quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Eu nunca fui fã de Freud mas, o cara tinha os seus momentos; Isso é sobre tabus...


Explicámos o poder de contaminação, que é inerente ao tabu, pela capacidade de induzir em tentação, de instigar à imitação. Parece não se coadunar com isto o facto de a capacidade de contaminação do tabu se manifestar, sobretudo, na transferência para objectos que, consequentemente, passam a ser, eles próprios, portadores de tabu.


Esta capacidade de transferência do tabu reflecte a tendência inconsciente, já apontada na neurose, para se deslocar, por vias associativas, para objectos sempre novos. Somos, assim, alertados para o facto de que à perigosa força mágica do mana correspondem dois géneros de capacidades mais reais: a de lembrar ao homem os seus desejos proibidos e uma outra, que se nos afigura mais significativa, a capacidade de o induzir a violar a proibição para satisfazer esses seus desejos. Ambas acabam, afinal, por se fundir numa só, se admitirmos como sendo próprio de um psiquismo primitivo, que o despertar da lembrança de um acto interdito esteja ligado ao despertar da tendência para o executar. Nessa conformidade, a lembrança e a tentação coincidem mais uma vez. Há que admitir, igualmente, que, se o exemplo de um homem que transgride a proibição induz outro a cometer a mesma falta, isso se deve a que a desobediência ao proibido se propaga como um contágio, tal como o tabu de uma pessoa se transfere para um objecto e deste para outro.


Se a violação de um tabu pode ser reparada por meio de expiação ou penitência, as quais, afinal, significam uma renúncia a qualquer tipo de bens ou a uma liberdade, isso só prova que a obediência às regras do tabu constituía, ela própria, uma renúncia a algo que se teria desejado ardentemente. A dispensa de uma renúncia é substituída por uma renúncia imposta em relação a qualquer outro objecto. No que respeita ao cerimonial do tabu, poderíamos concluir que a penitência tem uma origem muito mais remota que a purificação.


...o tabu é uma interdição antiquíssima, imposta exteriormente (por uma autoridade) e que visa os mais intensos desejos do homem. O desejo de violar essa interdição está sempre presente no seu inconsciente. aquele que obedece ao tabu tem uma atitude ambivalente perante o que o tabu proíbe. A força mágica atribuída ao tabu deve-se à sua capacidade de induzir o homem em tentação. Essa força actua como uma contaminação, porque o exemplo é contagioso e porque o desejo proibido se desloca, no domínio do inconsciente, para outro objecto. A remissão da transgressão do tabu por meio de uma renúncia constitui a prova de que na base da obediência ao tabu está uma renúncia. 


Sigmund Freud, extraído de "Totem e Tabu".

Existencialismo, Características e Motivos

O Existencialismo enquanto pensamento mais radical a respeito do homem foi propagado com mais ímpeto já na era pós-moderna. Ele surge por volta do século XIX com o pensador dinamarquês Soren Kierkegaard, mas atingi o seu clímax como efervescência intelectual no pós-guerra, nos anos cinqüenta e sessenta, principalmente guiado por Heidegger na Alemanha e Jean-Paul Sartre na França. O pensamento existencial produzido após a segunda grande guerra é como que um reflexo da descrença do homem na humanidade da era pós-moderna, os recentes horrores produzidos levaram a uma idéia de ausência de “Deus”, a questão do existir foi posta de maneira a entender que o ser primeiro nasce por um processo biológico, naturalmente, sem estar imantado de nenhum propósito sobrenatural. O homem nasce e através da descoberta pessoal ele existe enquanto consciência e essa produz a conjuntura do ser, esse “homem existencial” não é projetado por ninguém, não existe uma finalidade específica como amar ou fazer o bem, não há um código de ética estabelecido, então esse homem é livre para se auto-construir na sua própria existência. 
 Assim, Há uma preocupação fundamental para o pensador existencialista com o sentido e o objetivo das vida humana, essa questão sobrepõe em importância para ele, todas as buscas pelas verdades científicas e metafísicas do universo, o que conta é a experiência interior, que no processo de feitura do homem é muito mais determinante que a verdade "objetiva", um fundamento igual à da filosofia oriental. Nesse traço da busca pelo subjetivismo como construção de uma realidade observa-se a força do espírito pós-moderno. A grosso modo, a questão é a seguinte, da antiguidade até o medievo o homem acreditava piamente no misticismo, confiava tanto em seu “Deus” que as bases do Estado eram com mais ou menos força dependendo do período, em absoluto teocráticas. Mas mesmo confiando cegamente nos divinos governadores, os povos viram suas civilizações ruírem, alguns pela escravização outros pelas sucessivas guerras internas e externas, o pacto de servidão com o deus-rei ou com o governante filho dos deuses ou com o rei que detinha o direito divino foi quebrado, eles não foram capazes de guiar o seu povo. Então surge após algumas mutações sociais, o espírito do grande racionalismo que financiou intelectualmente o movimento que mais tarde desaguaria no iluminismo francês, o indivíduo passa a se devotar aos progressos científicos da humanidade como pontes para a sua felicidade, mas toda a ciência, toda a matemática não o livrou da miséria e da desigualdade social patrocinada pela burguesia emergente. Vem em seguida a revolução industrial, a salvação agora estava na economia, mas o homem também foi traído por esse sonho, trabalhando em regime escravo nada podia usufruir e o poder, o conforto, ainda eram monopolizados por aqueles mesmos de outrora, apesar de se apresentarem com outros nomes. Esse quadro permaneceu e possibilitou duas guerras mundiais. Por fim, veio a era pós-moderna sob o signo da solidão, o homem se viu só, traído pelos deuses, pelos patrões e pela ciência. A única chance era uma reinvenção, do homem a partir do próprio homem, eis a importância do existencialismo, ele deu ao ser uma chance de recomeçar, uma oportunidade ímpar na história, a de estar livre para seguir as suas próprias verdades pois, como sugerem grandes pensadores dessa safra, o mundo como nós o conhecemos, é irracional e absurdo, ou pelo menos está além de nossa total compreensão; nenhuma explicação final pode ser dada para o fato de ele ser da maneira que é, por isso a única realidade é a que você constrói.


