quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Enquanto isso em Porto Firme...


...um flagra de eleitores conscientes.

Mitos Obscuros: Morte (Palavra Poibida)


No pensamento o homem vivencia
a presença da morte sem morrer.
Paradoxo que o diferencia
da besta, que morre sem saber.
(IAC,fev.2002)

Sumário

1. Não ao ceticismo e ao dogmatismo
2. A revolução copernicana que não aconteceu
3. Contra a infantilização
4. A criança e a pornografia da morte
5. Eros e Tanatos

1. Não ao ceticismo e ao dogmatismo

Pensar em certos assuntos que, de antemão, não se pode conhecer é uma atividade vã: esse é o velho e desgastado argumento-chave dos céticos e
dogmáticos contra aquele que se propõe a tratar do tema da morte. O ceticismo afirma ser vão falar da morte porque ela é um conceito sobre algo
que não se tem experiência ou não se conhece; o dogmatismo dirá que é vão falar daquilo que já é sabido por força da revelação. Não devemos
lhe dar ouvidos porque são vozes da insensatez. Falemos da morte, sim, mas antes afastemos o cético perguntando-lhe como chegou ele à
conclusão de que não se pode falar da morte, quais são as suas fontes, que caminhos trilhou, que conhecimento especial tem para atribuir o
adjetivo inexplicável a um objeto e ele não saberá responder e se tentar deixará de ser cético. Quanto aos dogmáticos saibamos simplesmente
evitá-los, não pelo medo do debate, mas pela economia de tempo e senso do ridículo. Marionetes não pensam e, se quisermos saber das origens
de seu conhecimento, basta atentar para os fios em que estão penduradas.
Ademais nosso objeto não é a morte como mero conceito abstrato, tampouco a descrição dos processos do morrer— isso um médico-legista ou
até mesmo um certo filme denominado Faces da morte faria melhor. A morte, entendemos, deve ser analisada sob a ótica de significante
humana, em outras palavras, qual o sentido dela para nós. Interessa-nos uma abordagem antropológica da morte à luz da filosofia, as
manifestações humanas diante dessa possibilidade sempre presente e a postura atual do Ocidente em relação ao tema.

2. A revolução copernicana que não aconteceu

Falar da morte abre verdadeiramente uma possibilidade de acesso à consciência do homem, ao conhecimento do si-mesmo, o que implica
necessariamente numa maior consciência do outro. O escritor Edgar Morin, autor do livro O homem e a morte, lembra que a ciência que pesou o
sol, calculou sua idade e enunciou seu fim "continuou como que intimidada e trêmula diante do outro sol, a morte." E adverte que
se quisermos sair da lengalenga da morte, do ardente suspiro que espera a doce revelação religiosa, do manual de serena sabedoria, do
ensaio patético, da meditação metafísica em que se exultam os benefícios transcendentes da morte, a menos que se lamentem seus
malefícios não menos transcendentes, se quisermos sair do mito, da falsa evidência, assim como do falso mistério, é preciso copernicizar
a morte.[1]
O conceito de copercinização da morte implicaria numa revolução semelhante à que consistiu numa nova consciência da nossa posição humana
no universo. De certa forma ainda acreditamos que somos o centro imóvel do cosmos e por isso o tema da morte tem sido abordado sobre os
mesmos prismas há séculos. Isso se dá simplesmente porque não percebemos que é a nossa posição em relação ao problema da morte que faz a
morte aparecer como tem sido até então.

