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terça-feira, 9 de junho de 2009

Sísifo, quem é?


Os mitos servem para expressar uma faceta da realidade, a alegoria tem um requinte pedagógico único, disso sabiam bem os gregos. Mas recentemente durante sua apresentação em um seminário, Paulo Herkenhoff recorreu à mitologia para demonstrar o quanto exaustiva e incessante é a missão do artista. Disse ele: “O artista é um Sísifo social e histórico que busca permanentemente novos sentidos para os percursos de sua pedra (...)”.
Mas afinal, quem é Sísifo?


Sísifo, filho de Éolo, da raça de Deucalião, era sucessor de Medéia , do reino de Corinto. Conta a mitologia que Zeus, deus do Olimpo, casado com Hera, raptou Egina, filha do deus-rio Asopo. Essa ação foi presenciada por Sísifo, que em troca de uma fonte concedida pelo pai de Egina, revelou-lhe o nome do raptor.

  O castigo não tardou a chegar pela delação. Quando Hades, irmão de Zeus, reclamou ao deus do Olimpo que havia pouca gente morrendo, Zeus, atendendo ao seu pedido e cumprindo uma vingança pessoal contra Sísifo, enviou-lhe Tanatos a Morte).
Sísifo, muito esperto, convenceu sua mulher que deixasse de fazer as honras fúnebres para que fosse inviabilizada a sua permanência nas trevas. Chegando ao reino de Hades, as trevas, foi-lhe cobrado as cerimônias adequadas de morte e Sísifo mentiu, culpando a mulher por tamanho esquecimento. Pediu ao poderoso Hades a possibilidade de voltar para a terra e castigar sua mulher por esse descaso. Impossibilitado de permanecer nas trevas sem ter recebido as devidas honras mortuárias, Hades consentiu e Sísifo voltou para a terra.

Como Sísifo havia mentido para Hades não se preocupou em aplicar o castigo na mulher, traindo , mais uma vez, a confiança de um deus , Hades. Já velho, Tanatos veio buscá-lo para o reino das trevas e desta vez ele não escapou. Por ter traído por duas vezes os deuses, Sísifo recebeu um castigo complementar e foi condenado a empurrar, indefinidamente, uma pesada pedra até o cume da montanha mais alta. Seu castigo era esse: de dia, empurrava a pedra até o cume da montanha, à noite dormia exausto e deixava a pedra rolar. No dia seguinte, voltava novamente à base da montanha e recomeçava o trabalho. E assim ocorria sucessivamente.

*Antonio Carlos Tonca Falseti

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Padrões de gosto (A necessidade de um ponto de convergência)

O mesmo Homero que agradava a Atenas e Roma há dois mil anos é ainda admirado em Paris e Londres. Todas as diferenças de clima, governo, religião e linguagem foram incapazes de obscurecer a sua glória. A autoridade ou o preconceito são capazes de dar uma voga temporária a um mau poeta ou orador, mas a sua reputação jamais poderá ser duradoura ou geral. Quando as suas composições forem examinadas pela posteridade ou por estrangeiros, o encanto será dissipado e os seus defeitos aparecerão como realmente são. Pelo contrário, no caso de um verdadeiro gênio, quanto mais as suas obras durarem mais amplo será o seu sucesso, e mais sincera a admiração que despertam. Dentro de um círculo restrito há demasiado lugar para a inveja e o ciúme, e até a familiaridade com a pessoa pode diminuir o aplauso devido às suas obras. Quando desaparecerem estes obstáculos, as belezas que naturalmente estão destinadas a provocar sentimentos agradáveis manifestam naturalmente a sua energia. E sempre, enquanto o mundo durar, conservarão a sua autoridade sobre os espíritos humanos.

Vemos portanto que, no meio de toda a variedade e capricho do gosto, há certos princípios gerais de aprovação ou de censura, cuja influência um olhar cuidadoso pode verificar em todas as operações do espírito. Há determinadas formas ou qualidades que, devido à estrutura original da constituição interna do espírito, estão destinadas a agradar e outras a desagradar. Se em algum caso particular elas deixam de ter efeito, é devido a qualquer deficiência ou imperfeição do órgão. Um homem cheio de febre não pretende que o seu paladar seja capaz de distinguir os sabores, nem outro com um ataque de icterícia teria a pretensão de pronunciar um veredicto a respeito das cores. para todas as criaturas há um estado de saúde e um estado de enfermidade, e só do primeiro podemos esperar receber um verdadeiro padrão do gosto e do sentimento. Se, no estado saudável do órgão, se verificar uma uniformidade completa ou considerável das opiniões dos homens, podemos daí derivar uma idéia da perfeita beleza. da mesma maneira que a aparência dos objetos à luz do dia, aos olhos das pessoas saudáveis, é chamada a sua cor verdadeira e real mesmo que se reconheça que a cor é simplesmente um fantasma dos sentidos.

