quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Quando o cérebro nos foge para as decisões


Não damos um passo sem tomar decisões, e não nos apercebemos da actividade inconsciente que dá confiança a tudo o que fazemos. Zachary Mainen é investigador no Instituto Gulbenkian de Ciência e quer perceber como é que apreendemos a realidade: os ratos deram uma nova perspectiva a processos que pensávamos ser quase exclusivamente humanosA confiança anda à volta do trabalho de Zachary Mainen e está sempre presente no nosso quotidiano. Serve-nos como avaliador da realidade, apesar de termos tendência para lhe dar mais importância quando ficamos sujeitos a extremos, como quando somos traídos. Mas está lá, vive dentro de nós nas mais pequenas coisas, ajuda-nos em todas as decisões. Faz-nos apanhar imediatamente o táxi quando chegamos 30 segundos atrasados à paragem de autocarro e não vemos ninguém. Faz-nos esperar meia hora, e comer uma colherada de má disposição, quando nos sentamos na mesma paragem vazia cinco minutos antes e não vemos o autocarro chegar (ele há-de vir). O que está por trás da confiança na decisão ainda está por definir. Mas os investigadores sabem que existem muitos processos inconscientes que se desenrolam a partir daquilo que apreendemos da realidade e que utilizamos para a definir, para encontrar uma verdade que nos permita tomar decisões, e, ainda melhor, reformulá-las. No fundo, esperar pelo autocarro ou apanhar o táxi. (...)


Em Agosto saiu um artigo na revista científica Nature em que Zachary Mainen assina como último autor. É um estudo sobre cheiros, decisões e estimativas de confiança. Tudo em ratos. "Pensamos que tomamos decisões baseadas nas nossas considerações, mas na realidade o que realmente acontece é que o nosso cérebro [a parte inconsciente] toma a decisão e nós vamos com ele", disse o cientista ao P2.O estudo foi feito ainda em Nova Iorque. Os investigadores punham os ratos em contacto com um cheiro que era uma mistura de dois odores puros. Os ratos tinham de escolher entre duas portas consoante o odor que estivesse em maior percentagem. Se escolhessem a porta certa era-lhes dada uma recompensa, neste caso água. O teste podia ser fácil quando um dos odores estava em maior quantidade ou difícil se tivessem em quantidades semelhantes - por exemplo 56 por cento de A e 44 por cento de B.Durante a experiência, os ratos tinham uma espécie de capacete que media a actividade das células do cérebro, os neurónios, da parte da frente do cérebro. A escolha da porta era muito rápida. Mas o que os cientistas verificaram era que depois de os ratos terem feito a escolha, os neurónios disparavam muito mais quando as concentrações dos odores eram semelhantes.


Numa segunda experiência, os cientistas deram aos ratos a possibilidade de abortarem o teste e voltarem a tentar, antes da recompensa ser dada. Os ratos abortavam mais nas concentrações dos cheiros semelhantes e com a tal maior actividade neuronal depois da decisão. "Testámos várias explicações, mas a melhor parece ser a de que estas células assinalam a confiança que o rato tem na sua decisão. Estimar a confiança numa decisão poderá ser um componente neurológico básico, e, na verdade, uma característica partilhada por todos os animais", disse o cientista. Da célula à sociedadeAté agora o mundo científico, que nesta área tem sido dominado pela psicologia, pensava que esta capacidade era exclusiva do homem e dos outros primatas. Mas o mais certo é ser abrangente. "À medida que vamos estudando biologia o que se percebe é que fazemos todos parte do processo de evolução. Eu gosto especialmente quando se consegue ver os mesmos princípios em níveis diferentes de complexidade", explicou Zachary.Em última instância, o cientista gostava de ir aos extremos e verificar decisões e estimativas de confiança em seres formados só por uma célula, como as bactérias, ou em sociedades de animais, como as formigas."Nós ainda não sabemos o que pensar sobre as decisões. Existe algum nível de decisão em células. No cérebro existem alguns locais mais importantes do que outros, mas achamos que é mais uma questão de coordenação. Como numa colónia de formigas (com o devido distanciamento), em que não existem indivíduos que tomam decisões, mas as coisas são decididas e sabe-se que existem regras locais que põem a colónia a ir para este ou para outro local."O que é explícito é que a sociedade humana não tem o mesmo modelo para o seu funcionamento. Um certo número de indivíduos, um governo dentro de uma sociedade, toma as decisões. "Talvez tenhamos encontrado uma forma melhor para fazer as coisas, mas talvez tenhamos estragado tudo. Nós não tiramos vantagem do conhecimento de todos os indivíduos para resolver os problemas."


Facto e ficção

O conhecimento na sociedade vinculado pelos media é um bom paralelismo entre o consciente e o inconsciente humano, explica Zachary. "A consciência é para o cérebro o que as notícias são para a sociedade. Os media são uma destilação do que se passa que é parcial, há milhões de coisas a acontecerem. E existem milhões de coisas a passarem-se no cérebro, nem tudo pode ser destilado numa linha de pensamento", explica o cientista.O que não quer dizer que não se utilize muita informação não consciente para tomar decisões. "No livro O Erro de Descartes, António Damásio mostra que não devemos pensar na razão separada da emoção. Usamos a experiência para fazermos uma previsão, e a um certo nível isso é emocional, é intuitivo, não é racional." No rato, a parte consciente decide abortar a acção depois de a decisão estar tomada e das hipóteses do sucesso estarem estimadas com base em muita informação inconsciente. "É necessário ter sempre uma medida da confiança nas nossas decisões, ou na nossa memória. O que me interessa é como é que formamos essas ideias intuitivas sobre o que é verdade e o que não é verdade."Por isso o investigador já tem em vista o próximo passo. "A próxima experiência que pensamos fazer é uma experiência de memória, os animais aprendem algo e depois perguntamos se reconhecem o que aprenderam. Isto é outra forma de avaliar no que é que se acredita. O que é que significa a diferença entre facto e ficção para os animais? Não sabemos, mas os humanos fazem algo de semelhante. Podemos perceber com os ratos e extrapolar para diferentes tipos de problemas e de animais", conclui o investigador. 


Nicolau Ferreira

A REVIRAVOLTA CARTESIANA


No Discurso do Método, [Descartes] conta-nos como na sua juventude se sentia perturbado com o espectro da incerteza:

[…] encontrava-me embaraçado com tantas dúvidas e erros que me parecia não ter tido outro proveito, ao tentar instruir-me, senão o de ter descoberto cada vez mais a minha ignorância. E, no entanto, estive numa das escolas mais célebres da Europa…
E, enfim, o nosso século parecia-me tão florescente e fértil de bons espíritos quanto qualquer um dos precedentes. Por isso, tomei a liberdade de tomar o meu juízo como universal, concluindo que não há nenhuma doutrina no mundo que fosse como até então me fizeram crer.

A resposta de Descartes a esta situação foi procurar os fundamentos sobre os quais a verdade podia ser assegurada. Por isso, nas suas Meditações Sobre Filosofia Primeira, ele faz uso de um método de dúvida radical, cujo fim é o de estabelecer pelo menos alguma crença que possa então servir como alicerce para o conhecimento. A dúvida radical significa apenas isso. Como diz Descartes, 'A mais pequena dúvida será suficiente para me fazer rejeitar qualquer das minhas crenças.'
O argumento de Descartes é um dos mais famosos na história da filosofia. Ele mostra que nos podemos enganar acerca de certos dados dos sentidos; que é possível colocar toda a nossa experiência dos sentidos sob dúvida - podemos, por exemplo, estar a sonhar sem o saber; e, de modo mais radical, que é possível que nada exista para além das nossas experiências sensíveis - podemos ter sido iludidos por um demónio maligno.
Contudo, este processo também mostra que há uma crença renitente. Por mais que apliquemos o método da dúvida, não é possível duvidar de que existimos. O próprio facto de se duvidar significa que tem de haver um 'Eu' que está a duvidar. É isto o famoso cogito de Descartes:

Mas persuadi-me de que não havia nada no mundo, nenhum céu, nenhuma terra, nenhuns espíritos, nenhuns corpos. E não me persuadi também de que eu próprio não existia? Pelo contrário, se me persuadi de alguma coisa, eu existia com certeza. […] De maneira que, depois de ter-se pesado e repesado muito bem tudo isto, deve por último concluir-se que esta proposição Eu sou, eu existo é necessariamente verdadeira sempre que proferida por mim ou concebida pelo espírito.

Descartes, porém, tem agora um problema. Tendo estabelecido a existência de uma entidade pensante (se realmente foi estabelecida), como recupera o resto do mundo? A resposta, de modo breve, é que não é capaz de o fazer; pelo menos, de modo a satisfazer um filósofo dos nossos tempos. A sua tentativa envolve o emprego de uma versão do argumento ontológico com o objectivo de provar a existência de Deus, argumentando depois que, como Deus não é enganador, não somos sistematicamente enganados sobre as coisas que percebemos claramente. É razoável assim retomar algumas das nossas crenças acerca do mundo exterior.

