errico Malatesta. Gigi Damiano, após ter sido expulso do Brasil, colaborou com ele no Umanità Nuova na Itália.
Anarquistas não eram só imigrantes. Anarquistas foram Fábio Luz, Martins Fontes, Rocha Pombo, Lima Barreto, Afonso Schimidt, Hélio Silva, José Oiticica, Maria Lacerda de Moura.
ANARQUISMO HOJE
No Mundo
Se nos movimentos da década de 60 ecoavam idéias libertárias, hoje elas estão presentes em Organizações Não Governamentais (ONGs), coletivos libertários, livros e comunidades. E, claro, na Internet. A propósito, você já reparou bem na letra do “Imagine” de John Lennon?
Temas centrais do anarquismo, como a negação de todo poder, de todas as leis e de qualquer Estado continuam presentes em manifestações sobre antigas questões sociais e outras, novas, como aborto, drogas, minorias e ecológicas.
No Brasil
Há um interesse crescente pelo anarquismo. Peças teatrais foram montadas, como Bella Ciao. Em 7 de abril de 1994, Suplemento Zap de “O Estado de São Paulo” publicou matéria sobre jovens anarquistas brasileiros. E, claro, eles podem ser encontrados facilmente na Internet.
*Esta pequena apresentação das idéias libertárias foi, originalmente, desenvolvida para a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, como parte de um projeto de Exposições Itinerantes. Que eu saiba, foi feita uma exposição em São Caetano do Sul. Imagino que ainda esteja disponível na Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo para Escolas interessadas. Tomar contato com as idéias libertárias foi muito importante para mim, lá no distante ano de 1968. A partir delas, não apenas me foi possível fazer uma crítica mais sólida do Sistema em que vivemos, como também do “socialismo real”, burocrático e autoritário. Desde então, o livre pensamento me conduziu ao Novo Humanismo, como uma das expressões mais atuais das idéias libertárias. Todas as páginas dão uma visão muito introdutória das principais idéias libertárias, entretanto espero que seja um ponto de partida para o aprofundamento dos que as teêm em mãos.(O Autor)
Data de publicação como RocketEdition: 11 agosto de 1999 (o dia em que o mundo não acabou:) — A reprodução parcial ou total do conteúdo e sua distribuição não comercial é autorizada e, inclusive, incentivada. Comentários podem ser enviados para teotonio@teotonio.org
domingo, 23 de novembro de 2008
Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Trajetória

Prólogo:
Ele sentou-se uma vez mais à mesa, todavia, dessa vez algo de eternidade pairava em seus olhos. Tomou um bom copo de vinho, e em pensamento conjurou assim um sortilégio misterioso: “Às pessoas que me são caras, em verdade não as posso chamar amigas, nenhuma nunca penetrou em meu ser. A vocês desejo toda a doença, desolação e indignidade que se pode ter na vida. Quero que a vossa visão escureça e que a vossa carne decomponha lentamente e quando enfim o corpo se tornar um cativeiro, exatamente aí e somente nesse instante, vós sereis homens livres!”. Ele se levantou, tomou o alforje por sobre os ombros e se foi, com aquele olhar de infinito... O que vem a seguir são relatos provavelmente inverídicos de uma vida não vivida.
I
Me pergunto se serei cingido com a marca dos justos,
Ou se meu coração é altivo demais
Pra que eu tome assento nesse tabernáculo.
Ouço ecos de terras distantes, paisagens de outrora,
Boiando à deriva em meio as marés do tempo.
E eu vejo, um a um, os pedaços de minha vida,
Caindo irremediavelmente no abismo voraz da eternidade.
O vazio de existir, a imensidão de uma mão dada...
Que pode um homem desacreditado senão cismar?
Nesses tempos dignidade é deveras, coisa rara,
A humanidade é ainda muito primitiva pra cumprir o seu propósito.
Essa é uma era de vergonha e desolação,
Meus olhos foram arrancados, a minha língua foi cortada.
Não entendo a mim, não entendo ninguém
No mundo em que criaste,
Não é permitido que mesmo a dor,
Possa definir o meu amor,
Teu corpo fecundei, alimentou-se de mim,
Mas como um estupro do que te ofereci,
A minha verdade recusaste, nesse novo lugar
Construído sobre os meus escombros.
Não posso continuar aqui, estou cansado e só,
Que venha o fim, mas que seja meu.
III
É chegado o termo das coisas, despossuído estou.
Me entendo leve como se estivesse em engano,
Me vejo em alerta como se acreditasse em algo.
Daqui parto, sem nada querer ou desejar
Minha glória é esta:
Criar desumanidade, viver em exílio.
Não posso seguir aquela estrada, embora queira,
Meu caminho é composto pela vontade de meus pés...
Que empresa me dás se não pode responder o que pergunto,
Prefiro as vias tortuosas a esse caminho reto.
Viajante em terra estrangeira, cruzado dos ideais esquecidos,
Meu tempo é quando, minha verdade é o que serei.

*Sábado 22 de novembro de 2008
Sollozos de Farewell

Desde el fondo de ti, y arrodillado,
un niño triste, como yo, nos mira.
Por esa vida que arderá en sus venas
tendrían que amarrarse nuestras vidas.
Por esas manos, hijas de tus manos,
tendrían que matar las manos mías.