Apesar de todos os nossos esforços para determinar um padrão de gosto e reconciliar as opiniões discordantes das pessoas, permanecem ainda duas fontes de variação que, todavia, não são suficientes para confundir as fronteiras da beleza e da deformidade, mas que servem frequentemente para produzir diferenças de grau na nossa aprovação ou censura. Uma são os diferentes estados de espírito dos homens particulares; a outra são os costumes e opiniões particulares da nossa época e país. Os princípios gerais de gosto são uniformes na natureza humana: onde os juízos dos homens variam, algum defeito ou perversão nas faculdades pode geralmente ser observado. Estes resultam do preconceito ou da falta de prática ou da falta de delicadeza - e há aí razões justas para aprovar um gosto e condenar outro. Mas, onde a há diversidade na concepção interna ou da posição externa que de nenhum modo é censurável em qualquer dos lados da disputa e que não deixa lugar a que se prefira um em detrimento do outro, nesse caso um certo grau de diversidade nos juízos é inevitável e será útil procurar um padrão pelo qual podemos reconciliar opiniões contrárias.
*David Hume, Do Padrão do Gosto (1757)

sábado, 25 de abril de 2009

A Vida

La Vie,
Pablo Picasso

Museu de Arte de Cleveland, Estados Unidos.

Link Externo:

www.clemusart.com/explore/artistwork.asp?searchtext=picasso&tab=1&recNo=0&woRecNo=3

domingo, 19 de abril de 2009

Aos soturnos de Portugal: Exposição da Cristina

A arte está morta! Nisso Hegel concordaria comigo, pelo menos em se tratando do sentido lato da palavra arte. Quero dizer com isso que a acepção do ideal de produção artística só é possível se reinventada, o valor dos cânones estéticos da grande arte se perderam entre a antiguidade clássica e o renascimento, dessa forma qualquer alusão a um resgate das propostas de Michelangelo, Leonardo ou Policleto soaria inútil ou sem razão de ser. A idéia de contemplação por si só já não cabe em um mundo tão massificado como o nosso hoje, atualmente o dever sagrado do artista para consigo mesmo é dar testemunho da tragédia. A nova arte deve antes de mais nada psicografar a ruína da alma humana, ela deve prestar testemunho da dor ancestral. Deve ser por excelência o transporte da indiferença, da revolta e do medo que eclodem nesses tempos. Há alguns meses fui a uma exposição, continha telas de um pintor notório em meu estado e me foi muito recomendada, mas quando lá cheguei nada pude ver além de obras vazias, muito técnicas, mas ainda assim, corpos sem alma. Eu fiquei por uma hora na frente da obra mais badalada e confesso, não consegui ouvir suas vozes, era um conjunto mudo, cego, surdo... A tecnocracia enfim vitimou o nosso senso de comunicação com o indizível. Mas então houve um pequeno milagre, alguns dias depois dei-me a conhecer uma pessoa de Portugal que se tornou especial pra mim, um ser humano sem definições, Cristina Henriques. Suas composições falam como dois olhos. Essa Artista desce ao submundo, à caverna mais profunda e retorna com notícias de um país onde todos somos iguais em nossa dor, mesmo ela não gostando devo dizer, é uma “Frida Kahlo das terras geladas”. Pois bem, em breve, no primeiro de maio haverá um evento em Peniche onde ela apresentará uma instalação “Segredo”, da qual à distância tenho o privilégio de acompanhar a gestação. O Cartaz acima é desse evento, “A Rota da Muralha” e a obra será exposta na fortaleza, hoje museu. Espero que vocês possam prestigiar por mim, meus amigos Portugueses. A todos um grande abraço e até a próxima.

