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Zéfiro e Flora, de William-Adolphe Bouguereau

A Morte de Jacinto, G. B. Tiepolo
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- Mestre, que é saber ?
-Que é não saber?
-É conceber verdades mais altas que não interessam à maioria das pessoas.
- Eu te respondo: é o transcendente, considerado utópico.
- Ao conhecimento de si mesmo.
- A miniatura de Deus, por assim dizer.
- A luz mais profunda da sabedoria, digo melhor, da própria vida.
- Respondo com outras palavras, sem pretensão de dizer tudo: saber mesmo constitui mergulho no silêncio, que é música, a música que só pode e só deve ser sentida, e, nunca definida ou formalizada.
TAGORE
Nota: Perceba-se que na concepção socrática o termo "Deus" surge como um estado interior do homem, e não como ser a que se busca externamente, sendo assim, uma visão avessa à apresentada pela tradição religiosa ocidental, sobretudo a cristã. (Não é de se admirar que tenha morrido por isso...)
"para terdes grandes idéias rodeai-vos de belas imagens"
Senhoras e Senhores, apresento-lhes William-Adolphe Bouguereau, um acadêmico sublime.
A Caridade
A Virgem
A Inocência
O Regresso da Primavera
Homero e Seu Guia
"Espero que as perguntas tenham alcançado uma resposta satisfatória. Desde já, aguardo novos contatos..."
Há alguns dias recebi um e-mail comentando o post sobre Caravaggio e uma pergunta foi lançada, ela consistia em uma indagação sobre o que seria necessário para se apreciar e compreender uma obra de arte. Falando a nível pessoal, entendo que existem várias formas de contemplação, por exemplo:
A Criação de Adão - Michelângelo
O Afresco acima é parte da grande obra prima de Michelângelo na capela sistina, entretanto, para muitos pode ser alguma coisa além ou aquém disso. Se o espectador é um acadêmico ele considerará a composição em si, inclinado por seus conhecimentos, levará em conta a profundidade, o movimento, a paleta de cores utilizada, etc. O Acadêmico vê a obra basicamente como um conjunto técnico. Por outro lado, se o expectador é um religioso, e está em peregrinação pelo vaticano, certamente haverá algo de sobrenatural no impacto dessa visão sobre ele, pois é uma narrativa da história de aliança de seus “antepassados”, é uma lembrança da porção divina existente em cada um. Um religioso comum vê a obra religiosa apenas por esse ângulo, ele busca ícones de transcendência. De forma paralela, mas não com menos admiração, um homem comum, analizando a obra a partir do senso comum, poderá achá-la sublime sem necessariamente vinculá-la a uma crença, técnica ou momento histórico específico. Assim sendo, é lúcido convir que uma das determinantes na apreciação é o filtro subjetivo, e as limitações ou aberturas que esse impõe. Mas será ele o único? Nesse sentido, achei conveniente para maiores investigações publicar um pequeno texto de autoria de Monroe Beardsley que discorre sobre razões objetivas na arte, traçando uma espécie de método sistêmico de análise.
“O método afetivo de avaliação crítica consiste em avaliar a obra pelos seus efeitos psicológicos, ou pelos efeitos psicológicos prováveis, sobre o próprio crítico ou os outros. Como mais adiante se tornará patente, não considero irrelevantes as razões as razões afetivas para a avaliação dos objetos estéticos (...)Neste momento, apenas defenderei que as razões afetivas, só por si, são inadequadas, porque não são informativas em dois aspectos importantes.
Primeiro, se alguém afirma que ouviu o andamento lento do Quarteto de Cordas em Mi Bemol Maior (Op.127), de Beethoven, e que lhe deu prazer, ou nos adverte que nos daria prazer, penso que deveríamos considerar esta advertência uma resposta fraca a esta grande música. E, contudo, num sentido muito amplo e vago é verdade que nos dá prazer, tal como os amendoins salgados ou um mergulho em água fresca. Somos, assim, a perguntar que tipo de prazer nos dá e como difere esse prazer de outros, se é que assim pode ser chamado, e como obtém a sua qualidade única precisamente a partir dessas diferenças. E esta linha de investigação levar-nos-ia ao segundo aspecto. Pois uma afirmação afetiva informa-nos sobre o efeito da obra, mas não identifica as características da obra que causam esse efeito. Poderíamos ainda perguntar, por outras palavras, o que há de prazeroso nesta música que está ausente noutra música. Esta linha de investigação seria paralela à primeira, uma vez que nos conduziria a discriminar este tipo de prazer de outros que têm diferentes causas e objetos.