Alguma filosofia de Martin Heidegger¹:

Esse filósofo alemão declarou-se um investigador da natureza do Ser. Heidegger contribuiu com seu pensamento sobre o ser e a existência, de onde o nome dado à corrente filosófica de "Existencialismo".
A angustia tem, no pensamento de Heidegger, origem diversa da liberdade. Para ele a angústia resulta da falta da precariedade da base da existência humana. A "existência" do homem é algo temporário, paira entre o seu nascimento e a morte que ele não pode evitar. Sua vida está entre o passado (em suas experiências) e o futuro, sobre o qual ele não tem controle, e onde seu projeto será sempre incompleto diante da morte inevitável. 
Como uma filosofia do tempo, o existencialismo exorta o homem a existir inteiramente "aqui" e "agora", para aceitar sua intensa "realidade humana" do momento presente. O passado representa arquivos de experiências a serem usadas no serviço do presente, e o futuro não é outra coisa que visões e ilusões para dar ao nosso presente direção e propósito..
Portanto, no homem, o ser está relacionado ao tempo e está dado, - existe -, em três fenômenos, três "existenciais" que caracterizam como as coisas do passado, do presente e do futuro se manifestem para o homem e a unidade desses três fenômenos constitui a estrutura temporal que faz a existência inteligível, compreensível. São a afetividade, com que se liga ao passado pelo seu julgamento; a fala, com que se liga ao presente, e o entendimento, que é a inteligência com que lida com o seu futuro, com a angústia de sua predestinação à morte. Não podemos nos submeter a condicionamentos de nosso passado; não podemos permitir que sentimentos, memórias, ou hábitos se imponham sobre nosso presente e determinem seu conteúdo e qualidade. Nós também não podemos permitir que a ansiedade sobre os eventos futuros ocupem nosso presente, tirem sua espontaneidade e intensidade. Não podemos permitir que nosso "aqui e agora" seja liquidado
Na angústia, o homem experimenta a finitude da sua existência humana. Todas as coisas supérfluas em que estava mergulhado se afastam deixando-o a nú, com uma liberdade para encontrar-se com sua própria morte (das Freisein für den Tod), um "estar preparado para" e um contínuo "estar relacionado com" sua própria morte (Sein zum Tode). Essa visão existencial do homem, em que ele se conscientiza das estruturas existenciais a que está condicionado e que o tira da superficialidade em que desenvolve seus conflitos tornou-se sedutora para a psiquiatria². 
A angústia funciona para revelar o ser autêntico, e a liberdade (Frei-sein) enseja o homem a escolher a si mesmo e governar a si mesmo.




1- Considerações acerca de Martin Heidegger extraídas de texto de Rubem Queiroz Cobra .
2- O pensamento existencial de Heidegger relacionado com a experiência do aqui e do agora como a única coisa real, influenciou muito a psiquiatria e a psicanálise em seu tempo, provavelmente o maior exemplo disso é a “Gestalt-Terapia” desenvolvida pelo alemão de origem judaica Friedrich Perls ou Fritz Perls.



quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Projeção

Se eu pudesse não ter o ser que tenho 
Seria feliz aqui... 
Que grande sonho 
Ser quem não sabe quem é e sorri! 

Mas eu sou estranho 
Se em sonho me vi 
Tal qual no tamanho 
O que nunca vi...


