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terça-feira, 24 de novembro de 2009

O mito da igualdade

Em última instância, desde que criemos qualquer coisa, criamos desigualdade: se escrevo um livro terei um sucesso e um renome que o meu vizinho não tem porque ainda não escreveu um livro. Impossível terminar com as desigualdades (...) a nossa perturbação resulta de um exagero contemporâneo sobre o valor da igualdade. Ora Aristóteles - que em matéria moral nunca foi ultrapassado - demonstra na Ética a Nicómaco que se uma exigência (exigence) é forçada ao seu extremo, acaba por ter um efeito perverso. Isto é verdadeiro para qualquer valor: uma liberdade desmensurada acaba na tirania dos mais fortes. E, do mesmo modo, uma igualdade sem proporção provoca uma série de desigualdades.

Podemos observá-lo na Escola: em média há hoje menos crianças de operários nas grandes escolas do que havia nos anos cinquenta. Apesar da constante exigência de igualdade, houve uma regressão! Simplesmente porque hoje é considerado contra-produtivo, e enfim hipócrita, tratar de um modo igual uma criança da burguesia - que tem acesso aos bens culturais, a aulas particulares, etc - e uma criança dos subúrbios. Ao tratar cada caso de forma diferente , reforçamos as desigualdades iniciais.

De outro modo, penso que a ideologia igualitária é tanto mais perniciosa quanto põe em perigo a nossa necessidade de democracia. Porque acredito que há, não apenas um desejo mas uma necessidade de igualdade. É uma necessidade ética: um pobre é igual a um rico em dignidade, um deficiente mental tem-na tanto como um não-deficiente . É preciso que voltemos a Aristóteles: encontrar "o justo meio" (ou a justa medida) entre a igualdade extrema e a extrema desigualdade. Porque esta igualdade preguiçosa que reina hoje sem exceção, não encoraja ninguém a ultrapassar-se a si próprio. A nossa civilização ao perder o sentido do alto e do baixo, está ameaçada por aquilo que, num livro precedente, chamei de "Barbaria interior".
*Jean-François Mattéi

sábado, 24 de outubro de 2009

O novo

Preparar, apontar... Morte ao tirano. Homens fuzilem-no! (1, 2...) Descansar armas. Ascendam a pira funerária ou deixem o corpo aos cães. (1, 2...) E algumas horas mais tarde, histeria coletiva... Saudações ao novo tirano! Ele já esperava pelo desjejum na sala de jantar. Sirvam-lhe carne e sangue se disso é composto o triunfo. Um cai e outro ascende, e esse também enfrenta a derrocada pra que um outro mais astuto venha. (1, 2...) bola da vez, o eterno samsara do concurso mundial de vaidades. Seja rápido! Ou lento o bastante, pra que as sentinelas do caos te acertem no peito.
O problema humano não é político mas, antes de qualquer outro um problema ético. Enquanto não houver um sentido de coerência de ação entre homens nada se fará tão pragmático como a inabilidade das buscas coletivas em produzir algo de bom ou justo. A consciência do senso comum é nascente como espelho da conjuntura em que se vive. Assim, há que se supor que enquanto o aviltamento do ser humano em seu sentido mais elevado for distribuído por meio de teorias, dissimulações e forja daqueles a quem cabe ditar um caminho na tecnocracia do mundo atual, todo o mais que se constrói a sua borda resultará inútil. A escola não ensina, a política não governa, o exército não protege, a TV não informa. As assim ditas redes de manutenção e formação da ordem social constituem só uma forma sofisticada do velho desejo de manter o homem médio anestesiado. Aquele homem bate mais uma vez à sua porta, vez em quando a capa do sacerdote, do candidato, do capitão, do professor ou do jornalista, vez em sempre o desejo frenético de te manter suficientemente submisso. Nada de novo pode ser produzido sem que o mestre ordene, isso seria uma subversão perigosa. Então, a busca de um progresso inclusivo ofusca os olhos de teu amo. Morra como um cão! Ou vomite seu ressentimento na cara desses guias cegos. Eles te fizeram refém por muito tempo, é hora de acordar. O sol brilha lá fora, que ninguém nos cobre mais por esses raios. Expurgue de uma vez o seu medo e a sua escravidão, já é hora de tentar algo novo. E até que esse algo inédito apareça, nenhum comunismo, nenhum paganismo, nenhum filosofar profundo... Nada será capaz de restituir ao homem aquilo que desde sempre lhe sentiu usurpado. É preciso mergulhar mais fundo, vasculhar escombros, caminhar no subterrâneo de si próprio. Vá agora àquele quarto desabitado, acorde sua alma, chame-a pra dançar. Contemple em silêncio, comemore aos berros. És o soberano de teu próprio ser! Respire fundo, avance a passos confiantes. Siga até a fenda aberta entre o animal e o algo superior, costure-a com os dentes, reequilibre as partes. Una em si tudo o que é mundo disse impossível. Cuspa nos arremedos da vida, tenha a versão original. Um novo livro foi lançado, uma nova ideologia criada. Livros são suportes de palavras que são suportes de elevação a quem sabe usá-las. Ideologias são suportes de idéias que são suportes dos mais hábeis demagogos. Uma crença é semelhante a um instrumento de corte nas mãos de um homem, se ele é um cirurgião procurará curar com sua cirurgia, se é um açougueiro, maquinalmente decepará as partes que estiverem à sua frente. A questão fundamental esta ligada àquilo em que cada um se propõe. Posso ser um socialista que não divide, ou um capitalista que crê no altruísmo. Um homem-bomba que detona bombas de confete, um judeu que crê na humanidade como povo escolhido. E é isso que sou e é isso que podemos ser, habita em mim essa contradição vacilante. Um homem sem bandeira, credo ou partido. Que o vento seja gentil, que nossas velas inflem rumo ao desconhecido. E que nesse nos reconheçamos como criaturas livres. A noite passou como um vulto, enfim vem se aproximando a aurora. É hora de partir, é hora de ficar, é tempo de transcender.
*Leandro M. de Oliveira