As mesmas duas questões poderiam ser levantadas acerca da noção geral que parece estar implícita nas outras razões afetivas: a obra é boa se conduz a uma forte reação emocional de um certo tipo. Mas de que modo difere a reação emocional das fortes reações emocionais geradas por telegramas anunciando mortes, por sustos de morte em carros descontrolados, pela doença grave de um filho, ou por um pedido de casamento? Há certamente uma diferença importante que a explicação da reação emocional tem de ter em conta para ser completa. O que há no objeto estético que causa reação emocional? Talvez seja alguma qualidade específica intensa, na qual a nossa atenção está centrada quando estamos perante a obra. De fato, alguns termos afetivos são muitas vezes enganadores, pois são realmente sinônimos de termos descritivos: querem dizer que o objeto tem certas qualidades específicas num grau de intensidade apreciável. E nesse caso, é claro que a razão já não é afetiva, mas objetiva. (...)
Penso que ao inspecionarmos bem as razões presentes nos juízos críticos, podemos inseri-las, sem grande dificuldade, em três grupos principais. Em primeiro lugar, há razões que parecem ser suportadas pelo grau de unidade da obra:
... é bem organizada (ou desorganizada).
... é formalmente perfeita (ou imperfeita).
... tem uma estrutura e um estilo internamente coerentes (ou incoerentes).
Em segundo lugar, há razões que parecem apoiar-se no grau de complexidade ou simplicidade da obra:
... é desenvolvida em larga escala.
... é rica em contrastes (ou falta-lhe diversidade e é repetitiva).
... é sutil e imaginativa (ou grosseira).
Em terceiro lugar, há razões que parecem apoiar-se na intensidade ou falta de intensidade das qualidades humanas específicas presentes na obra:
... é cheia de vitalidade (ou apagada).
... é poderosa e vivida (ou fraca e deslavada).
... é terna, irônica, trágica, graciosa,delicada, profundamente cômica.”
Monroe Beardsley, Estética, 1958
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O conceito de alienação é um conceito histórico na medida em que tem aplicação analítica numa relação mútua entre sujeito, objeto e circunstâncias concretas específicas. Não obstante, os construtos teóricos acerca dos processos alienantes da vida humana foram edificados em estruturas atemporais, mistificadoras, abstraíndo dos processos sócio-econômicos concretos.
Bibliografia:
GIANNOTTI, J.A. Origens da dialética do trabalho. SP: Difusão Européia do Livro, 1966.
GOLDMANN, L. Dialética e Cultura. RJ: Paz e Terra, 1979.
MARX, K. De la Crítica de la filosofia del derecho de Hegel in MARX – Escritos de juventud. México: Fondo de cultura econômica, s.d.
______Manuscritos econômicos- filosóficos de 1844. (primeiro e segundo) in FROM, E. Conceito marxista do homem.
______ ___________________________________(terceiro) in Marx. SP:Abril Cultural, col. "Os pensadores", 1978.
______. A Questão Judaica. Portugal: Ed. José Fortunato, 1978.
______Teses sobre Feuerbach in Marx. SP: Abril Cultural, col. "Os pensadores", 1978.
______ Miséria da filosofia. SP: Ciências Humanas, 1982.
______ Introdução (à Crítica da economia política/1857). In Marx. Para a crítica da economia política. SP: Abril Cultural, col. "os pensadores", 1978.
______"Prefácio da primeira edição" e "Posfácio da Segunda edição" in Marx, K. O capital. Crítica da economia política. SP: Abril Cultural, col. "Os economistas", l,1,1983.
______ O Capital. Vol.l, Livro l, Tomo l. SP: Nova Cultural, col."Os economistas",1988.
MÉSZAROS, I. Marx: A Teoria da alienação. RJ: Zahar, 1981.
NETTO, J.P. "Introdução" in Miséria da filosofia. São Paulo: Ciências Humanas, 1982.
__________ Capitalismo e reificação. São Paulo: Ciências Humanas, 1987.
SCHAFF, A. O Marxismo e o Indivíduo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
VÁZQUEZ, A. S. Filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.
Por Maria Lúcia Duriguetto