Ophelia Benson & Jeremy Stangroom, Why Truth Matters (London, 2006, pps. 26-27). Tradução Carlos Marques.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Uma vida no seu tempo, Perfil biográfico de Maquiavel


Nicolau Maquiavel nasceu em Florença, em 3 de maio de 1469, sendo o terceiro dos quatro filhos (dois homens, duas mulheres) de Bernardo Machiavelli e Bartolomeu Nelli. Pertencia a uma família tradicional, que não chegava a ser abastada, com pelo menos dois séculos de existência em Florença. Em seu livro Para Conhecer o Pensamento de Maquiavel, Duvernoy afirma que a família Machiavelli era “honorável ideologicamente, à vontade nesta Florença comunal onde vivem como cidadãos de artes subalternas”.
Seu pai era advogado e também estudioso em humanidades, influenciado pelos ventos da Renascença que há tempos sopravam na Itália. Bernardo Machiavelli se empenhou para proporcionar ao pequeno Nicolau uma educação dentro dos melhores padrões de seu tempo. Aos sete anos, Nicolau começou a estudar matemática e latim e, aos oito, entrou na escola de Battista de Poppi. Aos doze anos, começou a estudar com o latinista Paolo de Ronciglione e, segundo o testemunho de seu pai, redigia muito bem em latim.
  A infância e a juventude de Maquiavel correspondem também ao desabrochar de uma nova era, a Idade Moderna, que soterra as antigas instituições medievais em um vendaval de transformações. É uma época de efervescência, particularmente rica e conflituosa, o epicentro de grandes crises e, ao mesmo tempo, geradora de grandes soluções. Para se ter uma idéia de como esse período foi marcante, basta assinalar que Maquiavel conviveu e foi marcante protagonista do Renascimento intelectual, que é, sem dúvida, um dos mais significativos momentos da cultura humana. Foi contemporâneo dos grandes descobrimentos marítimos e da Reforma protestante.foi espectador e agente do processo de gestação de um novo tipo de Estado, o Estado moderno centralizado, que aboliu os particularismos políticos feudais e instalou o absolutismo monárquico, cuja forma de governo prevaleceu até o início da Idade Contemporânea. 


  Todo esse cenário grandiloqüente pode ser resumido em apenas uma palavra: transição. As mudanças de instituições e de valores em uma velocidade alucinante, em um ritmo nunca vivido antes pela civilização ocidental cristã, caracterizam uma situação verdadeiramente revolucionária. Nenhum setor da vida e da sociedade estava livre do alcance do vendaval transformador que tudo atingia, tudo desestabilizava.
  A vida de Maquiavel corresponde a um tempo de indefinições estruturais: aa ordem feudal fora devastada pelo crescimento das cidades e pelo fortalecimento crescente de atividades mercantis, artesanais e financeiras, que a cada dia se incompatibilizavam mais e mais com a economia agrária, então baseada no feudo auto-suficiente e na exploração servil do trabalho. Embora o feudalismo resistisse, como tentou continuar ainda nos séculos seguintes, era forçado a abrir um espaço cada vez maior para novos conceitos e padrões.
  Os dois fundamentos básicos sobre os quais se apoiava a estrutura medieval de poder, o clero e a nobreza, já não conseguiam manter sozinhos a hegemonia política. A trama de dominação do feudo erguia-se em um complexo escalonamento de poder até chegar ao rei, substituída por uma outra composição que incluía os burgueses ligados às corporações de ofício e de comércio e os grandes financistas.
  O Estado feudal, marcado pela descentralização política, pela qual cada nobre era detentor de parte da soberania e tinha direito ao seu próprio exército, sua justiça, sua moeda e seu sistema tributário, cedia lugar ao Estado moderno, centralizado e unificado. Agora, a idéia de governo absoluto, totalmente estranha aos padrões medievais era a palavra de ordem.
  Na Idade Média, o poder era sempre limitado. O poder do rei limitado pelos grandes nobres, os dos nobres pelas imposições do costume, da tradição ou da “vontade de Deus”, que compunham uma “constituição invisível”, o que assegurava garantias contra o arbítrio dos poderosos até ao mais humilde servo de gleba.
  Tudo isso se passava sob as bênçãos e a rígida fiscalização da Igreja Católica. No quadro de parcelamento de poder do feudalismo, a Igreja constituía um verdadeiro superestado, territorialmente apoiado nas possessões pontifícias, localizadas no centro da Itália, e também sobre amplos domínios territoriais espalhados por toda a Europa ocidental. O poder da Igreja medieval era reforçado por um vasto arsenal ideológico, um código severo de leis canônicas, além de tribunais eclesiásticos quase sempre dispostos a antecipar para este mundo o julgamento e as penas que as almas deveriam sofrer apenas no além-túmulo.
  A reação contra a Idade Média, injustamente chamada pelos humanistas do Renascimento de “Idade das Trevas”, alcança todos os valores e instituições, sobretudo a Igreja. A burguesia invocava novos valores cosmopolitas, ridicularizava a nobreza e seus atributos e transformava a Igreja em alvo das mais severas críticas.

Os conflitos do mundo

 

  Maquiavel foi educado em meio ao ambiente humanista do Renascimento. O teocentrismo medieval era substituído pela idéia de que o homem está em primeiro lugar, constituindo o centro de todas as preocupações. A crítica era um exercício cotidiano que se contrapunha à aceitação passiva de verdades absolutas, patrocinada pela Igreja durante séculos. Os homens cultos voltavam-se para os padrões clássicos, buscando inspiração e modelos na Grécia e Roma antigas.
  No tempo de Maquiavel, a Igreja fora alvo da maior bateria de ataques de toda a sua história. A ignorância do clero, a vida dissoluta dos grandes prelados, a comercialização de indulgências e relíquias eram criticadas. Os homens de negócios investiam contra as doutrinas arcaicas do justo preço e da condenação da usura. Pregadores fanáticos pediam a volta do cristianismo à pureza primitiva e a abolição da burocracia eclesiástica, que dificultava o acesso dos homens a Deus.
  O espírito crítico do Renascimento atingia, a um só tempo, os valores feudais, a nobreza e seu estilo de vida, a Igreja e sua concepção de mundo e poder. Maquiavel reflete tudo isso. Cada passo de sua obra é balizado pelos padrões do seu tempo. O Estado moderno, centralizado, tendo o governo concentrado nas mãos de um rei com poderes absolutos, constituirá um dos seus fascínios. Desse Estado moderno, Maquiavel será um dos principais ideólogos.
  Esse novo Estado em formação se constrói sobre uma base nacional, pois com o apoio dos homens de negócios, o monarca desempenha uma atividade unificadora, como na França, na Espanha, em Portugal, processos que Maquiavel acompanhou de perto.
  Entretanto, na Itália a tendência centralizadora esbarra em um obstáculo irremovível: os Estados pontifícios, plantados no centro da península, impedem a unificação. Alguém disse que a Igreja não tinha forças para unificar a Itália sob a sua égide, mas era forte o suficiente para impedir essa unificação. Essa unidade seria o grande sonho da vida de Maquiavel e é com base nesse sentido que ele direciona O Príncipe. 
Quando Maquiavel nasceu, e ao longo de sua vida, a península italiana era um verdadeiro quebra-cabeças político, composto por Estados soberanos de dimensões territoriais, regimes políticos e diversos estágios de desenvolvimento. Os principais eram o Reino de Nápoles, controlado pela família Aragão; os Estados pontifícios, que estavam nas mãos da Igreja; o Estado florentino, por muito tempo controlado pela família Medici; o Ducado de Milão e a República de Veneza.
  Em torno dessas unidades principais gravitavam outros estados menores que, embora fossem teoricamente independentes e soberanos, na prática eram levados a alinhamentos subservientes com os mais fortes para garantir sua sobrevivência. A ausência de um poder centralizador capaz de representar o interesse nacional, acrescida das rivalidades e dos conflitos internos, faria da Itália uma presa fácil à ambição de outros Estados já constituídos em monarquias e em plena fase de expansão, como foi o caso da Espanha, França e, um pouco mais tarde, do Império Germânico.
  Nos últimos anos do século XV, um verdadeiro terremoto político assolou a península, trazendo desordem e instabilidade. Os condottieri, mercenários contratados pelas famílias burguesas para constituir seus “braços armados” nas disputas políticas locais a controlar o poder. As disputas internas nas cidades chegam ao auge do acirramento. As rivalidades entre os principais Estados facilitam a invasão de franceses e espanhóis, que vão deixando suas marcas em todos os lugares. O espanhol Rodrigo Bórgia transformou-se no papa Alexandre VI, que marcou seu pontificado pela corrupção e pela violência. A partir de 1494, sob a liderança de Carlos VIII, os franceses impuseram sua presença de norte a sul. Naquele ano, em Florença, Maquiavel assiste à entrada de Carlos VIII e a conseqüente expulsão de Pedro de Medici da cidade, acusado pela população de ter sido fraco ante o invasor.
  Segundo Paul Larivaille, em seu trabalho A Itália no tempo de Maquiavel, a presença dos estrangeiros seria irreversível após 1494. presença constate, crescente e finalmente determinante em praticamente todos os conflitos da península. As repúblicas italianas passam a cumprir o papel de coadjuvantes no jogo político de seu próprio país.