Por sus ojos abiertos en la tierra
veré en los tuyos lágrimas un día.
Yo no lo quiero, Amada.
Para que nada nos amarre
que no nos una nada.
Ni la palabra que aromó tu boca,
ni lo que no dijeron las palabras.
Ni la fiesta de amor que no tuvimos,
ni tus sollozos junto a la ventana.
(Amo el amor de los marineros
que besan y se van.
Dejan una promesa.
No vuelven nunca más.
En cada puerto una mujer espera:
los marineros besan y se van.
Una noche se acuestan con la muerte
en el lecho del mar.
Amo el amor que se reparte
en besos, lecho y pan.
Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.
Amor que quiere libertarse
para volver a amar.
Amor divinizado que se acerca.
Amor divinizado que se va.)
Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor.
Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.
Fui tuyo, fuiste mía ¿Qué más? Juntos hicimos
un recodo en la ruta donde el amor pasó.
Fui tuyo, fuiste mía. Tú serás del que te ame,
del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo.
Yo me voy. Estoy triste; pero siempre estoy triste.
Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy.
Desde tu corazón me dice adiós un niño.
Y yo le digo adiós.

*P. Neruda
Wilhelm Reich um visionário incompreendido

Considerado gênio por alguns e louco por outros, o austríaco Wilhelm Reich foi o maior revolucionário da Psicologia deste século. Pioneiro da Revolução Sexual, precursor dos movimentos ecológicos e da psiquiatria biosocial, Reich desenvolveu também artefatos usados na cura do câncer e na diminuição dos efeitos negativos da energia nuclear. Pouco se conhece soube o pensamento de W. Reich, porque não há muitas fontes de informação e suas teses são sonegadas nas universidades de psicologia e psiquiatria. Há quem se refira a Reich por seus escritos freudianos-marxistas, outros por seus textos psicanalíticos, além de seus escritos sobre Deus e o Diabo. Durante anos, vários movimentos revolucionários recuperaram parte de sua obra, sobretudo seus escritos sócio-políticos, seguindo a tese de que não há revolução social sem revolução sexual, entendendo por sexualidade as relações afetivas, comunicantes, pessoais, etc. Reich reivindicou a função da sexualidade não como uma mera realização do coito, mas como a fusão com o outro. A vivência plena do amor e da sexualidade era vista por ele como fator indispensável para a satisfação emocional.
Todo o seu pensamento indica que é preciso uma mudança radical nas relações humanas. Associa a separação de um bebê do corpo da mãe na hora do parto com o assassinato de Cristo, com a psicose, com o fascismo e com a função do orgasmo. A complexidade de seu discurso é algo que vai além de sua época. A sua mais importante contribuição, que revolucionou toda a Psicologia, foi provar que a neurose é produzida socialmente, instalando-se em todo o corpo e não apenas na mente das pessoas. O conceito de couraça neuro-muscular do caráter mostra como a neurose se dá através da estagnação da energia vital. No livro "A Função do Orgasmo", Reich coloca que o orgasmo sexual pleno e satisfatório é o regulador biológico da harmonia vital. Militante socialista, despertou a atenção para o fato de que as neuroses eram provocadas pelo desvio da originalidade das pessoas, através de bloqueios à sexualidade e à afetividade, portanto um fenômeno sócio-político. A partir daí, passou a dar um novo enfoque a Psicologia, centrado no indivíduo, seu corpo e suas relações sociais.
Wilhelm Reich foi expulso da sociedade Psicanalítica por divergências teóricas e ligações com a política; e também do Partido Comunista por suas denúncias contra o autoritarismo reinante. Perseguido pelo nazismo, após percorrer vários países europeus, se instala nos Estado Unidos, onde passa a pesquisar fenômenos climáticos, caixas de acumulação de orgônio, etc. Em 1956, Reich é detido por se recusar a comparecer ao Tribunal para comprovar os efeitos terapêuticos dos acumuladores. Um ano após sua prisão, Reich morre na cadeia deixando um legado para as gerações futuras que ainda surpreendem-se com sua originalidade e rebeldia.
"Fui acusado de ser um utópico, de querer eliminar o desprazer do mundo e defender apenas o prazer. Contudo, tenho declarado claramente que a educação tradicional torna as pessoas incapazes para o prazer encouraçando-as contra o desprazer. Prazer e alegria de viver são inconcebíveis sem luta, experiências dolorosas e embates desagradáveis consigo mesmo. A saúde psíquica não se caracteriza pela teoria do nirvana dos iogues e dos budistas, nem pela hedonismo dos epicuristas, nem pela renúncia monástica; caracteriza-se, isso sim, pela alternância entre a luta desprazerosa e a felicidade, o erro e a verdade, o desvio e a correção da rota, a raiva racional e o amor racional; em suma, estar plenamente vivo em todas as situações da vida. A capacidade de suportar o desprazer e a dor sem se tornar amargurado e sem se refugiar na rigidez, anda de mãos dadas com a capacidade de aceitar a felicidade e dar amor."
Wilhelm Reich (1942) em "Function Of The Orgasm
PORQUE É A EXISTÊNCIA HUMANA PREFERÍVEL À DE UM SEIXO?