I. HISTÓRICO
II. LÓGICA
III. PROGRAMA
*DELEUZE, Gilles. Conversações: 1972-1990. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992, p. 219-
226.

Mark Rothko, Russia 1903

" Não conto os bilhetes brancos, os negócios abortados, as relações interrompidas; menos ainda outros acintes ínfimos da fortuna. Cansado e aborrecido, entendi que não podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui além: acreditei que ela não existia na terra, e preparei-me desde ontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um charuto e debrucei-me à janela. No fim de dez minutos vi passar um homem bem trajado, fitando a miúdo os pés. Conhecia-o de vista; era uma vítima de grandes reveses, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Ele levantava os olhos para as janelas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de atração, anterior e superior à vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da bem-aventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.
A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preocupação deste século, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miséria ou guerra de classes, crises da arte e da política, nada vale, para ele, um par de botas. Ele fita-as, ele respira-as, ele reluz com elas, ele calca com elas o chão de um globo que lhe pertence. Daí o orgulho das atitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar de tranquilidade olímpica...Sim, a felicidade é um par de botas."
Machado de Assis; Contos.

É realmente surpreendente que Nietzsche tenha sabido não só adivinhar em Sócrates um decadente, quer dizer, um homem caído, como também (como se estivesse comprometido a ilustrar com o exemplo de Sócrates a narrativa bíblica) tivesse compreendido que um homem caído é incapaz de salvar-se com as suas próprias forças. Tudo o que o decadente empreende para salvar-se, diz Nietzsche, não faz mais que aumentar a sua perdição. Poderá lutar e vencer-se a si mesmo tudo o que puder; os seus intentos de salvação não são mais que a expressão da sua queda. Tudo o que faz, fá-lo como homem caído, quer dizer como um homem que perdeu a liberdade de escolha e foi condenado por força hostil a ver a sua salvação precisamente no mesmo lugar onde está a causa da sua perda.
Quando Kierkegaard disse que o maior génio é também o maior pecador, não nomeia Sócrates, mas evidentemente teve que pensar nele. Sócrates personificava para ele, essa tentação de que a Bíblia fala. E, com efeito, pode haver máxima mais tentadora do que a do oráculo de Delfos - "Conhece-te a ti mesmo" - ou que o prudente conselho de Sócrates - discorrer o dia inteiro sobre a virtude? Mas é justamente nisto que consiste a tentação da serpente bíblica. E tentou tão bem o primeiro homem, que hoje todavia vemos ali mesmo a verdade onde se oculta um fatal engano. Todos os homens, os místicos inclusive, aspiram ao conhecimento. No que toca a Kierkegaard, põe simplesmente de parte a serpente, e isto por razões, que como todo o mundo, lhe parecem surgir das profundezas do espírito que despertou da "modorra da ignorância". Há que buscar aqui, provavelmente, a origem dessa convicção Socrática segundo a qual o homem que "sabe" não pode fazer o mal e, por consequência, também a origem da nossa segurança de que o pecado não pode proceder da árvore da Ciência. Se queremos prosseguir utilizando imagens bíblicas teremos que dizer, ao contrário, que o pecado procede da árvore da vida e que, em suma, todo o mal que existe sobre a terra procede da mesma árvore.
Leon Chestov, Kierkegaard y la filosofia existencial, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1951
Título original em francês: Kierkegaard et la Philosophie Existentielle
Tradução para o espanhol de José Ferrater Mora
Tradução do espanhol: Helena Serrão