3. Contra a infantilização

No livro Micropolítica, organizado por Suely Rolnik, Félix Guattari é citado como autor de uma fala sobre as três principais características das
sociedades capitalísticas: culpabilização, serialização e infantilização. Esta última seria a mais importante de todas e é assim por ele referida:
Pensam por nós, organizam por nós a produção e a vida social. Além disso, consideram que tudo o que tem a ver com coisas
extraordinárias - por exemplo, o fato de falar e viver, o fato de ter que envelhecer, de ter que morrer - não deve perturbar nossa harmonia
no local de trabalho e nos postos de controle social que ocupamos, a começar pelo controle social que exercemos sobre nós mesmos. A
infantilização - por exemplo, das mulheres, dos loucos, de certos setores sociais, ou de qualquer comportamento dissidente - consiste em
que tudo que se faz, se pensa ou se possa vir a fazer ou pensar seja mediado pelo Estado. Qualquer tipo de troca econômica, qualquer
tipo de produção cultural ou social tende a passar pela mediação do Estado. Essa relação de dependência do Estado é um dos elementos
essenciais da subjetividade capitalística.[2]
Segundo Guattari, crianças não são infantis, tornam-se infantis quando se evita sistematicamente lidar com elas franca e responsavelmente em
torno de temas como o da morte ou do sexo. Falar da morte é reagir ao processo contemporâneo da infantilização, cujo mal reside em tornar as
pessoas incapazes de lidar com as situações-limites de sua própria vida. No artigo Doença e diferença, de autoria do sociólogo R. Miskolci, há
uma observação exemplar desse fenômeno:
Quando um risco grave ameaça um membro da família, esta conspira para o privar da informação e da liberdade. O doente torna-se uma
espécie de criança ou débil mental que o esposo ou os pais tomam a seu cargo. Todos sabem melhor do que ele o que ele deve saber e
fazer, por isso ele é privado do seu direito, outrora essencial, de conhecer sua morte, de a preparar e organizar segundo seus desejos.[3]
Gorer toca num fenômeno histórico específico de inversão do objeto pornográfico, mas deixa-nos com um comichão intelectual que só passa
quando fazemos duas observações: haveria uma oposição entre Eros e Tanatos, ou seja, será que a psiquê humana é incapaz de lidar com o sexo e
a morte do mesmo jeito ao mesmo tempo? Tem o homem uma necessidade de conviver com o pornográfico de tal modo que, quando as coisas do
sexo deixam de ser pornográficas as coisas da morte assumem essa função?
Sem responder a essas perguntas, Philippe Ariès, em seu livro O homem diante da morte (1990), também percebeu e descreveu o moderno
fenômeno da pornografização das coisas da morte:
Desde o início do século XX, havia o dispositivo psicológico (grifo nosso) que retirava a morte da sociedade, roubava-lhe o caráter de
cerimônia pública, fazendo dela um ato privado, reservado principalmente aos próximos, de onde, com a continuidade, a própria família
foi afastada quando a hospitalização dos doentes em estado grave se tornou regra geral. [...] O segundo grande acontecimento na história
contemporânea da morte é a rejeição e a supressão do luto.[4]
No Brasil, um fenômeno parece convergir para as observações de Gores e Ariès. Na cidade do Salvador-BA, ano 2000, espaço de uma produção
musical e dançante que induz a crer na não-pornografia das coisas do sexo, a Câmara Legislativa Municipal aprovou uma lei que proíbe a
exposição de urnas mortuárias e adereços de velório na frente das lojas funerárias. O pudor em relação às coisas da morte está obviamente
presente nesse artigo da referida lei:
É obrigatório, nas lojas funerárias, o uso de portas de vidro na cor fumê ou em qualquer outra, exceto transparente, desde que diminua a
visibilidade, pelo lado de fora, dos objetos expostos em seu interior, devendo permanecer sempre fechadas (...).[5]
Enquanto isso, nos Estados Unidos
...existem cursos de nível universitário para embelezar os mortos, transformando-os em múmias modernas, maquiados como atores.
Profissionais especializados não só preparam o cadáver, pintando-o e aplicando-lhe às vezes um sorriso impróprio na face, como criam o
cenário para o funeral, combinando cores, móveis, música, comida, dando a ilusão de que o morto é apenas mais um convidado. Ou o
anfitrião.[6]

4. A criança e a pornografia da morte

O texto a seguir deveria estar no corpo do item anterior, mas preferimos destacá-lo com um título próprio por conta de sua importância enquanto
caráter de denúncia.
Pais equivocados acreditam que não devem tocar no assunto da morte com a criança. Denegam esse inevitável acontecimento. Esforçam-se em
proporcionar aos filhos pequenos somente imagens e assuntos que julgam agradáveis e otimistas. Essa visão unilateral e omissa da realidade é, no
mínimo, castradora.
O filósofo Peter Sloterdijk, observando a recusa paradigmática da dor e a falta de estímulo a pensar no sofrimento nos EUA, sentenciou que esta
sociedade produzirá indivíduos "frouxos". Ele denuncia o mal que psicólogos - em sua maioria formados sob a ideologia dos anos 70 - provocam
ao desestimular a criança a ir a velório sob o argumento de que "essa visita iria traumatizá-la". Sloterdijk contrargumenta: será que todas as
gerações anteriores que passaram por essa experiência ficaram traumatizadas? Haveria muita diferença em ir a um velório e assistir diariamente
a cenas violentíssimas de banalização da vida na televisão?
O psicólogo Raymundo de Lima apresenta o seguinte depoimento:
Faz um ano que os meus filhos pequenos, após uma emocionada conversa e choros sobre a recente morte da avó, conversamos sobre eles
irem ou não ao velório. Antes, preparei-os descrevendo o ambiente de pesar em que estava o corpo da vovó: caixão, flores, gente
chorando, etc. Preferiram ir. E lá fizeram suas despedidas, não se traumatizaram, nem caíram em depressão. Hoje, demonstram estarem
mais conscientes e realistas de que a avó não mais está entre nós. A partir desta singular experiência, demonstram que estão
cotidianamente elaborando a idéia de morte e suas metáforas, já que novas perdas e separações serão inevitáveis.[7]
O psicanalista B. Bettelheim aconselha colocar a criança desde cedo em contato com estórias de fadas que tratam do problema da morte, pois
isto prepararia melhor sua personalidade para enfrentar a realidade inevitável.
Outro psicanalista, Philipe Julien, lembra da necessidade do luto, que teria a função de "partir o pão da palavra que diz a dor da perda". Pessoas
autênticas, psiquicamente mais adequadas não podem propôr-se a esquecer e sim partir em busca de alguma substituição para continuarem bem
existindo.

