quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Fenomenologia (parte 1)




Fenomenololgia (do grego phainesthai, aquilo que se apresenta ou que se mostra, e logos, explicação, estudo) afirma a importância dos fenômenos da consciência os quais devem ser estudados em si mesmos – tudo que podemos saber do mundo resume-se a esses fenômenos, a esses objetos ideais que existem na mente, cada um designado por uma palavra que representa a sua essência, sua "significação". Os objetos da Fenomenologia são dados absolutos apreendidos em intuição pura, com o propósito de descobrir estruturas essenciais dos atos (noesis) e as entidades objetivas que correspondem a elas (noema). A Fenomenologia representou uma reação à pretensão dos cientistas de eliminar a metafísica.
O empirismo. Desde Aristóteles até o final da Idade Média, o caminho para o conhecimento foi o da análise dialética, ou seja, o raciocínio por dedução lógica, na busca de novos conhecimentos. As respostas dadas por esse método pareciam tão satisfatórias e convincentes que não havia muita preocupação em testá-las no mundo real, mediante a observação. Ciência era o mesmo que Filosofia, e o método dedutivo lógico dominou o ensino e o estudo da natureza a partir de conceitos teológicos sobre Deus e o universo. Por exemplo: se Deus existe, Ele é um Ser perfeito e se é um Ser perfeito, sua criação das coisas haveria de refletir a Sua perfeição. Consequentemente, a órbita dos planetas não podia ser qualquer uma mas devia ser a mais perfeita possível, que é a forma circular e não a elíptica, porque esta última contem desigualdades. Logo, as estrelas e os planetas situavam-se em esferas perfeitas ao redor da Terra.
Galileu (1564-1642), com sua luneta, descobre que as esferas celestes não existiam e porque contrariou essa idéia, tão certa para todos, por pouco não foi condenado a morrer na fogueira, acusado de heresia. 
A nova atitude naturalista de Galileu, de dúvida e observação, inspirou Francis Bacon (1561-1626) a criar tábuas para o controle da experimentação e o estabelecimento de leis científicas, o que levou rapidamente o homem a novos conhecimentos na astronomia, na química e na física. A mesma atitude de observação e interpretação natural levada ao estudo da mente e do conhecimento, deu origem à Corrente Empirista, que haveria de afetar profundamente a filosofia e criar o Positivismo, ou seja, o tratamento científico de todos os fatos e fenômenos, inclusive em Política.. 
John Locke (1632-1704), tido como o maior dos filósofos empiristas, procurou, no seu Essay Concerning Human Understanding (1690), demonstrar que todas as idéias são registros de impressões sensíveis (ou são derivadas de combinações, de associações entre essas idéias de origem sensível), e criticou o pensamento de Descartes (1596-1650) de que existiriam algumas idéias que seriam inatas - que o homem teria no espírito ao nascer -, como, por exemplo, a idéia de perfeição. Segundo Locke, alguma coisa é enviada pelos objetos e é captada por nossos sentidos e dão causa à formação das idéias. Este pensamento é a base da teoria corpuscular da luz.
Outro filósofo dessa corrente foi David Hume (1711-1776). Ainda mais contundente que seu predecessor Locke, negou o valor do raciocínio lógico, denunciando que a relação de causa e efeito não é suficiente como verdade, pois nada encontramos entre causa e efeito senão que um acidente costumeiramente se segue a outro. Estamos habituados a chamar o primeiro acidente de causa apenas porque ele sempre acontece antes do segundo que chamamos de efeito. 
Psicologismo e Historicismo. À influência da psicologia associativa de Locke sobre a filosofia (ou teoria) do conhecimento se chamou Psicologismo. É a teoria de que os problemas da epistemologia (a validade do conhecimento humano) e inclusive a questão da consciência, podem ser solucionados por meio do estudo científico dos processos psicológicos. A Psicologia deve ser tomada como base para a Lógica. Os psicologistas entendiam a lógica - domínio da filosofia - como ciência. Seria apenas uma disciplina definidora, normativa, dos atos psíquicos, dos modos associativos do pensamento, e suas matérias apenas regras para pensar bem, e não fonte de verdade. A filosofia ficou fora de moda, "reduzida" a uma psicologia científica vinculada ao Positivismo.
O historicismo representava a mesma tendência empirista para uma interpretação científica da História. Os fatos históricos somente poderiam ser compreendidos e julgados se confrontados com a cultura estética, religiosa, intelectual e moral do período histórico em que aconteciam, e não em relação a valores morais permanentes. 
Husserl. O filósofo Edmund Husserl ( 1859-1938), matemático e lógico, professor em Göttingen e Freiburg im Breisgau, autor de Die Idee der Phänomenologie (A ideia da Fenomenologia - 1906) enfrenta o Psicologismo e o Historicismo, e funda a Fenomenologia.. 
Contrariamente a todas as tendências no mundo intelectual de sua época, Husserl quis que a filosofia tivesse as bases e condições de uma ciência rigorosa. Porém, como dar rigor ao raciocínio filosófico em relação a coisas tão cambiantes e variáveis como as coisas do mundo real? O êxito do método científico está em que ele pode estabelecer uma "verdade provisória" útil, que será verdade até que um fato novo mostre uma outra realidade. Para evitar que a verdade filosófica também fosse provisória, a solução, para Husserl, é que ela deveria referir-se às coisas como se apresentam na experiência de consciência, estudadas em suas essências, em seus verdadeiros significados, de um modo livre de teorias e pressuposições, despidas de seus acidentes próprios do mundo real, do mundo empírico objeto da ciência. Buscando restaurar a "lógica pura" e dar rigor à filosofia, argumenta a respeito do principio da contradição na Lógica.
No primeiro volume do seu Logische Untersuchungen ("Investigações lógicas"-1900-01), sob o título Prolegomena, Husserl lança sua crítica contra o Psicologismo. Segundo os psicologistas, o princípio de contradição seria a impossibilidade do sistema associativo estar a associar e dissociar ao mesmo tempo. Significaria que o homem não pode pensar que A é "A" e ao mesmo tempo pensar que A é "não A". Husserl opõe-se a isto e diz que o sentido do principio de contradição está em que, se A é "A", não pode ser "não A". Segundo ele, o princípio da contradição não se refere à possibilidade do pensar, mas à verdade daquilo que é pensado. Insistiu em que o principio da contradição, e assim os demais princípios lógicos, têm validez objetiva, isto é, referem-se a alguma coisa como verdadeira ou não verdadeira, independentemente de como a mente pensa ou o pensamento funciona. 
Em seu artigo Philosophie als strenge Wissenschaft ("Filosofia como ciência rigorosa" -1910-11) Husserl ataca o naturalismo e o historicismo. Objetou que o Historicismo implicava relativismo, e por esse motivo era incapaz de alcançar o rigor requerido por uma ciência genuína. 
A redução fenomenológica. A fenomenologia é o estudo da consciência e dos objetos da consciência. A redução fenomenológica (ou "epoche" no jargão fenomenológico), é o processo pelo qual tudo que é informado pelos sentidos é mudado em uma experiência de consciência, em um fenômeno que consiste em se estar consciente de algo. Coisas, imagens, fantasias, atos, relações, pensamentos eventos, memórias, sentimentos, etc. constituem nossas experiências de consciência.
Husserl propôs então que, no estudo das nossas vivências, dos nossos estados de consciência, dos objetos ideais, desse fenômeno que é estar consciente de algo, não devemos nos preocupar se ele corresponde ou não a objetos do mundo externo à nossa mente. O interesses para a Fenomenologia não é o mundo que existe, mas sim o modo como o conhecimento do mundo se dá, tem lugar, se realiza para cada pessoa. A redução fenomenológica requer a suspensão das atitudes, crenças, teorias, e colocar em suspenso o conhecimento das coisas do mundo exterior a fim de concentrar-se a pessoa exclusivamente na experiência em foco, porque esta é a realidade para ela.
Na redução fenomenológica, a Noesis é o ato de perceber. Aquilo que é percebido, o objeto da percepção, é o noema. A coisa como fenômeno de consciência (noema) é a coisa que importa, e refere-se a ela a conclamação "às coisas em si mesmas" que fizera Husserl. "Redução fenomenológica" significa, portanto, restringir o conhecimento ao fenômeno da experiência de consciência, desconsiderar o mundo real, colocá-lo "entre parênteses", - o que no jargão fenomenológico não quer dizer que o filósofo deva duvidar da existência do mundo – como os idealistas radicais duvidam – mas sim que a questão para a fenomenologia é antes o modo como o conhecimento do mundo acontece, a visão do mundo que o indivíduo tem. 
Consciência e intencionalidade. Vivência (Erlebnis) é todo o ato psíquico; a Fenomenologia, ao envolver o estudo de todas as vivências, tem que englobar o estudo dos objetos das vivências, porque as vivências são intencionais e é nelas essencial a referência a um objeto. A consciência é caracterizada pela intencionalidade, porque ela é sempre a consciência de alguma coisa. Essa intencionalidade é a essência da consciência, e é representada pelo significado, o nome pelo qual a consciência se dirige a cada objeto.
Em seu Psychologie vom empirischen Standpunkte ("A Psicologia de um ponto de vista empírico"- 1874), Franz Brentano afirma: "Podemos assim definir os fenômenos psíquicos dizendo que eles são aqueles fenômenos os quais, precisamente por serem intencionais, contem neles próprios um objeto". Isto equivale a firmar, como Husserl, que os objetos dos fenômenos psíquicos independem da existência de sua réplica exata no mundo real porque contêm o próprio objeto. A descrição de atos mentais, assim, envolve a descrição de seus objetos, mas somente como fenômenos e sem assumir ou afirmar sua existência no mundo empírico. O objeto não precisa de fato existir. Foi um uso novo do termo "intencionalidade" que antes se aplicava apenas ao direcionamento da vontade.
A redução eidética. Reconhecido o objeto ideal, o noema, o objeto da percepção, o passo seguinte é sua “redução eidética”, redução à idéia (do grego eidos, que significa idéia ou essência) ). Consiste na sua análise para encontrar o seu verdadeiro significado. Isto porque não podemos nos livrar da subjetividade e ver as coisas "como são" – o que é o real, uma vez que em toda experiência de consciência está envolvido o que é informado pelos sentidos e também o modo como a mente enfoca, trata, aquilo que é informado. Portanto, dar-se conta dos objetos ideais, uma realidade criada na consciência, não é suficiente - ao contrário: os varios atos da consciência precisam ser conhecidos nas suas essências, aquelas essências que a experiência de consciência de um indivíduo deverá ter em comum com experiências semelhantes nos outros. 
Por exemplo, "um triângulo". Posso observar um triângulo maior, outro menor, outro de lados iguais, ou desiguais. Esses detalhes da observação - elementos empíricos - precisam ser deixados de lado a fim de encontrar a essência da idéia de triângulo - do objeto ideal que é o triângulo -, que é tratar-se de uma figura de três lados no mesmo plano. Essa redução à essência, ao triângulo como um objeto ideal, é a redução eidética 
A redução eidética é necessária para que a filosofia preencha os requisitos de uma ciência genuinamente rigorosa, requisitos já antes mencionadas por Descartes, de claridade apodítica, a certeza absolutamente transparente, e de distinção unívoca, que quer dizer sem ambigüidade. Os objetos da ciência rigorosa têm que ser essências atemporais, cuja atemporalidade é garantida por sua idealidade, fora do mundo cambiável e transiente da ciência empírica. 
A Intuição do Invariante. Não importa para a Fenomenologia como o mundo real afeta os sentidos. Husserl distingue entre percepção e intuição. Alguém pode perceber e estar consciente de algo, porem sem intuir o seu significado. A intuição eidética é essencial para a redução eidética. Ela é o dar-se conta da essência, do significado do que foi percebido.O modo de apreender a essência é, no jargão dos fenomenólogos, o Wesensschau, a intuição das essências e das estruturas essenciais. De comum, o homem forma uma multiplicidade de variações do que é dado. Porém, enquanto mantendo a multiplicidade, o homem pode focalizar sua atenção naquilo que permanece imutável na multiplicidade, isto é, a essência, esse algo idêntico que continuamente se mantém durante o processo de variação, e que Husserl chamou "o Invariante". 
No exemplo dado do triângulo, o "Invariante" do triângulo é aquilo que estará em todos os triângulos, e não vai variar de um triângulo para outro. A figura que tiver unicamente três lados em um mesmo plano, não será outra coisa, será um triângulo.
Não podemos acreditar cegamente naquilo que o mundo nos oferece. No mundo, as essências estão acrescidas de acidentes enganosos. Por isso, é preciso fazer variar imaginariamente os pontos de vista sobre a essência para fazer aparecer o invariante.
Como dito, não é a coisa existir ou não, ou como ela existe no mundo, o que importa, mas, sim, a maneira pela qual o conhecimento do mundo acontece como intuição, o ato pelo qual a pessoa apreende imediatamente o conhecimento de alguma coisa com que se depara. Também que é um ato primordialmente dado sobre o qual todo o resto é para ser fundado. Husserl definiu a Fenomenologia em termos de um retorno à intuição (Anschauung) e a percepção da essência. Além do mais, a ênfase de Husserl sobre a intuição precisa ser entendida como uma refutação de qualquer abordagem meramente especulativa da filosofia. Sua abordagem é concreta, trata do fenômeno dos vários modos de consciência. 
No entanto, a Fenomenologia não restringe seus dados à faixa das experiências sensíveis mas admite, em igualdade de termos, dados não sensíveis (categoriais) como as relações de valor, desde que se apresentem intuitivamente. 
Resumindo, "epoche" é colocar entre parenteses a atitude natural de modo que a pessoa possa abordar o fenômeno do modo como ele se apresenta. Uma vez que a atitude natural é colocada entre parênteses a pessoa pode abordar o que, de acordo com Husserl, são os dois polos da experiência: noema e noesis. Noesis é o ato de perceber enquanto noema é aquilo que é percebido. Através desse método, para Husserl, a pessoa pode perfazer uma "redução eidética", ou seja, os noema podem ser reduzidos à sua forma essencial ou "essência”, que será sua garantia de verdade.
Redução transcendental. Embora tenha trabalhado até o final de sua vida na definição do que chamou Redução Transcendental, Husserl não chegou a uma conclusão clara. Basicamente seria a redução fenomenológica aplicada ao próprio sujeito, que então se vê não como um ser real, empírico, mas como consciência pura, transcendental, geradora de todo significado.. 
Doutrinas afins. A Fenomenologia de Husserl é uma forma de idealismo, porque lida com objetos ideais, com as idéias das coisas em sua essência, tal como os idealistas Platão, Hegel e outros. Desde os ensinamentos de Platão a filosofia nos diz que, por influência dos sentidos (a construção das idéias que o homem tem em sua mente se faz por informação dos sentidos, como dito por Locke) existem várias imagens possíveis de um objeto, porém todas elas significando a mesma coisa, ou seja, todas elas redutíveis ao mesmo significado, todas referindo-se ao mesmo objeto ideal, contendo a mesma idéia, constituídas da mesma essência. Todas as imagens de mesa (o exemplo mais freqüente nos textos) têm uns certos componentes que fazem com que cada uma das imagens signifique "mesa", uma mesa maior, menor, alta ou baixa, vista de cima ou de baixo, por uma pessoa míope ou por outra daltônica, não importa, terá sempre aqueles componentes básicos que garantirão a aquele objeto o significado de mesa. 
Para Platão (428-347 AC), essa essência de cada coisa, o que se chamou "universais", estava no Mundo das Idéias que as almas humanas podiam vislumbrar antes da encarnação. Aristóteles (384-322 AC) reconheceu de pronto a importância desse pensamento, porém trouxe a essência das coisas para o mundo real, para as coisas mesmas. Em uma mesa, por exemplo, havia algo que era sua essência, e que, não importando quantas e quais fossem as variações acidentais, fazia que fosse uma mesa e não outra coisa qualquer. Husserl, por sua vez, retira do objeto a sua essência e a coloca na mente do homem. O objeto ideal mesa, o fenômeno da representação da mesa na mente, independe de que haja qualquer mesa no mundo externo, no mundo real, porque a essência de "mesa" está na própria mente.
A afinidade entre Husserl e Kant está em que ambos buscam a condição de verdade do conhecimento. Husserl sustenta que a verdade está no conhecimento das essências, e Kant, que ela existe limitada às categorias do que é possível conhecer.
Segundo a filosofia do conhecimento (Crítica) de Immanuel Kant (1724-1804), nós não podemos conhecer as coisas inteiramente, porque nem todos os sinais que recebemos das coisas são aceitos pela mente, e disto resulta que não podemos conhecer inteiramente o real. Conhecemos do real apenas aquilo que a mente pode assimilar, e que ele chamou fenômeno; ao que permanece incognoscível para nós ele chamou o noumeno. Então Kant tomou a série de conceitos que Aristóteles havia listado como o que podemos dizer das coisas, e transformou-a em uma série de categorias que são o que podemos conhecer das coisas. Para Kant o dado empírico tem validade, porém nunca validade absoluta ou apodítica, . Husserl igualmente duvida do conhecimento científico dos fatos e, para ele, o que deve ser procurado é o conhecimento científico das essências.
A linguagem. Para o fenomenólogo, a função das palavras não é nomear tudo que nós vemos ou ouvimos, mas salientar os padrões recorrentes em nossa experiência. Identificam nossos dados dos sentidos atuais como sendo do mesmo grupo ou tipo que outros que já tenhamos registrado antes. Uma palavra, então, descreve, não uma única experiência, mas um grupo ou um tipo de experiências; a palavra "mesa" descreve todos os vários dados dos sentidos que nós consultamos normalmente quanto às aparências ou às sensações de "mesa". Assim, tudo que o homem pensa, quer, ama ou teme, é intencional, isto é, refere-se a um desses universais (que são significados e, como tal, são fenômenos da consciência).E por sua vez, o conjunto dos fenômenos, o conjunto das significações, tem um significado maior, que abrange todos os outros, é o que a palavra "Mundo" significa.
Influência. O movimento fenomenológico, que começou então a tomar forma difundido principalmente através dos 11 volumes de sua publicação Jahrbuch für Philosophie und phänomenologische Forschung (1913-30), do qual Husserl foi o principal editor. Influiu não somente sobre filósofos mas também sobre psicólogos e sociólogos. Os existencialistas que o seguiram, principalmente Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, e Maurice Merleau-Ponty, se intitularam fenomenólogos.
O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), colega de Husserl e que dedicou a ele sua obra fundamental, Sein und Zeit (1927; "O Ser e o Tempo"). foi seu discípulo mas logo surgiram diferenças entre ele e o mestre. Discutir e absorver os trabalhos de importantes filósofos na história da Metafísica era, para Heidegger, uma tarefa indispensável, enquanto Husserl repetidamente enfatizou a importância de um começo radicalmente novo para a filosofia e, com poucas exceções (entre elas Descartes, Locke, Hume, e Kant), queria excluir, colocar "entre parênteses", a história do pensamento filosófico. 
Heidegger tomou seu caminho próprio, preocupado que a fenomenologia se dedicasse ao que está escondido na experiência do dia a dia. Ele tentou em O ser e o tempo (1927) descrever o que chamou de estrutura do cotidiano, ou "o estar no mundo", com tudo que isto implica quanto a projetos pessoais, relacionamento e papeis sociais (pois que tudo isto também são objetos ideais). Em sua crítica, Heidegger salientou que ser lançado no mundo entre coisas e na contingência de realizar projetos é um tipo de intencionalidade muito mais fundamental que a intencionalidade de meramente contemplar ou pensar objetos, e é aquela intencionalidade mais fundamental a causa e a razão desta última, da qual se ocupava Husserl.
Jean-Paul Sartre (1905-1980) segue estritamente o pensamento de Husserl na análise da consciência em seus primeiros trabalhos, L'Imagination (1936) e L'Imaginaire: Psychologie phénoménologique de l'imagination (1940), nos quais faz a distinção entre a consciência perceptual e a consciência imaginativa aplicando o conceito de intencionalidade de Husserl.
No seu The Philosophy of Existentialism, de 1965, Sartre declara que "a subjetividade deve ser o ponto de partida" do pensamento existencialista, o que mostra que o existencialista é primeiramente um fenomenólogo. A negação de valores e o convite ao anarquismo implícitos na doutrina atraíram os pensadores de Esquerda e afastaram os conservadores de Direita.
Merleau-Ponty (1908-1961), outro importante representante do Existencialismo na França, foi ao mesmo tempo o mais importante fenomenólogo francês. Suas obras, La Estruture du comportement (1942) e Phénoménologie de la perception (1945), foram os mais originais desenvolvimentos e aplicações posteriores da Fenomenologia produzidos na França.
Em sua tentativa de aplicar a Fenomenologia ao exame da existência humana, Heidegger, Sartre e outros autores franceses desenvolveram uma linguagem sofisticada, recheada de termos que caíram no gosto dos acadêmicos mas se tornaram um obstáculo ao entendimento da doutrina inclusive entre os próprios intelectuais. 