Maquiavel faz política

  A Florença de Maquiavel tinha cerca de cinqüenta mil habitantes e ocupava um território aproximado de quinze mil quilômetros quadrados. Sua economia baseava-se no artesanato, especialmente no setor têxtil, no comércio e na atividade bancária, sendo essa última uma garantia para a cidade à posição de um dos mais importantes centros financeiros de toda a Europa. Não é por acaso que os seus banqueiros mais célebres, os Medici, desempenham um papel tão importante na política de seu tempo e na vida de Maquiavel.
  O poder dos Medici, príncipes modernos, que fundamentaram sua força não em atividades feudais, mas sim na dinâmica artesanal, mercantil e financeira, era exercido respeitando instituições comunais e republicanas seculares. A concentração de poder da família era – podemos dizer – informal e decorria do papel preponderante que ela exercia nos da administração de Florença.
  A deposição dos Medice proporcionou o domínio político de Florença por um pregador fanático, Girolano Savonarola, responsável pela instalação de uma república teocrática onde o poder era atribuído a Cristo. Era, de certo modo, uma antecipação radical da Reforma protestante que Lutero e Calvino conduziriam alguns anos depois. A experiência de Savonarola, o “profeta desarmado”, como Maquiavel o denomina, terminou na fogueira, em 1498.
  A queda de Savonarola deixou muitos cargos públicos vagos, e foi neste espaço que Maquiavel iniciou sua carreira de homem público. Depois do expurgo, comandou o cargo de secretário da segunda chancelaria do governo florentino, que já havia reivindicado anteriormente, sem sucesso. Logo em seguida, tornou-se secretário dos “Dez do Poder”, conselho cuja atribuição era administrar as relações de Florença com outros Estados. 
  A república democrática florentina, liderada por Piero Soderini, atribuiu muitas missões diplomáticas importantes a Maquiavel, cujos objetivos eram aumentar sua vivência política. Em 1500 vai para a França, em missão diplomática. Em 1502 está em Pistóia. No ano seguinte acompanha de perto a trajetória de César Bórgia, o Duca o militares na rota da unificação italiana. César, citado e exaltado por Maquiavel, é um exemplo de político cujas ações desconheciam os limites éticos na busca de um objetivo maior.
  A morte do papa, seu pai e patrocinador, apaga a estrela de César Bórgia que, aliás, faleceu pouco depois. Em Roma, Maquiavel acompanha a sucessão papal, e nos anos seguintes limitou-se a desempenhar missões diplomáticas na Itália e no exterior.
  Em 1505 recebeu a incumbência de constituir uma milícia para a República. Assim, recrutou, organizou e treinou tropas que, por fim, não alcançaram o objetivo de oferecer garantias às instituições republicanas.  
Em 1510, Maquiavel atuou como mediador entre o papa e o rei da França. O agravamento do conflito entre ambos os levou à guerra. Os franceses venceram as tropas pontifícias, e Florença é ameaçada pela Santa Liga, entidade criada pelo papa Júlio II para lutar contra a França. O governo republicano de Soderini caiu em 1512, e os Medici voltaram ao poder. A partis daí, começou o ostracismo de Maquiavel.
Exonerado de suas funções, proibido de ter acesso ao prédios públicos de Florença, o ex-secretário amargaria dias ainda mais difíceis. Em fevereiro de 1513 foi descoberto um complô contra os Médici, e Maquiavel figurava entre os suspeitos. Preso e torturado, foi multado e condenado à prisão.
Enquanto isso, ampliava-se o poder dos Medici. Neste mesmo ano de 1513 o cardeal Giovani de Medici transforma-se no papa Leão X. É o primeiro florentino a alcançar o papado.
Indultado por intervenção direta de Juliano de Medici, com quem mantivera um bom relacionamento na juventude, Maquiavel tenta, sem êxito, retornar à vida pública. Impedido de trabalhar, recolheu-se ao exílio na propriedade da família, de San Andréa in Percussina, perto de San Casciano, a cerca de quarenta quilômetros de Florença.
O Príncipe começava a nascer, embalado pelas agruras do exílio.

 

Mãos à obra

Quem tentou, até hoje, enquadrar O Príncipe como tratado filosófico ou científico teve, no mínimo, de se exceder em malabarismos teóricos para sustentar suas posições. Muita tinta foi gasta para tentar explicar supostas intenções científicas escondidas nas entrelinhas do livro, muitos raciocínios foram elaborados para captar sentidos imaginários mais profundos escondidos nos desvãos do trabalho.
Como O Príncipe é uma obra muito rica, tem o poder de inspirar interpretações, recriações e ampliações de idéias. Mas, ao acompanharmos o seu nascimento, percebemos que o pragmatismo foi a sua marca registrada, desde os primeiros momentos. A intenção do autor não era outra senão produzir um manual do que hoje denominamos “marketing político”. Um manual que ajudasse na unificação da Itália, fortalecesse o poder absoluto e o auxiliasse na recuperação dos cargos públicos que ocupara durante a fase republicana da política florentina.
Maquiavel, que vivia a angústia e a solidão do exílio, cultivava a vontade decidida de recuperar seu emprego e sua posição. A melhor idéia que temos do seu dia-a-dia foi fornecida por ele mesmo, em uma carta célebre que escreveu ao seu amigo Francesco de Vettori, embaixador em Roma e homem ligado aos Medici:
“Pela manhã, eu acordo com o sol e vou para o bosque fazer lenha; ali permaneço por duas horas verificando o trabalho do dia anterior e ocupo o meu tempo com os lenhadores, que sempre têm desavenças, seja entre si, seja com os vizinhos[...]Deixando o bosque, vou à fonte e de lá para a caça.
Trago um livro comigo, ou Dante, ou Petrarca, ou um destes poetas menores, como Tibulo, Ovídio ou outros: leio suas paixões, seus amores e recordo-me dos meus, delicio-me nesse pensamento.Depois, vou à hospedaria, na estrada, converso com os que passam, indago sobre as notícias de seus países, ouço uma porção de coisa e observo a variedade de gostos e de características humanas. Enquanto isso, aproxima-se a hora do almoço e, com os meus, como aquilo que me permitem meu pobre sítio e meu pequeno patrimônio. Finda a refeição, retorno à hospedaria [...] lá me entretenho jogando cartas ou tric-trac [...]  
Assim desafogo a malignidade de meu destino [...] Chegando a noite, volto à minha casa e entro no meu gabinete de trabalho. Tiro as minhas roupas cobertas de sujeira e pó, e visto as minhas vestes dignas das cortes reais e pontifícias. Assim, convenientemente trajado, visto as cortes principescas dos gregos e romanos antigos. Sou afetuosamente recebido por eles e me nutro do único alimento a mim apropriado e para o qual nasci. Não me acanho ao falar-lhes e pergunto das razões de suas ações; e eles, com toda a sua humanidade, me respondem. Então, durante quatro horas não sinto sofrimento, esqueço todos os desgostos, não me lembro da pobreza, e nem a morte me atemoriza [...]”
Denominar O Príncipe de obra de marketing político não significa qualquer intenção de releitura da obra ou de reinvenção de Maquiavel. Trata-se apenas de repor o trabalho no seu contexto primitivo, no seu sentido primordial, desde a concepção do roteiro até o resultado final. Maquiavel usou o livro tentando sensibilizar os Medici para a situação. Quando foi escrito, estava destinado a Juliano de Medici. Mas com sua morte, acabou dirigido a Lorenzo de Medici. Outro trecho da mesma carta a Vettori nos mostra bem uma idéia do estado de espírito e da disposição do autor:
“O que me leva a dedicar o meu opúsculoa Juliano é a necessidade que me aflige, porque me consumo e não posso continuar por muito tempo assim sem que a pobreza faça de mim indivíduo desprezível; e depois, eu gostaria que os Medici me dessem um emprego, mesmo que começassem por me mandar empurrar um rochedo;pois, se mais tarde eu não conseguisse ganhar os seus favores, eu só teria de culpar a mim mesmo. Quanto ao meu tratado, se for lido perceber-se-á que os quinze anos que passei aprendendo a arte da política, não os passei nem dormindo nem brincando; e deveria haver grande interesse em se servir de um homem cheio de experiência adquirida à custa de outrem. Não se deveria, além disso, duvidar de minha lealdade, pois, tendo sido sempre fiel aos meus compromissos, não é agora que vou aprender a não cumpri-los; e não é ao fim de quarenta e três anos – esta é a minha idade – de bons e leais serviços que podemos mudar a nossa natureza. Da minha bondade e da minha lealdade, aliás, dá testemunho a minha pobreza atual.”
No oferecimento do livro, Maquiavel roga a Lorenzo que o receba como um testemunho da sua submissão, afirmando que o maior presente que podia oferecer ao governante era a lealdade de, em pouco tempo, com a leitura do pequeno volume, “compreender aquilo que em tantos anos e com tantos incômodos e perigos vim a conhecer”. E concluicom um apelo: 
“E se Vossa Magnificência, das culminâncias em que se encontra, alguma vez volver os olhos para baixo, notará quão imerecidamente suporto um grande e contínuo infortúnio”.
Maria Tereza Sadek, no texto Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual de virtù assinala que, depois da redação de O Príncipe,a vida do autor é marcada por uma contínua alternância de esperanças e decepções.Maquiavel busca incessantemente, sem sucesso, durante vários anos, retomar suas funções públicas. Lorenzo de Medici, a quem oferece o livro, pelo que se sabe, jamais sequer irá abri-lo. Somente após a morte de Lorenzo, em 1519, Maquiavel volta a ser ouvido pelos governantes de Florença: o cardeal Júlio de Medici pede-lhe sugestões sobre a organização política do Estado. No ano seguinte, a Universidade de Florença encomendou-lhe a história da cidade, nascendo daí as Istorie Fiorentine, obra inacabada e também motivo de sua última frustração política.
Em 1527, os Medici caem mais uma vez. Agora é a Nova República que vê Maquiavel com maus olhos. Para os republicanos, ele simplesmente se transformou em um inimigo. Os esforços para agradar aos Medici e a contratação como historiador oficial foram suficientes para leva-lo de novo ao ostracismo.
Profundamente abatido, Maquiavel adoece e morre em junho de 1527, aos 58 anos.