5. Eros e Tanatos

Retomando à problemática anterior, estamos em condições de fazer uma consideração crítica final. Eros e Tanatos são deuses da mitologia grega.
O primeiro representa o amor erótico, a atração, a comunhão, a instabilidade, a junção, a criação, a tendência ao animado e, conseqüentemente, à
vida, pois quando há união algo além das partes que se uniram é criado. O segundo é a representação do oposto de Eros: a retração, a
descomunhão, a estabilidade, a separação, a destruição, a tendência ao inanimado e, conseqüentemente, à morte, pois quando as partes se
desunem algo morre, desaparece. As ciências psi têm insistido em defender a idéia de que Eros e Tanatos habitam dentro de nós ou, numa
linguagem técnica, seriam estruturas da nossa psiquê. Freud, por exemplo, chegou a dizer que Tanatos era a manifestação violenta da libido -
esta seria a energia que faz a pulsão erótica[8] funcionar, mas, percebendo que a destruição era uma aspecto tão marcante da personalidade,
acabou por concluir que Tanatos podia ser também entendido como outra pulsão originária. A união erótica forma a estrutura embrionária de um
novo ser, mas o nascimento do homem ao mundo é um rompimento, uma separação. A vida não seria possível sem Eros e Tanatos. As estruturas
inanimadas e estáveis são o começo e o fim dos processos animados e instáveis. A criação não seria possível sem a destruição. Em outras
palavras: ignorar a realidade da morte é, ao mesmo tempo, ignorar a vida.


Notas
[1] Edgar Morin. O Homem e a Morte. p. 19.
[2] Félix Guattari. In.: Micropolítica. p. 41-2.
[3] Richard Miskolci, http://www.richardmiskolci.slg.br/rdd.html.
[4] Philippe Ariès. O Homem diante da Morte. p. 628.
[5] Art. 2º da Lei n. 5.733/200, publicada no Diário Oficial do Município, em 15 de maio de 2000, p. 2.
[6] Júlio J. Chiavenato. A morte, uma abordagem sociocultural. p. 44-5
[7] Raymundo de Lima. Falar de morte com as crianças. Disponível em . Acesso em 15
ago.2001.
[8] De forma grosseira, poderíamos dizer que pulsão é o impulso básico da psique humana, devendo ser entendida de forma um tanto mais
complexa que a noção biológica de instituto.

Israel de Alexandria

Esse é o primeiro post da série em que pretendemos tratar das negações que o homem faz ao óbvio, transformando acontecimentos naturais em mitos quase insondáveis. A posteriori virão comentários de nossa lavra, todavia, deixamos por momento o pequeno texto de Israel de Alexandria que apresenta um enfoque acadêmico-filosófico para o evento morte, lançando algumas bases de nossa opinião (ainda que discordemos em muitos pontos). Nos próximos posts, voltaremos com um aprofundamento desse assunto para início de discussão. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Bocas Ordinárias : As verdades que incomodam, Jihad


Linguisticamente, a palavra árabe "jihad" significa "esforço" ou "empenho" e se aplica a todo
esforço ou empenho despendido na execução de qualquer ação. Neste sentido, um estudante
se esforça, ou se empenha, para ter o seu diploma, um empregado se esforça, ou se empenha,
em seu trabalho e mantém boas relações com o seu empregador, um político se esforça, ou se
empenha, para manter ou aumentar sua popularidade entre seus eleitores, e assim por diante.
No ocidente, "jihad" geralmente é traduzido como "guerra santa", um uso popularizado pela
mídia. De acordo com os ensinamentos islâmicos verdadeiros, não se deve estimular ou começar uma guerra. Contudo, algumas guerras são inevitáveis ou se justificam, quem é passivo ao ver sua casa e sua nação sendo invadida? Se buscarmos no árabe o termo "guerra santa" encontraremos "harbun muqaddasatu" ou "al-harbu al-muqaddasatu".
Não ha no Alcorão, ou nas coleções de Hadith, ou em qualquer outra literatura islâmica, o termo "jihad" com o significado de "guerra santa".
Infelizmente, alguns escritores muçulmanos e tradutores do Alcorão, do Hadith e da literatura
islâmica em geral, traduzem o termo "jihad" como "guerra santa", por certo devido à influência de séculos de propaganda ocidental. Muito provável isto se deva ao fato de o termo "Guerra Santa" ter sido usado primeiramente pelos cristãos para se referirem às Cruzadas. No entanto, as palavras árabes para o termo "guerra" são "harb" ou "qital", que são encontradas no Alcorão e no
Hadith. 
No Corão ha versos do tipo:
"Aqueles que creram, migraram e combateram pela causa de Deus poderão esperar de Deus a misericórdia, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo." (Cap. 2:218)

Mas percebam, o leque de entendimento das expresões migrar e combater é muito amplo, isso pode ter por exemplo em migrar, o sentido de uma caminhada apostólica para a divulgação da fé, e combater é muito bem entendido pelos verdadeiros estudiosos como o combate interno do homem, a luta subjetiva para ignorar "as ilusões do mundo" e se manter no caminho reto. Assim pode-se dizer, analizando pelo enfoque literal que o modelo de Deus cristão apresentado na bíblia é ainda bem mais sedento por sangue. Note-se por exemplo:

"O SENHOR é homem de guerra; o SENHOR é o seu nome". (Êxodo 15:3)  

Segundo o êxodo isso foi cantado por moisés e seus companheiros do "povo de Deus" após o triunfo sobre os "infiéis" egípcios. É tudo a mesma coisa, também nesse sentido:

"Mil de cada tribo, entre todas as tribos de Israel, enviareis à guerra". (Números 31:4)

 Esse versículo é tirado de mais uma narrativa sobre as contínuas tramoias entre Moisés e seu Deus para eliminar os inimigos, dessa vez os midianitas. A verdade é que o senso comum, talvez influenciado pelo egoísmo intríseco ao ser humano médio, leva-o a uma concepção tribal de divindade, dessa forma não se visa o bem da coletividade humana, mas sim o de uma comunidade em particular. A questão não é determinada pela orientação religiosa externa, mas sim pelo filtro subjetivo interno de cada um. Dessa forma sempre existirão bons e maus muçulmanos, assim como cristãos, espiritualistas, budistas, hinduítas, ateus e assim por diante. Decididamente a ação do homem é regulada pelo próprio homem.

Ps: Nos próximos posts pretendemos nos aprofundar nas questões acima, por enquanto fica esse texto para início de debate.






segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ensaios de Friedrich Nietzsche 2ª Parte



Moral como Antinatureza (Parte 2)

IV

– Reduzo um princípio a uma fórmula. Todo naturalismo na moral – isto é, toda moral saudável – é
dominado por um instinto vital; qualquer mandamento de vida é preenchido por um determinado cânone
de “deves” e “não deves”; remove-se assim um elemento hostil e inibitório no caminho da vida. A moral
antinatural – ou seja, quase toda moral que até agora foi ensinada, venerada e pregada – volta-se, de
modo oposto, contra os instintos vitais: é uma condenação desses instintos, ora secreta, ora explícita e
impudente. Quando ela diz “Deus observa os corações”, diz Não tanto aos desejos mais baixos quanto aos
mais altos da vida, colocando Deus na posição de inimigo da vida. O santo com o qual Deus se encanta é
um castrado ideal. A vida termina onde o “Reino de Deus” começa...

V

Compreendendo o sacrilégio que tal revolta contra a vida representa, tal como se tornou quase
sacrossanta na moral cristã, também se compreende, felizmente, outra coisa: o caráter fútil, aparente,
absurdo e mendaz de tal revolta. Uma condenação da vida pelo próprio vivente no fim continua sendo
apenas um sintoma de um tipo específico de vida: com isso a questão de ela ser justificada ou não nem
chega ser levantado. Seria necessário posicionar-se fora da vida, e ainda conhecê-la tão bem quanto um,
quanto muitos, quando todos que a viveram, para que seja permitido mesmo tocar o problema do valor
da vida: razões suficientes para compreendermos que esse problema é inacessível a nós. Quando falamos
de valores, falamos com a inspiração, com a perspectiva das coisas que são parte da vida: a própria vida
nos força a estabelecer valores; a vida mesma valora através de nós quando estabelecemos valores.
Segue-se disso que mesmo aquela moral antinatural que concebe Deus como contra-conceito e
condenação da vida é apenas um juízo de valor da vida – mas de que vida? De que tipo de vida? Já dei a
resposta: da vida decadente, enfraquecida, cansada, condenada. A moral, tal como até aqui foi entendida
– como por fim foi formulada uma vez mais por Schopenhauer, como “negação da vontade de vida” –, é o
próprio instinto da decadência que se fez um imperativo. Ela diz: “Pereça!”; é uma condenação
pronunciada pelo condenado.

VI

Finalmente, consideremos quão ingênuo é dizer: “O homem deveria ser de tal ou de tal modo!” A
realidade nos mostra uma encantadora riqueza de tipos, uma abundante profusão de jogos e mudanças
de forma – e um miserável serviçal de um moralista comenta: “Não! O homem deveria ser diferente.”
Esse beato pedante até sabe como o homem deveria ser: ele pinta seu retrato na parede e diz: “Ecce
homo!(1)”Mas mesmo quando o moralista dirige-se a apenas um indivíduo e diz “você deveria ser de tal e
de tal modo!”, ainda não deixa de ser ridículo. O ser humano, visto pela frente ou por trás, é um pedaço
de destino, uma lei a mais, uma necessidade a mais para tudo que há de vir e será. Dizer-lhe “muda-te” é
exigir que tudo seja mudado, mesmo retroativamente. E realmente houve moralistas conseqüentes que
desejavam tornar o homem diferente, isto é, virtuoso – desejavam-no reformado à sua própria imagem,
como pedante: e, para tal fim, negavam o mundo! Nenhuma pequena loucura! Nenhum modesto tipo de
imodéstia!
A moral, à medida que condena por sua própria causa, e não a partir dos interesses, considerações e
pontos de vista da vida, é um erro específico pelo qual não se deve ter compaixão – uma idiossincrasia de
degenerados que causou danos imensuráveis.
Nós outros, nós imoralistas, pelo contrário, fizemos de nosso coração uma morada para todo tipo de
entendimento, compreensão e aprovação. Não negamos facilmente; encontramos honra no fato de
sermos afirmativos. Cada vez mais, nossos olhos se abrem a uma economia que necessita e sabe utilizar
tudo que a sagrada insensatez do padre, a doentia razão do padre, rejeita – aquela economia na lei da
vida que encontra alguma vantagem mesmo nas espécies mais repulsivas de pedantes, padres e
virtuosos. Que vantagem? Mas nós mesmos, nós imoralistas, somos a resposta.
[1] “Eis o homem”