"Acima uma vista parcial da fortaleza, local da exposição" 
 

*Leandro M. de Oliveira 
**Abaixo segue o endereço e alguns contatos onde penso ser possível obter informações: 
Campo da República – Peniche 
2520-607 PENICHE
Distrito: Leiria
Concelho: Peniche
Freguesia: São Pedro
Telefone: 262780116
Fax: 262780116

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Vesti la Giubba

Recitar! mentre preso dal delirio,
non so più quel che dico,
e quel che faccio!
eppur è d’uopo, sforzati!
bah! sei tu forse un uom?
tu se’ pagliaccio!

vesti la giubba,
e la faccia infarina.
la gente paga, e rider vuole qua.
e se arlecchin t’invola colombina,
ridi, Pagliaccio, e ognun applaudirà!
tramuta in lazzi lo spasmo ed il pianto
in una smorfia il singhiozzo e ‘l dolor, ah!

ridi, pagliaccio,
sul tuo amore infranto!
ridi del duol, che t’avvelena il cor!

*Ruggero Leoncavallo - Il Pagliacci 1892 (Ato I)

domingo, 29 de março de 2009

O Diabo é um alter ego?

Mefistófeles: “Perdoa se não uso alta e fina linguagem.Às vaias da assistência há muito tenho horror.Minha tara a teus risos dará sempre margem também caso não hajas perdido o teu humor, do sol e das estrelas eu não compreendo, atormentar os homens é só o que entendo”(...)

“De sol e de mundos nada sei dizer, vejo apenas como os homens se atormentam. O pequeno Deus do mundo [o homem] continua na mesma e está tão admirável assim como no primeiro dia. Um pouco melhor ele viveria, não lhe tivesses dado o brilho da luz celeste; ele chama isto razão e lança mão dela somente para ser mais animalesco do que cada animal.”

Fausto: “Sou velho demais para somente me divertir; moço demais, para ser sem desejos. Que pode o mundo bem proporcionar-me? A existência é um fardo.”

*Fotos de John Hancock (Fausto) e Stephen West (Mefistófeles) em "Faustus, the Last Night", texto (fragmentos) do poema "Fausto" de Goethe

sábado, 21 de março de 2009

Arte, verdade atemporal


" O valor essencial da arte está em ela ser o indício da passagem do homem no mundo, o resumo da sua experiência emotiva dele; e, como é pela emoção, e pelo pensamento que a emoção provoca que o homem mais realmente vive na terra, a sua verdadeira experiência, registra-a ele nos faustos das suas emoções e não na crônica do seu pensamento científico, ou na história dos seus regentes e dos seus donos.
Com a ciência buscamos compreender o mundo que habitamos, mas para o utilizarmos; porque o prazer ou ânsia só da compreensão, tendo de ser gerais, levam à metafísica, que é já uma arte.
Deixamos a nossa arte escrita para guia dos vindouros, e encaminhamento plausível das suas emoções. É a arte, e não a história, que é a mestra da vida."

*Fernando Pessoa in Páginas de Estética

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Brava Callas! Brava Maria!

 "Se você ama a música a ponto de servi-la humildemente, o sucesso acontecerá automaticamente” – Maria Callas 

 

Uma voz cortante, poderosa, capaz de levar o ouvinte a abismos de paixão ou de dor lancinante. Maria Callas é a emoção superlativa. Uma diva única, quase força da natureza. Quem viu seus olhos expressivos, a visceral interpretação de suas violetas, rosinas, turandots, lucias e normas jamais voltará a se conformar somente com uma bela voz de soprano. A indomável Callas, geniosa, intempestiva, era regida pelos sentimentos. Em sua pele, nenhum personagem de ópera era ficcional. O sangue fervia, a dramaticidade explodia, puro êxtase. Butterfly era um lamento nunca ouvido, Magdalena a voz da emoção, e Violeta morria de olhos abertos, encarando uma platéia atônita e chocada.

  Ela encantou Pasolini, Zeffirelli e Visconti, emudeceu poderosos e seduziu milhões. Era a Grande Callas, La Divina Callas, sobrenome que nem era seu e que criou fazendo um anagrama com o nome do maior templo da ópera: o teatro Scala, de Milão. Paradoxalmente, essa mulher que fazia de seu canto a expressão máxima de todos os sentimentos humanos, foi desprezada pelo único homem que amou. A crueldade do armador grego Aristóteles Onassis pode ser medida por uma frase proferida quando a voz de Maria já declinava, em que comparava sua poderosa voz a “um apito que você traz na garganta”.