O mais original e dinâmico dos primeiros associados de Husserl, no entanto, foi Max Scheler (1874-1928), que havia integrado o grupo de Munique quem realizou seu principal trabalho fenomenológico com respeito a problemas do valor e da obrigação.Ampliou a idéia de intuição, colocando, ao lado de uma intuição intelectual, outra de caráter emocional, fundamento da apreensão do valor. 

*por Rubem Queiroz Cobra

Shakespeare - Soneto XVIII


Shall i compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all to short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed;
And every fair from fair sometime declines,
By chance or nature's changing course untrimmed.
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st;
Nor shall death brag thou wander'st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st:
So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.


Comparar-te com um dia de verão?
Tens mais doçura e mais amenidade:
Flores de maio, ao vento rude vão
Como o estio se vai, com brevidade:
O sol às vezes em calor se exalta
Ou tem a essência de ouro sem firmeza
E o que é formoso, à formosura falta,
Por sorte ou por mudar-se a natureza.
Mas teu verão eterno brilha a ver-te
Guardando o belo que em ti permanece.
Nem a morte rirá de ensombrecer-te,
Quando em verso imortal, no tempo cresces.
Enquanto o homem respire, o olhar aqueça,
Viva o meu verso e a vida te ofereça.

[Tradução de Jorge Wanderley]

*Você sabe; Domadora de borboletas...

Alguma Filosofia de Karl Popper (parte 2)


O MÉTODO CRÍTICO.

Não é tarefa da lógica do conhecimento “a reconstrução racional das fases que conduziram o cientista à descoberta” (Popper, 1985, p. 32) da teoria científica. Não há caminho estritamente lógico que leve à formulação de novas teorias. As teorias científicas são construções que envolvem na sua origem aspectos não completamente racionais, tais como a imaginação, criatividade, intuição, etc. “As teorias são nossas invenções, nossas idéias – não se impõe a nós” (Popper, 1982, p. 144). São tentativas humanas de descrever e entender a realidade.