Como prometido aí vai a segunda parte de uma crônica acerca da moral redigida pela "dinamite humana". Decerto a maior parcela de quem estudou esse filósofo jamais conseguiu ler os seus "sinais", muito provavelmente eu também, entretanto de uma coisa pode-se ter certeza pela vivência empírica, a transformação assim como a evolução nunca é gratuita! Algo tem de morrer pra que outra coisa possa viver, o objetivo meta-existencial mesmo só pode ser alcançado em plenitude quando se leva à mesa do sacrifício os mitos criados imolando-os em honra a um algo além. Apesar do tom místico da última declaração isso tem muito mais de cotidiano e pragmático do que de transcedental, a revelação se dá no exercício diário, o homem deve renegar as verdades alheias para encontrar as suas próprias. Nietzche como contestador do senso comum é sem sombra de dúvidas perseguido, pois ha entre muitos dos assim ditos ou auto-denominados intelectuais o pressuposto de que compreendem tudo e de que aquilo que por acaso não compreendam deve ser mesmo coisa muito ruim; vive-se em uma época ainda demasiado primitiva, o ser humano enquanto representação prefere dar as costas às mudanças que lhe batem a porta.  Talvez no futuro  eles transformem Friedrich Nietzche, como fizeram com todos outros (Jesus, Luther King, Chê Guevara...) que pareciam ofensivos em seu tempo, em um martir ou  um visionário mas até la ja teram logrado êxito em transformar sua doutrina em engodo avesso a ele próprio, como  ha de se esperar nesses tempos, a dissimulada visão poderá ser recebida por alguns como profética, ja consigo até imaginar, "Igreja Nietzche Cristo É O Senhor Do Reino De Deus". Quando isso acontecer muitos se beneficiarão do fenômeno, sobretudo os seus inimigos que compulsivamente hão de comer da sua carne e beber de seu sangue, talvez até o representem como sacerdotes e escondam atrás da batina ou do terno todo o ressentimento acumulado contra a humanidade, mas isso é outro papo...
   

sábado, 30 de agosto de 2008

Em Resposta ao Último e-mail Recebido

Certa vez Câmara Cascudo assim escreveu sobre o seu ofício, fazendo um paralelo entre o incessante (e muitas vezes criticado) labor do homem de letras e o trabalho infindável e inútil das Danaides, com maestria ele supõe a profissão de fé que é a escrita. Espero que isso lhe baste, ácido amigo...



As Danaides eram cinqüenta filhas de Danao, rei de Argos. Seu irmão, Egito, tinha cinqüenta filhos. Mandou a filharada masculina casar com as primas. Danao não queria o casamento. Combinou com as filhas um plano.

Os cinqüenta recém-casados tiveram a mais estranha noite de núpcias de que há notícias no mundo.

Foram todos assassinados pelas esposas. Só escapou um, Linceu, poupado por sua mulher, Hipernestra.

Júpiter condenou as Danaides às penas do Tártaro, que era o inferno daquele tempo.

As Danaides enchiam um tonel sem fundo. Séculos e séculos, sem pausa, sem descanso, sem interrupção, as moças carregaram água, despejando-a no barril furado.

Teodoro de Banville contou o fim dessas Danaides, na Lanterna Mágica.

Os Titãs venceram os Deuses. O Tártaro ficou sem chefe, despovoado de sofredores, todos perdoados.

Astério anuncia a terminação da sentença:
- Acabou vosso suplício. Largai essa penitência. O tonel está cheio.
As Danaides pararam, pela primeira vez, há milênios. Enxugaram a fronte, descendo as bilhas infatigáveis. E dizem confusas e desapontadas:
- Está cheio o tonel? Pois bem! Que havemos de fazer?
Já estavam habituadas com o trabalho contínuo, mesmo inútil.

Não perguntem, pois, amigos, por que escrevo sempre, com ou sem leitores, com ou sem compreensão, estímulo ou tolerância.

Deixem-me com o meu barril sem fundo. A tarefa finda significaria o repouso incômodo, a displicência, a preguiça mortal.

Por isso, mesmo sem ter ofendido Apolo, encho, obstinado e tranqüilo, a talha imperfeita, escondido num recanto de província.

Quando não mais ouvirem o rumor da água agitada, não se dirá que Júpiter sucumbiu.

Será que, para sempre, desfaleceu na Morte, o braço humilde do trabalhador...

Luís da Câmara Cascudo
A República, 25 de setembro de 1943

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Poema Seguido de Conjeturas



RITORNO

Da questa lontananza
io parlo.