No século dezenove, Shopenhauer, conhecido como o 'filósofo do pessimismo', chamou a atenção para o sofrimento da vida humana: queremos algo que nos falta ou temos aquilo que queremos; mas sofremos de um modo ou de outro - quer com a falta do que queremos, quer com o tédio resultante da falta de querer quando alcançamos o que queremos. (…) Se Shopenhauer está certo, não será melhor ser um simples seixo, que é imune a estas experiências? Se fôssemos apenas seixos de uma praia, todas as ondas e agitações da vida (atrevo-me ao gracejo?) escorreriam por cima de nós.Shopenhauer está errado, pelo menos nos detalhes. Em muitas coisas apreciamos simplesmente o prazer da actividade que nos faz esquecer as insatisfações. Como é costume dizer, é melhor viajar com esperança do que chegar ao destino.
É um erro pensar que quando mobilizamos os meios para atingir um fim só o fim nos importa, sendo os meios irrelevantes e sem qualquer valor em si mesmos. O nosso objectivo pode ser atingir o topo do monte Evereste, mas isso não significa que o queiramos atingir de qualquer maneira. Queremos escalar a montanha, combater as tempestades de neve, lutar escalada acima. Quando (no meu caso, é melhor dizer 'se') queremos atingir o topo, queremos atingir o nosso objectivo como deve ser. Os feitos medem-se não somente pelos resultados, mas também pelo modo como são conseguidos. Vermo-nos no cume do Evereste largados por um helicóptero ou por ter carregado num botão não teria interesse, a não ser que o feito a atingir fosse ser capaz de pilotar um helicóptero ou construir uma máquina que pudesse levar pessoas do local A para o B premindo apenas um botão.
Shopenhauer terá alguma razão no seu pessimismo, no sentido em que na maior parte das vidas humanas há mais sofrimento do que satisfações. Muitos sofrimentos parecem mais ou menos inevitáveis - mesmo para aqueles que vencem na vida. Perdemos familiares, amigos e amantes; temos consciência da crescente decadência que acompanha a velhice; com toda a probabilidade, viremos um dia a ter, durante anos, experiência directa dessa decadência - e, por fim, do sofrimento de morrer. Temos consciência de que milhões de outras pessoas sofrem, no passado, no presente e no futuro e também do sofrimento dos animais. Além disso, alguns de nós sentem-se apegados a certos objectos - um livro, um vestido, um carro muito amado - chegando por vezes a atribuir-lhes uma vida própria e sofrendo também quando eles entram em colapso. Estas reflexões podem bem levar-nos a concluir que os mais felizes são, por assim dizer, aqueles que nunca chegam a nascer.
* * *
Qual o sentido de tudo isto? Muitos não resistem a fazer esta pergunta. Há fins e propósitos na minha vida - mas qual o fim ou propósito da minha vida?
Alguns respondem explicando que as suas vidas ganham sentido ao ajudarem os seus filhos, ao trabalharem para melhorar a vida dos pobres ou ao abraçarem uma causa política. Mas isto é jogar ao jogo empurra: qual o sentido de ajudar as crianças ou de abraçar uma causa política? Qualquer que seja a resposta dada, podemos sempre continuar a fazer perguntas similares. Alguns voltam-se para a esperança de uma vida eterna no além, mas também ela não tem mais sentido do que uma vida finita. Se temos motivo para nos questionarmos genuinamente sobre o sentido de uma vida finita, também o teremos para nos questionarmos sobre o sentido de uma vida de duração infinita. Se optarmos pela resposta 'servir a Deus' ou por algo semelhante, devemos perceber que se pode perguntar: e qual o sentido de tal serviço ou da existência de Deus?
Talvez seja melhor começar a pensar que para uma coisa ter valor não precisa de ter um sentido. (…)
As vidas humanas podem ter valor especialmente porque são vidas de seres capazes de atribuir valor e que valorizam certos aspectos do universo, a vida e o viver. É verdade que as vidas acabam; mas será que poderíamos sequer enfrentar a vida eterna? A consciência da morte faz com que muitos de nós se sintam emparedados pela triste e obsessiva melancolia do 'Para quê?' Mas recordemos que pode não haver um sentido acima de todos os sentidos. Tal como as explicações, os propósitos têm de parar algures.
Todas as coisas a que damos valor e que dão sentido às nossas vidas, por mais raras ou pequenas que sejam - as amizades, os amores e as coisas absurdas; aquelas memórias de sons de fundo misturados com paixões e olhares correspondidos que por magia nos cercam e armadilham; as intoxicações dos vinhos e das palavras, os pensamentos e músicas que teimosamente nos acompanham pelas noites enevoadas e sonolentas, os nossos sentidos revitalizados por águas cintilantes, tão necessárias ao amanhecer; o espectáculo do mar enfurecido pelas ondas, os luares e imagens de mistério e os céus que se alargam obrigando os olhos a estenderem-se - acabam realmente por deixar de existir. E, curiosamente, as mais encantadoras destas coisas são muitas vezes aquelas em que nos perdemos e deixamos também de ser - no entanto, que elas existem, assim como nós, numa certa fracção de tempo, é uma verdade perene, fora do tempo. Isto é o melhor que os amantes da eternidade podem ter.