Para Popper, a tarefa da epistemologia ou da filosofia da ciência é reconstruir racionalmente “as provas posteriores pelas quais se descobriu que a inspiração era uma descoberta ou veio a ser reconhecida como conhecimento” (Popper, 1985, p. 32). Em outras palavras, não deve a epistemologia se preocupar em reconstruir a inspiração do cientista (isto é tarefa da psicologia da ciência) e não é importante para a questão da validade do conhecimento em que condições o cientista formulou a teoria. O método da ciência se caracteriza pela discussão crítica do conhecimento científico e pode ser denominado método crítico de teste dedutivo. Dada uma teoria, é possível, com auxílio de condições específicas (ou iniciais ou de contorno) e com auxílio da lógica dedutiva, derivar conclusões. Como exemplo, consideremos a teoria sobre a queda dos corpos que afirma ser a velocidade de queda proporcional ao peso. Ou seja:

Hipótese: a velocidade de queda de um corpo é proporcional ao seu peso.
Condições específicas: este tijolo é mais pesado do que esta pedra pequena. Ambos são abandonados simultaneamente a 2 m do solo.
Conclusão: o tijolo atingirá o solo antes da pedra.
Esta predição (conclusão derivada da teoria e das condições específicas) pode então ser confrontada com os fatos. Poderá então a conclusão ser incompatível com os fatos ou ser compatível.

No primeiro caso, como a lógica dedutiva é retransmissora da falsidade, no mínimo uma das premissas é falsa, se as condições específicas forem verdadeiras, então a teoria foi falseada ou falsificada ou refutada.

No segundo caso, como a lógica dedutiva não é retransmissora da verdade, não é necessariamente verdadeira a teoria. Na terminologia de Popper, a teoria foi corroborada, passou pelo teste empírico. Sempre haverá a possibilidade de no futuro derivar da teoria uma conseqüência que seja incompatível com os fatos e, portanto, as teorias científicas são sempre conjecturas. Não há forma de se provar a verdade de uma teoria científica; por mais corroborada que uma teoria seja, não está livre de crítica e no futuro poderá se mostrar problemática e poderá ser substituída por outra. Os indutivistas sempre enfatizaram a necessidade de se verificar as teorias através das suas conseqüências; na filosofia indutivista o importante é a verificação, pois, através dela, poder-se-ia justificar a verdade ou pelo menos a probabilidade das teorias. Para Popper, as verificações relevantes são aquelas que colocaram em risco a teoria, aquelas que aconteceram como decorrência de tentativas de teste (de refutação).
Casos verificadores são facilmente encontráveis para quase todas as teorias. Exemplificando mais uma vez com a hipótese de que a velocidade de queda de um corpo é proporcional ao seu peso: é possível se encontrar uma imensidade de casos verificadores constituídos por pares de corpos do tipo pedra e pena. Outro bom exemplo de alto grau de verificação pode ser encontrado na teoria astrológica; qualquer astrólogo é capaz de apresentar um número grande de previsões concretizadas. As severas tentativas de refutar uma teoria e que resultam em corroborações são as que realmente importam.
A história da ciência mostra teorias que durante um certo período de tempo foram corroboradas e, apesar disso, acabaram se tornando problemáticas. O exemplo mais impressionante é o da mecânica newtoniana: durante mais de duzentos anos foi corroborada espetacularmente. Aliás, algumas corroborações da mecânica newtoniana mostram que a lógica indutiva é insustentável. Ela corrigiu os fatos dos quais os indutivistas (e o próprio Newton) acreditavam ter sido logicamente derivada a lei da gravitação universal; supostamente a lei da gravitação universal teria sido logicamente induzida das leis de Kepler (Newton afirmara que não inventava hipóteses e pretendia que a sua teoria houvesse sido obtida dos fatos). A lei da gravitação universal não pode ser logicamente derivada das leis de Kepler simplesmente porque ela contradiz, corrige as mesmas; a primeira lei de Kepler afirmava que as órbitas planetárias eram elipses e a teoria de Newton permitiu demonstrar que as mesmas não são rigorosamente elipses (são aproximadamente elipses); adicionalmente Kepler afirmara que os cometas descreviam trajetórias retilíneas e a teoria de Newton predisse trajetórias aproximadamente elípticas, parabólicas ou hiperbólicas para eles. Predições da mecânica newtoniana foram surpreendentemente corroboradas (algumas após a morte de Newton, como a do retorno do cometa previsto por Halley - o cometa Halley). Ora, se existisse a lógica indutiva, o mínimo que deveria ocorrer nas induções das leis a partir dos fatos é que as leis não contraditassem estes mesmos fatos. Outras corroborações importantes da mecânica newtoniana são as descobertas dos dois últimos planetas do sistema solar (Netuno e Plutão). A previsão da órbita de qualquer planeta do sistema solar a partir das leis de Newton (as três leis do movimento e a lei da gravitação universal) é possível de ser realizada se adicionalmente se dispuser de um modelo sobre o sistema solar; este modelo deve especificar quantos são os planetas, as suas massas, as distâncias ao sol, etc. A órbita de um planeta particular depende principalmente da força gravitacional que ele sofre por parte do Sol, mas também depende das ações dos outros planetas. No século XIX foi observado que a órbita prevista para Urano era incompatível com as observações astronômicas; Adams e Leverrier, admitindo que o problema não se devia à mecânica newtoniana, mas ao modelo existente sobre o sistema solar, trabalharam sobre hipótese de existência de um planeta ainda não conhecido além da órbita de Urano – o planeta Netuno. Conseguiram, inclusive, calcular a posição do novo planeta e orientaram os astrônomos a realizarem novas observações; estes acabaram por confirmar a existência de Netuno. Esta história se repetiu novamente, já no século XX, em relação a Plutão. A descoberta dos dois últimos planetas do sistema solar exemplifica um outro aspecto relativo ao método crítico: a possibilidade de se evitar o falseamento de uma teoria a partir de uma hipótese suplementar; se a conseqüência de uma teoria é contraditada pelos fatos, é logicamente possível retransmitir a falsidade às condições específicas (no exemplo anterior, a falsidade foi retransmitida ao modelo sobre o sistema solar). Esta hipótese suplementar, que salvou a mecânica newtoniana, era testável independentemente; hipótesessuplementares ad-hoc (hipóteses a favor das quais os únicos fatos são aqueles que elas pretendem explicar) devem ser evitadas.
Popper destaca que “todo o nosso conhecimento é impregnado de teoria, inclusive nossas observações” (Popper, 1975, p. 75). Não existem dados puros, fatos neutros (livres de teoria). Exemplifiquemos mais uma vez com a mecânica newtoniana: a fim de testar a previsão de uma determinada órbita planetária, é necessário confrontar posições previstas para o planeta com posições observadas a partir da Terra. Os fatos aqui seriam resultantes de um processo de observação astronômica; ora, estes fatos são interpretações a partir de diversas teorias, tais como a da ótica do telescópio, propagação da luz no espaço interplanetário, refração da luz na atmosfera, teoria de erros de medida, etc. Mesmo os fatos que são baseados apenas em nossa percepção também estão impregnados de teorias; os órgãos dos sentidos e o sistema nervoso incorporam teorias físicoquímicas, neurofisiológicas que interpretam os estímulos, nos dando as sensações. “Não há órgãos de sentido em que não se achem incorporadas geneticamente teorias antecipadoras” (Popper, 1975, p. 76).
A inexistência de fatos livres de teoria implica a insustentabilidade de uma versão de falseacionismo ou refutacionismo ingênuo que erradamente é atribuída a Popper. Para o refutacionismo ingênuo, uma teoria estaria indubitavelmente refutada quando os resultados observacionais (e/ou experimentais) fossem incompatíveis com alguma conseqüência ou conclusão da teoria. Entretanto tal não é necessariamente verdade, pois o problema pode estar nas condições específicas (é o caso da descoberta de Netuno e Plutão), ou, pode se encontrar nas próprias observações. Ou seja, se houver alguma discrepância entre posições observadas para um dado planeta, pode ser que a teoria observacional esteja com problema. Aliás, isto efetivamente ocorreu quando Newton propôs ao astrônomo real uma correção da luz na atmosfera, de modo a adequar os dados astronômicos às previsões por ele feitas. Todo o nosso conhecimento é conjectural, inclusive as falsificações das teorias; as falsificações não se encontram livres de críticas e nenhuma teoria pode ser dada como “definitivamente ou terminantemente ou demonstravelmente falsificada” (Popper, 1987a, p. 22). Assim sendo, “qualquer falsificação pode, por sua vez, ser testada de novo” (Popper, 1987a, p. 23).
O progresso da ciência depende da objetividade científica. Esta “encontra-se única e exclusivamente na tradição crítica” (Popper, 1989a, p. 78), na tradição que permite questionar qualquer teoria. Entretanto a objetividade da ciência não é uma questão individual dos cientistas; individualmente o cientista é, via de regra, parcial, conquistado por suas próprias idéias. “Alguns dos mais destacados físicos contemporâneos fundaram inclusivamente escolas que opõem uma forte resistência a qualquer idéia nova” (Popper, 1989a, p. 77). A objetividade da ciência é uma questão social dos cientistas, envolvendo a crítica recíproca, a “divisão hostil- amistosa de trabalho entre cientistas, ou sua cooperação e também sua competição” (Popper, 1978, p. 23). O fato do cientista individualmente ser parcial ou dogmático é até desejável. “Se nos sujeitarmos à crítica com demasiada facilidade, nunca descobriremos onde está a verdadeira força de nossas teorias” (Popper, 1979, p. 68).

A ciência está à procura da verdade apesar de não haver critérios através dos quais se possa demonstrar que uma dada teoria seja verdadeira. A atitude crítica pressupõe a “verdade absoluta ou objetiva como idéia reguladora; quer isto dizer, como padrão de que podemos ficar abaixo” (Popper, 1987a, p. 59).
Quando uma teoria é criticada, está sendo questionada a pretensão da mesma ser verdadeira, da mesma ser capaz de resolver os problemas que lhe competem. Mesmo não havendo a possibilidade de demonstrar a verdade de uma dada teoria T2, algumas vezes se pode defender racionalmente que ela se aproxima mais da verdade que outra teoria T1; tal ocorre quanto T2 explica todos os fatos corroboradores (conteúdo de verdade) e os problemáticos para T1 (conteúdo de falsidade), adicionalmente explicando fatos sobre os quais T1 não se pronunciava (a teoria T2 tem então um excesso de conteúdo em relação à T1). Isto se dá com a teoria geral da relatividade em relação à teoria de Newton; a segunda é uma excelente aproximação da primeira para baixas velocidades e campos gravitacionais fracos. Todos os problemas que a antiga teoria resolveu com sucesso, a nova também resolve e alguns, como o caso do periélio anômalo de Mercúrio que era incompatível com a mecânica newtoniana, também são explicados pela teoria geral da relatividade. Adicionalmente a teoria de Einstein fez predições sobre aspectos da realidade sobre os quais a de Newton não se pronunciava (é o caso do desvio da luz por campos gravitacionais, corroborado no eclipse de 1919). “Contudo, Einstein jamais chegou a acreditar que sua teoria fosse verdadeira. Chocou Cornelius Lanczos, em 1922, ao dizer que sua teoria não era mais que um estágio passageiro: chamou-lhe ‘efêmera’” (Popper, 1976, p. 112). Também “buscou uma melhor aproximação da verdade durante quase quarenta anos, até a sua morte” (Popper, 1987a, p. 58). A concepção de que as teorias científicas perseguem a verdade objetiva coloca a filosofia popperiana como realista. Os realistas afirmam a existência das coisas em si, de objetos cuja existência independe de nossa mente (Bunge, 1973, 1983 e 1985; Silveira, 1991) e que estes podem ser conhecidos, embora parcialmente e por aproximações sucessivas (Rodrigues, 1986).
"Assim, as teorias são invenções nossas, idéias nossas, o que foi claramente percebido pelos idealistas epistemológicos. No entanto, algumas dessas teorias são tão ousadas que podem entrar em conflito com a realidade: são essas as teorias testáveis da ciência. E quando podem entrar em conflito, aí sabemos que há uma realidade (...). É por esta razão que o realista tem razão” (Popper, 1989b, p. 25).