Parlo cieli parlo uomini
che cacciano l'inizio.

Non ritornerò
da questa colma distanza.

Ho la consistenza del silenzio
primigenio.
Quindi aspetto la fioritura degli arrivi.

Sono partita per sempre,
assieme alle storie
dimentiche di tutti gli inverni.

RETORNO

Dessas distâncias
eu falo.

Digo céus digo homens
que caçam a origem.

Não voltarei
dessa plena distância.

Tenho a consistência do silêncio
primeiro.
Pois espero a floração das chegadas.

Parti para sempre,
com as histórias
órfãs de todos os invernos.

(Prisca Agustoni)

Um pequeno porém muito simbólico texto de Prisca Agustoni, uma jovem escritora suíço-italiana de obra multilíngüe. Pra mim particularmente, esse poema tem o cheiro de um lugar do passado que tão perfeito era, soa hoje como imaterial, como uma dessas fábulas que se cria pra existência ter uma justificação menos miserável do que a cotidiana; mas os tributos cobrados pela vida são irremediáveis, e como sempre, o caminho do encontro é a despedida. O que é em verdade o estado passional senão o afã de momentaneamente reaver os dons que são
por nós descartados com essas vidas de mentira... Eu não sei...
... o importante é que no final, o outro deve mesmo ser apenas uma meta, uma projeção que nasce de uma carência aguda de si mesmo. Ele não existe em verdade.
Se partiu, é porque nunca pertenceu a esse lugar.
Mas o ser humano é deveras um animal viciado pela auto-piedade e sempre busca reciclar o seu lixo por um preço muito maior do que realmente vale.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Ensaios de Friedrich Nietzsche 1ª Parte

Moral como Antinatureza (Parte 1)

I
Todas paixões têm uma fase em que são meramente desastrosas, em que aviltam sua vítima com o peso
da estupidez – e uma fase posterior, muito posterior, em que se casam com o espírito, se
“espiritualizam”. Antigamente, em vista da estupidez na paixão, declarava-se guerra à própria paixão,
conspirava-se pela sua destruição; todos os velhos monstros da moral concordavam quanto a isto: il faut
tuer les passions [1]. A fórmula mais famosa para isso encontra-se no Novo Testamento, naquele Sermão
da Montanha, onde, diga-se de passagem, as coisas não foram de modo algum olhadas do alto. Nele é
dito, por exemplo, particularmente em relação à sexualidade: “Se teu olho te escandaliza, arranca-o
fora”. Felizmente nenhum cristão age de acordo com esse preceito. Destruir as paixões e os desejos,
simplesmente como uma medida preventiva contra a estupidez e as conseqüências desagradáveis dessa
estupidez – hoje isso se apresenta a nós apenas como outra forma aguda de estupidez. Não admiramos
mais os dentistas que arrancam dentes para que não doam mais. Para ser justo, deve-se admitir,
entretanto, que sobre o solo no qual o cristianismo se desenvolveu, o conceito de “espiritualização da
paixão” nunca poderia formar-se. Afinal, a Igreja primitiva, como todos sabem, lutou contra os
“inteligentes” em favor dos “pobres de espírito”. Como se poderia esperar dela uma guerra inteligente
contra a paixão? A Igreja combate a paixão através do aniquilamento em todos os sentidos: sua prática,
sua “cura” é a castração. Ela nunca pergunta: “como se pode espiritualizar, embelezar, divinizar um
desejo?” Em todos os tempos colocou a ênfase da disciplina na extirpação (da sensualidade, do orgulho,
do desejo de dominar, da avareza, da vingança). Mas um ataque às raízes da paixão significa um ataque
às raízes da vida: a prática da Igreja é hostil à vida.
[1] É necessário matar as paixões.

II
Os mesmos meios na luta contra um desejo – castração, extirpação – são instintivamente escolhidos por
aqueles que possuem uma vontade fraca demais, degenerada demais, para poderem impor a moderação
a si mesmos; por aqueles que necessitam de La Trappe, para falar figuradamente, ou (sem figuras de
linguagem) alguma espécie de declaração definitiva de hostilidade, um abismo entre eles e a paixão.
Meios radicais são indispensáveis apenas para os degenerados; a fraqueza da vontade – ou, falando de
modo mais preciso, a incapacidade de não responder a um estímulo – é em si apenas outra forma de
degeneração. A hostilidade radical, a hostilidade mortal contra a sensualidade é sempre um sintoma
merecedor de reflexão: ela nos permite fazer suposições concernentes ao estado geral de quem é
excessivo desta maneira.
Essa hostilidade, esse ódio, a propósito, alcança seu clímax apenas quando esses tipos carecem mesmo
da firmeza suficiente para a cura radical, para a renúncia a seu “Diabo”. Deveria-se examinar toda a
história dos sacerdotes e dos filósofos, incluindo a dos artistas: as coisas mais venenosas aos sentidos
foram ditas não pelos impotentes, nem pelos ascetas, mas pelos ascetas impossíveis, por aqueles que
realmente tinham uma necessidade enorme de ser ascetas.