*por Peter Cave
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
AC/DC - Black Ice

Ta aí galera, o sucessor de “Stiff upper lip”. Esse disco ta muito bom, a crítica especializada ja diz que é o melhor desde "back in black", a nossa opinião é apenas que esse "Black Ice" é mesmo do caralho, o tio Angus deu show outra vez. A fórmula continua a mesma, rock n' roll básico com timbres limpos de guitarra, talvez o segredo esteja nessa mesmice, ninguém consegue ser tão constante por tanto tempo. Nesses dias produzir um som sem afetações é coisa rara, AC/DC uma banda realmente honesta. Abaixo eu disponibilizo o link para download integral do álbum. Divirtam-se...
http://rapidshare.com/files/165531313/sonzeirananet_asds_200811_bi.zip
Pós-Modernidade e Teoria da História

INTRODUÇÃO
O norte-americano Francis Fukuyama, em 1989, declarou o fim da História, pois para ele a História havia chegado ao seu final e que todos os países do mundo se juntariam ao redor de um sistema político e econômico, chamado de democrático, a qual muitos chamam de neoliberal. O futuro da humanidade teria apenas um caminho, o pensamento único e que a História teria acabado. Segundo Carlos Barros a reação de muitos historiadores foi de hostilidade, pois além de não concordarem com Fukuyama, muitos entenderam que ele exterminou a história com "h" minúsculo, como sucessão de fatos, e não que exterminou com a História universal, com H maiúsculo[1]. Fukuyama reviu o seu trabalho e chegou a desmenti-lo, em 1998, em entrevista ao New York Times, tendo visto as várias crises econômicas que se seguiram nos anos 90.
Não acreditamos que a História tenha acabado, assim como também que a "ciência" história também. Mas que a "ciência" história passa por uma crise teórica atualmente. Esta crise de paradigma ocorre desde a década de 70 e será isto que propomos discutir nesse trabalho. Propomos expor e discutir aqui a crise existente nestas últimas décadas na teoria da história. Propomos discutir o que vem acontecendo com a teoria da história nessa Era Pós-Moderna, e talvez tentar discutir qual será o futuro da teoria da história.
A PÓS-MODERNIDADE
Podemos dizer que uma nova era na sociedade ocidental se iniciou no início dos anos 70. O fim dos movimentos culturais da década de 60, e o início de uma nova era do capitalismo geraram o que podemos chamar da sociedade pós-moderna. O historiador Nicolau Sevcenko nos diz que nos encontramos nos últimos anos no "loop da montanha russa", que seria a terceira fase da montanha russa, e pode ser considerado "a síncope final e definitiva, o climax da aceleração precipitada, sob cuja intensidade extrema relaxamos nosso impulso de reagir, entregando os pontos entorpecidos, aceitando resignadamente ser conduzidos até o fim pelo maquinismo titânico. Essa etapa representaria o atual período, assinalado por um novo surto dramático de tansformações, a Revolução da Microeletrônica"[2]. Sevcenko ainda acrescenta que o mundo vai se tornado cada vez mais imprevisível, irresistível e incompreensível. Não há, na sociedade uma esperança para o futuro, nada podemos prever. Serão nos anos 80 que entraremos de vez nessa nova era, a chamada terceira revolução industrial, ou a revolução científico-tecnológica. Será nessa década que começará a surgir a nova concepção política e econômica do mundo, a qual, na década seguinte, a de 90, viveremos o seu ápice: o neoliberalismo. As duas grande figuras políticas que deram início a essa nova concepção do capitalismo foram o ex-presidente norte americano Ronald Reagan e a ex-primeira ministra inglesa Margareth Tatcher, ou "a dama de ferro".Esses dois políticos iniciaram a política de desmonte do Estado do Bem Estar Social, criado após a Segunda Grande Guerra, e da liberalização total do mercado, sendo este, que aos poucos, determinaria todas as ações dos homens. Esse processo se espalhará por todo o mundo nas décadas de 80 e 90, e, após a queda do comunismo no final dos anos 80 será tratado como "o pensamento único", termo muito contestado. Segundo Fredric Jameson "a emergência da pós-modernidade está estritamente relacionada à emergência desta nova fase do capitalismo avançado, multinacional e de consumo"[3].
Esse novo mundo pós-moderno neoliberal gerou várias crises em vários aspectos de nossa sociedade. Criou-se um novo perfil de sociedade, bem diferente daquele existente nos anos 60; agora nos encontramos em um momento de crise de transcendência, pois assim como na virada do século XIX com o século XX, nos encontramos em um período onde as mudanças tecnológicas são tão rápidas e avassaladoras que perdemos o nosso espírito de transcendência tão discutido por intelectuais do século XX. Nos encontramos novamente em uma era de racionalidade, onde o mais importante é a técnica e o seu tecnicismo, onde o que importa é a competição entre os homens, e onde existe uma ética narcisista, onde o mercado (que parece mais uma entidade sobrenatural) regula todas as ações. Esse período em que vivemos hoje gerou várias crises vindas da crise inicial de transcendência. Uma grande crise ideológica, política e de valores se criou e seguindo à esta uma crise de sociabilidade. Os homens, perderam, principalmente nos grandes centros urbanos (como muitos intelectuais discutem), o sentido de serem um animal social; eles não mais se socializam, ou se socializam de uma forma mínima possível. Podemos dizer que não existe mais alteridade, o homens, e as massas se tornaram indiferentes uns aos outros, gerando uma espécie de niilismo pós moderno.