Destino cumprido

  Maquiavel não conseguia viver longe do poder, mas a sua condição social era um obstáculo quase intransponível para uma carreira política mais ambiciosa. Dificilmente conseguiria ser príncipe. Sua trajetória de burocrata foi cumprida, podemos dizer, no limite de suas possibilidades.


  Como intelectual do seu tempo, era praticamente impossível que ele conseguisse uma independência pessoal e financeira. Todos os grandes nomes do Renascimento italiano, das letras ou das artes, dependeram dos mecenas, ricos burgueses que financiavam as atividades intelectuais e artísticas como forma de diferenciação dos antigos valores cultivados pela nobreza.
  Burocrata, diplomata, pensador, historiador, teatrólogo, Maquiavel é um marco no pensamento universal. Entre as obras que produziu, algumas se destacam de sua época e integram o patrimônio da humanidade.
  A Mandrágora, peça de sua autoria, é apontada como a melhor comédia do Renascimento. Histórias Florentinas, livro encomendado pelos Medici, depois de sua reabilitação, é também considerado pelos críticos como o melhor livro sobre a história do Renascimento italiano. Discurso Sobre a Primeira Década de Tito Lívio é retratado como um dos grandes livros de história e doutrina política de todos os tempos.
  Homem múltiplo e talentoso, Maquiavel é um dos expoentes de uma época fértil em grandes personagens. No entanto, nada do que produziu se compara a II Príncipe, cujo sucesso não chegou a saborear e que só foi publicado pela primeira vez cinco anos depois de sua morte.
  Se foi a reabilitação tão desejada junto aos Medici ou a necessidade de unificação de sua pátria que transformaram um republicano convicto como era Maquiavel em ardente defensor da monarquia absoluta, não podemos avaliar. Aliás, nem interessa saber se a sua conversão foi sincera ou apenas conveniente. Não temos a menor intenção de julgar Maquiavel, nem o homem nem o político. E também não queremos, do mesmo modo, julgar O Príncipe. Pretendemos apenas analisar a obra pelo prisma do marketing político, buscando e apresentando a verdade maquiaveliana nos fatos e nos escritos do autor, não na fantasia.
  É a ação dos grandes homens, cujo conhecimento apreendeu “por meio de uma grande experiência das coisas modernas e de uma contínua lição das antigas”, que orienta Maquiavel. E é com o espírito desses grandes homens que ele dialoga imaginariamente em suas solitárias noites de reflexão. Sua visão da História e da política não é dialética, não se baseia na mudança, mas na estabilidade. Ele acredita em valores perenes, da mesma família das idéias estáveis e universalmente válidas do pensamento socrático. Em uma época de mutação, ele busca valores estáveis, a fim de oferecer alicerces a um novo tempo. 
  Assim, embora leve em consideração as mudanças no cenário político e se preocupe em refletir sobre esse assunto, está em busca dos valores duradouros que orientam a prática política. Temendo ser mal interpretado pelos poderosos em sua ousada pretensão de dizer-lhes o que fazer, Maquiavel adverte, logo no oferecimento do livro, que para conhecer o caráter do povo é preciso ser príncipe e para conhecer o caráter do príncipe é preciso ser povo. Assume, assim, com relação ao poder, a aproximação solidária e o distanciamento profissional que caracterizaram os profissionais do marketing político do século XX.
  Em carta datada de 13 de março de 1513, enviada ao mesmo amigo Vettori, Maquiavel parecia antecipar sua trajetória:
  “O destino determinou que eu não saiba discutir sobre a seda nem sobre a lã; tampouco sobre questões de lucro ou de perda. Minha missão é falar sobre o Estado. Será preciso submeter-me à promessa de emudecer, ou terei de falar sobre ele”.
  No túmulo de Maquiavel, em Florença – aliás vizinho ao de Michelangelo – há uma lápide com a inscrição latina Tanto nomini nullum por elogium, ou seja, “Tão grande nome nenhum elogio alcança-o”. 

*Texto extraído do livro Maquiavel O Poder. Editora Martin Claret. São Paulo. de José Nivaldo Júnior.

Tópicos Políticos: Maquiavelismo, o que é?


 Sempre ouve-se opiniões muito pejorativas sobre o fenômeno maquiavélico enquanto exercício prático de governo, todavia, entre algumas leituras encontrei esse pequeno texto de um autor português (J. A. Maltez) sobre maquiavelismo que me parece comtemplar algo mais próximo dos méritos que buscava Niccolò Macchiavelli, o próprio Foulcalt assevera que a maioria absoluta dos estudiosos desse autor tem uma leitura equivocada de sua obra. Muito combatido por humanistas de seu tempo e por fundamentalistas religiosos maquiavél deu testemunho de seu legado a duras penas sendo inclusive acusado de um complô contra os Médici torturado e humilhado, morreu em profundo desgosto afastado do poder pelos republicanos que assumiram o governo florentino. Segue abaixo o texto sobre Maquiavelismo:

Utilizando as categorias weberianas, diremos que Maquiavel adopta a moral de responsabilidade em vez da moral de convicção. Adopta aquela moral onde os fins justificam os meios, onde se admite que o homem pode perder a alma para salvar a cidade: se se trata de deliberar sobre a sua salvação (da pátria), ele (o cidadão) não deve ser paralisado por qualquer consideração de justiça ou injustiça, de humanidade ou de crueldade, de ignomínia ou de glória. Porque para se alcançar o fim do salute della patria, non vi debbe cadere alcuna considerazione nè di giusto nè di ingiusto, nè di pietoso, nè di crudele, nè di laudabile, nè de ignominioso, é preciso defender a pátria gloriosamente ou não, todos os meios são bons desde que ela seja defendida. 

Assim, não pode, portanto, um senhor prudente, nem deve, observar a fé jurada, quando tal observância redunde em seu prejuízo, e quando tenham desaparecido as razões que fizeram que a jurasse. É que se os homens fossem todos bons, este preceito não seria bom, mas porque são maus e não respeitarão para com o príncipe a palavra dada, não tem o príncipe que a respeitar para com eles. 
Segundo Hannah Arendt, a questão, tal como Maquiavel a viu, não era se amava mais Deus do que o mundo, mas se seria capaz de amar mais o mundo do que a si próprio. E, de facto, esta decisão foi sempre crucial para todos os que dedicaram a sua vida à política. A maior parte dos argumentos de Maquiavel contra a religião são dirigidos contra os que se amam a si mesmos, ou seja, a própria salvação mais do que o mundo; não são dirigidos contra os que realmente amam a Deus mais do que amam, quer o mundo, quer a si próprios. 
Utilizando agora palavras de Cabral de Moncada, diremos que ele apenas veio dizer alto aquilo que todos, ou antes, muitos, particularmente os príncipes, diziam já em voz baixa, e, mais do que tudo, praticavam. 
Basta recordar estas palavras do florentino: há dois géneros de combate: um que se serve das leis, outro que se serve da força: o primeiro é próprio do homem, o segundo dos irracionais: mas porque o primeiro muitas vezesa não basta, convém recorrer ao segundo. A um príncipe é necessário, portanto, saber usar ou o animal ou o homem que estão dentro dele (... ) Estando, então, um príncipe necessitado de saber usar bem o animal, deve eleger como tal a raposa e o leão; porque o leão não se defende das armadilhas e a raposa não se defende dos lobos. Necessita, pois, de ser raposa para conhecer as armadilhas, e leão para amedrontar os lobos. 
Segundo Jacques Maritain, o resultado prático do ensino de Maquiavel foi, para a consciência moderna, uma cisão profunda, uma irremediável separação entre a política e a moral, e, por conseguinte, uma ilusória, mas mortal, antinomia, entre aquilo a que chamamos idealismo (confundido erradamente com a moral) e aquilo a que chamam realismo (confundido erradamente com a política). 