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Homero o unificador do povo Grego


A história da Guerra de Tróia alcançou a imortalidade devido a um poeta. Os gregos antigos, ao contrário de muitos especialistas que surgiram depois (como o italiano G.Vico e o filósofo alemão C. Wolf), acreditavam que a soberba narrativa da conquista de Ílion e o que se seguiu, resultou dos versos de um rapsodo cego chamado Homero. Vivendo provavelmente no século VIII a.C., ele costumava peregrinar pelas cortes e pelas ágoras, os mercados públicos das polis daquela época, a repetir em estrofes candentes, entusiastas, cosendo os cantos uns nos outros, os memoráveis feitos dos aqueus (também designados como argivos e danaos), antepassados dos gregos. 

Segundo o costume, apresentava-se em pé, apoiado num bastão, narrando de memória em voz alta para que todos ouvissem, preservando assim a memória dos combates dos másculos heróis do passado. Teria sido ele o principal responsável por dar uma unidade cultural a todos o povo do continente da Ática, da península do Peloponeso e das ilhas do Mar Egeu de fala grega. Para Hesíodo, foi Homero quem constituiu a “teologia nacional da Grécia”. É consenso hoje que “nenhum poeta, nenhuma personalidade literária ocupou na vida do seu povo um lugar semelhante” (M.I.Finley, 1972). 

Epopéia essa que ele narrou em duas obras distintas: a Ilíada (dedicada ao último ano da guerra) e a Odisséia (a narrativa das peripécias de Ulisses, ocorridas depois da guerra). Neles se encontram não só a relação estreita dos homens com os inúmeros deuses, como também a exposição da cosmogonia grega, o que solidificou a posição dos dois poemas como expressão dos ideais de formação dos nobres gregos (Paidéia). Coube, ao que se sabe, ao tirano ateniense Pisístrato, a partir de 561 a.C., mandar compor por um tal de Zenôdoto, tanto a Ilíada como a Odisséia, na forma tal como hoje se as conhece. No total, os dois grandes poemas subdivididos em 24 cantos cada um, perfazem 27.803 versos, sendo até hoje a mais extensa narrativa épica versificada que a literatura ocidental conheceu. Por tudo isso vale a pena conferir a obra desse autor tão injustiçado em nosso tempo, se soubessemos até hoje o quanto do homem grego sobrevive em nós, certamente prestaríamos mais atenção. Abaixo segue uma pequena contribuição desse modesto blog, são fragmentos retirados das duas grandes obras que se complementam em uma só. Boa leitura a todos.

A Ilíada - Fragmentos 

Μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος
οὐλομένην, ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε,
πολλὰς δ᾽ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν
ἡρώων, αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν
οἰωνοῖσί τε πᾶσι, Διὸς δ᾽ ἐτελείετο βουλή,
ἐξ οὗ δὴ τὰ πρῶτα διαστήτην ἐρίσαντε
Ἀτρεΐδης τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύς.

Deusa, canta cólera de Aquiles Pelíade,
ruinosa, ( que trouxe aos aqueus miríade de mágoas,
e cedo arrojou no Hades muitas valentes almas de heróis
a eles próprios fez espólios para cães,
e aves rapaces todas – Cumpriu-se o desígnio de Zeus),
desde que primeiro apartaram-se em rixa
Atrida soberano de homens e divino Aquiles.

Tirésias

ἦλθε δ᾽ ἐπὶ ψυχὴ Θηβαίου Τειρεσίαο
χρύσεον σκῆπτρον ἔχων, ἐμὲ δ᾽ ἔγνω καὶ προσέειπεν·
διογενὲς Λαερτιάδη, πολυμήχαν᾽ Ὀδυσσεῦ,
τίπτ᾽ αὖτ᾽, ὦ δύστηνε, λιπὼν φάος ἠελίοιο
ἤλυθες, ὄφρα ἴδηι νέκυας καὶ ἀτερπέα χῶρον;
ἀλλ᾽ ἀποχάζεο βόθρου, ἄπισχε δὲ φάσγανον ὀξύ,
αἵματος ὄφρα πίω καί τοι νημερτέα εἴπω.


(...)Aproximou-se a alma do tebano Tirésias
portando cetro áureo, reconheceu-me e proferiu:
“Laertíade divino, multi-ardiloso Odisseu,
Por que enfim tu mesmo, ó miserável, tendo deixado a luz do sol,
Vieste para ver cadáveres e a região infeliz?
Mas aparta-te da fossa, afasta afiado gládio,
Para que eu beba do sangue e diga-te palavras infalíveis”

Odisséia - Canto VIII

Os Amores de Afrodite e Ares

Demódoco depois dedilha e canta
como furtiva a coroada Vênus
uniu-se a Marte, que o Vulcânio toro
maculou com mil dons peitando a esposa.
Pelo Sol advertido, o grão ferreiro
parte, vingança a meditar profundo;
no cepo encava a incude, laços forja
que desdar-se não podem nem romper-se.
Mal os conclui, à câmara caminha
do seu leito amoroso; uns aos pés liga,
outros ao sobrecéu, com tanta insídia,
que de aranha sutil quais teias eram,
mas a qualquer celícola invísiveis.
Armada a fraude, simulou viagem
de Lemos à caríssima cidade.
Marte, cujos frisões têm freios de ouro,
não obcecado, o fabro viu partindo;
veio-lhe presto à casa, cobiçoso
de gozar Vênus bela: esta pousava
de visitar o genitor Satúrnio;
pega-lhe o amante na mimosa destra:
"Vazia a cama está; Vulcano é fora,
aos Síntios foi-se de linguagem bronca".
Ei-los ao leito jubilando ascendem,
e nas malhas do artista se emaranham;
nem desatar-se nem mover-se podem,
sem ter efúgio algum. Torna Vulcano,
antes que a Lemos chegue; o Sol o avisa.
Ao seu pórtico pára angustiado,
urro esforça raivoso, que no Olimpo
retumba horrendo: "Ó Padre, ó vós deidades,
vinde rir e indignar-vos desta infâmia.
Por coxo a Dial Vênus me desonra,
amando ao sevo Marte, que é perfeito:
Se esta lesão me afeia, é toda a culpa
de meus pais, que gerar-me não deviam.
Vede-os,oh!,triste aspecto, como dormem
em meu leito enleados; mas duvido
que em seu ardor jazer assim desejem.
Meu laço os reterá, té que haja o dote
e os dons feitos ao pai, que deu-me a filha
de formosura exemplo e de inconstância".
No éreo paço Vulcânio já Netuno,
mas o frecheiro Febo e o deus do ganho,
as deusas de pudor não comparecem;
Do pórtico os demais, às gargalhadas,
o dolo observam do prudente mestre,
olham-se e clamam: "Da virtude o vício,
do ínfero o lesto e forte é suplantado;
o manco ao mais veloz prendeu com arte,
pague o adúltero a multa". Apolo ao núncio
de bens dador voltou-se: "Quererias,
filho de Jove, assim dormir nos braços
da áurea Ciprina?" Respondeu Mercúrio:
"Oxalá, Febo Apolo, ao pé de Vênus
vós me vísseis dormir, e às próprias deusas,
no tresdobro dos fios envolvido".
Renovou-se a risada; mas Netuno
sério ao mestre pediu que solte a Marte:
"Solta-o; prometo que a teu grado e à risca
hajas a multa aos imortais devida".
"Rei, contesta o aleijado, não mo ordenes;
A caução para o fraco é fraca sempre:
como te obrigaria, se ele escapo
se recusasse?" Então Netuno: "Marte
se renuir, pagar-te-ei, Vulcano".
Rende-se o ínclito coxo: "Não me é dado
negar-to". E os laços desliou de um toque.
Os réus fugiram: para a Trácia, Marte;
para Pafos, Ciprina, a mãe dos risos,
que ali tem bosque e recendentes aras.
Banhada e em óleo divinal ungida,
as graças do mais fino a paramentam.


[Tradução de Odorico Mendes]


*Em breve novos posts sobre autores clássicos

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Alguma filosofia de Karl Popper (parte 1)


*por Fernando Lang da Silveira

AS EXPLICAÇÕES CIENTÍFICAS E A LÓGICA DEDUTIVA


Uma das tarefas da ciências é a explicação. Ao longo da história da prática da explicação, muitos métodos e tipos diferentes foram tidos como aceitáveis, mas todos eles têm algo em comum: “consistem todos de uma dedução lógica; uma dedução cuja conclusão é o explicandum - uma asserção da coisa a ser explicada”
(Popper, 1982, p. 321) e de um conjunto de premissas - o explicans - constituído por leis e condições específicas.
Qualquer explicação envolve no mínimo um enunciado universal (lei) que, combinada com as condições específicas, permite deduzir o que se deseja explicar. Apenas condições específicas não são suficientes para se produzir uma explicação. Por exemplo, se quisermos explicar o aumento da resistência elétrica de um fio de cobre pela elevação da temperatura, podemos supor um enunciado universal que afirma que os condutores metálicos possuem resistência variando com a temperatura.

Lei: a resistência elétrica dos condutores metálicos varia com a temperatura.

Condições específicas: a temperatura do fio de cobre variou de 20° C para 6° C.

Conclusão: a resistência elétrica deste fio de cobre variou. Obviamente que esta não é a única explicação possível. Outras explicações mais profundas e complexas recorreriam a leis e condições específicas sobre a estrutura da matéria, justificando o fenômeno macroscópico (a variação da resistência) a partir deste nível microscópico. Uma explicação desta ordem envolveria uma longa cadeia dedutiva para finalmente atingir o explicandum. O importante na presente discussão é o aspecto dedutivo das explicações e a necessidade de se recorrer a no mínimo uma lei e às condições específicas.
 
Outras tarefas das ciências, como a derivação de predições e aplicações técnicas, também “podem ser analisadas por meio de esquema lógico que apresentamos para analisar a explicação” (Popper, 1982, p. 324).
A derivação de predições parte do suposto conhecimento das leis e das condições específicas, obtendose algo que ainda não foi observado. Nas aplicações técnicas são especificados os resultados a serem obtidos, como, por exemplo, a construção de uma ponte, e são admitidas certas leis e teorias relevantes. O que se procura então são condições específicas que possam ser tecnicamente realizadas. A lógica dedutiva desempenha um papel de grande importância no conhecimento científico. Segundo Popper, ela é:

– transmissora da verdade.
– retransmissora da falsidade.
– não-retransmissora da verdade.