Desde os anos 70, essa crise ideológica, política, de valores afetaram as ciências humanas em geral. Com a história não foi diferente, tanto no seu âmbito teórico, prático e na sua função social.

A CRISE NA TEORIA E A HISTÓRIA PÓS-MODERNA
Pretendemos, neste trecho do trabalho, explicar a crise por que passa a teoria da história nas últimas três décadas, mostrando as diferentes idéias expostas por vários historiadores e filósofos.
No início dos anos 70 veio a tona uma nova corrente historiográfica, vinda da escola francesa, que se auto denominava "Nova História". Essa Nova História tinha como característica um retorno ao estudo do sujeito, e "se originou associada à Escola de Annales e que, além de lutar por uma história total, opõe-se totalmente ao paradigma tradicional da historiografia"[4]. Essa nova historiografia também foi denominada como "história das mentalidades", onde a história se preocupa com tudo, onde não há paradigmas, e a história é subjetiva, ao contrário da história tradicional. A Nova História trará muitas novas questões ao estudo da história, as quais discutiremos mais adiante, como por exemplo a não necessidade de um paradigma e a questão da narrativa.
Atualmente, a história, sem dúvida alguma, sofre uma crise de paradigmas, não possuímos nenhum "ismo" para seguir. É claro que falamos de uma maneira geral, pois os paradigmas existentes anteriormente não desapareceram por completo e ainda são praticados pela historiografia, a exemplo da história marxista. Elias Saliba nos diz que "nos encontramos meio 'embasbacados' diante do concreto, em estado de empatia constante com a singularidade. Este mundo do imprevisível parece-nos preferível do que nos alojar num sistema ordenado de fixação e explicação do real, num 'ismo' qualquer, numa teoria. Como Tântalos, procuramos uma armação teórica, mas temos medo dela, porque adivinhamos a desilusão posterior e a espécie de sofrimento psicológico daí decorrente - o que só aumenta o clima de desencanto e inutilidade de esforço"[5]. Essa falta de paradigmas para a história talvez exista devido ao desencanto, citado por Saliba, e também devido a desconfiança do futuro que há hoje em dia. Como não possuímos mais uma idéia do futuro, já que ele se tornou imprevisível, a história não é mais escrita sob um paradigma, e sim a história é escrita para o presente. Segundo Josep Fontana "esse caráter imprevisível do futuro tem sido, como já disse, a origem de boa parte de nosso desânimo e do nosso desconcerto"[6]. Essa desconfiança aumentou ainda mais com a queda do comunismo, indo por terra a escrita da história ao estilo marxista, que previa um futuro.
Então a história não possuí mais sentido? Muitos historiadores pós-modernos pensam o contrário: a história, agora, possuí muitos sentidos. Muitos historiadores julgam que não necessitamos de novos paradigmas, não precisamos achar um logo, para podermos sair da crise. Carlos Barros considera essa posição conservadora, pois perpetua somente o presente. Hayden White nos diz que a vida "será mais bem vivida se não tiver um sentido único, mas muitos sentidos diferentes. (...) precisamos de uma história que nos eduque para a descontinuidade de um modo como nunca se fez antes; pois a descontinuidade, a ruptura e o caos são o nosso destino."[7].
Podemos dizer que White está falando que a História, e a sua prática historiográfica, não necessitam de um único sentido, e sim pode possuir vários. A história tem muitas histórias, podendo-se perceber isso nas discussões da Nova História, onde tudo é história. Esse questionamento dos sentidos, demonstra um certo desprezo pela teoria da história, principalmente da questão dos paradigmas, pois não é necessário teoria se são diversos os sentidos das coisas. Muitos historiadores discordam dessa posição e acham que a história, assim como a vida, possuem um sentido e a teoria deve discuti-lo.
Uma questão das mais discutidas dentro da teoria da história pós-moderna é a questão da linguagem e da narrativa. A linguagem é colocada, muitas vezes, no centro das discussões sobre a história e a sua escrita no nosso mundo contemporâneo. Gadamer nos fala que é através da linguagem que nos aproximamos dos fatos e que é ela que nos possibilita interpretar os resultados de nossas observações[8]. A prática da história também é linguagem, e a teoria da história atual a considera de extrema importância, pois é através da linguagem que o historiador retrata as suas observações da História, daí a importância, nos estudos da teoria da história (e não só) da hermenêutica, que busca compreender, através da linguagem, como é que se produz o significado da História dentro da historiografiia..