Continua e continuará, entretanto, a eterna dúvida de sabermos se, em política, os estados de violência não poderão ser tão ou mais violentos que os próprios actos de violência. O mesmo Maritain tentou responder, salientando que uma política não maquiavélica é obrigada a não cometer o mal. Não é obrigada a fazer reinar a virtude por toda a parte(... ) Não é falta moral aceitar serviços duma mão suja quando esse é o único meio de assegurar o êxito duma empresa tão arriscada como uma campanha militar, porque a política é arte de escolher entre grandes inconvenientes.

"Os homens têm menos escrúpulos em ofender quem se faz amar do que quem se faz temer, pois o amor é mantido por vínculos de gratidão que se rompem quando deixam de ser necessérios, já que os homens são egoístas; mas o temor é mantido pelo medo do castigo, que nunca falha..."

(Maquiavel)

Brava Callas! Brava Maria!

 "Se você ama a música a ponto de servi-la humildemente, o sucesso acontecerá automaticamente” – Maria Callas 

 

Uma voz cortante, poderosa, capaz de levar o ouvinte a abismos de paixão ou de dor lancinante. Maria Callas é a emoção superlativa. Uma diva única, quase força da natureza. Quem viu seus olhos expressivos, a visceral interpretação de suas violetas, rosinas, turandots, lucias e normas jamais voltará a se conformar somente com uma bela voz de soprano. A indomável Callas, geniosa, intempestiva, era regida pelos sentimentos. Em sua pele, nenhum personagem de ópera era ficcional. O sangue fervia, a dramaticidade explodia, puro êxtase. Butterfly era um lamento nunca ouvido, Magdalena a voz da emoção, e Violeta morria de olhos abertos, encarando uma platéia atônita e chocada.

  Ela encantou Pasolini, Zeffirelli e Visconti, emudeceu poderosos e seduziu milhões. Era a Grande Callas, La Divina Callas, sobrenome que nem era seu e que criou fazendo um anagrama com o nome do maior templo da ópera: o teatro Scala, de Milão. Paradoxalmente, essa mulher que fazia de seu canto a expressão máxima de todos os sentimentos humanos, foi desprezada pelo único homem que amou. A crueldade do armador grego Aristóteles Onassis pode ser medida por uma frase proferida quando a voz de Maria já declinava, em que comparava sua poderosa voz a “um apito que você traz na garganta”.

Boa parte da atração que Maria Callas exerce sobre o grande público tem raízes fincadas exatamente em sua biografia, permeada por espetaculares feitos e por escândalos alimentados pela mídia. Veja-se o caso do milionário Onassis. No auge da fama, Maria sofreu tremendo assédio por parte do armador grego, que era casado com Tina. Presentes luxuosos e toda sorte de mimos foram usados por Onassis para convencê-la. Ela capitulou e mergulhou em uma relação atormentada, onde foi submetida a humilhações, como o desprezo de Christina, a filha de Onassis, ou o momento em que teve de depor em um tribunal americano sobre sua participação na separação do casal Onassis. Seu divórcio de Giovanni Battista Meneghini foi explorado à exaustão pelos jornais, suas explosões de fúria ficaram registradas pelos fotógrafos, sua intimidade foi devassada.

O mundo acompanhou a grã sacerdotisa do canto quando ela descobriu amor e sexo aos 36 anos e então desejou deixar de ser deusa e assumir uma vida mais pacata e caseira: “Só desejo um marido, filhos e um cachorro”, declarou.

Aristo - a forma carinhosa com que Maria tratava Onassis na intimidade – coroou sua passagem pela vida de Callas trocando-a por Jacqueline Kennedy quando esta enviuvou do presidente americano. Repetiu com Jacqueline o assédio que havia feito a Maria. O trauma emocional de Callas foi proporcional ao impacto causado pelo novo casal Onassis 

  Outra façanha de Maria refere-se à silhueta. Da soprano gordinha, em poucos meses ela se transformou em uma sílfide e abriu um debate acalorado sobre o impacto do emagrecimento sobre sua voz. Esse episódio é apontado como uma das maiores provas de sua quase legendária persistência, uma força de vontade assombrosa que a atraía como ímã para todos os desafios, tanto na carreira artística como na vida íntima. 

  Mas, além da curiosidade que despertava e dos escândalos que protagonizava, Maria era uma artista fulgurante. Nada em sua biografia se compara ao poder encantatório de sua voz. A gravação da sua mais famosa apresentação da Norma, de Vincenzo Bellini (1801-1835), com a orquestra do Scala, regida pelo maestro Tullio Serafin, é um ícone da história da ópera pela emoção e dramaticidade que emergem da voz de Maria. Norma foi o papel que Callas mais representou: 92 vezes. A ópera toda – mas principalmente a ária Casta Diva – consolidaram sua reputação e sua fama. Curiosamente, a seu amor pelo canto deve-se o resgate de Norma, que habitava um certo limbo, bem como algumas óperas de Rossini, a quem emprestou um sopro de graça e leveza. 

Inspirada pela condução segura de Serafin, Maria fez mais: subverteu as regras até então aceitas no canto lírico e ousou desconstruir a exagerada especialização que se instalara. Os sopranos, em sua época, estavam subdivididos em dramático, mezzo, coloratura, ligeiro e spinto. Ninguém ousava romper a barreira. Maria fez isso, e logo na estréia em Verona, em 1947, aos 24 anos. Contrariando tudo o que até se acreditava, cantou na mesma semana Tristão e Isolda, de Richard Wagner, Turandot, de Giaccomo Puccini, e voltou a Wagner no papel de Brunnhilde. Um verdadeiro feito o de cantar – e simultaneamente - o repertório de vários tipos de soprano. 

Décadas depois, em uma das famosas master classes que Callas deu na Juilliard School of Music em Nova York, em 1971-72, ela sentenciou: "Hoje só se fala em baixo profundo, baixo cantante, barítono-baixo ou soprano ligeiro, soprano spinto, soprano disso, soprano daquilo. A cantora é soprano, e basta! Um instrumentista faz os baixos e agudos. Do mesmo modo, um cantor deve cantar em todas as tessituras". 

Sua interpretação da Tosca, de Giacomo Puccini (1858-1924), também entrou para a história do bel-canto, principalmente na apresentação que fez no Scala sob a regência de Victor de Sabata. Floria Tosca foi representada 39 vezes por Callas, mas nada se compara com a majestosa apresentação de 1953, em que Maria contracena com dois outros cantores respeitáveis: o tenor Di Stefano e o baixo Tito Gobbi. 

Curiosamente, a Tosca ocupou especial lugar em sua vida. Maria - nascida em Manhattan, filha de gregos - estreou na Ópera Nacional de Atenas em 1942 exatamente com a Tosca. E foi com ela que encerrou sua carreira em 1965, em Londres. 

Maria morreu sozinha, em seu apartamento de Paris, em 16 de setembro de 1977, vítima de um infarto. Enquanto o enterro percorria a rua Georges Bizet, centenas de parisienses que choravam saudaram a passagem do esquife com a saudação que emocionava Maria na saída dos teatros: “Brava Callas!, Brava Maria!”. Na primavera de 1979, suas cinzas foram lançadas no Mar Egeu.