Caravaggio

A Ceia em Emaús - 1600/1601
Michelangelo Merisi da Caravaggio (Milão, 29 de Setembro de 1571 – Porto Ercole, comuna de Monte Argentario, 18 de Julho de 1610) como pintor atuou intensamente em Roma, Nápoles, Malta e Sicília, entre 1593 e 1610. É o primeiro grande expoente Barroco da Europa, gênero que após a sua obra receberia uma outra órbita de importância.
Ainda vivo, Caravaggio era considerado enigmático, fascinante e perigoso. Ele foi um "vanguardista" livre das convenções tanto na arte quanto na vida, era desprendido, corajoso, pronto a romper paradigmas estéticos em suas obras e a transgredir a obediência civil em sua vida privada, mas isso é outra história. O gênio é muito maior que aquele homem instável e tempestuoso que terminou sua vida exilado após cometer um homicídio, além de tantos outros delitos menores. O importante em Caravaggio é a verdade contida nas obras, até então não ha registro de nenhum pintor que possuísse o seu realismo e a maior parte dos especialistas dizem que mesmo após, nenhum outro fez sombra ao impacto de suas composições. No auge do espírito de contra reforma no velho mundo, surge Caravaggio com um ateísmo velado pintando as figuras sacras sem nenhum glamour extra, chegando ao ponto de usar uma prostituta morta como modelo para uma Maria em "A Morte da Virgem"¹, obra que quando entregue foi rejeitada pela ordem que a encomendou após ter sido considerada indecente pela humanidade dos ícones pintados. Um bom exemplo do espírito de Catravaggio está em "A Ceia em Emaús" (acima), quando ele abala retratando um Cristo profundamente anti-espiritual para a visão tradicionalista; Mostrou-o como um jovem de rosto carnudo, sem barba e sem dramaticidade, obtuso frente à decisão daquele momento. Mas por que Jesus não poderia ter esse aspecto? Na verdade Caravaggio age com uma maestria não passional, pois com essa fisionomia despretenciosa de Jesus ele possibilita que o drama pertença ao episódio em si, essa é a sua grande marca, de permitir que o conjunto e não apenas os teoricamente protagonistas componham o quadro de maneira decisiva, todavia, em momento algum ele se desapercebia dos temas centrais. O modo com que focaliza o essencial (ou talvez com que o traz e faz atravessar a barreira invisível da superfície da pintura, levando-o ao espaço do observador) causou uma grande impressão em seus contemporâneos. Ele procedia a narrativa mediante todos os elementos da obra, entre os quais a luz e sombra teêm grande deestaque. Partindo de Jesus a luz irradia-se para fora; a história é contada por meios de efeitos simples que a própria natureza provê, porém, a forma de interpretá-los os tornam colossais. Depois de Caravaggio, outorgou-se um novo patamar ao drama natural, as infinitas variações de luz por exemplo, foram exploradas e podem ser percebidas na obra de quase todo o pintor de expressão surgido posteriormente. Caravaggio, tal como Masaccio e Giotto, foi sem dúvida um pivô histórico-artístico.
 
 
A Morte da Virgem¹ - 1605/1606
Outras obras de marcantes:
São Matheus e o Anjo - 1602
A incredulidade de São Tomé -  1599
Narciso - 1.597
O Sacrifício de Isaac - 1603
Crucificação de São Pedro - 1600/1601 

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tempo Passado



E a noite vem e o dia tarda,o instante passou,
Deixando marcas de eternidade.
Amanhã será um novo dia, e já é um outro dia,
Nada permanece além do teu vulto silencioso.
Então o vencedor jaz vencido, não há horizonte,
Perspectiva ou conforto.
Boio a esmo, tudo aqui é oco.

Bruxas soturnas rodam o quintal,
Hipnotizadas numa orgia surda
Abrem o abismo; os santos adormecidos
Acordam espantados, noutra dimensão.

Seres hediondos desafiam a leveza
Do horizonte de chumbo.
Um anjo chora. E a treva vencedora
Se levanta no vazio da cidade.

O encontro é impossível e a distância é certa,
A derradeira porta se fecha atroz.
As coisas se confundem no vazio,
Talvez algo em mim sejamos nós.

sábado, 6 de setembro de 2008

O querer e o Desejar

O ser humano é insatisfeito por natureza porque não a nada no mundo que consiga corresponder integralmente ao que ele busca enquanto ser que deseja. Isso porque há uma diferença determinante entre querer e desejar, a idéia do querer corresponde em regra a uma necessidade, querer normalmente é uma coisa que todo mundo compreende (eu quero tomar água, eu quero dormir...), assim, o querer deve ser entendido como o veículo transportador das necessidades pessoais. Já o exercício de desejar é algo que ninguém compreende, é uma experiência hermética, inacessível, singular de cada um. Jamais se tem uma resposta que satisfaça completamente o indivíduo desejoso, essa é a base da criação ou do sofrimento. Em psicanálise quando ocorre a realização de um desejo, aqueles são momentos raros e fulgurantes, nesses momentos a pessoa tem uma sensação de quase morte. Os franceses com muito acerto chamam o orgasmo de “pequena morte”, a pessoa tem a sensação de estar no olho de um furacão, tem um lampejo de perda de identidade, uma sensação de não ser, uma vontade de querer se emaranhar no outro, mas isso passa. O que vem depois? Pode ser uma depressão, uma dor aguda causada pela idéia de algo perdido; como também pode vir uma vontade de ir além, de transpor a experiência cotidiana para reinventar esse prazer tão fulgaz, tão feérico que é a realização de um desejo. Entretanto, pela tedência ao rápido perecimento da satisfação, ainda que essa seja revivida em outro momento, a de se convir que o objeto de desejo é apenas objeto, é algo que esta limitado à atuação incidental, uma mera projeção, as grandes questões que movimentam essa força são internas. A busca é de uma realização (idéia de algo momentâneo) e não de uma satisfação (idéia de algo perene). Existem alguns trabalhos acerca do homossexualismo relacionados a uma teoria de que os iguais, por sua natureza comum, entenderiam melhor o outro. A pergunta seria, por exemplo:

O fato de você ser uma mulher interfere positivamente para que você entenda o modo de desejar de outra mulher?

Talvez em primeira análise poderia-se pensar que o fato da pessoa ser uma mulher a autorizaria a saber mais sobre o desejo de outra mulher, eu diria que isso pode levar a saber mais sobre os dilemas vividos dentro do desejo feminino, porque o desejo de uma mulher é uma questão fundamental para ela, assim como é o de um homem para qualquer homem.

Ps: Espero que esse texto mesmo não respondendo integralmente à sua questão, possa auxiliar em novas reflexões, a você, Sorte e Sucesso...

*Leandro M. de Oliveira

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Enquanto isso em Porto Firme...


...um flagra de eleitores conscientes.

Mitos Obscuros: Morte (Palavra Poibida)


No pensamento o homem vivencia
a presença da morte sem morrer.
Paradoxo que o diferencia
da besta, que morre sem saber.
(IAC,fev.2002)

Sumário

1. Não ao ceticismo e ao dogmatismo
2. A revolução copernicana que não aconteceu
3. Contra a infantilização
4. A criança e a pornografia da morte
5. Eros e Tanatos

1. Não ao ceticismo e ao dogmatismo

Pensar em certos assuntos que, de antemão, não se pode conhecer é uma atividade vã: esse é o velho e desgastado argumento-chave dos céticos e
dogmáticos contra aquele que se propõe a tratar do tema da morte. O ceticismo afirma ser vão falar da morte porque ela é um conceito sobre algo
que não se tem experiência ou não se conhece; o dogmatismo dirá que é vão falar daquilo que já é sabido por força da revelação. Não devemos
lhe dar ouvidos porque são vozes da insensatez. Falemos da morte, sim, mas antes afastemos o cético perguntando-lhe como chegou ele à
conclusão de que não se pode falar da morte, quais são as suas fontes, que caminhos trilhou, que conhecimento especial tem para atribuir o
adjetivo inexplicável a um objeto e ele não saberá responder e se tentar deixará de ser cético. Quanto aos dogmáticos saibamos simplesmente
evitá-los, não pelo medo do debate, mas pela economia de tempo e senso do ridículo. Marionetes não pensam e, se quisermos saber das origens
de seu conhecimento, basta atentar para os fios em que estão penduradas.
Ademais nosso objeto não é a morte como mero conceito abstrato, tampouco a descrição dos processos do morrer— isso um médico-legista ou
até mesmo um certo filme denominado Faces da morte faria melhor. A morte, entendemos, deve ser analisada sob a ótica de significante
humana, em outras palavras, qual o sentido dela para nós. Interessa-nos uma abordagem antropológica da morte à luz da filosofia, as
manifestações humanas diante dessa possibilidade sempre presente e a postura atual do Ocidente em relação ao tema.

2. A revolução copernicana que não aconteceu

Falar da morte abre verdadeiramente uma possibilidade de acesso à consciência do homem, ao conhecimento do si-mesmo, o que implica
necessariamente numa maior consciência do outro. O escritor Edgar Morin, autor do livro O homem e a morte, lembra que a ciência que pesou o
sol, calculou sua idade e enunciou seu fim "continuou como que intimidada e trêmula diante do outro sol, a morte." E adverte que
se quisermos sair da lengalenga da morte, do ardente suspiro que espera a doce revelação religiosa, do manual de serena sabedoria, do
ensaio patético, da meditação metafísica em que se exultam os benefícios transcendentes da morte, a menos que se lamentem seus
malefícios não menos transcendentes, se quisermos sair do mito, da falsa evidência, assim como do falso mistério, é preciso copernicizar
a morte.[1]
O conceito de copercinização da morte implicaria numa revolução semelhante à que consistiu numa nova consciência da nossa posição humana
no universo. De certa forma ainda acreditamos que somos o centro imóvel do cosmos e por isso o tema da morte tem sido abordado sobre os
mesmos prismas há séculos. Isso se dá simplesmente porque não percebemos que é a nossa posição em relação ao problema da morte que faz a
morte aparecer como tem sido até então.