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Felicidade: A morte e o absurdo (Simbolismo e Valor)

Os filósofos antigos tiveram muito a dizer sobre a felicidade. Supunham que "a melhor vida" e "a vida feliz" eram a mesma coisa, e geralmente aceitavam que a felicidade consistia numa vida de razão e virtude. Epicuro (341-270 a. C.) recomendou uma vida simples, de modo a evitar-se sofrimentos e ansiedades. Os estóicos acrescentaram que um homem sábio não permitiria que a sua felicidade dependesse de coisas que estivessem fora do seu controlo, como a riqueza, a saúde, a boa aparência ou as opiniões dos outros. Não podemos controlar as circunstâncias externas, disseram, pelo que devemos ser indiferentes as essas coisas, aceitando-as como aparecem. Epicteto (c. 55-135), um dos grandes professores estóicos, deu este conselho aos seus estudantes: "Não peçam que as coisas ocorram segundo a vossa vontade; façam que a vossa vontade seja que as coisas ocorram como ocorrem de fato, e terão paz".
Algumas destas idéias podem parecer questionáveis, mas uma parte notável delas tem sido confirmada pela investigação psicológica moderna. Consideremos, por exemplo, a idéia de que a riqueza não traz felicidade. Dado que a maior parte das pessoas quer ser rica, poderíamos pensar que há alguma correlação entre a riqueza e a felicidade. Mas não há. Quando Ronald Inglehardt, cientista político da Universidade de Michigan, comparou os níveis de riqueza de países diferentes com aquilo que as pessoas desses países dizem sobre a sua satisfação com a sua vida, descobriu que as pessoas dos países mais ricos não são mais felizes do que as dos países mais pobres. Por vezes acontece o oposto: os alemães ocidentais têm o dobro da riqueza dos irlandeses, mas os irlandeses são mais felizes. Dentro de países particulares, encontrou a mesma ausência de correlação: as pessoas que têm mais dinheiro não são mais felizes do que as outras. Portanto, ser rico não importa. As pessoas afetadas pela pobreza tendem a ser menos felizes do que aqueles que possuem o suficiente para viver, mas, para quem está acima da linha de pobreza, o dinheiro adicional faz pouca diferença. O psicólogo David Myers observa que "Quando se ultrapassa a pobreza, o crescimento econômico suplementar não melhora significativamente o ânimo dos seres humanos".
Os estudos sobre vencedores de lotarias confirmam isto de forma notável. Como é óbvio, os vencedores de loterias ficam extremamente felizes quando sabem das boas notícias e a euforia tende a durar alguns dias. Mas, passado pouco tempo, regressam ao seu nível normal de felicidade. No essencial, as pessoas amuadas voltar a ficar amuadas. Podem ser capazes de deixar o emprego e de comprar muitas coisas, mas, no que respeita ao seu nível de felicidade, a riqueza recentemente adquirida não faz diferença.