III
A espiritualização da sensualidade é chamada amor: representa um grande triunfo sobre o cristianismo.
Outro triunfo é a nossa espiritualização da hostilidade. Ela consiste num profundo reconhecimento do
valor de se ter inimigos: em suma, significa agir e pensar de modo oposto ao que outrora era a regra. A
Igreja sempre desejou a destruição de seus inimigos; nós, imoralistas e anticristãos, encontramos nossa
vantagem nisto: que a Igreja existe. No âmbito da política a hostilidade também se tornou mais
espiritualizada – muito mais sensível, muito mais pensativa, muito mais ponderada. Quase todo partido
compreende que é de interesse à sua própria autopreservação que seus opositores não percam toda a
força; o mesmo vale para políticos poderosos. Uma nova criação em particular – um novo Reich, por
exemplo – necessita mais de inimigos que de amigos: somente na oposição ele sente-se necessário,
somente na oposição ele torna-se necessário. Nossa atitude perante o “inimigo interior” não é de modo
algum diferente: aqui também espiritualizamos a hostilidade; também aqui reconhecemos seu valor. O
preço da fecundidade é ser rico em oposições internas; permanece-se jovem enquanto a alma não relaxa
e anseia pela paz. Nada nos parece mais estranho que aquele desejo dos tempos antigos, o desejo
cristão: a “paz da alma”; nada nos causa menos inveja que a vaca moral e a felicidade gorda da boa
consciência. Renuncia-se à vida grandiosa quando se renuncia à guerra.
Em muitos casos, certamente, a “paz da alma” é apenas um mal-entendido – algo diverso, para o qual
falta um nome mais honesto. Sem mais rodeios ou preconceitos, vejamos alguns exemplos. A “paz da
alma” pode ser, para alguém, a suave irradiação de uma rica animalidade no interior da esfera moral (ou
religiosa). Ou o começo do cansaço, a primeira sombra da noite, qualquer espécie de noite. Ou o sinal de
que o ar está úmido, de que os ventos do sul se aproximam. Ou uma inconsciente gratidão por uma boa
digestão (por vezes chamada “amor aos homens”). Ou a obtenção da calma por um convalescente que
sente um novo sabor em todas as coisas, e aguarda. Ou o estado que se segue de uma completa
satisfação de nossa paixão dominante, o bem-estar de uma rara repleção. Ou a fraqueza senil de nossa
vontade, de nossos desejos, de nossos vícios. Ou a preguiça, persuadida pela vaidade a exibir uma
aparência moral. Ou o aparecimento da certeza, mesmo da certeza terrível, após uma longa tensão e
sofrimento causados pela incerteza. Ou a expressão da maturidade e maestria em meio ao agir, criar,
trabalhar e desejar – respirar tranqüilo, a “liberdade da vontade” alcançada. Crepúsculo dos Ídolos –
quem sabe? Talvez também apenas um tipo de “paz da alma”.

Bom Pessoal, acho que o cara que fez esse texto despreza apresentações, é o meu filósofo preferido, as suas lições sobre a necessidade de libertação do senso comum na busca pelo estado de Übermensch (super homem), sempre me afiguraram como um farol na noite escura... E hoje nesses tempos de descrença em que nos entregamos a verdades pré-fabricads, aparece novamente Nietzche, como uma sentinela velando pela libertação de cada um. A transcendência desse estado de torpor contínuo em que vivemos (sociedade) parece uma jornada dura, parece uma busca solitário, mas é a vida, se cada um não toma posse integral da sua termina como escravo retido sob os piores grilhões, que são aqueles que não se pode ver, e você se deita na confortável cama ou dirige seu novo carro, projeta uma imagem de sucesso para os que passam, mas naquela escura fenda por entre as rochas onde ninguém ousa descer existe uma insatisfação latente, que vem e sufoca com um toque silencioso, sem se explicar. E você se vê finalmente preso, sitiado pela artificialidade de suas próprias construções, a solução, faça como Nietzche deixe de ser apenas homem, seja dinamite¹ pura e exploda toda a hipocrisia que tão cuidadosamente você e as pessoas a seu redor tem alimentado. Nas próximas postagens virá a segunda parte do ensaio acima assim como novos textos, a todos boa leitura.

1 - "Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo - de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciência, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, querido. Eu não sou um homem, sou dinamite." (Nietzsche - Ecce Homo)

Neruda deixa a gente nostálgico como o diabo ...

Farewell

Desde el fondo de ti, y arrodillado,
un niño triste como yo, nos mira.

Por esa vida que arderá en sus venas
tendrían que amarrarse nuestras vidas.

Por esas manos, hijas de tus manos,
tendrían que matar las manos mías.

Por sus ojos abiertos en la tierra
veré en los tuyos lágrimas un día.

Yo no lo quiero, Amada.

Para que nada nos amarre
que no nos una nada.

Ni la palabra que aromó tu boca,
ni lo que no dijeron tus palabras.

Ni la fiesta de amor que no tuvimos,
ni tus sollozos junto a la ventana.

Amo el amor de los marineros
que besan y se van.

Dejan una promesa.
No vuelven nunca más.

En cada puerto una mujer espera:
los marineros besan y se van.

(Una noche se acuestan con la muerte
en el lecho del mar.)