3. Contra a infantilização

No livro Micropolítica, organizado por Suely Rolnik, Félix Guattari é citado como autor de uma fala sobre as três principais características das
sociedades capitalísticas: culpabilização, serialização e infantilização. Esta última seria a mais importante de todas e é assim por ele referida:
Pensam por nós, organizam por nós a produção e a vida social. Além disso, consideram que tudo o que tem a ver com coisas
extraordinárias - por exemplo, o fato de falar e viver, o fato de ter que envelhecer, de ter que morrer - não deve perturbar nossa harmonia
no local de trabalho e nos postos de controle social que ocupamos, a começar pelo controle social que exercemos sobre nós mesmos. A
infantilização - por exemplo, das mulheres, dos loucos, de certos setores sociais, ou de qualquer comportamento dissidente - consiste em
que tudo que se faz, se pensa ou se possa vir a fazer ou pensar seja mediado pelo Estado. Qualquer tipo de troca econômica, qualquer
tipo de produção cultural ou social tende a passar pela mediação do Estado. Essa relação de dependência do Estado é um dos elementos
essenciais da subjetividade capitalística.[2]
Segundo Guattari, crianças não são infantis, tornam-se infantis quando se evita sistematicamente lidar com elas franca e responsavelmente em
torno de temas como o da morte ou do sexo. Falar da morte é reagir ao processo contemporâneo da infantilização, cujo mal reside em tornar as
pessoas incapazes de lidar com as situações-limites de sua própria vida. No artigo Doença e diferença, de autoria do sociólogo R. Miskolci, há
uma observação exemplar desse fenômeno:
Quando um risco grave ameaça um membro da família, esta conspira para o privar da informação e da liberdade. O doente torna-se uma
espécie de criança ou débil mental que o esposo ou os pais tomam a seu cargo. Todos sabem melhor do que ele o que ele deve saber e
fazer, por isso ele é privado do seu direito, outrora essencial, de conhecer sua morte, de a preparar e organizar segundo seus desejos.[3]
Gorer toca num fenômeno histórico específico de inversão do objeto pornográfico, mas deixa-nos com um comichão intelectual que só passa
quando fazemos duas observações: haveria uma oposição entre Eros e Tanatos, ou seja, será que a psiquê humana é incapaz de lidar com o sexo e
a morte do mesmo jeito ao mesmo tempo? Tem o homem uma necessidade de conviver com o pornográfico de tal modo que, quando as coisas do
sexo deixam de ser pornográficas as coisas da morte assumem essa função?
Sem responder a essas perguntas, Philippe Ariès, em seu livro O homem diante da morte (1990), também percebeu e descreveu o moderno
fenômeno da pornografização das coisas da morte:
Desde o início do século XX, havia o dispositivo psicológico (grifo nosso) que retirava a morte da sociedade, roubava-lhe o caráter de
cerimônia pública, fazendo dela um ato privado, reservado principalmente aos próximos, de onde, com a continuidade, a própria família
foi afastada quando a hospitalização dos doentes em estado grave se tornou regra geral. [...] O segundo grande acontecimento na história
contemporânea da morte é a rejeição e a supressão do luto.[4]
No Brasil, um fenômeno parece convergir para as observações de Gores e Ariès. Na cidade do Salvador-BA, ano 2000, espaço de uma produção
musical e dançante que induz a crer na não-pornografia das coisas do sexo, a Câmara Legislativa Municipal aprovou uma lei que proíbe a
exposição de urnas mortuárias e adereços de velório na frente das lojas funerárias. O pudor em relação às coisas da morte está obviamente
presente nesse artigo da referida lei:
É obrigatório, nas lojas funerárias, o uso de portas de vidro na cor fumê ou em qualquer outra, exceto transparente, desde que diminua a
visibilidade, pelo lado de fora, dos objetos expostos em seu interior, devendo permanecer sempre fechadas (...).[5]
Enquanto isso, nos Estados Unidos
...existem cursos de nível universitário para embelezar os mortos, transformando-os em múmias modernas, maquiados como atores.
Profissionais especializados não só preparam o cadáver, pintando-o e aplicando-lhe às vezes um sorriso impróprio na face, como criam o
cenário para o funeral, combinando cores, móveis, música, comida, dando a ilusão de que o morto é apenas mais um convidado. Ou o
anfitrião.[6]