Surpreendentemente, pode-se dizer algo semelhante das pessoas que sofrem desastres. Para as pessoas que são essencialmente felizes, uma calamidade — mesmo que tenha efeitos a longo prazo — pode causar uma descida momentânea de felicidade, mas elas recuperaram depressa. Um estudo incidiu em vítimas de acidentes de automóvel de Michigan que tinham sofrido danos na coluna. Três semanas depois, a felicidade prevalecia novamente entre elas (ou pelo menos foi isso que disseram). Um estudo da Universidade de Illinois descobriu que os estudantes sem deficiências e os estudantes deficientes se descreviam em termos virtualmente idênticos: felizes durante 49 por cento do tempo, infelizes durante 22 por cento do tempo e neutros em 29 por centro do tempo. Os estudos sobre pacientes com cancro também não mostraram diferenças de longo prazo entre os seus estados emocionais anteriores e posteriores ao diagnóstico.
Então o que tornará as pessoas felizes? Se não é a riqueza ou a saúde, o que será? Os estudos indicam que a felicidade está correlacionada com várias coisas. Uma delas é o controlo pessoal — ter controlo sobre a própria vida e destino, ou pelo menos acreditar que se tem esse controlo. (Curiosamente, as pessoas que vivem em países democráticos com imprensa livre declaram-se mais felizes do que aquelas que vivem noutros países. Entenda isto como quiser.) Ter boas relações com outras pessoas, especialmente com os amigos e familiares, também é vital. Um trabalho compensador é um terceiro elemento de uma vida feliz: as pessoas que sentem estar a fazer algo com valor declaram-se mais felizes do que as pessoas que não se ocupam de tarefas com sentido.
Num certo sentido, a felicidade sustenta-se a si própria, já que as pessoas felizes tendem a comportar-se de formas que as mantêm felizes. Têm melhor opinião das outras pessoas e são menos cínicas. Por isso, fazem amizades com mais facilidade. As pessoas felizes são mais otimistas: quando se lhes coloca questões específicas sobre como estão a correr as coisas, têm uma maior tendência para pensar que os seus automóveis e televisões estão a funcionar bem. Têm também uma maior tendência para preferir recompensas de longo prazo a satisfações imediatas, e ganham com isso, já que essa geralmente é uma boa estratégia.
Podemos pensar então que, para sermos felizes, precisamos controlar a nossa vida, fazer amigos e procurar trabalho que tenha sentido. Isto pode ser verdade, mas há um problema. Paradoxalmente, se valorizarmos estas coisas apenas enquanto meio para a felicidade, elas não nos farão felizes. Não podemos procurar a felicidade diretamente. Em vez disso, temos de valorizar os amigos e o trabalho por si. A felicidade será então um efeito colateral bem-vindo. John Stuart Mill declarou ter aprendido esta lição com a sua depressão. Depois de ter recuperado, Mill compreendeu o seguinte:
Só são felizes (pensei) aqueles que fixam a sua mente num objeto que não a sua própria felicidade, como a felicidade dos outros, o aperfeiçoamento da humanidade ou mesmo alguma arte ou atividade, procurando-o não como meio, mas como fim ideal em si. Tendo outra coisa em vista, encontram a felicidade pelo caminho. […] Pergunte a si próprio se é feliz e deixará de o ser. A única hipótese é tratar, não a felicidade, mas outro fim que lhe seja exterior, como propósito da vida.

Morte

A idéia de que, num sentido mais amplo, mesmo uma vida feliz é absurda costuma ser apoiada por duas idéias. Uma delas é que vamos morrer inevitavelmente; a outra é que o universo nos é indiferente. Examinemos separadamente estas idéias.