A narrativa, e o discurso são temas muito discutidos pelos intelectuais da pós-modernidade. Segundo Linda Hutchen "o que a escrita pós-modernista, tanto da história, como da literatura nos ensinou é que tanto história quanto ficção são discursos, que os dois constituem sistemas de significação pelo qual nós fazemos sentido do passado"[9]. Hutchen está nos mostrando que a história, como a literatura se equiparam pois são discursos construídos, ou seja, para ela, a história é construída, através da narrativa e da linguagem pelos seus autores. Para Roland Barthes "o discurso histórico é essencialmente elaboração ideológica, ou para ser mais preciso, imaginário, se é verdade que o imaginário é a linguagem pela qual o enunciante de um discurso (entidade puramente linguística) 'preenche' o sujeito da enunciação (entidade psicológica ou ideológica)"[10]. Roger Chartier percorre caminho parecido dizendo que "a História é um discurso que aciona construções, composições e figuras que são as mesmas da escrita narrativa, portanto da ficção, mas é um discurso que, ao mesmo tempo, produz um corpo de enunciados científicos, se entendermos por isso, com Michel de Certeau 'a possibilidade de estabelecer um conjunto de regras que permitem controlar operações proporcionais à produção de objetos determinados' "[11]. Chartier nos traz algo importante para discutirmos, pois nos mostra que, como muito se discute hoje em dia, a história é uma narrativa, assim como a literatura, e que esta possuí um discurso montado, mas acrescenta que não é uma narrativa qualquer, pois tem as suas regras com um corpo de enunciados, sendo assim uma ciência. Peter Burke comenta sobre a forma narrativa que vem tomando a história hoje em dia, porém diz que a narrativa não pode ser a narrativa tradicional, superficial no acontecimentismo e "para tanto, é necessário densificar a narrativa, e para isso, Burke apresenta quatro soluções encontradas nas obras de outros historiadores: a micro-narrativa, narração da história de populares no tempo e no espaço, observando a presença das estruturas; utilizar várias vozes afim de captar os conflitos e as permanências; redigir de trás para frente, mostrando o peso do passado; e, finalmente, encontrar o relacionamento dialético entre acontecimento e estrutura. Burke aposta na primeira solução, não por preferência, mas por observar que a mesma já está crescendo"[12].
CONCLUSÕES
Neste trecho do trabalho pretendemos tirar algumas conclusões e opiniões sobre a teoria da história na pós-modernidade. Mas, acima de tudo, pensamos que colocaremos mais questões para serem debatidas do que respostas.
Primeiramente, discutiremos se a teoria da história realmente se encontra em uma crise pois não possui um paradigma. Será que precisamos mesmo de um paradigma, ou de paradigmas? Carlos Barros propõe um novo paradigma para a história. Ele nos diz que que o novo paradigma será digital, devido a nova era digital que vivemos, com internet, CD-ROM, etc., e desse modo a história será mais global tanto do ponto vista teórico quanto empírico. O novo paradigma será baseado nas exigências culturais e educativas e nas exigências políticas e sociais que vem ocorrendo ao final da década de 90 e no começo desse novo século. Para ele também é necessária a redefinição da história como ciência. Por fim, pensa que o novo paradigma não pode ser o simples retorno à história tradicional, mas tampouco a fuga para adiante da fragmentação pós-moderna. Ou seja, nos parece que Barros não tem um paradigma. Achamos importante a necessidade da discussão sobre como deve ser a escrita da história, mas achamos que não é necessário achar um paradigma, pois a verdade histórica, em nossa opinião não existe, ela é construída por cada historiador. Na nossa opinião a história possui vários sentidos, tanto para aqueles que a escrevem como para aqueles que a lêem.
A Pós-modernidade gerou uma dúvida na cabeça dos pensadores, a de qual e como será o nosso futuro, gerando crises historiográficas e de paradigmas. O homem possui a necessidade de conhecer o seu futuro, e as últimas décadas mostraram que ele é imprevisível. Mas será que foram somente as últimas décadas? Para nós, o futuro foi, é, e sempre será imprevisível, simplesmente porque ele é futuro. Mas, apesar de imprevisível ele pode ser construído pelas pessoas. a história, seja ela qual for (podendo ser de tudo) tem fundamental importância na construção do imprevisível futuro, pois é do estudo do passado que podemos, talvez, nos entender hoje e construir o futuro. Ao contrário do que disse uma vez Fukuyama, e parafraseando Josep Fontana: "nunca é o fim da história, somente eu sempre nos encontramos no fim de uma história e no começo de outra ou de outras cujo o curso não podemos predizer com nenhum método, por refinado e científico que seja, não só pela complexidade da previsão, como também porque a trajetória do porvir do que entre todos nós queiramos e saibamos fazer".[13]
BIBLIOGRAFIA
BARROS, Carlos. Para um novo paradigma historiográfico. Em http://www.h- debate.com/cbarros/spanish/articulos/nuevo_paradigma/hacia/tempo.htm.
BARTHES, Roland. O discurso da história. 1967.
CHARTIER, Roger. A História hoje: dúvidas, desafios, propostas. 1994.
FONTANA, Josep. História: análise do passado e projeto social. 1982, epílogo.
GADAMER, H. G.. Verité et Méthode, 1960.
HUTCHEN, Linda. "Historicizing the postmodern: the problematizing of history" in A poetics of Postmodernism: history, theory, fiction. New York and London: Routledge, 1988.
JAMESON, Fredric. "Pós-modernidade e sociedade de consumo". In: Revista Novos Estudos CEBRAP. São Paulo, nº12, 1985.
PIGNATARI, Renato. Escrevendo a história. Resenha do livro "A escrita da história" de Peter Burke publicada em www.klepsidra.net.
SALIBA, EliasThomé. "Mentalidades ou história sociocultural; a busca de um eixo teórico para o conhecimento histórico." In: Revista Margem. Nº1. São Paulo: EDUC, 1992.
SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
WHITE, Hayden. The burden of History, History and Theory. 1966.