Ela transmite a verdade do explicans para o explicandum, ou seja, sendo verdadeiras as leis e ascondições específicas, será necessariamente verdadeira a conclusão. Ela retransmite a falsidade do explicandum para o explicans, ou seja, se a conclusão é falsa, então uma ou mais premissas são falsas. Ela não retransmite a verdade do explicandum para o explicans, ou seja, sendo a conclusão verdadeira, poderá ser parcialmente ou totalmente falso o explicans. Em outras palavras, de premissas falsas é possível se obter conclusões verdadeiras. Essas três propriedades da lógica dedutiva podem ser exemplificadas através do raciocínio dedutivo abaixo:

Primeira premissa: todos os A são B.
Segunda premissa: X é A.
Conclusão: X é B.
A transmissão da verdade das premissas para a conclusão ocorre no seguinte exemplo onde as premissas são verdadeiras:
Primeira premissa: todos os metais são condutores elétricos.
Segunda premissa: o cobre é metal.
Conclusão: o cobre é condutor elétrico.
A retransmissão da falsidade da conclusão para as premissas ocorre no seguinte exemplo onde a conclusão é falsa porque a segunda premissa é falsa:
Primeira premissa: todos os metais são condutores elétricos.
Segunda premissa: o vidro é metal.
Conclusão: o vidro é condutor elétrico.
A não-retransmissão da verdade da conclusão para as premissas ocorre no seguinte exemplo Onde a primeira premissa e a conclusão são verdadeiras e a segunda premissa é falsa:
Primeira premissa: todos os metais são condutores.
Segunda premissa: o carvão é metal.
Conclusão: o carvão é condutor elétrico. A estrutura dedutiva das explicações científicas e as propriedades da lógica dedutiva são importantes para a filosofia da ciência de Popper, em especial no método crítico exposto mais adiante.


O PROBLEMA DA INDUÇÃO.


Um dos problemas da filosofia da ciência investigado por Popper é o chamado “problema da indução”. Acreditavam os indutivistas ser possível justificar logicamente a obtenção das leis, das teorias científicas a partir dos fatos; poder-se-ia, utilizando a lógica indutiva, chegar às leis universais, às teorias científicas.
"É comum dizer-se “indutiva” uma inferência, caso ela conduza de enunciados singulares (...), tais como descrições dos resultados de observações ou experimentos, para enunciados universais, tais como hipóteses ou teorias. Ora, está longe de ser óbvio de um ponto de vista lógico, haver justificativa no inferir enunciados universais de enunciados singulares, independentemente de quão numerosos sejam estes; com efeito, qualquer conclusão colhida desse modo sempre pode revelar-se falsa; independentemente de quantos cisnes brancos possamos observar, isso não justifica a conclusão de que todos os cisnes são brancos" (Popper, 1985, p. 27/28).

O problema da indução também pode ser formulado de outra maneira: há leis universais certamente verdadeiras ou provavelmente verdadeiras? É possível se justificar a alegação de que uma teoria é verdadeira ou provavelmente verdadeira a partir de resultados experimentais ou de observações?

Aqui também a resposta de Popper é negativa. Não importa quantas asserções de teste (resultados experimentais ou de observações) se tenha, não é possível justificar a verdade de uma teoria, pois a lógica dedutiva não retransmite a verdade. O confronto da teoria com as asserções de teste nunca é direta; há necessidade de se combinar as leis universais com condições específicas e derivar dedutivamente hipóteses ou conclusões com baixo nível de generalidade. Estas podem em princípio ser confrontadas com os fatos. Se os fatos apoiarem as conclusões, se as conclusões forem dadas como verdadeiras, não há retransmissão da verdade para as hipóteses com alto nível de generalidade (as leis universais). Não importando quantas “confirmações” de uma teoria tenham sido obtidas, é sempre logicamente possível que no futuro se derive uma conclusão que não venha a ser confirmada. Conforme o exposto na secção anterior, é possível de premissas falsas se obter conclusões verdadeiras. Outra razão contra a existência da lógica indutiva está em que um conjunto de fatos sempre é compatível com mais de uma generalização (rigorosamente com um número infinito de generalizações).

Por exemplo, se todos os cisnes até hoje observados são brancos, algumas possíveis generalizações são as seguintes:

– Todos os cisnes são brancos.

– Todos os cisnes são brancos ou negros.

– Todos os cisnes são brancos ou vermelhos ou azuis.

Qualquer enunciado que afirma o observado e um pouco mais (ou muito mais) será compatível com as observações ocorridas. Estes aspectos lógicos que contraditam a existência da lógica indutiva serão complementados nas secções seguintes com outros que se apoiam na história da ciência. A história da ciência mostra exemplos que teorias que passaram a corrigir os fatos que pretensamente teriam servido como “base indutiva” das mesmas (a mecânica newtoniana assim o fez). Além disso, há exemplos de teorias científicas que se originaram não em fatos mas em teorias metafísicas (é o caso da teoria copernicana). Tendo Popper negado a possibilidade de uma solução positiva ao problema da indução, parte então para uma resposta à questão do método das ciências empíricas (física, química, biologia, psicologia, sociologia, etc.).

Racionalismo 1



Definição de método científico de análise lógica segundo René Descartes:

"O racionalismo pode consistir em considerar a razão como essência do real, tanto natural quanto histórico. Sustenta a primazia da razão, da capacidade de pensar, de raciocinar, em relação ao sentimento e à vontade, pressupondo uma hierarquia de valores entre as faculdades psíquicas; ou a posição segundo a qual somente a análise lógica ou a razão pode propiciar desta forma o desenvolvimento da análise científica, do método matemático, que passa a ser considerado como instrumento puramente teórico e dedutivo, que prescinde de dados empíricos, aplicados às ciências físicas que levaram a uma crescente fé na capacidade do intelecto humano para isolar a essência no real e ao surgimento de uma série de sistemas metafísicos fundados na convicção de que a razão constitui o instrumento fundamental para a compreensão do mundo, cuja ordem interna, aliás, teria um caráter racional".

Após o séc. XV o debate filosófico renasce com muita força na Europa pós Idade Média, os questionamentos antes latentes no interior de alguns homens começam a emergir como cartas de alforria à uma elite intelectual para a libertação do pensar, do sentir e do expressar, anteriormente tão coagidos pela religião que a tudo inferia exercendo a ditadura de suas próprias verdades. 

 Há de se convir que no processo de amadurecimento das idéias e dos questionamentos as correntes anteriores como a escolástica e principalmente a renascentista foram determinantes, porém haviam ainda no seio da sociedade Européia feridas expostas que necessitavam de cuidados minuciosos para serem aplacadas. Então a partir do séc. XVII atendendo à antigos anseios criou-se uma forma muito mais sofisticada e menos sectária de se chegar ao coração das questões que afligiam o homem, a investigação científica tornou-se algo comprometido desde seu início com a razão pura e essa foi sendo organizada pela primeira vez em um método o que trouxe um diferencial a essa corrente filosófica em relação às suas antecessoras.

 Uma peculiaridade do séc. XVII é que quase todos os seus grandes pensadores eram também grandes matemáticos e investiram pesado nessa ciência como meio de se comprovar seguramente as verdades do conhecimento, criou-se a idéia de que o método matemático era infalível e só ele poderia garantir a exatidão dos conhecimentos adquiridos, isso entre outras coisas quer dizer que a partir do séc. XVII começa-se a acreditar que todo o conhecimento poderia ser alcançado com o uso exclusivo da razão e que a verdade era de fato algo acessível ao homem. Esse intenso apego aos métodos matemáticos e uma busca profunda pelo pensar emancipado de toda a pressão religiosa e moral foram chaves que caracterizaram a visão objetiva do racionalismo moderno. O ideal Racionalista pressupõe que nada existe sem uma lógica (razão que justifique a existência da coisa em si), de modo geral um racionalista é alguém comprometido com a certeza de que tudo se pode explicar e justificar através de métodos apoiados em raciocínios sistematizados. E diferentemente do que ocorria em outras correntes deve-se salientar que os racionalistas consideravam os sentidos como uma fonte descartável e confusa de conhecimento causando assim a ruptura com as correntes antecessoras, foi René Descartes quem dentre todos os pensadores do início do período teve maior projeção,não só pelo seu potencial mas também por sua originalidade, ele discutiu duramente a cisão proposta entre filosofia e ciência, buscou a reinvenção do sistema de pensamento e dizia que todos os fundamentos das ciências eram insólitos considerando que de tempos em tempos todo o saber era questionado e os paradigmas eram sempre mudados de acordo com as novas convenções, e foi aí que em linhas gerais Descartes e os demais de seu tempo concentraram o seu foco, na busca por uma verdade absoluta e que só viria com uma sistematização fria e racional do mundo. 

Ps: O texto acima é uma parte menor extraída de anotações sobre história da filosofia realizadas há alguns anos, nada revisado, nada corrigido, foi tirado de um rascunho por esse motivo  peço que  perdoe alguma eventual falha ou desatenção. Está sendo postado como primeira resposta àquele e-mail que pergunta sobre o período racionalista, no futuro colocarei à disposição uma versão ampliada  e revisada, matenha contato.

Att, Leandro M. Oliveira.

Espasmo


Ando nostálgico, perdido no redondo escuro,
Das coisas passadas e do eu-passado
Procuro imaginar-me, redefinir-me, subindo
Ao cume das terras altas onde o ar é mais denso.
Retesado como quem vislumbra ou deseja
Espero silente o início do novo tempo.
Eu venho daquele pântano dissimulado,
Eu pertenço a lugar nenhum.
Vejo Deuses no exílio de antigas eras,
Vejo guerreiros amaldiçoados
Vagando a esmo em zonas fantasmas.
Que torpor é esse que me invade o siso?
Qual caminho levou à perdição?
O sentir é um lugar, um estrangeiro 
Em mim, que não pode ser repatriado.
Não há mais ânimo de guerra,
Nem tambores de triunfo, tudo se foi...
Depositei num abismo a esperança,
A força, o escudo, a lança. 
As vozes de outrora falam aos ouvidos
Numa linguagem hedionda, não compreendo
Aquela legião de Anjos Caídos.
A vida escorre, a mata morre; eu, continuo...


terça-feira, 30 de setembro de 2008

Coisas do porão. A Bíblia?



Descobertas recentes da arqueologia indicam que a maior parte das escrituras sagradas não passam de lenda 


por Vinícius Romanini
Para a Revista SuperInteressante 

A disputa entre ciência e religião pela posse da verdade é antiga. No Ocidente, começou no século XVI, quando Galileu defendeu a tese de que a Terra não era o centro do Universo. Essa primeira batalha foi vencida pela Igreja, que obrigou Galileu a negar suas idéias para não ser queimado vivo. Mas o futuro dessa disputa seria diferente: pouco a pouco, a religião perdeu a autoridade para explicar o mundo. Quando, no século XIX, Darwin lançou sua teoria sobre a evolução das espécies, contra a idéia da criação divina, o fosso entre ciência e religião já era intransponível. Nas últimas décadas, a Bíblia passou a ser alvo de ciências como a filologia (o estudo da língua e dos documentos escritos), a arqueologia e a história. E o que os cientistas estão provando é que o livro mais importante da história é, em sua maior parte, uma coleção de mitos, lendas e propaganda religiosa. 

Primeiro livro impresso por Guttemberg, no século XV, e o mais vendido da história, a Bíblia reúne escritos fundamentais para as três grandes religiões monoteístas - Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Na verdade, a Bíblia é uma biblioteca de 73 livros escritos em momentos históricos diferentes. O Velho Testamento, aceito como sagrado por judeus, cristãos e muçulmanos, é composto de 46 livros que pretendem resumir a história do povo hebreu desde o suposto chamamento de Abraão por Deus, que teria ocorrido por volta de 1850 a.C., até a conquista da Palestina pelos exércitos de Alexandre Magno e as revoltas do povo judeu contra o domínio grego, por volta de 300 a.C. Os 27 livros do Novo Testamento abarcam um período bem menor: cerca de 70 anos que vão do nascimento de Jesus à destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C. 