Que atitude deveremos ter em relação à nossa mortalidade? Obviamente, isso depende do que julgamos que acontece quando morremos. Algumas pessoas acreditam que irão viver para sempre no paraíso. A morte, portanto, é como mudar para uma casa melhor. Se acreditamos nisto, devemos pensar que a morte é boa, pois ficaremos melhor depois de morrermos. Aparentemente, Sócrates tinha esta atitude, mas a maior parte das pessoas não a tem.
A morte pode ser, pelo contrário, o fim permanente da nossa existência. Se assim for, a nossa consciência extinguir-se-á e será o nosso fim. É importante compreender o que isto significa. Algumas pessoas parecem presumir que a inexistência é uma condição misteriosa, difícil de imaginar. Perguntam "Como será estar morto?" e ficam perplexas. Mas isto é um erro. A razão pela qual não conseguimos imaginar como é estar morto é o fato de estar morto ser como nada. Não conseguimos imaginar porque nada há para imaginar.
Se a morte é o fim da nossa existência, que atitude devemos ter relativamente a isso? A maior parte das pessoas pensa que a morte é uma perspectiva terrível. Odiamos a idéia de morrer e estamos dispostos a fazer quase tudo para prolongar a nossa vida. Porém, Epicuro disse que não devemos recear a morte. Numa carta a um dos seus seguidores, defendeu que "A morte nada é para nós", já que quando estivermos mortos não existiremos e, não existindo, nada de mal poderá acontecer-nos. Não estaremos infelizes, não sofreremos (não sentiremos medo, preocupações ou aborrecimentos) e não teremos desejos nem remorsos. Logo, concluiu Epicuro, a pessoa sábia não receará a morte. Epicuro acreditava que, ao eliminar o medo da morte, estas reflexões filosóficas podiam contribuir positivamente para a nossa felicidade durante a vida.
Há alguma verdade nisto. Ainda assim, esta perspectiva ignora a possibilidade de a morte ser má por constituir uma privação enorme — se a nossa vida pudesse continuar, poderíamos desfrutar de todos os gêneros de coisas boas. Deste modo, a morte é um mal porque põe fim às coisas boas da vida. Isto parece-me correto. Depois de eu morrer, a história humana prosseguirá, mas não conseguirei fazer parte dela. Não verei mais filmes, não lerei mais livros e não farei mais amigos nem mais viagens. Se eu morrer antes da minha mulher, não conseguirei estar com ela. Não irei conhecer os meus bisnetos. Surgirão novas invenções e far-se-ão novas descobertas sobre a natureza do universo, mas nunca irei conhecê-las. Será composta nova música, mas não irei ouvi-la. Talvez venhamos a estabelecer contacto com seres inteligentes de outros mundos, mas não saberei disso. É por esta razão que não quero morrer e que o argumento de Epicuro é irrelevante.
Mas será que o fato de ir morrer torna a minha vida absurda? Afinal, diz-se, o que interessa trabalhar, fazer amigos e constituir uma família se acabaremos por deixar de existir? Esta idéia tem uma certa ressonância emocional, mas envolve um erro fundamental. Temos de distinguir o valor de uma coisa da sua duração. Estas são questões diferentes. Uma coisa pode ser boa enquanto dura, mesmo que não vá durar para sempre. Enquanto controlaram o Afeganistão, os talibã destruíram diversos monumentos antigos. Isso foi uma tragédia porque esses monumentos eram maravilhosos, e o fato de serem vulneráveis não os tornava menos valiosos. Também uma vida humana pode ser maravilhosa, mesmo que tenha de terminar inevitavelmente. Pelo menos, o simples fato de que vai terminar não anula o valor que tenha.

*James Rachels

Clonagem humana, um ponto de vista

Atendendo a pedidos venho postar esse pequeno texto do português Alexei Buruian, ele trata talvez da maior dicussão médico-ética de nosso ponto, a clonagem humana. Esclareço que não expressa a minha convicção integral sobre o assunto, todavia, julguei consistente o bastante para início de uma discussão mais larga a qual pretendo iniciar com novos posts. Espero que gostem. Abraços a todos.

Att,
Leandro M. de Oliveira

"Será a clonagem humana moralmente aceitável?

Há duas possíveis aplicações para a clonagem humana: a clonagem terapêutica, que não vou abordar neste ensaio, e a clonagem reprodutiva. Este tipo de clonagem visa a criação de indivíduos geneticamente iguais a um organismo já existente, através do processo de transferência nuclear. Este processo consiste em introduzir um núcleo dador num ovócito anucleado, implantar a nova célula obtida num útero e esperar pelo desenvolvimento do feto.

Importa chegar a um consenso acerca da moralidade da clonagem. Enquanto não o fizermos, poderemos estar injustificadamente a privar as pessoas de gozarem de um novo meio de reprodução.