[1] BARROS, Carlos. Para um novo paradigma historiográfico. Em http://www.h-debate.com/cbarros/spanish/articulos/nuevo_paradigma/hacia/tempo.htm.
[2] SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.16.
[3] JAMESON, Fredric. "Pós-modernidade e sociedade de consumo". In: Revista Novos Estudos CEBRAP. São Paulo, nº12, 1985, p. 26.
[4] PIGNATARI, Renato. Escrevendo a história. Resenha do livro "A escrita da história" de Peter Burke publicada em www.klepsidra.net, p. 1.
[5] SALIBA, EliasThomé. "Mentalidades ou história sociocultural; a busca de um eixo teórico para o conhecimento histórico." In: Revista Margem. Nº1. São Paulo: EDUC, 1992, p.30.
[6] FONTANA, Josep. História: análise do passado e projeto social. 1982, epílogo.
[7] WHITE, Hayden. The burden of History, History and Theory. 1966, p.56.
[8] GADAMER, H. G.. Verité et Méthode, 1960, pp. 74-76.
[9] HUTCHEN, Linda. "Historicizing the postmodern: the problematizing of history" in A poetics of Postmodernism: history, theory, fiction. New York and London: Routledge, 1988, p. 89.
[10] BARTHES, Roland. O discurso da história. 1967.
[11] CHARTIER, Roger. A História hoje: dúvidas, desafios, propostas. 1994.
[12] PIGNATARI, Renato. Op. Cit., p. 3.
[13] FONTANA, Josep. Op. Cit., epílogo.
*por Marco Antunes de Lima
OS POVOS-NOVOS E OS POVOS EMERGENTES

Os povos-novos, dentre os quais se inclui o Brasil, originaram-se da conjunção de matrizes étnicas diferenciadas como o colonizador ibérico, indígenas de nível tribal e escravos africanos, imposta por empreendimentos coloniais-escravistas, seguida da deculturação destas matrizes, do caldeamento racial de seus contingentes e de sua aculturação no corpo de novas etnias. Sua característica distintiva é a de species-novae no plano étnico, já não indígena, nem africana, nem européia, mas inteiramente distinta de todas elas. Ao contrário dos Povos-Transplantados que conservam o perfil europeu e dos Povos-Testemunho das Américas que conduzem dentro de si as duas tradições originais sem conseguir fundi-las, os Povos-Novos concluíram sua auto-edificação étnica, no sentido de que não estão presos a qualquer tradição do passado. São povos em disponibilidade, uma vez que, tendo sido desatrelados de suas matrizes, estão abertos ao novo, como gente que só tem futuro com o futuro do homem.
Mais ainda que os povos das outras configurações, os Povos-Novos são o produto da expansão colonial européia que juntou, por atos de vontade, as matrizes que os formaram, embora só pretendesse criar empresas produtoras de artigos exportáveis para seus mercados e geradoras de lucros empresariais. Esta intencionalidade de seu processo formativo distingue também os Povos-Novos como sociedades, em certa medida, instituídas; que surgiram como "certidões de nascimento", como a carta de Pero Vaz Caminha e suas equivalentes, que eram também títulos de posse da nova terra; que tiveram suas primeiras cidades fundadas por ordens expressas e continuam criando-as artificialmente; que foram sempre reguladas em sua vida econômica, social, política, religiosa e espiritual pela vontade estatal, representada por burocracias coloniais e continuam regidas por patriciados civis e militares, confiantes em que, pela outorga de leis e decretos paternalísticos, possam resolver todos os problemas dentro da velha ordem institucional.
Os primeiros instrumentos de implantação dos Povos-Novos foram as feitorias de escambo que trocavam com os índios bugigangas por produtos da terra. As instituições reguladoras fundamentais surgiram depois com a fazenda e a escravidão. A primeira forneceu o modelo organizacional de empresa que permitiu viabilizar economicamente a colonização, atrelando os mundos do além-mar aos mercados europeus. A segunda forneceu o mecanismo de conscrição da força de trabalho que permitiria reunir e desgastar milhões de homens, convertidos, também aqui, no principal combustível das empresas produtoras de ouro e prata, de açúcar, de algodão, de café, de cacau e de muitos outros gêneros tropicais.
As fazendas e as minas escravocratas, pondo em presença os europeus, como senhores, e os africanos e índios, como escravos, criaram condições para o advento maciço de mestiços gerados por europeus e índias, e de mulatos, gerados por europeus e negras, fazendo surgir, simultaneamente, um estrato sócio-racial intermédio, igualmente distanciado das matrizes originais. Este operaria como um novo agente de caldeamento racial e de entrecruzamento cultural para produzir novos mestiços e a todos incorporar na etnia nascente.
Os Povos-Novos se configuraram segundo padrões distintos, conforme fossem ou não estruturados como economias de plantação e, em conseqüência, contassem ou não com contingentes negros, e conforme se originassem ou não a partir de protocélulas étnicas, plasmadas antes da expansão do sistema de fazendas.