Boa parte da atração que Maria Callas exerce sobre o grande público tem raízes fincadas exatamente em sua biografia, permeada por espetaculares feitos e por escândalos alimentados pela mídia. Veja-se o caso do milionário Onassis. No auge da fama, Maria sofreu tremendo assédio por parte do armador grego, que era casado com Tina. Presentes luxuosos e toda sorte de mimos foram usados por Onassis para convencê-la. Ela capitulou e mergulhou em uma relação atormentada, onde foi submetida a humilhações, como o desprezo de Christina, a filha de Onassis, ou o momento em que teve de depor em um tribunal americano sobre sua participação na separação do casal Onassis. Seu divórcio de Giovanni Battista Meneghini foi explorado à exaustão pelos jornais, suas explosões de fúria ficaram registradas pelos fotógrafos, sua intimidade foi devassada.

O mundo acompanhou a grã sacerdotisa do canto quando ela descobriu amor e sexo aos 36 anos e então desejou deixar de ser deusa e assumir uma vida mais pacata e caseira: “Só desejo um marido, filhos e um cachorro”, declarou.

Aristo - a forma carinhosa com que Maria tratava Onassis na intimidade – coroou sua passagem pela vida de Callas trocando-a por Jacqueline Kennedy quando esta enviuvou do presidente americano. Repetiu com Jacqueline o assédio que havia feito a Maria. O trauma emocional de Callas foi proporcional ao impacto causado pelo novo casal Onassis 

  Outra façanha de Maria refere-se à silhueta. Da soprano gordinha, em poucos meses ela se transformou em uma sílfide e abriu um debate acalorado sobre o impacto do emagrecimento sobre sua voz. Esse episódio é apontado como uma das maiores provas de sua quase legendária persistência, uma força de vontade assombrosa que a atraía como ímã para todos os desafios, tanto na carreira artística como na vida íntima. 

  Mas, além da curiosidade que despertava e dos escândalos que protagonizava, Maria era uma artista fulgurante. Nada em sua biografia se compara ao poder encantatório de sua voz. A gravação da sua mais famosa apresentação da Norma, de Vincenzo Bellini (1801-1835), com a orquestra do Scala, regida pelo maestro Tullio Serafin, é um ícone da história da ópera pela emoção e dramaticidade que emergem da voz de Maria. Norma foi o papel que Callas mais representou: 92 vezes. A ópera toda – mas principalmente a ária Casta Diva – consolidaram sua reputação e sua fama. Curiosamente, a seu amor pelo canto deve-se o resgate de Norma, que habitava um certo limbo, bem como algumas óperas de Rossini, a quem emprestou um sopro de graça e leveza. 

Inspirada pela condução segura de Serafin, Maria fez mais: subverteu as regras até então aceitas no canto lírico e ousou desconstruir a exagerada especialização que se instalara. Os sopranos, em sua época, estavam subdivididos em dramático, mezzo, coloratura, ligeiro e spinto. Ninguém ousava romper a barreira. Maria fez isso, e logo na estréia em Verona, em 1947, aos 24 anos. Contrariando tudo o que até se acreditava, cantou na mesma semana Tristão e Isolda, de Richard Wagner, Turandot, de Giaccomo Puccini, e voltou a Wagner no papel de Brunnhilde. Um verdadeiro feito o de cantar – e simultaneamente - o repertório de vários tipos de soprano. 

Décadas depois, em uma das famosas master classes que Callas deu na Juilliard School of Music em Nova York, em 1971-72, ela sentenciou: "Hoje só se fala em baixo profundo, baixo cantante, barítono-baixo ou soprano ligeiro, soprano spinto, soprano disso, soprano daquilo. A cantora é soprano, e basta! Um instrumentista faz os baixos e agudos. Do mesmo modo, um cantor deve cantar em todas as tessituras". 

Sua interpretação da Tosca, de Giacomo Puccini (1858-1924), também entrou para a história do bel-canto, principalmente na apresentação que fez no Scala sob a regência de Victor de Sabata. Floria Tosca foi representada 39 vezes por Callas, mas nada se compara com a majestosa apresentação de 1953, em que Maria contracena com dois outros cantores respeitáveis: o tenor Di Stefano e o baixo Tito Gobbi. 

Curiosamente, a Tosca ocupou especial lugar em sua vida. Maria - nascida em Manhattan, filha de gregos - estreou na Ópera Nacional de Atenas em 1942 exatamente com a Tosca. E foi com ela que encerrou sua carreira em 1965, em Londres. 