O coração do Velho Testamento são os primeiros cinco livros, que compõem a Torá do Judaísmo (a palavra significa "lei", em hebraico). Em grego, o conjunto desses livros recebeu o nome de Pentateuco ("cinco livros"). São considerados os textos "históricos" da Bíblia, porque pretendem contar o que ocorreu desde o início dos tempos, inclusive a criação do homem - que, segundo alguns teólogos, teria ocorrido em 5000 a.C. O Pentateuco inclui o Gênesis (o "livro das origens", que narra a criação do mundo e do homem até o dilúvio universal), o Êxodo (que narra a saída dos judeus do Egito sob a liderança de Moisés) e os Números (que contam a longa travessia dos judeus pelo deserto até a chegada a Canaã, a terra prometida). 

Das três ciências que estudam a Bíblia, a arqueologia tem se mostrado a mais promissora. "Ela é a única que fornece dados novos", diz o arqueólogo israelense Israel Finkelstein, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv e autor do livro The Bible Unearthed (A Bíblia desenterrada, inédito no Brasil), publicado no ano passado. A obra causou um choque em estudiosos de arqueologia bíblica, porque reduz os relatos do Antigo Testamento a uma coleção de lendas inventadas a partir do século VII a.C.
O Gênesis, por exemplo, é visto como uma epopéia literária. O mesmo vale para as conquistas de David e as descrições do império de Salomão. 

A ciência também analisa os textos do Novo Testamento, embora o campo de batalha aqui esteja muito mais na filologia. A arqueologia, nesse caso, serve mais para compor um cenário para os fatos do que para resolver contendas entre as várias teorias. O núcleo central do Novo Testamento são os quatro evangelhos. A palavra evangelho significa "boa nova" e a intenção desses textos é clara: propagandear o Cristianismo. Três deles (Mateus, Marcos e Lucas) são chamados sinóticos, o que pode ser traduzido como "com o mesmo ponto de vista". Eles contam a mesma história, o que seria uma prova de que os fatos realmente aconteceram. Não é tão simples. O problema central do Novo Testamento é que seus textos não foram escritos pelos evangelistas em pessoa, como muita gente supõe, mas por seus seguidores, entre os anos 60 e 70, décadas depois da morte de Jesus, quando as versões estavam contaminadas pela fé e por disputas religiosas. 

Nessa época, os cristãos estavam sendo perseguidos e mortos pelos romanos, e alguns dos primeiros apóstolos, depois de se separarem para levar a "boa nova" ao resto do mundo, estavam velhos e doentes. Havia, portanto, o perigo de que a mensagem cristã caísse no esquecimento se não fosse colocada no papel. Marcos foi o primeiro a fazer isso, e seus textos serviram de base para os relatos de Mateus e Lucas, que aproveitaram para tirar do texto anterior algumas situações que lhes pareceram heresias. "Em Marcos, Jesus é uma figura estranha que precisa fazer rituais de magia para conseguir um milagre", afirma o historiador e arqueólogo André Chevitarese. 

Para tentar enxergar o personagem histórico de Jesus através das camadas de traduções e das inúmeras deturpações aplicadas ao Novo Testamento, os pesquisadores voltaram-se para os textos que a Igreja repudiou nos primeiros séculos do Cristianismo. Ignorados, alguns desapareceram. Mas os fragmentos que nos chegaram tiveram menos intervenções da Igreja ao longo desses 2 000 anos. Parte desses evangelhos, chamados "apócrifos" (não se sabe ao certo quem os escreveu), fazem parte de uma biblioteca cristã do século IV descoberta em 1945 em cavernas do Egito. Os evangelhos estavam escritos em língua copta (povo do Egito). 

O fato de esses textos terem sido comprovadamente escritos nos primeiros séculos da era cristã não quer dizer que eles sejam mais autênticos ou contenham mais verdades que os relatos que chegaram até nós como oficiais. Pelo contrário, até. Os coptas, que fundariam a Igreja cristã etíope, foram considerados hereges, porque não aceitavam a dupla natureza de Jesus (humana e divina). Para eles, Jesus era apenas divino e os textos apócrifos coptas defendem essa versão. Mesmo assim, eles trazem pistas para elucidar os fatos históricos. 

A tentativa de entender o Jesus histórico buscando relacioná-lo a uma ou outra corrente religiosa judaica também foi infrutífera, como ficou demonstrado no final da tradução dos pergaminhos do Mar Morto, anunciada recentemente. Esses papéis, achados por acaso em cavernas próximas do Mar Morto, em 1947, criaram a expectativa de que pudesse haver uma ligação entre Jesus e os essênios, uma corrente religiosa asceta, cujos adeptos viviam isolados em comunidades purificando-se à espera do messias. O fim das traduções indica que não há qualquer ligação direta entre Jesus e os essênios, a não ser a revolta comum contra a dominação romana. 

O resultado é que, depois de dois milênios, parece impossível separar o verdadeiro do falso no Novo Testamento. O pesquisador Paul Johnson, autor de A História do Cristianismo, afirma que, se extrairmos, de tudo o que já se escreveu sobre Jesus, só o que tem coerência histórica e é consenso, restará um acontecimento quase desprovido de significado. "Esse 'Jesus residual' contava histórias, emitiu uma série de ditos sábios, foi executado em circunstâncias pouco claras e passou a ser, depois, celebrado em cerimônia por seus seguidores." 

O que sabemos com certeza é que Jesus foi um judeu sectário, um agitador político que ameaçava levantar os dois milhões de judeus da Palestina contra o exército de ocupação romano. Tudo o mais que se diz dele precisa da fé para ser tomado como verdade. Assim como aconteceu com Moisés, David e Salomão do Velho Testamento, a figura de Jesus sumiu na névoa religiosa.

O Dilúvio 

O Gênesis, a história do dilúvio é uma das poucas que ainda alimenta o interesse dos cientistas, depois que os físicos substituíram a criação do mundo pelo Big Bang e Darwin substituiu Adão pelos macacos. O que intrigou os pesquisadores foi o fato de uma história parecida existir no texto épico babilônico de Gilgamesh - o que sugere que uma enchente de enormes proporções poderia ter acontecido no Oriente Médio e na Ásia Menor. Parte do mistério foi solucionado quando os filólogos conseguiram demonstrar que a narrativa do Gênesis é uma apropriação do mito mesopotâmico. "Não há dúvida de que os hebreus se inspiraram no mito de Gilgamesh para contar a história do dilúvio", afirma Rafael Rodrigues da Silva, professor do Departamento de Teologia da PUC de São Paulo, especialista na exegese do Antigo Testamento. 

O povo hebreu entrou em contato com o mito de Gilgamesh no século VI a.C. Em 598 a.C., o rei babilônico Nabucodonosor, depois de conquistar a Assíria, invadiu e destruiu Jerusalém e seu templo sagrado. No ano seguinte, os judeus foram deportados para a Babilônia como escravos. O chamado exílio babilônico durou 40 anos. Em 538 a.C., Ciro, o fundador do Império Persa, depois de submeter a Babilônia permitiu o retorno dos judeus à Palestina. Os rabinos ou "escribas" começaram a reconstruir o Templo e a reescrever o Gênesis para, de alguma forma, dar um sentido teológico à terrível experiência do exílio. Assim, a ameaça do dilúvio seria uma referência à planície inundável entre os rios Tigre e Eufrates, região natal de Nabucodonosor; os 40 dias de chuva seriam os 40 anos do exílio; e a aliança final de Deus com Noé, marcada pelo arco-íris, uma promessa divina de que os judeus jamais seriam exilados. 

Solucionado o mistério do dilúvio na Bíblia, continua o da sua origem no texto de Gilgamesh. No final da década de 90, dois geólogos americanos da Universidade Columbia, Walter Pittman e Willian Ryan, criaram uma hipótese: por volta do ano 5600 a.C., ao final da última era glacial, o Mar Mediterrâneo havia atingido seu nível mais alto e ameaçava invadir o interior da Ásia na região hoje ocupada pela Turquia, mais precisamente a Anatólia. Num evento catastrófico, o Mediterrâneo irrompeu através do Estreito de Bósforo, dando origem ao Mar Negro como o conhecemos hoje. Um imenso vale de terras férteis e ocupado por um lago foi inundado em dois ou três dias. 

Os povos que ocupavam os vales inundados tiveram que fugir às pressas e o mais provável é que a maioria tenha morrido. Os sobreviventes, porém, tinham uma história inesquecível, que ecoaria por milênios. Alguns deles, chamados ubaids, atravessaram as montanhas da Turquia e chegaram à Mesopotâmia, tornando-se os mais antigos ancestrais de sumérios, assírios e babilônios. Estaria aí a origem da narrativa de Gilgamesh. Essa teoria foi recebida por arqueólogos e antropólogos como fantástica demais para ser verdadeira. 

No entanto, no verão de 2000, o caçador de tesouros submersos Robert Ballard, o mesmo que encontrou os restos do Titanic, levou suas poderosas sondas para analisar o fundo do Mar Negro nas proximidades do que deveriam ser vales de rios antes do cataclisma aquático. Ballard encontrou restos de construções primitivas e a análise da lama colhida em camadas profundas do oceano provaram que, há 7 600 anos, ali existia um lago de água doce. A hipótese do grande dilúvio do Mar Negro estava provada. 

O Êxodo

Não há registro arqueológico ou histórico da existência de Moisés ou dos fatos descritos no Êxodo. A libertação dos hebreus, escravizados por um faraó egípcio, foi incluída na Torá provavelmente no século VII a.C., por obra dos escribas do Templo de Jerusalém, em uma reforma social e religiosa. Para combater o politeísmo e o culto de imagens, que cresciam entre os judeus, os rabinos inventaram um novo código de leis e histórias de patriarcas heróicos que recebiam ensinamentos diretamente de Jeová. Tais intenções acabaram batizadas de "ideologia deuteronômica", porque estão mais evidentes no livro Deuteronômio. A prova de que esses textos são lendas estaria nas inúmeras incongruências culturais e geográficas entre o texto e a realidade. Muitos reinos e locais citados na jornada de Moisés pelo deserto não existiam no século XIII a.C., quando o Êxodo teria ocorrido. Esses locais só viriam a existir 500 anos depois, justamente no período dos escribas deuteronômicos. Também não havia um local chamado Monte Sinai, onde Moisés teria recebido os Dez Mandamentos. Sua localização atual, no Egito, foi escolhida entre os séculos IV e VI d.C., por monges cristãos bizantinos, porque ele oferecia uma bela vista. Já as Dez Pragas seriam o eco de um desastre ecológico ocorrido no Vale do Nilo quando tribos nômades de semitas estiveram por lá. 

Vejamos agora o caso de Abraão, o patriarca dos judeus. Segundo a Bíblia, ele era um comerciante nômade que, por volta de 1850 a.C., emigrou de Ur, na Mesopotâmia, para Canaã (na Palestina). Na viagem, ele e seus filhos comerciavam em caravanas de camelos. Mas não há registros de migrações de Ur em direção a Canaã que justifiquem o relato bíblico e, naquela época, os camelos ainda não haviam sido domesticados. Aqui também há erros geográficos: lugares citados na viagem de Abraão, como Hebron e Ber-
sheba, nem existiam então. Hoje, a análise filológica dos textos indica que Abraão foi introduzido na Torá entre os séculos VIII e VII a.C. (mais de 1 000 anos após a suposta viagem). 