4. A criança e a pornografia da morte

O texto a seguir deveria estar no corpo do item anterior, mas preferimos destacá-lo com um título próprio por conta de sua importância enquanto
caráter de denúncia.
Pais equivocados acreditam que não devem tocar no assunto da morte com a criança. Denegam esse inevitável acontecimento. Esforçam-se em
proporcionar aos filhos pequenos somente imagens e assuntos que julgam agradáveis e otimistas. Essa visão unilateral e omissa da realidade é, no
mínimo, castradora.
O filósofo Peter Sloterdijk, observando a recusa paradigmática da dor e a falta de estímulo a pensar no sofrimento nos EUA, sentenciou que esta
sociedade produzirá indivíduos "frouxos". Ele denuncia o mal que psicólogos - em sua maioria formados sob a ideologia dos anos 70 - provocam
ao desestimular a criança a ir a velório sob o argumento de que "essa visita iria traumatizá-la". Sloterdijk contrargumenta: será que todas as
gerações anteriores que passaram por essa experiência ficaram traumatizadas? Haveria muita diferença em ir a um velório e assistir diariamente
a cenas violentíssimas de banalização da vida na televisão?
O psicólogo Raymundo de Lima apresenta o seguinte depoimento:
Faz um ano que os meus filhos pequenos, após uma emocionada conversa e choros sobre a recente morte da avó, conversamos sobre eles
irem ou não ao velório. Antes, preparei-os descrevendo o ambiente de pesar em que estava o corpo da vovó: caixão, flores, gente
chorando, etc. Preferiram ir. E lá fizeram suas despedidas, não se traumatizaram, nem caíram em depressão. Hoje, demonstram estarem
mais conscientes e realistas de que a avó não mais está entre nós. A partir desta singular experiência, demonstram que estão
cotidianamente elaborando a idéia de morte e suas metáforas, já que novas perdas e separações serão inevitáveis.[7]
O psicanalista B. Bettelheim aconselha colocar a criança desde cedo em contato com estórias de fadas que tratam do problema da morte, pois
isto prepararia melhor sua personalidade para enfrentar a realidade inevitável.
Outro psicanalista, Philipe Julien, lembra da necessidade do luto, que teria a função de "partir o pão da palavra que diz a dor da perda". Pessoas
autênticas, psiquicamente mais adequadas não podem propôr-se a esquecer e sim partir em busca de alguma substituição para continuarem bem
existindo.

5. Eros e Tanatos

Retomando à problemática anterior, estamos em condições de fazer uma consideração crítica final. Eros e Tanatos são deuses da mitologia grega.
O primeiro representa o amor erótico, a atração, a comunhão, a instabilidade, a junção, a criação, a tendência ao animado e, conseqüentemente, à
vida, pois quando há união algo além das partes que se uniram é criado. O segundo é a representação do oposto de Eros: a retração, a
descomunhão, a estabilidade, a separação, a destruição, a tendência ao inanimado e, conseqüentemente, à morte, pois quando as partes se
desunem algo morre, desaparece. As ciências psi têm insistido em defender a idéia de que Eros e Tanatos habitam dentro de nós ou, numa
linguagem técnica, seriam estruturas da nossa psiquê. Freud, por exemplo, chegou a dizer que Tanatos era a manifestação violenta da libido -
esta seria a energia que faz a pulsão erótica[8] funcionar, mas, percebendo que a destruição era uma aspecto tão marcante da personalidade,
acabou por concluir que Tanatos podia ser também entendido como outra pulsão originária. A união erótica forma a estrutura embrionária de um
novo ser, mas o nascimento do homem ao mundo é um rompimento, uma separação. A vida não seria possível sem Eros e Tanatos. As estruturas
inanimadas e estáveis são o começo e o fim dos processos animados e instáveis. A criação não seria possível sem a destruição. Em outras
palavras: ignorar a realidade da morte é, ao mesmo tempo, ignorar a vida.


Notas
[1] Edgar Morin. O Homem e a Morte. p. 19.
[2] Félix Guattari. In.: Micropolítica. p. 41-2.
[3] Richard Miskolci, http://www.richardmiskolci.slg.br/rdd.html.
[4] Philippe Ariès. O Homem diante da Morte. p. 628.
[5] Art. 2º da Lei n. 5.733/200, publicada no Diário Oficial do Município, em 15 de maio de 2000, p. 2.
[6] Júlio J. Chiavenato. A morte, uma abordagem sociocultural. p. 44-5
[7] Raymundo de Lima. Falar de morte com as crianças. Disponível em . Acesso em 15
ago.2001.
[8] De forma grosseira, poderíamos dizer que pulsão é o impulso básico da psique humana, devendo ser entendida de forma um tanto mais
complexa que a noção biológica de instituto.

Israel de Alexandria

Esse é o primeiro post da série em que pretendemos tratar das negações que o homem faz ao óbvio, transformando acontecimentos naturais em mitos quase insondáveis. A posteriori virão comentários de nossa lavra, todavia, deixamos por momento o pequeno texto de Israel de Alexandria que apresenta um enfoque acadêmico-filosófico para o evento morte, lançando algumas bases de nossa opinião (ainda que discordemos em muitos pontos). Nos próximos posts, voltaremos com um aprofundamento desse assunto para início de discussão. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Bocas Ordinárias : As verdades que incomodam, Jihad