Maria morreu sozinha, em seu apartamento de Paris, em 16 de setembro de 1977, vítima de um infarto. Enquanto o enterro percorria a rua Georges Bizet, centenas de parisienses que choravam saudaram a passagem do esquife com a saudação que emocionava Maria na saída dos teatros: “Brava Callas!, Brava Maria!”. Na primavera de 1979, suas cinzas foram lançadas no Mar Egeu.



segunda-feira, 22 de setembro de 2008

William-Adolphe Bouguereau

A Verdade é que não existe muito o que comentar, a técnica desse artista sempre foi uma grande inspiração pra mim, valho-me então das palavas de Pitágoras:

"para terdes grandes idéias rodeai-vos de belas imagens"

Senhoras e Senhores, apresento-lhes William-Adolphe Bouguereau, um acadêmico sublime.

A Caridade

A Virgem
A Inocência
O Regresso da Primavera
Homero e Seu Guia

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Caravaggio

A Ceia em Emaús - 1600/1601
Michelangelo Merisi da Caravaggio (Milão, 29 de Setembro de 1571 – Porto Ercole, comuna de Monte Argentario, 18 de Julho de 1610) como pintor atuou intensamente em Roma, Nápoles, Malta e Sicília, entre 1593 e 1610. É o primeiro grande expoente Barroco da Europa, gênero que após a sua obra receberia uma outra órbita de importância.
Ainda vivo, Caravaggio era considerado enigmático, fascinante e perigoso. Ele foi um "vanguardista" livre das convenções tanto na arte quanto na vida, era desprendido, corajoso, pronto a romper paradigmas estéticos em suas obras e a transgredir a obediência civil em sua vida privada, mas isso é outra história. O gênio é muito maior que aquele homem instável e tempestuoso que terminou sua vida exilado após cometer um homicídio, além de tantos outros delitos menores. O importante em Caravaggio é a verdade contida nas obras, até então não ha registro de nenhum pintor que possuísse o seu realismo e a maior parte dos especialistas dizem que mesmo após, nenhum outro fez sombra ao impacto de suas composições. No auge do espírito de contra reforma no velho mundo, surge Caravaggio com um ateísmo velado pintando as figuras sacras sem nenhum glamour extra, chegando ao ponto de usar uma prostituta morta como modelo para uma Maria em "A Morte da Virgem"¹, obra que quando entregue foi rejeitada pela ordem que a encomendou após ter sido considerada indecente pela humanidade dos ícones pintados. Um bom exemplo do espírito de Catravaggio está em "A Ceia em Emaús" (acima), quando ele abala retratando um Cristo profundamente anti-espiritual para a visão tradicionalista; Mostrou-o como um jovem de rosto carnudo, sem barba e sem dramaticidade, obtuso frente à decisão daquele momento. Mas por que Jesus não poderia ter esse aspecto? Na verdade Caravaggio age com uma maestria não passional, pois com essa fisionomia despretenciosa de Jesus ele possibilita que o drama pertença ao episódio em si, essa é a sua grande marca, de permitir que o conjunto e não apenas os teoricamente protagonistas componham o quadro de maneira decisiva, todavia, em momento algum ele se desapercebia dos temas centrais. O modo com que focaliza o essencial (ou talvez com que o traz e faz atravessar a barreira invisível da superfície da pintura, levando-o ao espaço do observador) causou uma grande impressão em seus contemporâneos. Ele procedia a narrativa mediante todos os elementos da obra, entre os quais a luz e sombra teêm grande deestaque. Partindo de Jesus a luz irradia-se para fora; a história é contada por meios de efeitos simples que a própria natureza provê, porém, a forma de interpretá-los os tornam colossais. Depois de Caravaggio, outorgou-se um novo patamar ao drama natural, as infinitas variações de luz por exemplo, foram exploradas e podem ser percebidas na obra de quase todo o pintor de expressão surgido posteriormente. Caravaggio, tal como Masaccio e Giotto, foi sem dúvida um pivô histórico-artístico.
 
 
A Morte da Virgem¹ - 1605/1606
Outras obras de marcantes:
São Matheus e o Anjo - 1602
A incredulidade de São Tomé -  1599
Narciso - 1.597
O Sacrifício de Isaac - 1603
Crucificação de São Pedro - 1600/1601