Descartes e o problema do conhecimento: Afastar o ceticismo apelando à existência de um ser perfeito



A defesa do realismo indireto contra a acusação de que apenas ele nos ameaça com o ceticismo deixa em aberto a questão principal que é, lembremos, a de saber se há um modo de responder ao ceticismo e de justificar a crença de que há realmente um mundo físico externo, para além das nossas experiências. Descartes respondeu ao ceticismo apelando à ideia de Deus, uma ideia que podemos encontrar no interior da nossa mente, tenha esta última algum contato com uma realidade física externa ou não. Descartes adotou a perspectiva de que a existência de Deus pode ser provada através dos argumentos teístas tradicionais. Provar que Deus existe é provar que um ser totalmente bom existe e que esse ser, embora possa permitir que cometamos erros de quando em vez (para podermos aprender com eles), não permitiria que vivêssemos em geral enganados, pois isso seria contrário à sua bondade. Daí se segue que Deus não permitiria que estivéssemos sempre a sonhar, a ser enganados por um espírito malévolo ou outra coisa do género. Logo, se os nossos sentidos nos levam a acreditar na realidade de um mundo externo, num mundo físico, esse mundo terá de existir.
(…) é claro que seria mais satisfatório filosoficamente se conseguíssemos responder ao cepticismo sem ter de apelar à existência de Deus, porque isso nos faria evitar pelo menos um assunto que pode ser tão controverso como o cepticismo e o realismo indirecto. Na perspectiva de muitos filósofos, podemos fazê-lo argumentando que a crença comum de que há objectos externos que correspondem às nossas experiências perceptivas é um género de hipótese quase científica que encerra a melhor explicação dessas experiências; uma explanação que é constantemente confirmada por predições com êxito que fazemos nessa base. Como [Michael] Lockwood argumentou, este tipo de defesa imita exactamente a justificação dos cientistas para hipóteses acerca de entidades não observáveis como os electrões. Se a nossa crença na existência dos electrões pode ser racionalmente justificada em virtude dela ser assumida por uma teoria científica bem confirmada, então também a nossa crença em objectos físicos externos pode sê-lo, não obstante estes não serem directamente observáveis.
Um princípio bem conhecido da explicação científica é a Navalha de Ockham, que defende que as hipóteses mais simples e económicas são preferíveis às desnecessariamente mais complexas, porque aquelas levantam menos mistérios subsequentes e, assim, permitem que nos mantenhamos o mais perto possível da evidência de que dispomos. (…) Uma resposta à sugestão de Lockwood é que ela viola a Navalha de Ockham, pois um céptico poderia argumentar que a hipótese do ‘espírito malévolo’ é mais simples e económica do que a perspectiva comum e que é, por isso, preferível. Na verdade, ao contrário da visão comum, que assume um enorme número e variedade de objectos físicos externos governados por leis complicadas, a hipótese do demónio postula a existência de um único objecto, o próprio demónio, operando de acordo com o princípio simples de querer enganar.
No entanto, como argumentou o físico David Deutsch, as hipóteses cépticas, como os cenários do cérebro na cuba e do espírito malévolo, são na verdade mais complicadas do que a crença comum num mundo físico externo, pois são parasitas desta. Para formar a hipótese de um espírito malévolo enganador, temos primeiro de formar a hipótese comum da existência do mundo de objectos físicos externos governados por leis físicas e depois imaginar que o demónio nos faz acreditar que esta hipótese é verdadeira. Isso requer que o demónio seja suficientemente complexo para desempenhar esta tarefa com êxito, o que significa que é suficientemente complexo para interagir connosco, imitando exactamente aquilo que seria um mundo realmente composto por objectos físicos externos. Mas isso significa que o espírito malévolo teria de ser ele próprio pelo menos tão complexo como um mundo de objectos físicos externos; com efeito, significa que esse espírito teria de ser mais complexo, pois teria não apenas de imitar esse género de mundo, como também de se aperceber conscientemente de que estaria a fazer tudo isto (consciência que um mundo de objectos físicos externos não teria). Assim, seria uma coisa pensante, o que levantaria mais questões: acerca dos motivos subjacentes ao que faz, etc.; questões que a perspectiva comum não levantaria. Portanto, afinal de contas, a hipótese do espírito malévolo não é realmente tão simples ou econômica quanto a hipótese do senso comum e a Navalha de Ockham deve levar-nos a rejeitar a primeira em favor da última das hipóteses. 

*Edward Feser, Philosophy of mind. A beginner’s guide. (Oxford, 2006). Trad. Carlos Marques.

A lógica da descoberta científica (Popper)



O livro mais importante [de Karl Popper] sobre a filosofia da ciência, A Lógica da Descoberta Científica, faz duas grandes alegações sobre a investigação científica. Primeiro, Popper defende uma certa versão do falsificacionismo, a perspectiva de que a ciência procede, não verificando a verdade das hipóteses científicas, mas pondo de parte hipóteses falsas. O falsificacionismo, argumenta Popper, resolve o (ou pelo menos salva-nos do) terrível problema da indução. Segundo, Popper defende que as proposições científicas são diferentes das proposições pseudo- ou não-científicas, porque são falsificáveis empiricamente. (…)

Os problemas da indução e da demarcação
Recordemos que Hume deu conta de um problema envolvendo o que ele chamou 'raciocínio causal', uma dificuldade lógica respeitante ao nosso pensamento sobre factos para além da nossa experiência sensória do momento. Hume defende que ir para além das nossas experiências correntes requer que pensemos essas experiências como causas ou efeitos de coisas que no momento não nos rodeiam. Vejo pegadas na praia e, sabendo a partir da experiência passada que as pegadas são efeitos de uma pessoa que caminhou pela praia antes de mim, concluo que alguém caminhou pela praia antes de mim. Este tipo de raciocínio parece depender do princípio da indução, algo que liga muitas observações particulares a uma conclusão geral. O princípio pode ser descrito de diversas maneiras: o futuro será como o passado, a natureza é uniforme, as coisas continuarão a ser como sempre foram, e por aí em diante. Quando concluo que uma pessoa a caminhar pela praia foi a causa das pegadas faço uma inferência indutiva do género: 'Aqui há algumas pegadas. Vi muitos exemplos de pegadas no passado. Em cada uma dessas ocasiões passadas, as pegadas foram causadas por uma pessoa a caminhar. Assim, todas as pegadas são causadas por pessoas. Portanto, essas pegadas foram feitas por alguém que caminhou na praia antes de mim.' O princípio da indução, argumenta Hume, suporta a inferência indutiva que parte de muitas observações particulares para uma conclusão geral - neste caso, o raciocínio que parte de se ter encontrado várias pegadas causadas por pessoas a caminhar para a conclusão de que todas essas pegadas são causadas por pessoas a caminhar. É com base na alegação geral sobre todas a pegadas que penso que sei algo sobre a causa das pegadas que vi.
A dificuldade identificada por Hume, para nós o problema da indução, é que não há justificação racional para o próprio princípio da indução. Hume considera que as proposições justificáveis são apenas de dois tipos: matérias de facto e relações de ideias. Podemos determinar se certa matéria de facto alegada é verdadeira olhando para o mundo em nosso redor. As relações de ideias são ou verdades por definição ou verdades que se tornam tal em virtude de convenção simbólica. Hume diz que podemos identificar relações de ideias porque a negação destas resulta em contradição. (…) Hume mostrou que o princípio da indução não pode ser uma relação de ideias, porque a sua negação não envolve contradição; e não pode ser justificado numa base empírica, visto que isto nos levaria a raciocinar em círculo. Com efeito, não há contradição em pensar que o futuro possa não ser como foi o passado e estaremos a argumentar em círculo se dissermos que o futuro será como foi o passado porque os futuros passados sempre foram como os passados passados. Por outras palavras, o princípio da indução não tem uma base racional.
Se pensarmos um pouco neste contexto sobre a investigação científica, podemos ser conduzidos com alguma rapidez à conclusão de que a ciência não é, no fim de contas, racional. À primeira vista, a ciência procede através da experimentação, da recolha de um certo número de observações particulares, concluindo, com base nelas, que alguma afirmação geral é verdadeira. Por outras palavras, a ciência é posta em marcha quando se nota por observação que várias instâncias de um certo tipo de coisa possuem uma dada propriedade. Dado o princípio da indução, uma conclusão geral é atingida quando se diz que todas as coisas daquele tipo possuem a propriedade em questão. Este gás aquece quando a pressão sobre ele aumenta; este outro gás aquece da mesma maneira; também ainda este outro; portanto, a tempertura de todos os gases aumenta com uma intensificação da pressão. Se algo é indutivo, é isto; e se Hume está certo sobre a irracionalidade do princípio da indução, parece que a ciência é, no fundo, irracional. E se a ciência é irracional qual a diferença entre a pesquisa científica e os lunáticos da Nova Era? Se queremos predizer o comportamento dos gases sob pressão, porque não consultar um leitor de entranhas de pombo em vez de um cientista?
Deste modo, os dois problemas de Popper dizem respeito ao papel da indução na ciência e à diferença entre ciência e pseudo-ciência. A sua solução para ambos envolve a ideia de falsificação. Daremos conta de cada um deles à vez.