Linguisticamente, a palavra árabe "jihad" significa "esforço" ou "empenho" e se aplica a todo
esforço ou empenho despendido na execução de qualquer ação. Neste sentido, um estudante
se esforça, ou se empenha, para ter o seu diploma, um empregado se esforça, ou se empenha,
em seu trabalho e mantém boas relações com o seu empregador, um político se esforça, ou se
empenha, para manter ou aumentar sua popularidade entre seus eleitores, e assim por diante.
No ocidente, "jihad" geralmente é traduzido como "guerra santa", um uso popularizado pela
mídia. De acordo com os ensinamentos islâmicos verdadeiros, não se deve estimular ou começar uma guerra. Contudo, algumas guerras são inevitáveis ou se justificam, quem é passivo ao ver sua casa e sua nação sendo invadida? Se buscarmos no árabe o termo "guerra santa" encontraremos "harbun muqaddasatu" ou "al-harbu al-muqaddasatu".
Não ha no Alcorão, ou nas coleções de Hadith, ou em qualquer outra literatura islâmica, o termo "jihad" com o significado de "guerra santa".
Infelizmente, alguns escritores muçulmanos e tradutores do Alcorão, do Hadith e da literatura
islâmica em geral, traduzem o termo "jihad" como "guerra santa", por certo devido à influência de séculos de propaganda ocidental. Muito provável isto se deva ao fato de o termo "Guerra Santa" ter sido usado primeiramente pelos cristãos para se referirem às Cruzadas. No entanto, as palavras árabes para o termo "guerra" são "harb" ou "qital", que são encontradas no Alcorão e no
Hadith. 
No Corão ha versos do tipo:
"Aqueles que creram, migraram e combateram pela causa de Deus poderão esperar de Deus a misericórdia, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo." (Cap. 2:218)

Mas percebam, o leque de entendimento das expresões migrar e combater é muito amplo, isso pode ter por exemplo em migrar, o sentido de uma caminhada apostólica para a divulgação da fé, e combater é muito bem entendido pelos verdadeiros estudiosos como o combate interno do homem, a luta subjetiva para ignorar "as ilusões do mundo" e se manter no caminho reto. Assim pode-se dizer, analizando pelo enfoque literal que o modelo de Deus cristão apresentado na bíblia é ainda bem mais sedento por sangue. Note-se por exemplo:

"O SENHOR é homem de guerra; o SENHOR é o seu nome". (Êxodo 15:3)  

Segundo o êxodo isso foi cantado por moisés e seus companheiros do "povo de Deus" após o triunfo sobre os "infiéis" egípcios. É tudo a mesma coisa, também nesse sentido:

"Mil de cada tribo, entre todas as tribos de Israel, enviareis à guerra". (Números 31:4)

 Esse versículo é tirado de mais uma narrativa sobre as contínuas tramoias entre Moisés e seu Deus para eliminar os inimigos, dessa vez os midianitas. A verdade é que o senso comum, talvez influenciado pelo egoísmo intríseco ao ser humano médio, leva-o a uma concepção tribal de divindade, dessa forma não se visa o bem da coletividade humana, mas sim o de uma comunidade em particular. A questão não é determinada pela orientação religiosa externa, mas sim pelo filtro subjetivo interno de cada um. Dessa forma sempre existirão bons e maus muçulmanos, assim como cristãos, espiritualistas, budistas, hinduítas, ateus e assim por diante. Decididamente a ação do homem é regulada pelo próprio homem.

Ps: Nos próximos posts pretendemos nos aprofundar nas questões acima, por enquanto fica esse texto para início de debate.






segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ensaios de Friedrich Nietzsche 2ª Parte



Moral como Antinatureza (Parte 2)

IV

– Reduzo um princípio a uma fórmula. Todo naturalismo na moral – isto é, toda moral saudável – é
dominado por um instinto vital; qualquer mandamento de vida é preenchido por um determinado cânone
de “deves” e “não deves”; remove-se assim um elemento hostil e inibitório no caminho da vida. A moral
antinatural – ou seja, quase toda moral que até agora foi ensinada, venerada e pregada – volta-se, de
modo oposto, contra os instintos vitais: é uma condenação desses instintos, ora secreta, ora explícita e
impudente. Quando ela diz “Deus observa os corações”, diz Não tanto aos desejos mais baixos quanto aos
mais altos da vida, colocando Deus na posição de inimigo da vida. O santo com o qual Deus se encanta é
um castrado ideal. A vida termina onde o “Reino de Deus” começa...