Então, como surgiu o povo hebreu? Na verdade, hebreus e canaanitas são o mesmo povo. Por volta de 2000 a.C., os canaanitas viviam em povoados nas terras férteis dos vales, enquanto os hebreus eram nômades das montanhas. Foi o declínio das cidades canaanitas, acossadas por invasores no final da Idade do Bronze (300 a.C. a 1000 a.C.), que permitiu aos hebreus ocupar os vales. Segundo a Bíblia, os hebreus conquistaram Canaã com a ajuda dos céus: na entrada de Jericó, o exército hebreu toca suas trombetas e as muralhas da cidade desabam, por milagre. Mas a ciência diz que Jericó nem tinha muralhas nessa época. A chegada dos hebreus teria sido um longo e pacífico processo de infiltração. 

David e Salomão

Há pouca dúvida de que David e Salomão existiram. Mas há muita controvérsia sobre seu verdadeiro papel na história do povo hebreu. A Bíblia diz que a primeira unificação das tribos hebraicas aconteceu no reinado de Saul. Seu sucessor, David, organizou o Estado hebraico, eliminando adversários e preparando o terreno para que seu filho, Salomão, pudesse reinar sobre um vasto império. O período salomônico (970 a.C. a 930 a.C.) teria sido marcado pela construção do Templo de Jerusalém e a entronização da Arca da Aliança em seu altar.
Não há registros históricos ou arqueológicos da existência de Saul, mas a arqueologia mostra que boa parte dos hebreus ainda vivia em aldeias nas montanhas no período em que ele teria vivido (por volta de 1000 a.C.) - assim, Saul seria apenas um entre os muitos líderes tribais hebreus. Quanto a David, há pelos menos um achado arqueológico importante: em 1993 foi encontrada uma pedra de basalto datada do século IX a.C. com escritos que mencionam um rei David. 

Por outro lado, não há qualquer evidência das conquistas de David narradas na Bíblia, como sua vitória sobre o gigante Golias. Ao contrário, as cidades canaanitas mencionadas como destruídas por seus exércitos teriam continuado sua vida normalmente. Na verdade, David não teria sido o grande líder que a Bíblia afirma. Seu papel teria sido muito menor. Ele pode ter sido o líder de um grupo de rebeldes que vivia nas montanhas, chamados apiru (palavra de onde deriva a palavra hebreu) - uma espécie de guerrilheiro que ameaçava as cidades do sul da Palestina. Quanto ao império salomônico cantado em verso e prosa na Torá hebraica, a verdade é que não foram achadas ruínas de arquitetura monumental em Jerusalém ou qualquer das outras cidades citadas na Bíblia. 

O principal indício de que as conquistas de David e o império de Salomão são, em sua maior parte, invenções é que, no período em que teriam vivido, a arqueologia prova que a cultura canaanita (que, segundo a Bíblia, teria sido destruída) continuava viva. A conclusão é que David e Salomão teriam sido apenas pequenos líderes tribais de Judá, um Estado pobre e politicamente inexpressivo localizado no sul da Palestina. 

Na verdade, o grande momento da história hebraica teria acontecido não no período salomônico, mas cerca de um século mais tarde. Entre 884 e 873 a.C., foi fundada Samária, a capital do reino de Israel, no norte da Palestina, sob a liderança do rei israelita Omri. Enquanto Judá permanecia pobre e esquecida no sul, os israelitas do norte faziam alianças com os assírios e viviam um período de grande desenvolvimento econômico. A arqueologia demonstrou que os monumentos normalmente atribuídos a Salomão foram, na verdade, erguidos pelos omridas. Ou seja: o primeiro grande Estado judaico não teve a liderança de Salomão, e sim dos reis da dinastia omrida. 

Enriquecido pelos acordos comerciais com Assíria e Egito, o rei Ahab, filho de Omri, ordena a construção dos palácios de Megiddo e as muralhas de Hazor, entre outras obras. Hoje, os restos arqueológicos desses palácios e muralhas são o principal ponto de discórdia entre os arqueólogos que estudam a Torá. Muitos ainda os atribuem a Salomão, numa atitude muito mais de fé do que de rigor científico, já que as datações mais recentes indicam que Salomão nunca ergueu palácios. 

Judá

Entender a história de Judá é fundamental para entender todo o Velho Testamento. Até o século VIII a.C., Judá era apenas uma reunião de tribos vivendo numa região desértica do sul da Palestina. Em 722 a.C., porém, os assírios resolvem conquistar as ricas planícies e cidades de Israel - o reino do norte, mais desenvolvido economicamente e mais culto. Judá, no sul, que não pareceu interessar aos assírios, pôde continuar independente, desde que pagasse tributos ao império assírio. 

Assim, enquanto no norte acontece uma desintegração dos hebreus, levados para a Assíria como escravos, no sul eles continuam unidos em torno do Templo de Jerusalém. Judá beneficiou-se enormemente da destruição do reino do norte. Jerusalém cresceu rapidamente e cidades como Lachish, que servia de passagem antes de chegar a Jerusalém, foram fortificadas. Era o momento de Judá tomar a frente dos hebreus. Para isso, precisaria de duas coisas: um rei forte e um arsenal ideológico capaz de convencer as tribos do norte de que Judá fora escolhida por Deus para unir os hebreus. Além disso, era preciso combater o politeísmo que voltava a crescer no norte. 

Josias foi o candidato a assumir a posição de rei unificador. Durante uma reforma no Templo de Jerusalém, em seu governo, foi "encontrado" (na verdade, não há dúvidas de que o livro foi colocado ali de propósito) o livro Deuteronômio, com todos os ingredientes para um ampla reforma social e religiosa. O livro possui até profecias que afirmam, por exemplo, que um rei chamado Josias, da casa de David, seria escolhido por Deus para salvar os hebreus. Ungido pelo relato do livro, o ardiloso Josias consegue seu objetivo de centralizar o poder, mas acaba morto em batalha. Judá revolta-se contra os assírios e o rei da Assíria, Senaqueribe, invade a região, destruindo Lachish e submetendo Jerusalém. A destruição de Lachish, narrada com riqueza de detalhes na Bíblia, também aparece num relevo encontrado em Nínive, a antiga capital assíria. E as escavações comprovaram que a Bíblia e o relevo são fiéis ao acontecido. Ou seja: nesse caso, a arqueologia provou que a Torá foi fiel aos fatos. 

Jesus

Segundo o Novo Testamento, Jesus nasceu em Belém, uma cidadezinha localizada oito quilômetros ao sul de Jerusalém, filho do carpinteiro José e de uma jovem chamada Maria, que o concebeu sem macular sua virgindade. Os evangelhos de Lucas e Mateus afirmam que Jesus nasceu "perto do fim do reino de Herodes". O texto de Lucas afirma que a anunciação aconteceu em Nazaré, onde José e Maria viviam, mas eles foram obrigados a viajar até Belém pelo censo "ordenado quando Quirino era governador da Síria". 

Hoje, o que se sabe de concreto sobre Jesus é que ele nasceu na Palestina, provavelmente no ano 6 a.C., ao final do reinado de Herodes Antibas (que acabou em 4 a.C.). A diferença entre o nascimento real de Jesus e o ano zero do calendário cristão se deve a um erro de cálculo. No século VI, quando a Igreja resolveu reformular o calendário, o monge incumbido de fazer os cálculos cometeu um erro. Além disso, é praticamente certo que Jesus nasceu em Nazaré e não em Belém. A explicação que o texto de Lucas dá para a viagem de Jesus até Belém seria falsa. Os registros romanos mostram que Quirino (aquele que teria feito o censo que obrigou a viagem a Belém) só assumiu no ano 6 d.C. - 12 anos depois do ano de nascimento de Jesus. A história da viagem a Belém foi criada porque a tradição judaica considerava essa cidade o berço do rei David - e o messias deveria ser da linhagem do primeiro rei dos judeus. 

A concepção imaculada de Maria é um dos dogmas mais rígidos da Igreja, mas nem sempre foi um consenso entre os cristãos. Alguns textos apócrifos dos séculos II e III sugerem que Jesus é fruto de uma relação de Maria com um soldado romano. A menina Maria teria 12 anos quando concebeu Jesus. Na rígida tradição judaica, uma mulher que engravidasse assim poderia ser condenada à morte por apedrejamento. O velho carpinteiro José, provavelmente querendo poupar a menina, casou-se com ela e escondeu sua gravidez até o nascimento do bebê. A data de 25 de dezembro não está na Bíblia. É uma criação também do século VI, quando o calendário foi alterado. 

A Bíblia afirma que Jesus teve duas irmãs e quatro irmãos: Tiago, Judas, José e Simão. Mas não se sabe se esses eram filhos de Maria ou de um primeiro casamento de José. Muitos teólogos afirmam que eles eram, na verdade, primos de Jesus - em aramaico, irmão e primo são a mesma palavra. A Bíblia não fala quase nada sobre a infância e a adolescência de Jesus, com exceção de uma passagem em que, aos 12 anos, numa visita ao Templo de Jerusalém durante a Páscoa, seus pais o encontram discutindo teologia com os sábios nas escadarias do templo do monte. É quase certo, porém, que ele cresceu em Nazaré. 

Jesus falava certamente o aramaico, a língua corrente da Palestina e, provavelmente, entendia o hebreu por ter tomado lições na sinagoga e por ler a Torá. Os evangelhos apócrifos o pintam como um menino Jesus travesso, capaz de dar vida a figuras de barro para impressionar os colegas e até mesmo a fulminar um menino que esbarrou em seu ombro, para ressuscitá-lo logo em seguida, depois de tomar uma bronca do pai. 

Certamente José procurou iniciá-lo na arte da carpintaria e é provável que Jesus tenha trabalhado como carpinteiro durante um bom tempo. Oportunidade não lhe faltou. Escavações recentes revelaram que ao mesmo tempo em que Jesus crescia em Nazaré, bem próximo era construída a monumental cidade de Séfores, idealizada por Herodes Antibas para ser a capital da Galiléia. Séfores estava a uma hora a pé de Nazaré e é muito provável que José e Jesus tenham trabalhado ali. Em Séfores Jesus teria visto a passagem da família real de Herodes Antibas e a opulência das famílias de sacerdotes do Templo de Jerusalém. O fato de Jesus ter passado boa parte da sua vida ao lado de Séfores indicaria que ele não era um camponês rústico como já se pensou, mas tinha contato com a cultura do mundo helênico. 

Aos 30 anos, Jesus se fez batizar por João Batista nas margens do rio Jordão. Segundo a Bíblia, durante o batismo João reconhece Jesus como o messias. Há registros históricos da existência de João Batista e, recentemente, arqueólogos encontraram entre o monte Nebo e Jericó, nas margens do rio Jordão, ruínas de um antigo local de peregrinação por volta do século III d.C.
Decidido a cumprir sua missão na terra, Jesus dirigiu-se então para a Galiléia, onde recrutou seus primeiros discípulos entre os pescadores do lago Tiberíades. Passou a viver com seus primeiros seguidores em Cafarnaum, cidade de pescadores próxima do lago de Tiberíades. Por dois anos Jesus pregou pela Galiléia, Judéia e em Jerusalém, proferindo sermões e contando parábolas. Segundo a Bíblia, realizou 31 milagres, incluindo 17 curas e seis exorcismos. Alguns dos mais famosos são a ressurreição de Lázaro, a transformação de água em vinho e a multiplicação dos peixes. 