Indução e falsificação
Popper resolve o problema da indução substituindo a concepção indutivista da investigação científica por uma coisa diferente, nomeadamente, a falsificação. Os cientistas não precisam de proceder indutivamente inferindo afirmações gerais a partir de várias observações. Em vez disso, a prática científica envolve a proposição e depois o teste de alegações teóricas gerais. Por outras palavras, a ciência não tem de inferir teorias de observações - isto lumps us with o problema da indução. Em vez disso, os cientistas podem inferir dedutivamente consequências observacionais das teorias e então, com base nas suas deduções, sujeitar a teoria a testes rigorosos. Se os testes mostrarem que a teoria prediz falsas declarações observacionais, sabemos que a própria teoria é falsa.
O estratagema de Popper depende de uma assimetria lógica interessante. Uma forma de entender o problema da indução é notar que, independentemente do número de observações que possamos registar a favor da nossa conclusão indutiva, ela pode sempre vir a ser falsa. Isto é apenas dizer que as inferências indutivas não são logicamente válidas. Numa inferência indutiva podemos ter premissas inteiramente verdadeiras e, ainda assim, obter uma conclusão falsa. Suponhamos que esta pegada foi causada por uma pessoa a caminhar ao longo da praia, e esta também e ainda estoutra, e assim por diante por quantas observações quisermos. A minha conclusão indutiva de que todas as pegadas são causadas por pessoas caminhando ao longo da praia pode sempre mostrar-se falsa, mesmo sendo as minhas premissas verdadeiras. Basta para isso que um punhado de crianças criativas faça uma falsa pegada na praia.
Mas notemos o que acontece se voltarmos a lógica da situação de pernas para o ar e pensarmos apenas dedutivamente. Começamos com a teoria de que todas as pegadas são causadas por pessoas que caminham ao longo da praia. Supunhamos que deduzimos disto a consequência observacional que as pegadas observadas amanhã na Costa da Caparica serão causadas por pessoas a caminhar na praia. Vamos à praia dar uma olhadela. Se encontrarmos apenas um exemplo de pegadas falsas feitas por crianças, então sabem com certeza que a nossa teoria é falsa. A indução nunca nos leva a parte nenhuma, a falsificação pode pelo menos dizer-nos quando as nossas teorias são incorrectas.
Falando sem grande rigor, podemos dizer que Popper advoga que se mude de uma argumentação indutiva para uma forma de argumento que os lógicos chamam modus tollens. Estes argumentos têm a seguinte estrutura: se p implica q e q é falso, então p é falso. Traduzindo para o contexto da filosofia da ciência, Popper está a sugerir que a racionalidade científica consiste no mesmo tipo de forma lógica: se a minha teoria conduz a uma certa observação e a experiência contradiz a observação prevista, então a minha teoria é falsa. Se não podemos obter certeza indutiva acerca da verdade das nossas teorias, podemos, no entanto, pelo menos algumas vezes, ter certeza dedutiva da sua falsidade.

O critério da demarcação
Também podemos ver, novamente sem grande rigor, como a ideia de falsificação leva à solução de Popper para o segundo problema e encontrar uma distinção entre ciência e pseudo-ciência. Caracterizar esta distinção - mostrar 'o critério de demarcação', como Popper o designa - ajudar-nos-á a compreender o que é a ciência. Conduzir-nos-á também a pôr sob dúvida práticas a que se dá por vezes demasiada atenção, em particular, aquelas que se confundem com a ciência. Popper trabalhou por uns tempos com o freudiano Alfred Adler e é esclarecedor, neste contexto, dizer algumas palavras sobre o freudianismo.
Supunhamos que eu o incomodo a si com a minha teoria freudiana de que o desejo sexual inconsciente por figuras maternas está na base do comportamento masculino. Eu exijo-lhe provas e dirigimo-nos a um bar para observar o modo como os clientes interagem com o homem e com a mulher que estão ao balcão. Um cliente homem escolhe a mulher quando decide pedir uma bebida e eu exclamo 'Ah ah! O seu desejo inconsciente pela mãe levou-o a interagir primeiro com ela! Isto prova a minha teoria.' Mas se as coisas tivessem acontecido de maneira diferente e o cliente se tivesse dirigido ao homem atrás do balcão, eu poderia dizer também sem dificuldade 'Ah ah! Ele está a tentar ultrapassar o seu desejo pela mãe evitando a mulher do bar! Isto prova a minha teoria.'
O problema em Freud e até certo ponto, na óptica de Popper, em Marx, é que as perspectivas destes não são falsificáveis. Uma hipótese freudiana não tem consequências empíricas e é por isso que devemos hesitar em considerá-las científica. O que distingue a ciência da mera pseudo-ciência como o freudianismo é precisamente a testabilidade das hipóteses científicas. As teorias científicas têm consequências que podemos inspeccionar através da observação. (…)

Dificuldades da perspectiva de Popper
Há todo um conjunto de preocupações associadas à concepção da ciência de Popper, apesar de ele ter contornado o problema da indução e de ter conseguido distinguir a ciência dos pretensos candidatos a esse estatuto. Podemos perceber as dificuldades ao pensar como é que a perspectiva falsificacionista funciona supostamente na prática. Por exemplo, devemos pensar nos cientistas como alguém que tenta genuinamente falsificar, e não provar, as suas teorias? (…)
deve esperar-se que acreditemos que os cientistas devam ser ou sejam falsificacionistas? Dão eles saltos de alegria quando descobrem que a teoria sobre a qual trabalham, porventura à décadas, é falsa? Devia ser assim? Não é descabido pensar que os esforços de Popper para evitar o problema da indução o fizeram cair em algo que não se parece com a ciência tal como é praticada ou mesmo tal como deve ser praticada. Uma olhadela à história da ciência chega para sugerir que os próprios cientistas não pensam que o seu trabalho consiste em remover falsidades, mas em encontrar verdades. Seja como for, a perspectiva de Popper parece ignorar a dimensão social da ciência tal como esta é praticada, um facto explorado por filósofos posteriores como Thomas Khun e Paul Feyerabend.

*James Garvey

A VISÃO CIENTÍFICA DO UNIVERSO E O SENTIDO DA VIDA (Ponto de Vista))


Será útil fazer uma recapitulação (...) da familiar narrativa evolucionista moderna sobre a natureza humana e origens, de modo a ver com mais clareza quais os seus elementos que supostamente ameaçam o quadro tradicional do sentido e valor [da vida] conferidos pela linguagem da religião. Grosseiramente a narrativa padrão reza assim: 
Há cerca de 14 milhões de anos, teve início, por alguma razão, o cosmos - tudo o que existe, incluindo matéria, radiação, espaço e tempo -, explodindo a partir de uma pequena concentração de matéria-espaço-energia. Expandiu-se com grande rapidez. Mais tarde, os efeitos gravitacionais fizeram com que a matéria se concentrasse em massas de hidrogénio (galáxias, estrelas) e que o hidrogénio se começasse a fundir em hélio. Explosões causaram novos elementos mais pesados, que acabaram por constituir os planetas. Surgiu uma molécula auto-reprodutora em pelo menos um planeta. Os descendentes desta molécula evoluíram para organismos vivos que se diversificaram em todos os tipos de plantas, animais, micróbios, etc., tudo isto somente como resultado da selecção natural (um processo totalmente cego, operando através de mutações ao acaso em conjunto com a luta constante pela sobrevivência). Após milhões de anos uma dessas espécies torna-se inteligente. O ser humano é um produto dessas forças cegas. Quer os seus impulsos morais, quer os outros, mais selvagens, foram formados pelas pressões da sobrevivência da espécie. As narrativas religiosas sobre a nossa natureza e origens foram ultrapassadas por uma narrativa científica e as noções de criação divina são ressacas de mitos antropomórficos primitivos que procuram explicar a nossa origem na ausência de métodos científicos adequados. A ciência revela que a nossa natureza e existência são o resultado de processos inteiramente naturais que compreendemos e predizemos cada vez melhor. Estamos sós num universo material impessoal e completamente desprovido de qualquer propósito (embora outros seres inteligentes possam ter evoluído em outros planetas). Um dia, o nosso sistema solar deixará de poder ser habitado e a vida humana (ou seja o que for que evolua a partir dela) cessará, a não ser que continue noutras paragens. Seja como for, o universo inteiro chegará finalmente a um termo, pois a energia e o calor serão a pouco e pouco dispersados de acordo com as leis da entropia. Não há um significado 'último' para tudo isto, nem para nenhuma vida humana particular (na verdade, falar do sentido ou propósito do universo ou da vida humana é uma confusão filosófica). Ao pôr de parte a falsa demanda de um significado religioso, podemos, ainda assim, viver melhor ou pior, dependendo de como conseguimos aliviar o sofrimento (usando a ciência) e maximizar a oportunidade de atividades que dêem satisfação ou que sejam enriquecedoras para o maior número de pessoas.

*John Cottingham

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Alfred Wallace, um visionário renegado pela história

Cento e cinqüenta anos atrás, no dia 1º de julho de 1858, a teoria da evolução por seleção natural foi apresentada pela primeira vez à Sociedade Lineana de Londres, na Inglaterra. A descoberta era assinada por dois naturalistas britânicos. O primeiro era Charles Darwin. O outro, freqüentemente esquecido, era um jovem biólogo autodidata, que chegara às mesmas conclusões pesquisando espécies do sudeste asiático, nas florestas do Arquipélago Malaio. Seu nome era Alfred Russel Wallace.