V

Compreendendo o sacrilégio que tal revolta contra a vida representa, tal como se tornou quase
sacrossanta na moral cristã, também se compreende, felizmente, outra coisa: o caráter fútil, aparente,
absurdo e mendaz de tal revolta. Uma condenação da vida pelo próprio vivente no fim continua sendo
apenas um sintoma de um tipo específico de vida: com isso a questão de ela ser justificada ou não nem
chega ser levantado. Seria necessário posicionar-se fora da vida, e ainda conhecê-la tão bem quanto um,
quanto muitos, quando todos que a viveram, para que seja permitido mesmo tocar o problema do valor
da vida: razões suficientes para compreendermos que esse problema é inacessível a nós. Quando falamos
de valores, falamos com a inspiração, com a perspectiva das coisas que são parte da vida: a própria vida
nos força a estabelecer valores; a vida mesma valora através de nós quando estabelecemos valores.
Segue-se disso que mesmo aquela moral antinatural que concebe Deus como contra-conceito e
condenação da vida é apenas um juízo de valor da vida – mas de que vida? De que tipo de vida? Já dei a
resposta: da vida decadente, enfraquecida, cansada, condenada. A moral, tal como até aqui foi entendida
– como por fim foi formulada uma vez mais por Schopenhauer, como “negação da vontade de vida” –, é o
próprio instinto da decadência que se fez um imperativo. Ela diz: “Pereça!”; é uma condenação
pronunciada pelo condenado.

VI

Finalmente, consideremos quão ingênuo é dizer: “O homem deveria ser de tal ou de tal modo!” A
realidade nos mostra uma encantadora riqueza de tipos, uma abundante profusão de jogos e mudanças
de forma – e um miserável serviçal de um moralista comenta: “Não! O homem deveria ser diferente.”
Esse beato pedante até sabe como o homem deveria ser: ele pinta seu retrato na parede e diz: “Ecce
homo!(1)”Mas mesmo quando o moralista dirige-se a apenas um indivíduo e diz “você deveria ser de tal e
de tal modo!”, ainda não deixa de ser ridículo. O ser humano, visto pela frente ou por trás, é um pedaço
de destino, uma lei a mais, uma necessidade a mais para tudo que há de vir e será. Dizer-lhe “muda-te” é
exigir que tudo seja mudado, mesmo retroativamente. E realmente houve moralistas conseqüentes que
desejavam tornar o homem diferente, isto é, virtuoso – desejavam-no reformado à sua própria imagem,
como pedante: e, para tal fim, negavam o mundo! Nenhuma pequena loucura! Nenhum modesto tipo de
imodéstia!
A moral, à medida que condena por sua própria causa, e não a partir dos interesses, considerações e
pontos de vista da vida, é um erro específico pelo qual não se deve ter compaixão – uma idiossincrasia de
degenerados que causou danos imensuráveis.
Nós outros, nós imoralistas, pelo contrário, fizemos de nosso coração uma morada para todo tipo de
entendimento, compreensão e aprovação. Não negamos facilmente; encontramos honra no fato de
sermos afirmativos. Cada vez mais, nossos olhos se abrem a uma economia que necessita e sabe utilizar
tudo que a sagrada insensatez do padre, a doentia razão do padre, rejeita – aquela economia na lei da
vida que encontra alguma vantagem mesmo nas espécies mais repulsivas de pedantes, padres e
virtuosos. Que vantagem? Mas nós mesmos, nós imoralistas, somos a resposta.
[1] “Eis o homem”

Como prometido aí vai a segunda parte de uma crônica acerca da moral redigida pela "dinamite humana". Decerto a maior parcela de quem estudou esse filósofo jamais conseguiu ler os seus "sinais", muito provavelmente eu também, entretanto de uma coisa pode-se ter certeza pela vivência empírica, a transformação assim como a evolução nunca é gratuita! Algo tem de morrer pra que outra coisa possa viver, o objetivo meta-existencial mesmo só pode ser alcançado em plenitude quando se leva à mesa do sacrifício os mitos criados imolando-os em honra a um algo além. Apesar do tom místico da última declaração isso tem muito mais de cotidiano e pragmático do que de transcedental, a revelação se dá no exercício diário, o homem deve renegar as verdades alheias para encontrar as suas próprias. Nietzche como contestador do senso comum é sem sombra de dúvidas perseguido, pois ha entre muitos dos assim ditos ou auto-denominados intelectuais o pressuposto de que compreendem tudo e de que aquilo que por acaso não compreendam deve ser mesmo coisa muito ruim; vive-se em uma época ainda demasiado primitiva, o ser humano enquanto representação prefere dar as costas às mudanças que lhe batem a porta.  Talvez no futuro  eles transformem Friedrich Nietzche, como fizeram com todos outros (Jesus, Luther King, Chê Guevara...) que pareciam ofensivos em seu tempo, em um martir ou  um visionário mas até la ja teram logrado êxito em transformar sua doutrina em engodo avesso a ele próprio, como  ha de se esperar nesses tempos, a dissimulada visão poderá ser recebida por alguns como profética, ja consigo até imaginar, "Igreja Nietzche Cristo É O Senhor Do Reino De Deus". Quando isso acontecer muitos se beneficiarão do fenômeno, sobretudo os seus inimigos que compulsivamente hão de comer da sua carne e beber de seu sangue, talvez até o representem como sacerdotes e escondam atrás da batina ou do terno todo o ressentimento acumulado contra a humanidade, mas isso é outro papo...