Amo el amor que se reparte
en besos, lecho y pan.

Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.

Amor que quiere libertarse
para volver a amar.

Amor divinizado que se acerca
Amor divinizado que se va.

Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor.

Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.

Fui tuyo, fuiste mía. ¿Qué más? Juntos hicimos
un recodo en la ruta donde el amor pasó.

Fui tuyo, fuiste mía. Tú serás del que te ame,
del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo.

Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste.
Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy.

...Desde tu corazón me dice adiós un niño.
Y yo le digo adiós.

(P. Neruda)

Sobre sonhos e pscanálise

A teoria dos sonhos, assim como a própria técnica da psicanálise, progrediu lentamente, porém, logo que Freud completou a sua concepção, passou a considerá-la como um dos pontos principais da teoria psicanalítica. Não é de admirar que Freud tomasse essa atitude, pois, assim como o conceito de recalque realça a atividade do inconsciente, a teoria dos sonhos indica os caminhos indiretos que este toma para se expressar. Nos sonhos, as forças reprimidas são vistas burlando as resistências por caminhos tortuosos e a todo custo obtendo satisfações proibidas.

De acordo com Freud, o sonho é essencialmente uma satisfação disfarçada dos desejos que foram recalcados durante o estado de vigília. Os sonhos são muito mais significativos e muito mais complexos do que parecem. Cada sonho possui um conteúdo manifesto e outro latente. O conteúdo manifesto é a descrição que se faz ao relembrar o sonho - o sonho em sua aparência; porém, o conteúdo latente possui o seu significado verdadeiro. O conteúdo manifesto pode ser fornecido pelos acontecimentos do estado de vigília de cada um - de fato, e é comumente extraído das experiências das vinte e quatro horas anteriores; mas, apesar de tudo isso, o sonho não é um simples e casual jogo de associações triviais.

O conteúdo manifesto é simples material empregado pelas forças psíquicas reprimidas. Os desejos que foram lançados no inconsciente durante o dia têm oportunidade de se exprimir à noite, quando o sono enfraquece a vigilância do "censor", figura de retórica usada por Freud para denominar as inibições que o ego impõe ao inconsciente. Mas, mesmo quando o ego dorme e a censura é diminuída, os desejos afastados não ousam se expressar abertamente. Se fossem francamente sexuais, a pessoa que dorme acordaria chocada; realmente, quando o significado de um sonho se torna muito evidente, a pessoa desperta. Portanto, os desejos proibidos utilizam disfarces e se esgueiram pelo censor até a consciência, sem serem reconhecidos.

Os disfarces são vários e engenhosos ao extremo. Um deles é o simbolismo. As pessoas, objetos e fatos que aparecem no conteúdo manifesto do sonho realmente significam alguma outra coisa. A festa pública da qual uma paciente participou em seu sonho representava o enterro de seu marido. A fuga aterrorizada de um inimigo comumente representa a busca há muito desejada de um amante. Alguns símbolos extraem o seu significado de experiências pessoais íntimas de quem sonha; outros são comuns a toda a humanidade e têm sempre o mesmo significado. Jardins, sacadas e portas significam o corpo feminino, e as flechas de campanários, velas e serpentes, os órgãos sexuais masculinos.

Entretanto, o simbolismo não realiza sozinho o trabalho do sonho; há outras maneiras de encobrir o verdadeiro significado do sonho. Parece não haver limites para a engenhosidade do inconsciente em seus artifícios para iludir o censor. Um item importante pode ser disfarçado a fim de parecer uma parte trivial do todo e, contudo, ser realmente o principal motivo para o sonho. Ou a emoção importante pode ser associada a um objeto de aparência neutra. E, mesmo depois que o sonho foi completamente disfarçado, o trabalho do mesmo não está completo. Quando quem sonha desperta, não deve saber o quê, de fato, esteve fazendo. Então, se dá uma segunda elaboração. Ao recordar e relatar o seu sonho, a pessoa que sonha inconscientemente coloca-o em forma lógica e coerente, de maneira a possuir alguma semelhança com uma história ou fato real. Porém, no próprio sonho, a lógica e a coerência não estão presentes nem se sente a sua falta, pois sonhar é a expressão de uma forma profunda e primitiva de pensar, na qual maneiras lógicas e críticas do pensamento não foram ainda implantadas. Assim, os sonhos revelam não só a linha tortuosa do inconsciente, mas também o caráter alógico de suas funções.

Ps: Ainda para a menina que me confiou os seus segredos (Sobre a Pergunta que não queria calar) ...

Amor condusse noi ad una morte

Quando o olhar, adivinhando a vida,
prende-se a outro olhar de criatura,
o espaço se converte na moldura,
o tempo incide incerto sem medida,


as mãos que se procuram ficam presas,
os dedos estreitados lembram garras
da ave de rapina, quando agarra
a carne de outras aves indefesas,

a pele encontra a pele e se arrepia,
oprime o peito o peito que estremece,
o rosto o outro rosto desafia,

a carne entrando a carne se consome,
suspira o corpo todo e desfalece
e triste volta a si com sede e fome.

(Paulo Mendes Campos)