Cafarnaum, onde Jesus teria vivido com seus discípulos, era um povoado de cerca de 1 500 moradores naquela época. Escavações encontraram os restos da casa de um dos discípulos, provavelmente de Simão Pedro (hoje conhecido como São Pedro), além de um barco datado da mesma época da passagem de Cristo pelo lugar. Não há, porém, certeza quanto ao número de discípulos que viviam próximos de Jesus. Nos evangelhos, apenas os oito primeiros conferem - os quatro últimos têm muitas variações. A hipótese mais provável é que o número "redondo" de 12 discípulos foi uma invenção posterior para espelhar, no Novo Testamento, as 12 tribos dos hebreus descritas no Velho Testamento. 

Depois de viajar por quase toda a Palestina, Jesus parte para cumprir seu destino - ou, segundo alguns especialistas, seu plano. Durante a semana da Páscoa, o principal evento religioso do calendário judeu, Jesus entra em Jerusalém montado num burro e atravessando a Porta Maravilhosa. Esse foi, certamente, um ato deliberado de provocação aos sacerdotes do Templo e à elite judaica. Jesus faz exatamente o que o profeta Zacarias afirmava na Torá que o messias faria ao chegar. Jesus estava mandando uma mensagem de provocação aos sacerdotes do Templo. No segundo dia da Páscoa, Jesus vai ao Templo e ataca os mercadores e cambistas raivosamente. 

Na quinta-feira, percebendo que o cerco apertava, os apóstolos celebram com Jesus a última ceia. A imagem que ficou dessa cena, gravada por Da Vinci e outros pintores, nada tem de verdadeiro. Os judeus comiam deitados de flanco, como os romanos, e as mesas eram ordenadas em formato de U e não dispostas numa linha reta. Durante a ceia, Judas levanta-se para trair seu mestre - ou, como alguns sugerem, para cumprir uma ordem dada pelo próprio Jesus. A captura acontece no Jardim do Getsêmani, onde Jesus e seus discípulos descansavam no caminho para Betânia, onde ficariam hospedados. 

Levado para o Sinédrio, o Conselho dos Sacerdotes do Templo, Jesus reafirma sua missão divina e é condenado. Existem provas da denúncia de Caifás a Pilatos. Estudiosos judeus afirmam, porém, que o julgamento perante o Sinédrio jamais ocorreu porque o Sinédrio não se reunia durante a Páscoa. Essa versão teria sido incluída tardiamente na Bíblia após a ruptura definitiva entre cristãos e judeus. Jesus foi morto pelos romanos porque era considerado um agitador político.
Na manhã de sexta-feira, na residência do prefeito Pôncio Pilatos, Jesus é condenado à morte. Ele atravessa as ruas de Jerusalém carregando sua própria cruz e é crucificado entre dois ladrões. O caminho que Jesus percorreu nada tem a ver com a Via Crúcis visitada pelos turistas hoje. Ela é uma criação do século XIV, quando a cidade esteve nas mãos dos cavaleiros cruzados. A maioria dos historiadores e arqueólogos concorda, porém, que o morro do Calvário (Gólgota), localizado ao lado de uma pedreira, foi realmente o lugar da crucificação. Concordam também que seu corpo tenha sido colocado numa das grutas próximas. O que aconteceu então depende da fé de cada um. Há varias versões: que Jesus teria sobrevivido ao martírio, que outra pessoa teria morrido em seu lugar, que seu corpo teria sido roubado ou, claro, que ele teria ressuscitado. 

domingo, 28 de setembro de 2008

TV e Mídia, técnicas de controle ou democratização cultural?



Ao longo dos séculos o nosso modelo de sociedade sofreu de uma domínio da informação por parte de algumas instituições civis e classes sociais. Essa prática é notada desde a antiguidade clássica, onde só os membros (Cidadãos) da Pólis podiam na antiga grécia participar de discussões sobre eventos que acaso assolavam a cidade-estado, julgamentos “públicos” e etc. Assim também procederam os Romanos, onde só os cidadãos e em especial os patrícios podia gozar plenamente de direitos políticos, participando em uma forma estreita de toda a sorte de decisões a respeito de obras públicas, campanhas militares e entre outras coisas tendo acesso rápido a todos os progressos científicos da época, todo o resto da população foi massa de manobra. Chega-se então à Idade Média, onde os Senhores Feudais, sobretudo articulados em redor do que era interessante à Igreja, censuravam, escondiam, matavam (isso quando a própria Igreja não o fazia diretamente, vide “santa inquisição”, cruzadas, o fato de a leitura da bíblia ser censurada, a proibição da usura aos homens comuns enquanto o vigário de Roma morava no mais luxuoso castelo da Europa. Só pra citar alguns eventos). Na época acreditava-se que era em nome de “Deus”, mas no final esse deus se resumia apenas a um sentido aguçado de busca pela perpetuação da ignorância de muitos para o usufruto de poucos. A ciência novamente era monopolizada, assim como a informação e a educação. Vem a revolução Burguesa na França e o que acontece é em efeitos práticos que o cetro do domínio sai das mãos dos nobres e em parte do clero para as mãos dessa classe social emergente (Burguesia). Sucedem-se outras revoluções importantes como a industrial, mas praticamente todas funcionando à serviço daquela elite que tomara a bastilha anos atrás. Já em meados século XX, no segundo pós-guerra inicia-se nos E.U.A principalmente, uma produção maciça de aparelhos de TV e esse veículo de comunicação, com a promessa de informar numa maneira descomplicada invade os lares país afora, tendência essa que foi seguida pelos outros países do mundo. Hoje em vias do Século XXI, não é exagero dizer que a TV é para o homem médio uma espécie de Aiatolá, não é mais necessário ler, a TV interpreta as escrituras, não é mais necessário pensar, a TV sempre tem “especialistas” em fazer isso por nós. Desse exame surgem questões a meu ver pertinentes. Algo como, existe um sentido palpável de ética no meio televisivo? A opinião pública realmente existe? Se existe, será ela livre ou condicionada? Pra onde a mídia televisiva pretende nos guiar? O tema é extenso e minucioso, todavia, para uma primeira análise deixo o texto que se segue, com algumas conceituações e constatações acerca desse gigante do domínio informativo. 

Dos Conceitos

& Mídia advém de Medium, intermediário entre quem fala e outro que ouve (emissor e receptor). Sua efetiva realização reside em tornar possível a troca entre quem emite um sistema de sinais (imagens, sons, letras, etc.) e quem os recebe. No caso da televisão, trata-se de um intermediário eletrônico.


& Opinião vem do grego doxa, aparência, opinião. É uma derivação do verbo Dokio, conjeturar. São os sofistas (séc V a.C, Grécia antiga) os primeiros a movimentar a doxa na vida pública da cidade. Com este conceito os sofistas rompem com a teoria dos dois mundos de Platão e colocam a realidade como uma construção a partir do movimento das aparências. Com a doxa os sofistas inauguram uma nova maneira de linguagem: prática, concreta de classe, artifício de oratório para a defesa de interesses privados e públicos, política.

& Público é tudo aquilo que pode ser visto e ouvido por todos com o maior alastramento possível. É movimento contínuo das ações humanas que se mostram e engendram a cidade e suas conjunções materiais e imateriais.

Televisão e Economia de Mercado

O medium televisivo é um sistema informativo homólogo aos códigos da economia de mercado, sustenta o filosofante Muniz Sodré. A tevê funciona junto a uma indústria de bens materiais e culturais. Ela é homogênea às relações entre produtor e consumidor. Assim como os modos de produção são formados a partir de uma demanda de consumidores, o médium televisivo organiza seu sistema identificando para dividir, classificando para censurar e serializando para lucrar. Daí a estrutura deste sistema funcionar apoiado em pesquisas de opinião para selar contratos entre emissoras e empresas na venda de espaço e tempo televisivo em comerciais. O medium televisivo age de acordo com a economia de mercado à medida que faz de seu sistema informativo um modo de produção que determina consumidores, em níveis diferentes, em uma realidade constituída econômica-social.


Televisão e Informação

A dicotomia emissor/receptor da teoria da informação na televisão é inexistente. A linguagem formada na tevê não cria um espaço de diálogo, seus significantes (sempre rasteiros) são apenas transportados da realidade constituída e direcionados de forma univoca. Se o que configura as relações sociais são as trocas em seus mais variados níveis da sociedade, a tevê impede esta troca, anulando a opinião do receptor (no entanto, conserva a troca dentro dos códigos do mercado que definem produtor e consumidor). A tevê não comunica ou informa, mas impõem. Seu entendimento de comunicação e informação está dentro dos limites da produção, da disciplina e do controle social.


A Televisão e a Palavra de Ordem

O enunciado, unidade elementar da linguagem, é a palavra de ordem (Deleuze e Guattari). O que o tele-espectador recebe do sistema de sinais da tevê são imposições, não há preocupação alguma em que o tele-espectador concorde ou não com os conteúdos emitidos, mas apenas em recebê-los como ordens remetidas de outras ordens, redundância. O tele-espectador se configura como sujeito de enunciado, pois está capturado e preso aos códigos dominantes da lógica mercadológica. Os enunciados emitidos pela tevê são palavras de ordem porque fazem de seu espaço lingüístico-informativo um marcador de poder, uma função linguagem que ordena, que estabelece vereditos.

Televisão e Opinião Pública.

A tevê não emite a opinião pública. O medium televisivo faz da opinião pública uma quimera, um não ente (Espinosa). A tevê transforma a opinião pública em uma mercadoria de troca. Por isto ela é o resultado de sondagens feitas por instituições contratadas ou não (mas sempre dentro da ordem do capital) pelas próprias emissoras que organizam seu público e suas programações de acordo com a necessidade de se alcançar o ibope (medida televisiva que mensura a relação entre redes de tevê e mercado) pretendido. A opinião enquanto artifício composto pelo movimento efetivo dos encontros dos acasos no espaço público, na tevê, em razão de seu claro interesse mercadológico, torna-se impossível.


*Nos próximos posts mais sobre TV.

sábado, 27 de setembro de 2008

...


"Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore infranto,
ridi del duol che t'avvelena il cor!"
(R. Leoncavallo)

De todo aquele tempo, de toda aquela andança
Nada foi produzido que subsistisse ao caos da noite.
As coisas da terra à terra tornam, as coisas de meu peito
Em mim permanecem, estrangeiras.
 Não pertenço a esse lugar, não pertenço a coisa alguma
Já fui escravo, hoje sou ninguém.
Se conseguisse ser o que nunca pude talvez pudesse ser feliz aqui,
Todavia, acomete que não sou, nunca foi permitido.
O exílio é a minha casa, o não-ser é meu existir.
Sempre dancei com lobos,
Embora isso nunca tenha me impedido de dançar!
Mas o instante passou; a vida, passa.
Aquele mundo não existe mais, o Titã acorrentado jaz,
Deixado à própria sorte nessa terra amaldiçoada.
Eu sou o guardião daquele passado, eu sou o guardião
De tudo quanto nunca pode ser.
Que importa isso? Que importaria se tudo fosse êxito?
Pode ser que a totalidade fosse coisa alguma,
Que a vida nada fosse, ou é, além de teatro.
Não morrerei agora, já aconteceu, há muito tempo.
O amanhã é irremediável, o amanhã...
... Sempre dita novas cores.
Hoje eu escrevo, um dia,
Não escreverei mais.


 Porto Firme, 27 de Setembro de 2008