Um século e meio depois, a história selecionou Darwin como ícone supremo do pensamento evolutivo, enquanto Wallace foi reduzido ao status de espécie ameaçada, ofuscado pelo brilho daquele que foi seu ídolo científico. Poucos hoje sabem que Alfred Russel Wallace existiu. Menos ainda sabem que ele começou sua carreira de naturalista no Brasil.

Wallace passou quatro anos na Amazônia, coletando plantas e animais às margens do Rio Negro e do médio Amazonas. Desembarcou no porto de Belém em 26 de maio de 1848, acompanhado de outro jovem naturalista britânico, o amigo Henry Bates. Tinham apenas 25 e 23 anos.

A idéia era coletar o maior número possível de plantas e bichos exóticos da floresta, que depois seriam levados de volta à Inglaterra para estudo. Buscavam pássaros, peixes, borboletas e outros insetos interessantes. Para pagar as contas, enviavam duplicatas para um agente em Londres, que vendia os espécimes para colecionadores ou museus e remetia o dinheiro de volta.

DESASTRE

O plano quase deu certo. Após quatro anos de trabalho duro, vivendo embrenhado na floresta e com a saúde fragilizada, Wallace juntou o que tinha e embarcou de volta para a Inglaterra em 12 de julho de 1852. No meio do Atlântico, um desastre: o navio pegou fogo. O jovem naturalista assistiu de um bote salva-vidas seu patrimônio científico ser consumido pelas chamas no oceano. Salvaram-se apenas algumas anotações e desenhos que estavam em sua cabine - entre eles, vários rascunhos de peixes e palmeiras, que cientistas brasileiros usam até hoje como referência.

A alfândega brasileira deu sua contribuição. A maioria dos espécimes que deveriam ter sido despachados para a Inglaterra nos últimos dois anos da expedição ficou retida em Manaus, de modo que Wallace precisou carregar tudo de uma vez na viagem de volta - tornando o prejuízo muito maior.

“Com qual prazer eu admirava cada inseto raro e curioso que eu havia adicionado à minha coleção! Quantas vezes, quando quase derrubado pela febre, não me arrastei pela floresta e fui recompensado com alguma bela e desconhecida espécie! Quantos lugares, nos quais nenhum europeu havia pisado antes de mim, seriam resgatados à minha memória pelas aves e insetos raros que eles haviam proporcionado à minha coleção!”, escreveu Wallace. “Agora tudo estava perdido, e eu não tinha um único espécime para ilustrar as terras desconhecidas pelas quais eu havia caminhado ou para resgatar a lembrança das cenas selvagens que eu havia presenciado.”

Após dez dias à deriva, tapando vazamentos com rolhas,Wallace e a tripulação foram resgatados por um navio de passagem. Voltou para a Inglaterra sem dinheiro e sem bichos, mas conhecido o suficiente para ganhar uma passagem de graça para outra expedição, dessa vez para o Arquipélago Malaio (atual Indonésia). Foi lá que, em fevereiro de 1858, ele formulou sua teoria sobre a origem das espécies.

INICIAÇÃO CIENTÍFICA

Wallace descreveu algumas espécies da Amazônia - entre elas a palmeira piaçava (Leopoldinia piassaba), usada na fabricação de vassouras -, mas não produziu nenhuma grande descoberta enquanto esteve lá. Nem por isso a viagem deixou de ser produtiva. O comércio de espécimes era apenas uma fonte de subsistência. O que Wallace queria mesmo, desde que colocou os pés na floresta, era descobrir a origem das espécies.

“Ele claramente já tinha uma hipótese quando embarcou para o Brasil”, diz George Beccaloni, pesquisador de insetos do Museu de História Natural britânico e especialista em Wallace. “Essa era sua motivação principal - muito diferente de Darwin, que ainda era cristão, não acreditava na evolução e não tinha nenhuma hipótese quando embarcou no Beagle.”

A Amazônia foi a escola que Wallace não freqüentara (nascido numa família pobre, ele abandonou os estudos aos 13 anos). “A extraordinária biodiversidade brasileira foi um ponto decisivo, ao colocar de maneira premente para ele a questão de como explicá-la racionalmente”, diz o físico e divulgador científico Ildeu de Castro Moreira.

Wallace é considerado o pai da biogeografia, ciência que estuda a relação entre fatores ambientais, geológicos e a distribuição de espécies. Ele foi o primeiro a descrever os grandes rios amazônicos como barreiras geográficas à biodiversidade - um conceito básico da ecologia moderna.

Wallace notou que, nos trechos largos dos rios, os macacos de um lado eram diferentes das espécies do outro lado. Mais tarde, essa observação se tornaria um dos pilares da teoria da evolução, explicando como o isolamento pode transformar duas populações de uma mesma espécie em espécies diferentes.

“Não há especiação sem isolamento geográfico e reprodutivo. Wallace entendeu isso perfeitamente”, diz Nelson Papavero, biólogo aposentado do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo.

*por Herton Escobar

Seleção Natural, A Gênese das Teorias

Ao remeter para Darwin seu ensaio sobre as variedades de seres vivos, Alfred Russel Wallace pedia que o mostrasse a Sir Charles Lyell, o famoso geólogo, caso nele visse algum valor. O ensaio teve um impacto avassalador sobre Darwin: trazia sentenças inteiras que poderiam ser encontradas em um antigo ensaio de Darwin de 1844.
“Seleção natural” e “sobrevivência do mais apto” apareciam tão articuladas no texto de Wallace quanto estavam na mente de Darwin.
Ao impacto do ensaio de Wallace somou-se um período de muita agitação emocional e Darwin teve de mudar seus planos inteiramente. O impacto de sua teoria sobre as raças do homem, idéia que Darwin vinha desenvolvendo, teria de esperar até 1871.
Malgrado essas mudanças de rota, uma teoria da evolução estava brotando na mente de pensadores em várias partes do mundo e o rebento teórico brotaria em algum lugar. O século 19 estava prenhe da evolução biológica.
Essa prenhez estava anunciada no livro que Darwin lera a bordo do Beagle, “Princípios da Geologia”.
Lyell escrevera que as teorizações inglesas tinham sido refutadas, e até mesmo ridicularizadas, pelos geólogos italianos do Século das Luzes. Eles tinham estendido as bases de Galileu para o estudo do interior da Terra e refutado a idéia de um dilúvio universal.
Lyell defendia o completo abandono da antiga idéia de que os fósseis não são marcas de seres vivos que de fato existiram no passado. Da mesma forma, dizia Lyell, não era razoável invocar os céus ou qualquer divindade para explicar fenômenos naturais à custa de milagres.
Nada além da “pura abominação” dessas visões era o que Lyell pedia a seus colegas iniciados das academias de intelectuais. Para explicar a ocorrência de fósseis marinhos nas alturas das montanhas não era necessário solicitar a intervenção de nenhuma força onipotente.
Até aquela data, muitos viam nos degraus da arena romana de Verona as marcas de Júpiter, cuja imagem os romanos tinham tomado de Amon dos egípcios. Os “cornu Ammonis” que até hoje ornam o rico mármore das calçadas de Verona, seriam simples lembranças espirituosas dos chifres de carneiro de Amon, e não marcas de amonitas (daí a origem do nome), animais reais extintos.
A geologia italiana acabara com o fundamentalismo anglicano naturalista e suas pretensões de sacralizar a ciência nascente.
A física e a mecânica dos céus tinham deixado de depender daquilo que estava nas Escrituras; a química vivia tempos revolucionários.
O estudo da vida seria o próximo campo fértil no qual germinariam as sementes da evolução orgânica, base de uma verdadeira ciência da vida, capaz de explicar as extinções, as “grandes revoluções” da crosta terrestre e o “mistério dos mistérios” -a origem das espécies.
Darwin e Wallace tinham resolvido a questão em 1858.
Darwin já o fizera em 1844 de maneira plenamente aceitável, mas insisitira em colecionar mais fatos e evidências.
Wallace confessava que, embora quisesse se dedicar ao tema de uma forma teórica, os afazeres cotidianos de coletor de espécimes lhe roubavam o tempo necessário.
Com um acesso de malária, ficou preso a uma cama, onde rememorou o que lera de Malthus e teve o “insight” criativo da seleção natural.
Em 1858, enfim, as duas perspectivas se juntaram e a teoria foi finalmente apresentada ao mundo. Passados 150 anos, sabemos que nada na biologia faz sentido sem ela. Há uma única razão para um anfioxo, uma lampréia, um sapo, uma tartaruga, um galo e um elefante terem um desenvolvimento embrionário com características comuns. Essa razão se resume à teoria da evolução, cujas bases foram assentadas pela geologia dos italianos do século 18, entendida e aplicada pelos britânicos que os sucederam, capazes de perceber a distinção básica entre ciência e religião. Ela estava no ar.

*por NÉLIO BIZZO