No caso do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e de algumas das Antilhas, o negro não só esteve presente mas foi chamado a integrar-se em comunidades preexistentes já capazes de preencher requisitos mínimos de sociabilidade antes de sua chegada. O negro saía, assim, do desenraizamento de sua própria tradição - através da deculturação - para aculturar-se num corpo de compreensões co-participadas, de técnicas bem definidas de provimento da subsistência, de crenças e de valores de uma etnia embrionária. Ali onde, ao contrário, faltaram essas protocélulas étnicas, o escravo se encontrou só diante do capataz e do senhor. Não podendo entender-se com seus companheiros, tomados de outras tribos, teve de apelar ao mais fundo de sua humanidade para conservar-se humano, na condição de besta de trabalho a que fora reduzido. Nestas circunstâncias, ao ser deculturado, só aprendia a falar boçalmente a língua do amo e a produzir, segundo técnicas inteiramente novas para ele, exibindo, por isso, uma infantilidade que parecia corresponder ao seu primitivismo, mas que só exprimia as terríveis condições em que vivia, como carvão humano das lavouras e das minas. Este foi o caso do Sul dos Estados Unidos, das Antilhas inglesas, holandesas e francesas.
Ali onde a grande lavoura não se implantou - como no caso do Chile e do Paraguai - não se contou, por isto mesmo, com o negro e a influência indígena pôde prevalecer por mais tempo. O europeu teve então de indianizar-se mais ainda e as populações neo-americanas resultantes do cruzamento se constituíram predominantemente de mestiços índio-europeus falando freqüentemente - como os paraguaios - as línguas aborígenes e conservando muitos dos costumes originais, embora atuassem como os principais agentes da erradicação do gentio tribal.
Na formação racial e na configuração cultural destas variantes dos Povos-Novos, cada contingente contribuiu em proporções distintas. O indígena contribuiu, principalmente, na qualidade de matriz genética e de agente cultural, principalmente, na qualidade de matriz genética e de agente cultural que transmitia sua experiência milenar de adaptação ecológica às terras recém-conquistadas. O negro, também como matriz genética, mas principalmente na qualidade de força de trabalho geradora da maior parte dos bens produzidos e da riqueza que se acumulou e se exportou e, ainda, como agente da europeização, que assegurou às áreas onde predominava uma completa hegemonia lingüística e cultural européia. O branco teve o papel de promotor da façanha colonizadora, de reprodutor capaz de multiplicar-se prodigiosamente; de implantador das instituições ordenadoras da vida social; e, sobretudo, de agente da expansão cultural que criou nas Américas vastíssimas réplicas de suas pátrias de origem, lingüística e culturalmente muito mais homogêneas que elas próprias.
O quarto bloco de povos extra-europeus do mundo moderno é constituído pelos Povos-Emergentes. Integram-no as populações africanas que ascendem em nosso dias da condição tribal à nacional. Na Ásia se encontram também algumas configurações de Povos-Emergentes que cumprem neste momento esse trânsito. Isto se dá principalmente na área socialista, onde uma política de maior respeito às nacionalidades permite e estimula sua gestação.
Essa categoria não comparece na América, apesar do avultado número de populações tribais que ao tempo da conquista contavam com centenas de milhares e até milhão de habitantes. Esse fato, mais que qualquer outro, é demonstrativo da violência do domínio, tanto colonial - prolongado por mais de três séculos - como nacional, a que se viram submetidos os povos tribais americanos. Alguns deles foram rapidamente exterminados; os demais, subjugados e consumidos no trabalho escravo, se extinguiram como etnias e como substratos de novas nacionalidades. Entretanto, seus equivalentes africanos e asiáticos, a despeito das duríssimas formas de compulsão que sobre eles se exerceram e do terrível impacto sofrido, emergem hoje à vida nacional.1
Os Povos-Novos das Américas - e entre eles o Brasil - demonstram, em seu atraso relativo, o que resulta de processos formativos institucionalizados pelo sistema de fazendas e pela escravidão dentro de movimentos de colonização que se exercem sobre populações de nível tribal. Seus desempenhos evolutivos, tanto no curso da civilização agrário-mercantil como na urbano-industrial, foram e são medíocres e contraditórios. Criaram, ontem como hoje, empresas prodigiosamente prósperas mas de prosperidade não generalizável à população, nem capazes de permitir um crescimento econômico acelerado porque transferem ao exterior a maior parte dos frutos do trabalho nacional. Como tal, geraram uma estratificação social encabeçada por uma classe dominante consular porque dependente de interesses exógenos, e retrógrada porque oposta a qualquer transformação profunda na estrutura sócio-econômica. E classes oprimidas, ontem afundadas na penúria como escravos e hoje marginalizadas da força de trabalho regular. Entre estas classes prevalece uma oposição tão profunda quanto a seus interesses fundamentais, que se torna inviável qualquer institucionalidade democrática. Nestas condições, nem chega a constituir-se um povo como categoria política correspondente à totalidade da população e capaz de influir em seu próprio destino, e toda ordenação sócio-política é despótica ou virtualmente insurgente.
1. Na segunda metade do século passado se levantou na América o único grupo indígena aparentemente capaz, por sua importância numérica e por seus ethos, de afirmar-se como Povo-Emergente; as tribos araucanas e as araucanizadas dos pampas e dos vales andinos. Acossados por argentinos e chilenos, esses índios foram finalmente dizimados; seus sobreviventes, os Mapuche chilenos, confinados em reservas, sofreram uma decadência muito acentuada, da qual ascenderão, provavelmente, como um modo variante de ser chileno.
*Darcy Ribeiro de Os brasileiros; Livro I - Teoria do Brasil, 1972.