Irei defender que, dado o deficiente estado de aperfeiçoamento da técnica da clonagem, não é moralmente aceitável recorrer à clonagem reprodutiva humana.

São diversos os argumentos contra a clonagem: o argumento das relações familiares, o argumento da identidade, o do apelo à natureza e outros. Contudo, não são estes argumentos que influenciaram a minha opinião acerca deste assunto. Objeções fortes, como as de que a família tradicional não é o único modelo aceitável de relações familiares; a objeção de que a identidade de uma pessoa não depende apenas do seu DNA; e a objeção de que o apelo à natureza se baseia numa definição imprecisa daquilo que a natureza é, de que modo a clonagem se lhe opõe e por que é errado fazer coisas antinaturais, levaram-me a não ter em consideração estes argumentos.

Mas há outras razões talvez mais fortes contra a clonagem. Em primeiro lugar, há o perigo de eugenia, ou seja, a seleção de indivíduos com genes mais favoráveis ao desenvolvimento da nossa raça. As pessoas poderiam recorrer à clonagem para tentar ultrapassar a sua longevidade, através da perpetuação do seu ADN; criar grupos de pessoas geneticamente iguais, para desempenharem uma determinada função (por exemplo, clonar pessoas altas, para que estas constituíssem uma equipe homogênea de basquetebol) ou até clonar celebridades para que os filhos (os clones) herdassem o talento deles. Em todos estes casos, haveria também uma forte expectativa para que o clone sirva o objetivo para o qual foi criado. Desta maneira o clone seria instrumentalizado, seria usado como um meio e não como um fim em si, o que constituiria um atentado à sua dignidade.

No entanto, estes argumentos talvez sejam exagerados, já que não há uma ligação necessária entre a clonagem e a eugenia e pode-se alegar que não é pelo fato de o clone ter sido criado com um objetivo que este perderá a sua dignidade (muitos pais também têm objetivos pessoais para os seus filhos e isso não leva a que estes percam a sua dignidade como seres humanos). O clone seria uma pessoa autônoma, pois teria sempre o direito de fazer as suas próprias escolhas na vida, como um ser humano comum.

O argumento mais forte contra a clonagem acaba por ser o de que a própria taxa de sucesso da clonagem é muito baixa. O nascimento da ovelha Dolly, por exemplo, foi o resultado de 276 clonagens fracassadas, e há indícios de que os clones criados com a tecnologia atual poderão nascer defeituosos e ter uma esperança de vida bastante inferior a media. Afinal Dolly morreu com apenas 6 anos de idade, quando o normal seria cerca de 12 anos. Na minha opinião, estes elevados custos humanos são inaceitáveis.

Contudo, como qualquer outra tecnologia, também a clonagem pode evoluir e há sempre a possibilidade de esta chegar a ter um sucesso semelhante ao da reprodução tradicional e, neste caso, o argumento seria anulado.

Os principais argumentos a favor da clonagem, invocam o valor prático que esta poderá ter. A clonagem permitiria aos casais inférteis ou homossexuais a possibilidade de obterem filhos geneticamente relacionados com pelo menos um dos progenitores. Aliás, um direito que muitos seres humanos reclamam é o da sua autonomia reprodutiva, pelo que proibir a clonagem com fins reprodutivos iria também pôr em causa esse direito. Além disso, a clonagem reprodutiva também poderia ajudar na investigação científica e filosófica relacionada com o ser humano. Por exemplo, poderia melhorar a nossa compreensão das doenças genéticas e ajudaria a responder a perguntas como «De onde provém o talento de uma pessoa? Será algo com que a pessoa já nasce ou será algo adquirido durante a sua vida?».

Contudo, acho que o argumento da baixa taxa de sucesso da clonagem é suficientemente forte para que, pelo menos, se limite esse direito. Afinal, nascer uma criança em quase 300 tentativas, com a possibilidade de ter graves doenças congênitas, só por si já constitui um grande obstáculo, tanto à obtenção de um filho como à pesquisa científica.

Concluindo, atualmente a clonagem ainda não está suficientemente bem desenvolvida para que seja aplicada aos seres humanos, pelo que estou contra. Contudo, terei de rever a minha posição caso algum dia a clonagem prove ser um método tecnicamente fiável."

*Alexei Buruian